
Neste 7 de Setembro, documentos da própria Igreja, edições da Revista Adventista, registros oficiais e pesquisas acadêmicas revelam uma denominação que exaltou sua “atitude amiga” com militares e parlamentares, recebeu benefícios e abriu suas instituições ao poder; décadas depois, episódios envolvendo Lula e candidatos do PT recolocam diante da IASD a pergunta que ela própria criou ao proclamar separação entre Igreja e Estado: afinal, para que lado deve volver uma igreja que garante não ter lado?
A data patriótica relembra uma expressão repetida há décadas por crianças, adolescentes e líderes adventistas, que oferece uma síntese involuntária de parte da história política da própria denominação: “Direita, volver! Esquerda, volver!”
No Clube de Desbravadores, o comando pertence à Ordem Unida. Não é improvisação nem atividade periférica. A página oficial do Ministério dos Desbravadores afirma que um clube saudável é sustentado por pilares que incluem expressamente Ordem Unida e civismo, ao lado das classes, especialidades, atividades espirituais, comunitárias e campestres, advertindo que nenhum desses pilares deve ser negligenciado.
O Manual Administrativo explica que Ordem Unida e civismo servem para desenvolver três princípios no caráter do juvenil — “ordem, disciplina e união” — e prevê que os Desbravadores sejam preparados para se apresentar organizadamente em desfiles cívicos e diante de autoridades.
Nem mesmo na formação dos líderes isso é secundário. Os requisitos oficiais determinam que o candidato à liderança saiba planejar e conduzir um desfile cívico, coordenar o hasteamento das bandeiras, comandar uma demonstração de Ordem Unida e ensinar a especialidade correspondente. O vocabulário é conhecido por quem passou pelo clube: sentido, descansar, ordinário marche, meia-volta, esquerda volver, direita volver. É justamente por isso que os Desbravadores não podem desaparecer deste artigo. Eles fazem parte da história que estamos examinando, fazem parte do título e fazem parte da imagem de capa. O que começou como um comando corporal no pátio transforma-se aqui numa metáfora política quase perfeita: quando muda a direção indicada pelo poder, com que rapidez a instituição consegue volver sem abandonar o discurso de que permanece parada no mesmo lugar?
ORDEM UNIDA NÃO É ENFEITE: ELA É ENSINADA, COBRADA E AVALIADA
A prática continua viva e mensurável. Em novembro de 2025, no Campori Gaúcho “Herdeiros”, os 208 clubes participantes apresentaram evoluções de Ordem Unida diante de instrutores que avaliaram o desempenho de cada grupo. A própria Agência Adventista explicou que se trata de um conjunto de comandos e movimentos em marcha realizado por grupos, tropas, pelotões ou bandas marciais, fazendo a ressalva institucional de que, dentro do Clube de Desbravadores, a atividade não teria caráter militar, mas objetivos relacionados a disciplina, autocontrole, organização e trabalho em equipe. A ressalva é a explicação oficial da Igreja; o fato permanece: existem comandos, marcha, formação, instrutores e avaliação de desempenho.
Em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, a prática apareceu novamente em 31 de maio de 2026, na primeira fase do Concurso MDA, que reuniu cerca de 500 aventureiros, desbravadores, líderes e familiares de 24 clubes da região Central Leste da Igreja Adventista no Estado. Entre as provas destinadas aos Desbravadores estavam conhecimento bíblico, oratória, cena avaliada, Ordem Unida e fanfarra. Não estamos, portanto, buscando nos anos 1970 alguma curiosidade desaparecida do adventismo brasileiro. A Ordem Unida continua sendo uma competência ensinada, apresentada e avaliada dentro da estrutura denominacional em pleno 2026.
E a ligação concreta com os militares não ficou apenas na semelhança dos comandos. Em setembro de 2017, o primeiro Festival de Ordem Unida realizado em Joinville reuniu dez clubes adventistas e colocou como avaliadores oficiais do 62º Batalhão de Infantaria do Exército Brasileiro. A banda do próprio batalhão participou da programação e executou, entre outras músicas, o Hino dos Desbravadores. A Agência Adventista noticiou o episódio com entusiasmo. Isso não transforma automaticamente os Desbravadores numa organização militar; mostra algo mais simples e documentalmente indiscutível: a cultura denominacional de Ordem Unida dialoga tão naturalmente com o ambiente militar que oficiais do Exército já foram chamados para julgar a qualidade de sua execução.
7 DE SETEMBRO DE 1976: “SOMOS UM BRASIL QUE VAI PRA FRENTE”
A ligação entre Desbravadores, civismo e o Brasil governado pelos militares aparece de maneira ainda mais expressiva quando voltamos a 1976. A própria Revista Adventista publicou a matéria “Patriotismo Adventista Encanta Uberlândia”. Aproximadamente cem jovens e juvenis adventistas, rigorosamente uniformizados, participaram do desfile de 7 de Setembro diante de cerca de 40 mil pessoas.
Segundo o relato reproduzido da revista, a Igreja Adventista foi a única organização religiosa a se apresentar naquele desfile. Na frente, quarenta Desbravadores uniformizados conduziam o escudo do clube e uma enorme faixa com o slogan “Somos um Brasil que vai pra frente”. Outros letreiros proclamavam “Amamos a Deus”, “Não Fumamos”, “Não Bebemos”, “Não Usamos Tóxico” e “Amamos a Pátria”.
Não é necessário acrescentar palavras às fontes. Enquanto a membresia recebia a doutrina da distância em relação à política, jovens adventistas uniformizados marchavam em pleno 7 de Setembro dentro de uma celebração oficial, carregando um dos slogans emblemáticos daquele Brasil.
A imagem é especialmente importante porque antecipa o problema deste artigo: a instituição podia ensinar que sua missão não era política e, simultaneamente, inserir sua juventude na liturgia cívica do poder vigente. Mais tarde, a mesma organização continuaria dizendo que Igreja e Estado devem permanecer separados.
1983: 400 DESBRAVADORES CONVIDADOS PELO COMANDO MILITAR
Em 1983, já nos últimos anos dos governos militares, cerca de 400 Desbravadores paulistas participaram do desfile oficial de 7 de Setembro em São Paulo. O dado está preservado pela própria historiografia da Associação Paulista Leste. Eles haviam sido convidados pelo comando militar responsável pelas comemorações da Semana da Pátria.
Os clubes desfilaram diante do palanque das autoridades civis e militares enquanto o locutor oficial apresentava o movimento ao público e destacava o seu “alto senso de civismo”. A fotografia do evento também foi preservada pela Revista Adventista.
Temos, portanto, uma linha suficientemente longa para que os Desbravadores permaneçam no centro desta história: Uberlândia em 1976; São Paulo em 1983; Exército avaliando Ordem Unida em 2017; 208 clubes sendo avaliados no Campori Gaúcho em 2025; e Ordem Unida novamente como prova de competição em Campo Grande em 2026. Não estamos usando “direita, volver; esquerda, volver” apenas porque rende um bom título. A expressão nasce de uma prática institucional concreta, valorizada por décadas, e encontra na história política adventista uma segunda vida inesperada.
MAS QUEM PROMETE APARTIDARISMO É A IASD
A régua desta investigação não foi criada pelo Adventistas.Com. Em 6 de maio de 2026, a Divisão Sul-Americana publicou sua posição oficial atualizada sobre política. O documento afirma que um dos princípios fundamentais que orientam a denominação é a separação entre Igreja e Estado e que a Igreja deve manter postura sem filiação partidária ou compromisso com partidos.
No mesmo texto, porém, a organização declara estar determinada a desenvolver “relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder”. É exatamente dentro do espaço existente entre essas duas declarações — separação de um lado, relacionamento com o poder do outro — que cabe investigar a história.
O problema não é um adventista votar, exercer cidadania ou conversar com uma autoridade. O problema começa quando o discurso destinado à membresia constrói uma imagem de distância política enquanto a administração desenvolve, ao longo das décadas, relações capazes de gerar acesso, simpatia, influência, recursos, terrenos, concessões, presença em solenidades e interlocução parlamentar.
Quanto mais rigorosamente a denominação reivindica apartidarismo, mais legítimo se torna perguntar onde termina o “relacionamento saudável” e onde começa a aproximação política que ela própria recomenda aos fiéis evitar.
UMA PESQUISA ACADÊMICA ENTRA NO ARQUIVO ADVENTISTA
É nesse ponto que o estudo de Sandoval José dos Santos, Discursos e práticas da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Pernambuco durante o Regime Civil-Militar Brasileiro (1964-1985), torna-se especialmente valioso. O pesquisador observou que, enquanto batistas, presbiterianos e católicos já haviam recebido considerável atenção da historiografia sobre o período, a atuação adventista permanecia pouco examinada.
Sua proposta foi cruzar literatura denominacional, Revista Adventista, memória de pastores, arquivos policiais, Comissão da Verdade e documentos do projeto Brasil: Nunca Mais, procurando identificar se o comportamento denominacional correspondia a apoio, resistência ou neutralidade.
O resultado preliminar é incômodo para a narrativa simplificada de neutralidade. Sandoval registra que a Igreja ensinava oficialmente não ser contra nem favorável a partidos e regimes, mas conclui que, na prática, “a igreja Adventista tem demonstrado uma posição mais de apoio do que de resistência”.
O trabalho também recorre a Haller Schünemann para afirmar que foi justamente durante os governos militares que a IASD alcançou uma de suas maiores aproximações com o Estado brasileiro: a Igreja precisava defender interesses relacionados à liberdade religiosa e à observância sabática, enquanto o governo encontrava nos grupos evangélicos interlocutores num período de crescente tensão com setores da Igreja Católica.
1964: DINHEIRO, PROJETOS E UMA IGREJA QUE PRECISAVA DO ESTADO
O mesmo estudo chama atenção para uma informação publicada na Revista Adventista de julho de 1964, apenas alguns meses depois dos acontecimentos de abril.
O artigo de Moisés S. Sigri, então secretário-geral da Igreja Adventista na América do Sul, é citado por Sandoval no contexto de doações que chegavam a milhões de cruzeiros mensais destinadas ao financiamento de projetos sociais adventistas. O pesquisador considera a proximidade temporal relevante para compreender a visão denominacional sobre o novo ambiente político.
Isso ajuda a retirar a discussão do terreno abstrato. A relação com o poder tinha consequências concretas: educação, hospitais, projetos assistenciais, liberdade sabática, expansão territorial e posteriormente concessões de comunicação.
Uma denominação internacional que crescia rapidamente precisava dialogar com ministérios, governadores, prefeitos, deputados, senadores e órgãos federais. A questão que surge não é se essa interlocução existia — os documentos mostram que existia —, mas como ela convivia com o discurso espiritual de afastamento da política que chegava ao membro comum.
1971: “ATITUDE AMIGA ENTRE MILITARES, SENADORES, DEPUTADOS ETC.”
A própria denominação deixou uma expressão quase perfeita para definir aquele relacionamento. O pesquisador Moizés Sabóia da Silva, em dissertação de mestrado defendida na Universidade Federal de Alagoas sobre política e comemorações na Revista Adventista entre 1972 e 1978, recuperou um texto de Antônio A. Nepomuceno, do Departamento de Assuntos Cívico-Religiosos, publicado em abril de 1971.
Ao examinar as relações construídas pela administração denominacional, o pesquisador registra que a Igreja chamava aqueles vínculos de “atitude amiga entre militares, senadores, deputados etc.”. A citação original é da própria Revista Adventista, ano 66, número 4, abril de 1971, página 37.
A dissertação conclui que dirigentes adventistas construíram diálogos, encontros e solenidades destinados a obter benefícios para projetos evangelísticos, incluindo benesses financeiras e simpatia política, recorrendo também a parlamentares cristãos, adventistas ou seculares para ocupar espaços no Congresso e favorecer interesses denominacionais. Não é uma descrição nossa projetada retrospectivamente sobre fotografias antigas; é a conclusão de uma pesquisa de pós-graduação baseada precisamente no principal periódico oficial da IASD daquele período.
1972: O CORAL ADVENTISTA CANTA DIANTE DE MÉDICI
Em 6 de setembro de 1972, véspera da Independência, o Coral Carlos Gomes, do Instituto Adventista de Ensino, participou das celebrações do sesquicentenário diante do Monumento do Ipiranga, em São Paulo. A fotografia apareceu na capa da Revista Adventista de dezembro daquele ano. Estavam na solenidade o presidente Emílio Garrastazu Médici, o vice-presidente Augusto Rademaker, o governador Laudo Natel, o primeiro-ministro português Marcello Caetano e outras personalidades. Segundo a dissertação da UFAL, a administração adventista buscava ocupar espaços nesses encontros com lideranças políticas, militares e civis, fazendo-se visível e construindo uma imagem positiva diante dos dirigentes do país.
É impossível não observar a simetria que surgirá três décadas depois. Em 1972, um coral adventista participa de uma solenidade diante do presidente-general. Em 2004, outro coral adventista aparecerá dentro do Palácio do Planalto numa cerimônia com Lula. Mudam os ocupantes, muda a ideologia predominante, muda a decoração do poder; a capacidade adventista de aproximar música, relações públicas e autoridade política permanece surpreendentemente familiar.
MANAUS 72: DEUS, IGREJA, PÁTRIA E RELAÇÕES PÚBLICAS
O grande encontro juvenil conhecido como “Manaus 72” levou essa aproximação para dentro de uma programação adventista. O material recuperado da Revista Adventista descreveu explicitamente um trabalho de relações públicas envolvendo coral e quarteto, palestras de autoridades e uma “Hora da Pátria”. Entre os participantes esteve o coronel Floriano Pacheco, ligado à Zona Franca de Manaus, além de representantes do planejamento governamental.
Personalidades nacionais recebiam homenagens durante a programação, e uma delas foi o próprio presidente Médici. Jovens eram convocados à lealdade a Deus, à Igreja e à Pátria. A mesma denominação que ensinava aos membros que sua missão fundamental transcendia a política demonstrava enorme competência para apresentar-se ao poder como instituição ordeira, patriótica e útil.
A ARENA TAMBÉM TINHA SEUS ADVENTISTAS
Em outubro de 1976, a Revista Adventista publicou a entrevista “Irmãos Losso: parlamentares adventistas”. Igo Want Losso, Ezequias Losso e o pai, Luiz Losso, haviam exercido mandatos políticos e eram ligados à ARENA. A pesquisa da UFAL registra que os editores deram tratamento positivo aos parlamentares e chegaram a apresentá-los como “fortes divulgadores da Igreja entre as autoridades no Congresso”. Igo Losso, que era ancião da Igreja de Brasília, falou de missões confiadas pela própria Igreja e mencionou visitas realizadas, juntamente com outros anciãos, a “pessoas ilustres”.
O parlamentar atuou ainda em defesa de interesses diretamente adventistas, como legislação relacionada à observância do sábado nas instituições de ensino. Mais uma vez, o ponto não é questionar o direito de um adventista exercer mandato. O que importa é observar que, quando o político se tornava útil à expansão e às necessidades da organização, sua atuação partidária deixava de ser apenas assunto privado e passava a receber destaque favorável nas páginas do principal periódico denominacional. O apartidarismo tinha fronteiras curiosamente flexíveis quando o deputado adventista funcionava como ponte entre a Igreja e Brasília.
“BONS AMIGOS PARCEIROS”: R$ 600 MIL PARA O EDESSA
A investigação acadêmica encontrou outro quadro extraordinário na Revista Adventista de outubro de 1975. O deputado federal Gerson Camata, então filiado à ARENA, aparece ao lado do pastor José Bellesi Filho numa matéria intitulada “Verba para o EDESSA”. O assunto era um repasse do Ministério da Educação no valor de 600 mil cruzeiros para a instituição adventista.
Segundo a revista, Camata havia se empenhado para conseguir a verba. O pesquisador descreve a fotografia como transmitindo a naturalidade de “bons amigos parceiros” e conclui que a proximidade com militares, deputados, senadores, governadores e prefeitos era considerada importante para o crescimento institucional da Igreja.
O contraste registrado na própria dissertação é ainda mais incisivo: enquanto dirigentes cultivavam cuidadosamente essas relações, nos templos os pastores ensinavam aos fiéis afastamento da política, apresentando as “coisas do mundo” como passageiras. A administração trabalhava de modo prudente e estratégico junto aos representantes públicos; a base recebia outro tipo de pedagogia. É justamente essa assimetria que chamamos de camaleonismo: não uma mudança doutrinária declarada, mas a capacidade de adaptar a prática institucional enquanto a linguagem destinada aos membros permanece formalmente estável.
FUNRURAL, INCRA, HOSPITAIS E EXPANSÃO
Outros registros ampliam o quadro. Durante a década de 1970, estruturas adventistas celebraram convênios ligados à assistência médica e social, inclusive mediante o FUNRURAL; a expansão na região da Transamazônica também envolveu negociações com o INCRA para obtenção de grandes áreas destinadas a projetos educacionais e agroindustriais. O que emerge não é uma Igreja escondida dos poderes constituídos, mas uma organização perfeitamente capaz de navegar pelos corredores administrativos necessários à sua expansão.
Em Campo Grande, o Hospital Adventista do Pênfigo e a própria Igreja também seriam homenageados, em 1978, em contexto envolvendo o Ministério do Interior e a FUNAI pelo trabalho desenvolvido com indígenas. O mérito assistencial desses projetos não é colocado em dúvida por esta investigação. O que importa é reconhecer que o discurso tradicional de separação entre Igreja e Estado conviveu, na prática, com cooperação extensa, reconhecimento público e articulações que interessavam tanto às instituições religiosas quanto às autoridades.
JOÃO BAPTISTA CLAYTON ROSSI: ADVENTISMO COM TRÂNSITO NO PLANALTO
João Baptista Clayton Rossi acrescenta outra peça ao mosaico. Adventista, procurador da República e ancião da Igreja Central de Brasília, Rossi aparece repetidamente no trânsito entre estrutura denominacional e Estado. Registros adventistas associam sua atuação à defesa de interesses institucionais e a contatos políticos de alto nível.
Em novembro de 1979, participou de uma visita de dirigentes adventistas ao presidente João Baptista Figueiredo no Palácio do Planalto. Ele também recebeu a Medalha do Pacificador e outras distinções vinculadas às Forças Armadas. Assim, quando a documentação fala em “atitude amiga” com militares, senadores e deputados, não está descrevendo uma abstração; há nomes, encontros, medalhas, audiências e resultados concretos.
ERWIN LOESCHNER: O COMUNISTA QUE A IGREJA PÔS PARA FORA
É nesse cenário que Erwin Loeschner, de Blumenau, SC, se transforma numa das personagens mais reveladoras desta investigação. O estudo de Sandoval José dos Santos recorre aos documentos do projeto Brasil: Nunca Mais e encontra Loeschner num Termo de Inquérito de Testemunha realizado em quartel de Regimento de Infantaria. Ali, ele é apresentado como “o elemento mais perigoso dos comunistas locais”.
A documentação examinada pelo pesquisador registra também que Loeschner havia sido expulso da Igreja Adventista. Não estamos falando, portanto, de um fiel qualquer que um adversário político decidiu chamar genericamente de esquerdista, mas de um personagem tratado pelos próprios documentos de investigação como figura relevante do comunismo de Blumenau e que já se encontrava fora da comunhão adventista por expulsão.
O material chega a registrar que o filho que o acompanhava era descrito como “comunista desde berço”, expressão que revela a intensidade da classificação ideológica existente naquele contexto. Sandoval observa ainda que Erwin e outro personagem ligado ao adventismo, Claudemir Santos de Morais, foram presos rapidamente depois dos acontecimentos de abril de 1964, o que ele relaciona à existência de um sistema de vigilância estruturado anteriormente e reorganizado durante o novo período político.
O contraste institucional é difícil de tornar mais claro. Enquanto um comunista aparecia expulso da Igreja Adventista, a administração denominacional caminhava em direção a uma relação que sua própria revista chamaria de “atitude amiga entre militares, senadores, deputados etc.” Para Erwin Loeschner, a porta da Igreja estava fechada. Para representantes do poder anticomunista capazes de facilitar projetos e interesses denominacionais, as portas administrativas estavam abertas. É esse contraste — e não qualquer tentativa de colocar comunismo e governo militar no mesmo plano moral — que interessa à nossa investigação.
O caso Erwin Loeschner tornou-se ainda mais grave quando avançamos para os processos da Comissão de Anistia. Preso depois de abril de 1964 e posteriormente reconhecido oficialmente pelo Estado brasileiro como anistiado político post mortem, Erwin deixou atrás de si uma história de perseguição que atingiu também sua família.
Na 59ª Caravana da Anistia, realizada em Florianópolis em 2012, o caso de sua filha, Lanny Loeschner Olinger, foi apresentado com uma informação estarrecedora: aos 16 anos, durante o período da prisão do pai, ela relatou ter sido perseguida, seviciada e violentada por agentes da repressão que se aproveitaram justamente da condição de Erwin como perseguido político. Em 2014, depois de novo julgamento, o Ministério da Justiça declarou a própria Lanny anistiada política e concedeu-lhe reparação econômica de R$ 100 mil.
Assim, o adventista comunista expulso de sua igreja não aparece apenas como nome numa relação de militantes: sua prisão produziu consequências familiares que, décadas depois, levaram o próprio Estado brasileiro a reconhecer formalmente tanto Erwin quanto sua filha como vítimas de perseguição política.
CLAUDEMIR SANTOS DE MORAIS: ADVENTISMO, COMUNISMO E INTERROGATÓRIO
Sandoval encontrou também Claudemir Santos de Morais, que descreve como adepto dos dogmas adventistas. Ele foi preso no Recife poucas semanas depois de abril de 1964 e, durante o interrogatório, foi questionado sobre o comunismo e sobre o governo João Goulart. Claudemir era irmão de Clodomir Santos de Morais, ligado às Ligas Camponesas, e havia estudado na Tchecoslováquia. O pesquisador considera essas circunstâncias relevantes para compreender por que sua presença despertava interesse das autoridades. Também observa que a postura política demonstrada por Claudemir parecia relacionada aos anos de formação numa escola da denominação.
Esses casos mostram algo que a narrativa denominacional raramente coloca lado a lado: havia adventistas e pessoas formadas pelo adventismo em campos políticos diferentes, mas a estrutura eclesiástica não se relacionava de maneira idêntica com todos. Enquanto a administração conseguia construir uma rede de influência com o poder estabelecido, membros posicionados em áreas ideologicamente incompatíveis com aquele ambiente podiam experimentar outra face da disciplina religiosa.
WESLEY BLEVINS: O MISSIONÁRIO QUE DENUNCIOU CRIMES CONTRA INDÍGENAS E FOI EXTRAÍDO ÀS PRESSAS DO BRASIL
Se Erwin Loeschner mostra o que podia acontecer com um adventista identificado com o comunismo, a trajetória do pastor norte-americano Norman Wesley Blevins revela outro tipo de tensão dentro da mesma Igreja. Blevins não chegou ao Brasil inicialmente para integrar os Arautos do Rei.
Os registros oficiais adventistas mostram que ele deixou os Estados Unidos em outubro de 1965 e chegou à América do Sul em 6 de novembro daquele ano para trabalhar na Missão Mato-Grossense, sediada em Campo Grande. Antes de vir ao Brasil, havia trabalhado como colportor e pastor na Flórida. Aqui, foi colocado como secretário dos departamentos de Atividades Missionárias, Rádio-TV, Escola Sabatina e Jovens da Missão Mato-Grossense. A Review and Herald registra sua partida dos Estados Unidos especificamente para essa função, enquanto o boletim da Divisão Sul-Americana confirma sua chegada com a esposa Shirley e os três filhos.
Portanto, antes de se tornar uma das vozes mais conhecidas do adventismo brasileiro como integrante dos Arautos do Rei, Blevins passou quase dois anos profundamente integrado à estrutura administrativa da Igreja em Mato Grosso. Era pastor ordenado, membro da comissão executiva da Missão e responsável por departamentos estratégicos. A partir de Campo Grande, percorreu enormes distâncias pelo então Mato Grosso e entrou em regiões isoladas onde a presença adventista ainda era pequena ou inexistente.
Quase ninguém conhece esta história, embora ela reúna elementos que parecem pertencer a um romance político ambientado na Guerra Fria. Norman Wesley Blevins era um pastor norte-americano enviado oficialmente pela Igreja Adventista do Sétimo Dia para trabalhar em Campo Grande, no então imenso Estado de Mato Grosso. Não veio ao Brasil como jornalista, antropólogo, indigenista ou investigador. Veio como missionário e administrador denominacional.
A partir da sede da Missão Mato-Grossense, começou a percorrer um território gigantesco, chegou ao norte do Estado, embarcou em pequenos aviões, sobrevoou aldeias indígenas e entrou em contato com regiões onde se chocavam índios, fazendeiros, seringalistas, madeireiros, projetos de colonização e interesses governamentais.
Pouco tempo depois, esse secretário adventista apareceu na grande imprensa denunciando indígenas mortos a tiros, alimentos contaminados, guardas armados, interesses sobre terras e até o envolvimento de um funcionário da SUDAM. As denúncias chegaram ao Congresso Nacional e ao Ministério do Interior. E então aconteceu algo ainda mais estranho: em junho de 1968, quando esperavam que prestasse depoimento sobre aquilo que sabia, Blevins deixou o Brasil e retornou aos Estados Unidos. O Jornal do Brasil registrou o episódio numa manchete que ficou praticamente esquecida: “Pastor retorna aos EUA sem depor sobre matança de índios.”
ANTES DOS ARAUTOS DO REI, CAMPO GRANDE
A história precisa começar em Campo Grande porque foi ali que Blevins entrou no cenário brasileiro. Ele deixou os Estados Unidos com a esposa Shirley e os filhos em 1965, enviado pela organização adventista para servir na Missão Mato-Grossense. Naquele período, Mato Grosso do Sul ainda não existia, de modo que uma administração sediada em Campo Grande respondia por uma área que se estendia por dimensões continentais.
Blevins acumulou responsabilidades ligadas a atividades missionárias, juventude, Escola Sabatina e comunicação e participava da administração da Missão. Portanto, não era um pregador itinerante independente que havia decidido conhecer a selva por curiosidade pessoal. Era um funcionário denominacional norte-americano ocupando uma posição que exigia deslocamentos, contatos e acompanhamento da expansão adventista pelo interior.
Isso explica por que um secretário instalado em Campo Grande precisava viajar. O que merece investigação é até onde aquelas viagens acabaram levando-o. Em determinada ocasião, Blevins soube que havia em Porto dos Gaúchos, no norte de Mato Grosso, pessoas interessadas na mensagem adventista, algumas alcançadas principalmente pelos programas da Voz da Profecia. Decidiu ir até lá para realizar batismos e organizar uma Escola Sabatina. Era uma finalidade religiosa perfeitamente coerente com seu cargo. Só que, para cumprir aquela missão aparentemente rotineira, precisou penetrar numa das regiões mais remotas e disputadas do país.
QUATRO MIL MILHAS (6,4 MIL KM) PARA REALIZAR SETE BATISMOS
O próprio Blevins contou a viagem posteriormente na Review and Herald. Segundo seu relato, o percurso representou aproximadamente cerca de 6,4 mil quilômetros a partir do escritório da Missão. De Campo Grande avançou pelo enorme território mato-grossense até chegar a Cuiabá. Ali embarcou num pequeno Cessna e voou durante cerca de duas horas e meia sobre uma região praticamente contínua de mata.
O avião não se limitou a cruzar a floresta. Blevins registrou que circulou várias vezes sobre aldeias indígenas, observando do alto comunidades isoladas no norte de Mato Grosso. A viagem terminaria com sete batismos e a organização de uma Escola Sabatina com cerca de trinta membros. Missionariamente, o relatório estava completo. Mas aquilo que Blevins trouxe de volta daquela região ultrapassaria completamente sete batismos e trinta nomes numa lista de Escola Sabatina.
O secretário havia penetrado num território em rápida transformação. Ali estavam povos indígenas que ocupavam aquelas terras havia gerações; avançavam fazendas, seringais, exploração de madeira e projetos de colonização; havia áreas praticamente desconhecidas da maior parte do país e enorme interesse econômico sobre rios, florestas e terras.
Blevins, graças à própria mobilidade proporcionada pelo trabalho missionário, conseguiu chegar onde quase ninguém chegava. Viu aldeias do alto, circulou pela região, conversou com pessoas ligadas às propriedades rurais e começou a ouvir histórias que transformariam um administrador religioso numa fonte nacional sobre violência contra indígenas.
O PASTOR COMEÇA A SABER DEMAIS
Quando Blevins reaparece publicamente alguns meses depois, impressiona a quantidade de informações que possuía. Ele não falava apenas que “os índios estavam sofrendo”. Conhecia localidades, rios, propriedades e interesses econômicos. Falava de fazendeiros interessados na terra e na madeira, de seringalistas, de homens armados, de grupos indígenas ameaçados e de pessoas vinculadas a órgãos governamentais. Segundo reportagem contemporânea, Blevins contou inclusive ter conversado pessoalmente com o administrador de uma fazenda sobre os conflitos com indígenas. Sua descrição incluía homens armados que teriam recebido ordem para matar.
É neste ponto que a simples viagem missionária começa a adquirir outra dimensão. Como um secretário de departamentos religiosos sediado em Campo Grande passou a conhecer em tantos detalhes o tabuleiro fundiário, humano e econômico do norte de Mato Grosso? A resposta mais óbvia está diante de nós: porque esteve lá. A rede missionária proporcionou acesso. O avião proporcionou visão territorial. Os contatos locais proporcionaram informação. E Blevins, ao contrário de alguém interessado apenas em recolher dados para um relatório denominacional, resolveu transformar o que sabia em denúncia pública.
12 DE ABRIL DE 1968: “EXTERMÍNIO DE ÍNDIOS A TIROS E COM AÇÚCAR CONTAMINADO”
Em 12 de abril de 1968, o Jornal do Brasil publicou uma reportagem intitulada “Pastor revela extermínio de índios a tiros e com açúcar contaminado”. A existência dessa matéria está preservada tanto no acervo dedicado à história dos Tapayuna quanto na pesquisa antropológica posterior sobre esse povo. O pastor era Wesley Blevins. O homem enviado pela Igreja Adventista para Campo Grande agora acusava publicamente a existência de métodos deliberados para eliminar populações indígenas no norte de Mato Grosso.
No dia seguinte, outra reportagem reproduziu em detalhes suas acusações. Blevins afirmou que os indígenas de Mato Grosso estavam sendo exterminados “a tiros e com açúcar contaminado”. Disse que a tribo então conhecida na imprensa como “Beiço de Pau”, os Tapayuna, vinha sendo atacada na região do rio Arinos, acima de Porto dos Gaúchos.
Segundo a reportagem, ele acusava um empregado da SUDAM de participar do processo e mencionava dezenas de milhares de hectares de mata já derrubados na área. Falava ainda de caçadores que distribuíam açúcar contaminado e relatava ter recebido informação de que alimentos como arroz e feijão também teriam sido utilizados para transmitir doenças.
As declarações foram ainda mais específicas. Blevins dizia estar convencido, depois de viajar milhares de quilômetros pelo Estado, de que fazendeiros estavam determinados a eliminar os indígenas. Mencionou interesses na agricultura e na venda da madeira, falou de empreendimento ligado a seringais e relatou informações sobre financiamento e relações econômicas. Disse ter conhecido diretamente pessoas que atuavam naquela região. Em certo momento, comparou aquilo que estava vendo em Mato Grosso ao tratamento historicamente dado aos povos indígenas nos Estados Unidos e afirmou que chegava a preferir que aqueles povos continuassem sem evangelização a vê-los submetidos à exploração e ao extermínio.
SHIRLEY BLEVINS TAMBÉM FALOU
A história não dependia exclusivamente do testemunho do pastor. Shirley Blevins, sua esposa, também aparece confirmando à imprensa parte das informações relacionadas aos alimentos contaminados e ao envolvimento de pessoas ligadas à estrutura governamental. Isso significa que o assunto não era uma frase impensada dita por Wesley durante uma entrevista. O casal estava disposto a falar sobre aquilo que conhecia. E Wesley localizava os acontecimentos: região de Porto dos Gaúchos, rio Arinos, proximidades do Juruena, aldeias ainda não contatadas e frentes econômicas que avançavam sobre esses territórios.
A essa altura, aquele missionário possuía algo extremamente valioso e igualmente perigoso: informação obtida no terreno. Sabia onde estavam populações ameaçadas, identificava interesses econômicos, havia conversado com pessoas vinculadas às propriedades, conhecia rotas e conseguia relacionar acontecimentos que, vistos isoladamente, poderiam parecer simples conflitos entre colonizadores e indígenas. Quando os reuniu publicamente, o quadro passou a parecer muito mais grave.
A DENÚNCIA SAI DO JORNAL E ENTRA NA POLÍTICA
A repercussão não ficou confinada à imprensa. As denúncias atribuídas a Blevins chegaram ao Congresso Nacional, onde foram reproduzidas em meio ao debate sobre a violência contra povos indígenas. Também alcançaram o Ministério do Interior, exatamente a área governamental responsável pela política indigenista naquele momento. A acusação feita por um missionário norte-americano, portanto, começava a produzir consequências políticas. Já não era conversa de corredor da Missão Mato-Grossense nem testemunho apresentado numa igreja. Blevins havia levado ao debate nacional informações capazes de atingir funcionários públicos, projetos de ocupação territorial e interesses privados.
O momento não poderia ser mais explosivo. O país começava a conhecer as atrocidades reveladas pela investigação que ficou conhecida como Relatório Figueiredo. Em maio daquele mesmo ano, o próprio Jornal do Brasil publicaria a reportagem “Todos os meios foram lícitos para liquidar índios”, dentro de uma sequência de matérias sobre assassinatos, usurpação de terras e violência praticada contra populações indígenas. A bibliografia histórica sobre os Tapayuna registra lado a lado a reportagem de 12 de abril baseada nas denúncias de Blevins, essa matéria de 5 de maio e, depois, a notícia de sua saída do país em 4 de junho.
UM PASTOR AMERICANO OLHANDO O BRASIL DE CIMA
Há algo simbolicamente poderoso na imagem daquele Cessna. Um cidadão norte-americano, empregado de uma organização religiosa norte-americana, deixa Campo Grande, atravessa Mato Grosso e passa a olhar do alto regiões remotas ocupadas por povos indígenas e disputadas por interesses econômicos. A própria atividade missionária criava uma rede capaz de chegar a lugares onde a presença do Estado era precária. Missionários podiam atravessar fronteiras internas, conhecer fazendas, pistas, rios, comunidades e rotas. Aquilo que para a Igreja significava alcançar pessoas com a mensagem religiosa também produzia conhecimento territorial.
E Blevins fez algo incomum com esse conhecimento: falou publicamente. Em vez de transformar suas observações apenas em histórias missionárias para revistas adventistas, levou à imprensa aquilo que sabia sobre homens armados, terras cobiçadas, indígenas mortos e agentes ligados ao Estado. Foi justamente nesse ponto que um excelente ativo missionário começou a transformar-se num enorme problema político.
4 DE JUNHO DE 1968: BLEVINS VAI EMBORA SEM DEPOR
Então surge o documento que muda completamente o peso da história. Em 4 de junho de 1968, menos de dois meses depois da reportagem que tornara suas denúncias nacionais, o Jornal do Brasil publicou: “Pastor retorna aos EUA sem depor sobre matança de índios.” A referência está preservada nas pesquisas antropológicas sobre os Tapayuna e no acervo histórico dedicado às terras indígenas. Blevins havia denunciado. As acusações repercutiram. Existia interesse em ouvi-lo formalmente. Mas o missionário norte-americano saiu do país sem prestar o depoimento esperado.
A partir daí, a pergunta inevitável não é apenas por que Wesley Blevins voltou aos Estados Unidos. É por que saiu justamente naquele momento. Se possuía informações capazes de ajudar a esclarecer uma possível matança, seu depoimento poderia transformar manchetes em investigação formal. Poderiam perguntar quem havia lhe dado determinados nomes, onde ficavam as propriedades, com quem conversara, quais pessoas haviam confirmado as mortes, quem fornecera transporte, quem financiara suas viagens e que informações haviam sido comunicadas à Igreja.
Um interrogatório desse tipo poderia ir muito além dos indígenas. Poderia começar a reconstruir a própria rede pela qual Blevins se movimentara: Campo Grande, Cuiabá, Porto dos Gaúchos, aviões, fazendas, aldeias, administradores, missionários e estruturas denominacionais. Poderia também revelar o que a direção adventista já sabia e até onde as informações recolhidas no interior circulavam pela cadeia administrativa da Igreja. O problema deixaria de ser somente “o que está acontecendo com os índios?” e passaria a incluir outra pergunta: como esse pastor americano conseguiu saber tudo isso?
DO INTERIOR DE MATO GROSSO PARA A VOZ DA PROFECIA
A história fica ainda mais curiosa porque Wesley Blevins não desapareceu da organização adventista depois daquelas denúncias. Pouco depois, seu talento musical o levaria para uma das instituições mais visíveis da denominação brasileira: a Voz da Profecia. Em julho de 1968, a própria Review and Herald registrou sua viagem como líder do quarteto da Voz da Profecia no Rio de Janeiro. Blevins tornou-se barítono dos Arautos do Rei, além de contribuir como arranjador e tradutor. O homem que poucos meses antes aparecia nos jornais falando de extermínio indígena agora entrava nos lares adventistas cantando pelo rádio.
A mudança geográfica é digna de atenção. O antigo secretário da Missão Mato-Grossense que percorria milhares de quilômetros pelo interior e sobrevoava aldeias passou a trabalhar no Rio de Janeiro, dentro de uma estrutura centralizada, de enorme exposição pública e diretamente associada a Roberto Rabello. Blevins trocou o Cessna, as estradas e as aldeias pelos microfones e estúdios da Voz da Profecia. Não perdeu, entretanto, a memória do que havia visto.
QUANDO PERGUNTARAM NOVAMENTE SOBRE OS ÍNDIOS, ELE VOLTOU A FALAR
A memória preservada posteriormente sobre os Arautos do Rei conta que, durante uma apresentação em Cuiabá, Blevins foi questionado em televisão sobre sua experiência entre indígenas. Ele teria respondido atacando duramente a FUNAI e a política indigenista brasileira. Um relato empurrou o episódio, na memória posterior, para uma data mais tardia, mas sua essência combina com aquilo que os jornais já haviam documentado desde 1968: Blevins não era homem de moderar suas denúncias para proteger relações institucionais.
Segundo essa memória dos bastidores, depois da entrevista surgiu uma convocação para que prestasse esclarecimentos aos militares. Roberto Rabello, com o conhecimento e apoio da estrutura superior da Igreja, teria então providenciado sua retirada imediata do Brasil.
A cronologia oral pode ter deslocado acontecimentos, mas o padrão documental é extremamente claro: Blevins falava sobre a questão indígena, suas declarações provocavam repercussão e, quando aparecia a perspectiva de um depoimento formal às autoridades, sua permanência no Brasil se tornava problemática. Isso já havia acontecido documentalmente em junho de 1968, quando o Jornal do Brasil registrou sua partida sem depor.
POR QUE ERA TÃO IMPORTANTE QUE BLEVINS NÃO FOSSE INTERROGADO?
Há uma diferença enorme entre conceder entrevista e sentar diante de autoridades para responder formalmente a perguntas. No jornal, Blevins controlava aquilo que revelava. Num depoimento, outros controlariam as perguntas. Poderiam exigir nomes. Poderiam confrontar datas. Poderiam perguntar quem pagou as viagens, quem o levou de avião, que documentos possuía, quem conhecera nas fazendas, quem lhe contara sobre o açúcar contaminado, como conseguira identificar funcionário da SUDAM e o que comunicara aos superiores da Igreja.
E poderiam chegar inevitavelmente à estrutura que havia enviado aquele norte-americano a Campo Grande. O que a Missão Mato-Grossense sabia? O que a administração superior sabia? As informações de Blevins tinham sido relatadas apenas verbalmente ou haviam sido registradas? Chegaram à sede sul-americana? Foram enviadas aos Estados Unidos? Quem dentro da organização decidiu como lidar com um missionário que havia transformado conhecimento adquirido em campo numa denúncia política nacional?
É nesse ponto que proteger Wesley Blevins e proteger a Igreja Adventista podiam significar exatamente a mesma coisa. Tirar o pastor do alcance imediato de um interrogatório evitava que ele fosse detido ou sofresse consequências pessoais, mas também evitava que autoridades começassem a seguir para trás o caminho que o levara de um escritório adventista em Campo Grande até aldeias, fazendas, funcionários públicos e informações politicamente sensíveis.
ROBERTO RABELLO E A SOLUÇÃO MAIS RÁPIDA
Quando a história dos Arautos do Rei relata que Roberto Rabello providenciou a saída de Blevins, vemos uma solução extremamente eficiente para o problema. Rabello era muito mais do que apresentador de rádio. Representava no Brasil um ministério concebido nos Estados Unidos e mantinha ligação profunda com a estrutura norte-americana da Voz da Profecia e da Igreja. Um integrante estrangeiro de seu quarteto enfrentando autoridades brasileiras por causa de acusações sobre indígenas podia transformar rapidamente um problema pessoal em problema diplomático e denominacional.
A solução foi simples: o homem que produzia o atrito deixava o país; a instituição permanecia. Blevins podia ser protegido. A Voz da Profecia podia continuar transmitindo. A Igreja podia continuar operando escolas, hospitais, projetos missionários e construindo as relações de que necessitava com Brasília. Não era necessário transformar o pastor numa bandeira pública de confronto com o governo. Bastava colocá-lo fora do alcance daquela situação.
BLEVINS ERA DE ESQUERDA?
Nada nessa trajetória exige imaginar Wesley Blevins como militante comunista. Sua história é muito mais interessante sem essa simplificação. Ele era um missionário adventista norte-americano, formado dentro de uma denominação religiosa conservadora, que entrou em contato direto com uma realidade que considerou moralmente intolerável. Não precisou mudar de ideologia para denunciar indígenas mortos. Bastou acreditar que aquilo que estava acontecendo era errado e decidir falar quando a conveniência institucional recomendaria prudência.
É justamente isso que torna Blevins tão importante para este artigo. Erwin Loeschner podia ser facilmente colocado do outro lado da fronteira ideológica: era comunista. Blevins não. Era pastor, missionário e funcionário da própria organização. Se até um homem assim conseguia tornar-se inconveniente ao confrontar uma questão sensível ao governo, então o problema não era simplesmente comunismo versus anticomunismo. O problema era até onde um adventista poderia desafiar o poder sem colocar em risco a política de relacionamento da instituição.
O CESSNA, O MICROFONE E A PERGUNTA QUE SOBROU
Vale voltar à imagem inicial porque ela concentra toda a história. Um secretário adventista sai de Campo Grande para visitar interessados no norte de Mato Grosso. Percorre milhares de quilômetros. Em Cuiabá entra num Cessna. Sobrevoa aldeias. Chega a Porto dos Gaúchos. Batiza sete pessoas e organiza uma Escola Sabatina. Mas, pelo caminho, entra em contato com um mundo de fazendas, armas, terras, seringais, desmatamento e populações indígenas ameaçadas.
Pouco depois aparece no Jornal do Brasil denunciando extermínio por tiros e alimentos contaminados. O Congresso repercute. O Ministério do Interior toma conhecimento. E, quando esperavam que o missionário formalizasse aquilo que sabia, surge outra manchete: “Pastor retorna aos EUA sem depor sobre matança de índios.”
Depois ele reaparece diante de um microfone, agora como barítono dos Arautos do Rei. E quando o assunto indígena volta à tona, a memória dos bastidores registra novamente conflito, autoridades interessadas em ouvi-lo e uma retirada rápida. O padrão é difícil de ignorar: Blevins sabia, Blevins falava e alguém precisava administrar as consequências.
E então surge uma pergunta ainda maior do que o destino daquele pastor: como a Igreja Adventista brasileira se comportava diante do governo exatamente naquele período? Wesley Blevins foi apenas um missionário indisciplinadamente disposto a denunciar aquilo que viu, ou sua dificuldade com as autoridades revela uma política institucional muito mais ampla, na qual confrontar o poder era justamente aquilo que a organização procurava evitar?
Para responder a isso, precisamos sair do Cessna de Blevins, deixar por alguns instantes os Arautos do Rei e abrir o arquivo histórico da própria denominação. Foi exatamente o que fez o pesquisador Sandoval José dos Santos.
O PRÓPRIO PESQUISADOR ADVERTE: NÃO É PRECISO FORÇAR A PROVA
Há um mérito metodológico no estudo de Sandoval que deve ser preservado. Ele chama atenção para títulos da Revista Adventista de 1964 que poderiam enganar o pesquisador apressado. “A Capital da Esperança” e “Salvemos Nossa Pátria”, por exemplo, parecem à primeira vista manifestações políticas ligadas ao contexto daquele ano, mas o exame das matérias mostra que tratavam principalmente de evangelização e expansão missionária.
Essa advertência é útil justamente porque torna desnecessário exagerar qualquer evidência. Há documentos muito mais fortes: entrevistas com parlamentares, declarações sobre “atitude amiga”, verbas, solenidades, corais diante de presidentes, Desbravadores em desfiles cívicos e pesquisas que identificam objetivamente o processo de aproximação.
“A DENOMINAÇÃO APOIA QUEM ESTÁ NO PODER”
Talvez a informação mais adequada ao título deste artigo esteja escondida numa nota de rodapé do estudo de Sandoval. O pesquisador registra que, em 2014, o pastor Rafael Rossi, então diretor de Comunicação e Liberdade Religiosa da Igreja Adventista para a América do Sul, afirmou que a denominação apoia quem está no poder porque acredita que nada se faz sem a permissão de Deus. Sandoval fornece como referência um vídeo institucional adventista dedicado exatamente à postura da Igreja sobre política.
A frase é importante porque oferece uma explicação interna para aquilo que estamos documentando externamente. Se a regra prática é apoiar ou reconhecer quem está no poder porque sua presença é entendida dentro da permissão divina, torna-se muito mais fácil compreender como uma instituição pode cultivar excelentes relações com governos de orientações radicalmente diferentes sem se considerar incoerente. O poder muda; o princípio administrativo de relacionar-se com quem governa permanece. Curiosamente, Rafael Rossi foi escolhido em novembro de 2025 para presidir a Rede Novo Tempo de Comunicação, tornando-se hoje um dos principais dirigentes da estrutura midiática adventista sul-americana.
É nesse ponto que a metáfora deixa de ser brincadeira. Direita, volver! Esquerda, volver! Se quem ocupa o poder deve receber apoio ou relacionamento porque nada acontece sem a permissão divina, então mudar a direção do relacionamento quando muda o governo deixa de parecer uma contradição administrativa. O problema é explicar por que essa elasticidade institucional é chamada de apartidarismo quando o membro comum recebe uma linguagem muito mais restritiva sobre o envolvimento político.
2004: AGORA O CORAL ADVENTISTA CANTA COM LULA NO PLANALTO
Em abril de 2004, durante o primeiro governo Lula, uma celebração ecumênica de Semana Santa foi realizada no Palácio do Planalto. Frei Betto, então assessor especial da Presidência, participou da programação e relacionou o programa Fome Zero à narrativa bíblica da multiplicação dos pães. Entre os grupos musicais estava o Coral da Igreja Adventista de Brasília. Lula e Marisa Letícia participaram da cerimônia e posteriormente estiveram entre os integrantes do coral. A reportagem da época, reproduzida pelo Adventistas.Com a partir de material jornalístico nacional, registrou a presença adventista no coração do Poder Executivo.
A fotografia histórica é impressionante pela repetição da fórmula. Em setembro de 1972, coral adventista diante de Médici numa grande solenidade cívica. Em abril de 2004, coral adventista no Palácio do Planalto com Lula numa cerimônia religiosa. É claro que cantar numa solenidade não significa subscrever toda a agenda de um governo. O que estamos examinando é a continuidade de uma cultura institucional que considera valioso ocupar esses espaços de visibilidade, relacionamento e prestígio junto ao poder — exatamente enquanto a separação entre Igreja e Estado continua sendo apresentada como princípio denominacional.
2013: “TÍNHAMOS ESSE DESEJO DE ESTREITARMOS ESTA RELAÇÃO COM O ESTADO”
Em agosto de 2013, representantes da IASD no Paraná e no Sul do Brasil participaram de audiência com o então governador Beto Richa. O encontro havia sido articulado pelo deputado estadual Artagão Júnior. Estavam presentes presidentes e secretários de associações e união adventistas. Na ocasião, o presidente da União Sul-Brasileira, Marlinton Lopes, agradeceu ao governador e declarou: “Tínhamos esse desejo de estreitarmos esta relação com o Estado.” A mesma matéria registrava a apresentação de projetos da ASA, dos Desbravadores e da TV Novo Tempo.
É uma frase extraordinária quando colocada diante da doutrina oficial da separação. “Estreitar esta relação com o Estado” não precisa significar fusão jurídica entre Igreja e governo, evidentemente, mas revela que a proximidade institucional era objetivo confessado por um presidente de União. Mais uma vez, a Igreja não se comporta como organização que teme aproximar-se do poder; ela procura aproximar-se quando enxerga nisso oportunidade para seus projetos.
2014: GLEISI, MAIS DE CEM PASTORES E O MICROFONE DA NOVO TEMPO
Em 21 de julho de 2014, a então senadora Gleisi Hoffmann, candidata do PT ao governo do Paraná, participou de uma grande reunião na sede da Associação Central Paranaense da Igreja Adventista. A pauta tinha interesse institucional concreto: pedidos de novas concessões para retransmissoras da TV Novo Tempo. Estavam presentes o diretor de expansão da Rede Novo Tempo, o presidente da União Sul-Brasileira, presidentes de associações e missão, administradores da ACP, departamentais e outras lideranças. Foram apresentados à senadora pedidos relativos a dezenas de municípios. Depois da reunião, Gleisi concedeu entrevista à Rádio Novo Tempo.
Outra cobertura daquele encontro acrescenta um detalhe que torna o episódio ainda mais significativo: antes de falar à Rádio Novo Tempo, a candidata reuniu-se com mais de cem pastores adventistas na Associação Central Paranaense. Na entrevista, fez um apelo para que jovens participassem mais da política, exaltou políticas públicas e declarou compreender sua missão política como “instrumento de Deus”.
A mesma reportagem afirma que Gleisi conheceu as ações da instituição e se comprometeu a colaborar para que ela continuasse crescendo e se fortalecendo. Não estamos diante de uma candidata aparecendo casualmente na porta de uma igreja: havia sede administrativa, mais de cem pastores, dirigentes, interesses de concessão de televisão e acesso a uma emissora adventista durante o período eleitoral
Isso ocorreu justamente num período em que a Igreja publicava orientações sobre neutralidade política e afastamento de campanhas. A pergunta que nasce não depende de chamar o encontro de comício ou de atribuir oficialmente à Divisão Sul-Americana uma declaração formal de voto no PT.
Os fatos são suficientemente fortes sem exagero: uma candidata em campanha teve diante de si mais de cem pastores, dirigentes denominacionais e um veículo de comunicação adventista enquanto interesses institucionais ligados a concessões de televisão eram apresentados à política. Quando a própria Igreja estabelece limites para a exposição eleitoral, é legítimo perguntar se esses limites valiam igualmente para todos.
2022: IMPOSIÇÃO DE MÃOS E ORAÇÃO PELA VITÓRIA ELEITORAL DE LULA
Em 31 de agosto de 2022, ainda durante a campanha presidencial, Lula teve em Manaus uma agenda reservada com um grupo de adventistas. A fotografia de Ricardo Stuckert, cedida ao Estadão/Broadcast e reproduzida posteriormente por diversos veículos, mostra o candidato de cabeça baixa enquanto os participantes realizam imposição de mãos. A reportagem registra que o grupo orou por sua saúde e por sua vitória eleitoral. Não era, portanto, simplesmente a conhecida oração bíblica pelas autoridades já constituídas. Lula era candidato e a eleição ainda estava em disputa.
Popularmente, a cena foi tratada por muitos como uma espécie de “unção” política. O termo ritual exato não precisa ser forçado: a fotografia e a reportagem já dizem o suficiente. Houve imposição de mãos sobre um candidato presidencial e oração por sua vitória. Até aqui, em nossa busca nos canais institucionais adventistas, não localizamos reprimenda pública específica àquele gesto comparável à severidade com que documentos denominacionais falam sobre neutralidade eleitoral. O episódio permanece, portanto, como uma das imagens mais fortes da dificuldade existente entre a teoria do apartidarismo e a liberdade prática com que adventistas podem aproximar linguagem religiosa de uma candidatura.
2023: LULA SANCIONA O DIA NACIONAL DOS DESBRAVADORES
Um ano depois, outra conexão simbólica aproximaria novamente o Palácio do Planalto do movimento juvenil adventista que abre este artigo. Em 4 de setembro de 2023, Lula sancionou a Lei 14.665, criando oficialmente o Dia Nacional dos Desbravadores, comemorado em 20 de setembro. A informação consta do Portal da Câmara dos Deputados.
A lei resultou de projeto que havia tramitado anteriormente no Congresso, portanto sua sanção não significa apoio partidário adventista nem adesão ideológica do governo ao movimento. O dado, porém, possui enorme valor simbólico para nossa narrativa: os mesmos Desbravadores cuja história atravessa desfiles diante de autoridades militares passaram a ter sua data incorporada oficialmente ao calendário nacional por um presidente do PT.
2026: A POLÍTICA CONTINUA ENTREGANDO RESULTADOS À ESTRUTURA ADVENTISTA
O relacionamento com políticos não pertence apenas ao arquivo histórico. Em agosto de 2026, numa prestação de contas dirigida à comunidade adventista, o deputado estadual Artagão Júnior apresentou como realizações de seu mandato projetos voltados diretamente à denominação. Segundo a própria página do parlamentar, ele destacou a viabilização de 36 canais da TV Novo Tempo, a destinação de R$ 200 mil para fanfarras, outros R$ 400 mil previstos para Curitiba e associações e a garantia de mais R$ 2 milhões em emendas parlamentares para 2027, destinados, segundo o relato, à aquisição de fanfarras, tendas e barracas para atividades da Igreja Adventista.
O mesmo Artagão já aparecia anos antes como interlocutor de pastores, dirigentes e administradores adventistas em pedidos de retransmissoras da Novo Tempo, locais para eventos juvenis, questões sabáticas e outras demandas. Em 2013, um tesoureiro da Associação Central Paranaense chegou a procurá-lo para agradecer pelo apoio concedido aos projetos da Igreja, incluindo implantação da TV Novo Tempo e intervenção na disponibilização de locais para camporis.
A sequência revela como o relacionamento político pode produzir benefícios muito objetivos para a estrutura denominacional. O fiel ou pastor é frequentemente lembrado de que a Igreja não possui partido. O deputado adventista, entretanto, pode apresentar perante a comunidade uma prestação de contas que inclui canais de televisão, fanfarras, equipamentos e milhões de reais em emendas destinados a atividades ligadas à Igreja. A questão não é negar a legalidade automática de emendas ou de políticas públicas; é perguntar como uma instituição tão enfática na separação Igreja-Estado explica aos membros a extensão prática dessa rede de benefícios, interlocução e dependência política.
O SUMIÇO DE OSCAR LINDQÜIST EM CAMPO GRANDE
É também em Campo Grande que aparece um dos episódios mais estranhos e ainda mal esclarecidos da memória adventista regional: o desaparecimento do pastor Oscar Lindqüist. A história administrativa conhecida mostra que ele foi presidente da Missão Mato-Grossense no início dos anos 1960 e permaneceu posteriormente em atividade denominacional. Em 1966, aparece no Paraná participando de congresso agrícola adventista e ensinando apicultura; seu nome ainda surge em publicação adventista em 1972. O misterioso “sumiço” lembrado por antigos adventistas de Campo Grande pertence, portanto, à década de 1970 e não à troca da presidência da Missão ocorrida anteriormente.
Foi então que começaram a circular versões nunca satisfatoriamente esclarecidas. Havia quem dissesse que Lindqüist fora preso. Outros suspeitavam de que tivesse sido detido pelos militares. E, no ambiente religioso criado pela ausência de uma explicação objetiva, chegou a circular entre adventistas até a ideia de que o pastor tivesse sido “arrebatado”.
O que permanece até hoje é a falta de uma notícia conhecida que esclareça seu destino posterior e também a ausência, em nosso levantamento até aqui, de uma notícia de morte que encerre a história. O episódio deve permanecer no artigo exatamente com esse status: um desaparecimento lembrado pela comunidade, cercado de rumores de prisão e detenção, mas sem solução documental conhecida.
EM CUBA, VERMELHA; NO BRASIL, VERDE-OLIVA
Este artigo nasceu no Brasil, mas a comparação com Cuba é inevitável porque revela que o mecanismo é anterior e internacional. Nossa investigação sobre a Revolução Cubana já mostrou que não estamos falando apenas de dois ou três membros leigos agindo isoladamente. Líderes adventistas, anciãos, professores, obreiros e membros investidos de responsabilidades eclesiásticas ajudaram revolucionários armados antes da vitória de Fidel Castro.
A rede de apoio clandestino atingiu pessoas profundamente integradas à estrutura da Igreja, enquanto o Colegio de las Antillas, dirigido por Walton J. Brown, acabaria inserido diretamente nos acontecimentos que acompanharam a batalha de Santa Clara e a chegada dos homens de Che Guevara.
Esse é o outro lado do camaleão. Em Cuba, dirigentes e membros de responsabilidade adventista aproximaram-se de um movimento revolucionário comunista armado que já utilizava violência, sabotagem, execuções e guerra antes de conquistar o governo. Depois da vitória, relações construídas durante a luta ajudaram a criar acesso ao novo poder.
No Brasil anticomunista, porém, encontramos um comunista como Erwin Loeschner expulso da Igreja enquanto a administração denominacional cultivava simpatia, verbas, audiências e “atitude amiga” com militares, parlamentares da ARENA e estruturas do governo. A cor do poder mudou; a habilidade de aproximar-se dele não.
E há um detalhe adicional que nosso dossiê cubano já revelou: a atuação adventista internacional não pode ser reduzida à figura romântica do missionário completamente isolado das estruturas de Estado. Documentos que já examinamos mostram relações entre a alta administração adventista, missionários e interesses governamentais norte-americanos, incluindo personagens que desempenharam funções que ultrapassavam a simples pregação religiosa. O contexto familiar e missionário de Walton J. Brown também pertence a esse universo. Isso torna ainda mais difícil sustentar que o adventismo institucional estivesse historicamente tão separado da política internacional quanto sua retórica posterior sugeriria.
A DIREITA E A ESQUERDA NÃO SÃO O PROBLEMA — O APARTIDARISMO É
Seria superficial concluir apenas que a Igreja Adventista foi “de direita” nos anos militares e depois “virou de esquerda”. Os documentos apontam para fenômeno mais sofisticado. A instituição consegue estabelecer relações eficientes com poderes politicamente diferentes, preservando simultaneamente o discurso de que não possui cor partidária.
Nos anos militares, sua revista falava de “atitude amiga” com militares, senadores e deputados; parlamentares da ARENA eram apresentados como divulgadores da Igreja no Congresso; jovens marchavam em desfiles oficiais; instituições recebiam verbas e apoio; dirigentes conseguiam acesso à Presidência.
Décadas depois, encontramos coral no Planalto com Lula, candidata do PT diante de mais de cem pastores e no microfone da Rádio Novo Tempo, adventistas impondo as mãos sobre Lula e orando por sua vitória eleitoral e, já no presente, novas relações políticas produzindo canais de televisão, recursos, fanfarras, estruturas e emendas para atividades denominacionais.
A fala atribuída por Sandoval a Rafael Rossi talvez seja a chave interpretativa de tudo: a denominação apoia quem está no poder porque entende que nada se faz sem a permissão de Deus. Se essa é a lógica, o comportamento histórico torna-se perfeitamente inteligível. Em vez de fidelidade permanente a uma corrente política, existe fidelidade permanente à estratégia de relacionamento com o poder constituído. Quando o comando muda, muda-se a posição necessária para continuar perto dele.
DIREITA, VOLVER! ESQUERDA, VOLVER!
Voltemos, então, ao pátio dos Desbravadores. Um Clube saudável, ensina a própria Igreja, deve ter Ordem Unida e civismo. O futuro líder aprende a organizar desfile cívico, comandar movimentos e coordenar bandeiras. Em 1976, Desbravadores marcharam com “Somos um Brasil que vai pra frente” e “Amamos a Pátria”. Em 1983, quatrocentos desfilaram a convite do comando militar. Em 2017, oficiais do Exército avaliaram a Ordem Unida adventista. Em 2025, 208 clubes tiveram suas evoluções avaliadas. Em 2026, em Campo Grande, Ordem Unida e fanfarra continuaram entre as provas de uma competição oficial.
É por isso que nossa capa não utiliza um Desbravador por acaso. O líder ao volante simboliza uma organização treinada para marchar, alinhar-se e responder ao comando. No banco da história brasileira cabem generais e presidentes de esquerda porque a documentação mostra que a instituição conseguiu aproximar-se de ambos em épocas diferentes.
Os cartazes “Somos um Brasil que vai pra frente”, “Amamos a Deus” e “Amamos a Pátria” não nasceram da imaginação de um ilustrador; pertencem à memória cívica adventista dos anos militares. E o contraste com as imagens posteriores envolvendo Lula, o PT e a própria Novo Tempo torna a metáfora inevitável.
A Igreja Adventista pode continuar afirmando que não possui partido. Pode continuar ensinando separação entre Igreja e Estado. Pode chamar sua aproximação com governos de “relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder”. Mas seus próprios arquivos, pesquisas acadêmicas, revistas, fotografias, cerimônias, encontros e resultados políticos obrigam a uma pergunta que não desaparece com uma nova declaração oficial. Se para a base vale o apartidarismo, por que para a estrutura tantas vezes vale a proximidade com quem governa?
E talvez por isso nenhuma frase seja mais adequada nesta véspera de 7 de Setembro do que aquela que crianças adventistas aprendem há gerações. Quando o comandante identifica a direção, levanta a voz e todos ajustam imediatamente a posição: “DIREITA, VOLVER! ESQUERDA, VOLVER!” No pátio, é apenas Ordem Unida.
Na política denominacional, depois de Cuba, dos generais, da ARENA, dos ministérios, das verbas, de Erwin Loeschner, de Lula, do PT, da Novo Tempo e das sucessivas declarações de neutralidade, tornou-se uma pergunta histórica: quem dá a voz de comando — e por que a Igreja que vive volvendo continua dizendo que não escolheu direção?





