
A história reconstruída da parceria adventista com a Revolução Cubana: as células organizadas antes do desembarque do Granma, a rede de Argelio Rosabal, os bastidores da mudança de Washington, o Colegio de las Antillas, a relação de Tad Szulc com a CIA e a revelação publicada na Colômbia em 1986 de que Fidel escondia dos próprios aliados o projeto político que preparava para Cuba
A história que nos ensinaram a enxergar em pedaços precisa ser recolocada na mesma linha do tempo. Argelio Rosabal não pode continuar isolado de sua comunidade adventista; sua comunidade não pode continuar isolada das redes organizadas no Oriente para receber Fidel Castro quando ele retornasse do México; o auxílio aos sobreviventes do Granma não pode continuar separado do que depois aconteceu no Colegio de las Antillas; Walton J. Brown não pode ser colocado numa gaveta diferente daquela em que guardamos o relacionamento da instituição adventista com os homens que acabavam de derrotar Batista; e tudo isso não pode ser examinado sem levar em conta o que acontecia paralelamente em Washington.
Quando recompomos a sequência, o que aparece é muito maior que uma coleção de atos humanitários praticados por religiosos bondosos. Aparece uma rede organizada, uma liderança eclesiástica local capaz de colocar irmãos em movimento, uma estrutura denominacional que depois aprofundaria relações com os revolucionários e um ambiente político norte-americano em que Batista ia perdendo apoio exatamente enquanto Fidel consolidava as condições para tomar o país.
É nesse sentido que utilizamos aqui as palavras parceria e cumplicidade: não como sinônimo de identidade ideológica entre todos os envolvidos, mas para designar participação consciente e continuada numa estrutura que protegia, abastecia, escondia e movimentava homens de uma força revolucionária empenhada em conquistar o poder.

Antes de Fidel chegar, havia gente esperando por ele
Fidel Castro não saiu do México em novembro de 1956 para jogar oitenta e dois homens numa costa desconhecida e descobrir depois, por acaso, quem lhes daria água, comida, esconderijo e direção. O retorno foi preparado. Frank País havia construído no Oriente uma poderosa estrutura clandestina, e em 1956 viajou ao México para discutir com Fidel os detalhes finais da volta à ilha. A preparação tinha duas dimensões complementares: nas cidades, células encarregadas de ação, sabotagem, armamento e mobilização; no campo, contatos capazes de receber os homens que desembarcariam, fazê-los desaparecer da vista do Exército e conduzi-los em direção à Sierra Maestra. Celia Sánchez foi incumbida de preparar as condições para a expedição, e Crescencio Pérez tornou-se peça fundamental na construção dessa malha rural.
Fontes sobre a preparação do desembarque registram que Crescencio percorreu a região e consolidou colaboradores em localidades situadas na rota que os expedicionários deveriam seguir. Quando o Granma chegou atrasado em 2 de dezembro e a coluna foi destruída e dispersada em Alegría de Pío poucos dias depois, não foi necessário inventar uma rede de sobrevivência. A rede foi ativada.
Esse dado precisa permanecer diante de nossos olhos porque muda completamente a leitura de tudo o que acontece depois. A preparação do retorno de Fidel era suficientemente ampla para envolver militantes urbanos, camponeses, mensageiros, esconderijos, rotas, transporte, pontos de apoio e colaboradores que não precisavam conhecer todos os detalhes da operação para saber qual seria sua função quando os homens aparecessem. A clandestinidade funciona exatamente assim: compartimenta-se a informação, mas prepara-se a tarefa.
Um colaborador pode não saber a data exata do desembarque nem o nome de todos os comandantes e, ainda assim, estar inserido numa estrutura cuja finalidade é receber, esconder e encaminhar revolucionários. Por isso, declarações retrospectivas do tipo “eu não sabia quando Fidel chegaria” não anulam necessariamente a existência de preparação prévia. O que determina a natureza de uma rede não é se cada participante conhecia o plano completo, mas se possuía função, contatos, procedimentos e capacidade operacional quando o plano entrou em ação.
É nesse território preparado que aparece “El Pastor”
Argelio Rosabal aparece justamente nesse ambiente. E aparece não como um indivíduo socialmente solto, mas como liderança de uma comunidade adventista. Era dirigente da igreja, dirigia a Escola Sabatina, participara da organização da congregação e era reconhecido religiosamente entre os seus. É nesse sentido que precisamos compreender o nome pelo qual ficou conhecido: “El Pastor”.
A discussão burocrática posterior sobre não possuir ordenação denominacional formal desvia do essencial. Rosabal exercia função pastoral concreta entre os membros: liderança, orientação, autoridade moral e capacidade de mobilização. Quando Che Guevara o registra como “un adventista llamado Argelio Rosabal a quien todos conocían como El Pastor”, a frase descreve um homem que já possui uma identidade reconhecida, não um desconhecido a quem a guerrilha resolve dar um apelido pitoresco. A comunidade conhecia o pastor antes que a historiografia posterior começasse a discutir se sua credencial ministerial caberia ou não num arquivo denominacional.

Essa liderança é fundamental porque explica o que acontece quando os sobreviventes aparecem. Rosabal não oferece apenas comida. Ele movimenta gente. Outros adventistas são chamados, homens são distribuídos entre pessoas de confiança, roupas são providenciadas, casas servem de esconderijo, contatos são acionados, mensagens circulam e guerrilheiros são retirados quando determinado lugar se torna perigoso. A rede possui memória, confiança e disciplina. É exatamente isso que uma força revolucionária perseguida necessita.
A diferença entre um prato de comida e uma estrutura clandestina está na continuidade: quem apenas socorre alguém alimenta e se despede; quem participa de uma rede precisa saber a quem recorrer, onde esconder, para onde enviar, quem pode ser avisado, quem pode receber o próximo homem e o que fazer quando a polícia ou o Exército se aproximarem.
Quando colocamos lado a lado a estrutura que vinha sendo preparada para o retorno de Fidel e a atuação concreta dos adventistas comandados por Rosabal, as funções se encaixam: receber, esconder, vestir, alimentar, informar e encaminhar. É por isso que a leitura desta investigação vai além da expressão “apoio”.
Apoio pode ser eventual. Aqui encontramos uma comunidade que atua dentro de uma cadeia de sobrevivência revolucionária. O que chamamos de parceria nasce exatamente dessa integração funcional. Os adventistas não precisavam participar das reuniões estratégicas do Movimento 26 de Julho nem conhecer o desenho político final de Fidel para desempenhar papel decisivo na preservação física dos homens que estavam tentando chegar à Sierra Maestra.
Não eram indivíduos que por acaso frequentavam uma igreja
A reconstrução posterior conseguiu diminuir esse fato por meio de uma operação de linguagem extremamente simples: separar os membros da instituição. Rosabal vira “um leigo”; os demais passam a ser “alguns adventistas”; suas ações tornam-se “gestos individuais”; e a Igreja desaparece da cena. Mas uma igreja local não existe apenas quando recebe ordem impressa de uma sede administrativa.
Ela existe nas pessoas que a compõem, no dirigente que convoca, na confiança estabelecida entre seus membros, nas casas que se abrem, nos recursos que circulam e na autoridade que faz quinze ou vinte pessoas se moverem em torno de uma tarefa. Naquela região, Rosabal e seus irmãos não eram uma associação paralela formada por pessoas que, por coincidência, guardavam o sábado. Eram a Igreja naquele lugar.
A importância dessa constatação aumenta quando observamos o que acontece anos depois. Rosabal não é tratado pela denominação como aventureiro perigoso cuja relação com Che deveria ser rejeitada. Ao contrário, o acesso construído durante a guerra ganha utilidade institucional. Quando a Igreja precisa tratar de questões relacionadas ao serviço militar no novo regime, Rosabal integra a aproximação com Che Guevara.
Aquilo que fora construído na clandestinidade transforma-se em capital político. É difícil sustentar ao mesmo tempo que as relações de Rosabal eram puramente particulares quando davam suporte à guerrilha e suficientemente institucionais quando podiam ajudar a denominação diante do governo revolucionário. A fronteira entre “ação individual” e “utilidade denominacional” muda conforme a conveniência histórica.

Santa Clara mostra que a história não terminou na Sierra Maestra
Dois anos mais tarde, o padrão reaparece em escala maior. No fim de 1958, Che Guevara avança sobre Santa Clara e o Colegio de las Antillas deixa de ser apenas uma escola religiosa em meio à guerra. Homens vinculados às forças revolucionárias recebem alimentação; o campus entra no campo de relacionamento dos vencedores; a administração adventista convive com personagens ligados ao novo poder; e, depois da queda de Batista, essa relação deixa de ser clandestina.
Walton J. Brown registra contatos, apresentações do coral e reconhecimento por parte das autoridades revolucionárias. A lembrança de refeições recebidas durante a batalha torna-se até credencial de identificação entre adventistas e dirigentes do novo regime. O que acontecera no Oriente com uma rede de casas e membros agora reaparece numa instituição denominacional de grande porte, com administração, cozinha, estudantes, empregados e representação pública.
É justamente essa continuidade que a história fragmentada evita. Se olharmos apenas Rosabal, podemos dizer que se tratou de uma particularidade rural. Se olharmos apenas Santa Clara, podemos dizer que Brown enfrentava uma emergência militar. Se olharmos apenas as apresentações do coral depois da vitória, podemos classificá-las como diplomacia religiosa. Se olharmos apenas a delegação que posteriormente recorre a Rosabal para chegar a Che, podemos dizer que foi pragmatismo.
Quando juntamos tudo, o padrão muda: adventistas ajudam homens do Movimento 26 de Julho antes da vitória, uma instituição adventista mantém relações com as forças que conquistam Santa Clara e, depois, os vínculos estabelecidos durante a guerra continuam tendo valor diante do novo Estado. O problema da narrativa oficial não é necessariamente que cada um de seus fragmentos seja falso isoladamente; é que sua separação impede o leitor de enxergar a continuidade.
Enquanto isso, Washington já desmontava sua relação com Batista
A história adventista também não pode ser separada da política dos Estados Unidos. A imagem simplificada segundo a qual Washington permaneceu ao lado de Batista até o fim e depois foi surpreendido por Castro não resiste à documentação diplomática. Em 1958, o governo Eisenhower suspendeu o envio de armas de combate ao regime cubano e passou por uma reavaliação profunda de sua posição. Essa decisão tinha consequência militar, psicológica e política.
Batista dependia da relação privilegiada com os Estados Unidos; quando essa sustentação começou a desaparecer, a própria percepção de invulnerabilidade do regime foi atingida. Documentos norte-americanos mostram um governo dividido sobre o futuro de Cuba, preocupado com Castro, mas igualmente consciente de que Batista se tornara um obstáculo e de que seria necessário administrar uma transição. Não se tratava de um bloco monolítico “pró-Fidel”, mas também já não era o Washington comprometido em preservar Batista a qualquer preço.
Esse detalhe é central para compreender a posição de uma denominação mundial sediada nos Estados Unidos. O que podia parecer politicamente arriscado em 1956 torna-se muito menos arriscado no final de 1958. Quando Walton Brown convive com os homens que conquistam Santa Clara, a Igreja não está se aproximando de uma força que o governo norte-americano considere simplesmente um inimigo a ser destruído em defesa de Batista.
A própria administração Eisenhower havia suspendido armas e discutia a inviabilidade do regime. A aproximação adventista que começara localmente no Oriente passa a desenvolver-se num cenário em que a direção da política americana também se move para longe de Batista.
A ambiguidade era ainda maior nos bastidores. A reconstrução posterior de Tad Szulc sustentou que elementos do Movimento 26 de Julho receberam dinheiro da CIA antes da vitória, numa tentativa de cultivar contatos e influência caso Castro prevalecesse. O fato de essa alegação ter sido preservada e discutida nos próprios arquivos da Agência mostra que a relação entre inteligência norte-americana e o movimento revolucionário foi mais complexa do que a narrativa binária posterior costuma admitir. Não se pode transformar essa alegação, por si só, numa política oficial uniforme da Casa Branca, mas ela é coerente com um ambiente em que setores do Estado americano procuravam conhecer, influenciar e manter canais dentro de uma força que poderia governar Cuba.
Então aparece Tad Szulc — e ele estava muito mais perto da CIA do que a imagem de simples entrevistador sugere
Esse ponto se torna particularmente importante porque parte da reconstrução posterior de Rosabal chega até nós por Tad Szulc. Durante anos, o jornalista foi apresentado simplesmente como grande correspondente e biógrafo de Fidel Castro. A documentação desclassificada e a pesquisa do historiador britânico Richard J. Aldrich revelaram uma relação muito mais densa. Aldrich mostra que, no início dos anos 1960, Szulc cooperou com a CIA em seus próprios termos e chegou a desenvolver, junto ao governo Kennedy, ideias para operações contra Castro.
Não era mero funcionário da Agência, e justamente por isso o caso é mais interessante: tratava-se de um jornalista com acesso direto à presidência, capacidade de iniciativa e trânsito suficiente para trabalhar com a CIA sem ser simplesmente subordinado a ela. Aldrich descreve esse universo como uma rede entre Estado e atores privados, em que colaboradores podiam atuar como parceiros, intermediários e produtores de ideias, não apenas como agentes comandados de cima.
Os registros são extraordinários. Szulc possuía inclusive um criptônimo nos arquivos da CIA, AMCAPE-1, relacionado ao projeto AMTRUNK. Documentos liberados posteriormente mostram a profundidade desse relacionamento e também a desconfiança que cercava o jornalista. Um relatório de 1977 recuperado nos arquivos do caso Kennedy discute Szulc dentro dessa estrutura; outro material relembra suspeitas antigas de que, em 1948, ele pudesse ter fornecido informações à representação polonesa no Rio de Janeiro, mostrando que sua trajetória fora observada por serviços de segurança muito antes de sua fama como especialista em Cuba.
Isso não significa que cada suspeita dos serviços americanos fosse verdadeira — serviços de inteligência também investigam, erram e suspeitam sem confirmar —, mas demonstra que Szulc passou décadas circulando exatamente na zona cinzenta entre jornalismo, política externa, operações clandestinas e coleta de informação.
Sua proximidade com o núcleo do poder americano também aparece nas próprias anotações preservadas sobre conversas com John F. Kennedy. Em 1961, depois da Baía dos Porcos, Kennedy conversou com Szulc sobre Cuba, a força do regime e até sobre operações futuras. As notas mostram um presidente usando o jornalista como interlocutor para pensar questões absolutamente sensíveis. Szulc não estava conversando apenas com fontes periféricas; estava no circuito em que decisões sobre Cuba, CIA, guerrilha e operações clandestinas eram discutidas no mais alto nível.
É nesse contexto que devemos ler a entrevista tardia com Argelio Rosabal. Isso não transforma automaticamente a entrevista numa operação da CIA nem nos autoriza a descartar o que Rosabal disse. Mas elimina qualquer ingenuidade metodológica. Szulc não era um observador neutro vindo de fora do universo da inteligência norte-americana. Conhecia seus atores, trabalhou com a CIA em determinados projetos, foi monitorado pela própria Agência, teve interlocução presidencial sobre Cuba e, décadas depois, voltou à ilha para entrevistar
Fidel e diversos participantes do processo revolucionário. O material que recolheu é valioso justamente porque passa por um homem situado no centro de múltiplas redes de informação. Por isso precisa ser confrontado com as ações contemporâneas dos personagens, e não utilizado para apagar aquilo que os próprios acontecimentos revelam.

1986: a Colômbia publica a história do comunismo secreto de Fidel
É aqui que o material colombiano de 1986 ganha enorme importância. Em 24 de novembro daquele ano, a revista Semana publicou “El comunismo secreto de Castro”, síntese da pesquisa de Szulc que seria apresentada no livro Fidel: un retrato crítico. A reportagem afirma que a interpretação segundo a qual Castro teria se tornado comunista apenas depois do confronto com os Estados Unidos não explicava o que Szulc reconstruíra.
Segundo o texto, desde os primeiros meses posteriores à vitória Fidel trabalhava nos bastidores para transformar Cuba num Estado marxista-leninista, mantendo simultaneamente uma fachada pública mais moderada. O material foi construído a partir de entrevistas realizadas em Cuba e no exílio, inclusive longas conversas com Fidel e com integrantes de seu círculo mais próximo.
A reportagem descreve a existência de um verdadeiro “gabinete sombra”. Enquanto Manuel Urrutia presidia formalmente a República e um gabinete de aparência liberal oferecia ao exterior a imagem de continuidade institucional, Fidel, Raúl, Che Guevara e um pequeno grupo de confiança concentravam o poder efetivo e discutiam as decisões fundamentais.
Segundo essa reconstrução, a fachada moderada não era acidental. Servia para dar tempo ao novo regime enquanto a força revolucionária consolidava seus controles. Raúl e Che mantinham inicialmente perfil público relativamente contido; o Exército Rebelde ocupava posições estratégicas; e integrantes de orientação comunista eram colocados em funções importantes enquanto a imagem internacional do Movimento 26 de Julho ainda carregava a promessa de uma revolução democrática contra Batista.
O ponto mais explosivo do material colombiano aparece nas reuniões clandestinas com os antigos comunistas. A reportagem relata que Fidel procurou dirigentes do Partido Socialista Popular, organizou encontros secretos em Cojímar e começou a construir uma articulação que não era anunciada nem mesmo à maior parte dos militantes envolvidos.
Fabio Grobart e Blas Roca aparecem na reconstrução como testemunhas do processo. Segundo Roca, o sigilo era necessário porque uma exposição prematura da aproximação entre fidelistas e comunistas poderia fornecer aos Estados Unidos uma justificativa para intervir, como ocorrera na Guatemala em 1954. Em outras palavras, a própria estratégia descrita por Szulc dependia de administrar a percepção americana enquanto a transformação interna avançava.
O mesmo relato descreve a criação de escolas destinadas a formar novos quadros marxistas, a institucionalização progressiva da colaboração entre fidelistas e comunistas e o trabalho de grupos restritos que preparavam reformas enquanto o governo visível mantinha outra aparência. A reconstrução conduz à formação das Organizações Revolucionárias Integradas e, depois, do sistema partidário que culminaria no Partido Comunista sob a liderança de Castro.
O texto colombiano de 1986, portanto, acrescenta uma ironia histórica decisiva à história adventista: enquanto religiosos e instituições podiam interpretar Fidel como líder de uma revolução nacionalista, anti-Batista e ainda negociável dentro da esfera norte-americana, o núcleo revolucionário já preparava nos bastidores uma transformação que conduziria Cuba muito além daquilo que muitos aliados ocasionais imaginavam.

A Igreja ajudava uma revolução cuja direção real não conhecia por inteiro
Isso não reduz a responsabilidade histórica dos participantes adventistas; pelo contrário, ajuda a defini-la com maior precisão. A parceria não exige que Rosabal soubesse que Fidel caminharia para um Estado marxista-leninista. Não exige que Walton Brown conhecesse as reuniões de Cojímar. Não exige que os membros da comunidade adventista compreendessem a estratégia comunista que Szulc descreveria décadas depois.
A cumplicidade de que tratamos aqui é com o processo revolucionário concreto: homens procurados foram protegidos, movimentados e abastecidos; uma estrutura religiosa foi colocada a serviço de sua sobrevivência; outra instituição adventista estabeleceu relações com os revolucionários quando eles conquistavam Santa Clara; e essas relações continuaram depois da vitória. O desconhecimento do projeto final de Fidel pode explicar a ingenuidade política de alguns participantes, mas não apaga o que fizeram.
Também por isso não há nada de “natural”, “prudente” ou institucionalmente aceitável nessa aproximação. A Igreja Adventista do Sétimo Dia construiu sua própria identidade pública sobre a separação entre Igreja e Estado, a neutralidade partidária e a recusa de transformar a missão religiosa em instrumento de projetos políticos; seus documentos oficiais continuam afirmando que a denominação deve manter neutralidade em relação à política e não apoiar partidos ou candidatos, enquanto sua mensagem religiosa se apresenta como voltada prioritariamente para o reino de Cristo e sua volta.
Vista por esse prisma, a questão cubana se torna ainda mais grave: não estamos diante de uma igreja simplesmente tentando sobreviver à troca de um governo, mas de adventistas que já haviam estabelecido vínculos com a insurgência, cooperavam com homens que combatiam Batista e, posteriormente, viram essa aproximação tornar-se menos arriscada à medida que Washington retirava sustentação militar do regime.
Em março de 1958, Washington tomou uma decisão que alterou concretamente o equilíbrio político e militar em Cuba: suspendeu o envio de armas de combate ao governo Batista. O próprio Departamento de Estado registrou que a medida poderia ter como efeito não pretendido “acelerar a queda” do regime, mas decidiu mantê-la mesmo conhecendo essa possibilidade. Poucos dias depois, voltou a admitir que a suspensão poderia produzir um efeito psicológico adverso sobre o governo cubano e contribuir para a eventual derrubada de Batista. Meses mais tarde, a embaixada em Havana relataria que o próprio Batista considerava as atitudes dos Estados Unidos favoráveis aos rebeldes.
É nesse contexto que a aproximação adventista com os revolucionários precisa ser examinada. Já não basta descrevê-la como neutralidade, assistência humanitária ou simples adaptação às circunstâncias. Enquanto uma igreja que publicamente se apresentava como apartidária e voltada para um reino que não é deste mundo estabelecia relações concretas com homens empenhados em derrubar um governo pela força, o governo de seu próprio país retirava de Batista um apoio militar importante e procurava não ser identificado com sua repressão.
A coincidência de direção política é evidente; o que a documentação disponível permite demonstrar com segurança é a convergência entre a mudança de Washington e um ambiente cada vez mais favorável à aproximação com a força revolucionária. A questão histórica decisiva, portanto, não é se essa colaboração pode ser suavizada sob o rótulo de caridade, mas até onde essa convergência chegou e por quais canais institucionais ela foi percebida, transmitida e transformada em conduta.
O que aparece é uma contradição muito mais incômoda: uma denominação que proclamava independência das disputas políticas e dizia concentrar sua esperança num reino vindouro acabou, naquele cenário, colaborando concretamente com um dos lados de uma luta pelo poder terreno justamente quando a política norte-americana se afastava do outro.
Fidel precisava ampliar sua aceitabilidade interna e externa; Washington já considerava Batista um problema político crescente; e, nesse espaço, a colaboração adventista deixou de ser apenas uma questão de sobrevivência e passou a levantar uma pergunta inevitável para a nossa investigação: como uma igreja que dizia não tomar partido chegou tão perto de uma revolução que estava tomando partido com armas nas mãos?
Quando a proximidade deixou de ser motivo de orgulho, começou a operação de memória
Depois, tudo mudou. Fidel declarou o caráter socialista da Revolução, o Estado consolidou controle crescente sobre a sociedade, instituições religiosas perderam espaço e propriedades, e o Colegio de las Antillas acabaria fora do controle denominacional. A proximidade inicial que podia ser contada em 1959 como providência, boa vontade e reconhecimento passou a criar um problema narrativo.
Como explicar que uma igreja que posteriormente se apresentaria como vítima das restrições comunistas tivesse participado da rede que ajudou alguns dos principais revolucionários antes da vitória? Como explicar que “El Pastor” e seus irmãos tivessem escondido e sustentado homens que depois fariam parte do núcleo dirigente do novo regime? Como conciliar a neutralidade política proclamada posteriormente com o fato de que a própria instituição utilizaria relações construídas na guerrilha para negociar interesses diante do Estado?
A resposta não precisou assumir a forma de falsificação grosseira. Bastou desarticular a história. Rosabal virou um leigo compassivo. Os adventistas de sua rede viraram indivíduos bondosos. As tarefas de clandestinidade viraram ajuda humanitária. O Colegio de las Antillas virou vítima passiva da guerra. As refeições aos revolucionários viraram hospitalidade inevitável. As apresentações posteriores viraram diplomacia. O uso das relações de Rosabal virou coincidência. Cada explicação isolada contém uma parcela da realidade; o que desaparece é exatamente aquilo que dá sentido ao conjunto: continuidade.

De “El Pastor” ao refeitório do colégio, a linha é a mesma
Quando recompomos a cronologia, a história assume outra forma. Durante 1956, o Movimento 26 de Julho prepara células e redes para receber Fidel. No mesmo território, uma comunidade adventista liderada por Argelio Rosabal funciona como estrutura de acolhimento, proteção e deslocamento de revolucionários. Os homens do Granma não recebem apenas um auxílio momentâneo: entram numa rede capaz de mantê-los vivos e conduzi-los para outros contatos. Em 1958, o governo norte-americano já se distancia de Batista, suspendendo apoio militar decisivo e discutindo alternativas.
Na ofensiva final, o Colegio de las Antillas também se relaciona com os homens que tomam Santa Clara. Em 1959, dirigentes revolucionários reconhecem os adventistas pelas relações formadas durante a guerra. Depois, quando a denominação precisa conversar com o novo poder, Rosabal continua valioso justamente porque sua relação com Che nasceu nos tempos em que os guerrilheiros dependiam dessas redes para sobreviver.
Essa sequência também impede que tratemos a palavra “cumplicidade” como simples provocação retórica. O significado aqui é histórico: uma relação em que diferentes atores, movidos por razões diversas, cooperam para que determinado empreendimento possa continuar.
Rosabal não precisava compartilhar toda a ideologia de Fidel; sua comunidade não precisava assinar o programa do Movimento 26 de Julho; Walton Brown não precisava desejar um Estado comunista. Bastava que suas ações contribuíssem conscientemente para a sobrevivência, circulação, alimentação, proteção e legitimação de homens empenhados em derrubar o governo cubano. Foi isso que aconteceu.
“Enquanto Jesus não vem”
É justamente por isso que o contraste religioso do título não é mero efeito literário. O adventismo construiu sua identidade pública em torno da expectativa do retorno de Cristo, da separação entre Reino de Deus e poderes terrenos e de uma retórica denominacional de neutralidade política.
Na Cuba revolucionária, entretanto, encontramos membros organizados e lideranças locais empenhados numa realidade muito terrestre: impedir que combatentes fossem capturados, assegurar que chegassem a outros esconderijos, alimentar homens armados e preservar uma força insurgente que pretendia conquistar o Estado. Dois anos depois, encontramos uma grande instituição da mesma denominação convivendo com os vencedores no instante em que eles tomavam o poder.
A contradição histórica não está em adventistas terem ajudado pessoas perseguidas. Uma igreja pode socorrer qualquer ser humano sem perguntar sua posição política. A contradição aparece quando o auxílio ultrapassa o socorro e entra na logística continuada de uma estrutura revolucionária; quando a liderança religiosa mobiliza outros membros; quando esconder, transferir, abastecer e preservar combatentes passa a integrar uma cadeia; quando a relação não termina depois da emergência, mas produz acesso e parceria posteriores. Nesse ponto, não estamos mais falando apenas de misericórdia cristã diante de homens famintos. Estamos diante de participação numa engrenagem política e militar.
A história perdida não estava perdida: estava desconectada
É possível agora entender por que demorou tanto para enxergarmos o quadro inteiro. Os documentos sobre a preparação do retorno de Fidel ficaram na historiografia revolucionária; Rosabal ficou nas memórias de Che e nas entrevistas posteriores; Walton Brown ficou nos periódicos adventistas; a mudança americana ficou nos arquivos diplomáticos; Tad Szulc ficou simultaneamente no jornalismo, na historiografia e nos arquivos desclassificados da CIA; e a história do comunismo clandestino de Fidel apareceu numa revista colombiana em 1986. Cada arquivo conservava uma parte. A perda ocorreu quando ninguém colocava todas essas partes na mesma mesa.
Quando fazemos isso, desaparece a imagem de uma Igreja totalmente exterior à Revolução. A rede adventista aparece antes da vitória. A comunidade de Rosabal aparece no território das células preparadas para receber os expedicionários. O padrão de suas ações corresponde às necessidades dessa infraestrutura. O Colegio de las Antillas reaparece no momento decisivo. Washington abandona Batista enquanto administra sua incerteza diante de Castro.
Szulc, décadas depois, recolhe depoimentos sobre esses acontecimentos carregando consigo uma trajetória profundamente entrelaçada com a inteligência e com a política norte-americana para Cuba. E seu próprio livro fornece a matéria que, publicada pela Semana colombiana em 1986, revela outro andar do edifício: Fidel construía secretamente uma estrutura marxista enquanto mantinha diante de muitos aliados e observadores uma aparência política mais ampla e moderada.
Essa é a história que surge quando paramos de separar Rosabal de seus irmãos, os irmãos de sua igreja, a igreja da denominação, a Sierra Maestra de Santa Clara, Santa Clara de Washington e Washington dos bastidores da inteligência. Enquanto a Igreja dizia esperar a volta de Jesus Cristo, uma parte organizada de sua presença em Cuba ajudava homens que esperavam a volta de Fidel Castro.
Quando esses homens chegaram, encontraram comida, roupas, casas, contatos, esconderijos e caminhos. Depois encontraram o Colegio de las Antillas. Depois encontraram uma denominação disposta a conversar com o novo poder. E, quando décadas mais tarde aquela proximidade passou a incomodar a memória institucional, a história foi repartida até que parceria parecesse caridade, organização parecesse improvisação e cumplicidade parecesse apenas coincidência.





