Antes de Batista cair, a IASD já sabia para que lado o vento soprava em Cuba

Documentos adventistas e arquivos diplomáticos norte-americanos revelam uma sequência perturbadora: o Colegio de las Antillas cultivava “prestígio invejável” junto às autoridades do regime de Batista.

E quando Fidel e Che emergiram vitoriosos, a colaboração adventista com os revolucionários rapidamente se converteu em prestígio, acesso, garantias e expectativas concretas de benefícios institucionais.

A história muda completamente quando deixamos de começá-la em 1º de janeiro de 1959. Se recuarmos alguns anos, encontraremos o Colegio de las Antillas orgulhando-se publicamente de possuir “prestígio invejável” entre funcionários governamentais enquanto Fulgencio Batista ainda controlava Cuba. Se avançarmos para 1958, encontraremos a Associação Geral enviando a Cuba seu secretário mundial de Educação para estudar pessoalmente os “problemas educacionais” da ilha e inspecionar o colégio.

Se, ao mesmo tempo, abrirmos os documentos diplomáticos norte-americanos, veremos Washington progressivamente convencido de que Batista perdera as condições de permanecer no poder. E, quando chegamos às semanas finais de dezembro, encontramos dirigentes adventistas em Cuba justamente enquanto o governo norte-americano discutia a saída do ditador e os revolucionários avançavam sobre Santa Clara.

Depois da vitória, não encontramos nos periódicos denominacionais qualquer constrangimento equivalente àquilo que esperaríamos de uma organização que posteriormente construiria sua identidade pública em oposição ao comunismo cubano. Encontramos, ao contrário, Walton J. Brown celebrando os “efeitos posteriores” da colaboração com os revolucionários e, seis anos depois, a própria Review and Herald reconhecendo que Fidel Castro, agradecido pelos “favores recebidos”, ofereceu garantias que alimentaram “grandes esperanças para o futuro” entre os administradores adventistas.

Há uma peça que ainda não encontramos e que não falsificaremos para completar o quebra-cabeça: nenhum documento localizado até agora registra literalmente um funcionário do Departamento de Estado ou da embaixada norte-americana dizendo à Associação Geral que Batista cairia e que a Igreja deveria reposicionar-se. Essa comunicação direta permanece como questão documental aberta. Mas, depois de tudo o que reunimos, essa ausência já não pode ser usada para sugerir que a denominação chegou despreparada ao colapso do regime.

Desde o começo da década de 1950, a Igreja vinha aproximando sua juventude cubana de uma cultura de disciplina e serviço em ambiente militar. Em dezembro de 1951, no Colégio de Las Antillas, 104 jovens adventistas foram treinados no Medical Cadet Corps, com a presença de Everett N. Dick, um dos principais arquitetos e dirigentes do programa adventista de preparação para o serviço militar não combatente.

A experiência cubana não foi periférica nem improvisada: fazia parte de uma política denominacional mais ampla, conectada à estrutura mundial da Igreja e concebida para tornar jovens adventistas aptos a funcionar dentro de contextos militares sem abandonar formalmente sua identidade religiosa.

Poucos anos depois, essa familiaridade com disciplina, logística e socorro em ambiente de guerra deixaria de ser exercício e encontraria uma guerra real. Na Sierra Maestra, a congregação de Argelio Rosabal mobilizou praticamente todo o seu núcleo adulto para procurar, esconder, vestir, alimentar, transportar e reconectar sobreviventes do Granma.

No fim da mesma década, o próprio Colégio de Las Antillas — aquele mesmo espaço em que 104 jovens haviam sido treinados no início dos anos 1950 — reapareceu durante a ofensiva final em Santa Clara como instituição envolvida na assistência prestada em meio ao conflito, com participação de diretores, professores e alunos. É dentro dessa sequência que deve ser lida a presença simultânea de representantes da cúpula adventista em Cuba, a mudança progressiva da política norte-americana em relação a Batista e, sobretudo, a extraordinária capacidade da Organização de adaptar-se rapidamente ao novo poder.

A ausência do memorando explícito entre Washington e a Associação Geral, portanto, não apaga aquilo que já está diante de nós: uma Igreja que, desde o início da década, mantinha canais, programas e experiências diretamente relacionadas ao universo militar; uma comunidade adventista que participou ativamente da sobrevivência de revolucionários na Sierra Maestra; uma instituição educacional que voltou a colaborar em meio à batalha decisiva de Santa Clara; e uma imprensa denominacional que mais tarde descreveu com surpreendente franqueza a reciprocidade estabelecida com os vencedores.

A pergunta, portanto, deixou de ser simplesmente se a IASD teve relações com o poder revolucionário. Isso já está documentado. A pergunta que agora nos persegue é mais profunda: em que momento a Organização percebeu que o poder estava mudando de mãos e quanto dessa mudança ela conhecia antes de Batista entrar no avião e fugir de Cuba?

ANTES DE FIDEL, HAVIA BATISTA — E O COLÉGIO SE ORGULHAVA DE SEU PRESTÍGIO JUNTO AO PODER

Comecemos por maio de 1954. O Inter-American Division Messenger, órgão oficial da Divisão Interamericana, publicou uma descrição reveladora da posição alcançada pelo Colegio de las Antillas na sociedade cubana. O texto afirmava que a instituição havia adquirido “enviable prestige among the government officials”, literalmente “prestígio invejável entre os funcionários do governo”, e acrescentava que desfrutava de “great favor among the highly educated people of the country”.

Não se tratava apenas de retórica promocional sobre a qualidade das aulas. O Ministério da Educação recomendava visitas de professores da rede pública ao colégio; a universidade vizinha observava e incorporava métodos utilizados pelo C.A.; e o fluxo de visitantes havia se tornado tão intenso que a instituição precisara organizar turnos para recebê-los. Tudo isso acontecia em 1954, quando Fidel Castro ainda não governava Cuba, Che Guevara ainda não havia desembarcado do Granma e Fulgencio Batista ocupava o poder.

Não precisamos transformar essa documentação em algo que ela não diz. A matéria não afirma que Batista fosse amigo pessoal de Walton Brown nem registra um pacto entre o ditador e a IASD. O que ela demonstra já é suficientemente importante: durante o governo de Batista, uma instituição adventista considerava motivo de orgulho público possuir prestígio entre funcionários governamentais e desfrutar favor nos círculos influentes da sociedade cubana.

Isso destrói a ideia de que a proximidade institucional com o poder teria começado somente depois da Revolução. O poder político tinha outra cor, outros homens, outro discurso e outra bandeira, mas o valor atribuído ao reconhecimento governamental já estava presente. O colégio não apresentava distância das autoridades como virtude institucional; apresentava sua proximidade, seu reconhecimento e sua influência como sinais de sucesso.

A MULHER JÁ SABIA CONVERSAR COM OS REIS DA TERRA

É justamente aqui que Apocalipse 17 deixa de ser apenas uma arma interpretativa utilizada historicamente pelos adventistas contra outras igrejas e começa a produzir perguntas incômodas sobre a própria denominação. Durante gerações, pregadores adventistas ensinaram seus membros a olhar com desconfiança para instituições religiosas que buscassem proteção, influência ou vantagens mediante proximidade com os “reis da terra”.

A imagem da mulher relacionada com poderes políticos tornou-se parte do vocabulário profético adventista. Mas o documento de 1954 nos obriga a inverter o telescópio: se a aproximação religiosa com o Estado constitui sinal profeticamente suspeito quando praticada pelos outros, como devemos interpretar uma instituição adventista celebrando seu “prestígio invejável” entre funcionários governamentais e seu “grande favor” entre setores influentes justamente durante um regime autoritário?

Essa pergunta se torna ainda mais perturbadora porque o poder cubano mudaria radicalmente poucos anos depois, enquanto a capacidade denominacional de aproximar-se de quem governava permaneceria reconhecível. Não precisamos afirmar que a IASD fosse “batistiana” antes de 1959 e “comunista” depois. Essa seria uma leitura superficial. Instituições interessadas em preservar espaço, patrimônio, influência e funcionamento não precisam apaixonar-se ideologicamente pelo governante. Precisam saber relacionar-se com ele.

É justamente por isso que a metáfora de Apocalipse 17 é tão provocadora: a questão não é necessariamente amar determinado rei, mas descobrir continuamente como permanecer perto do poder que aquele rei controla.

1956: ENQUANTO A ORGANIZAÇÃO CONVIVIA COM O ESTADO, “EL PASTOR” ENCONTRAVA OS HOMENS QUE QUERIAM DERRUBÁ-LO

Nesse ponto precisamos distinguir cuidadosamente duas histórias que mais tarde acabariam convergindo. Argelio Rosabal não pode ser transformado retrospectivamente em operador de uma estratégia política concebida pela Associação Geral. A documentação que estamos reconstruindo na Sierra Maestra revela outra motivação. Depois do desastre do Granma, adventistas da região participaram de uma rede de auxílio aos sobreviventes: comida, abrigo, roupas civis, orientação por caminhos da Serra, mensagens, vigilância, deslocamento e proteção de recursos que não poderiam cair nas mãos das forças de Batista.

Rosabal, dirigente da igrejinha de Colonia Las Puercas, resumiu sua decisão numa expressão que deve permanecer no centro dessa história: “Hay que salvar a esa gente.” Não era ainda o cálculo administrativo de uma instituição diante de um futuro governo. Eram homens perseguidos, feridos e dispersos, e um adventista convencido de que precisava salvá-los.

A rede, porém, foi muito além de um ato isolado de hospitalidade. A reconstrução documental situa adventistas recolhendo roupas para transformar expedicionários facilmente identificáveis em camponeses aparentemente comuns, oferecendo casas seguras, alimentando-os, transmitindo informações e escondendo armamento e munições.

A atuação de Rosabal estava inserida nesse ambiente de auxílio organizado. Isso explica a dimensão operacional do que aconteceu na Serra. Mas, dentro dessa operação maior, ocorreu um gesto que não pode ser dissolvido na logística, porque sua consequência pessoal atravessaria a guerra, sobreviveria à vitória e acabaria alcançando a própria Organização Adventista.

A CAMISA NÃO ERA AQUILO QUE ROSABAL TINHA PARA DAR; ERA AQUILO QUE ELE TINHA PARA VESTIR

Quando Che Guevara necessitou de roupa, Rosabal não abriu um armário e escolheu uma camisa excedente. Não possuía duas peças e decidiu repartir uma delas. Não entregou aquilo que estava disponível para a caridade sem que a doação lhe custasse alguma coisa. Rosabal entregou a Che a roupa de que ele próprio precisava.

A força do gesto está precisamente nessa inversão. Ele não eliminou simplesmente a privação do outro; transferiu essa privação para si. Che ficou vestido e El Pastor ficou sem camisa. Segundo o relato preservado, Rosabal acabaria depois cobrindo o próprio corpo com saco de estopa. A imagem é brutalmente simples: aquilo que o revolucionário passou a ter foi exatamente aquilo de que o cristão decidiu abrir mão.

João Batista ensinara que quem tivesse duas túnicas deveria repartir com quem não tivesse nenhuma. Rosabal sequer estava diante dessa situação relativamente confortável. Não possuía duas para decidir qual poderia dispensar. Tinha a que estava usando. E foi essa que entregou. Por isso, a camisa não pode ser reduzida a “mais um episódio” dentro da rede adventista de auxílio. A rede explica como os expedicionários encontraram comida, esconderijos, roupas, caminhos e proteção.

A camisa ajuda a explicar outra coisa: por que Che Guevara carregaria durante anos uma lembrança excepcional de Argelio Rosabal. Naquele momento, Rosabal não estava vestindo um ministro do futuro governo revolucionário, nem um comandante famoso, nem um personagem que um dia teria seu rosto reproduzido pelo mundo inteiro. Estava diante de um homem perseguido e necessitado, e decidiu que a necessidade daquele desconhecido era maior que a sua própria.

Aquilo marcou Che profundamente. E o que aconteceu posteriormente demonstra a permanência dessa impressão. Che não esqueceu Rosabal, não esqueceu a comunidade religiosa de Rosabal e não esqueceu a promessa feita durante aqueles dias. Depois da vitória, quando o guerrilheiro necessitado já havia se transformado num dos homens mais poderosos da nova Cuba, não encontramos El Pastor perseguindo o comandante para cobrar uma recompensa. Encontramos o movimento inverso: Che lembrando-se da dívida e tomando a iniciativa de recordar a promessa de financiar a igreja. Entre a camisa entregue na Serra e essa manifestação posterior havia uma guerra inteira, a queda de Batista, a vitória revolucionária e uma transformação completa na condição de Che. O homem que recebera ajuda quando não tinha poder agora possuía poder para retribuir — e não havia esquecido.

Seria igualmente pobre transformar essa história numa sentimentalização ingênua ou negar sua dimensão humana em nome de um cálculo político abstrato. Revolucionários não constroem alianças apenas por emoção, mas continuam sendo capazes de gratidão, amizade, memória e lealdade. No relacionamento entre Che e Rosabal, essas dimensões acabaram produzindo consequências concretas: a gratidão gerou amizade; a amizade gerou confiança; a confiança gerou acesso; e o acesso acabaria adquirindo valor para a própria denominação.

Quando a memória adventista posteriormente apresenta Che evocando aquela experiência como manifestação do “espírito de amor da Igreja Adventista”, acontece uma transferência extraordinária de capital moral. O gesto havia sido de Rosabal; a renúncia havia sido de Rosabal; o risco havia sido de Rosabal; a amizade havia sido conquistada por Rosabal. Mas o prestígio daquele gesto começou a irradiar-se sobre a instituição à qual El Pastor pertencia. O sacrifício foi de Rosabal; o prestígio acabou alcançando a Organização.

A ASSOCIAÇÃO GERAL NÃO ESTAVA DISTANTE DE CUBA

Enquanto essa história se desenvolvia na Serra, o Colegio de las Antillas continuava diretamente inserido na estrutura educacional adventista internacional. Em novembro de 1957, o Comitê da Associação Geral autorizou E. E. Cossentine, responsável pela área educacional mundial da denominação, a visitar instituições da Divisão Interamericana, entre elas precisamente o Antillian College, em Cuba.

Em 3 de abril de 1958, porém, encontramos algo ainda mais específico: uma decisão formal autorizando Cossentine a viajar à Divisão Interamericana entre 15 e 30 daquele mês para “study educational problems in Cuba and make a survey of the Antillian College in Santa Clara, Cuba” — estudar os problemas educacionais em Cuba e realizar uma avaliação do Colegio de las Antillas, em Santa Clara.

A escolha das palavras merece atenção. Não era simplesmente uma visita cerimonial de um dirigente internacional a uma escola distante. A Associação Geral enviava seu responsável mundial pela educação para estudar “problemas educacionais em Cuba” justamente quando a crise política e militar da ilha se aprofundava. Isso não prova que a viagem tivesse finalidade política secreta, e não precisamos afirmar algo que o documento não diz. Mas prova que a administração mundial estava diretamente informada e envolvida na avaliação da situação cubana. O C.A. não era uma escola abandonada à própria sorte, tomando decisões completamente isoladas enquanto a sede mundial desconhecia o que acontecia na ilha.

ENQUANTO A ASSOCIAÇÃO GERAL ESTUDAVA CUBA, WASHINGTON JÁ VIA BATISTA AFUNDAR

É nesse ponto que a documentação diplomática norte-americana precisa ser colocada ao lado da documentação adventista. Ao longo de 1958, Washington passou progressivamente de uma política comprometida com a estabilidade do governo Batista para a percepção de que o regime estava perdendo as condições de controlar o país. Isso não significava que os Estados Unidos desejassem simplesmente entregar Cuba a Fidel Castro.

Muito pelo contrário: parte da movimentação diplomática daquele período procurava justamente construir uma saída para Batista que evitasse a concentração absoluta do poder nas mãos do Movimento 26 de Julho. Mas essa distinção torna a história ainda mais interessante. Washington não precisava amar Fidel para concluir que Batista se tornara um problema. A política norte-americana estava interessada, antes de tudo, na preservação de seus próprios interesses numa transição que parecia cada vez mais inevitável.

Em novembro de 1958, altos funcionários norte-americanos já discutiam abertamente cenários nos quais Batista deveria desaparecer da cena política para permitir alguma solução alternativa. Documentos do Departamento de Estado mostram a procura por atores capazes de participar de uma transição e registram a atenção dedicada a organizações civis, trabalhistas, imprensa e igrejas.

Isso é particularmente relevante para nossa investigação porque demonstra que instituições religiosas não estavam fora do radar político norte-americano. A embaixada acompanhava posições e movimentos religiosos, recebia informações provenientes desses ambientes e avaliava sua capacidade de influência na crise. Ainda não encontramos uma comunicação equivalente dirigida especificamente aos adventistas, mas já sabemos que perguntar pelos canais religiosos de informação de Washington em Cuba não é uma fantasia retrospectiva; eles existiam e faziam parte da leitura norte-americana da situação.

10 DE DEZEMBRO: WASHINGTON JÁ DISCUTIA COMO RETIRAR BATISTA DO CAMINHO

Em 10 de dezembro de 1958, o embaixador Earl E. T. Smith encontrava-se em Washington para consultas e participou de uma reunião com figuras importantes do Departamento de Estado e um representante da CIA. A documentação diplomática mostra que a permanência de Batista já estava sendo tratada como obstáculo à construção de uma saída para a crise.

A ideia discutida era fazer chegar ao ditador, por intermédio que não aparentasse constituir uma imposição oficial norte-americana, a mensagem de que deveria ausentar-se de Cuba e permitir uma transição. O significado histórico dessa reunião é enorme: três semanas antes da fuga de Batista, círculos decisórios norte-americanos já discutiam não como salvá-lo, mas como administrar sua saída.

Smith retornou a Havana em 12 de dezembro. As instruções recebidas demonstravam o caráter sensível da informação que circulava em Washington: publicamente, deveria limitar-se a dizer que o governo norte-americano compartilhava a preocupação com a deterioração da situação cubana.

A diferença entre aquilo que podia ser dito publicamente e aquilo que já era discutido internamente é precisamente o que torna tão importante investigar redes informais de informação naquele período. E é nesse intervalo, quando Washington já sabia muito mais do que dizia publicamente, que representantes de níveis superiores da estrutura adventista aparecem novamente no Colegio de las Antillas.

13 A 15 DE DEZEMBRO: DIRIGENTES ADVENTISTAS ESTÃO NO C.A. — E DEPOIS SEGUEM PARA HAVANA

E. E. Cossentine retornou ao Colegio de las Antillas acompanhado de Vernon E. Berry, dirigente educacional da Divisão Interamericana. A presença deles entre 13 e 15 de dezembro coloca representantes de níveis superiores da Organização em Cuba exatamente durante a fase terminal da crise. Depois, seguiram para Havana. Ainda não possuímos toda a correspondência produzida durante essa viagem e não sabemos tudo o que foi discutido entre Cossentine, Berry, Brown, dirigentes da União e outros administradores. É justamente por isso que esses documentos se tornaram prioridade em nossa investigação. Mas a cronologia, mesmo sem acrescentarmos uma única palavra que as fontes ainda não nos permitam escrever, é impressionante.

Em 10 de dezembro, Washington discutia uma saída para Batista. Em 12 de dezembro, o embaixador norte-americano retornava a Havana. Em 13 de dezembro, Cossentine e Berry estavam no Colegio de las Antillas. Em 15 de dezembro, seguiam para Havana. Em 17 de dezembro, Smith comunicava a Batista a avaliação de que seu governo estava perdendo o controle e recomendava sua saída durante uma transição. Poucos dias depois, a ofensiva chegaria a Santa Clara e o Colegio de las Antillas estaria materialmente envolvido no atendimento aos homens que combatiam o regime.

Não escreveremos que Cossentine recebeu em Havana um relatório secreto da embaixada porque ainda não encontramos esse documento. Mas também não aceitaremos mais a narrativa cômoda de uma administração mundial distante, desinformada e surpreendida no dia 1º de janeiro pela notícia de que uma revolução acontecera em Cuba.

A Associação Geral acompanhava o C.A.; seu secretário mundial de Educação havia sido enviado oficialmente para estudar os problemas cubanos; retornou à ilha no momento decisivo; a Divisão Interamericana estava representada; e os dirigentes circulavam entre Santa Clara e Havana enquanto a administração norte-americana já trabalhava com a perspectiva concreta da saída de Batista. É dentro dessa janela documental que precisamos procurar a informação que falta.

WASHINGTON NÃO PRECISAVA SER FIEL A BATISTA; PRECISAVA SER FIEL A SEUS INTERESSES

A documentação norte-americana fornece uma chave particularmente útil para interpretar o comportamento de instituições diante de mudanças de poder. Washington manteve relações com Batista enquanto considerou possível trabalhar com seu governo. Quando concluiu que sua permanência se tornara inviável, começou a procurar uma transição capaz de proteger interesses norte-americanos. Depois da vitória revolucionária, o próprio embaixador Smith, tão associado ao relacionamento com Batista, tornou-se um problema para a construção das novas relações e deixou Cuba. Não havia necessidade de paixão ideológica por Batista ou Fidel. Havia cálculo de interesse, preservação de canais e adaptação ao poder disponível.

Essa lógica não prova automaticamente que a IASD tenha seguido instruções de Washington. Mas oferece uma moldura histórica indispensável para investigar uma denominação norte-americana com administração mundial sediada nos Estados Unidos, instituições internacionais e relações estabelecidas com diferentes estruturas governamentais. O que precisamos descobrir não é se todos os administradores adventistas se tornaram revolucionários.

A documentação posterior praticamente elimina essa caricatura. O que precisamos descobrir é algo muito mais sofisticado: quando a administração denominacional percebeu que o poder cubano estava mudando de mãos e como transformou relacionamentos construídos durante a transição em mecanismos de preservação institucional.

O COLEGIO DE LAS ANTILLAS NÃO ESPEROU A REVOLUÇÃO TERMINAR PARA CONHECER OS REVOLUCIONÁRIOS

Durante a batalha de Santa Clara, a instituição não permaneceu simplesmente fechada atrás de seus muros esperando descobrir quem venceria. Os relatos adventistas preservam fornecimento de alimentação e outros tipos de assistência aos revolucionários. A gráfica recusou determinado trabalho de propaganda revolucionária, detalhe que posteriormente poderia ser utilizado para construir uma imagem de neutralidade; mas essa recusa não significou interrupção do auxílio material prestado aos homens que combatiam Batista. A contradição é reveladora: a Revolução podia não sair impressa da gráfica adventista, mas seus homens continuavam recebendo ajuda fora dela.

Essa diferença entre propaganda formal e cooperação prática é fundamental. Uma instituição pode evitar o documento mais explícito de adesão política e, simultaneamente, prestar serviços que produzem reconhecimento, confiança e reciprocidade. Foi exatamente essa memória que sobreviveria depois da vitória. Os revolucionários lembravam onde haviam comido, quem os atendera e qual instituição abrira suas estruturas em meio à batalha. Quando os combatentes deixaram de ser insurgentes e se tornaram autoridades, essa memória não desapareceu. Ao contrário, passou a acompanhar o Colegio de las Antillas em seu relacionamento com o novo Estado.

BATISTA FUGIU; OS ANTIGOS REBELDES VIRARAM AUTORIDADES; E BROWN COMEÇOU A “DESFRUTAR OS EFEITOS POSTERIORES”

A linguagem de Walton J. Brown em 1959 é particularmente importante porque foi escrita quando os acontecimentos ainda estavam quentes. Brown não descreve um colégio constrangido, tentando explicar aos membros por que havia se aproximado demais dos revolucionários.

Ao tratar do período posterior à batalha, fala em “after-effects” e utiliza o verbo “enjoying”: estavam “desfrutando” os efeitos posteriores daquela semana. Essa escolha lexical é extraordinária. Não somos nós, décadas depois, classificando determinadas consequências como benefícios. O próprio administrador do colégio descrevia positivamente aquilo que a relação construída durante a batalha começava a produzir.

O novo governador de Las Villas visitou a instituição e recordou as refeições que fizera ali durante os combates. O coral passou a ser requisitado em ambientes de grande visibilidade. Autoridades começaram a visitar o colégio. Dirigentes adventistas que se apresentavam diante de integrantes do novo aparelho revolucionário ouviam que os adventistas já eram conhecidos por causa do que acontecera em Santa Clara. A reputação precedia a apresentação formal. A instituição havia adquirido algo que dinheiro algum dos famosos três mil dólares explica adequadamente: capital político e moral diante dos homens que acabavam de conquistar o Estado.

CHE NÃO ESQUECEU EL PASTOR — E A ORGANIZAÇÃO DESCOBRIU O VALOR DAQUELA MEMÓRIA

A relação Che–Rosabal precisa ser recolocada exatamente aqui porque demonstra em escala pessoal aquilo que aconteceria em escala institucional. Rosabal ajudara Che quando Che não tinha nada para oferecer em troca e quando ajudá-lo podia custar caro. Essa é justamente a razão pela qual a gratidão posterior possui tanto peso. Quando o revolucionário se transformou em comandante vitorioso, continuou reconhecendo El Pastor e a promessa relacionada à construção de sua igreja. Rosabal não precisou fabricar retrospectivamente intimidade com um homem poderoso. A intimidade nascera quando o homem ainda estava em perigo.

O mais importante para nossa investigação institucional vem depois. A memória de Che sobre Rosabal não permaneceu confinada a uma amizade privada. Ela começou a produzir reconhecimento da comunidade religiosa à qual Rosabal pertencia. A narrativa adventista registra Che evocando aquela experiência como demonstração do “espírito de amor da Igreja Adventista”. Nesse momento acontece algo extraordinário: o capital moral criado pelo sacrifício individual de El Pastor é transferido simbolicamente para a denominação.

A Igreja não precisou ter ordenado que Rosabal entregasse sua camisa para posteriormente beneficiar-se do reconhecimento que aquele gesto produziu. Tampouco encontramos, nos materiais examinados, a Organização censurando-o por ter participado daquela rede. A história é preservada, a carta de Che é preservada, a amizade é reconhecida e o acesso posteriormente demonstra sua utilidade.

O COLÉGIO TAMBÉM CONVERTEU COLABORAÇÃO EM PRESTÍGIO

Em Santa Clara, a mesma dinâmica alcançou escala institucional. Fidel Castro foi recebido; Che participou de eventos relacionados ao ambiente do colégio; o coral adquiriu projeção extraordinária; dirigentes do novo governo demonstraram interesse pelo sistema educacional adventista; autoridades passaram a frequentar a instituição; e o próprio Brown atribuiria posteriormente parte da sobrevivência do C.A. às relações estabelecidas com os revolucionários durante aqueles dias.

Isso é muito mais importante do que procurar pequenas transferências financeiras como se a Organização mundial tivesse se vendido por alguns milhares de dólares. O benefício real era outro: reconhecimento, acesso, influência, proteção, capacidade de negociação e expectativa de sobrevivência institucional dentro de uma ordem política completamente nova.

É por isso que a ideia de “lua de mel” não deve ser entendida como simples entusiasmo ideológico com a Revolução. A administração adventista não precisava acreditar em Marx para perceber o valor de ser reconhecida favoravelmente por Fidel, Che, governadores, militares e administradores do novo Estado.

A reciprocidade podia ser muito mais pragmática: nós estivemos presentes quando vocês precisaram; vocês sabem quem somos; agora esperamos que essa memória produza espaço para continuarmos funcionando. E é exatamente essa lógica que uma publicação oficial da denominação acabaria registrando de maneira surpreendentemente explícita.

1965: A PRÓPRIA REVIEW AND HERALD ESCREVE “FAVORES RECEBIDOS”

Em 16 de setembro de 1965, quando a lua de mel já havia terminado e ninguém poderia alegar ingenuidade diante da natureza do regime cubano, a Review and Herald publicou o artigo de H. B. Lundquist, “Antillian College Expands in Puerto Rico”. Ao reconstruir a história da instituição em Cuba, Lundquist recordou a utilização das instalações do colégio durante a fase revolucionária e escreveu uma frase que deve permanecer em destaque porque praticamente oferece a chave interpretativa dessa relação: “Castro, to show his appreciation for favors received…” — Castro, para demonstrar sua gratidão pelos “favores recebidos”. A palavra favors não foi escolhida por um crítico da IASD. Foi impressa no principal órgão denominacional mundial.

Mais importante ainda é observar o que veio depois desses “favores”. Segundo o próprio texto, Fidel ofereceu garantias que fizeram a administração alimentar “high hopes for the future”, grandes esperanças para o futuro. E essas esperanças não eram abstrações espirituais. A narrativa descreve expectativas concretas relacionadas ao desenvolvimento institucional, às indústrias do colégio, à disponibilidade de equipamentos, ao mercado para seus produtos e às possibilidades abertas pela relação com o novo governo. A sequência registrada pela própria imprensa adventista torna-se, portanto, impossível de ignorar: favores prestados aos revolucionários, gratidão de Castro, garantias oferecidas pelo novo poder e grandes expectativas da administração adventista.

AS “GRANDES ESPERANÇAS” TINHAM FÁBRICA, MERCADO E GRÁFICA

Esse aspecto precisa ser aprofundado porque retira a discussão do terreno nebuloso das intenções e a coloca no campo das expectativas institucionais documentadas. A administração não esperava apenas liberdade para realizar cultos. A narrativa da Review descreve perspectivas de desenvolvimento material: equipamentos necessários às indústrias, mercado para os produtos da fábrica de alimentos e possibilidade de que o novo governo e suas dependências constituíssem importante mercado para aquilo que a gráfica produzisse. A linguagem do texto chega a dizer que a vida começava a adquirir um “rosy hue”, um tom cor-de-rosa, e que a prosperidade parecia coroar os diferentes departamentos.

A ironia histórica é difícil de superar. A denominação que posteriormente apresentaria o comunismo cubano quase exclusivamente pela narrativa da perseguição registrou, em sua própria imprensa, um período em que seus administradores olharam para o novo regime e enxergaram oportunidade econômica, reconhecimento governamental e perspectivas de crescimento. Não estamos dizendo que essas esperanças tenham se realizado integralmente; sabemos que o relacionamento se deteriorou e que a história posterior foi muito mais dura. O ponto é outro: essas expectativas existiram, foram registradas e estavam diretamente relacionadas, no próprio texto adventista, à gratidão de Castro pelos “favores recebidos”.

E A ORGANIZAÇÃO NÃO CENSUROU PUBLICAMENTE OS HOMENS QUE HAVIAM CONSTRUÍDO ESSAS PONTES

É nesse ponto que a ausência de censura ganha significado, desde que seja formulada com precisão. Não podemos provar que jamais tenha existido alguma crítica privada em carta ainda desconhecida. Mas, nos três materiais fundamentais que estamos examinando e nos periódicos denominacionais localizados até agora, não encontramos a Organização construindo uma narrativa de condenação de Rosabal por sua atuação na rede da Sierra Maestra, nem uma reprovação equivalente a Walton Brown pela colaboração prática do C.A. com os revolucionários. Encontramos, ao contrário, preservação dessas histórias, utilização positiva de sua memória e reconhecimento dos benefícios que as relações produziram.

Rosabal não aparece expulso, censurado ou transformado em exemplo do perigo da participação política. Sua relação com Che permanece preservada. A carta relacionada à promessa do comandante é guardada em arquivo adventista. O reconhecimento de Che ao comportamento dos adventistas converte-se em elogio ao “espírito de amor da Igreja Adventista”. Brown, por sua vez, não desaparece administrativamente depois de Santa Clara; continua sua carreira denominacional e posteriormente assume responsabilidades educacionais mais amplas.

A própria Review and Herald, seis anos depois, ainda consegue escrever tranquilamente sobre os “favores recebidos” por Castro e sobre as “grandes esperanças” despertadas por suas garantias. Se a colaboração fosse considerada institucionalmente vergonhosa, a memória oficial teve oportunidades suficientes para repudiá-la. O que encontramos publicado é outra coisa.

O BENEFÍCIO MAIS VALIOSO NÃO CABIA NUM CHEQUE: ERA ACESSO AO PODER

Por isso é um erro concentrar nossa investigação nos três mil dólares ou em qualquer quantia semelhante. Para uma organização internacional como a IASD, esse valor seria pequeno demais para explicar tamanho interesse. O que estava em jogo valia muito mais: acesso aos novos governantes, reconhecimento público, possibilidade de negociação, prestígio social, mercados para atividades institucionais, influência educacional e, sobretudo, proteção num ambiente em que outras instituições privadas começariam a desaparecer. Brown chegaria posteriormente a estabelecer relação entre os contatos construídos com os revolucionários e a capacidade do colégio de sobreviver por mais tempo.

Essa proteção tornou-se especialmente visível quando o C.A. enfrentou intervenção. A memória de Fidel sobre aquilo que o colégio havia feito durante os acontecimentos revolucionários reapareceu no processo que resultou na devolução da instituição à Igreja. A lógica da reciprocidade, portanto, não precisa ser inventada por nós: ela atravessa os relatos. Os homens que haviam recebido ajuda não esqueceram quem os ajudara, e a instituição descobriu que essa memória podia valer muito quando os antigos guerrilheiros passaram a controlar ministérios, forças armadas, repartições, propriedades e decisões capazes de determinar a sobrevivência de uma organização religiosa.

A IASD NÃO PRECISAVA SER BATISTIANA ONTEM NEM COMUNISTA AMANHÃ

Aqui encontramos talvez a chave mais profunda para compreender a aparente contradição. Uma instituição não precisa converter-se à ideologia do governante para buscar vantagens na proximidade com ele. O Colegio de las Antillas não precisava tornar-se batistiano para orgulhar-se de seu prestígio entre funcionários governamentais durante Batista. Da mesma maneira, a administração adventista não precisava tornar-se marxista para perceber o valor de possuir boas relações com Fidel, Che e outros representantes do poder revolucionário. O denominador comum não era a ideologia do Estado; era o interesse institucional em manter portas abertas diante de quem possuía as chaves.

Isso também explica por que a história posterior não pode ser reduzida a “a Igreja apoiou Fidel e depois foi traída”. Houve repressão, nacionalizações, restrições e sofrimento real entre adventistas cubanos. Mas, paralelamente, a estrutura denominacional continuou negociando possibilidades de funcionamento, propriedades, reconhecimento e espaço administrativo dentro da nova ordem. Perseguição na base e negociação no topo não são acontecimentos mutuamente excludentes. Uma organização pode denunciar aquilo que seus membros sofrem e, simultaneamente, manter canais com o governo porque precisa preservar aquilo que ainda possui. A história cubana posterior demonstra justamente a capacidade de adaptação institucional que torna tão importante investigar o período anterior à ruptura.

APOCALIPSE 17 NÃO PERGUNTA QUAL É A COR DA BESTA

É aqui que retornamos à imagem profética que a própria tradição adventista ensinou durante gerações. A mulher de Apocalipse 17 não precisa estabelecer fidelidade eterna a uma única cabeça da besta. Reis passam, governos mudam, regimes desmoronam, bandeiras são substituídas e antigos inimigos ocupam os palácios de seus adversários. A pergunta teológica levantada pelo símbolo não é simplesmente qual governante está no poder, mas qual relação a religião decide estabelecer com o poder político e o que espera receber dessa relação. Quando essa lente é aplicada à história cubana da própria IASD, o resultado é profundamente desconfortável.

Durante Batista, encontramos uma instituição orgulhosa de seu “prestígio invejável” entre funcionários governamentais. Enquanto o regime começava a desmoronar, encontramos adventistas na Sierra Maestra ajudando homens que queriam derrubá-lo. Encontramos a Associação Geral acompanhando diretamente os problemas cubanos. Encontramos Washington progressivamente convencido de que Batista precisava deixar o cenário. Encontramos dirigentes adventistas em Cuba justamente na fase final dessa mudança. Encontramos o Colegio de las Antillas prestando assistência aos revolucionários em Santa Clara. Depois encontramos os revolucionários vitoriosos visitando a instituição, reconhecendo os serviços recebidos, oferecendo garantias e despertando expectativas administrativas. Finalmente encontramos a própria Review and Herald resumindo parte dessa relação com duas expressões que não fomos nós que inventamos: “favors received” e “high hopes for the future”.

Não é necessário afirmar que todos esses homens compartilhavam uma ideologia comum. Pelo contrário: justamente porque não compartilhavam, a continuidade se torna mais significativa. Batista e Fidel representavam projetos políticos antagônicos. Che estava ainda mais distante do universo doutrinário adventista. Washington possuía seus próprios interesses. Mesmo assim, a instituição religiosa aparece sucessivamente procurando espaço, reconhecimento e condições de sobrevivência diante dos diferentes poderes. A cor da besta podia mudar. A utilidade de permanecer perto dela, aparentemente, não.

MAS HÁ UM ELO QUE AINDA QUEREMOS ENCONTRAR

A investigação, portanto, não termina com esta publicação. Ao contrário: a documentação que encontramos tornou nossa próxima pergunta muito mais precisa. Precisamos localizar os relatórios produzidos por E. E. Cossentine depois da missão de abril de 1958 e da viagem de dezembro; a correspondência entre Cossentine, Vernon E. Berry, Walton J. Brown, A. H. Roth, a União Antilhana, a Divisão Interamericana e a Associação Geral; atas e memorandos administrativos produzidos durante os últimos meses de Batista; e qualquer registro de contato, formal ou informal, entre dirigentes adventistas norte-americanos e funcionários do Departamento de Estado, da embaixada ou de outros organismos envolvidos na avaliação da crise cubana.

O objetivo não é fabricar retroativamente uma conspiração. É responder a uma pergunta histórica que a própria cronologia tornou inevitável: quanto a cúpula adventista sabia, antes de 1º de janeiro de 1959, sobre a avaliação norte-americana de que Batista estava politicamente acabado? Sabemos que Washington já discutia sua saída. Sabemos que a Associação Geral acompanhava diretamente Cuba. Sabemos que Cossentine esteve no país em abril e retornou em dezembro. Sabemos que representantes denominacionais circularam entre Santa Clara e Havana no momento decisivo. Sabemos que, poucos dias depois, o C.A. estaria atendendo os homens que tomariam Santa Clara. O que ainda precisamos descobrir é se entre essas peças existiu transmissão de informação e, se existiu, por quais canais ela ocorreu.

A COR MUDOU; A PROXIMIDADE COM O PODER CONTINUOU

Por isso, a história que emerge dos documentos já não comporta confortavelmente a narrativa de uma Igreja completamente apolítica, surpreendida pela chegada inesperada de uma revolução comunista e posteriormente perseguida por um regime com o qual jamais tivera qualquer relação significativa. Antes de Fidel, a instituição já celebrava prestígio junto ao Estado de Batista. Antes de Fidel governar, adventistas já salvavam homens de sua revolução. Antes de Batista fugir, a administração mundial acompanhava Cuba e enviava dirigentes para estudar sua situação.

Quando a batalha decisiva chegou a Santa Clara, o colégio adventista entrou na história dos revolucionários. Quando esses homens venceram, a memória da colaboração abriu uma nova fase de reconhecimento, acesso e expectativas. E, anos depois, a própria imprensa oficial adventista ainda descrevia Castro agradecendo pelos “favores recebidos” e oferecendo garantias que produziram “grandes esperanças” na administração.

Ainda não sabemos tudo o que a cúpula denominacional sabia em dezembro de 1958. Ainda estamos procurando o documento que possa ligar diretamente a informação que circulava em Washington à movimentação administrativa adventista em Cuba. Mas já sabemos algo que os próprios documentos da Igreja tornam difícil negar: o relacionamento institucional com o poder não começou com Fidel e não desapareceu quando Batista caiu. O governante mudou, a ideologia mudou, a bandeira mudou e os homens instalados no Estado mudaram; a busca por prestígio, acesso, reconhecimento, proteção e vantagens institucionais continuou surpreendentemente reconhecível.

É justamente por isso que Apocalipse 17 retorna como uma imagem tão incômoda. Durante décadas, a IASD ensinou seus membros a procurar nos outros a religião que se aproxima dos reis da terra. Cuba nos obriga a colocar o espelho diante da própria intérprete. A prostituta profética não precisa amar o rei, acreditar em sua ideologia ou permanecer eternamente ao lado do mesmo governante. Basta compreender que existe vantagem em manter-se próxima de quem controla o poder. Batista tinha uma cor; Fidel tinha outra; Che carregava outra bandeira; Washington defendia seus próprios interesses. E a pergunta que agora fazemos à documentação adventista não é mais com qual deles a Organização concordava ideologicamente, mas de quantos deles soube aproximar-se quando cada aproximação podia ser útil.

Os reis da terra mudaram. A habilidade institucional de conversar com eles permaneceu. E é justamente nos documentos ainda escondidos entre 1958 e 1959 que pretendemos descobrir até onde essa habilidade chegou.

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