
A Igreja em nível regional admitiu até que abandonou judeus à prisão, à expulsão e à morte. Mas sua administração mundial jamais apresentou uma confissão pública abrangente de sua participação na campanha e governo de Hitler.
Não houve, como alguns afirmam, décadas de pedidos de desculpas da Igreja Adventista do Sétimo Dia pelo apoio prestado ao regime de Adolf Hitler. Não houve uma campanha mundial de arrependimento, uma sucessão organizada de confissões públicas, uma mobilização internacional em favor das vítimas ou um programa de reparação conduzido pela Associação Geral.
O que encontramos, ao examinar os documentos oficiais da própria denominação, foi algo muito diferente: algumas manifestações ocasionais, separadas por anos de silêncio, produzidas principalmente por administrações regionais da Alemanha e da Áustria, com alcance limitado e consequências insuficientes diante da gravidade dos acontecimentos reconhecidos.
Houve manifestação que nem sequer chegou a um pedido formal de perdão. Foram declarações comemorativas, pronunciamentos individuais, reafirmações contra o antissemitismo e homenagens memoriais que, embora tenham registrado aspectos importantes da culpa histórica, não enfrentaram integralmente a responsabilidade da administração mundial adventista.
O contraste é escandaloso. Quando se tratou de colaborar com a propaganda favorável ao governo de Hitler, a estrutura envolvida não se limitou a uma pequena congregação alemã ou a um dirigente regional pressionado pela Gestapo. A própria Associação Geral, sediada nos Estados Unidos, aprovou e ajudou a organizar a viagem de Hulda Jost, participou dos contatos que viabilizaram sua campanha e abriu espaços denominacionais para apresentações que beneficiaram a imagem internacional do Terceiro Reich. A operação contou com a colaboração do Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels, do Ministério das Relações Exteriores alemão, da embaixada em Washington e de consulados espalhados pelos Estados Unidos.
A campanha chegou à assembleia mundial adventista de São Francisco, em 1936. Dois anos depois, a administração mundial também esteve envolvida na retirada e destruição de uma edição missionária já impressa de The New Caesars, considerada inconveniente à atuação da Igreja na Europa nazista. Portanto, a responsabilidade institucional alcançou o centro do poder denominacional. Já os pedidos de desculpas permaneceram concentrados nas administrações regionais, como se os acontecimentos mais comprometedores tivessem ocorrido exclusivamente do outro lado do Atlântico.
Quando era para ajudar Hitler, a Associação Geral apareceu. Quando chegou a hora de confessar a culpa, deixou o problema com os alemães
Essa é a contradição que atravessa toda a nossa investigação. A Associação Geral não pode reivindicar autoridade mundial para dirigir a Igreja, aprovar programas, orientar divisões, supervisionar instituições, arrecadar recursos e estabelecer políticas internacionais, mas tratar a responsabilidade histórica por decisões tomadas em sua própria esfera administrativa como assunto exclusivo das lideranças alemã e austríaca.
Se a sede mundial participou dos preparativos de uma campanha internacional que favoreceu a propaganda nazista, a sede mundial precisa responder por essa participação. Se a Comissão da Associação Geral tomou decisões editoriais para preservar os interesses denominacionais na Europa governada por Hitler, a própria Associação Geral precisa explicar essas decisões. Não basta permitir que dirigentes regionais reconheçam erros cometidos por seus antecessores enquanto a administração mundial permanece numa posição confortável, acompanhando de longe as confissões e elogiando a disposição alheia de pedir perdão.
Nosso levantamento mostra que a grande declaração de 2005, frequentemente apresentada como demonstração de arrependimento adventista, foi assinada por três dirigentes da Alemanha e da Áustria. Não foi uma confissão aprovada por uma assembleia mundial da denominação. Não foi um pronunciamento no qual a Associação Geral reconheceu formalmente sua participação na campanha de Hulda Jost. Não apresentou uma investigação sobre a correspondência enviada ao próprio Hitler. Não explicou a atuação da sede americana junto à diplomacia alemã. Não prestou contas sobre a decisão de destruir The New Caesars. E não anunciou a criação de um fundo internacional de reparação às famílias atingidas.
A confissão reconheceu atrocidades e omissões gravíssimas, mas deixou fora de seu alcance o centro administrativo que também aparece nos documentos históricos. É precisamente essa diferença entre a extensão da responsabilidade e a limitação do reconhecimento que torna o comportamento institucional tão revoltante.
1935: a campanha favorável ao Terceiro Reich recebeu aprovação na própria estrutura mundial adventista
A documentação reunida pelo historiador Roland Blaich em Selling Nazi Germany Abroad: The Case of Hulda Jost, publicado em 1993 no Journal of Church and State, estabelece que a viagem de Hulda Jost aos Estados Unidos foi discutida e aprovada em estruturas administrativas adventistas durante 1935. O estudo identifica a deliberação da Divisão Centro-Europeia, reunida em Friedensau, e sua aprovação pela Comissão da Associação Geral, registrada em correspondência de M. E. Kern a G. W. Schubert, datada de 21 de outubro de 1935.
A sede adventista em Washington expediu o convite e ajudou a organizar o itinerário. Posteriormente, o Ministério da Propaganda alemão e o Ministério das Relações Exteriores participaram da preparação da campanha, enquanto a embaixada e os consulados alemães passaram a colaborar com a programação. O resultado foi uma operação internacional que reuniu interesses denominacionais e objetivos propagandísticos do governo nazista.
Não estamos descrevendo uma iniciativa desconhecida da administração mundial. J. L. McElhany, que se tornaria presidente da Associação Geral em 1936, acompanhou os preparativos, recebeu correspondências sobre a viagem e participou dos contatos realizados em Washington. Em carta de 30 de janeiro de 1936, chegou a comparar Hulda Jost a Débora ou Ester, personagens bíblicas associadas à liderança e à intervenção providencial em momentos de crise.
A comparação é especialmente perturbadora quando examinamos o que a dirigente adventista efetivamente realizou durante sua passagem pelos Estados Unidos. Em vez de denunciar a perseguição promovida pelo governo alemão, Jost procurou defender suas realizações sociais, combater críticas publicadas pela imprensa americana e transmitir uma imagem favorável de Hitler. A administração mundial sabia quem era a visitante, participou da organização de sua agenda e acompanhou os resultados de suas apresentações.
1936: a embaixada alemã e a sede adventista trabalharam na mesma campanha
Hulda Jost chegou aos Estados Unidos em março de 1936. Sua programação previa mais de 140 palestras, distribuídas por igrejas, instituições educacionais, associações femininas, organizações alemãs e outros auditórios. A agenda incluía cidades como Nova York, Boston, Chicago, St. Louis, Denver, Portland, Los Angeles, San Diego e São Francisco.
A campanha não consistia exclusivamente em reuniões religiosas: envolvia apresentações públicas sobre a Alemanha nazista, contatos diplomáticos e atividades destinadas a influenciar a opinião americana. Segundo a pesquisa de Blaich, o embaixador alemão Hans Luther participou da coordenação do itinerário juntamente com dirigentes adventistas, e os consulados receberam instruções para colaborar com a visitante. Em Washington, Hulda Jost reuniu-se com representantes da Associação Geral e com o embaixador, enquanto a sede denominacional designou Louise C. Kleuser para atuar como intérprete durante a viagem.
É impossível reduzir essa estrutura de cooperação a uma coincidência. O Ministério da Propaganda tinha interesse em melhorar a imagem internacional do regime nazista. A liderança adventista alemã procurava conquistar a boa vontade das autoridades que ameaçavam suas atividades. A Associação Geral ofereceu apoio organizacional e espaços para a campanha. Os interesses convergiram numa operação que permitiu à propaganda do Terceiro Reich circular por instituições religiosas americanas e alcançar a representação mundial adventista.
O fato de alguns dirigentes terem demonstrado preocupação com declarações excessivamente políticas de Jost não elimina a participação institucional na campanha. Ao contrário, mostra que a administração recebeu advertências sobre o caráter propagandístico das apresentações enquanto a programação continuava sendo realizada.
Hulda Jost prestou contas ao próprio Hitler e mencionou o apoio dos dirigentes adventistas americanos
Em 30 de abril de 1936, de Portland, no estado de Oregon, Hulda Jost escreveu diretamente a Adolf Hitler. A carta foi preservada nos arquivos alemães e também aparece na documentação examinada por Blaich, que identifica uma cópia nos arquivos da Associação Geral. Nela, a dirigente adventista relatou os preparativos conduzidos pelo Ministério da Propaganda e pelo Ministério das Relações Exteriores, mencionou sua colaboração com a embaixada alemã e descreveu as apresentações realizadas em território americano. Informou que já havia participado de quarenta grandes reuniões e de pelo menos vinte encontros menores, além de entrevistas à imprensa. Explicou que frequentemente precisava responder a perguntas sobre a perseguição aos judeus, as intenções militares do Führer e a situação das organizações religiosas na Alemanha. E apresentou suas atividades como uma contribuição para melhorar a opinião dos americanos sobre o governo nazista.
O aspecto mais comprometedor dessa correspondência é a referência explícita ao apoio recebido dos principais dirigentes adventistas dos Estados Unidos e da Alemanha. Jost não escreveu ao Führer como uma visitante solitária que havia conseguido utilizar alguns auditórios por iniciativa pessoal. Apresentou-se como participante de uma operação apoiada por representantes da denominação e pelas autoridades diplomáticas alemãs. A carta ainda mencionou a possibilidade de uma audiência pessoal com Hitler após seu retorno à Alemanha, para apresentar os resultados da viagem. O documento, portanto, estabelece uma ligação direta entre a campanha realizada com apoio adventista e a prestação de contas ao chefe do regime nazista. Que declaração regional de arrependimento examinou publicamente, em toda a sua extensão, essa correspondência e a participação da administração mundial nela registrada?
A propaganda chegou à assembleia mundial de São Francisco e foi celebrada pela diplomacia nazista
A campanha culminou na assembleia mundial adventista de São Francisco, realizada entre maio e junho de 1936. Hulda Jost apresentou relatórios sobre a assistência social na Alemanha e descreveu o trabalho adventista integrado às estruturas assistenciais do Estado nazista. G. W. Schubert, presidente da Divisão Centro-Europeia, discursou sobre a relação entre a Igreja e as autoridades governamentais, utilizando exemplos bíblicos para justificar a cooperação entre o povo de Deus e o Estado. Seu pronunciamento foi registrado no boletim oficial da assembleia mundial de 1936. A documentação diplomática examinada por Blaich revela que representantes alemães consideraram politicamente útil a participação da delegação adventista e avaliaram positivamente a imagem transmitida sobre a Alemanha nazista.
Em correspondência posterior, Schubert chegou a defender a continuidade da propaganda internacional favorável ao Terceiro Reich, recordando o trabalho realizado diante da assembleia mundial. O próprio Ministério da Propaganda reconheceu a utilidade da colaboração adventista. Em 29 de agosto de 1936, Joseph Goebbels escreveu ao ministro de Assuntos Eclesiásticos, Hanns Kerrl, destacando a importância da propaganda realizada no exterior por meio da colaboração com a assistência social adventista. Em julho de 1938, outra comunicação do Ministério da Propaganda registrou que a denominação afirmava o Estado nacional-socialista e procurava servi-lo da melhor maneira possível. Esses documentos não foram redigidos por inimigos da Igreja Adventista. Foram produzidos por autoridades do próprio regime nazista, que identificaram a utilidade política da colaboração recebida.
1938: depois de colaborar com a propaganda, a Associação Geral mandou destruir uma edição missionária
A responsabilidade da administração mundial não termina na viagem de Hulda Jost. Em março de 1938, a Associação Geral também esteve envolvida na retirada e destruição de uma edição já impressa de The New Caesars, de Gwynne Dalrymple, preparada pela Pacific Press para distribuição missionária. A documentação foi examinada por Roland Blaich e posteriormente discutida em publicações históricas adventistas. Os registros identificam correspondência de J. L. McElhany de 10 de março de 1938, relacionada à suspensão de materiais críticos ao governo alemão, e uma circular de 14 de março tratando especificamente do livro. A edição missionária havia sido produzida, mas acabou retirada e destruída diante da preocupação de que sua circulação prejudicasse a atuação denominacional na Europa nazista.
A contradição moral é devastadora. A Igreja que anunciava ao mundo os perigos dos poderes perseguidores colaborou com uma campanha destinada a melhorar a imagem de Hitler e, posteriormente, utilizou sua autoridade administrativa para impedir a circulação de uma publicação missionária considerada inconveniente à sua presença sob aquele governo. Não se trata apenas da acomodação de dirigentes alemães sujeitos à repressão da Gestapo. Trata-se de decisões tomadas na esfera da administração mundial, em território americano. Por isso, os pedidos regionais de desculpas, mesmo quando reconhecem a gravidade da conduta adventista na Alemanha, não substituem a prestação de contas da Associação Geral. O problema não foi apenas o que dirigentes europeus fizeram para preservar suas instituições. O problema também foi o que a sede mundial aceitou fazer para proteger interesses denominacionais durante a existência do Terceiro Reich.
1948: até o governo militar americano precisou cobrar a desnazificação dos dirigentes adventistas
Três anos depois da derrota de Hitler, a situação ainda provocava constrangimentos. Em maio de 1948, o major J. C. Thompson, responsável pela seção de assuntos religiosos do governo militar americano em Berlim, escreveu à Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, então sediada em Washington. Sua correspondência, citada por Roland Blaich no estudo Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church, reclamava que a denominação estava entre as poucas organizações religiosas de Berlim que ainda não haviam realizado satisfatoriamente a depuração política de seus dirigentes. Enquanto outras instituições já haviam concluído esse processo, a administração adventista continuava sendo cobrada por uma autoridade encarregada da desnazificação.
Esse episódio demonstra que o problema da responsabilidade institucional não surgiu décadas depois, quando historiadores começaram a consultar arquivos. Já em 1948, uma autoridade externa dirigia-se à própria sede mundial adventista para exigir providências relacionadas ao comprometimento de dirigentes com o nazismo. A Associação Geral conhecia a questão, recebia correspondências e tinha condições de examinar o passado de sua liderança. Entretanto, a história dos reconhecimentos públicos que conseguimos documentar mostra um intervalo imenso entre o fim da guerra e as manifestações regionais posteriores. A organização continuou funcionando, elegendo administradores, ampliando instituições e celebrando seu crescimento enquanto a responsabilidade pelo período nazista permanecia sem uma confissão mundial abrangente.
1988: uma declaração restrita à Alemanha Oriental, quarenta e três anos depois do fim da guerra
Foi somente em 1988, no quinquagésimo aniversário da Noite dos Cristais, que encontramos uma das primeiras manifestações adventistas posteriores à guerra mencionadas pela própria imprensa denominacional. A Igreja Adventista da então Alemanha Oriental publicou uma declaração em sua revista regional. A informação foi apresentada pela Adventist News Network, em reportagem de 15 de agosto de 2005, que recordou a existência dessa manifestação ao divulgar o documento conjunto das administrações alemã e austríaca. A reportagem não reproduziu integralmente a declaração de 1988, nem apresentou seus signatários ou uma descrição completa de suas providências. O que confirma é que houve uma iniciativa regional, publicada numa revista de circulação limitada, mais de quatro décadas depois da derrota de Hitler.
Não podemos transformar esse episódio numa grande confissão mundial. Não foi a Associação Geral que convocou os membros de todos os continentes para reconhecer sua participação na propaganda nazista. Não houve, nesse registro, uma prestação de contas sobre a campanha de Hulda Jost, a carta enviada a Hitler ou a destruição de The New Caesars. Houve uma declaração regional relacionada à memória da violência antissemita, num aniversário histórico específico. Sua existência merece registro, mas não autoriza a conclusão de que a denominação mundial havia iniciado um processo contínuo e abrangente de arrependimento. Pelo contrário, o caráter restrito da manifestação evidencia a distância entre a dimensão internacional dos acontecimentos e a modéstia institucional do reconhecimento.
1989: um presidente regional pediu desculpas durante uma comemoração em Hamburgo
Em 1989, durante as comemorações do centenário da presença adventista em Hamburgo, o pastor Erwin Kilian, então presidente da Igreja no norte da Alemanha, mencionou o período nazista como uma fase sombria da história denominacional e apresentou um pedido pessoal de desculpas. A informação também foi registrada pela agência mundial de notícias adventista em 2005. Não estamos diante de uma declaração da Associação Geral, de uma resolução aprovada pela representação mundial ou de um programa internacional de reparação. Tratou-se de uma manifestação individual de um dirigente regional, realizada durante uma solenidade comemorativa, na qual a denominação celebrava sua trajetória naquela parte da Alemanha.
O pedido de desculpas de Kilian demonstra que havia dirigentes dispostos a reconhecer publicamente o passado comprometedor da Igreja. Mas também mostra a limitação dessas iniciativas. A responsabilidade pela propaganda nazista não poderia ser resolvida por algumas palavras pronunciadas numa comemoração regional. Era necessário examinar as decisões tomadas em Hamburgo, Friedensau, Washington e São Francisco; identificar os dirigentes envolvidos; abrir os arquivos; procurar as vítimas e seus descendentes; e estabelecer consequências materiais para a organização. Nada disso aparece como resultado abrangente daquela manifestação. O pedido existiu, mas não representou o acerto de contas mundial que os acontecimentos exigiam.
1995: outra manifestação breve, desta vez no cinquentenário da derrota de Hitler
Em 1995, quando se completaram cinquenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial, houve outra manifestação adventista sobre o passado nazista. A própria Adventist News Network a descreveu como uma declaração breve, sem reproduzir seu conteúdo integral na reportagem retrospectiva de 2005. Mais uma vez, o registro não demonstra a existência de uma confissão mundial aprovada pela Associação Geral. Tampouco apresenta uma política de indenização, um levantamento de vítimas ou uma investigação institucional sobre a campanha internacional de 1936. O que temos é outra manifestação pontual, vinculada a uma data comemorativa, que não alterou substancialmente a situação da administração mundial diante de sua própria responsabilidade histórica.
Portanto, não houve uma sequência permanente de pedidos de perdão entre 1988 e 1995. Houve três manifestações distintas, em contextos diferentes, com alcance limitado e conteúdo nem sempre reproduzido integralmente nas fontes disponíveis. A primeira foi uma declaração da Alemanha Oriental; a segunda, um pedido pessoal de desculpas de um presidente regional; a terceira, uma manifestação breve no aniversário do fim da guerra. Apresentar esses episódios como décadas de arrependimento denominacional seria conceder à instituição um mérito que os documentos não demonstram. Foram iniciativas esparsas, não uma política mundial de responsabilização.
A própria imprensa adventista admitiu que dirigentes abafaram tentativas anteriores de reconhecer a culpa
Existe uma informação especialmente comprometedora na reportagem oficial de agosto de 2005. A agência mundial adventista reconheceu que haviam ocorrido tentativas anteriores de produzir declarações sobre a conduta da Igreja durante o nazismo, mas que essas iniciativas foram amplamente ignoradas ou enfraquecidas por dirigentes que haviam vivido naquele período e não desejavam que a denominação julgasse as gerações anteriores. A revelação merece destaque porque impede que o silêncio institucional seja explicado apenas como consequência do desconhecimento dos fatos. Segundo a própria imprensa adventista, houve resistência interna ao reconhecimento da responsabilidade. Pessoas que ocupavam posições de liderança contribuíram para limitar ou esvaziar iniciativas destinadas a enfrentar o passado.
Quem foram esses dirigentes? Que propostas procuraram impedir? Quais documentos foram modificados, arquivados ou rejeitados? Existem atas de reuniões, correspondências e versões preliminares dessas declarações? A Associação Geral deveria responder a essas perguntas. Se a própria denominação admite que houve tentativas de abafamento, então o problema não se limita aos acontecimentos da década de 1930. Inclui também a maneira como gerações posteriores de administradores trataram a memória desses acontecimentos. A responsabilidade histórica não termina quando o regime nazista é derrotado. Ela continua quando uma instituição conhece fatos comprometedores e permite que sua divulgação seja enfraquecida para preservar reputações e evitar constrangimentos administrativos.
2005: finalmente reconheceram a exaltação de Hitler e o abandono de judeus à prisão e à morte
Em 8 de maio de 2005, sessenta anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, as administrações adventistas da Alemanha e da Áustria publicaram uma declaração conjunta de reconhecimento de culpa. O documento foi assinado por Klaus van Treeck e Günther Machel, representando a liderança alemã, e por Herbert Brugger, representando a administração austríaca. Sua elaboração contou com a participação de Rolf Pöhler e do historiador Johannes Hartlapp. A declaração reconheceu que a Igreja não havia identificado suficientemente a natureza da ditadura nazista, que publicações adventistas haviam exaltado Adolf Hitler e reproduzido ideias antissemitas e que muitos membros não demonstraram solidariedade diante do sofrimento de seus concidadãos judeus. Trata-se de uma confissão gravíssima, cuja importância documental não pode ser diminuída.
Mas a passagem mais perturbadora é aquela em que a própria denominação reconhece que pessoas de origem judaica foram marginalizadas, excluídas e abandonadas à própria sorte, ficando assim entregues à prisão, à expulsão ou à morte. Não estamos falando simplesmente de membros retirados de um cadastro religioso. Estamos falando de pessoas que perderam o acolhimento de suas comunidades num período em que a perseguição racial podia significar prisão pela Gestapo, deportação para campos de concentração e assassinato. A Igreja admitiu que abandonou pessoas perseguidas diante de um regime que destruía suas vidas. Essa confissão não pode ser reduzida à expressão burocrática de que houve exclusões indevidas. O abandono reconhecido pela própria administração adventista tinha consequências humanas infinitamente mais graves.
O documento também reconheceu culpa diante do povo judeu, dos perseguidos pelo nazismo, das vítimas da guerra e dos adventistas de outros países. Pediu perdão a Deus e aos sobreviventes e admitiu que a denominação não havia agido com a coragem e a fidelidade exigidas pelos ensinamentos bíblicos. Entretanto, depois de reconhecer acontecimentos tão graves, a declaração reafirmou compromissos morais para o futuro sem apresentar um plano concreto de reparação patrimonial às famílias atingidas. Não estabeleceu um fundo internacional de indenização, não apresentou um inventário de responsabilidades administrativas e não examinou especificamente a participação da sede mundial na campanha favorável a Hitler. Foi a confissão regional mais importante encontrada em nossa investigação, mas não foi uma prestação de contas mundial.
Confessaram que abandonaram judeus aos carrascos de Hitler, mas evitaram julgar os próprios antecessores
Há uma contradição especialmente reveladora no encerramento da declaração de 2005. Depois de reconhecer a exaltação de Hitler, a divulgação de ideias antissemitas e o abandono de pessoas à prisão, à expulsão e à morte, os signatários afirmaram que não lhes cabia colocar-se acima daqueles que haviam vivido no período nazista, pois somente Deus poderia julgá-los. O argumento pode parecer uma manifestação de humildade religiosa, mas produz um efeito institucional conveniente: reconhece-se a gravidade dos acontecimentos sem estabelecer um julgamento administrativo abrangente das decisões e dos responsáveis. A própria declaração admite a culpa, mas evita transformar essa admissão num processo de responsabilização que alcance os dirigentes, as estruturas e as políticas que produziram os acontecimentos denunciados.
É evidente que nenhum documento pode devolver a vida das vítimas ou substituir o juízo de Deus sobre as consciências individuais. Mas uma organização religiosa não precisa reivindicar autoridade divina para examinar seus próprios arquivos, identificar decisões administrativas, reconhecer responsabilidades institucionais e reparar injustiças. A Igreja Adventista sempre encontrou meios de investigar ministros, disciplinar membros, destituir dirigentes e aplicar regulamentos quando considerou necessário preservar a ordem denominacional. Por que a mesma capacidade administrativa não poderia ser utilizada para reconstruir as decisões tomadas durante o nazismo? Por que a prudência diante do julgamento dos antecessores aparece com tanta força quando o assunto envolve a colaboração com Hitler, mas raramente impede a organização de exercer sua autoridade sobre os membros comuns?
O caso de Manfred Wachenheimer mostra o que significava abandonar um judeu à própria sorte
A história de Manfred Wachenheimer demonstra a brutalidade escondida por trás das expressões administrativas. Adventista de origem judaica, ele frequentava a congregação de Leipzig quando alguns membros pressionaram por sua exclusão. A medida foi apresentada como uma formalidade destinada a satisfazer as exigências raciais do regime nazista. Wachenheimer, entretanto, continuou procurando participar dos cultos. Quando o pastor Hermann Kobs tentou defendê-lo, foi denunciado à Gestapo por pessoas ligadas à própria congregação. Kobs foi preso em março de 1942 e posteriormente afastado de suas funções pastorais por decisão da administração denominacional. Wachenheimer também foi preso pela polícia política, acusado de participar de atividades religiosas entre pessoas classificadas como arianas, e enviado ao campo de concentração de Buchenwald em junho de 1942.
Em 4 de julho de 1942, Manfred Wachenheimer foi assassinado em Buchenwald. A própria imprensa oficial adventista alemã publicou esses acontecimentos em agosto de 2021, registrando inclusive que sua morte ocorreu mediante a aplicação de uma injeção de substância tóxica. A mesma reportagem documentou a denúncia contra Hermann Kobs e seu afastamento das funções pastorais. Não estamos diante de uma história inventada por adversários da denominação. Estamos diante de fatos apresentados pela própria Igreja, envolvendo um membro rejeitado por sua origem judaica, um pastor perseguido por tentar protegê-lo e uma vítima assassinada num campo de concentração. A responsabilidade pela morte pertence aos assassinos nazistas, mas a exclusão religiosa, o abandono e a denúncia contra quem tentou defendê-lo integram a responsabilidade moral da comunidade e das autoridades eclesiásticas envolvidas.
Max-Israel Munk sobreviveu aos campos nazistas e ainda precisou pedir para voltar à Igreja que o havia rejeitado
Outro caso registrado pela própria imprensa adventista é o de Max-Israel Munk, judeu convertido ao adventismo que foi excluído de sua congregação juntamente com sua família. Munk acabou encarcerado em campos de concentração nazistas, sobreviveu à perseguição e retornou à comunidade religiosa depois da guerra. Segundo o relato divulgado pela Adventist News Network em 2005, ele não desejava tratar seus antigos irmãos da maneira como havia sido tratado. A história é devastadora porque revela a disposição de um perseguido em procurar novamente a comunidade que o abandonara, mesmo depois de experimentar a violência do regime nazista.
Esses nomes precisam aparecer em qualquer prestação de contas séria. A confissão de 2005 reconheceu que pessoas foram abandonadas à prisão, à expulsão e à morte, mas a memória das vítimas exige mais do que uma formulação coletiva. Exige identificação, documentação, reconstrução de histórias familiares e investigação das decisões eclesiásticas que contribuíram para seu isolamento. A denominação possui arquivos, recursos e estruturas internacionais capazes de realizar esse trabalho. Se conseguiu organizar campanhas missionárias em vários continentes e administrar instituições de grande porte, também deveria ser capaz de promover uma investigação mundial destinada a localizar os descendentes das vítimas e estabelecer medidas concretas de reparação.
A Associação Geral elogiou a declaração de 2005, mas elogiar o arrependimento alheio não é confessar a própria culpa
A reportagem da Adventist News Network de agosto de 2005 incluiu manifestações favoráveis de dirigentes e representantes da denominação em diferentes países. Entre eles estava John Graz, então diretor de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa da sede mundial, que elogiou a declaração alemã e austríaca como um marco positivo. O reconhecimento público da importância do documento demonstra que a Associação Geral tomou conhecimento da confissão e permitiu sua divulgação pela imprensa oficial internacional. Mas existe uma diferença decisiva entre elogiar um pedido regional de desculpas e assumir formalmente a responsabilidade da administração mundial por suas próprias decisões. A manifestação de um diretor departamental não equivale a uma resolução da Comissão da Associação Geral, a uma confissão assinada pela presidência mundial ou a uma prestação de contas sobre a campanha de Hulda Jost.
É precisamente aqui que a insuficiência institucional se torna mais evidente. A Associação Geral aparece nos documentos de 1935 e 1936 como participante da organização de uma campanha que favoreceu a propaganda do regime nazista. Aparece nos registros de 1938 relacionados à censura de uma publicação missionária. Recebeu, em 1948, cobranças do governo militar americano sobre a desnazificação de dirigentes adventistas. Entretanto, quando a denominação finalmente publicou uma confissão importante em 2005, o documento foi produzido e assinado pelas administrações alemã e austríaca. A sede mundial pôde divulgar, comentar e elogiar a iniciativa sem apresentar, naquele momento, uma confissão abrangente sobre sua própria participação. Não é essa a prestação de contas que a história exige.
2012: uma nova declaração contra o antissemitismo não foi um novo pedido mundial de perdão
Em novembro de 2012, dirigentes adventistas da Alemanha, da Áustria e da Suíça de língua alemã divulgaram uma nova manifestação oficial contra o antissemitismo, motivada por declarações públicas consideradas ofensivas e incompatíveis com os princípios defendidos pela denominação. O documento retomou a confissão de 2005 e reafirmou que manifestações antissemitas não deveriam ser toleradas nas congregações. Sua finalidade principal, entretanto, foi responder a um episódio contemporâneo e reafirmar uma posição moral. Não se tratou de uma nova confissão mundial sobre a colaboração com Hitler, nem de um pedido de desculpas da Associação Geral por sua participação na propaganda nazista.
É importante estabelecer essa distinção porque a simples existência de uma nova declaração não demonstra a continuidade de um processo de reparação histórica. Condenar o antissemitismo em 2012 era necessário, especialmente diante de manifestações que provocaram preocupação entre dirigentes adventistas. Mas reafirmar uma posição contra a discriminação não substitui a investigação dos acontecimentos da década de 1930. A declaração não apresentou uma prestação de contas sobre a campanha americana de Hulda Jost, não examinou a correspondência dirigida a Hitler e não anunciou reparações materiais às famílias atingidas. Foi outra manifestação regional, relacionada a uma circunstância específica, e não a resposta mundial que permanecia pendente.
2014: a Igreja pediu perdão aos reformistas por injustiças da Primeira Guerra Mundial, mas esse era outro assunto
Em abril de 2014, as administrações adventistas alemãs aprovaram a declaração Schuld und Versagen, ou Culpa e Fracasso, assinada por Johannes Naether e Günther Machel. O documento reconheceu erros cometidos pela liderança adventista durante a Primeira Guerra Mundial, especialmente a orientação de 2 de agosto de 1914, pela qual dirigentes recomendaram aos membros convocados para o Exército que cumprissem suas obrigações militares, utilizassem armas e prestassem serviço inclusive aos sábados. A declaração admitiu que a administração havia agido de maneira incompatível com princípios bíblicos, acusado injustamente dissidentes de apostasia e, em determinados casos, recorrido às autoridades estatais contra irmãos que discordavam de suas decisões. Os dirigentes pediram desculpas aos descendentes dos envolvidos e às organizações do Movimento de Reforma Adventista.
Essa confissão é importante para nossa investigação porque revela outra situação em que a administração adventista procurou preservar sua estrutura mediante decisões que comprometeram a liberdade de consciência de seus próprios membros. Mas seria historicamente incorreto apresentá-la como mais um pedido de perdão pelo apoio a Hitler. Seu objeto principal foi a crise militar e religiosa iniciada em 1914, anterior ao nazismo. O fato de os reformistas terem sido posteriormente perseguidos pelo regime nazista torna a história ainda mais dolorosa, mas não transforma automaticamente a declaração de 2014 numa confissão abrangente sobre os acontecimentos de 1933 a 1945. Portanto, ela deve ser considerada como prova de uma responsabilidade institucional distinta, e não utilizada para aumentar artificialmente a quantidade de pedidos de desculpas pelo período hitlerista.
2019: outra declaração regional, desta vez para lembrar os 75 anos da libertação de Auschwitz
Em dezembro de 2019, as administrações adventistas do norte e do sul da Alemanha aprovaram a declaração Eine bleibende Verpflichtung, ou Um compromisso permanente, relacionada ao aniversário da libertação de Auschwitz, celebrado em janeiro de 2020. O documento recordou judeus, ciganos sinti e roma, testemunhas de Jeová, trabalhadores escravizados, prisioneiros políticos, pessoas com deficiência e outras vítimas do regime nazista. Também retomou expressamente a declaração de 2005, reafirmando a culpa adventista diante do povo judeu e dos perseguidos. Foi uma manifestação de memória e compromisso moral, assinada por dirigentes regionais alemães.
Mais uma vez, porém, não houve uma confissão mundial da Associação Geral sobre a campanha de Hulda Jost, a correspondência enviada a Hitler ou a censura de The New Caesars. A declaração reafirmou a necessidade de combater o antissemitismo e outras formas de discriminação, mas não apresentou um programa internacional de reparação material. Sua existência confirma que a memória do nazismo continuava exigindo manifestações públicas da liderança adventista alemã. Não demonstra, entretanto, que a organização mundial tivesse realizado o acerto de contas que os documentos históricos reclamam. Trata-se de mais uma intervenção regional vinculada a uma data memorial, não de uma política permanente e abrangente de responsabilização.
2021: uma pequena pedra diante da igreja de Leipzig, quase oitenta anos depois do assassinato de Manfred Wachenheimer
Em junho de 2021, uma pequena pedra memorial, conhecida na Alemanha como Stolperstein, foi instalada na calçada diante da igreja adventista de Leipzig em homenagem a Manfred Wachenheimer. A iniciativa havia começado a ser discutida por membros da congregação em 2012 e contou com a colaboração de pesquisadores interessados na história adventista durante o nazismo. A reportagem oficial publicada em agosto de 2021 apresentou os acontecimentos que levaram à exclusão de Wachenheimer, à denúncia contra o pastor Hermann Kobs e ao assassinato do membro judeu em Buchenwald. O memorial constitui um reconhecimento importante da vítima, mas não foi um novo pedido mundial de perdão e não substituiu a responsabilização institucional pelas decisões que contribuíram para seu abandono.
O contraste entre a dimensão da tragédia e a modéstia da homenagem é doloroso. Wachenheimer foi rejeitado pela comunidade religiosa que frequentava, perseguido pela Gestapo e assassinado num campo de concentração. Décadas depois, recebeu uma pedra na calçada diante do templo. A homenagem preserva seu nome, mas não devolve sua vida, não repara o sofrimento de sua família e não responde pelas decisões administrativas que permitiram sua exclusão. Também não explica por que a Associação Geral participou de uma campanha favorável à imagem de Hitler enquanto membros de origem judaica eram discriminados dentro das próprias congregações adventistas alemãs. A memória das vítimas não pode ser utilizada como substituto de uma prestação de contas sobre a responsabilidade dos dirigentes.
Não foram décadas de arrependimento. Foram episódios isolados, tardios e incapazes de encerrar a responsabilidade
Quando organizamos corretamente os documentos, a realidade aparece com clareza. Em 1988, houve uma declaração regional da Alemanha Oriental. Em 1989, um presidente regional apresentou um pedido pessoal de desculpas durante uma comemoração em Hamburgo. Em 1995, surgiu outra manifestação breve. Em 2005, as administrações alemã e austríaca produziram a principal confissão oficial sobre a conduta adventista durante o nazismo. Em 2012, dirigentes regionais reafirmaram sua oposição ao antissemitismo diante de uma controvérsia contemporânea. Em 2014, a liderança alemã pediu perdão aos reformistas por injustiças relacionadas à Primeira Guerra Mundial, um assunto historicamente distinto. Em 2019, outra declaração regional retomou a culpa reconhecida em 2005. Em 2021, houve uma homenagem memorial a Manfred Wachenheimer. Esses acontecimentos não constituem uma sequência contínua de pedidos de perdão mundial pelo apoio adventista a Hitler.
São manifestações diferentes, produzidas por administrações diferentes, em ocasiões diferentes e com objetivos diferentes. Algumas reconheceram culpa; outras lamentaram acontecimentos; outras condenaram o antissemitismo; outras homenagearam vítimas. A maioria não apresentou consequências materiais proporcionais à gravidade dos fatos. Nenhuma das declarações regionais examinadas substituiu uma confissão pública abrangente da Associação Geral sobre sua participação na propaganda internacional do Terceiro Reich. É por isso que rejeitamos a apresentação dessa história como demonstração de décadas de arrependimento institucional. A verdade é muito menos confortável para a denominação: o reconhecimento foi fragmentado, a responsabilidade mundial permaneceu insuficientemente enfrentada e as reparações materiais não apareceram como eixo central dos documentos.
A confissão de 2005 não absolve a Associação Geral. Pelo contrário, torna sua responsabilidade ainda mais evidente
Se a própria Igreja Adventista reconheceu oficialmente que publicações denominacionais exaltaram Hitler, que ideias antissemitas circularam em seus meios religiosos e que pessoas de origem judaica foram abandonadas à prisão, à expulsão e à morte, então não existe razão moral para a Associação Geral continuar sem uma prestação de contas abrangente sobre sua participação nos acontecimentos. A declaração de 2005 confirma a gravidade da conduta adventista na Alemanha e na Áustria. Os documentos examinados por Roland Blaich mostram que a colaboração propagandística também alcançou a administração mundial. As duas linhas documentais precisam ser reunidas. Não basta reconhecer a responsabilidade regional enquanto se evita examinar a atuação da sede americana.
O problema da Associação Geral não pode ser resolvido mediante a alegação de que os acontecimentos ocorreram numa época diferente, sob circunstâncias políticas extraordinárias. A própria denominação reconheceu que o medo, a preocupação com a sobrevivência institucional e o desejo de preservar o reconhecimento oficial contribuíram para decisões incompatíveis com os princípios religiosos que afirmava defender. Essas circunstâncias ajudam a compreender a conduta dos dirigentes, mas não eliminam sua responsabilidade. E a participação da sede mundial numa campanha propagandística realizada em território americano exige uma explicação própria, que não pode ser transferida integralmente aos administradores alemães sujeitos à repressão do regime.
Quem pediu perdão pelas vítimas não apresentou a conta do patrimônio acumulado
Há outra pergunta que precisa ser feita sem rodeios: que consequências materiais resultaram dessas confissões? A declaração de 2005 reconheceu que pessoas foram abandonadas à prisão, à expulsão e à morte. A de 2014 reconheceu injustiças contra adventistas reformistas e seus descendentes. A de 2019 reafirmou a culpa diante dos perseguidos. Mas os documentos examinados não apresentam um levantamento mundial de vítimas e familiares indenizados, não anunciam a destinação de parte do patrimônio da Associação Geral a um fundo independente de reparação e não estabelecem um programa internacional de compensação pelas injustiças reconhecidas. O que encontramos são manifestações de arrependimento e compromissos morais, não um acerto de contas patrimonial correspondente à extensão da responsabilidade institucional.
Enquanto isso, a Igreja Adventista continua administrando sedes, propriedades, instituições educacionais, hospitais, editoras, veículos de comunicação, investimentos e recursos provenientes de dízimos e ofertas. A existência de serviços úteis à sociedade não elimina a obrigação de reparar injustiças históricas. Tampouco transforma a preservação da estrutura administrativa numa finalidade superior à verdade. Se a denominação reconhece que pessoas foram abandonadas diante de um regime assassino, deveria apresentar publicamente o que fez para localizar seus descendentes, identificar responsabilidades e destinar recursos à reparação. Não basta inaugurar memoriais, publicar declarações e continuar administrando o patrimônio como se o reconhecimento da culpa não exigisse consequências materiais.
A responsabilidade mundial exige uma investigação mundial, não mais uma cerimônia regional
Nossa proposta é que a Associação Geral convoque uma comissão internacional independente para examinar integralmente sua participação na campanha de Hulda Jost, na apresentação da propaganda favorável ao regime nazista durante a assembleia mundial de 1936 e na decisão de retirar e destruir The New Caesars em 1938. Essa comissão deveria receber acesso aos arquivos denominacionais, às correspondências dos dirigentes, às atas administrativas e aos documentos preservados em instituições alemãs e americanas. Deveria identificar os responsáveis pelas decisões, reconstruir a participação de cada estrutura e publicar seus resultados sem subordinação à conveniência da administração atual. O objetivo não seria produzir mais uma declaração genérica de pesar, mas estabelecer uma prestação de contas histórica que finalmente alcance o centro do poder denominacional.
Ao mesmo tempo, a Associação Geral deveria organizar um inventário internacional das vítimas e de seus descendentes, incluindo adventistas de origem judaica excluídos de suas comunidades, pessoas perseguidas por resistirem ao nazismo e membros do Movimento de Reforma atingidos pela repressão religiosa e política. Esse levantamento deveria fundamentar um fundo independente de reparação, financiado com recursos patrimoniais da denominação e administrado com participação de representantes das famílias atingidas, historiadores e profissionais independentes. A memória dos mortos não pode ser reduzida a uma oportunidade de demonstrar sensibilidade institucional. Se houve responsabilidade reconhecida, deve haver uma resposta material verificável.
Erton Köhler não pode herdar apenas o poder da Associação Geral e deixar a responsabilidade histórica com os alemães
Erton Carlos Köhler, atual presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, não participou dos acontecimentos da década de 1930 e não pode ser responsabilizado pessoalmente por decisões tomadas antes de seu nascimento. Mas ocupa hoje o cargo máximo da instituição cuja administração participou da campanha de Hulda Jost e esteve envolvida na censura de The New Caesars. Ao assumir a presidência, recebeu a autoridade para representar a organização mundial, orientar suas prioridades e conduzir suas estruturas administrativas. Recebeu também a responsabilidade de enfrentar a história institucional que acompanha esse cargo. Não pode tratar a colaboração com o regime nazista como um problema exclusivamente alemão quando os arquivos demonstram que a própria sede mundial participou de acontecimentos comprometedoramente relacionados à propaganda de Hitler.
Köhler deveria aproveitar 22 de outubro de 2026 para apresentar à representação mundial adventista uma proposta de reconhecimento integral da responsabilidade da Associação Geral. Deveria abrir os arquivos, publicar os documentos, identificar as decisões administrativas e reconhecer que os pedidos regionais de desculpas não encerraram a questão. Nossa posição editorial vai além: defendemos que a liderança mundial considere a dissolução voluntária da estrutura denominacional, a liquidação responsável de seu patrimônio, a transferência de hospitais, escolas e serviços essenciais a administrações independentes, o cumprimento integral das obrigações legais e trabalhistas e a destinação dos recursos líquidos disponíveis à reparação das vítimas e de seus descendentes. A liberdade religiosa dos membros não depende da perpetuação de uma corporação eclesiástica. Ninguém precisa abandonar a Bíblia, o sábado ou a esperança cristã para reconhecer que uma organização religiosa pode perder a autoridade moral de continuar apresentando-se como representante privilegiada de Deus.
O verdadeiro escândalo não é a falta de palavras. É a ausência de consequências proporcionais à culpa reconhecida
Depois de examinarmos os documentos, a questão central deixa de ser quantas vezes algum dirigente adventista pronunciou a palavra perdão. A pergunta passa a ser quem pediu desculpas, por quais acontecimentos, com que autoridade, em nome de qual estrutura administrativa e mediante quais consequências concretas. Uma declaração regional não equivale a uma confissão mundial. Um pronunciamento individual não substitui uma resolução da Associação Geral. Uma homenagem memorial não constitui indenização. Uma condenação contemporânea do antissemitismo não explica a colaboração propagandística de 1936. E uma confissão sobre injustiças cometidas durante a Primeira Guerra Mundial não pode ser contabilizada como pedido de perdão pelo apoio a Hitler. Quando essas distinções são respeitadas, desaparece a impressão de que a denominação realizou um longo processo de arrependimento institucional. O que permanece é uma sucessão descontínua de manifestações limitadas, diante de uma responsabilidade histórica muito maior.
A própria declaração de 2005 reconheceu que pessoas de origem judaica foram abandonadas à prisão, à expulsão e à morte. A própria imprensa adventista admitiu que dirigentes procuraram enfraquecer tentativas anteriores de reconhecimento. A própria documentação histórica demonstra a participação da Associação Geral na campanha internacional de Hulda Jost. O próprio Ministério da Propaganda nazista registrou a utilidade da colaboração adventista. E os arquivos relacionados a The New Caesars mostram que a administração mundial tomou decisões para impedir a circulação de uma publicação missionária considerada prejudicial aos interesses denominacionais na Europa. A questão não pode continuar sendo tratada como uma sucessão de erros locais já resolvidos por declarações regionais. A responsabilidade chegou ao centro da organização. O reconhecimento também precisa chegar.
A culpa alcançou o mundo. O arrependimento ficou na província. E a conta continua aberta!
Em 1936, a campanha favorável à imagem do governo de Hitler percorreu os Estados Unidos com apoio de dirigentes adventistas, colaboração da diplomacia alemã e participação do Ministério da Propaganda. Alcançou igrejas, instituições educacionais, auditórios públicos e a assembleia mundial da denominação. Em 1938, a administração mundial esteve envolvida na destruição de uma edição missionária já impressa. Em 1948, uma autoridade americana ainda precisava cobrar providências relacionadas à desnazificação da liderança adventista. Décadas depois, surgiram declarações regionais e manifestações esparsas de arrependimento, algumas importantes pelo conteúdo, outras limitadas ao contexto de datas comemorativas. Em 2005, a própria Igreja reconheceu a exaltação de Hitler e o abandono de judeus à prisão, à expulsão e à morte. Mas a participação específica da Associação Geral na propaganda nazista continuou sem uma confissão mundial abrangente nos documentos que examinamos.
Não estamos diante de uma instituição que desconhece sua história. Estamos diante de uma organização cujos arquivos, pesquisadores e veículos oficiais já divulgaram elementos suficientes para exigir uma prestação de contas internacional. O problema é que o reconhecimento permaneceu fragmentado enquanto a estrutura mundial continuou funcionando normalmente. A denominação conseguiu produzir declarações, homenagens e manifestações de pesar, mas não apresentou, nos documentos examinados, uma reparação patrimonial mundial proporcional às responsabilidades reconhecidas. A organização que exige fidelidade de seus membros precisa demonstrar fidelidade à verdade sobre seu próprio passado. A instituição que prega justiça precisa aceitar consequências quando reconhece que falhou diante dos perseguidos.
A CULPA DA IASD PELO APOIO E PARCERIA COM HITLER FOI MUNDIAL. OS PEDIDOS DE DESCULPAS, LOCAIS E PELA METADE! Não houve décadas de arrependimento institucional, mas algumas manifestações esporádicas, regionais, tardias e insuficientes. Houve confissões graves, inclusive a admissão de que judeus foram abandonados à prisão, à expulsão e à morte, mas não uma prestação de contas mundial equivalente à participação da Associação Geral na propaganda do Terceiro Reich. Não queremos mais que a responsabilidade seja empurrada para administrações regionais enquanto a sede mundial conserva seu prestígio, suas propriedades e sua autoridade. Queremos a abertura integral dos arquivos, a identificação das vítimas, a reparação de seus descendentes e o reconhecimento público de tudo aquilo que a administração mundial fez. E defendemos que Erton Köhler tenha a coragem de propor o encerramento definitivo da estrutura denominacional, colocando a justiça histórica acima da sobrevivência institucional. Porque a memória dos mortos vale mais do que qualquer patrimônio religioso, e nenhuma organização que participou da propaganda de Hitler deveria considerar encerrada sua responsabilidade com três ou quatro pedidozinhos de desculpas, pronunciados longe do centro mundial do poder que também esteve envolvido naquela história.





