
De Pierson a Köhler: meio século de presidentes conduzindo a IASD para dentro de Babilônia
Quando colocamos em sequência as administrações de Robert Pierson, Neal C. Wilson, Robert Folkenberg, Jan Paulsen, Ted N. C. Wilson e Erton Köhler, o quadro deixa de parecer uma sucessão de erros individuais e assume sua verdadeira dimensão profético-escatológica. Estamos diante de um processo contínuo de apostasia administrativa no qual a estrutura mundial adventista, criada para proclamar as três mensagens angélicas e denunciar Babilônia, aproximou-se progressivamente de Roma, normalizou o ecumenismo, acomodou-se às exigências de governos, protegeu instituições mesmo quando elas praticavam aquilo que os púlpitos condenavam, envolveu-se em escândalos financeiros, buscou reconhecimento de poderes políticos e finalmente transformou a preservação da corporação em prioridade superior à fidelidade à mensagem. Os presidentes mudaram, mas a direção não mudou. Cada um recebeu uma estrutura já comprometida e, em vez de desmontá-la, permitiu que ela avançasse ainda mais.
Robert Pierson: o momento em que deixamos de apenas denunciar Roma e começamos a conversar com ela
Com Robert Pierson encontramos uma das primeiras grandes rupturas administrativas do período moderno. A igreja que havia sido levantada para identificar profeticamente Roma dentro do sistema de Babilônia passou a participar do ambiente criado pelo Concílio Vaticano II. Não estamos falando de um encontro casual ou de um aperto de mãos sem importância. Estamos falando da entrada adventista no processo ecumênico inaugurado por Roma justamente para reconstruir relações com os chamados irmãos separados e reorganizar sua presença diante do protestantismo mundial. A partir daí, aquilo que deveria continuar sendo objeto de advertência profética começou a tornar-se interlocutor institucional. A pergunta é inevitável: como poderíamos proclamar “caiu Babilônia” enquanto nossos representantes acompanhavam o processo pelo qual Roma procurava reaproximar-se das igrejas protestantes? Como poderíamos advertir o mundo contra a besta profética e ao mesmo tempo enviar homens para dialogar com o sistema que identificávamos como essa mesma besta? A contradição não é periférica; está no centro da missão adventista.
O erro de Pierson não pode ser reduzido a “diplomacia religiosa”. Foi ali que se abriu uma porta que as administrações seguintes jamais fecharam. A partir daquele momento, tornou-se possível desenvolver contatos, relações inter-religiosas, protocolos, visitas, departamentos e uma linguagem cuidadosamente adaptada para que a Igreja Adventista pudesse manter sua identidade profética dentro dos templos e, ao mesmo tempo, agir institucionalmente de maneira aceitável diante de Roma. Era o começo da duplicidade moderna: uma mensagem para o membro e outra postura para o sistema religioso mundial.
Neal Wilson: a liderança que precisou neutralizar o passado para proteger a nova amizade com Roma
Com Neal C. Wilson a aproximação deixa de ser apenas relacionamento e passa a exigir uma reinterpretação pública da própria história adventista. Se a igreja desejava manter relações cada vez mais normais com o catolicismo, precisava fazer alguma coisa com sua literatura, com sua tradição profética e com a linguagem histórica que identificava Roma de maneira frontal. É nesse contexto que surge a ideia de empurrar para a “pilha de lixo histórico” o antigo antagonismo protestante ao catolicismo. O significado é devastador: aquilo que gerações de adventistas haviam entendido como parte da grande controvérsia entre verdade e erro passa a ser tratado administrativamente como resíduo de um passado inconveniente.
Não se tratava apenas de suavizar uma expressão. Tratava-se de permitir que a nova relação com Roma sobrevivesse. Uma administração não poderia continuar apresentando o papado publicamente com a mesma contundência dos pioneiros e, simultaneamente, construir relações ecumênicas duradouras com o Vaticano. Uma das duas coisas precisaria ceder. E foi a mensagem que cedeu. O passado foi transformado em exagero, intolerância ou hostilidade antiga; o presente passou a ser apresentado como tempo de diálogo. A administração não abandonou oficialmente Daniel e Apocalipse, mas removeu da aplicação prática dessas profecias aquilo que colocava a instituição em conflito direto com Roma.
Neal Wilson e o aborto: quando a preservação dos hospitais passou a valer mais do que o “não matarás”
A administração de Neal Wilson também está ligada a uma das denúncias mais graves de toda essa história: a aceitação institucional do aborto e das políticas de controle populacional. Não estamos falando apenas de declarações teóricas sobre planejamento familiar. Estamos falando de uma estrutura hospitalar adventista que passou a realizar abortos e a adaptar-se às exigências dos sistemas médicos e governamentais para preservar o funcionamento de suas instituições. A questão é brutalmente simples: quando hospitais adventistas praticam aquilo que a própria igreja apresenta como destruição de vida humana, o problema não pode ser escondido atrás de burocracia médica ou de linguagem administrativa. A organização criou instituições para servir à missão, mas passou a proteger as instituições mesmo quando elas entraram em conflito com a própria mensagem.
É aí que a apostasia administrativa se torna pecado corporativo. Não podemos condenar aborto no púlpito enquanto nossas instituições o realizam para preservar credenciamento, contratos, receitas ou submissão às regulamentações governamentais. Não podemos recitar “não matarás” no sábado e depois explicar que durante a semana a realidade hospitalar exige outra política. Quando isso acontece, a corporação passa a possuir uma moral própria, diferente da moral que prega aos membros. A fé continua rígida para o fiel comum; a instituição recebe exceções. A consciência é exigida do membro; a administração invoca necessidade.
Robert Folkenberg: dinheiro, escândalo e a Conferência Geral transformada em corporação
Com Robert Folkenberg a decadência administrativa ganha outra dimensão: o poder financeiro. A presidência mundial torna-se associada a controvérsias envolvendo milhões de dólares, processos e acusações suficientemente graves para culminar em sua renúncia. O episódio não pode ser tratado como simples falha pessoal. Ele revela o que a própria estrutura havia se tornado. A Conferência Geral já não era apenas centro espiritual de uma denominação; era o topo de uma corporação internacional com enorme patrimônio, operações, influência e poder. Quando o dinheiro se aproxima tanto do centro do comando religioso, a tentação deixa de ser teórica.
Folkenberg simboliza o momento em que aquilo que deveria ser um movimento missionário passa a reproduzir os escândalos típicos das grandes corporações. A administração mundial já havia acumulado poder suficiente para que relações financeiras obscuras no topo provocassem crise global. E, enquanto tudo isso acontecia, a mensagem profética continuava sendo pregada aos membros como se a própria estrutura administrativa estivesse acima do juízo que anunciava aos outros.
1995: o estandarte do Vaticano entra no espaço mundial adventista
A Sessão da Conferência Geral de 1995 oferece uma das imagens mais chocantes dessa trajetória. A bandeira do Vaticano aparece diante dos delegados adventistas e é recebida num ambiente de cordialidade. O símbolo dispensa longas explicações. Uma igreja fundada sobre a denúncia profética de Roma chega ao ponto de receber o estandarte romano em sua própria assembleia mundial. Não é apenas protocolo. É o retrato visual de décadas de acomodação.
O que os pioneiros teriam reconhecido imediatamente como sinal de comprometimento passa a ser tratado como gesto de boa convivência. O que antes seria entendido como entrada de Babilônia passa a ser chamado de respeito institucional. E, para completar a inversão, aparece a linguagem segundo a qual o papa e representantes adventistas seriam irmãos porque descendem do mesmo Pai. A mensagem que dizia “sai dela, povo meu” transforma-se administrativamente em “somos membros da mesma família”.
Esse não é um detalhe secundário. É a substituição de uma categoria profética por uma categoria ecumênica. Se Roma é simplesmente nossa irmã religiosa, então a denúncia histórica perde sentido. Se somos todos parte da mesma família, então a separação escatológica de Apocalipse 14 precisa ser reinterpretada, atenuada ou confinada ao discurso interno. Foi exatamente isso que aconteceu.
Jan Paulsen: a apostasia deixa de provocar escândalo e passa a funcionar como política normal
Jan Paulsen recebe uma igreja em que os principais mecanismos de acomodação já estavam instalados. O Vaticano já não era presença impensável; o ecumenismo já não era novidade; as relações públicas já haviam aprendido a domesticar a linguagem profética; a corporação já havia desenvolvido enorme poder econômico e jurídico. Sua administração representa, portanto, a fase da normalização. O que antes precisava ser justificado passa a ser simplesmente administrado. A denominação entra no século XXI já habituada a ocupar mesas de diálogo, participar de fóruns inter-religiosos, cultivar relações diplomáticas e apresentar-se como parceira respeitável da ordem religiosa internacional.
Esse estágio é particularmente perigoso porque a apostasia já não parece apostasia. Uma geração inteira cresce sem memória suficiente para perceber o tamanho da mudança. Os membros continuam ouvindo sermões sobre Daniel, Apocalipse, Babilônia, sábado e grande conflito, mas a administração opera segundo outra lógica. Já não existe choque entre discurso profético e prática institucional porque a prática foi normalizada e o discurso foi domesticado.
Ted Wilson: conservadorismo no púlpito, continuidade da máquina nos bastidores
Ted N. C. Wilson chega à presidência cercado por uma imagem de restauração conservadora. Ellen White volta a ser intensamente citada, os pioneiros são exaltados, fala-se de reavivamento, reforma, missão, remanescente e segunda vinda. Para muitos, isso cria a impressão de que a igreja retornou às origens. Mas a estrutura construída nas administrações anteriores permanece praticamente intacta. A diplomacia permanece. As relações públicas permanecem. A presença em organismos internacionais permanece. A maquinaria jurídica permanece. A integração com governos permanece. O aparato corporativo permanece.
É nesse contexto que sua proximidade com estruturas como as Nações Unidas ganha significado profético. A mesma denominação que ensina que Babilônia é formada pela união entre religião e poder político deseja ser reconhecida, ouvida e inserida nos ambientes centrais da ordem política internacional.
A contradição é ainda mais perigosa porque agora está revestida de conservadorismo. Podemos citar Ellen White de manhã e manter a máquina ecumênico-diplomática funcionando à tarde. Podemos fazer apelos para retorno às origens enquanto preservamos todas as estruturas criadas pelo afastamento das origens. Podemos atacar liberalismo doutrinário e continuar absolutamente integrados ao sistema político-religioso mundial. O membro escuta linguagem histórica e imagina que a história foi restaurada, mas a corporação não retrocede um centímetro.
Ted Wilson e o silêncio diante daquilo que os pioneiros gritariam
O problema maior não é apenas aquilo que a administração faz, mas aquilo que deixou de dizer. Quanto mais a igreja se aproximou de Roma, mais difícil se tornou denunciar Roma com a mesma clareza antiga. Quanto mais dependente se tornou de governos, mais difícil passou a ser condenar a união entre religião e Estado sem colocar em risco seus próprios relacionamentos. Quanto maior se tornou sua rede hospitalar, mais impossível ficou discutir abertamente práticas realizadas dentro dela. Quanto mais patrimônio acumulou, maior passou a ser o preço institucional da fidelidade.
Assim, a liderança conservadora termina presa à mesma máquina que aparentemente critica. Pode mudar a tonalidade dos sermões, mas não desmonta o sistema. Pode pedir mais leitura de Ellen White, mas não rompe os relacionamentos construídos em contradição com as advertências que cita.
Erton Köhler: a geração que recebe a apostasia institucional como herança pronta
Erton Köhler assume a presidência mundial não no início desse processo, mas no fim de uma longa cadeia de normalizações. Ele recebe uma Conferência Geral em que aquilo que teria escandalizado os pioneiros já está incorporado à rotina institucional. Recebe uma organização gigantesca, globalizada, profundamente jurídica, corporativa, diplomática e integrada ao sistema político e religioso internacional. Recebe hospitais, universidades, departamentos, estruturas de relações públicas, comunicação institucional, relações governamentais e décadas de experiência ecumênica. Não precisa abrir a porta que Pierson abriu. Ela está escancarada.
Erton Köhler também aparece associado a uma cultura administrativa fortemente marcada por grandes eventos, mobilização de massas, espetacularização de programas para jovens, fogos, machados, trombetas e pela valorização crescente da visibilidade denominacional. O problema não está simplesmente em reunir jovens ou promover grandes encontros, mas em transformar espetáculo, impacto visual, números e capacidade de mobilização em sinais de vitalidade espiritual, enquanto denúncias muito mais graves permanecem sem resposta.
Uma igreja pode lotar estádios, reunir milhares de Desbravadores, produzir cerimônias grandiosas e celebrar crescimento estatístico sem que isso diga absolutamente nada sobre sua fidelidade profética. Espetáculo não apaga ecumenismo. Multidões não apagam aborto em hospitais adventistas. Campanhas não apagam aproximação com Roma. Crescimento numérico não apaga corrupção administrativa. Comunicação institucional não apaga pecado corporativo. Quando a aparência de força passa a ocupar o lugar da fidelidade, a própria grandiosidade pode transformar-se em cortina destinada a esconder a profundidade da crise.
Isso é significativo porque representa uma igreja que aprendeu a medir vitalidade por espetáculo, números, mobilização e impacto visual enquanto questões muito mais graves permanecem enterradas sob a propaganda institucional. Podemos lotar estádios, reunir milhares de Desbravadores, construir palcos gigantescos, produzir transmissões internacionais e apresentar crescimento como sinal da bênção divina, mas nenhuma dessas coisas responde às acusações históricas que se acumulam contra a administração mundial. Espetáculo não apaga aborto. Campanha não apaga ecumenismo. Batismo em massa não apaga comprometimento com Roma. Comunicação institucional não apaga escândalo financeiro. Unidade administrativa não apaga pecado corporativo.
A sucessão completa: cada presidente recebeu o desvio e o aprofundou
Quando colocamos tudo em ordem, a linha deixa de ser ambígua. Pierson participa da abertura ecumênica e aproxima a igreja do ambiente do Vaticano II. Neal Wilson ajuda a neutralizar a velha linguagem anticatólica, associa a administração adventista às políticas de controle populacional e deixa a estrutura hospitalar cada vez mais subordinada às exigências do sistema. Folkenberg preside uma igreja já transformada em enorme corporação, envolve-se em grave crise financeira e governa durante a Sessão de 1995, quando o estandarte do Vaticano é recebido diante da liderança mundial. Paulsen consolida e normaliza a estrutura ecumênica e diplomática herdada. Ted Wilson restaura a retórica conservadora, mas não desmonta a máquina política, corporativa e inter-religiosa construída por seus predecessores. Köhler recebe tudo isso como estrutura pronta e inicia sua presidência dentro de uma igreja que já aprendeu a considerar normal aquilo que seus pioneiros teriam denunciado como apostasia.
Não foram seis erros. Foi uma direção
É aqui que precisamos abandonar a ingenuidade. Não estamos diante de seis presidentes cometendo erros separados. Estamos diante de uma direção histórica. A aproximação com Roma não foi revertida. O ecumenismo não foi desmontado. O aparato de relações públicas não foi eliminado. Os hospitais não deixaram de subordinar-se ao sistema médico e governamental. A corporação não foi desmantelada. A busca por reconhecimento político não cessou. A concentração administrativa não diminuiu. A linguagem profética não recuperou sua antiga contundência. Cada administração recebeu aquilo que a anterior construiu e escolheu preservá-lo.
Se fossem erros isolados, esperaríamos correção. O que vemos é continuidade.
A corporação aprendeu a usar a profecia sem permitir que a profecia a julgue
Esse talvez seja o resultado mais perverso de todo o processo. A IASD continua utilizando Daniel, Apocalipse, Ellen White, o Grande Conflito, os três anjos, o sábado, Babilônia e o remanescente como elementos de identidade. Mas essas mesmas categorias raramente são aplicadas contra a própria estrutura administrativa. Babilônia é sempre o outro. Apostasia é sempre externa ou local. Comprometimento é sempre problema de algum membro. O juízo é pregado ao mundo, mas dificilmente aplicado à Conferência Geral.
Foi assim que a corporação aprendeu a sobreviver à própria profecia.
Podemos pregar contra a união entre religião e política enquanto buscamos acesso ao poder político. Podemos pregar contra Babilônia enquanto cultivamos relações com Roma. Podemos pregar contra aborto enquanto hospitais ligados à denominação o realizam. Podemos denunciar corrupção moral enquanto presidentes mundiais se envolvem em escândalos financeiros. Podemos citar Ellen White enquanto fazemos exatamente aquilo que seus escritos denunciam: retirar progressivamente da plataforma o estandarte que nos tornava um povo peculiar.
O problema agora não é descobrir se a apostasia começou, mas reconhecer até onde ela chegou
De Pierson a Köhler passaram-se décadas suficientes para que a exceção se transformasse em sistema. Aquilo que começou com aproximação tornou-se relacionamento. Aquilo que começou com relacionamento tornou-se política. Aquilo que começou com política tornou-se cultura administrativa. Aquilo que começou como comprometimento passou a ser apresentado como maturidade institucional.
E é justamente por isso que a denúncia precisa ser profético-escatológica. Não estamos discutindo apenas administração ruim. Estamos discutindo uma organização que afirma ser o remanescente de Apocalipse enquanto reproduz dentro de sua própria estrutura os mecanismos de Babilônia que afirma denunciar: concentração de poder, aproximação entre religião e política, alianças institucionais, proteção corporativa, submissão da consciência aos interesses da organização e silenciamento de quem ameaça a estabilidade do sistema.
O juízo começa pela casa de Deus
Se levamos Ezequiel 9 a sério, não podemos continuar imaginando que o problema final estará apenas fora da igreja. O juízo começa no santuário. Começa entre aqueles que receberam luz. Começa entre administradores, pastores, líderes e membros que sabem o que está acontecendo e preferem a segurança da instituição ao desconforto da verdade.
Pierson abriu a porta. Neal Wilson alargou a passagem. Folkenberg mostrou a profundidade da corrupção corporativa. Paulsen normalizou o sistema. Ted Wilson revestiu a estrutura com linguagem conservadora. Köhler recebe agora a máquina inteira.
A questão escatológica já não é saber se temos uma organização forte. É saber se ainda temos coragem de colocar a mensagem acima dela. Porque, se a corporação precisa silenciar a profecia para sobreviver, então não é a profecia que precisa ser sacrificada.
É a corporação.
(Vídeo em espanhol. Se quiser assistir à versão dublada em português, clique em “Assidta no Youtube” e configure o player para dublagem automática em português.)
Pastor Marcos Pozo: “A igreja que deveria denunciar Babilônia acabou abrindo as portas para ela!”
Da aproximação com Roma à submissão aos governos, do silenciamento da mensagem profética aos escândalos administrativos, a história que emerge diante de nós é a de uma denominação que cresceu, acumulou patrimônio, hospitais, universidades, influência e relações diplomáticas, mas pagou por essa expansão um preço devastador: transformou a mensagem dos três anjos em linguagem institucional controlada, trocou o confronto profético pela respeitabilidade pública e construiu uma máquina religiosa que passou a proteger a própria sobrevivência antes de proteger a verdade que dizia proclamar.
Quando o zelo pela verdade passou a ser tratado como problema
Precisamos começar onde a própria mensagem começa: não com presidentes, departamentos, hospitais ou escândalos financeiros, mas com Elias, Jeremias e Ezequiel. Existe uma diferença radical entre uma religião preocupada em manter sua estabilidade e uma fé profética incapaz de permanecer silenciosa diante da apostasia. Elias não contemplou serenamente a corrupção de Israel; sua alma se perturbou. Jeremias não encontrou uma maneira diplomática de acomodar aquilo que Deus lhe havia ordenado proclamar; a palavra tornou-se fogo dentro dele. Em Ezequiel 9, os que recebem o sinal não são os indiferentes, os adaptados ou os silenciosos, mas aqueles que gemem e clamam por causa das abominações praticadas no meio do povo de Deus. É justamente esse princípio que precisamos recuperar para compreender o que aconteceu conosco: quando uma instituição religiosa passa a considerar o zelo inconveniente, a denúncia excessiva e a clareza perigosa, alguma coisa já se inverteu. O problema deixa de ser o pecado denunciado e passa a ser aquele que denuncia. A mensagem é suavizada não porque os pecados desapareceram, mas porque falar deles passou a colocar em risco relações, instituições, empregos, reputações e interesses administrativos. O profeta se transforma em incômodo; o administrador se transforma em guardião da estabilidade. A partir desse ponto, o silêncio passa a receber nomes respeitáveis: prudência, equilíbrio, diplomacia, diálogo, relações públicas. Mas o resultado permanece o mesmo: a verdade que deveria ser proclamada com clareza passa a ser administrada de acordo com aquilo que a organização consegue suportar sem comprometer sua posição.
O movimento profético cresceu e a corporação tomou o seu lugar
O adventismo nasceu pequeno, pobre, impopular e profético. Não possuía redes hospitalares gigantescas, universidades espalhadas pelo mundo, departamentos jurídicos especializados, representação internacional, estruturas administrativas milionárias nem a necessidade permanente de preservar relações com governos, autoridades civis e outras organizações religiosas. À medida que cresceu, porém, acumulou tudo isso. Criamos instituições, adquirimos propriedades, fundamos escolas, universidades, hospitais, clínicas, editoras, centros administrativos e organizações cada vez mais dependentes de reconhecimento legal, credenciamento, legislação, políticas públicas, contratos, permissões governamentais e relações diplomáticas. O crescimento que parecia demonstrar sucesso começou a produzir uma vulnerabilidade espiritual profunda: passamos a ter coisas demais a perder. Uma mensagem profética pode ser rejeitada pela sociedade sem perder sua identidade; uma corporação internacional, porém, calcula consequências. Uma igreja pequena pode dizer aquilo que acredita sem consultar departamentos jurídicos; uma organização gigantesca começa a perguntar se determinada declaração afetará hospitais, universidades, concessões, relações institucionais ou sua imagem pública. Foi assim que a pergunta fundamental mudou. Em lugar de perguntarmos simplesmente “o que Deus nos mandou proclamar?”, passamos progressivamente a perguntar “até onde podemos proclamar isso sem colocar a organização em risco?”. Quando essa substituição acontece, a mensagem já não governa mais a instituição. É a instituição que começa a governar a mensagem.
O estandarte foi sendo abaixado diante dos nossos próprios olhos
Há uma imagem profética particularmente perturbadora porque descreve precisamente o mecanismo dessa transformação: homens que continuam ostentando o nome adventista, mas aconselham que aquilo que nos torna um povo peculiar não seja apresentado com tanta proeminência. Não é necessário eliminar imediatamente a mensagem. Basta diminuí-la. Não é necessário negar formalmente a profecia. Basta torná-la desconfortável para divulgação pública. Não é necessário retirar o sábado da declaração de crenças. Basta evitar transformá-lo em confronto quando isso prejudicar relações institucionais. Não é necessário rejeitar Apocalipse 14. Basta repetir suas palavras dentro dos templos enquanto nossas relações externas comunicam outra coisa. Essa é a genialidade do processo de neutralização: conserva-se a linguagem enquanto se esvazia sua consequência. Continuamos dizendo “Babilônia caiu”, mas passamos a estabelecer relações cordiais, diplomáticas e fraternas com aqueles que historicamente identificávamos dentro do próprio sistema babilônico. Continuamos falando da terceira mensagem angélica, mas criamos departamentos de relações públicas justamente para impedir que nossa linguagem produza conflitos públicos indesejáveis. Continuamos citando os pioneiros, mas nos afastamos da contundência que lhes custou perseguição, rejeição e pobreza. O estandarte não precisou ser queimado. Bastou baixá-lo lentamente, até que permanecesse visível apenas o suficiente para conservar o nome adventista.
De denunciadores de Roma a interlocutores de Roma
A aproximação com Roma representa um dos sinais mais graves dessa mudança porque toca diretamente o coração da identidade profético-escatológica adventista. Fomos levantados proclamando uma leitura específica de Daniel e Apocalipse, identificando o sistema romano dentro da estrutura profética de Babilônia e advertindo contra a união entre poder religioso e poder civil. Contudo, em algum momento, aqueles que deveriam manter essa advertência começaram a construir pontes com o próprio sistema que seus predecessores denunciavam. Representantes adventistas passaram a frequentar ambientes de diálogo inter-religioso e a estabelecer contatos com autoridades católicas; homens ligados à administração mundial apareceram ao lado de papas; departamentos de relações públicas passaram a cultivar relações que, em gerações anteriores, seriam consideradas incompatíveis com a missão profética da denominação. Não estamos diante de uma simples mudança de linguagem. Estamos diante de uma mudança de função. A igreja que deveria convocar pessoas a sair de Babilônia começou a procurar maneiras de ser recebida por Babilônia sem causar constrangimento. A instituição que deveria advertir Roma passou a preocupar-se em não ofender Roma. O movimento que nasceu anunciando conflito profético passou a tratar a aproximação institucional como sinal de maturidade religiosa. E aquilo que antes seria chamado de comprometimento passou a ser apresentado como diálogo.
O ecumenismo entrou pela porta das relações públicas
É nesse contexto que as relações públicas assumem uma importância muito maior do que aparentam. Elas não funcionam apenas como comunicação institucional; tornam-se o mecanismo pelo qual a mensagem é adaptada às exigências da aceitação pública. A metáfora do cavalo de Troia é apropriada porque a transformação não precisaria chegar declarando guerra contra a mensagem dos três anjos. Ela entraria prometendo melhorar nossa imagem, evitar mal-entendidos, construir pontes, conquistar respeito e demonstrar que não somos intolerantes. Progressivamente, a linguagem profética seria reclassificada como um problema de comunicação. A denúncia de Babilônia poderia parecer ofensiva. A identificação do papado poderia prejudicar relações. A crítica às alianças entre religião e política poderia dificultar contatos institucionais. O resultado seria previsível: continuaríamos oficialmente possuindo a mensagem enquanto aprenderíamos administrativamente a não pronunciá-la onde pudesse causar consequências. O terceiro anjo permaneceria nos livros, nos seminários e nos documentos doutrinários, mas seria cuidadosamente afastado dos ambientes em que a organização deseja ser respeitada. Assim, o ecumenismo não precisaria alterar formalmente as crenças fundamentais; bastaria remodelar o comportamento institucional até que a antiga mensagem deixasse de governar nossas relações.
Quando passamos de “Babilônia caiu” para “somos irmãos”
A Sessão da Conferência Geral de 1995 aparece nessa história como um símbolo extraordinário da distância percorrida. A presença do estandarte do Vaticano, sua apresentação diante de representantes adventistas e a reação favorável recebida naquele ambiente transformam um simples protocolo numa imagem teológica profundamente incômoda. Durante décadas, ensinamos nossos membros a interpretar o sistema romano pela linguagem profética de Apocalipse. Então chegamos ao ponto em que símbolos desse mesmo sistema puderam ser recebidos no espaço máximo da administração mundial adventista. Mais reveladora ainda é a linguagem atribuída a um representante jurídico da Associação Geral ao declarar que ele e o papa descendiam do mesmo Pai e, por isso, seriam irmãos. Podemos perceber o tamanho da mudança quando colocamos lado a lado as duas linguagens. De um lado está Apocalipse 14: Babilônia caiu; saiam do sistema; não adorem a besta nem sua imagem. De outro lado surge a diplomacia religiosa: somos irmãos, pertencemos à mesma família, diferenças não deveriam afastar-nos. A questão não é mera cordialidade pessoal. A questão é o que essa linguagem faz com uma mensagem cuja razão de existir era justamente estabelecer uma linha de separação profética. Quando aquele que deveríamos advertir passa a ser publicamente recebido como irmão institucional, a terceira mensagem angélica permanece escrita, mas sua lâmina foi retirada.
Neal Wilson e a tentativa de jogar o passado profético no lixo
A administração de Neal Wilson ocupa lugar decisivo nesse processo porque representa uma época em que o distanciamento da antiga postura adventista passou a ser expresso com impressionante clareza. Aquilo que durante décadas formou a consciência profética adventista começou a ser tratado como herança inconveniente de um passado de conflito entre protestantes e católicos. A famosa referência ao “lixo histórico” sintetiza essa mentalidade: o anticatolicismo protestante que havia ajudado a formar nossa interpretação profética deveria permanecer no passado, enquanto uma nova Igreja Adventista se apresentaria ao mundo como instituição mais aceitável, respeitável e integrada. Mas aquilo que a administração poderia considerar resíduo histórico era precisamente parte da estrutura pela qual gerações de adventistas haviam compreendido o Grande Conflito. Não se tratava apenas de suavizar palavras ofensivas. Tratava-se de redefinir a relação da denominação com Roma para tornar possível uma nova postura institucional. E, quando fazemos isso, precisamos admitir a consequência: não podemos simultaneamente preservar intacta uma escatologia baseada no conflito com o sistema romano e construir uma política administrativa fundamentada na normalização das relações com esse mesmo sistema sem produzir uma contradição profunda.
Uma igreja grande demais para obedecer sem calcular o preço
O mesmo mecanismo aparece quando passamos das relações religiosas para as instituições de saúde, educação e assistência social. Hospitais e universidades não existem num vácuo. Dependem de legislação, credenciamento, autorização governamental, financiamento, contratos, regulamentações profissionais e padrões determinados pelo Estado. Quando essas instituições atingem dimensões gigantescas, a administração começa a enfrentar uma escolha que o pequeno movimento pioneiro quase não conhecia: obedecer à consciência religiosa mesmo que isso ameace a existência da instituição, ou adaptar-se às exigências externas para mantê-la funcionando. A denúncia é que, repetidamente, escolhemos preservar a instituição. O patrimônio tornou-se argumento. O hospital precisa continuar aberto. A universidade precisa permanecer credenciada. O sistema precisa manter seus funcionários. A organização precisa preservar sua posição. E assim aquilo que deveria ser subordinado à missão passa a determinar os limites da missão. Já não possuímos instituições para servir à mensagem; começamos a possuir uma mensagem que precisa ser administrada para servir à continuidade das instituições.
Aborto, controle populacional e a submissão da consciência institucional
É nesse cenário que aparece a denúncia relacionada ao aborto, ao planejamento familiar e às políticas de controle populacional. Declarações administrativas favoráveis a esforços de controle populacional revelam a facilidade com que uma organização religiosa pode adotar a linguagem das políticas públicas quando sua sobrevivência institucional depende de permanecer integrada ao sistema. A acusação se torna ainda mais grave quando consideramos hospitais adventistas submetidos a regulamentações governamentais e padrões médicos determinados externamente. Se o princípio administrativo dominante é impedir o fechamento das instituições, então aquilo que deveria ser uma questão teológica absoluta passa a ser negociado como problema regulatório. E aqui surge a pergunta que não podemos evitar: de que adianta proclamarmos “não matarás” nos púlpitos se nossas estruturas institucionais aceitam práticas que contradizem aquilo que pregamos para preservar sua continuidade? Uma igreja que aceita uma coisa dentro de seus hospitais enquanto condena a mesma coisa em seus sermões já não sofre apenas de incoerência moral; sofre de divisão entre fé proclamada e prática corporativa. A mensagem existe para o membro. A exceção existe para a instituição.
O pecado corporativo transforma a responsabilidade da liderança em responsabilidade nossa
É aqui que a denúncia deixa de permitir que nos escondamos atrás da distância administrativa. Podemos dizer que não somos presidentes, administradores, diretores hospitalares nem integrantes da Conferência Geral. Podemos afirmar que não participamos das reuniões, não assinamos documentos e não determinamos políticas. Mas a Escritura contém um princípio incômodo: o pecado pode adquirir dimensão corporativa. O episódio de Acã mostra Israel inteiro sendo atingido pelo pecado que havia sido praticado dentro do acampamento. Trinta e seis homens morrem numa batalha enquanto Josué pergunta por que Deus permitiu a derrota. A resposta não é que apenas Acã pecou e o restante do povo nada tinha a ver com aquilo. A resposta é que havia pecado em Israel. A comunidade estava afetada pelo pecado existente em seu meio. Aplicado à nossa realidade, esse princípio destrói a confortável separação entre “a liderança” e “nós”. Se conhecemos aquilo que está sendo praticado, financiamos a estrutura, legitimamos seus dirigentes, continuamos sustentando-a e permanecemos silenciosos para preservar nossa tranquilidade religiosa, então a questão deixa de ser exclusivamente o que eles fazem. Torna-se aquilo que aceitamos continuar sustentando.
Ezequiel 9 não começa em Babilônia, começa no santuário
Talvez esse seja um dos aspectos mais assustadores de toda essa mensagem. O juízo de Ezequiel 9 não começa entre os pagãos. Começa no próprio santuário. Os primeiros a serem alcançados estão diante da casa de Deus. O sinal é colocado sobre aqueles que gemem e clamam por causa das abominações praticadas em seu meio. Isso significa que a crise final não pode ser reduzida a uma batalha confortável entre uma igreja pura e um mundo perverso. A Escritura nos obriga a olhar primeiro para dentro. O problema não é apenas Roma. O problema não é apenas Babilônia externa. O problema é aquilo que permitimos entrar em nosso próprio acampamento enquanto continuamos usando linguagem profética contra os outros. Podemos denunciar a união entre igreja e Estado enquanto nossos administradores buscam relações privilegiadas com governos. Podemos denunciar Babilônia enquanto nossos departamentos constroem amizade institucional com seus representantes. Podemos condenar corrupção moral enquanto preservamos estruturas economicamente convenientes que se submetem às mesmas práticas que condenamos. Podemos repetir que o juízo começará pelo mundo, mas Ezequiel nos lembra que ele começa pela casa de Deus.
Folkenberg e o momento em que a crise moral alcançou o topo
A história de Robert Folkenberg acrescenta à apostasia doutrinária e institucional a dimensão explícita dos interesses financeiros e das relações empresariais que cercaram o mais alto nível da administração adventista. Quando um presidente mundial se vê envolvido em graves controvérsias financeiras e termina deixando o cargo sob pressão, não estamos mais discutindo apenas diferenças de interpretação profética. Estamos diante daquilo que acontece quando uma estrutura religiosa passa a operar com a complexidade, os interesses e os riscos de uma corporação. O dinheiro deixa de ser apenas instrumento missionário e passa a formar redes de influência, negócios, compromissos e vulnerabilidades. O dirigente religioso deixa de ser apenas pastor e se transforma em executivo de uma organização internacional gigantesca. Os problemas dessa estrutura, consequentemente, deixam de ser apenas espirituais e passam a reproduzir os mesmos escândalos que encontramos em grandes corporações seculares. Quando isso ocorre no coração da administração mundial, não podemos tratar o episódio como acidente completamente isolado. Precisamos perguntar que tipo de sistema tornou possível que relações financeiras dessa natureza se aproximassem tanto do centro de comando de uma igreja que reivindica missão profética.
A proximidade com os poderosos passou a valer mais do que a distância profética
Também não podemos ignorar a crescente familiaridade de dirigentes adventistas com presidentes, organismos internacionais, autoridades políticas e centros de poder. A Escritura profética que utilizamos para interpretar Babilônia destaca precisamente o relacionamento entre religião e poder civil. Contudo, ao mesmo tempo em que advertimos nossos membros contra essa união, nossa administração passou a valorizar fotografias, cerimônias, audiências, reconhecimentos e relações diplomáticas com os mesmos centros políticos que deveriam ser observados com independência profética. O problema não está em cumprimentar uma autoridade ou conversar com um governante. Está na transformação psicológica e institucional que acontece quando o reconhecimento dos poderosos passa a ser considerado conquista. A igreja perseguida fala diante dos reis porque precisa testemunhar. A corporação religiosa procura os reis porque deseja reconhecimento. Essas duas posturas podem produzir fotografias semelhantes, mas representam espíritos completamente diferentes. João Batista esteve diante de Herodes para dizer-lhe que estava em pecado. Nossa pergunta deveria ser se ainda desejamos estar diante dos governantes para dizer aquilo que precisa ser dito ou se preferimos estar ao lado deles para registrar que fomos recebidos.
Transformamos a perseguição ao dissidente em mecanismo de defesa institucional
Uma organização que abandona progressivamente sua função profética inevitavelmente entra em conflito com aqueles que insistem em recuperá-la. É por isso que expulsões, silenciamentos, constrangimentos e até utilização de autoridades civis contra pregadores dissidentes adquirem significado muito maior do que simples disputas administrativas. Quando pessoas são tratadas como problema porque distribuem materiais, denunciam compromissos institucionais ou proclamam publicamente aquilo que a denominação prefere restringir ao ambiente interno, ocorre uma inversão perturbadora: os administradores passam a utilizar instrumentos do sistema civil para controlar aqueles que afirmam estar defendendo a mensagem original da própria igreja. A instituição que nasceu de pessoas perseguidas por suas convicções corre então o risco de tornar-se perseguidora daqueles que considera inconvenientes. O dissidente é chamado de rebelde, desequilibrado, extremista ou inimigo da unidade. Mas Jeremias também foi considerado inimigo nacional. Elias também foi acusado de perturbar Israel. João Batista também foi removido porque sua mensagem incomodava o poder. O simples fato de uma administração punir um denunciante não demonstra que ele esteja errado; algumas vezes demonstra apenas que sua presença se tornou intolerável para a estrutura denunciada.
Ellen White contra a igreja que transformou Ellen White em patrimônio institucional
Existe ainda uma ironia quase insuportável nessa história: a própria Ellen White, que a administração adventista transformou em símbolo institucional, patrimônio editorial, autoridade doutrinária e marca denominacional, fornece a linguagem mais contundente para denunciar aquilo em que a organização se transformou. Não precisamos abandonar seus escritos para acusar a estrutura; podemos utilizá-los contra a própria estrutura que afirma preservá-los. A advertência sobre homens que ostentariam o nome adventista enquanto recomendariam que o estandarte distintivo não fosse tão destacado descreve com impressionante precisão uma denominação que continua chamando-se adventista enquanto adapta sua mensagem ao que pode ser institucionalmente tolerado. A administração pode conservar seus livros em milhões de exemplares, construir centros de pesquisa, produzir compilações, publicar edições comemorativas e citar seus parágrafos em sermões oficiais. Nada disso responde à pergunta decisiva: estamos fazendo aquilo que ela advertiu que não deveríamos fazer? A profetisa pode ser venerada editorialmente e ignorada administrativamente. Podemos transformar sua fotografia em símbolo enquanto rejeitamos as consequências de suas advertências. Nesse sentido, a maior acusação contra a administração adventista não precisa vir de seus inimigos. Pode surgir dos próprios textos que ela continua publicando.
A grande inversão: preservamos o nome e abandonamos a função
É possível agora enxergar a estrutura inteira. Continuamos possuindo o nome. Continuamos possuindo templos. Continuamos realizando batismos. Continuamos administrando escolas, universidades, hospitais, editoras e departamentos missionários. Continuamos publicando Ellen White. Continuamos pregando sobre Daniel e Apocalipse. Continuamos mencionando os três anjos. Continuamos celebrando os pioneiros. Mas tudo isso pode sobreviver institucionalmente mesmo depois que a função profética foi neutralizada. Uma organização pode conservar perfeitamente seus símbolos enquanto abandona a razão pela qual esses símbolos surgiram. Pode continuar crescendo numericamente enquanto se torna espiritualmente irreconhecível. Pode confundir quantidade de membros com fidelidade, patrimônio com bênção, influência com missão e reconhecimento público com sucesso. Quando isso acontece, a aparência de prosperidade torna-se uma miragem. Temos membros, mas talvez já não tenhamos movimento. Temos templos, mas talvez já não tenhamos protesto. Temos administração, mas talvez já não tenhamos profecia. Temos uma corporação perfeitamente funcional, mas precisamos perguntar se ainda temos aquilo que originalmente justificava sua existência.
O conflito final pode encontrar Babilônia do lado de fora e sua lógica instalada dentro de nós
A dimensão escatológica dessa denúncia é precisamente esta: não devemos imaginar a crise final de maneira infantil, como se de um lado estivesse uma Igreja Adventista institucionalmente pura e, de outro, todas as forças de Babilônia organizadas contra ela. A história pode ser muito mais terrível. Babilônia pode estar externamente identificada enquanto seus métodos, sua busca por poder, sua diplomacia, sua dependência política e sua lógica institucional já penetraram a estrutura daqueles que afirmam denunciá-la. Podemos chegar ao conflito final repetindo a linguagem correta e possuindo a organização errada. Podemos ensinar nossos membros a aguardarem uma perseguição externa enquanto os mecanismos de acomodação já foram construídos internamente. Podemos imaginar que a prova será escolher entre sábado e domingo quando antes disso talvez já tenhamos sido provados pela escolha entre verdade e patrimônio, entre fidelidade e reputação, entre mensagem e instituição, entre consciência e segurança administrativa. Quem aprende durante décadas a preservar a corporação sacrificando pequenas partes da mensagem não acordará subitamente preparado para sacrificar a corporação quando a mensagem exigir tudo.
Não somos chamados a salvar a corporação, mas a permanecer fiéis
Precisamos então abandonar uma confusão perigosa: defender Deus não é defender a administração adventista; defender a verdade não é proteger a reputação da denominação; preservar a fé não é impedir que escândalos sejam conhecidos. Deus não depende de nossas estruturas. Cristo não depende de nossos hospitais, universidades, associações, uniões, divisões ou da própria Conferência Geral. Se alguma dessas estruturas se corromper, expô-la não destrói a igreja de Deus; pode ser justamente aquilo que separa a igreja de Deus daquilo que passou a utilizar seu nome. Nossa fidelidade não deve ser à marca denominacional, mas à verdade. Não recebemos a missão de preservar uma organização a qualquer custo. Recebemos a missão de testemunhar. Se a organização serve à mensagem, devemos utilizá-la. Se começa a controlar a mensagem, devemos denunciá-la. Se abandona aquilo que justificou sua existência, não podemos transformar lealdade administrativa em mandamento divino.
A pergunta final não é o que eles fizeram, mas o que faremos depois de saber
No fim, porém, toda essa denúncia perderia sua força se servisse apenas para produzir indignação contra dirigentes. Podemos conhecer cada aproximação com Roma, cada concessão administrativa, cada escândalo, cada silêncio institucional e cada comprometimento histórico e ainda continuar espiritualmente perdidos. A mensagem profética não termina em investigação; termina em caráter. João Batista não possuía departamentos, assessoria de imprensa, proteção institucional nem relações públicas. Possuía uma mensagem e vivia de acordo com ela. Sua autoridade não procedia de posição administrativa, mas da coerência entre aquilo que proclamava e aquilo que era. É esse o teste que finalmente chega até nós. Podemos condenar a covardia de administradores e continuar covardes em nossa própria vida. Podemos denunciar corrupção enquanto alimentamos nossos próprios pecados. Podemos acusar a instituição de negociar princípios enquanto negociamos os nossos diariamente. O chamado é muito mais profundo: precisamos sair da lógica que transformou a fé em administração e recuperar uma religião na qual a verdade vale mais do que a segurança, a consciência vale mais do que a reputação e a obediência vale mais do que o patrimônio.
O juízo já começa pela casa de Deus
Por isso não podemos tratar tudo isso como simples história administrativa. Estamos diante de uma denúncia profético-escatológica. A aproximação com Roma, o ecumenismo, a diplomacia religiosa, a submissão institucional aos governos, os compromissos envolvendo hospitais e universidades, os escândalos financeiros, a transformação das relações públicas em filtro da mensagem, o silenciamento de denunciantes e a conservação de Ellen White como patrimônio enquanto suas advertências são neutralizadas formam partes de um mesmo processo. A instituição que deveria preparar um povo para permanecer em pé diante dos poderes da terra tornou-se progressivamente dependente desses poderes para preservar suas próprias estruturas. A denominação que deveria denunciar Babilônia aprendeu a conviver com ela. O movimento que deveria chamar pessoas para fora do sistema começou a desejar reconhecimento dentro do sistema. E a pergunta que Ezequiel nos obriga a enfrentar não é se conseguiremos preservar a organização até o fim, mas se estaremos entre aqueles que gemem e clamam quando as abominações aparecem dentro da própria casa. O julgamento não começa em Roma. O julgamento começa no santuário. E talvez a maior ilusão de nossa geração seja imaginar que Deus esteja comprometido em salvar uma corporação quando tudo o que Ele prometeu preservar foi um povo fiel.





