Da desconfiança profética à admiração por Roma: O impacto do Concílio Vaticano II sobre Arthur S. Maxwell

Fonte principal: Exposing Maxwell, edição de 1968, páginas 1–14 (discurso “The Outstretched Hand”); páginas 15–16 (artigo sobre Charles Davis); páginas 17–23 (seleção de O Grande Conflito).




Em 1934, Arthur S. Maxwell publicava na imprensa adventista um estudo sobre a restauração do poder papal à luz de Apocalipse 13. Três décadas depois, regressava do Concílio Vaticano II encantado com o acolhimento recebido em Roma e anunciava que já havia abandonado vários sermões antigos.




O contraste não envolve um visitante desinformado: trata-se de um escritor que formou gerações de adventistas, dirigiu uma das revistas missionárias mais influentes da denominação e conhecia profundamente a mensagem que passou a considerar necessário reformular. Seus próprios textos permitem reconstruir a mudança e perguntar o que aconteceu quando a diplomacia do Vaticano encontrou um dos mais respeitados porta-vozes da tradição profética adventista.




Antes de Roma, o homem que conhecia a profecia

Arthur Stanley Maxwell nasceu em Londres em 14 de janeiro de 1896 e morreu na Califórnia em 13 de novembro de 1970. A alcunha de “Tio Arthur” tornou-o familiar a milhões de leitores de histórias bíblicas, mas seu lugar na história adventista é maior do que o ocupado por seus livros infantis. Maxwell foi editor, pregador, escritor e divulgador das interpretações proféticas que definiram a identidade da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Trabalhou no meio editorial britânico, assumiu em 1920 a direção da Present Truth e, depois de mudar-se para os Estados Unidos em 1936, dirigiu a Signs of the Times até 1970. Durante essa trajetória, a revista passou de uma circulação de cerca de 55 mil para aproximadamente 335 mil exemplares, segundo o balanço biográfico publicado após sua morte. Tal alcance fez dele mais do que um autor de sucesso: ofereceu-lhe uma tribuna duradoura para moldar a maneira como famílias adventistas liam a Bíblia e interpretavam os acontecimentos religiosos mundiais.

Ele conhecia a história de sua denominação e sua doutrina sobre o papado. Sua formação religiosa no ambiente protestante britânico e seu trabalho na defesa da liberdade de consciência precederam o Concílio Vaticano II. Participou de esforços contra mudanças no calendário que ameaçavam a observância semanal do sábado, interessou-se pela relação entre religião e poder civil e tratou regularmente de profecia.

Esse percurso importa porque impede a explicação fácil de que Maxwell teria sido surpreendido em Roma por assuntos que não compreendia. Era justamente um profissional habituado a examinar as reivindicações de autoridade religiosa, o lugar do domingo na tradição cristã e a relação entre a Igreja Católica e os poderes políticos.

Seu prestígio também merece ser colocado no centro da análise. Os leitores não recebiam suas impressões como se fossem as anotações de um turista. Recebiam-nas de um editor que já havia conquistado a confiança de pais, professores, evangelistas e crianças.

As histórias bíblicas de Maxwell circularam nos lares; sua revista apresentava doutrinas e acontecimentos aos adultos. Essa dupla influência, doméstica e editorial, deu especial peso à mudança que se tornaria visível na década de 1960. Um líder pode exercer enorme influência religiosa sem ocupar a presidência da Associação Geral. Maxwell demonstrou isso por meio dos livros, da imprensa e da palavra falada.

1934: Maxwell escreveu sobre a ferida mortal do papado

Existe uma fonte anterior ao Vaticano II que precisa ser lida antes de qualquer avaliação de sua transformação. Em novembro de 1934, a revista adventista Ministry publicou, sob a assinatura de A. S. Maxwell, o estudo Healing the Deadly Wound, dedicado à profecia de Apocalipse 13:3. Naquele texto, ele examinava o significado da ferida recebida pelo poder papal e de sua posterior recuperação.

Não reduzia o acontecimento à prisão do papa Pio VI em 1798. Apresentava uma interpretação histórica mais extensa, associando o enfraquecimento do papado ao desenvolvimento da Reforma e à crescente confiança dos povos na autoridade da Bíblia. Esse mesmo estudo apareceu também na imprensa missionária adventista da época, incluindo a Signs of the Times de outubro de 1934, sob a pergunta sobre se a ferida mortal já havia sido curada.

O exemplar da Ministry de novembro de 1934 oferece uma oportunidade documental excepcional: o próprio Maxwell, muito antes de receber uma credencial pontifícia, escrevia para leitores adventistas sobre o papado como personagem central da interpretação profética. A força desse contraste está em não depender de uma comparação entre autores adversários.

Estamos diante de duas etapas da atuação pública do mesmo homem. Na primeira, ele apresenta a restauração da influência romana como matéria a ser interpretada à luz das Escrituras. Na segunda, sua experiência junto ao Vaticano o leva a afirmar que a pregação adventista sobre os católicos precisava passar por uma reformulação.

A publicação de 1934 não prova que Maxwell tenha posteriormente negado formalmente tudo o que escreveu. Mas impede que o testemunho de 1965 seja tratado como mero gesto de educação ecumênica de alguém sem compromissos anteriores. Maxwell havia participado da formulação e da divulgação da própria interpretação que, décadas depois, seria confrontada por sua experiência de Roma. Era um especialista na linguagem profética adventista e conhecia as consequências religiosas de uma avaliação sobre a recuperação do poder papal. Por isso, quando declarou que já havia descartado sermões, a pergunta não podia ser reduzida à simpatia ou antipatia entre protestantes e católicos: tornava-se necessário examinar o que ele julgava envelhecido na pregação que conhecia tão bem.

Há uma ironia histórica adicional. A restauração da soberania territorial papal decorrente dos Pactos de Latrão, assinados por Benito Mussolini e o cardeal Pietro Gasparri em 11 de fevereiro de 1929, havia recebido interpretação profética na própria imprensa denominacional. Em 28 de fevereiro daquele ano, a Review and Herald publicou o editorial Papal Sovereignty Restored. A denominação anunciava aos seus leitores que a reorganização do poder temporal de Roma possuía relevância para a leitura historicista de Apocalipse. Trinta e poucos anos depois, um de seus principais editores descreveria o poder assim recomposto sobretudo por meio das impressões de uma acolhida cordial e de oportunidades abertas aos jornalistas.

O Vaticano II e a política da mão estendida

O Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, inaugurado por João XXIII e encerrado sob Paulo VI, transformou a apresentação pública do catolicismo diante de outras comunidades cristãs. Os documentos conciliares trataram, entre outros temas, da liberdade religiosa, do relacionamento com cristãos não católicos, do estudo das Escrituras e da presença da igreja na sociedade contemporânea. A declaração Dignitatis Humanae, promulgada em dezembro de 1965, formulou o direito da pessoa e das comunidades à liberdade religiosa no âmbito civil. Essas alterações foram relevantes. Mas sua existência não elimina a necessidade de perguntar como passaram a ser recebidas, interpretadas e utilizadas por representantes de outras denominações.

Maxwell participou de atividades conciliares na condição de observador e profissional da imprensa. Seu relato, posteriormente reproduzido no folheto Present Truth de 1968 com o título The Outstretched Hand: Impressions of Vatican II, conserva a linguagem do homem impressionado pelo tratamento dispensado aos visitantes. A publicação de 1968, conhecida também pelo título de circulação Exposing Maxwell, reúne o discurso e textos destinados a contestá-lo. É uma fonte central porque não descreve Maxwell pelas palavras de um adversário: permite acompanhar o relato do próprio editor, suas escolhas de ênfase e, sobretudo, as recomendações que tirou do que presenciou.

Logo de início, Maxwell contrastou a frieza percebida em visitas anteriores à cidade com a cordialidade daquela ocasião. Lembrou que ele e outros três representantes adventistas receberam credenciais de imprensa: Loewen, Cottrell e Bert B. Beach figuram em sua narrativa. A credencial tinha para ele valor simbólico e prático. Permitia acompanhar cerimônias, circular por determinadas áreas e observar de perto o funcionamento do concílio. Maxwell fez questão de mostrá-la aos ouvintes, comentando os símbolos das chaves cruzadas e da tríplice coroa. A atenção dedicada a esse pequeno documento demonstra o que mais o impressionara: não apenas a realização de um concílio, mas a maneira pela qual Roma havia permitido que ele penetrasse em espaços dos quais antes se sentia distante.

Não precisamos transformar a credencial em objeto místico para compreender sua importância. Ela representava reconhecimento. Um editor adventista acostumado a escrever sobre Roma a partir da tradição profética encontrava-se agora dentro do cerimonial romano, acolhido como participante da imprensa internacional. A mudança de posição era perceptível: não observava mais o poder exclusivamente de fora, por meio de arquivos e notícias; encontrava-se diante de seus representantes, recebia tratamento pessoal e experimentava as vantagens do acesso. A questão não é a legitimidade do trabalho jornalístico, mas o modo como a experiência de ser admitido passou a influenciar sua avaliação religiosa do anfitrião.

O papa, o cerimonial e a impressão produzida pela grandeza

Maxwell contou que permanecera por horas a cerca de doze metros de Paulo VI durante uma das solenidades conciliares. Medira a distância, segundo seu relato, porque desejava registrar com exatidão a posição privilegiada que ocupara. Descreveu a organização das cerimônias, a procissão de prelados, as vestimentas, a guarda, a imensidão dos espaços e a concentração de autoridade simbolizada pelo papa. Em determinado momento, comparou a diferença de escala entre a pequena comunidade adventista e a grande organização romana ao contraste bíblico entre Davi e Golias. Essa associação era especialmente significativa para um pregador adventista, habituado a apresentar o conflito entre fidelidade e poder como elemento da interpretação profética.

Entretanto, o relato não se limita à observação crítica dessa grandiosidade. Maxwell dedicou palavras entusiasmadas à solenidade, à capacidade de organização e, principalmente, ao discurso do papa sobre o amor à humanidade. Considerou a mensagem pontifícia tão notável que sugeriu que poderia ser proferida numa assembleia da Associação Geral adventista, talvez com vantagem sobre discursos ali pronunciados. Essa comparação revela uma alteração importante de parâmetro: a eloquência do pontífice passou a servir como referência favorável na avaliação de uma assembleia da própria denominação de Maxwell.

O valor de um discurso não pode ser negado apenas pela identidade religiosa de quem o pronunciou. Mas tampouco pode ser utilizado como substituto para a investigação das reivindicações de poder de quem fala. A divergência que apresentamos não é com o conteúdo de um apelo ao amor. Está na facilidade com que Maxwell permitiu que a qualidade da recepção e da retórica pontifícia ganhasse peso na reorganização de sua própria linguagem religiosa. A admiração pelo pronunciamento deixou de ser uma observação isolada e passou a integrar uma cadeia de argumentos que terminaria numa recomendação concreta aos pregadores adventistas.

O próprio Maxwell registrou o caráter medieval de grande parte do aparato: tronos, paramentos, ceremonial, hierarquia e uso do latim. Também reconheceu que os dogmas fundamentais da Igreja Católica continuavam preservados. Essas observações são cruciais. O visitante não saiu de Roma afirmando que a hierarquia papal havia desaparecido nem que a instituição renunciara às suas doutrinas. Viu a continuidade e, apesar dela, considerou que uma mudança de atitude estava ocorrendo. A tensão do testemunho reside precisamente nesse ponto: a estrutura que descreveu como antiga e poderosa permanecia, mas a recepção dispensada a observadores e jornalistas o levou a conferir novo significado à atuação pública de Roma.

A liberdade religiosa e o problema da confiança

A questão da liberdade religiosa interessava diretamente a Maxwell. Não era um tema abstrato em sua carreira: ele havia participado de campanhas em defesa do sábado e contra interferências legislativas capazes de afetar a consciência dos fiéis. Durante o concílio, procurou avaliar as posições católicas sobre coerção religiosa e sobre a responsabilidade histórica da igreja em episódios de perseguição. Aproveitou entrevistas coletivas para formular perguntas incisivas e relatou a surpresa com a possibilidade de questionar representantes eclesiásticos diante de jornalistas internacionais.

O fato de poder perguntar impressionou-o. Mas as respostas nem sempre corresponderam ao que esperava. O relato preserva momentos nos quais a discussão sobre autoridade, perseguição e responsabilidade histórica encontrou resistências. Maxwell observou que a Igreja Católica continuava reivindicando sua identidade doutrinária e o lugar de verdadeira igreja. Mesmo diante dessas continuidades, passou a declarar confiança na sinceridade das mudanças de atitude associadas ao concílio. É nesse salto entre abertura formal e confiança institucional que identificamos uma dificuldade séria de sua avaliação.

A declaração conciliar sobre liberdade religiosa possuía conteúdo verificável. Seu alcance e aplicação precisavam ser acompanhados historicamente, à luz das relações entre igreja, legislação e poder político. Maxwell, porém, fez da impressão favorável recebida dos representantes católicos uma razão adicional para esperar mudanças duradouras. Não se trata de negar que o Vaticano II modificou orientações oficiais. Trata-se de perguntar por que um jornalista experimentado passou tão rapidamente da descrição dessas orientações à confiança expressa nos dirigentes que as promoviam. Uma reforma escrita não responde, por si, à questão de como uma instituição exercerá sua autoridade quando tiver condições de fazê-lo.

O editor também apresentou hipóteses sobre os motivos da mudança. Identificou a experiência de católicos sob regimes comunistas, em regiões onde a própria Igreja Católica havia perdido liberdade e privilégios, como um dos fatores que poderiam explicar a defesa mais ampla da liberdade religiosa. Destacou ainda a circulação de ideias favoráveis à liberdade entre intelectuais, seminários e universidades católicas. Suas próprias observações revelavam, assim, uma tensão entre princípio e conveniência histórica. A igreja podia falar de liberdade por convicção e também porque as circunstâncias políticas tornavam essa liberdade necessária à sua sobrevivência em determinados lugares. Maxwell reconhecia esse problema, mas sua conclusão pública continuou marcada pelo otimismo.

1966: “Mudança sem mudança”

Em abril de 1966, Maxwell publicou na imprensa adventista britânica o artigo Change Without Change… More Echoes of Vatican II. A expressão, traduzível como “Mudança sem mudança… Novos ecos do Vaticano II”, resume uma contradição que ele conhecia. A apresentação pública da Igreja Católica podia mudar substancialmente sem que seus dogmas centrais fossem abandonados. O Vaticano II havia promovido diálogo, abertura e linguagem conciliadora; o edifício de autoridade não fora simplesmente dissolvido. Esse segundo documento é importante porque demonstra que as impressões de Maxwell não ficaram confinadas ao calor de um sermão pronunciado depois da viagem. Foram também matéria de sua atividade editorial.

Ao confrontarmos o Maxwell de 1934 com o de 1966, a evolução aparece em dois planos. O primeiro Maxwell escrevia sobre o restabelecimento da força do papado como problema interpretativo de Apocalipse 13. O segundo descrevia com interesse e aprovação uma nova maneira de Roma relacionar-se com o protestantismo. O primeiro colocava no centro a trajetória do poder; o segundo começava a atribuir grande peso à atitude dispensada aos interlocutores. As duas posições não são automaticamente incompatíveis em todas as suas proposições. A contradição aparece, sobretudo, nas consequências que o editor decidiu tirar de sua experiência: a mudança de maneiras de Roma passou a justificar uma mudança de sermões entre adventistas.

Essa passagem foi favorecida pelo prestígio do autor. Um editorial isolado pode provocar discussão; um conjunto de impressões repetidas por alguém como Maxwell podia contribuir para alterar o modo como a comunidade encarava o Vaticano. Sua influência não dependia de modificar oficialmente o manual da igreja. Bastava recomendar, com a autoridade de décadas de trabalho, que a pregação anterior precisava ser revista porque o cenário religioso havia mudado. A força histórica de seu testemunho está no fato de que a reorientação se apresenta como iniciativa do próprio comunicador.

O ponto decisivo: “Já descartei vários”

Há uma passagem do discurso The Outstretched Hand que deve ocupar o centro desta investigação. Depois de descrever a nova atitude dos católicos, o acesso às Escrituras, a abertura de suas publicações à literatura protestante e as oportunidades missionárias, Maxwell afirmou que muitos pregadores adventistas precisariam deixar de utilizar antigos sermões. Em seguida, incluiu-se expressamente nesse movimento: “Já descartei vários.” Na tradução do documento de 1968, a declaração aparece na página 13, acompanhada da ideia de que já não seria possível continuar pregando sobre os católicos como se pregava trinta, quarenta ou cinquenta anos antes.

O contexto ajuda a entender seu raciocínio. Maxwell objetava, por exemplo, a descrições no tempo presente de católicos perseguindo pessoas e queimando Bíblias, quando, segundo ele, isso não correspondia à conduta que presenciava na época. Também criticava a atribuição indiscriminada da marca da besta a pessoas católicas e defendia maior respeito no trato com indivíduos. Essa parte de sua crítica possuía objetos concretos. Mas o editor foi além: recomendou mudanças gerais no repertório homilético adventista, vinculando-as à transformação que acreditava haver testemunhado no Vaticano II.

A questão que nos indigna não é o abandono de uma falsidade histórica ou de uma agressão pessoal. Nenhuma igreja precisa preservar uma afirmação incorreta para demonstrar fidelidade à sua tradição. A questão é a origem e o alcance da revisão defendida por Maxwell. O próprio comunicador apresentou a nova atitude de Roma como motivo determinante para descartar sermões antigos. Mas quais sermões? Quais argumentos? Quais passagens proféticas ele já não julgava adequado apresentar? O documento não contém um inventário dessas peças. E justamente por isso a declaração deveria ter sido acompanhada de uma prestação de contas doutrinária: se um pregador influente descarta sermões que ensinava numa igreja de identidade profética, é legítimo perguntar se estava corrigindo dados anacrônicos ou reduzindo a consequência pública da interpretação sobre o papado.

A expressão “já descartei vários” possui gravidade histórica suficiente sem adornos retóricos. Ela registra uma decisão tomada e comunicada à congregação. Não descreve apenas o desejo de ser mais cordial. Descreve uma alteração efetiva do repertório de pregação de Maxwell. A documentação mostra onde sua experiência no concílio deixou de ser observação e tornou-se orientação para a conduta religiosa. É aí, e não na cor dos paramentos ou na beleza da credencial, que encontramos o acontecimento editorial mais importante.

As publicações católicas e a promessa de uma grande oportunidade missionária

Maxwell também relatou que revistas católicas passaram a aceitar publicidade de obras adventistas, entre elas sua coleção The Bible Story. Mencionou a revista The Priest e o interesse de um religioso ligado à publicação The Bible Today em examinar e divulgar seus livros. Para o escritor e editor, era uma abertura surpreendente. Suas obras, antes dirigidas sobretudo ao público protestante e adventista, encontravam agora possibilidades de circulação em meios vinculados à Igreja Católica. Não por acaso, ele associou o acontecimento à ação da providência divina e celebrou a oportunidade diante dos ouvintes.

O elemento missionário ajuda a explicar sua disposição. Maxwell enxergava um enorme público a ser alcançado. Se católicos recebiam incentivo oficial para estudar a Bíblia e editores religiosos aceitavam divulgar livros adventistas, aumentavam as oportunidades de contato e distribuição de literatura. Ele chegou a propor que leitores católicos fossem incluídos nas campanhas de circulação da Signs of the Times. A abertura das portas de Roma parecia oferecer ao adventismo novas possibilidades de evangelização.

Mas a oportunidade editorial tinha seu custo potencial. Quando o acesso ao público passa a depender de relações consideradas amistosas pelos dirigentes de outra instituição, o comunicador pode sentir-se pressionado a ajustar o conteúdo e o tom de sua mensagem. No caso de Maxwell, não precisamos conjecturar sobre ordens de censura ou acordos secretos. Temos a sequência apresentada por ele: abertura de portas, admiração pela disposição católica, expectativa missionária e proposta de abandono de sermões. O testemunho revela como vantagens de interlocução podem participar de uma revisão de linguagem iniciada voluntariamente por quem as recebe.

Há ainda um aspecto menos examinado: Maxwell estava diante de um público que ele desejava conquistar, não apenas de uma autoridade que desejava compreender. A estratégia de alcançar leitores católicos ajudava a explicar a necessidade de abandonar ofensas e imprecisões, mas também criava a tentação de suavizar conflitos institucionais. A fronteira entre evangelização respeitosa e acomodação de uma mensagem profética não se define pela simpatia dos interlocutores. Precisa ser examinada pelo conteúdo que se abandona, pelo que se preserva e pelas razões efetivas da mudança.

O apêndice de 1968: Charles Davis viu uma instituição diferente

A publicação de 1968 não se limitou a reproduzir o testemunho de Maxwell. Trouxe, nas páginas seguintes, reportagem sobre o teólogo católico britânico Charles Davis, que deixou a Igreja Católica depois de conhecer de perto seus mecanismos de autoridade e o ambiente das reformas conciliares. O texto, reproduzido de uma notícia de outubro de 1967, apresenta críticas ao controle da informação, à administração do debate, à preservação do poder hierárquico e à resistência institucional ao reconhecimento de erros. Os editores do folheto colocaram deliberadamente esse material ao lado da impressão otimista de Maxwell.

O contraste vai muito além da diferença de temperamento entre dois observadores. Maxwell valorizava sobretudo o tratamento oferecido aos visitantes e as manifestações públicas de renovação. Davis discutia o funcionamento interno de uma estrutura de poder. A mesma instituição podia mostrar cordialidade numa conferência de imprensa e manter mecanismos rígidos na condução de seus próprios assuntos. As experiências não se anulam; revelam objetos diferentes. Por isso, a pergunta pertinente não é qual dos dois foi mais simpático ao concílio, mas qual dimensão da realidade institucional cada um estava examinando.

Para uma investigação sobre autoridade religiosa, esse confronto é decisivo. Maxwell descreveu a liberdade de perguntar e a beleza do discurso pontifício. Davis questionou as condições nas quais debates e decisões eram conduzidos. O primeiro relatou uma experiência externa de abertura; o segundo levantou problemas internos de poder. A crítica que fazemos a Maxwell não depende de considerar toda observação de Davis automaticamente correta. Basta reconhecer que a hospitalidade recebida por um visitante é um critério muito limitado para avaliar as mudanças numa instituição que preservava sua hierarquia, suas reivindicações doutrinárias e seu alcance internacional.

Ellen G. White e a advertência que os editores fizeram questão de recordar

Em seguida, o folheto de 1968 incluiu trechos de O Grande Conflito, de Ellen G. White, especialmente o capítulo conhecido em inglês como Aims of the Papacy. A seleção foi feita para confrontar a interpretação de Maxwell com as advertências tradicionais da própria literatura adventista. Nesse capítulo, White advertia que manifestações conciliadoras de Roma e a crescente simpatia protestante não significariam necessariamente o desaparecimento de suas reivindicações históricas de autoridade. O critério proposto era examinar a continuidade do sistema, e não apenas a aparência mais amistosa adquirida diante de outros cristãos.

Não precisamos esconder a contundência do contraste. Maxwell considerava a mão estendida de Roma motivo para rever a pregação. Os editores que o contestaram responderam com uma obra que advertia justamente contra a confiança produzida pelo tratamento conciliador do papado. A contradição não é entre respeito às pessoas e agressividade religiosa. É entre avaliar criticamente um centro de poder e permitir que suas manifestações de cordialidade se tornem argumento suficiente para alterar a própria advertência dirigida a ele.

Essa tensão se tornava especialmente séria no caso de um autor respeitado como Maxwell. Ele não estava fora da tradição de Ellen White; escrevera durante décadas para o público que aceitava seus escritos. Quando passaram a circular relatos de seu entusiasmo pelo Vaticano II, críticos adventistas perceberam que a própria credibilidade editorial do “Tio Arthur” poderia ser utilizada para normalizar uma postura diante de Roma que consideravam incompatível com a herança profética denominacional. O folheto de 1968 documenta essa resistência contemporânea, antes que décadas de memória institucional pudessem transformar o episódio numa simples demonstração de diplomacia madura.

Da imprensa ao cerimonial: a continuidade depois de Maxwell

O caso de Maxwell pertence a uma história mais extensa de encontros e relações entre representantes adventistas e autoridades católicas. Em 1968, a própria Review and Herald registrou uma audiência envolvendo visitantes identificados com a denominação diante de Paulo VI. Em maio de 1977, Bert B. Beach participou de outra audiência pontifícia e entregou ao papa um livro e um medalhão relacionados à identidade adventista. Os registros apareceram na imprensa denominacional. Décadas depois, representantes adventistas continuaram participando de iniciativas de interlocução interconfessional em Roma.

Não afirmamos que Maxwell tenha organizado esses encontros posteriores ou dado instruções a Beach. A documentação não exige semelhante encadeamento. Seu papel foi outro: ajudou a estabelecer, pela palavra de um editor de enorme prestígio, uma linguagem favorável à aproximação com Roma. As audiências e os presentes mostram que o relacionamento interconfessional adquiriu expressões institucionais visíveis. O testemunho de Maxwell mostra como essas expressões podiam ser apresentadas aos próprios adventistas como acontecimentos animadores, sinais de oportunidade e justificativas para mudar antigos hábitos de comunicação.

Esse é o ponto que não pode desaparecer numa narrativa dominada por fotografias e cerimônias. A influência de Roma sobre a linguagem adventista não precisava ocorrer por uma decisão escrita do Vaticano dirigida à Associação Geral. Podia surgir quando representantes adventistas, satisfeitos com o acesso recebido, passavam a recomendar por iniciativa própria outra forma de falar sobre a autoridade pontifícia. O problema editorial não se esgota no registro de uma visita: está na relação entre prestígio recebido e mensagem modificada.

O que a mudança de Maxwell realmente revela

Ao final da análise, temos quatro documentos fundamentais e um contraste bastante nítido. Em 1934, Maxwell escreveu sobre a restauração do poder papal à luz de Apocalipse 13. Em 1966, publicou suas impressões sobre mudanças na apresentação católica, mesmo reconhecendo a permanência de doutrinas fundamentais. No discurso reproduzido em 1968, registrou a cordialidade do Vaticano, a confiança despertada pelo concílio, as oportunidades abertas à literatura adventista e sua decisão de abandonar vários sermões. No mesmo volume de 1968, editores críticos confrontaram suas impressões com o testemunho de Charles Davis e com advertências de Ellen G. White.

Esse conjunto documental permite ultrapassar a denúncia fácil de um editor deslumbrado com cerimônias. O que se modificou não foi apenas a opinião sobre a amabilidade de pessoas católicas. Houve uma alteração concreta no modo como Maxwell decidiu comunicar sua própria fé. E não se tratava da opinião de um visitante isolado. Era uma orientação pronunciada por um dos maiores comunicadores da história adventista, cujo nome circulava em milhões de exemplares de livros e revistas.

Nossa discordância com a postura de Maxwell é profunda. Consideramos inadmissível que uma experiência de acolhimento num centro de poder religioso possa ser utilizada como motivo geral para descartar sermões sem identificar publicamente, um a um, os erros que justificariam sua retirada. A fé adventista sempre reivindicou a autoridade das Escrituras sobre a conveniência institucional. Se determinado ensino estava errado, deveria ser demonstrado por meio de exame bíblico e histórico. Se o problema eram ofensas contra indivíduos católicos, a correção deveria ser assumida em nome do respeito cristão. O que Maxwell apresentou, porém, foi uma revisão impulsionada pela nova relação com Roma e pelo entusiasmo com as oportunidades oferecidas por ela.

É justamente por conhecermos a importância de Maxwell que consideramos o episódio tão grave. O prestígio do “Tio Arthur” e a confiança de seus leitores não lhe conferiam uma licença para substituir a análise documental pela impressão de um encontro. A capacidade de Roma de acolher visitantes, conceder credenciais e abrir espaços editoriais deveria ser compreendida como parte de sua atuação institucional. Nas palavras do próprio Maxwell, esses gestos produziram admiração e confiança. Na prática de sua pregação, acompanharam o descarte de sermões. A ligação histórica entre uma experiência e outra foi estabelecida pelo próprio autor do testemunho.

A mão estendida e o preço de aceitá-la

A história de Arthur S. Maxwell diante do Vaticano II oferece uma pergunta que ultrapassa sua biografia. O que acontece quando uma denominação que ensina seus membros a vigiar criticamente determinado poder começa a valorizar tanto o reconhecimento desse poder que seus representantes reconsideram a própria linguagem antes utilizada para descrevê-lo? A transformação pode ocorrer sem decretos, sem debates doutrinários formais e sem abandono declarado de identidade. Basta que a boa recepção produza uma nova escala de prioridades.

Maxwell sabia que o Vaticano preservava suas reivindicações fundamentais. A própria expressão “mudança sem mudança” revela essa percepção. Conhecia também a interpretação adventista do poder papal: publicara um estudo sobre ela em 1934. Apesar disso, encontrou na cordialidade conciliar elementos que julgou suficientes para defender a reformulação de sermões. Não estamos diante de uma simples mudança de tom jornalístico. Estamos diante de um editor influente que passou da análise profética de Roma à recomendação pública de rever parte da pregação depois de ter sido recebido por ela.

Concluímos, portanto, que a mão estendida do Vaticano teve sobre Maxwell um efeito documentável: convenceu-o da necessidade de modificar sua comunicação religiosa. Ele não deixou apenas um relato de viagem; deixou uma declaração de mudança de prática. Na ausência da lista dos sermões descartados, permanece a obrigação de examinar o que foi deixado de dizer, por quais razões e com que consequências. Mas o núcleo do acontecimento é indiscutível: o homem que escrevia sobre a ferida mortal do papado anunciou, depois de Roma, que já abandonara vários sermões antigos.

 

O Tio Arthur entrou no castelo da feiticeira!

O Tio Arthur parece ter confundido a profecia inspirada destinada aos adultos com as histórias bíblicas que contava às crianças. Acostumado a apresentar as grandes batalhas entre o bem e o mal em narrativas edificantes, imaginou que poderia visitar tranquilamente o castelo da feiticeira de Apocalipse 17, percorrer seus salões, admirar suas cerimônias e aceitar suas gentilezas sem se expor à influência do poder que sua própria tradição religiosa identificava como adversário profético. Foi até Roma como observador adventista e regressou falando com entusiasmo da hospitalidade pontifícia, como se a cordialidade recebida pudesse alterar o significado das advertências que conhecia havia décadas.

Na linguagem simbólica do Apocalipse, a mulher vestida de púrpura e escarlate aparece assentada sobre uma besta de sete cabeças, ligada aos poderes que impressionam e seduzem os reis da Terra. O dragão de Apocalipse 12, identificado com a antiga serpente do Éden, completa o quadro profético da sedução e do engano. São imagens que Maxwell, experiente editor adventista, conhecia suficientemente bem. Entretanto, diante da magnificência do Vaticano, das credenciais pontifícias, dos discursos de fraternidade e da atenção recebida, comportou-se como alguém que havia esquecido a gravidade das próprias histórias que ensinava.

A ironia é cruel. O autor que ensinava crianças a reconhecer as armadilhas do mal parecia acreditar que, por ser adulto, experiente e conhecedor das profecias, poderia atravessar os domínios do poder que denunciava sem sofrer qualquer influência. Mas a sedução não precisava apresentar-se como perseguição. Bastava oferecer-lhe uma credencial, um lugar privilegiado entre os jornalistas, a proximidade do pontífice e palavras cuidadosamente escolhidas para conquistar sua admiração.

E o resultado apareceu em suas próprias declarações. Maxwell não voltou de Roma denunciando a necessidade de redobrar a vigilância profética. Voltou recomendando mudanças na maneira como os adventistas falavam dos católicos e reconhecendo que ele próprio já havia abandonado antigos sermões.

O Tio Arthur, que conhecia tão bem as histórias bíblicas para crianças, parece ter esquecido que a antiga serpente não precisava mostrar os dentes para seduzir. Na interpretação profética que ele próprio ajudara a divulgar, ela também sabia apresentar-se revestida de majestade, autoridade e aparente benevolência. E foi diante dessa aparência que o experiente contador de histórias terminou contando aos adventistas uma nova história sobre Roma.

Essa é a contradição histórica que denunciamos. A tradição adventista ensinava Maxwell a avaliar o poder papal à luz da profecia; a experiência de Maxwell no Vaticano levou-o a propor que os adventistas revissem a maneira de falar sobre aquele poder. O concílio não precisou apagar seus artigos de 1934. A hospitalidade de Roma bastou para que ele próprio anunciasse a revisão de seus sermões. É diante dessa mudança, registrada em documentos da época, que exigimos coerência entre a mensagem proclamada e o comportamento de quem a representa.

Fontes documentais

Arthur S. Maxwell, “Healing the Deadly Wound”. Ministry, novembro de 1934. Fac-símile do periódico.

Arthur S. Maxwell, “Is the Deadly Wound Healed?”. Signs of the Times, 23 de outubro de 1934. Fac-símile do periódico.

“Papal Sovereignty Restored”. Review and Herald, 28 de fevereiro de 1929. Fac-símile do editorial.

Arthur S. Maxwell, “Change Without Change… More Echoes of Vatican II”. Publicação adventista britânica, abril de 1966. Consultar a edição.

Arthur S. Maxwell, “The Outstretched Hand: Impressions of Vatican II”. Discurso reproduzido em Present Truth, 1968, páginas 2–14, no dossiê Exposing Maxwell. Documento primário utilizado nesta investigação.

Charles Davis. Reportagem de Louis Cassels, The Hanford Sentinel, 28 de outubro de 1967, reproduzida nas páginas 15–16 do mesmo dossiê de 1968.

Ellen G. White. The Great Controversy, capítulo “Aims of the Papacy”, cujos trechos foram reproduzidos no dossiê de 1968.

Concílio Vaticano II. Declaração Dignitatis Humanae, 7 de dezembro de 1965. Documento oficial.

C. Mervyn Maxwell, “Sixty Years With God”. Signs of the Times, janeiro de 1971. Perfil biográfico.

Adventistas.com. “60 anos de paixão adventista pelo Vaticano: Arthur S. Maxwell, quem diria!?”, 21 de junho de 2022.

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