Antes de investigar a relação dos adventistas com Che Guevara, o então pastor-redator da CPB, Ermelino Robson L. Ramos, passou por uma formação intelectual em que revolução, transformação social, Teologia, Jornalismo e política se misturavam — 40 anos depois, isso ajuda a explicar por que não lhe satisfaz nem a demonização simplista nem a fabricação institucional de versões convenientes
Não escrevo sobre Che Guevara como alguém que sempre esteve do outro lado da cerca, protegido por uma certeza política imutável e olhando retrospectivamente para a juventude alheia. Eu também usei camiseta do Che. E não apenas camiseta com o rosto transformado em ícone pop: usei camisetas com frases políticas atribuídas a Che Guevara.
Houve um período de minha formação intelectual em que aquele personagem fazia parte de um ambiente muito mais amplo de leituras, professores, discussões sobre desigualdade, poder, transformação social e papel político da comunicação. Li Leonardo Boff, Rubem Alves e outros autores que circulavam naquele ambiente acadêmico. Tive como professor Hugo Assmann, que conheci dentro daquilo que prefiro chamar de Teologia da Revolução, e aprendi a pensar o jornalismo não simplesmente como técnica para recolher declarações e colocá-las lado a lado, mas como instrumento capaz de interpretar a realidade e interferir nela.

Portanto, quando hoje volto aos documentos sobre Che Guevara, Fidel Castro, Argelio Rosabal e a relação dos adventistas cubanos com os guerrilheiros, não estou descobrindo pela primeira vez que o nome de Che pode fascinar jovens, estudantes, intelectuais, religiosos e pessoas interessadas em transformação social. Eu conheci esse fascínio por dentro. A diferença é que hoje disponho de documentos que naquele período eu não possuía e de quase quatro décadas adicionais de vida para reler não apenas Che, mas também minha própria formação.
Minha inquietação, entretanto, não começou com Hugo Assmann, nem com Che Guevara, nem com a universidade. Quando cheguei à Casa Publicadora Brasileira, em janeiro de 1986, eu acabava de sair da formação teológica e fui trabalhar como pastor-redator. Cheguei como jovem que acreditava na Igreja e desejava trabalhar por ela. Meu primeiro sermão depois de assumir a função na CPB já continha, porém, uma pergunta que continuaria me acompanhando: “O Que a CPB e a Igreja Têm em Comum?”

O primeiro ponto daquela mensagem dizia que “tanto na Igreja quanto na Casa Publicadora Brasileira todos somos igualmente importantes”. Não era ainda o discurso de alguém que havia rompido com a Organização. Era justamente o contrário: era a tentativa de levar a sério aquilo que eu havia aprendido na própria Bíblia. Paulo comparava a igreja ao corpo humano, no qual a cabeça não pode dizer aos pés que não precisa deles, e eu olhava para uma instituição em que administradores, redatores, trabalhadores da gráfica, pessoal da cozinha, almoxarifado, expedição, arte, contabilidade e tantos outros exerciam funções diferentes, mas não deveriam possuir valores humanos diferentes. O sermão que preservei e posteriormente publiquei registra exatamente essa preocupação e mostra que ela existia em mim desde o início de minha passagem pela CPB. (adventistas.com)
Essa percepção não surgiu no vazio. Dentro da Casa Publicadora havia uma separação administrativa e cultural perceptível entre aqueles que eram tratados como “obreiros” e aqueles classificados simplesmente como “funcionários”. Eu estava entre os obreiros, mas conversava com os colegas e percebia insatisfações que a hierarquia não conseguia apagar. Aquilo começou a me incomodar teologicamente antes de me incomodar politicamente.
Se éramos irmãos, por que determinados títulos pareciam produzir categorias diferentes de pertencimento? Se Paulo ensinava que todas as partes do corpo eram necessárias, por que algumas partes tinham o direito de falar e outras praticamente apenas o dever de trabalhar, obedecer e sustentar? E havia ainda uma frase de Jesus que se tornaria decisiva para minha compreensão da autoridade religiosa: “Entre vós não será assim.” Cristo acabara de descrever governantes que dominavam sobre os povos e grandes que exerciam autoridade sobre eles. Em seguida estabeleceu para Seus seguidores uma lógica diferente.
Foi dessa leitura bíblica, e não inicialmente de uma cartilha política, que nasceu minha suspeita em relação à verticalização do poder dentro da Igreja. Minha inquietação veio antes da ruptura. A pergunta veio antes da resposta. E é importante registrar essa ordem porque seria fácil, décadas depois, reconstruir minha juventude como se eu já tivesse chegado à CPB com o Adventistas.Com pronto dentro da cabeça. Não tinha.
Ainda no primeiro semestre de 1987, enquanto trabalhava como pastor-redator, comecei a cursar Jornalismo na Universidade Metodista de Piracicaba, a UNIMEP, com os estudos pagos pela própria Organização. Isso também precisa permanecer registrado porque existe uma ironia histórica extraordinária nesse episódio: a instituição que me empregava ajudou a financiar uma formação que ampliaria radicalmente minha maneira de compreender a própria instituição.
Naquele período, a legislação brasileira ainda vinculava o exercício profissional do jornalismo à formação superior específica, e eu precisava do curso para continuar avançando profissionalmente na área editorial. Mas a universidade me ofereceu muito mais do que habilitação profissional. Encontrei ali outro vocabulário para perguntas que já estavam nascendo dentro da CPB. O jovem teólogo passou a conviver sistematicamente com teorias da comunicação, análise do poder, papel social da imprensa, interpretação da realidade e responsabilidade do jornalista diante da sociedade.

Foi nesse ambiente que encontrei Hugo Assmann. E o que ficou em mim de suas aulas não foi a ideia de um jornalismo que apenas observa o mundo de uma cadeira, registra o que aconteceu e depois se declara neutro. Era o JORNALISMO QUE TRANSFORMA. Nas primeiras aulas em que tratava dessa dimensão socialmente transformadora da comunicação, Assmann utilizava inclusive a figura histórica de Frei Caneca, o teólogo, jornalista e ativista, como referência de alguém para quem escrever e intervir na realidade não eram atividades completamente separadas.
Aquilo encontrou terreno preparado em mim porque minha própria formação teológica já me havia ensinado que os profetas bíblicos não eram estenógrafos do poder. Eles interpretavam. Julgavam. Confrontavam reis, sacerdotes, sistemas e comportamentos à luz daquilo que compreendiam como verdade. O Jornalismo acrescentava método, linguagem e ferramentas a uma inquietação que a Teologia já havia despertado.
Foi também nesse ambiente intelectual que Che Guevara entrou em minha formação de uma maneira que hoje posso examinar com distância. Usei camisetas de Che Guevara. Usei também camisetas com frases políticas do Che. Não tenho interesse algum em apagar isso de minha autobiografia para tornar minha investigação atual mais confortável. Pelo contrário: esse dado torna minha posição presente mais compreensível. Eu sei como um personagem histórico pode deixar de ser percebido em toda a sua complexidade documental e transformar-se em símbolo.
Naquele ambiente, Che representava para muita gente inconformismo, resistência, transformação, enfrentamento das estruturas e disposição para pagar um preço pelas próprias convicções. O rosto na camiseta condensava uma narrativa. E uma frase impressa sobre o peito podia condensar uma visão política sem obrigar quem a vestia a enfrentar toda a biografia do homem que pronunciara ou a quem se atribuía aquela frase.
Hoje percebo a distância entre o Che da camiseta e o Che dos documentos. Essa distância é fundamental para o trabalho que faço agora. Não preciso fingir que nunca fui atraído pelo símbolo para mostrar aquilo que encontrei posteriormente no personagem histórico. Ao contrário, talvez justamente por ter conhecido o símbolo eu consiga compreender a força de sua construção.
Uma fotografia repetida milhões de vezes, uma boina, uma estrela, algumas frases e a aura do jovem que morreu combatendo conseguiram produzir uma espécie de Che portátil, que cabia numa camiseta e podia ser levado para a universidade sem que toda a Sierra Maestra, os tribunais revolucionários, La Cabaña, os fuzilamentos e a concepção guevarista da violência precisassem acompanhá-lo. Eu também carreguei esse Che no peito. Hoje quero abrir os documentos e perguntar quem era o homem que existia atrás daquela estampa.
Mas seria falso atribuir à universidade o nascimento de minha crítica à estrutura adventista. Quando Hugo Assmann entrou em minha formação, a pergunta já estava lá. Em junho de 1987, publiquei na Revista Adventista o pequeno editorial “Ontem ou Amanhã?”. Nele imaginei uma congregação adventista que continuava guardando o sábado, rejeitando a imortalidade natural da alma e aguardando a volta de Cristo, mas que funcionava de maneira diferente: os líderes eram escolhidos pelo grupo, não dominavam os irmãos, exerciam atividades das quais obtinham o próprio sustento, as reuniões podiam acontecer em grupos menores e as pessoas participavam sem medo de errar ou ser ridicularizadas.
A cena terminava quando o despertador tocava e eu precisava levantar para ir trabalhar, deixando sem resposta a pergunta que dava título ao texto: eu havia sonhado com o passado ou com o futuro? O próprio texto está preservado e hoje permite verificar que essa inquietação não é uma reconstrução retrospectiva de minha memória. Ela estava impressa em 1987. (adventistas.com)
No mês seguinte, julho de 1987, tentei transformar parte daquele sonho em mecanismo editorial. Nasceu “A Igreja é Sua”. Eu queria que o membro deixasse de ser apenas consumidor da comunicação oficial. Queria que pudesse escrever, perguntar, apresentar problemas, solicitar explicações, fazer sugestões e obrigar a comunicação denominacional a funcionar nos dois sentidos. O dirigente mencionado receberia a oportunidade de responder e o leitor poderia conhecer pergunta e resposta. Hoje parece uma ideia quase elementar.

Naquele contexto, porém, significava mexer numa característica fundamental da comunicação institucional: quem controla a publicação controla também quais perguntas existem publicamente. Os documentos recuperados posteriormente mostram os anúncios da seção, as mudanças impostas e o fato de que ela não se consolidou da maneira como eu a havia concebido. A ideia que não coube na revista acabaria, muitos anos depois, cabendo na internet. (adventistas.com)
É impossível para mim olhar hoje para a sequência 1986–1987 sem perceber uma coerência que naquela época eu ainda não conseguia enxergar por inteiro. Primeiro veio o jovem pastor-redator dizendo na CPB que todos eram igualmente importantes. Depois veio o estudante de Jornalismo descobrindo novas ferramentas para interpretar poder e comunicação. Vieram Assmann, Frei Caneca, as discussões sobre transformação social, as leituras de Leonardo Boff e Rubem Alves, Che Guevara nas camisetas e nas frases políticas que eu próprio vesti.
Em junho veio “Ontem ou Amanhã?”. Em julho, “A Igreja é Sua”. Não eram compartimentos estanques. A Teologia perguntava o que a Igreja deveria ser. O Jornalismo perguntava quem tinha o direito de falar sobre aquilo que ela realmente era. A política perguntava quem possuía o poder. E eu, ainda muito jovem, tentava fazer essas perguntas caberem dentro da mesma cabeça sem possuir ainda as respostas que encontraria — ou julgaria encontrar — décadas depois.
Essa formação também explica por que nunca consegui aceitar plenamente a ideia de que jornalismo seja sinônimo de neutralidade. Jornalismo é interpretação. A seleção de uma pauta já é escolha; decidir quais documentos procurar é escolha; estabelecer cronologia é escolha; comparar duas declarações é escolha; colocar uma informação no título e outra no décimo quinto parágrafo é escolha. Isso não significa autorização para falsificar fatos. Significa exatamente o contrário: quanto mais assumimos que interpretamos, maior deve ser nossa obrigação de mostrar ao leitor os documentos que sustentam a interpretação.
A herança que preservei daquele período não foi uma fidelidade política a Che Guevara. Foi a convicção de que comunicação pode transformar e de que quem controla a narrativa exerce poder. Hoje eu acrescentaria outra exigência: não prometemos neutralidade; prometemos documentos. Interpretamos os documentos e assumimos nossa interpretação.

Minha trajetória profissional posterior aprofundou esse caminho. O jovem que havia estudado Teologia e trabalhado como redator acabaria também ensinando comunicação. Na UFMS, lecionei disciplinas relacionadas à Comunicação Alternativa, Comunicação Comparada e Radiojornalismo. Passei, portanto, da experiência de produzir comunicação institucional para a reflexão sobre outras formas de comunicação, inclusive aquelas que surgem quando grupos sem acesso aos grandes canais precisam construir seus próprios meios.
Mais tarde, cursei Direito na Universidade Católica Dom Bosco, a UCDB, acrescentando uma terceira lente à mesma busca. Hoje consigo resumir esse percurso numa frase: a Teologia me ensinou a perguntar; o Jornalismo, a investigar e interpretar; o Direito, a confrontar versões e provas. Passei pelos três procurando a mesma coisa: a verdade.
Quando a internet finalmente ofereceu uma tecnologia capaz de romper a dependência absoluta dos canais oficiais, aquilo que eu tentara realizar em miniatura com “A Igreja é Sua” encontrou outra possibilidade histórica. O Adventistas.Com, iniciado na internet no fim dos anos 1990, tornou possível publicar sem depender da decisão de uma redação denominacional, reproduzir documentos completos, responder imediatamente, confrontar versões e permitir que pessoas sem cargo administrativo participassem da construção da memória adventista.
O primeiro “Púlpito Virtual”, datado de 1º de outubro de 1999, já apresentava explicitamente o retorno à atividade de pregador pela internet e a intenção de discutir práticas da Organização. O próprio acervo histórico do site preserva depois a sequência de textos que ligam a experiência na CPB ao surgimento desse novo espaço. (adventistas.com)
É por isso que considero o Adventistas.Com muito mais do que um site. A internet retirou das estruturas oficiais algo que durante muito tempo lhes pertencera quase exclusivamente: o monopólio da percepção, do discurso e da narração da História. O membro que antes recebia a revista, ouvia o sermão e lia o livro passou também a pesquisar, fotografar, digitalizar, comparar, publicar e responder. A elite institucional perdeu o monopólio da percepção, do discurso e da narração da História.
O proletariado espiritual ganhou seu espaço e tomou a palavra. Se todas as partes do corpo são importantes, a voz não pode pertencer apenas à cabeça. Nesse sentido, existe uma linha que começa muito antes do domínio Adventistas.Com: passa pelo jovem pastor de 1986 dizendo que todos somos igualmente importantes, pelo estudante de Jornalismo de 1987, pela igreja imaginada em “Ontem ou Amanhã?”, pela tentativa de abrir a caixa de correspondência em “A Igreja é Sua” e finalmente chega à possibilidade tecnológica de o próprio membro publicar aquilo que encontrou.
E agora essa trajetória retorna de maneira quase circular a Che Guevara. O jovem que vestiu camisetas com sua imagem e com frases políticas associadas a ele é o mesmo homem que, décadas depois, abre as memórias do próprio Che, procura Argelio Rosabal, examina Walton Brown, recupera periódicos adventistas e pergunta o que realmente aconteceu entre adventistas e os guerrilheiros cubanos. Não preciso apagar o primeiro para legitimar o segundo. O primeiro explica o segundo. Eu conheci o poder do símbolo antes de conhecer suficientemente os documentos. Hoje disponho dos documentos e tenho o dever intelectual de permitir que eles confrontem inclusive aquilo que eu próprio pensei, admirei ou vesti.
Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre militância e investigação. Uma identidade política exige frequentemente que defendamos aquilo que escolhemos. A investigação exige que continuemos procurando mesmo quando aquilo que encontramos constrange escolhas anteriores. Se os documentos confirmarem o que penso, eu os apresentarei. Se destruírem alguma coisa que pensei durante anos, também os apresentarei. Minha camiseta não pode possuir autoridade sobre um documento. Minha memória não pode possuir autoridade sobre uma fonte contemporânea aos acontecimentos. Minha simpatia juvenil não pode absolver Che, assim como minha posição atual não me autoriza a inventar contra ele aquilo que os documentos não sustentam.
Também por isso me interessa tanto a história da relação adventista com a Revolução Cubana. Ela toca simultaneamente quase todos os fios de minha própria formação: Teologia, política, comunicação, poder institucional, construção de narrativa, memória, documentação e interpretação.
Quando encontro uma versão denominacional que tenta separar rigidamente a Igreja da política, lembro-me de que eu próprio vivi dentro de uma instituição, trabalhei em sua editora, estudei Jornalismo com seus recursos e aprendi que nenhuma narrativa institucional deve receber imunidade contra perguntas. Quando encontro Che transformado em santo revolucionário, lembro-me da camiseta. Quando encontro Che transformado apenas em caricatura, procuro seus próprios textos. Quando encontro a IASD afirmando apartidarismo, procuro aquilo que adventistas, dirigentes e instituições efetivamente fizeram. Não quero trocar uma camiseta por outra. Quero documentos.
E talvez seja justamente aí que minha história pessoal se encontre com o trabalho que realizo hoje. Passei pela Teologia procurando a verdade de Deus; pelo Jornalismo procurando compreender como os homens narram a realidade; pelo Direito aprendendo a confrontar versões e evidências; pelo rádio aprendendo a falar diretamente às pessoas; pela sala de aula tentando mostrar que comunicação também é poder; e pela internet descobrindo que aqueles que antes eram apenas receptores poderiam finalmente produzir sua própria narrativa. Em cada etapa mudei, abandonei certezas, preservei outras e voltei a perguntas antigas com instrumentos novos. Em busca da verdade sob diferentes ângulos sempre.
Por isso não esconderei a camiseta.
Eu também usei camiseta do Che Guevara. Usei camisetas com frases políticas do Che. Isso faz parte de minha história intelectual. O que não aceito é transformar uma fase de minha história em prisão perpétua para minha consciência. O jovem podia vestir o símbolo. O jornalista precisa investigar o homem. O teólogo precisa perguntar pelo sangue. O estudante de Direito precisa confrontar testemunhos e documentos. E o editor que hoje olha para aquela fotografia estampada no tecido tem o direito — e o dever — de fazer aquilo que aprendeu durante toda a vida: voltar às fontes, comparar as versões, interpretar as evidências e, quando os fatos exigirem, ter coragem de mudar de ideia.






