JEITINHO ADVENTISTA: Apartidarismo “fake” do Sétimo Dia favorece a reeleição de Lula

Enquanto Lula enfrenta enorme resistência entre evangélicos, a Igreja Adventista reforça o silêncio político de pastores, comunicadores e funcionários, desmobiliza justamente o ambiente religioso em que a direita possui vantagem e preserva para a própria instituição o direito de manter “relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder”.

A história do pastor Ezequiel Gomes mostra que essa disciplina já teve consequências concretas: ele perdeu o ministério depois de aparecer numa manifestação pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Há momentos em que a estatística ilumina aquilo que o discurso religioso tenta esconder. Em 17 de setembro de 2026, o Datafolha encontrou uma eleição presidencial nacionalmente apertada: Lula aparecia com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno. Entre os evangélicos, porém, o cenário era completamente diferente: Flávio tinha 48% e Lula apenas 26%, diferença de 22 pontos percentuais, fora da margem de erro desse segmento.

É dentro desse cenário, e não no vazio, que precisamos interpretar a pregação adventista da neutralidade. Quando uma comunidade religiosa participa de um universo eleitoral em que determinado campo político possui vantagem tão grande, silenciar a expressão política dentro das igrejas não produz efeitos simétricos. A desmobilização de um território no qual Lula perde por larga margem favorece sua estratégia de reeleição porque enfraquece precisamente um dos ambientes sociais onde seus adversários encontram maior facilidade para converter identidade religiosa em mobilização eleitoral.

É essa realidade que transforma o chamado apartidarismo em algo politicamente muito mais concreto do que a palavra sugere. Em junho, a Folha de S.Paulo publicou reportagem com um título que praticamente entregava o problema: “Igreja Adventista reforça neutralidade política em meio a avanço bolsonarista”. Jorge Rampogna, diretor de Comunicação da IASD na América do Sul, confirmou que a proximidade das eleições de 2026 era uma das razões para a reafirmação da posição denominacional.

A própria reportagem lembrou manifestações conservadoras no ambiente adventista, referências positivas a Bolsonaro, a presença de Hamilton Mourão numa aula magna do UNASP e outros sinais de uma base religiosa atravessada pelo mesmo conservadorismo político que marca parcela expressiva do evangelicalismo brasileiro. Portanto, quando a Igreja resolve apertar o freio exatamente neste momento, não está interrompendo uma disputa equilibrada dentro de uma comunidade politicamente indiferente. Está administrando uma comunidade na qual a direita possui força considerável, ao mesmo tempo em que o candidato governista precisa desesperadamente diminuir sua rejeição entre evangélicos.

Lula descobriu as virtudes do silêncio religioso

Do outro lado dessa história está Lula, que acaba de descobrir publicamente as vantagens de uma igreja politicamente silenciosa. No encontro com pastores evangélicos em 16 de setembro, afirmou que não utiliza igreja como espaço de comitê e que, quando quer fazer política, faz na rua. A fala seria apenas uma defesa convencional da separação entre religião e campanha se não estivesse ocorrendo no exato momento em que o PT desenvolve uma operação direcionada ao eleitor evangélico. A Folha registrou que o partido lançou material específico intitulado “Por que votamos em Lula?”, recorrendo a passagens bíblicas, argumentos religiosos e uma estratégia voltada a reverter a rejeição ao presidente nesse segmento

Lula pede que a igreja não seja comitê enquanto seu próprio partido cria uma campanha especializada para conquistar quem está sentado dentro dela. É uma divisão de trabalho eleitoral bastante conveniente: o púlpito adversário fica desarmado, enquanto a campanha presidencial permanece inteiramente livre para abordar o mesmo fiel fora do templo.

A vantagem política dessa fórmula fica ainda mais evidente quando olhamos novamente os números. Lula disputa voto a voto no conjunto nacional, mas perde amplamente entre evangélicos.

Portanto, toda norma religiosa que reduza a circulação pública de preferências políticas conservadoras dentro das igrejas beneficia objetivamente o candidato que começa em posição inferior naquele território. Ele não precisa converter o púlpito em palanque petista; basta que o púlpito deixe de funcionar como multiplicador espontâneo do campo que domina eleitoralmente esse público. O silêncio, nessas condições, também tem direção política.

O documento de 2026 disciplina a base e preserva a instituição

O texto oficial votado pela Divisão Sul-Americana em 6 de maio de 2026 é extraordinariamente revelador porque define com grande precisão quem deve ficar calado e quem continuará autorizado a conversar com o poder. Logo na introdução, a Igreja declara que pretende desenvolver “relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder”. Depois vêm as restrições: templos, escolas, hospitais, sedes administrativas e demais instituições não podem ser utilizados para promover candidatos; pastores, obreiros, jubilados credenciados e funcionários não devem organizar encontros político-partidários em ambientes públicos ou privados; apresentadores da Novo Tempo, jornalistas, editores, assessores de comunicação e outros servidores são orientados a evitar declarações que demonstrem preferência por ideologias, candidatos ou partidos; nas redes sociais, pessoas com vínculo religioso, missionário ou laboral com a organização são orientadas a não publicar nem encaminhar manifestações de política partidária ou opções eleitorais.

Temos, portanto, uma engenharia bastante peculiar. O pastor controla a própria boca. O comunicador controla o perfil nas redes sociais. O funcionário deve vigiar o que compartilha. O templo não pode ser utilizado para mobilização. A instituição, contudo, preserva expressamente sua política de relacionamento com “instâncias de poder”. Não se trata de ausência de política; trata-se da concentração do relacionamento político nos níveis em que a própria organização considera legítimo exercê-lo. É por isso que chamamos esse mecanismo de apartidarismo fake do Sétimo Dia: não porque exista uma ficha partidária escondida na sede da Divisão, mas porque a imagem de distância da política não corresponde à prática de uma organização que reconhece como necessária a interlocução com autoridades, governos e estruturas estatais enquanto disciplina severamente a manifestação política de quem está na base de sua máquina religiosa.

A velha orientação já sabia que político adventista era útil

O artigo acadêmico de Kevin Willian Kossar Furtado, publicado pela UFPR em 2021 e baseado em décadas da Revista Adventista, ajuda a desmontar a ideia de que neutralidade significaria desinteresse pelo resultado político. O estudo mostra que a formulação clássica de Alberto Timm defendia oficialmente uma Igreja apolítica e sem bandeiras partidárias, mas reconhecia simultaneamente que a “influência positiva de políticos adventistas” havia sido decisiva para estabelecer legislações favoráveis à observância do sábado. O próprio pesquisador observa que essa atuação podia gerar autobenefícios religiosos para a denominação.

A antiga orientação ia ainda mais longe. O adventista era ensinado a considerar ideologia, crenças, estilo de vida e propostas dos candidatos e a preferir aqueles mais próximos dos princípios da Igreja. Entre os critérios estavam liberdade religiosa, observância do sábado, conduta moral, temperança e apoio ao sistema educacional privado mantido pela IASD.

Em outra passagem analisada pelo estudo, o pastor Márcio Costa foi ainda mais explícito ao comparar candidatos de posições morais opostas e afirmar: “Se assuntos morais são o divisor de águas da eleição, devemos nos posicionar.” O voto foi apresentado como instrumento capaz de representar a própria vontade de Deus.

Essa memória é indispensável para compreender o presente. Durante anos, ensinou-se ao adventista que sua identidade religiosa deveria influenciar diretamente a escolha eleitoral. Em 2026, o documento oficial reduziu essas referências específicas e passou a enfatizar a “consciência individual”. A própria análise publicada pela Revista Zelota observa que a versão nova retirou referências explícitas a família e outros critérios morais anteriormente utilizados e condensou a orientação de voto numa linguagem mais neutra.

O resultado é curioso: a instituição que ajudou a formar uma base politicamente conservadora passa, no momento em que o conservadorismo evangélico se transforma em obstáculo eleitoral para Lula, a enfatizar o silêncio institucional e a despartidarização da expressão pública.

A história de Ezequiel mostra que esse silêncio já custou emprego

É aqui que o caso do pastor Ezequiel Gomes se torna indispensável. Ele não é uma hipótese teórica sobre aquilo que poderia acontecer com um pastor politicamente exposto; é um precedente. Segundo a reconstrução publicada pela Revista Zelota, Ezequiel era capelão da Rádio Novo Tempo em Novo Hamburgo e participava publicamente de debates políticos. Durante as manifestações favoráveis ao impeachment de Dilma Rousseff, uma fotografia publicada pelo jornal Zero Hora mostrou o pastor no protesto. Depois disso, a comissão diretiva local decidiu demiti-lo, numa decisão associada à orientação denominacional que desaconselhava a participação de pastores nesse tipo de manifestação.

O próprio Adventistas.com registrou posteriormente sua versão do episódio sob um título inequívoco: “TV Adventista: Ex-pastor conta que foi excluído do ministério por apoiar impeachment de Dilma”.

O caso acabou produzindo aquilo que pastores passaram informalmente a chamar de “Lei Ezequiel”. Em 2017, a IASD acrescentou ao documento político uma seção específica sobre manifestações públicas, proibindo a participação de pastores, obreiros e funcionários em atos político-partidários. A Zelota reconstrói essa genealogia e observa que a norma surgiu depois da demissão de Ezequiel, quando o crescimento dos protestos brasileiros obrigou a organização a criar uma regra formal para aquilo que já havia sido aplicado administrativamente na prática.

A cronologia é politicamente incômoda. Um pastor participa de protesto contra Dilma Rousseff, aparece no jornal e perde o ministério. Depois a organização cria uma norma que passa a impedir formalmente esse tipo de participação. Não estamos falando de alguém distribuindo santinhos no púlpito, utilizando dízimo numa campanha ou transformando a Rádio Novo Tempo em comitê eleitoral. Estamos falando de presença pessoal numa manifestação pública contra um governo. O apartidarismo, nesse episódio, teve nome, fotografia e consequência trabalhista.

A “Lei Ezequiel” saiu do papel, mas o medo ficou

Em maio de 2026, a DSA retirou do documento a seção específica sobre manifestações públicas. A proibição textual que havia ficado conhecida como “Lei Ezequiel” desapareceu. Mas o próprio levantamento da Zelota mostrou que isso não significou libertação automática dos pastores. Ministros entrevistados disseram que associações continuavam adotando orientações rígidas, que muitos colegas permaneciam receosos de se manifestar e que, na prática, a ambiguidade deixava enorme poder nas mãos dos administradores locais. Um dos entrevistados resumiu o temor perguntando se seria demitido caso comparecesse a uma manifestação contra a escala 6×1; outro explicou que, em situações ambíguas, prevalece a vontade de quem ocupa o poder administrativo.

O texto formal mudou, portanto, sem apagar a cultura administrativa construída durante anos. E as outras restrições permaneceram. O documento atual continua impedindo promoção eleitoral em instituições, reuniões partidárias organizadas por obreiros e manifestações políticas nas redes sociais de pessoas vinculadas à organização.

Isso explica por que o fim nominal da “Lei Ezequiel” não elimina o efeito disciplinador. O pastor sabe que seu emprego depende de uma estrutura hierárquica; conhece a história de quem já perdeu o ministério; sabe que sua postagem pode ser associada à denominação; e sabe que sua associação local possui enorme margem para interpretar aquilo que considera imprudência política. O silêncio não precisa mais estar inteiramente escrito numa cláusula quando já foi incorporado à cultura profissional.

O problema nunca foi política, mas quem controla a política

O contraste fica ainda mais evidente quando voltamos ao documento oficial. A Igreja afirma que não possui bancada parlamentar e não trabalha para formar uma. Ao mesmo tempo, historicamente reconheceu que políticos adventistas podem ser decisivos para legislações favoráveis ao sábado, recomendou a escolha de representantes alinhados a seus valores e hoje declara formalmente que precisa desenvolver relações saudáveis com as instâncias de poder. Não há despolitização nisso. Existe uma definição institucional sobre quais modalidades de política são aceitáveis.

Quando a Igreja conversa com autoridades, chama-se relacionamento institucional. Quando um político adventista trabalha por legislação sabática, sua influência pode ser considerada positiva. Quando organizações adventistas buscam recursos públicos, concessões ou proteção jurídica, isso é tratado como exercício legítimo de cidadania institucional. Quando um pastor vai para a rua protestar contra Dilma, entretanto, a história registra uma demissão que depois ajudaria a batizar uma regra restritiva. O apartidarismo, observado dessa maneira, deixa de parecer uma fronteira entre religião e política e passa a funcionar como fronteira entre a política controlada pela administração e a política praticada autonomamente pelo indivíduo.

Por que isso favorece Lula

É justamente aí que o mecanismo encontra a eleição de 2026. Lula tem enorme dificuldade entre evangélicos. Flávio Bolsonaro aparece com 48% nesse segmento, contra 26% do presidente, enquanto a disputa nacional permanece apertada. Ao mesmo tempo, Lula pede publicamente que igrejas não se tornem espaços políticos, e o PT desenvolve uma campanha própria para convencer evangélicos a votar no presidente. A IASD, por sua vez, reforça exatamente a disciplina que retira do ambiente religioso a manifestação eleitoral espontânea de pastores e trabalhadores religiosos. O efeito é assimétrico: reduz-se o potencial de mobilização justamente no campo social em que Lula está muito atrás.

Não é necessário que a Igreja diga “vote em Lula”. Para favorecer a estratégia de reeleição do presidente, basta desativar parte da vantagem organizacional de seus adversários no universo religioso. Um pastor conservador silencenciado vale politicamente mais para Lula do que um pastor lulista silencenciado quando a proporção eleitoral do segmento é 48% a 26%. O cálculo decorre da própria distribuição dos votos. A neutralidade pode ser igual na redação do regulamento, mas seus efeitos são diferentes quando aplicada sobre uma comunidade politicamente desigual.

E o PT parece compreender perfeitamente a importância desse território. Sua campanha específica para evangélicos não pede que o presidente abandone política religiosa; faz o contrário. Utiliza linguagem bíblica, organiza candidaturas evangélicas, cria material para esse eleitor e procura estabelecer canais de diálogo fora dos espaços em que lideranças conservadoras possuem maior influência. O “não faça política na igreja” funciona, portanto, como uma espécie de desarmamento unilateral do ambiente onde Lula perde, enquanto sua própria estrutura partidária permanece livre para disputar aquele eleitor em todos os outros espaços.

O apartidarismo do Sétimo Dia encontrou seu candidato ideal

Há uma ironia histórica difícil de ignorar. O pastor Ezequiel perdeu o ministério depois de participar de uma manifestação contra Dilma. Anos depois, no momento em que outro presidente petista busca a reeleição enfrentando forte resistência evangélica, a mesma organização insiste que seus pastores, comunicadores e funcionários mantenham distância da manifestação partidária enquanto preserva para si o relacionamento com as “instâncias de poder”. O nome muda, o documento muda, a seção sobre manifestações desaparece, mas permanece o princípio administrativo segundo o qual a direção da Igreja decide quando a política é relacionamento legítimo e quando se transforma em ameaça à missão.

É por isso que o Apartidarismo fake do Sétimo Dia favorece a reeleição de Lula. Favorece porque esfria a expressão política no ambiente em que o presidente encontra sua maior resistência; favorece porque disciplina uma base religiosa majoritariamente mais receptiva ao campo adversário; favorece porque retira dos pastores e comunicadores a capacidade de transformar influência religiosa em mobilização eleitoral enquanto o PT continua autorizado, como qualquer partido, a entrar nesse mesmo universo pela propaganda, pelas redes sociais e pelas articulações políticas; favorece porque a neutralidade administrada dentro de uma comunidade eleitoralmente desequilibrada nunca produz consequências neutras.

A IASD pode continuar dizendo que não possui partido. Lula pode continuar dizendo que não quer igreja transformada em comitê. Ambos estarão formalmente corretos dentro das definições que escolheram. Mas a questão que nos interessa é outra: quem ganha quando a comunidade religiosa em que Lula perde por 22 pontos é ensinada a calar sua preferência justamente no momento decisivo da eleição?

A resposta está menos no Manual da Igreja do que na urna.






Apartidarismo “fake” do Sétimo Dia — Parte 2: A regra mudou, mas as pontes com o poder continuam

Em 2026, a IASD retirou justamente a seção que proibia pastores e funcionários de participar de manifestações públicas. Mas isso não tornou a relação adventista com a política menos intrigante.

Enquanto a antiga “Lei Ezequiel” desaparece, permanecem a WAPOA ligada à estrutura mundial da Igreja, candidatos adventistas prometendo recursos para ADRA e Educação Adventista, um deputado prestando contas de milhões e dezenas de canais da Novo Tempo, relações históricas com Lula e o PT, convênios com governos e um presidente que, ao mesmo tempo em que pede política fora das igrejas, explica o vermelho petista pelo sangue de Cristo e a própria barba pela barba de Jesus.

Precisamos começar corrigindo definitivamente um ponto, porque ele muda bastante a fotografia de 2026. O novo documento Os adventistas e a política, votado pela Divisão Sul-Americana em 6 de maio, não reforçou a antiga proibição de participação em manifestações públicas. Fez exatamente o contrário nesse aspecto: eliminou a seção inteira que tratava do assunto. A Folha de S.Paulo chamou atenção expressamente para a alteração, registrando que a IASD removeu as instruções anteriores sobre manifestações e anunciou que o tema seria abordado posteriormente. A ausência da antiga regra produziu dúvidas entre os próprios adventistas. O documento atual continua estabelecendo limites importantes: templos e instituições não podem promover candidatos; pastores, funcionários e obreiros não devem organizar reuniões político-partidárias, mesmo em ambientes públicos ou privados; quem passa a trabalhar profissionalmente com política partidária deve se desvincular da organização; e pessoas com vínculo religioso, missionário ou laboral são orientadas a não publicar nas redes sociais opiniões partidárias ou opções de candidatos. Mas ir pessoalmente a uma manifestação pública já não aparece como proibição.

A história de Ezequiel Gomes e a regra que desapareceu

O caso do pastor Ezequiel Gomes ajuda a perceber como a própria política adventista sobre manifestações públicas foi sendo construída e depois modificada. Em 2015, quando cresciam no Brasil os protestos favoráveis ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff, Ezequiel, que atuava como capelão da Rádio Novo Tempo em Novo Hamburgo, participou de uma dessas manifestações e apareceu numa fotografia publicada pela imprensa gaúcha. Três anos depois, o próprio Adventistas.com registrou sua versão do episódio sob o título “Ex-pastor conta que foi excluído do ministério por apoiar impeachment de Dilma” e, em publicação posterior, afirmou que ele havia perdido a credencial por participar de uma manifestação favorável ao afastamento da presidente.

O detalhe histórico importante é que, naquele momento, a IASD ainda não possuía no documento político uma seção específica e detalhada sobre manifestações públicas. Essa formalização veio depois. Em novembro de 2017, a própria Agência Adventista de Notícias anunciou que o Concílio Anual da Igreja havia aprovado uma nova versão do documento Os adventistas e a política e destacou como uma das principais novidades justamente a “não participação em manifestações políticas”. Hélio Carnassale explicou que a seção havia sido acrescentada porque as manifestações haviam crescido muito no país e a Igreja ainda não possuía “uma orientação clara a respeito desse assunto”.

Temos, portanto, uma sequência bastante reveladora. Primeiro veio o conflito concreto: um pastor adventista participa de um protesto contra Dilma, torna-se publicamente identificado com aquela manifestação e perde o ministério. Depois, a Igreja transforma a questão em norma geral e acrescenta ao documento oficial um tópico específico sobre manifestações públicas. A partir dali, a orientação deixou de depender apenas da interpretação administrativa de cada caso e passou a integrar formalmente a política denominacional para a América do Sul. Em 2018, quando a IASD voltou a divulgar o documento às vésperas das eleições, a norma de 2017 continuava sendo apresentada como referência oficial.

Em 2020, a Igreja atualizou novamente o texto e acrescentou controles mais claros sobre atividades diretamente ou indiretamente ligadas à política partidária, incluindo assessoria, propaganda e publicidade para pastores e obreiros, além de novas orientações relativas às manifestações em redes sociais. Assim, aquilo que começara como uma controvérsia concreta envolvendo um pastor foi se transformando, ao longo dos anos, num sistema mais amplo de regulamentação da expressão política de quem mantinha vínculo funcional com a denominação.

Então veio a mudança de 2026. Na atualização aprovada em maio, a Divisão Sul-Americana reafirmou a neutralidade partidária institucional e manteve várias restrições referentes à atividade político-partidária, mas removeu as orientações específicas sobre manifestações públicas. A própria comunicação oficial da IASD reconheceu que esse foi um dos três pontos centrais da revisão e informou que o assunto seria tratado posteriormente em outros documentos. A Folha de S.Paulo também percebeu a mudança e registrou que a retirada das antigas instruções provocou dúvidas entre membros sobre os novos limites de participação em protestos.

É isso que torna o episódio de Ezequiel especialmente interessante hoje. O pastor foi afastado num contexto em que a Igreja ainda não possuía uma regra documental específica sobre manifestações; dois anos depois, a IASD criou justamente essa regra; e, onze anos após o episódio, decidiu retirar a seção do documento. A proibição que passou a simbolizar aquele tipo de caso já não está no texto de 2026. Permanecem limites contra militância partidária organizada, uso das instituições para campanha e envolvimento profissional de obreiros com estruturas político-partidárias, mas a simples participação pessoal numa manifestação pública já não aparece naquela antiga forma de vedação.

Por isso, a história de Ezequiel não deve ser apresentada como prova de que a Igreja hoje proíbe manifestações. Ela mostra algo mais importante: como a IASD primeiro puniu um comportamento, depois o transformou em matéria de regulamentação denominacional e, finalmente, retirou essa regulamentação específica onze anos mais tarde. O caso permanece como uma fotografia histórica de quanto as fronteiras do chamado apartidarismo adventista podem mudar conforme o momento político.

A regra mudou, mas a política não desapareceu

A retirada da proibição ajuda a mostrar como o chamado apartidarismo adventista é historicamente móvel. Não estamos diante de um princípio operacional imutável descido pronto do céu. A formulação se adapta às circunstâncias, ganha itens, perde itens e redefine fronteiras. A versão de 2026 diz que a Igreja adota postura sem filiação partidária, não possui nem mantém partidos, não repassa recursos denominacionais a essas organizações, não permite que templos e instituições sejam usados em propaganda eleitoral e declara que não possui bancada parlamentar nem investe na formação de lideranças partidárias. Ao mesmo tempo, abre o documento afirmando que pretende cumprir seus deveres institucionais e individuais “desenvolvendo relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder”.

É nessa frase que começa a parte mais interessante da nossa investigação. Apartidarismo não significa isolamento político. A própria IASD nunca precisou chegar tão longe. O estudo acadêmico de Kevin Willian Kossar Furtado, publicado em 2021 e baseado em décadas da Revista Adventista, mostra que a denominação historicamente combinou duas ideias: rejeição da militância partidária institucional e reconhecimento da utilidade política de adventistas eleitos. Alberto Timm, numa formulação examinada pelo pesquisador, sustentava a postura oficialmente apolítica da denominação, mas reconhecia que a influência positiva de políticos adventistas havia sido decisiva, em diferentes países, para criar legislações que facilitassem a observância do sábado. Furtado observa que essa influência acabava produzindo benefícios diretamente relacionados aos interesses identitários adventistas.

O eleitor adventista, além disso, nunca foi historicamente ensinado a ser indiferente às ideias dos candidatos. A orientação reproduzida na literatura denominacional recomendava considerar ideologia, crenças, estilo de vida e propostas políticas, com atenção a liberdade religiosa, observância do sábado, conduta moral, temperança e até apoio ao sistema educacional privado mantido pela Igreja.

Em outro texto analisado por Furtado, Márcio Costa apresentou um exemplo no qual questões morais deveriam orientar a escolha eleitoral e afirmou: “Se assuntos morais são o divisor de águas da eleição, devemos nos posicionar.” A versão atual trocou boa parte dessa linguagem por uma orientação mais enxuta em favor do voto segundo a consciência individual, mas ainda recorre a Ellen White para lembrar que o eleitor deve exercer influência em favor de leis ligadas à temperança, saúde e valores bíblicos.

A Igreja não tem bancada, mas criou uma rede de pessoas no poder

Em 2014, o documento adventista dizia expressamente que a denominação não mantinha bancada de parlamentares em nível municipal, estadual ou federal. No ano seguinte, porém, surgia a Associação Internacional de Pessoas Públicas Adventistas, estrutura criada para conectar adventistas que trabalhavam junto a governos e outras instituições públicas.

A entrevista oficial com Damaris Moura é extraordinária porque dispensa qualquer interpretação conspiratória: ela explica que a associação nasceu justamente de uma “necessidade de relacionamento”, deveria manter unidades alinhadas à estrutura organizacional adventista e possuir conexão com a Associação Geral através do departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa.

Damaris explicou também que essa rede poderia ajudar a solucionar questões por meio do relacionamento de seus membros com os poderes públicos constituídos. Em outras palavras, não era apenas uma associação devocional de adventistas famosos. Tratava-se de colocar em comunicação pessoas que ocupavam posições públicas e que, por estarem nesses espaços, podiam abrir caminhos, intermediar relações e ajudar em necessidades da própria comunidade religiosa. A Igreja pode corretamente dizer que isso não constitui uma bancada partidária; mas a inexistência de bancada não equivale à inexistência de influência organizada. São categorias diferentes. O que os próprios documentos revelam é uma denominação que evita amarrar sua identidade a uma legenda, mas reconhece valor estratégico em possuir adventistas próximos das estruturas de decisão do Estado.

“Adventistas Candidatos” leva essa identidade diretamente para a eleição

Em 2026 surgiu ainda uma iniciativa que, embora declare não ser oficial da IASD, revela quanto a identidade religiosa pode funcionar como identidade eleitoral. O portal Adventistas Candidatos organiza nomes de membros que concorrem a cargos públicos, informa partido, número, cargo, congregação frequentada e até nome do pastor. Alguns deles apresentam como parte explícita de suas propostas o atendimento de demandas ligadas ao mundo adventista. Beto Rodovalho, candidato a deputado federal por São Paulo, é descrito pelo próprio portal como atuante em favor das instituições da IASD e promete trabalhar por concessões de rádio e TV para instituições adventistas, recursos para Desbravadores e Aventureiros, legislação de liberdade religiosa, Quebrando o Silêncio e liberação de recursos para ADRA e educação adventista.

Charles Maurício da Silva, no Rio de Janeiro, é ainda mais explícito sobre a continuidade entre identidade religiosa e projeto de mandato. Seu perfil conta que, a pedido de um pastor responsável pelos jovens, ajudou a aprovar a instituição do Dia da Juventude Adventista do Sétimo Dia. Entre suas propostas atuais aparece literalmente “buscar recursos para nossa ADRA”. O mesmo perfil informa sua congregação e o nome do pastor.

Não se trata de a IASD oficialmente lançar candidatos, e o portal não afirma ser da denominação. O fenômeno é outro: membros criaram uma vitrine eleitoral especificamente adventista, e candidatos nela inscritos anunciam que pretendem usar instrumentos do Estado em favor de projetos valorizados por sua comunidade religiosa.

Artagão Júnior mostra como isso funciona depois da eleição

Se Beto e Charles apresentam promessas, Artagão Júnior apresenta resultados. Em agosto de 2026, o deputado estadual reuniu a comunidade adventista do Paraná para uma prestação de contas de seu mandato. Segundo seu próprio gabinete, destacou como realizações a Lei da Guarda do Sábado, a Lei do Dia dos Desbravadores e legislação relacionada ao direito de visita hospitalar de ministros e anciãos. Na área dos investimentos, relacionou a viabilização de 36 canais da TV Novo Tempo, R$ 200 mil para fanfarras da Associação Norte, mais R$ 400 mil ainda em 2026 para Curitiba e outras associações e R$ 2 milhões em emendas previstas para 2027 para fanfarras, tendas e barracas destinadas a fortalecer atividades da Igreja Adventista no estado.

A trajetória de Artagão também cruza diretamente com o PT. Em julho de 2014, ele participou de uma reunião na sede da Associação Central Paranaense com Gleisi Hoffmann, então senadora e candidata ao governo estadual. Não era visita meramente protocolar. O diretor de expansão da Rede Novo Tempo apresentou à senadora pedidos de concessão de canais; havia, segundo o registro do gabinete, 195 pedidos de novas concessões para municípios paranaenses e vinte localidades foram apresentadas como prioritárias. Estavam presentes presidentes e dirigentes de várias unidades administrativas adventistas. Depois da reunião, Artagão, Gleisi e o diretor de Comunicação da ACP concederam entrevista à Rádio Novo Tempo.

Esse episódio talvez seja um dos melhores exemplos práticos do que significa “relacionamento saudável com as instâncias de poder”. A candidata petista entra numa sede administrativa adventista em ano eleitoral; dirigentes da Igreja apresentam uma demanda que depende do Ministério das Comunicações; um deputado adventista funciona como articulador; e a reunião termina diante do microfone da rádio denominacional. Não é necessário chamar isso de apoio eleitoral a Gleisi, porque a documentação não exige tal conclusão. O que está comprovado é uma relação política concreta entre estrutura religiosa, parlamentar e candidata, mobilizada em torno de um interesse institucional da Novo Tempo.

Damaris e Camila mostram a política transformando programas adventistas em leis

Damaris Moura representa outra modalidade dessa passagem da Igreja para o Estado. Seu próprio perfil eleitoral registra que foi presidente da Federação dos Advogados Adventistas do Brasil e que, como deputada, foi autora da lei que instituiu no estado de São Paulo o Dia da Campanha Quebrando o Silêncio.

O programa nasceu dentro do universo adventista e, através da ação parlamentar de uma adventista, ganhou reconhecimento legal estatal. Não é possível sustentar seriamente que isso seja “ausência de política”. Trata-se justamente da política institucional funcionando para transportar uma iniciativa religiosa para o calendário público.

Camila Godoi, em Itapevi, oferece outro histórico semelhante: propostas relativas ao Dia dos Desbravadores, homenagens a atividades da ADRA e clubes adventistas, iniciativas relacionadas ao Quebrando o Silêncio e à Missão Calebe. O conjunto não precisa ser interpretado como irregularidade; o significado para nossa investigação é outro. Quando membros adventistas chegam ao Legislativo, políticas, campanhas, datas e projetos associados à Igreja podem receber reconhecimento, financiamento ou normatização estatal. A fronteira entre “a Igreja não possui bancada” e “políticos adventistas conseguem resultados úteis para a Igreja” é muito mais porosa do que o membro comum pode imaginar.

Lula e os adventistas já se encontraram muitas vezes

A relação com Lula também não nasceu agora, quando o presidente enfrenta dificuldades eleitorais entre evangélicos. Em abril de 2004, durante seu primeiro mandato, ocorreu uma celebração ecumênica no Palácio do Planalto com participação de um pastor e de um coral adventista. Frei Betto declarou naquele evento que o Fome Zero poderia ser visto como a versão política da multiplicação dos pães e dos peixes. Ao final, Lula cumprimentou participantes e posou com integrantes dos corais.  Era um exemplo precoce de circulação tranquila entre simbolismo cristão, governo petista e presença adventista.

O episódio mais eleitoral veio em Manaus, em 2022. Lula ainda era candidato, Jair Bolsonaro era o presidente e um grupo de adventistas reuniu-se reservadamente com o petista. A fotografia feita por Ricardo Stuckert mostra imposição de mãos e oração sobre Lula; a reportagem recuperada pelo Adventistas.com informa que o grupo orou por sua saúde e por sua vitória eleitoral. Aqui a distinção é importante: não era simplesmente a velha recomendação bíblica de orar pelo governante constituído. Lula estava disputando a Presidência.

No ano seguinte, já presidente, Lula sancionou a Lei nº 14.665, instituindo nacionalmente o Dia dos Desbravadores, celebrado em 20 de setembro. O projeto nasceu no Congresso, mas a sanção presidencial transformou em lei federal uma data diretamente associada a um dos maiores movimentos juvenis adventistas. A própria lei leva as assinaturas de Lula e Flávio Dino.

Novamente, nenhum desses fatos isolados demonstra aliança institucional entre PT e IASD; juntos, porém, mostram que a relação histórica entre adventistas, lideranças petistas e o governo federal é muito mais antiga e multifacetada do que a linguagem de separação absoluta entre religião e política faria supor.

O sábado de Lula tem costelinha de porco e chope

É justamente nesse contexto que uma antiga fala de Lula ganha um sabor particularmente adventista — literalmente. Em discurso oficial de 2010, ele falou de sábado como dia de reunir a família e sugeriu um cardápio de feijoada, torresmo, costelinha de porco e chope. A própria transcrição oficial preserva a brincadeira. Para a cultura adventista, que historicamente desaconselha carne suína e defende abstinência de bebidas alcoólicas, o contraste não poderia ser maior. A Folha lembrou em sua reportagem de junho que a Igreja valoriza dieta vegetariana e pede abstinência de álcool e tabaco.

E, no entanto, o mesmo Lula que oferece para o sábado um cardápio incompatível com dois marcadores clássicos do estilo de vida adventista aparece em outro vídeo recebendo O Grande Conflito das mãos de um adventista, ouvindo uma bênção e a declaração “o Senhor é contigo”. Depois, a apresentadora adventista interpreta o encontro numa chave providencial e chega a recorrer à história bíblica da jumenta de Balaão para defender a possibilidade de Deus utilizar quem quiser. É um retrato interessante da elasticidade da aproximação religiosa: a diferença doutrinária permanece inteira, mas deixa de impedir a celebração simbólica quando o discurso do político é percebido como útil ou amigável.

O vermelho do PT virou sangue de Cristo, e a barba virou barba de Jesus

Dois dias atrás, Lula levou essa capacidade simbólica a outro nível. Diante de pastores evangélicos, contou que durante anos explicava o vermelho do PT usando o sangue de Cristo como comparação. Quando lhe perguntavam pela estrela do partido, dizia que os grandes navegadores utilizavam estrelas como guia; quando perguntavam pela barba, respondia que Jesus Cristo também era barbudo. Na mesma reunião, declarou que se recusa a falar de política dentro de igrejas e que prefere fazer política nas ruas.

É difícil imaginar ilustração melhor da maleabilidade dessa fronteira. Política não deve entrar no templo como comício, diz o presidente; mas símbolos do partido podem ser traduzidos diante de pastores para uma linguagem diretamente cristológica: vermelho vira sangue de Cristo, barba vira lembrança de Jesus. O mesmo encontro ocorreu num momento em que Lula buscava estreitar relações com um eleitorado no qual encontra forte resistência. O Datafolha divulgado em 17 de setembro mostrou Flávio Bolsonaro com 48% entre evangélicos, contra 26% de Lula, diferença superior à margem de erro desse segmento. Não é necessário atribuir uma motivação secreta ao discurso para perceber a importância objetiva dessa audiência no calendário eleitoral.

Quando o dinheiro público encontra instituições adventistas

O relacionamento com o Estado também aparece em números. O Portal da Transparência registra a ADRA Distrito Federal, filial da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais do Centro-Oeste, como favorecida por R$ 599.965,70 em recursos do Governo Federal.

Na área hospitalar, a Instituição Adventista Centro-Oeste de Promoção à Saúde, responsável pelo Hospital Adventista do Pênfigo — Unidade Centro, em Campo Grande, aparece como favorecida por R$ 5.881.491,68 e com contratos firmados com o Poder Executivo Federal. O Hospital Adventista de Belém, por sua vez, aparece com R$ 2.768.931,72 em recursos recebidos e contratos federais.

Esses valores não demonstram apoio eleitoral nem irregularidade, e tratá-los dessa forma seria falsificar o documento. Hospitais, entidades assistenciais e organizações religiosas podem legitimamente executar projetos e serviços públicos financiados pelo Estado. Mas os números demonstram algo essencial para esta investigação: separação entre Igreja e Estado nunca significou ausência de relações financeiras, administrativas ou regulatórias. A IASD e entidades de seu ecossistema celebram convênios, executam políticas públicas, recebem recursos, mantêm contratos e dependem de decisões estatais para diferentes atividades. Isso exige diálogo com autoridades — exatamente aquilo que o documento atual chama de relacionamento saudável com as instâncias de poder.

A Novo Tempo depende justamente desse relacionamento

Poucos setores demonstram isso tão claramente quanto a comunicação. Uma rede de televisão religiosa que depende de autorizações e retransmissoras abertas inevitavelmente precisa conversar com o Estado. É nesse contexto que a reunião de 2014 com Gleisi Hoffmann ganha seu verdadeiro peso. A Novo Tempo não estava pedindo uma bênção espiritual: apresentava questões de concessão pública. Havia 195 pedidos, vinte municípios prioritários e uma reunião repleta de administradores adventistas. Doze anos depois, Artagão Júnior apresenta à comunidade como realização política de seu mandato a viabilização de 36 canais da mesma rede.

A sequência é quase didática. A denominação diz que não possui bancada. Um adventista eleito atua politicamente. Uma liderança petista participa de reunião com dirigentes da Igreja. A pauta envolve concessões estatais para uma emissora denominacional. Anos depois, o parlamentar adventista presta contas à própria comunidade apresentando dezenas de canais como resultado de sua atuação. Nada disso exige partido oficial da Igreja. O poder funciona perfeitamente sem ele.

O apartidarismo é mais complexo do que ausência de partido

É aqui que a expressão “apartidarismo fake do Sétimo Dia” precisa ser entendida em sua acepção editorial precisa. O “fake” não está na afirmação de que a Igreja não possui formalmente um partido. O documento atual confirma que não possui. Também não está em dizer que todos os adventistas votam da mesma maneira — não votam. A contradição aparece quando apartidarismo é vendido como se significasse distância da política e do poder, enquanto a documentação revela outra coisa: políticos adventistas úteis para legislações específicas, uma associação internacional de pessoas públicas ligada à estrutura denominacional, candidatos identificados pela congregação e pastor, propostas explícitas de recursos para ADRA e Educação Adventista, emendas destinadas a atividades da Igreja, articulação de concessões da Novo Tempo, projetos denominacionais transformados em leis e relações administrativas constantes com governos.

A própria mudança de 2026 reforça essa leitura. A IASD retirou a antiga proibição específica sobre manifestações públicas — portanto, hoje um pastor não pode ser automaticamente enquadrado pela mesma cláusula que vigorou depois do caso Ezequiel —, mas conservou normas contra propaganda eleitoral dentro de suas instituições, contra reuniões político-partidárias organizadas por seus servidores, contra atuação profissional partidária sem desligamento e contra manifestações partidárias nas redes sociais de pessoas vinculadas à estrutura. Ao mesmo tempo, manteve intacta a declaração de que pretende desenvolver relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder.

E Lula aparece exatamente no meio dessa mudança

Em 2026, Lula está justamente no ponto em que essas duas histórias se cruzam. O presidente afirma diante de pastores que não transforma igreja em comitê político, enquanto utiliza sangue de Cristo, estrela e barba de Jesus para explicar a simbologia do próprio partido.

Ele já recebeu adventistas que oraram por sua vitória eleitoral, já sancionou o Dia Nacional dos Desbravadores e governa um Estado que mantém convênios, contratos e políticas públicas com entidades adventistas. Ao mesmo tempo, enfrenta grande desvantagem entre evangélicos no levantamento Datafolha mais recente.

Esse conjunto não prova coordenação entre Lula e IASD, mas fornece o cenário concreto no qual a discussão sobre os efeitos do apartidarismo precisa ser feita. A Igreja não precisa pedir votos para o presidente para que suas regras internas produzam consequências políticas; tampouco precisa apoiar seus adversários para que a cultura conservadora de parte expressiva dos evangélicos influencie as urnas. O fenômeno real é mais complexo: uma instituição religiosa administra o quanto sua estrutura pode ser utilizada eleitoralmente, ao mesmo tempo em que preserva canais amplos de relacionamento com qualquer governo de que dependa para executar sua missão.

O poder não saiu da Igreja; apenas mudou de porta

Vistos em conjunto, Ezequiel, a retirada da antiga proibição de manifestações, a WAPOA, Damaris, Artagão, Beto Rodovalho, Charles Maurício, Gleisi Hoffmann, Novo Tempo, ADRA, hospitais, coral no Planalto, oração por Lula em Manaus, Dia Nacional dos Desbravadores, porco no sábado, sangue de Cristo no vermelho do PT e barba de Jesus não são episódios idênticos. Alguns são atos institucionais, outros são ações individuais, outros dependem de recursos públicos, outros são encontros políticos ou simples discursos. Misturá-los como se fossem uma única operação seria empobrecer a investigação.

O valor deles aparece justamente quando preservamos as diferenças e observamos o padrão: a política nunca esteve ausente do adventismo brasileiro; ela foi classificada, canalizada e legitimada de maneiras diferentes conforme quem age e para qual finalidade. Uma manifestação podia custar caro a um pastor. Hoje essa proibição específica desapareceu. Um candidato não pode pedir voto no púlpito, mas pode disputar o mandato dizendo que buscará recursos para a ADRA. Um político adventista não representa oficialmente a Igreja, mas pode prestar contas de milhões em emendas e dezenas de canais da Novo Tempo destinados à comunidade. A denominação não possui bancada, mas criou uma rede internacional para pessoas adventistas em posições públicas. A Igreja não se filia a partidos, mas anuncia oficialmente que cultivará relações com as instâncias de poder.

Talvez seja esse o verdadeiro “jeitinho adventista”: não retirar a política da Igreja, mas decidir em que momento ela se chama partidarismo, relacionamento institucional, liberdade religiosa, missão, concessão, convênio, emenda ou influência positiva.

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