
Ela foi aos Estados Unidos a convite da Associação Geral para pregar nas igrejas adventistas sobre as vantagens e superioridade do nazismo, com ênfase na evidente bênção divina sobre o perfil e os planos do vegetariano abstêmio, escolhido por Deus para governar o mundo. E para espalhar essa boa nova durante a Conferência Geral da Igreja Adventista Mundial em São Francisvo.
am na preparação e execução da campanha. O objetivo declarado era apresentar ao público americano os avanços da assistência social alemã. Na prática, entretanto, a conferencista utilizou numerosas oportunidades para defender Hitler, elogiar suas políticas, minimizar as denúncias de perseguição aos judeus e combater aquilo que considerava mentiras da imprensa americana. A estrutura religiosa e a estrutura diplomática nazista encontraram, naquela viagem, um interesse comum: melhorar a imagem internacional do governo alemão e preservar as condições de funcionamento das instituições adventistas dentro do Reich.
O Führer vegetariano e a admiração adventista
O entusiasmo de determinados círculos adventistas alemães por Adolf Hitler possuía ingredientes que hoje parecem saídos de uma sátira religiosa, mas que aparecem registrados nas publicações da própria época. O homem que comandava a transformação da Alemanha numa ditadura racial era admirado também porque não fumava, não consumia bebidas alcoólicas e cultivava a reputação de vegetariano. Em agosto de 1933, uma declaração adventista chegou a apresentar seus hábitos pessoais como particularmente próximos da reforma de saúde defendida pela denominação. Enquanto dirigentes religiosos descobriam afinidades espirituais na alimentação do Führer, a propaganda nacional-socialista cultivava sua imagem de homem disciplinado, protetor da família e dedicado inteiramente ao povo alemão. O contraste era extraordinário: a identificação com hábitos pessoais de saúde podia servir de argumento para admirar um governante que já institucionalizava a repressão política e a discriminação contra os judeus.
As mulheres adventistas não viviam numa Alemanha paralela, isoladas das paixões políticas, dos sentimentos nacionais e dos mecanismos de sedução empregados pela propaganda nazista. Eram mulheres alemãs, inseridas na mesma sociedade em que Adolf Hitler despertava entusiasmo, admiração e, entre algumas de suas seguidoras, uma devoção pessoal que ultrapassava a identificação partidária. O Führer era apresentado como homem solteiro, austero, disciplinado, inteiramente dedicado à pátria, e sua imagem pública despertava fascínio em parte do eleitorado feminino. Entre os adventistas, essa construção propagandística encontrava ainda uma afinidade particularmente conveniente: Hitler era apresentado como vegetariano, abstêmio e inimigo do tabaco, características que coincidiam com aspectos valorizados pela reforma de saúde adventista. A combinação entre nacionalismo, admiração pessoal e identificação religiosa ajuda a compreender o ambiente em que uma dirigente como Hulda Jost podia interpretar sua defesa internacional do regime como uma missão abençoada por Deus.
Não precisamos imaginar as adventistas como criaturas desprovidas de sentimentos, atrações ou entusiasmos para compreender o fenômeno. Pelo contrário: precisamos reconhecê-las como participantes da sociedade alemã de seu tempo, sujeitas às mesmas influências e capazes de encontrar, na própria cultura denominacional, justificativas adicionais para admirar o ditador. A trajetória de Hulda Jost demonstra concretamente até onde podia chegar a adesão política de uma mulher adventista influente: ela não apenas manifestou simpatia por Hitler, mas trabalhou para melhorar sua imagem no exterior e solicitou a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente. Sua atuação documentada é ainda mais significativa porque ultrapassou o entusiasmo individual e alcançou a colaboração entre instituições religiosas e autoridades do Estado nazista.
De Friedensau à propaganda internacional
Hulda Jost possuía uma trajetória que ajudava a explicar sua influência. Antes de se tornar adventista, em 1920, havia trabalhado na assistência sanitária e social alemã. Sua formação estava ligada à tradição das diaconisas de Kaiserswerth. Posteriormente, assumiu funções de direção na rede de enfermagem associada a Friedensau, o conhecido centro adventista de formação teológica, assistência médica e atividades missionárias. Em 1928, tornou-se dirigente do Advent-Wohlfahrtswerk, cuja rede de assistência social foi subordinada, a partir de 1934, à Nationalsozialistische Volkswohlfahrt, a organização assistencial nacional-socialista. Jost já possuía experiência em conferências internacionais antes da viagem americana. Um anúncio publicado em Viena, em março de 1929, apresenta-a como conferencista sobre saúde pública, religião e doenças mentais. Portanto, não estamos diante de uma desconhecida recrutada às pressas para uma aventura propagandística. Estamos diante de uma dirigente experiente, com prestígio religioso, capacidade de comunicação, vínculos institucionais e acesso a autoridades políticas.
A documentação histórica mostra que a viagem americana foi planejada para culminar na assembleia mundial adventista de São Francisco, realizada entre maio e junho de 1936. O itinerário previa mais de 140 conferências e apresentações públicas, embora esse número represente a programação planejada, não a comprovação de que todas tenham ocorrido. Jost passou por igrejas adventistas, instituições educacionais, sanatórios, organizações femininas e associações de imigrantes alemães. Em Chicago, sua defesa de Hitler ganhou destaque na imprensa. Em Denver, foi apresentada como uma apoiadora leal do Führer. Em Portland, chegou a negar que Hitler desejasse perseguir os judeus, atribuindo a violência antissemita a excessos individuais e não à política do governo. O conteúdo de suas apresentações provocou constrangimento entre alguns dirigentes adventistas americanos, que passaram a adverti-la e a restringir determinadas reuniões. Essa resistência localizada, entretanto, não apaga o fato de que a viagem havia sido autorizada e apoiada pela administração mundial, nem que a campanha prosseguiu até a assembleia internacional da denominação.
Uma missão recebida de Deus
A própria Hulda Jost não demonstrava dúvidas sobre o significado de sua missão. Em correspondência enviada a J. L. McElhany, então vice-presidente geral e futuro presidente da Associação Geral, apresentou seu trabalho como uma missão recebida de Deus e informou que prepararia relatórios destinados a Hitler e Goebbels. Na carta ao Führer, explicou que já havia realizado quarenta grandes reuniões e pelo menos vinte encontros menores. Relatou entrevistas concedidas à imprensa, encontros com diplomatas alemães e debates sobre a perseguição aos judeus, os preparativos militares e as intenções do governo nazista. Considerava especialmente satisfatório ter conseguido modificar a opinião de americanos influenciados por notícias desfavoráveis à Alemanha. E fez questão de informar ao ditador que sua atuação recebia o apoio dos principais dirigentes da denominação adventista nos Estados Unidos e na Alemanha, além dos consulados alemães. Não é uma acusação inventada posteriormente por críticos da Igreja. É a própria participante da campanha quem descreve essa colaboração numa correspondência dirigida ao chefe do regime.
A linguagem religiosa que acompanhava sua atuação torna o episódio ainda mais perturbador. Jost não via contradição entre servir à obra adventista, defender sua pátria e trabalhar pela imagem internacional do governo nazista. Acreditava que sua missão possuía aprovação divina. Em apresentações públicas, chegou a pedir que Deus sustentasse Hitler por muito tempo. A ironia histórica é brutal: uma dirigente pertencente à denominação que se apresentava como guardiã dos mandamentos de Deus e defensora da liberdade de consciência percorria os Estados Unidos oferecendo uma versão benevolente do governo que já havia institucionalizado a discriminação racial, reprimido opositores e iniciado a perseguição sistemática aos judeus. O vegetarianismo associado à imagem pessoal de Hitler, tão conveniente às comparações superficiais com os hábitos de saúde adventistas, não alterava a natureza do regime que Jost procurava defender. A bênção divina invocada para sua própria missão não transformava a propaganda nazista em evangelho, por mais que suas conferências fossem realizadas em ambientes religiosos.
A propaganda chega à assembleia mundial
Em São Francisco, Hulda Jost apresentou duas conferências sobre o sistema alemão de assistência social durante a assembleia mundial adventista. Explicou como a assistência adventista havia sido incorporada à organização nacional-socialista e apresentou a cooperação com o Estado como condição para preservar as instituições religiosas. O dirigente G. W. Schubert, presidente da Divisão Centro-Europeia, também exaltou a colaboração entre a Igreja e as autoridades governamentais, utilizando exemplos bíblicos para defender uma relação especial entre o povo de Deus e o poder estatal. Assim, o encontro que reunia representantes adventistas de numerosos países também serviu de cenário para a apresentação favorável de aspectos da Alemanha de Hitler. A questão não é afirmar que todos os delegados aprovaram a propaganda ou que toda a membresia compartilhava das posições de Jost. A questão é muito mais específica e documentalmente demonstrável: a administração mundial abriu espaço à dirigente, e a campanha desenvolvida com a colaboração de autoridades nazistas alcançou a assembleia internacional da Igreja.
O obituário de 1938 e a homenagem à boa alemã
Dois anos depois, Hulda Jost morreu no Sanatório de Skodsborg, na Dinamarca. O obituário publicado no Advent-Bote, em 1938, não a apresentou como uma personagem controversa, comprometida com a propaganda de um regime perseguidor. Ao contrário, homenageou sua dedicação religiosa, sua capacidade administrativa, seu patriotismo e sua influência internacional. A publicação declarou que ela não havia sido apenas uma boa adventista, mas também uma boa alemã, capaz de representar dignamente sua pátria em qualquer lugar. O texto acrescentou que sua influência havia ultrapassado as fronteiras da Alemanha em benefício tanto da comunidade adventista quanto do país. Essa homenagem foi publicada depois da campanha americana e depois da carta a Hitler. Quando confrontamos o obituário com os documentos diplomáticos de 1936, percebemos que a atuação internacional elogiada pela publicação denominacional incluía uma atividade propagandística da qual a própria administração mundial havia participado.
É justamente essa combinação de documentos que torna nossa investigação incontornável. Temos a correspondência enviada a Hitler, preservada em arquivos alemães e adventistas; os registros de aprovação da viagem pela administração denominacional; as comunicações entre dirigentes religiosos e representantes diplomáticos do Terceiro Reich; as reportagens americanas que registraram as declarações de Hulda Jost; os boletins da assembleia mundial de 1936; e o obituário publicado pela Igreja em 1938. Temos, sobretudo, uma pergunta que nenhuma homenagem póstuma ou pedido regional de desculpas consegue eliminar: como uma denominação que se apresentava como defensora da liberdade religiosa permitiu que sua estrutura mundial fosse utilizada numa campanha favorável à imagem internacional de Adolf Hitler? A resposta começa com a leitura de uma carta escrita em Portland, no dia 30 de abril de 1936, quando uma dirigente adventista decidiu comunicar pessoalmente ao ditador os resultados de seu trabalho e solicitar a oportunidade de encontrá-lo em Berlim.
A seguir, apresentamos a carta de Hulda Jost a Adolf Hitler, documento que transforma uma história durante muito tempo tratada como assunto regional alemão numa questão de responsabilidade internacional da própria Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia.
O documento de 1935 que coloca a Associação Geral dentro da operação nazista
A primeira peça documental que precisamos examinar é uma correspondência de 21 de outubro de 1935, enviada por M. E. Kern a G. W. Schubert, presidente da Divisão Centro-Europeia da Igreja Adventista do Sétimo Dia. O documento, conservado nos arquivos da Associação Geral sob a referência RG 21, caixa 94, foi identificado pelo historiador Roland Blaich em seu estudo Selling Nazi Germany Abroad: The Case of Hulda Jost, publicado no Journal of Church and State, volume 35, número 4, de 1993, páginas 807 a 830.
A importância dessa carta está no fato de registrar que a viagem de Hulda Jost aos Estados Unidos, previamente discutida pela administração adventista europeia, também havia sido aprovada pela Comissão da Associação Geral. Isso significa que a campanha que posteriormente seria utilizada pelo Ministério da Propaganda nazista para defender Hitler diante dos americanos não começou como iniciativa clandestina de uma enfermeira alemã, nem como empreendimento pessoal de um administrador europeu. Começou com conhecimento, aprovação e participação da estrutura administrativa mundial da denominação.
Hulda Jost dirigia o trabalho assistencial adventista na Alemanha e mantinha contatos importantes com autoridades do regime nazista. Sua viagem aos Estados Unidos estava vinculada à assembleia mundial da Igreja Adventista, programada para São Francisco entre 20 de maio e 11 de junho de 1936.
A administração denominacional em Washington enviou o convite e colaborou com a organização do itinerário. O Ministério da Propaganda do Terceiro Reich, por sua vez, incorporou-se aos preparativos por intermédio de Curt R. Thomalla, responsável por assuntos de saúde e assistência social. Em seguida, o Ministério das Relações Exteriores alemão foi acionado, e a embaixada da Alemanha nos Estados Unidos, juntamente com sua rede de consulados, passou a trabalhar na organização da campanha.
A operação, portanto, reuniu representantes de uma denominação religiosa internacional e órgãos diretamente subordinados ao governo de Adolf Hitler. Não se tratava apenas de permitir que uma adventista alemã visitasse congregações americanas. Tratava-se de organizar uma extensa viagem pública cujo conteúdo interessava diretamente ao aparelho de propaganda do Terceiro Reich.
Esse envolvimento é especialmente grave porque, em 1935, a natureza do governo nazista já não constituía segredo. Hitler governava desde janeiro de 1933, havia eliminado a oposição política, consolidado seu poder ditatorial e transformado o antissemitismo em política de Estado. Em setembro de 1935, apenas um mês antes da correspondência de Kern, haviam sido promulgadas as Leis de Nuremberg, que institucionalizaram a discriminação racial contra os judeus. A Associação Geral não estava lidando com um governante cuja natureza política somente seria revelada muitos anos depois. Estava colaborando com representantes de um Estado que já perseguia adversários, restringia liberdades e utilizava sistematicamente a propaganda para justificar suas ações. A decisão de participar daquela campanha precisa ser examinada nesse contexto, e não como um episódio inocente de intercâmbio religioso.
DOCUMENTO HISTÓRICO — CARTA DE HULDA JOST A ADOLF HITLER
Portland, Oregon — 30 de abril de 1936
Reconstituição detalhada em português do conteúdo da carta, segundo a transcrição publicada por Roland Blaich.
Saudação: “Meu querido senhor Führer…”
Hulda Jost começa informando que chegou a Nova York em 17 de março de 1936, a bordo do navio Europa. Explica que sua viagem aos Estados Unidos havia sido cuidadosamente preparada pelo Ministério da Propaganda do Reich e pelo Ministério das Relações Exteriores da Alemanha. Ao chegar a Washington, foi recebida pelo embaixador alemão Hans Luther.
A dirigente esclarece que o motivo de sua viagem era um convite para participar da conferência mundial dos adventistas do sétimo dia, em São Francisco, onde esperava falar sobre a assistência social alemã a aproximadamente 15 mil delegados de 120 países. Relata que organizou o itinerário em conjunto com o embaixador Luther e que o presidente da denominação, em Washington, participou desse planejamento e ofereceu apoio à viagem e às conferências.
Jost informa que a embaixada comunicara sua programação aos consulados alemães e que, até aquele momento, havia sido recebida cordialmente pelos cônsules com os quais se encontrara. Enumera as cidades já visitadas: Washington, Nova York, Boston, Chicago, St. Louis, Denver e Walla Walla, encontrando-se então em Portland. Anuncia que seguiria para Los Angeles e San Diego antes de participar da assembleia da Conferência Geral em São Francisco.
Segundo seu próprio relatório, havia realizado quarenta grandes reuniões e pelo menos vinte encontros menores. Explica que se dirigira a estudantes, jovens, americanos e comunidades de origem alemã. Destaca também a atenção recebida da imprensa, que lhe permitira alcançar milhares de pessoas além das plateias presentes às conferências.
A dirigente enumera os assuntos que mais despertavam perguntas: a situação dos judeus na Alemanha, a possibilidade de Hitler desejar uma guerra, seu caráter pessoal, suas relações com as denominações religiosas, a situação legal dos adventistas e a liberdade dos alemães nas votações realizadas pelo regime.
Jost manifesta satisfação por ter defendido, em todas essas ocasiões, a honra, os interesses e a posição da Alemanha. Apresenta os recortes de jornais anexados à correspondência como demonstração de que havia testemunhado publicamente a favor das intenções pacíficas de Hitler. Considera suas conferências muito bem-sucedidas e afirma que numerosos americanos, anteriormente influenciados pela imprensa desfavorável à Alemanha, haviam modificado suas opiniões.
Reconhece que a tarefa nem sempre fora fácil, mas declara realizá-la por convicção, contando com o apoio dos principais dirigentes adventistas na América e na Alemanha, assim como dos consulados alemães.
A carta acrescenta que o embaixador Luther havia providenciado um encontro com Eleanor Roosevelt, esposa do presidente dos Estados Unidos, previsto para a etapa final de sua programação.
Na parte conclusiva, Jost apresenta seu pedido pessoal: deseja visitar Hitler quando retornar à Alemanha, em julho, para relatar diretamente os detalhes de sua viagem. Explica que essa oportunidade representaria, para ela, a recompensa mais desejada pelo esforço realizado em benefício de sua pátria.
Por fim, menciona que fora convidada pelo cônsul Robert G. Clostermann para um encontro com integrantes da comunidade alemã em Portland, na noite seguinte, 1º de maio, ocasião que aguardava com entusiasmo.
Encerra a correspondência transmitindo seus melhores votos ao Führer e reafirmando sua dedicação pessoal.
Assinatura: Hulda Jost.
Cópias indicadas no documento: ministro Joseph Goebbels; embaixador Hans Luther; Ministério das Relações Exteriores, aos cuidados do Dr. Thomalla; senhor Hilgenfeld; e ministro Wilhelm Frick.
Referência documental: Roland Blaich, “Selling Nazi Germany Abroad: The Case of Hulda Jost”, Journal of Church and State, vol. 35, nº 4, 1993, pp. 807–830, especialmente pp. 813–814. Correspondência de 30 de abril de 1936, identificada pelo pesquisador no Bundesarchiv, R43II/1467, e nos arquivos da Associação Geral, RG11/1936(II), Jost, H.
A sede mundial já procurava evitar críticas ao governo de Hitler
Outra correspondência, anterior à viagem, ajuda a compreender o ambiente administrativo em que a operação foi aprovada. Em 23 de setembro de 1935, M. E. Kern escreveu a G. W. Schubert a respeito de manifestações contrárias ao nazismo publicadas na imprensa adventista americana. Segundo a documentação examinada por Blaich em Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church, a administração mundial procurava assegurar aos dirigentes europeus que críticas publicadas por adventistas americanos não deveriam ser interpretadas como expressão da posição oficial da sede denominacional. A preocupação não era denunciar a perseguição praticada pelo Estado nazista, mas evitar que manifestações desfavoráveis ao governo alemão prejudicassem a relação institucional mantida pela Igreja com aquele Estado.
A correspondência de setembro de 1935 e a aprovação da viagem de outubro do mesmo ano pertencem à mesma sequência histórica. Primeiro encontramos a preocupação administrativa com as consequências de críticas públicas ao nazismo. Depois encontramos a aprovação de uma campanha destinada a apresentar as realizações da Alemanha de Hitler ao público americano. Em seguida, a diplomacia nazista e o Ministério da Propaganda participam da organização dessa campanha. A responsabilidade da Associação Geral não pode ser reduzida ao fato de seus dirigentes terem recebido uma visitante estrangeira. Eles participaram de decisões que ajudaram a criar as condições para uma operação internacional de defesa pública do regime nazista.
McElhany chamou Hulda Jost de Débora ou Ester antes da viagem
Em 30 de janeiro de 1936, J. L. McElhany escreveu a C. H. Watson referindo-se a Hulda Jost como uma espécie de Débora ou Ester para aquela situação. A correspondência está identificada por Blaich nos arquivos da Associação Geral, RG 11, documentação da década de 1930, e aparece na página 809 de Selling Nazi Germany Abroad. A comparação é reveladora. Débora e Ester representam, na tradição bíblica, mulheres chamadas a desempenhar papéis decisivos em momentos de perigo para o povo de Deus. McElhany utilizou essa linguagem para caracterizar a atuação de uma dirigente adventista cuja viagem seria organizada com a colaboração do aparelho diplomático e propagandístico de Hitler. A aproximação entre a missão religiosa e a defesa de interesses políticos alemães já estava presente antes do início das conferências.
McElhany não era um personagem secundário. Naquele momento, ocupava a vice-presidência geral da denominação e seria eleito presidente da Associação Geral durante a assembleia de 1936. Seu nome aparece nos preparativos da viagem, nos contatos mantidos com Hulda Jost e na correspondência produzida durante a campanha. A presença de McElhany e de outros administradores mundiais demonstra que a operação alcançou os níveis superiores da organização adventista. O envolvimento não se restringiu a uma associação alemã que tentava sobreviver sob a ditadura. A sede mundial, situada fora do território controlado por Hitler, participou do planejamento de uma campanha que seria utilizada para promover seu governo.
O Ministério de Goebbels assumiu a coordenação política da campanha
Hulda Jost chegou aos Estados Unidos em 17 de março de 1936. Foi recebida em Nova York por McElhany e por Louise C. Kleuser, escolhida pela administração adventista para acompanhá-la como intérprete. Em Washington, encontrou dirigentes da Associação Geral e o embaixador alemão Hans Luther. O itinerário foi discutido com representantes denominacionais e diplomáticos, enquanto o Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels conservava a coordenação política dos preparativos. A documentação do Ministério das Relações Exteriores alemão, identificada por Blaich no arquivo R62293, mostra que os consulados foram informados sobre as visitas e mobilizados para colaborar com a realização das conferências.
O programa previa mais de 140 palestras públicas entre março e junho de 1936. Os auditórios incluíam igrejas adventistas, instituições educacionais da denominação, sanatórios, clubes femininos, associações alemãs e reuniões organizadas para alcançar pessoas influentes na sociedade americana. O roteiro atravessava cidades como Washington, Nova York, Boston, Chicago, St. Louis, Denver, Portland, Los Angeles, San Diego e São Francisco. A estrutura religiosa oferecia acesso a congregações e instituições que já possuíam relações de confiança com seus frequentadores. A diplomacia alemã ampliava o alcance da campanha mediante contatos com associações e representantes da comunidade germano-americana. A imprensa, por sua vez, multiplicava a divulgação das declarações da visitante. A operação combinava, assim, organização denominacional, articulação diplomática e propaganda política.
A orientação recebida na embaixada alemã era que Hulda Jost concentrasse suas apresentações nas realizações sociais do novo governo, evitando controvérsias políticas excessivamente explícitas. Essa recomendação revelava a estratégia propagandística: apresentar a recuperação econômica e a assistência social alemãs como evidências de que Hitler era um governante benéfico, responsável e comprometido com seu povo. Num país ainda marcado pelos efeitos da Grande Depressão, o discurso poderia encontrar ouvintes receptivos. A representante adventista não precisava começar suas conferências com saudações nazistas ou discursos partidários. Bastava utilizar a credibilidade de seu trabalho religioso para convencer os americanos de que a Alemanha de Hitler estava sendo injustamente atacada pela imprensa internacional.
As igrejas adventistas abriram seus auditórios para a defensora de Hitler
Nos primeiros dias da viagem, Hulda Jost falou em diferentes congregações adventistas de Washington e em reuniões com funcionários da sede mundial. Em Nova York, apresentou-se em igrejas e encontros de obreiros. Na região de Boston, visitou instituições denominacionais, incluindo o Atlantic Union College e o Northeast Sanitarium. As palestras combinavam referências bíblicas à assistência aos necessitados com relatos sobre o funcionamento dos serviços sociais alemães sob o governo nazista. A utilização de textos como Isaías 58 conferia aparência espiritual à apresentação. Entretanto, à medida que a viagem avançava, tornava-se cada vez mais evidente que a mensagem não se limitava à caridade cristã. Hulda Jost defendia a legitimidade política do regime, justificava suas medidas e procurava desacreditar denúncias de perseguição.
Em Chicago, a campanha assumiu caráter abertamente político. O cônsul alemão organizou uma reunião dos Amigos da Nova Alemanha, organização favorável ao nazismo, diante de mais de mil pessoas. Hulda Jost participou do encontro e considerou a recepção entusiasmada um sucesso. Em 13 de abril de 1936, o jornal Chicago Daily News publicou uma reportagem intitulada Hitler Doesn’t Want War, Says Woman Leader, na qual a visitante afirmava que o Führer era um homem bom, desejava o melhor para seu povo e não pretendia iniciar uma guerra. Também justificou o rearmamento alemão, atribuindo-o ao temor da União Soviética, e apresentou a política de Hitler em relação aos judeus como uma simples retirada de posições de liderança, negando que existisse a intenção de persegui-los. O conteúdo dessas declarações está reproduzido nas páginas 811 e 812 do estudo de Roland Blaich.
Não era possível ouvir essas afirmações sem perceber seu significado político. O governo de Hitler já havia transformado a discriminação racial em legislação oficial, enquanto sua representante adventista assegurava aos americanos que não havia perseguição aos judeus e que o Führer desejava a paz. O discurso procurava neutralizar precisamente as acusações que mais prejudicavam a imagem internacional do regime nazista. As igrejas e instituições adventistas integravam o circuito de uma campanha destinada a convencer o público de que Hitler era injustamente criticado. O aparelho de propaganda alemão encontrara uma maneira de apresentar a defesa do regime dentro de ambientes religiosos americanos.
Denver e Portland: Hitler exaltado diante de adventistas e diplomatas nazistas
Em 19 de abril de 1936, o Denver Post publicou uma reportagem sobre a visita de Hulda Jost ao Porter Sanitarium, instituição adventista. A manchete destacava que a dirigente alemã elogiara as realizações de Hitler, e a reportagem a apresentava como apoiadora leal do Führer. Segundo o relato, Jost afirmava que a Alemanha estava recuperando prosperidade e felicidade sob sua liderança, que os alemães apoiavam o governo e que as críticas estrangeiras distorciam a realidade nacional. A intérprete Louise Kleuser descreveu a reunião como um verdadeiro comício político. O cônsul alemão estava presente, e as declarações provocaram repercussão entre administradores adventistas locais, preocupados com a identificação pública de suas instituições com a propaganda nazista.
Em Portland, a situação tornou-se ainda mais explícita. Durante uma apresentação no sanatório adventista, Hulda Jost convidou o cônsul alemão Robert G. Clostermann a falar ao público. O diplomata utilizou aproximadamente meia hora para exaltar Hitler. A visitante acompanhou sua intervenção demonstrando aprovação. Em correspondência posterior, descreveu a atuação do cônsul como especialmente valiosa por ter combatido as notícias desfavoráveis publicadas pela imprensa americana. O episódio está documentado nas páginas 813 a 816 do estudo de Blaich, com referências às cartas de Louise Kleuser, E. L. Neff, E. K. Slade e da própria Hulda Jost. Uma reunião realizada numa instituição adventista havia oferecido espaço não apenas à defensora religiosa do regime, mas também a um representante diplomático alemão empenhado em promover o Führer.
Em 30 de abril, o jornal The Oregonian publicou uma reportagem intitulada Frau Hulda Jost Defends Hitler. No dia seguinte, o Oregon Daily Journal apresentou declarações nas quais a visitante negava que Hitler fosse responsável pela perseguição aos judeus. Chegou a comparar os ataques antissemitas na Alemanha aos linchamentos de negros nos Estados Unidos, procurando atribuir a violência a indivíduos isolados, e não à política governamental. Afirmou também que Hitler havia retirado a liderança dos judeus e a devolvido aos alemães, a quem supostamente pertencia por direito. Essa argumentação não apenas encobria a discriminação racial: reproduzia a lógica de exclusão utilizada pelo próprio regime nazista para justificar a retirada dos judeus da vida pública alemã.
A advertência dos dirigentes foi para que Jost tivesse mais cuidado com suas declarações
Quando a repercussão das palestras começou a causar constrangimento entre administradores adventistas americanos, J. L. McElhany, L. H. Christian e W. H. Branson recomendaram a Hulda Jost que tivesse maior cuidado com suas declarações. A informação consta da página 818 do estudo de Blaich, fundamentada em correspondência de 5 de maio de 1936. A formulação da advertência merece ser examinada com atenção. Os dirigentes não aparecem naquele episódio anunciando uma condenação institucional da propaganda nazista, exigindo uma retratação pública da visitante ou encerrando a campanha aprovada anteriormente. Recomendaram maior prudência na maneira de falar. A própria intérprete observou que Jost sabia reconhecer quem estava na plateia e ajustar suas declarações conforme o ambiente.
A sequência dos acontecimentos mostra o alcance efetivo daquela intervenção. Em 18 de maio de 1936, o California Staats-Zeitung publicou uma reportagem sobre uma palestra realizada em Los Angeles, na qual Hulda Jost exaltou Hitler como restaurador da Alemanha, afirmou que ele havia realizado mais do que Bismarck e expressou o desejo de que Deus o sustentasse por muitos anos. Poucos dias depois, a visitante participou da assembleia mundial adventista em São Francisco. Portanto, a preocupação administrativa com a repercussão das declarações mais explícitas não impediu a continuidade da operação. O regime nazista continuou recebendo divulgação favorável, e a representante adventista chegou ao encontro internacional para o qual sua viagem havia sido planejada desde 1935.
A carta ao próprio Hitler: a representante adventista presta contas ao Führer
O documento mais contundente da campanha foi redigido em Portland, em 30 de abril de 1936, com a colaboração do cônsul Robert G. Clostermann. Hulda Jost escreveu diretamente a Adolf Hitler, relatando os resultados obtidos nos Estados Unidos. O original está identificado no Bundesarchiv, referência R43II/1467, documentos K461890–91, com registro da chancelaria particular do Führer. Uma cópia foi preservada nos arquivos da Associação Geral, RG 11/1936(II), pasta Hulda Jost. Roland Blaich reproduziu a correspondência nas páginas 813 e 814 de Selling Nazi Germany Abroad. A carta é particularmente reveladora porque permite conhecer como a própria participante descrevia a operação ao chefe do regime nazista.
Jost informou a Hitler que o Ministério da Propaganda e o Ministério das Relações Exteriores haviam preparado cuidadosamente sua viagem. Declarou que o embaixador Hans Luther participara do planejamento de todo o itinerário e que o presidente da denominação em Washington estivera presente e apoiava suas atividades. Explicou que os consulados alemães haviam sido informados sobre sua passagem pelas diferentes cidades e que recebia colaboração tanto das autoridades diplomáticas quanto dos principais dirigentes adventistas americanos e alemães. Relatou que já havia realizado quarenta grandes reuniões e pelo menos vinte encontros menores, além de entrevistas que ampliaram o alcance de suas declarações pela imprensa.
A correspondência também revela quais assuntos mais interessavam ao público americano: a perseguição aos judeus, a possibilidade de Hitler provocar uma guerra, o tratamento dispensado às denominações religiosas e as restrições impostas aos adventistas na Alemanha. Hulda Jost assegurou ao Führer que havia defendido os interesses alemães em todas essas questões e que conseguira modificar a opinião de milhares de pessoas influenciadas negativamente pela imprensa americana. Informou ainda que a assembleia mundial adventista em São Francisco seria o principal acontecimento de sua viagem. Segundo sua previsão, aproximadamente quinze mil participantes representariam 120 nações, oferecendo-lhe a oportunidade de apresentar as realizações sociais alemãs diante de uma audiência religiosa internacional.
Não estamos diante de uma simples carta de agradecimento por uma viagem religiosa. Estamos diante de uma prestação de contas ao próprio Hitler, na qual a dirigente adventista relacionou os resultados de uma campanha de propaganda, identificou os órgãos nazistas envolvidos, mencionou o apoio dos administradores da Igreja e apresentou a assembleia mundial como oportunidade privilegiada para alcançar representantes de numerosos países. A carta também foi encaminhada a Goebbels, ao embaixador Luther, a Thomalla e a outras autoridades alemãs. O vínculo entre a operação religiosa e os interesses do Terceiro Reich aparece declarado pela própria participante, sem necessidade de recorrer a interpretações posteriores.
São Francisco: a propaganda do Terceiro Reich alcança a representação mundial adventista
A assembleia mundial adventista de 1936 realizou-se em São Francisco entre 20 de maio e 11 de junho. Era o principal encontro administrativo internacional da denominação, reunindo delegados, dirigentes, missionários e representantes de diferentes regiões do mundo. O acontecimento oferecia ao governo nazista uma oportunidade que dificilmente seria obtida por meio de seus próprios congressos políticos: apresentar as realizações da Alemanha de Hitler diante de uma audiência religiosa internacional, reunida sob a autoridade de uma organização sediada nos Estados Unidos. Hulda Jost realizou duas apresentações sobre o sistema de assistência social alemão, defendendo-o como modelo a ser observado por outras nações. Explicou que o trabalho assistencial adventista havia sido incorporado à organização nacional-socialista de bem-estar, a NSV, e que essa integração permitia à denominação atuar sob a proteção do Estado alemão.
O episódio aparece documentado no próprio boletim oficial da assembleia. Na edição de 5 de junho de 1936 da Advent Review and Sabbath Herald, o relatório da Divisão Centro-Europeia registra a apresentação de G. W. Schubert e a participação de Hulda Jost. A sessão de 1º de junho foi presidida por I. H. Evans, e Schubert apresentou aos delegados a situação de sua divisão, que reunia mais de cinquenta mil membros distribuídos por numerosos países e territórios missionários. O dirigente anunciou a presença de Hulda Jost entre os representantes da divisão e informou que ela teria oportunidade de falar ao público. A apresentação da visitante fazia parte da programação oficial, e não de uma atividade improvisada à margem do evento.
A importância política desse acontecimento foi reconhecida pela diplomacia alemã. O cônsul-geral August Ponschab, que acompanhou atividades realizadas em São Francisco, relatou à embaixada alemã a utilidade da participação da delegação adventista. O embaixador Hans Luther também manifestou satisfação com os resultados da campanha. Os documentos identificados por Blaich no arquivo diplomático alemão R62293 demonstram que as autoridades nazistas acompanharam a operação e avaliaram seus efeitos sobre a opinião pública. A assembleia mundial adventista não foi apenas o destino religioso de Hulda Jost. Foi também uma oportunidade utilizada pelo governo de Hitler para ampliar sua propaganda diante de representantes de uma organização internacional.
Schubert justificou com a Bíblia a cooperação da Igreja com o governo nazista
O relatório apresentado por G. W. Schubert na assembleia de São Francisco acrescentou uma dimensão teológica à colaboração institucional. O presidente da Divisão Centro-Europeia elogiou o sistema de assistência social alemão e defendeu a cooperação entre a Igreja e as autoridades governamentais. Para justificar essa aproximação, recorreu a personagens bíblicos como José, Neemias, Daniel e Ester, lembrando que haviam desempenhado funções em ambientes ligados ao poder político. Argumentou que Deus permitira, em determinados momentos da história, uma ligação especial entre seu povo e as autoridades do Estado para benefício de seus filhos. O discurso foi publicado nas páginas 168 a 170 do boletim oficial da Associação Geral de 5 de junho de 1936.
A argumentação de Schubert merece ser confrontada com a mensagem profética adventista. A denominação ensinava seus membros a reconhecer os perigos da união entre religião e Estado, denunciava os poderes perseguidores descritos nas profecias e insistia na necessidade de obedecer a Deus acima dos homens. Entretanto, diante da assembleia mundial, um de seus principais dirigentes utilizou as Escrituras para justificar a cooperação institucional com o governo de Adolf Hitler. A contradição não poderia ser mais profunda. A mesma Bíblia que deveria fundamentar a resistência aos perseguidores foi utilizada para apresentar a colaboração com suas autoridades como parte dos propósitos divinos. A Igreja que anunciava os perigos dos novos césares ouvia uma defesa religiosa da aproximação com um deles.
Essa defesa não permaneceu restrita à tribuna. A publicação do discurso pela imprensa oficial da Associação Geral ampliou seu alcance, permitindo que a mensagem chegasse a leitores que não haviam participado pessoalmente da assembleia. A organização que possuía uma extensa rede mundial de comunicação religiosa colocou seus próprios meios editoriais a serviço da divulgação daquela interpretação. Em vez de advertir os membros sobre a perseguição e a discriminação racial praticadas pelo regime nazista, o relatório apresentou a cooperação com as autoridades alemãs como um caminho favorável ao desenvolvimento da obra assistencial adventista.
O próprio Schubert reconheceu a propaganda mundial em favor do Terceiro Reich
Em 4 de fevereiro de 1937, G. W. Schubert escreveu a Hagelstein, secretária de Hulda Jost, defendendo a continuidade da propaganda internacional realizada em favor da Alemanha nazista. A correspondência foi identificada por Roland Blaich nos arquivos da Associação Geral, RG 11/1937, Divisão Centro-Europeia, e citada na nota 80 de seu estudo, nas páginas 827 e 828. Schubert afirmou que o Ministério da Propaganda, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério dos Assuntos Eclesiásticos deveriam ajudar os adventistas a continuar sua propaganda mundial discreta e eficaz em favor do Terceiro Reich, da mesma maneira como haviam trabalhado com convicção diante da grande assembleia mundial em São Francisco.
Essa declaração é uma das provas mais comprometedoras de toda a investigação. O próprio dirigente adventista identificou a atividade realizada em São Francisco como parte de uma propaganda mundial em favor do Terceiro Reich. Não se trata de uma interpretação produzida por um crítico religioso oitenta ou noventa anos depois. Trata-se da descrição feita por um administrador envolvido na operação, em correspondência preservada nos arquivos da própria denominação. Schubert relacionou expressamente a campanha de propaganda, a colaboração dos ministérios nazistas e a apresentação diante da assembleia mundial adventista. A participação institucional aparece reconhecida por quem ajudou a executá-la.
Goebbels confirmou que a colaboração adventista servia à propaganda nazista
Em 29 de agosto de 1936, Joseph Goebbels escreveu ao ministro dos Assuntos Eclesiásticos, Hanns Kerrl, defendendo a continuidade da colaboração com a assistência social adventista. O documento, identificado por Blaich como RKM 51.01/23387, número 00359, reconhecia a eficácia de uma propaganda internacional discreta realizada mediante a colaboração da organização assistencial adventista. O ministro nazista não estava elogiando uma campanha evangelística destinada à conversão de americanos ao cristianismo. Estava reconhecendo a utilidade política de uma operação que ajudava a melhorar a imagem do governo de Hitler no exterior. A Igreja oferecia sua credibilidade religiosa, seus contatos internacionais e seus ambientes de divulgação; o Terceiro Reich recebia uma oportunidade de influenciar a opinião pública por meio de uma organização religiosa com sede nos Estados Unidos.
A colaboração continuou produzindo resultados nos anos seguintes. Em 23 de julho de 1938, o Ministério da Propaganda enviou uma comunicação ao Ministério do Interior alemão, identificada como RKM 51.01/23388, número 00062, afirmando que, no decorrer da cooperação com a Igreja Adventista, seus representantes haviam se convencido de que a denominação apoiava o Estado nacional-socialista e o servia da melhor maneira possível. A correspondência foi citada por Blaich na página 824 de Selling Nazi Germany Abroad. A avaliação é especialmente importante porque procede do próprio aparelho de propaganda de Hitler. O governo nazista reconhecia que a colaboração adventista produzia serviços úteis aos seus interesses.
1937: a representante adventista continuou trabalhando com o Ministério da Propaganda
A viagem americana não encerrou a relação entre Hulda Jost e as autoridades nazistas. Em 1937, o Ministério da Propaganda procurou utilizá-la novamente para responder a críticas publicadas nos Estados Unidos. A iniciativa surgiu depois que o Washington Post, em novembro de 1936, publicou declarações de um religioso que denunciava a perseguição aos cristãos na Alemanha. A embaixada alemã considerou a reportagem prejudicial à imagem do regime e sugeriu que Hulda Jost preparasse uma resposta. O Ministério da Propaganda encaminhou-lhe um texto destinado à imprensa americana, e Jost trabalhou numa nova versão em contato com Schubert. O episódio está documentado nas páginas 821 a 823 do estudo de Blaich, com referências à correspondência entre Jost, Schubert, McElhany e representantes do governo alemão.
A tentativa revela a continuidade do relacionamento. O aparelho nazista recorria novamente à dirigente adventista para combater informações desfavoráveis ao governo alemão no exterior. Schubert também se mostrou disposto a colaborar com a imprensa americana, desde que as autoridades alemãs ajudassem a resolver problemas administrativos enfrentados pela denominação. A campanha de 1936 havia criado contatos e expectativas de reciprocidade. A Igreja procurava obter concessões do regime, enquanto o regime procurava utilizar a Igreja como instrumento de influência internacional. Essa relação entre propaganda política e interesses institucionais aparece repetidamente nas correspondências da época.
Hulda Jost também participou de atividades relacionadas à organização anticomunista patrocinada pelo regime nazista, a Anticomintern, e produziu uma publicação dirigida às mães do mundo, intitulada Ich rufe euch, Mütter der Welt. Sua atuação internacional incluiu congressos e contatos diplomáticos em outros países europeus. Em 1937, continuou utilizando suas relações com autoridades do Ministério da Propaganda para obter proteção e vantagens administrativas para a denominação alemã. A parceria ultrapassava, portanto, a viagem de 1936. Havia se transformado numa relação continuada entre representantes adventistas e setores importantes do aparelho estatal nazista.
Enquanto a propaganda de Hitler circulava, a própria Igreja preparava um livro chamado Os Novos Césares
É nesse contexto que precisamos examinar a história de The New Caesars, de Gwynne Dalrymple. O livro foi preparado pela Pacific Press Publishing Association, uma das principais editoras adventistas dos Estados Unidos, para integrar a coleção popular Crisis Books. Dalrymple era um escritor ligado à comunicação evangelística da denominação e havia atuado na revista Signs of the Times. Sua obra destinava-se ao público comum, com preço acessível e possibilidade de distribuição pelos membros das igrejas. Não era uma publicação clandestina produzida por adversários da Associação Geral. Era literatura missionária preparada dentro da própria estrutura editorial adventista.
O título, Os Novos Césares, adquire significado especial quando situado no cenário político de 1938. Hitler havia consolidado sua ditadura na Alemanha, Mussolini governava a Itália fascista, e diferentes movimentos autoritários exaltavam líderes apresentados como salvadores nacionais. O mundo assistia à ascensão de governantes que concentravam poderes, mobilizavam massas, perseguiam adversários e procuravam subordinar as consciências à autoridade do Estado. Para uma denominação que historicamente anunciava os perigos da união entre religião e poder político, a figura dos novos césares oferecia um tema missionário de enorme importância. Uma publicação com esse título poderia estimular os leitores a examinar criticamente os projetos de poder de seu tempo, precisamente quando o governo de Hitler procurava conquistar simpatia internacional.
O texto integral de The New Caesars ainda não foi recuperado, e por isso seus argumentos específicos precisam ser conhecidos a partir de um exemplar sobrevivente ou de documentos editoriais. Entretanto, o motivo da censura foi identificado pelo historiador Roland Blaich: a Associação Geral considerou que a circulação do livro prejudicaria a atuação adventista na Europa. O título, o contexto político e a decisão administrativa demonstram que a obra entrou em conflito com a política de preservação das relações institucionais diante dos regimes europeus. A administração que havia participado da propaganda de Hitler resolveu impedir a circulação de uma publicação missionária considerada inconveniente naquele ambiente político.
A edição estava impressa, anunciada e pronta para ser distribuída
Em 15 de fevereiro de 1938, o Lake Union Herald anunciou The New Caesars entre os novos títulos da coleção Crisis Books. O livro custaria 25 centavos, valor pensado para facilitar sua aquisição e distribuição. A publicação era oferecida dentro de uma relação de livros populares destinados ao trabalho missionário. O anúncio apresentava inclusive preços especiais para a compra de vários exemplares, estimulando a distribuição em maior quantidade. Essa informação revela que o projeto editorial não se limitava à venda individual em livrarias. A intenção era permitir que membros e congregações adquirissem livros para entregá-los a outras pessoas, ampliando o alcance da mensagem religiosa.
Em 15 de março de 1938, o Central Union Reaper, página 6, publicou um anúncio intitulado Two New Books, informando que The New Caesars e Health at Home seriam lançados em aproximadamente uma semana. O texto recomendava que os membros comprassem exemplares para leitura, venda ou distribuição gratuita. Informava ainda que metade dos recursos arrecadados seria destinada a um fundo de expansão missionária, utilizado para apoiar projetos em regiões distantes. O anúncio encerrava com um apelo para que os leitores adquirissem os livros e os colocassem nas mãos de seus vizinhos. A publicação tinha, portanto, uma finalidade missionária expressamente declarada pela própria imprensa denominacional.
Esse anúncio é uma prova especialmente importante porque foi publicado quando a Associação Geral já havia tomado a decisão de impedir a circulação da obra. A política de censura foi aprovada em 10 de março de 1938, e a circular de McElhany foi expedida em 14 de março. No dia seguinte, o jornal adventista ainda divulgava o lançamento iminente de The New Caesars. A proximidade das datas demonstra que a publicação já estava integrada ao calendário editorial e à campanha de distribuição missionária. Não se tratava de uma ideia ainda em discussão, mas de um livro produzido, anunciado e prestes a alcançar seus leitores. A decisão da administração mundial interrompeu uma operação editorial já organizada.
10 de março de 1938: a Associação Geral aprova a censura
O historiador Roland Blaich documentou a decisão em Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church, publicado em 1993 na revista Central European History, volume 26, número 3, páginas 255 a 280. Na nota 38, Blaich identifica a política aprovada pela Comissão da Associação Geral em 10 de março de 1938 e a circular de J. L. McElhany de 14 de março, preservadas nos arquivos denominacionais sob a referência RG 21/1939. O historiador registra expressamente que The New Caesars havia sido impresso pela Pacific Press para distribuição missionária nos Estados Unidos, mas que a Comissão da Associação Geral considerou sua circulação prejudicial à Igreja na Europa e determinou sua retirada e destruição.
O fato central é a intervenção direta da administração mundial contra uma edição já impressa. Não foi um editor local que decidiu alterar uma passagem antes da publicação. Não foi uma congregação que resolveu deixar de comprar determinados exemplares. Foi a Comissão da Associação Geral que interveio para impedir a circulação de uma obra produzida pela própria estrutura editorial da denominação. A ordem atingiu a tiragem já impressa, preparada para lançamento e distribuição missionária. A Igreja que utilizava editoras, colportores e campanhas evangelísticas para espalhar sua mensagem pelo mundo decidiu empregar sua autoridade administrativa para fazer desaparecer uma publicação considerada inconveniente diante da situação política europeia.
A tiragem missionária foi sacrificada para preservar a relação com o regime de Hitler
A relação entre os acontecimentos de 1936 e a censura de 1938 precisa ser examinada em sua sequência. Primeiro, a Associação Geral participou da preparação de uma campanha internacional que beneficiou a propaganda do governo nazista. Depois, essa campanha chegou à assembleia mundial adventista, onde dirigentes defenderam a cooperação com o Estado alemão. Em seguida, o Ministério da Propaganda reconheceu a utilidade da colaboração, e Schubert defendeu sua continuidade. Finalmente, quando uma publicação missionária já impressa foi considerada prejudicial à atuação denominacional na Europa, a mesma administração mundial ordenou sua retirada e destruição. O resultado político foi impedir que uma obra considerada inconveniente alcançasse leitores americanos e eventualmente circulasse por outros países mediante a rede editorial adventista.
Não podemos reduzir essa decisão a uma questão comercial ou a uma simples divergência entre editores. A própria documentação administrativa relaciona a censura à situação da Igreja na Europa. A Pacific Press havia preparado um livro para evangelização, a imprensa adventista anunciava sua distribuição, os membros eram incentivados a entregá-lo aos vizinhos e metade da receita seria destinada à expansão missionária. Mesmo assim, a administração mundial decidiu interromper a circulação. A preservação das relações institucionais sob o regime nazista prevaleceu sobre o projeto missionário que a própria denominação havia organizado. O efeito concreto foi poupar aquele ambiente político da circulação de uma publicação que a liderança adventista considerava capaz de provocar dificuldades.
O bloqueio também atingiu a possibilidade de circulação internacional do livro
Uma edição missionária produzida pela Pacific Press não pertencia a um universo editorial exclusivamente americano. A Igreja Adventista possuía uma estrutura internacional de casas publicadoras, departamentos missionários, traduções, colportores e instituições educacionais. Livros preparados originalmente em inglês podiam ser traduzidos, adaptados e publicados em outros países, alcançando leitores que jamais teriam acesso à edição americana. A destruição da tiragem inicial de The New Caesars interrompeu a trajetória editorial da obra antes que ela pudesse desenvolver esse potencial. O livro deixou de alcançar o público para o qual havia sido anunciado e perdeu a possibilidade normal de circular pela rede missionária internacional da denominação.
A decisão é ainda mais reveladora quando comparada com o tratamento dispensado à campanha de Hulda Jost. Para promover o governo de Hitler, a administração adventista colaborou com uma operação que atravessou cidades americanas e alcançou representantes da Igreja mundial. Para distribuir um livro intitulado Os Novos Césares, preparado pela própria editora adventista, a administração determinou a destruição da edição já impressa. A propaganda favorável ao regime encontrou meios de divulgação; a publicação considerada inconveniente encontrou uma ordem de desaparecimento. A instituição que anunciava os perigos dos poderes perseguidores permitiu que a defesa de um deles circulasse por seus auditórios, enquanto impedia que uma obra missionária potencialmente crítica dos governantes autoritários chegasse ao público.
Os adventistas reformistas conheceram outro lado dessa colaboração
A política de aproximação com o governo nazista também atingiu diretamente os adventistas que se recusavam a aceitar determinadas concessões institucionais. Em 29 de abril de 1936, o movimento adventista de reforma foi proibido pelas autoridades alemãs. Poucos meses depois, em 14 de julho, uma decisão da administração da Divisão Centro-Europeia, identificada por Blaich como resolução número 454, determinou que os membros do movimento reformista não fossem recebidos nas congregações da denominação oficial nem encontrassem refúgio em suas fileiras. A orientação foi reiterada numa circular enviada aos obreiros da Associação de Hanover em 23 de julho de 1936.
O documento adquiriu significado ainda maior em 26 de agosto daquele ano, quando Adolf Minck escreveu ao ministro da Guerra alemão, Werner von Blomberg, procurando distinguir a Igreja Adventista oficial dos adventistas reformistas. A correspondência, conservada nos arquivos da Associação Geral sob a referência RG 21/1936, Divisão Centro-Europeia, foi identificada por Blaich na nota 45 de Religion under National Socialism. Minck citou a decisão administrativa que impedia a acolhida dos reformistas, procurando demonstrar às autoridades militares que a denominação oficial não deveria ser confundida com aqueles adventistas que resistiam às exigências do Estado.
Para quem observa essa história a partir da tradição adventista reformista, o contraste é doloroso. Enquanto representantes da denominação oficial procuravam demonstrar sua lealdade ao governo nazista e obter vantagens administrativas, irmãos de fé eram proibidos de encontrar abrigo nas próprias comunidades adventistas. A instituição que se apresentava como defensora da liberdade religiosa procurava distinguir-se dos dissidentes perseguidos para preservar sua situação diante das autoridades. O problema não era apenas a propaganda realizada nos Estados Unidos. A mesma política de acomodação ao Estado nazista produzia consequências dentro da Alemanha, atingindo pessoas que recusavam compromissos considerados incompatíveis com sua consciência religiosa.
A colaboração não impediu a perseguição, mas comprometeu a responsabilidade da Igreja
O relacionamento com o Ministério da Propaganda também não eliminou as dificuldades enfrentadas pela denominação alemã. O regime nazista continuou restringindo atividades religiosas, vigiando pastores, limitando publicações e ameaçando instituições. Em 1937, Hulda Jost utilizou seus contatos com autoridades governamentais para tentar impedir medidas mais severas contra a Igreja. O próprio Schubert relatou que ela havia conseguido acesso a informações sobre planos de dissolução da denominação e procurado intervenção de funcionários ligados à Gestapo. A relação de colaboração era utilizada pelos dirigentes adventistas como instrumento de negociação com o Estado. A Igreja oferecia serviços propagandísticos e procurava obter tolerância administrativa em troca.
Essa circunstância torna a responsabilidade ainda mais grave. Os dirigentes envolvidos conheciam as práticas persecutórias do regime, porque as enfrentavam em sua própria atividade institucional. Mesmo assim, participaram de uma campanha internacional destinada a apresentar Hitler como governante pacífico e defensor da liberdade religiosa. A propaganda dirigida aos americanos não correspondia à realidade que os próprios administradores conheciam. O regime restringia liberdades dentro da Alemanha enquanto seus colaboradores religiosos procuravam convencer o público estrangeiro de que essas liberdades estavam sendo respeitadas. A cumplicidade aparece justamente nessa distância entre o conhecimento interno das perseguições e a mensagem favorável ao governo nazista divulgada no exterior.
Manfred Wachenheimer: o adventista judeu excluído da Igreja e assassinado em Buchenwald
As consequências humanas da acomodação institucional ao nazismo podem ser observadas no destino de Manfred Wachenheimer, adventista de origem judaica que frequentava a congregação de Leipzig. Segundo o relato publicado pela própria Igreja Adventista alemã, Wachenheimer foi excluído da comunidade por pressão de alguns membros, sob a justificativa de que a medida seria necessária para atender às exigências do Estado. A exclusão foi apresentada como providência formal, mas suas consequências atingiram diretamente a vida religiosa do membro. Mesmo depois de afastado, ele continuou comparecendo aos cultos, procurando permanecer entre pessoas com as quais compartilhava sua fé.
Quando tentaram impedir sua presença nas reuniões religiosas, o pastor Hermann Kobs interveio em sua defesa. A atitude provocou uma denúncia à Gestapo feita a partir da própria comunidade. Kobs foi preso em 18 de março de 1942 e permaneceu encarcerado até 7 de abril. Posteriormente, foi suspenso de suas funções pastorais em Leipzig por decisão da administração denominacional, oficialmente apresentada como medida de precaução. O caso revela uma inversão terrível de responsabilidades: o pastor que tentou proteger um membro perseguido acabou denunciado e afastado, enquanto a exclusão da vítima havia sido aceita como forma de acomodação às exigências raciais do Estado.
Em 21 de março de 1942, a Gestapo determinou a prisão de Manfred Wachenheimer por atividade religiosa considerada ilegal, porque, segundo a classificação racial nazista, um judeu não poderia participar de cultos entre pessoas classificadas como arianas. Em 4 de junho, foi enviado ao campo de concentração de Buchenwald. Em 4 de julho de 1942, às 7h55, foi assassinado por uma injeção de substância tóxica. O relato oficial adventista registra esses acontecimentos e reconhece que a exclusão do membro e a denúncia contra o pastor que tentou defendê-lo partiram de pessoas ligadas à própria comunidade religiosa.
É impossível examinar esse destino sem confrontá-lo com a campanha internacional realizada poucos anos antes. Enquanto a Associação Geral havia participado de uma operação destinada a melhorar a imagem do governo de Hitler, um membro adventista de origem judaica foi excluído de sua congregação, impedido de participar dos cultos, preso e assassinado pelo regime nazista. Não estamos atribuindo a morte de Wachenheimer diretamente à viagem de Hulda Jost ou à censura de The New Caesars. Estamos demonstrando a contradição moral de uma instituição que colaborou com a propaganda de um Estado perseguidor enquanto pessoas pertencentes à própria comunidade religiosa sofriam as consequências de suas políticas raciais.
Outros adventistas foram perseguidos enquanto a administração procurava preservar suas relações com o Estado
O caso de Wachenheimer não foi o único episódio de sofrimento entre adventistas durante o regime nazista. A própria imprensa oficial alemã, ao relatar a instalação de sua pedra memorial, mencionou outros membros que enfrentaram prisão, campos de concentração e morte. Entre eles estavam Emil Biegmann, morto em Dachau, e A. Eschrich, morto em Buchenwald. O historiador Johannes Hartlapp também identificou adventistas que pagaram com a vida por sua recusa ao serviço militar, como Franz Partes e Franz Dlugosch, além dos pastores Rudolf Harreß e Rudolf Schäfer, mortos durante a perseguição nazista. Esses nomes revelam que existiram pessoas dispostas a enfrentar o regime e suportar consequências terríveis por suas convicções religiosas.
A existência desses testemunhos torna ainda mais necessária a distinção entre a coragem individual e a conduta institucional. Alguns adventistas resistiram, protegeram perseguidos ou se recusaram a aceitar determinadas exigências do Estado. Outros participaram de estruturas administrativas que procuravam acomodar a denominação ao regime. A responsabilidade histórica precisa alcançar os dirigentes que tomaram decisões, e não ser diluída numa narrativa genérica sobre o sofrimento de todos os membros durante a guerra. A coragem daqueles que resistiram não absolve automaticamente os administradores que colaboraram. Pelo contrário, demonstra que havia alternativas morais e religiosas à acomodação institucional.
1948: o governo militar americano cobra a desnazificação da liderança adventista alemã
Três anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, a responsabilidade administrativa continuava sendo discutida. Em 20 de maio de 1948, o major J. C. Thompson, chefe da Seção de Assuntos Religiosos do Governo Militar Americano em Berlim, escreveu a W. B. Ochs, vice-presidente da Associação Geral, cobrando providências na desnazificação da liderança adventista alemã. A correspondência foi identificada por Roland Blaich nos arquivos da Associação Geral, RG 21, documentação referente à Europa Central e Setentrional. O oficial afirmou que a Igreja Adventista estava entre as poucas denominações de Berlim que ainda não haviam realizado satisfatoriamente a remoção de dirigentes politicamente comprometidos com o nazismo. Segundo sua avaliação, outras organizações religiosas haviam concluído essa tarefa muito antes.
A carta de Thompson é apresentada logo na abertura do estudo Religion under National Socialism. O historiador mostra que, depois da guerra, dirigentes da Associação Geral precisaram enfrentar a permanência de administradores alemães comprometidos com a política de acomodação ao regime nazista. A questão envolvia nomes como Adolf Minck, Michael Budnick e Emil Gugel, além de debates sobre afastamentos, transferências e continuidade de funções. A cobrança do governo militar americano demonstra que o problema não havia desaparecido com a derrota de Hitler. A Igreja precisava responder pela presença de pessoas politicamente comprometidas em sua estrutura administrativa.
Entretanto, a discussão sobre a desnazificação alemã não resolve a responsabilidade anterior da própria Associação Geral. A administração mundial que recebeu a cobrança de Thompson havia participado, desde 1935, de decisões relacionadas à propaganda nazista nos Estados Unidos. Seus arquivos conservavam correspondências sobre a viagem de Hulda Jost, contatos com a diplomacia alemã, relatórios da campanha e documentos sobre a destruição de The New Caesars. A responsabilidade institucional não podia ser encerrada apenas com a substituição ou manutenção de dirigentes europeus. Era necessário examinar também as decisões tomadas em Washington, fora do território alemão e antes da guerra.
2005: a IASD confessou ter abandonado judeus à prisão, à deportação e à morte — e só pediu perdão sessenta anos depois
Não estamos falando simplesmente de judeus excluídos do rol de membros, como se a tragédia pudesse ser reduzida a uma decisão burocrática de secretaria de igreja. Estamos falando de seres humanos discriminados por sua origem, rejeitados pelas próprias comunidades religiosas, abandonados diante da máquina de perseguição nazista e entregues à possibilidade concreta de prisão, deportação e assassinato. A gravidade é tamanha que a própria Igreja Adventista, na declaração oficial conjunta das administrações alemã e austríaca, publicada em 8 de maio de 2005, reconheceu que pessoas de origem judaica foram marginalizadas, expulsas de suas comunidades e abandonadas à própria sorte, ficando assim entregues à prisão, à expulsão ou à morte. Essa é a dimensão da culpa que a própria denominação admitiu: não apenas discriminação religiosa, mas abandono de pessoas indefesas diante de um Estado que as perseguia em razão de sua ascendência.
O caso de Manfred Wachenheimer demonstra o que essas palavras significavam na vida real. Expulso da congregação adventista de Leipzig por pressão de membros que pretendiam adaptar-se às exigências raciais do regime, ele continuou procurando participar dos cultos. Quando o pastor Hermann Kobs tentou defendê-lo, foi denunciado à Gestapo por pessoas da própria comunidade, preso e posteriormente afastado de suas funções pastorais. Wachenheimer também foi preso pela Gestapo, enviado ao campo de concentração de Buchenwald e assassinado em 4 de julho de 1942, mediante uma injeção de substância tóxica. Portanto, não estamos descrevendo um mero afastamento eclesiástico, mas uma sequência de discriminação, abandono, repressão policial, encarceramento em campo de concentração e morte. E foi necessário esperar até 2005 para que as administrações adventistas alemã e austríaca reconhecessem oficialmente a gravidade de sua responsabilidade histórica, enquanto a participação da própria Associação Geral na propaganda internacional de Hitler e na destruição de uma edição missionária continuava sem uma prestação de contas equivalente.
2021: uma pedra memorial diante da igreja de Leipzig
Em 16 de junho de 2021, uma pequena pedra memorial, conhecida na Alemanha como Stolperstein, foi instalada na calçada diante da igreja adventista de Leipzig, em homenagem a Manfred Wachenheimer. A iniciativa foi relatada pela própria imprensa oficial adventista alemã, que reconheceu a exclusão do membro, a denúncia contra o pastor que tentou defendê-lo e seu assassinato em Buchenwald. A pedra preserva o nome de uma vítima que jamais deveria ter sido esquecida. Mas sua instalação, quase oitenta anos depois da morte de Wachenheimer, também evidencia a demora do reconhecimento institucional.
Uma homenagem memorial não substitui a identificação dos responsáveis pelas decisões que contribuíram para o abandono de uma pessoa perseguida. A pedra na calçada não esclarece quem pressionou pela exclusão de Wachenheimer, quem participou da denúncia contra Hermann Kobs, quem determinou o afastamento do pastor ou quais dirigentes responderam administrativamente por esses acontecimentos. Da mesma maneira, a homenagem a uma vítima alemã não responde pelas decisões tomadas pela Associação Geral nos Estados Unidos. A memória dos mortos exige mais do que cerimônias e placas. Exige que a instituição examine seus próprios atos, abra seus arquivos e reconheça a responsabilidade daqueles que participaram da colaboração com o regime responsável pela perseguição.
Uma parceria documentada, uma cumplicidade que não pode ser escondida
A documentação examinada neste artigo estabelece uma sequência histórica que não pode ser reduzida a uma falha regional alemã. Em 1935, a Associação Geral aprovou a viagem que daria origem à campanha de Hulda Jost. Em 1936, participou de sua organização em colaboração com a diplomacia alemã e com o Ministério da Propaganda nazista. A campanha percorreu os Estados Unidos, utilizou igrejas e instituições adventistas, defendeu Hitler diante do público americano e culminou na assembleia mundial da denominação em São Francisco. O próprio governo nazista reconheceu a utilidade política da operação. Em 1937, G. W. Schubert referiu-se expressamente à propaganda mundial realizada em favor do Terceiro Reich diante daquela assembleia. Em 1938, a Comissão da Associação Geral determinou a retirada e destruição de uma edição missionária já impressa, intitulada Os Novos Césares, porque sua circulação poderia prejudicar a atuação adventista na Europa.
A palavra parceria descreve a cooperação documentada entre estruturas denominacionais e órgãos do Estado nazista. A palavra cumplicidade expressa a responsabilidade moral de uma instituição que ajudou a promover a imagem de um governo perseguidor, conhecia as restrições impostas por esse governo e, mesmo assim, continuou utilizando sua estrutura internacional para favorecer relações com ele. A colaboração não se limitou a declarações elogiosas. Alcançou correspondências oficiais, itinerários organizados, auditórios religiosos, contatos diplomáticos, apresentações na assembleia mundial e decisões de censura editorial. Os documentos demonstram que a administração mundial participou de atos concretos que beneficiaram a propaganda de Hitler e restringiram a circulação de uma publicação considerada inconveniente diante do regime nazista.
Como adventistas que levam a sério a advertência bíblica contra os poderes perseguidores, não podemos aceitar que essa história seja encerrada com a explicação de que alguns dirigentes europeus cometeram erros sob pressão política. A sede mundial estava nos Estados Unidos. Seus dirigentes participaram da preparação de uma campanha internacional. Seus representantes receberam Hulda Jost e acompanharam sua atuação. Sua assembleia mundial ofereceu espaço para a apresentação das realizações do Terceiro Reich. Sua Comissão determinou a destruição de uma edição missionária já impressa. Essas decisões pertencem à história administrativa da própria Associação Geral e precisam ser examinadas como tais.
A pergunta que a Associação Geral ainda precisa responder
Quem aprovou a operação de propaganda em 1935? Quem participou das reuniões com o embaixador alemão Hans Luther? Quem acompanhou os relatórios enviados por Hulda Jost ao próprio Hitler? Quem autorizou sua participação na assembleia mundial de São Francisco? Quem examinou as consequências da campanha depois que o Ministério da Propaganda nazista reconheceu sua utilidade? Quem votou a política editorial de 10 de março de 1938? Quem determinou a retirada e destruição de The New Caesars? Quantos exemplares foram produzidos e eliminados? Que documentos editoriais explicam o conteúdo da obra e as razões específicas de sua censura? Quem prestou contas por essas decisões depois da guerra? Essas perguntas não podem ser respondidas por uma declaração regional de arrependimento publicada sessenta anos depois dos acontecimentos.
A Igreja Adventista ensinou durante gerações que os cristãos deveriam reconhecer os perigos dos novos césares, resistir à perseguição religiosa e não entregar sua consciência aos reis da terra. Entretanto, quando Adolf Hitler consolidava sua ditadura, a administração mundial adventista participou de uma campanha internacional que beneficiou a propaganda do Terceiro Reich. Quando um livro missionário intitulado Os Novos Césares estava impresso e pronto para chegar aos leitores, a mesma administração determinou sua retirada e destruição. Depois vieram a guerra, as perseguições, as exclusões, os campos de concentração, as mortes, as cobranças de desnazificação, os pedidos de perdão e as placas memoriais. A responsabilidade histórica não termina com a lembrança desses acontecimentos. Ela exige que a própria Associação Geral responda pelos atos que praticou.
O problema não foi apenas o que alguns adventistas fizeram na Alemanha de Hitler. O problema foi também o que a administração mundial da Igreja Adventista fez, desde os Estados Unidos, para colaborar com a propaganda daquele regime e impedir a circulação de uma edição missionária considerada inconveniente. A parceria está documentada. A cumplicidade institucional precisa ser enfrentada. E a responsabilidade da Associação Geral não pode continuar escondida atrás de um pedido regional de desculpas.





