Monografia do SALT também concluiu que Azazel é o Demônio, originador do pecado

A monografia “A Identidade do Bode para Azazel em Levítico 16”, desenvolvida por Sidnei da Rosa como Trabalho de Conclusão de Curso no UNASP (Centro Universitário Adventista de São Paulo), campus Engenheiro Coelho, em dezembro de 2008, sob orientação do doutor Reinaldo W. Siqueira, apresenta uma investigação teológica aprofundada sobre um dos elementos mais significativos do sistema sacrificial descrito em Levítico 16: o bode designado para Azazel no contexto do Dia da Expiação.

O autor desenvolve seu estudo com base na análise direta do texto bíblico, considerando seu contexto histórico, ritual e teológico, com o objetivo de compreender de maneira clara a função desse bode dentro do ritual mais solene do calendário religioso de Israel.

Ao longo do trabalho, Sidnei da Rosa estabelece inicialmente o cenário do Dia da Expiação, descrevendo minuciosamente o papel do sumo sacerdote, a purificação do santuário e o processo simbólico de transferência dos pecados do povo.

Dentro dessa estrutura, destaca-se a presença de dois bodes, escolhidos como parte de um único ritual, mas com funções distintas e complementares. Um deles é designado “para o Senhor” e oferecido como sacrifício pelo pecado, enquanto o outro, identificado como “para Azazel”, permanece vivo e é enviado ao deserto após receber simbolicamente as iniquidades confessadas pelo sacerdote. Essa distinção funcional é apresentada pelo autor como elemento central para a compreensão do significado do ritual.

A monografia dedica atenção especial ao termo “Azazel”, examinando suas possíveis interpretações à luz de dados linguísticos, históricos e teológicos. O estudo percorre as diferentes propostas existentes, incluindo a compreensão do termo como designação técnica, como referência geográfica e como indicação de um agente pessoal, sempre situando essas leituras dentro do desenvolvimento da tradição interpretativa ao longo da história.

Esse levantamento permite ao leitor acompanhar de forma organizada as diversas abordagens que foram atribuídas ao texto bíblico, evidenciando a complexidade do tema e sua relevância no campo da teologia do santuário.

Outro ponto de destaque no trabalho é a descrição detalhada do momento em que o sumo sacerdote impõe as mãos sobre o bode vivo, confessando sobre ele os pecados do povo de Israel e simbolicamente transferindo essas culpas.

O envio do animal ao deserto é apresentado como o ato final do ritual, representando a remoção completa dos pecados do acampamento, encerrando o ciclo de expiação iniciado com o sacrifício do primeiro bode. Essa dinâmica ritual é tratada como unidade teológica, na qual cada elemento desempenha um papel específico dentro de um mesmo propósito redentivo.

Ao apresentar as principais interpretações históricas sobre o bode para Azazel, o autor também dialoga com a tradição adventista, amplamente desenvolvida na literatura denominacional, incluindo contribuições de Ellen G. White, que relaciona o ritual do Dia da Expiação ao plano da redenção e às etapas finais do juízo. Essa abordagem insere o estudo dentro de uma linha teológica que compreende o sistema do santuário como um modelo profético, no qual os símbolos apontam para realidades espirituais mais amplas.

Dessa forma, a monografia de Sidnei da Rosa se apresenta como um trabalho organizado, consistente e profundamente fundamentado, oferecendo uma exposição clara e contínua sobre o significado do bode para Azazel em Levítico 16.

Ao reunir análise textual, levantamento interpretativo e contextualização teológica, o estudo contribui de maneira significativa para a compreensão do ritual do Dia da Expiação e de seus desdobramentos dentro da teologia bíblica, consolidando-se como uma referência relevante para aqueles que desejam aprofundar-se no tema do santuário e no simbolismo presente nas Escrituras.

Ao explorar o significado do bode para Azazel dentro do contexto do Dia da Expiação, a monografia amplia a compreensão do leitor sobre o funcionamento do ritual levítico e seu papel no plano da redenção, oferecendo uma base sólida para estudos posteriores sobre o santuário e suas implicações espirituais.

A monografia “A Identidade do Bode para Azazel em Levítico 16”, desenvolvida por Sidnei da Rosa está disponível para download na base de dados da revista Kerygma, periódico científico da Faculdade Adventista de Teologia (FAT), vinculada ao Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP).

Abaixo, transcrevemos dois trechos mais relevantes desse trabalho.Un detalhe que nos chamou atenção foi o fato de Sidnei da Rosa citar I Enoque e o Apocalipse de Abraão:

Bode para Azazel como o Epíteto de um Demônio

A primeira teoria acerca do bode para Azazel, é que o nome “Azazel” representa um demônio. Wright2 apresenta quatro argumentos, defendido por ele e por outros autores, que devem ser considerados:

1. Existe um paralelismo entre o bode “para YHWH” e o bode “para Azazel”, assim como o primeiro (YHWH) era um ser sobrenatural, o segundo (Azazel) também deveria ser, mas está em oposição a YHWH. Esse flagrante contraste é também destacado por W. Volck3. De modo mais incisivo, o comentário de Keil sobre o texto “requer incondicionalmente que Azazel deve ser tomado como um ser pessoal em oposição a YHWH”4.

Segundo R. Vaux, quando fazemos uma conexão entre os dois bodes devemos considerar a ambos como representando uma personalidade. Tentar relacionar um paralelo entre o bode para YHWH, com o bode para Azazel, e interpretar o último com qualquer outro significado que não evoque personalidade torna “o paralelismo incompleto”5.

Um ponto que deve ser destacado é que em parte alguma os defensores dessa hipótese criam que o bode sobre o qual caiu a sorte “para Azazel” seja uma oferta a esse ser maligno, tampouco desempenhe ele alguma parte ativa na purificação do pecado, ele “simplesmente, recebe submisso sua provisão”6.

Admitindo a possibilidade de que Azazel era um demônio, escreve Hartley explicando a função do bode no ritual: “Se Azazel era um demônio, este ritual significa que os pecados carregados pelo bode estavam retornando para este demônio, com o propósito de remover o pecado da comunidade e deixá-lo na sua fonte afim de que seu poder ou efeito na comunidade fosse completamente quebrado.”7

Azazel está em oposição a YHWH. Assim sendo o bode para Azazel não morre pelos pecados do povo (o bode para YHWH já fez isso), ele apenas os leva de volta ao seu originador.

2. Outro argumento levantado por Wright é que o deserto na Bíblia é usualmente sinônimo de morada de demônios. E algumas passagens fazem alusão a isso (Is 13:21-22, 34:11-15; talvez Lv 17:7; cf. Tb 8:3; Mt 12:43; Ap 18:2).

Segundo Keil, “o deserto é representado com uma imagem de morte e desolação correspondente à natureza dos espíritos maus, que caíram da fonte primaria da vida, e em sua hostilidade a Deus devastam o mundo que foi criado bom, e levam morte e destruição em seus ensinos”8.

Ainda em apoio a esse argumento, vale lembrar que existem de forma análoga nos cultos das antigas religiões orientais, animais sendo enviados para limpar a impureza dentre o povo a lugares desabitados a divindades ou demônios que residiam ali9. Existem traços de semelhança (como o envio a um lugar desabitado), embora na maioria dos pontos o ritual hebreu difere dos rituais do antigo Oriente Médio10.

3. A evidência externa também traz sua contribuição sobre o assunto. Embora tardia em relação à data da tradicional composição de Levítico, a literatura pseudo-epígrafa apresenta Azazel ou Azael como um ser demoníaco.

Ele ensina aos homens a confecção de armas militares e as mulheres a usarem vaidosos adornos (I Enoque 8:1, 2); ele ensinou toda espécie de transgressões (9:4); contra ele é prometido juízo da parte de Deus, a ele é atribuído os pecados da terra (10:3, 4; 13:1-3 e 54:2-4). Os Capítulos 1-36 de I Enoque11 são datados da primeira metade do segundo século antes de Cristo pela descoberta de fragmentos de cinco diferentes manuscritos desta seção entre os rolos dos manuscritos do Mar Morto12.

Outro pseudo-epígrafo que apresenta a figura de Azazel é o Apocalipse de Abraão (c. II séc. d.C.) aqui, novamente, ele é o que ensina a maldade ao homem (13:7-11); há juízo contra ele (14:1, 5 e 22:5-7); ele foi quem tentou Adão e Eva (23:8-9). Para os que advogam Azazel como sinônimo de Satanás, as evidências extra bíblicas dessas passagens são valiosas. Entretanto, por ser muito posterior a composição do livro de Levítico, essa literatura não deve definir a compreensão de Azazel.

4. “Todo o nome poderia ser interpretado como o epíteto de um ser sobrenatural mantendo a ordem das consoantes no texto massorético (‘z’zl), a etimologia de nome tem sido explanada como uma forma metastizada de ‘zz-’l ”13. Na opinião de Janowsky “o resultado da metástase consonantal, parece ser a mais provável explanação”, a tradução seria algo como “deus irado” “deus feroz”14.

A Interpretação do Bode para Azazel como o Epíteto de um Demônio

Essa hipótese se apresenta como a mais bem fundamentada. A literatura judaica antiga traz Azazel como um ser demoníaco ou um anjo caído. Ela não é totalmente conclusiva, mas traz um forte apoio a interpretação que vê o bode para Azazel como um símbolo do demônio.

A evidência externa aponta ainda para um conceito comum nas religiões do antigo oriente médio, a crença de que o deserto era um lugar de morada dos demônios. Essas evidências coadunam com o contexto bíblico. O presente estudo não pretende ser conclusivo, mas em vista as evidências que foram levantadas essa parece ser a hipótese mais plausível.24

As críticas contra essa interpretação argumentam que se considerarmos o bode para Azazel como um símbolo do demônio, então o demônio teria participação na salvação. Em resposta a essa afirmativa, conforme já discutido no capitulo 2, o bode para Azazel não participava da expiação, mas sua função estava ligada a eliminação dos pecados. A pergunta que surge então é a seguinte: Onde e quando a figura antitípica do bode para Azazel e do ritual da eliminação é encontrada?

O contexto de Levítico 16 é o Dia da Expiação que é também o dia do juízo para o povo de Israel. Os pecados previamente confessados e perdoados eram expiados e purificados pelos animais sacrificados. Após o término de todo sacrifício, o bode para Azazel era introduzido e eliminava esses pecados. Ele era um símbolo do verdadeiro culpado pelos pecados que devia recebê-los de volta.

Na base do texto bíblico, a Igreja Adventista do Sétimo Dia vê no bode para Azazel um símbolo de Satanás. A escatologia adventista interpreta o momento em que o bode para Azazel é enviado ao deserto como um tipo que encontrará seu antítipo por ocasião do milênio de Apocalipse, onde Satanás é banido para a terra desolada (Ap. 20:1-3), e finalmente destruído após o milênio42.

Como o pecador arrependido foi liberto da condenação final do pecado, através da morte e ministério de Cristo, toda conseqüência desses pecados será levada de volta para seu originador (Satanás).

Dessa forma, o bode para Azazel é visto como uma representação do ato escatológico de Deus em levar os pecados perdoados de volta para seu originador, para que esse sofra por eles, e seja finalmente destruído.

CONCLUSÃO

O trabalho pretendeu fazer uma análise das principais interpretações acerca da identidade do bode para Azazel. As teorias que entendem a palavra “Azazel” como um termo técnico que poderia significar um local, ou uma ação, recebeu menos atenção pela fraqueza de seus argumentos e o número menor de seus defensores. Especial atenção foi dada às hipóteses que vêem o bode para Azazel como um símbolo de Cristo e um símbolo do demônio, justamente por serem tão antagônicas.

A última hipótese demonstrou-se mais consistente, principalmente quando analisamos qual era a função do bode no ritual da expiação, e percebemos como ela difere da função tipológica de Cristo, especialmente por dois motivos:

1) O bode não participa da expiação, pois seu sangue não é derramado, ele é apenas um instrumento para eliminar o pecado do santuário carregando-o ao deserto;

2) O ato de confessar o pecado sobre o bode e enviá-lo ao deserto, simboliza a devolução do pecado ao seu verdadeiro culpado, e parece ser um símbolo do ato final de Deus em devolver o pecado a Satanás. Portanto, acreditamos que esta seja a hipótese mais razoável do sentido da figura do bode para Azazel.


Notas de rodapé

1 P. D. Wright, “Atonement, Day of”, em The Anchor Bible Dictionary, ed. David Noel Freedman, (New York: Doubleday, 1992), 1: 536-537.

2 Ibid.

3 W. Volck, “Azazel” em The New Schaff-Hezog Encyclopedia of Religious Knowledge, ed. Samuel Macauley Jackson (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1966), 1:389.

4 C. F. Keil, Old Testament Commentaries: Genesis to Judges (Chicago: Associated Publishers and Authors Inc., [19–?]), 1:683.

5 R. de Vaux, Instituições de Israel no Antigo Testamento (São Paulo: Editora Teológica, 2003), 545.

6 W. Eichrodt, Teologia do Antigo Testamento (São Paulo: Hagnos, 2004), 681.

7 J. E. Hartley, Leviticus, Word Biblical Commentary, v.4 (Dallas: Word Books, 1992), 238.

8 C. F. Keil, Old Testament Commentaries, 1:683.

9 B. Janowsky, “Azazel” em Dictionary of Deities, and Demons in the Bible, ed. Karel Van Der Toorn, (Grand Rapids, MI: Willian B. Eerdmans, 1999), 129-130.

10 Wright, “Atonement, Day of the”, 536-537.

11 Florentino G. Martínez, The Dead Sea Scrolls Translated (Grand Rapids, MI: Willian B. Eerdmans, 1996), 212, 248-252.

12 H. F. D. Sparks (ed.), The Apocryphal Old Testament (Oxford: Clarendon, 1984) 1:174 citado em: Willian H. Shea, “Azazel na Literatura pseudo-epígrafa” Journal of the Adventist Theological Society, 13/01(spring 2002):1-9.

13 Wright, “Atonement, Day of the”, 536-537.

14 Janowsky, “Azazel”, 129-130.

23 Jacob Neusner, The Mishná, a New Translation (New Haven, CT: Yale University Press, 1988), 275.

24 Gordon J. Wenham, The Book of Leviticus, em The New Internacional Commentary on the Old Testament, v. 3, ed. R. K. Harrison (Grand Rapids, MI: Willian B. Eerdmans, 1979) 233-234.

42 Joel Badina, “The Millennium”, em F. B. Holbrook (ed.), Symposium on Revelation- Book II, Daniel & Revelation Committee Series, v.7 (Silver Spring: Biblical Research Institute, 1992), 237.

 

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