GUERRA DE NARRATIVAS: O pastor cubano que Michelson Borges arranjou para nos desmentir, acabou confirmando nossas denúncias

Foi complicado para ele responder como Michelson Borges queria, porque já fazia mais de 40 anos que estava fora de Cuba. O pastor já velhinho disse que a IASD “nunca apoiou” a Revolução — depois entregou como adventistas apoiaram o bando de Chê Guevara e Fidel Castro

Em julho de 2021, quando o Adventistas.Com já havia colocado havia quase três anos sobre a mesa a relação histórica de adventistas cubanos com Fidel Castro, Che Guevara e os guerrilheiros que tomaram o poder em Cuba, o pastor e jornalista Michelson Borges entrou diretamente no assunto. Primeiro publicou um extenso artigo destinado a responder à pergunta “Adventistas apoiaram a revolução cubana?”.

Quatro dias depois, apresentou aos leitores uma longa entrevista com um pastor cubano, Rolando de los Ríos. Era o ambiente de uma verdadeira guerra de postagens. Nós levantávamos documentos, recuperávamos histórias esquecidas e questionávamos a narrativa denominacional; do outro lado apareciam textos procurando explicar, relativizar ou negar aquilo que vínhamos expondo.

A entrevista de Rolando precisa ser relida dentro desse contexto, porque talvez nenhum outro texto daquele período revele tão claramente o conflito entre a narrativa que se pretendia estabelecer e os fatos que teimavam em sobreviver dentro dela.

Michelson Borges apresentou Rolando de los Ríos como testemunha privilegiada da “realidade da IASD em Cuba”. Havia um detalhe que merecia muito mais atenção: Rolando deixara a ilha em 1980 e construíra nos Estados Unidos as quatro décadas seguintes de sua vida, trabalhando como pastor, administrador e evangelista adventista até se aposentar.

Convocado a dizer se a Organização havia apoiado a Revolução, respondeu categoricamente que “nunca”. Mas sua memória contou outra história: a administração do colégio forneceu às tropas de Che aquilo de que precisavam, professores simpatizavam com os guerrilheiros e Che teria falado numa “velha amizade” entre adventistas e Revolução.

NÓS JÁ ESTÁVAMOS NESSA HISTÓRIA DESDE 2018

Michelson não descobriu em julho de 2021 uma controvérsia inexistente até então. Pelo menos desde outubro de 2018, o Adventistas.Com vinha chamando a atenção de seus leitores para aquilo que considerávamos uma parte deliberadamente mal contada da história adventista cubana.

Em 4 de outubro daquele ano publicamos “Pergunte a seu pastor se ele sabe quem foi ‘Argelio Rosabal’” e escrevemos claramente que o apoio adventista à Revolução Cubana raríssimas vezes era mencionado e que publicaríamos outros artigos sobre o assunto. Nos dias seguintes fizemos exatamente isso.

Recuperamos a participação de Rosabal, discutimos a relação de adventistas com Che Guevara, perguntamos de que lado a denominação estivera quando Jânio Quadros condecorou Che e, em 7 de outubro, fomos diretamente à maneira como a Revista Adventista brasileira havia apresentado décadas antes a história de Rosabal.

Nossa tese editorial já estava colocada: aquilo não poderia continuar sendo narrado como um episódio piedoso, isolado e quase acidental envolvendo um religioso bondoso e guerrilheiros necessitados. Havia uma história política, institucional e documental muito maior a ser reconstruída.

Essa discussão não desapareceu. Em julho de 2021, quando manifestações contra o governo cubano colocaram novamente a ilha no centro das atenções internacionais, o assunto reapareceu com força. Em 16 de julho, o Adventistas.Com publicou “Liderança da IASD apóia o Governo de Cuba desde a época de Che Guevara”.

O ponto que nos chamou a atenção vinha do próprio noticiário denominacional: enquanto a liderança cubana recomendava que os membros não se envolvessem em questões políticas, o presidente da Igreja em Cuba reconhecia que, “durante anos, a igreja manteve boas relações com o governo”.

Era exatamente o tipo de contraste que vínhamos apontando: para o membro comum, distância da política; para a estrutura denominacional, relações construídas e mantidas com o poder. E naquele momento já tínhamos atrás de nós as postagens de 2018 sobre Rosabal, Che e a Revolução Cubana.

Portanto, quando poucos dias depois apareceu no blog de Michelson Borges um longo estudo perguntando se os adventistas haviam apoiado a Revolução Cubana, não estávamos diante de uma pergunta surgida no vazio. Era uma questão que já circulava publicamente e à qual o Adventistas.Com vinha dando uma resposta incômoda havia anos.

PRIMEIRO VEIO A RESPOSTA; QUATRO DIAS DEPOIS, A TESTEMUNHA

Em 21 de julho de 2021, o blog Outra Leitura, identificado pelo próprio site como “Blog do pastor e jornalista Michelson Borges”, publicou “Adventistas apoiaram a revolução cubana?”, artigo assinado pelo teólogo Isaac Malheiros. O texto era extenso, carregado de referências e procurava estabelecer uma interpretação para a relação entre adventistas e revolucionários cubanos.

Quatro dias depois, em 25 de julho, Michelson voltou ao tema, desta vez apresentando uma testemunha humana: o pastor cubano de nascimento Rolando de los Ríos. O título era “A realidade da IASD em Cuba: testemunho de um pastor”. Mas o subtítulo já entregava ao leitor a moldura pela qual aquela longa conversa deveria ser lida: “Perseguida pela ditadura, igreja teve sérias dificuldades para levar avante sua missão na ilha”. Antes mesmo da primeira resposta, portanto, estava definido o eixo editorial: a IASD apareceria essencialmente como vítima do regime comunista cubano.

Isso é jornalismo. Uma entrevista não nasce no instante em que o entrevistado abre a boca. Nasce antes, na pauta. O jornalista escolhe o personagem porque acredita que ele tem alguma coisa relevante para dizer sobre o assunto que decidiu abordar; formula perguntas destinadas a retirar dele informações, lembranças e declarações capazes de compor a matéria; seleciona aquilo que será publicado; organiza a sequência; estabelece título, subtítulo e enfoque.

Michelson queria ouvir um pastor cubano que pudesse falar sobre a experiência adventista sob o regime de Fidel Castro e, inevitavelmente, sobre a questão que estava em disputa naquele momento: afinal, adventistas haviam ou não apoiado a Revolução? Rolando, por sua vez, não era uma testemunha socialmente neutra, arrancada de algum arquivo e colocada diante de um historiador. Era um homem nascido numa família adventista, educado em instituições adventistas, formado ministerialmente dentro da denominação e que passara a vida profissional servindo como pastor, administrador e evangelista.

Na época da entrevista já estava aposentado, mas carregava consigo uma existência inteira construída dentro daquilo que os adventistas tradicionalmente chamam de “Obra”. Michelson conhecia a narrativa que procurava. Rolando conhecia a narrativa que sua denominação precisava apresentar. E então aconteceu aquilo que torna essa entrevista excepcional: o pastor ofereceu a resposta institucional, mas o ser humano que carregava as lembranças não conseguiu manter toda a história dentro dela.

A PRIMEIRA BRECHA: “A ADMINISTRAÇÃO FORNECEU O QUE ELES PRECISAVAM”

A verdade começa a escapar muito antes da pergunta decisiva. Michelson pede a Rolando que fale sobre o episódio em que o Colegio de las Antillas recebeu Che Guevara e seus homens. Rolando situa o acontecimento nos últimos dias de 1958, durante a ofensiva de Santa Clara. Che chega com seus soldados à escola e pede comida para as tropas. É então que o entrevistado pronuncia uma frase que deveria acompanhar qualquer discussão futura sobre a tese de que somente adventistas isolados teriam prestado socorro pessoal aos guerrilheiros: “A administração forneceu o que eles precisavam.”

A palavra é “administração”. O sujeito da ação não é uma senhora adventista que encontrou um ferido à porta de casa, nem um membro anônimo agindo clandestinamente, nem alguém contrariando secretamente a direção da igreja. Segundo o próprio pastor cubano escolhido para explicar a história, os soldados chegaram a uma instituição adventista, pediram recursos e a administração forneceu aquilo de que necessitavam.

Essa única lembrança já cria um problema enorme para a conclusão que surgirá mais adiante na entrevista. Mas Rolando não para ali. Imediatamente reconhece: “Não se pode negar que alguns professores da nossa escola simpatizavam com aqueles bravos jovens barbudos, capazes de desafiar a tirania de Fulgencio Batista.” Observe-se a riqueza involuntária dessa frase.

Não apenas havia simpatia entre professores adventistas e os guerrilheiros; décadas depois, mesmo tendo experimentado pessoalmente a perseguição do regime comunista, Rolando ainda recuperava aqueles homens pela memória como “bravos jovens barbudos” enfrentando uma tirania. Isso ajuda a compreender o ambiente psicológico e político em que o apoio ocorreu.

A posterior hostilidade do Estado comunista contra os religiosos não pode ser retroativamente transportada para 1958 para apagar a simpatia que existia antes da vitória. O próprio entrevistado fornece as duas etapas: primeiro, a simpatia pelos homens que combatiam Batista; depois, a amarga experiência sob o governo que emergiu daquela Revolução.

A SEGUNDA BRECHA: CHE É CONVIDADO PELOS ADVENTISTAS

A memória continua avançando e a narrativa defensiva vai ficando cada vez mais apertada. Rolando conta que, poucos meses depois do triunfo revolucionário, o coro polifônico do Colegio de las Antillas apresentou um concerto no principal teatro de Santa Clara. Não estamos mais no caos dos últimos combates de dezembro de 1958. Batista já caiu. Os revolucionários venceram. Che Guevara agora é uma das figuras centrais do novo poder. E quem é convidado para fazer o discurso de abertura do concerto do coro adventista? O próprio Che.

Esse acontecimento importa enormemente porque elimina qualquer tentativa de restringir toda a história ao argumento emergencial segundo o qual uma instituição cristã simplesmente teria alimentado homens famintos que apareceram durante uma batalha. Depois da vitória, a aproximação continua em ambiente público, cerimonial e amistoso.

E é nesse momento que Rolando preserva talvez a frase mais importante de toda a entrevista. Segundo sua lembrança, Che explicou por que um comandante da Revolução estava naquele evento adventista dizendo: “entre os adventistas e a revolução existe uma velha amizade”. A expressão não foi criada pelo Adventistas.Com. Não foi extraída de um panfleto anticomunista. Não foi inventada por alguém tentando constranger a denominação. Foi registrada pelo pastor cubano entrevistado por Michelson Borges para explicar justamente a experiência da IASD em Cuba. E a palavra atribuída a Che não é “encontro”, “contato”, “tolerância” ou “socorro humanitário”. É amizade. Mais ainda: “velha amizade”. O próprio Che, conforme a memória preservada por Rolando, interpretava sua relação com os adventistas a partir de uma história anterior de aproximação e auxílio.

A TERCEIRA BRECHA: A MEMÓRIA DO PRÓPRIO CHE

Rolando então explica por que Che teria falado naquela “velha amizade”. E novamente a entrevista destinada a afastar a ideia de apoio acaba preservando elementos da própria história desse apoio. Ele recorda o encontro de guerrilheiros com religiosos após o desembarque do Granma, fala da comida dividida com os combatentes e da ajuda prestada a Che durante uma crise de asma. Em seguida menciona o próprio livro de memórias de Guevara e reproduz o episódio das adventistas que, embora religiosamente contrárias à violência, ajudaram os guerrilheiros.

Aqui temos algo ainda mais importante do que a memória tardia de Rolando: temos a memória publicada pelo próprio Che. E quando voltamos ao original de Pasajes de la guerra revolucionaria, encontramos uma formulação ainda mais forte: Guevara escreveu que aquelas adventistas lhes deram “apoyo franco” naquele momento e durante todo o transcurso da guerra.

Essa expressão muda o tamanho da discussão. Uma coisa seria demonstrar que um adventista, diante de um homem ferido, deu-lhe água. Outra coisa é o comandante da própria guerrilha registrar que adventistas lhe deram “apoio franco” e acrescentar continuidade temporal: durante a guerra. Quando essa memória de Che é colocada ao lado de Argelio Rosabal, do grupo de adventistas mobilizado para salvar os guerrilheiros, das roupas fornecidas, da alimentação, dos esconderijos e das armas preservadas; quando depois aparece o Colegio de las Antillas fornecendo às tropas aquilo de que necessitavam; e quando, após a vitória, Che é convidado para abrir um concerto adventista e fala numa “velha amizade”, torna-se cada vez mais difícil manter toda essa documentação dentro da categoria conveniente de episódios individuais, casuais e sem significado político.

FIDEL TAMBÉM CHEGA AO COLÉGIO

Rolando ainda acrescenta outro acontecimento. Poucos meses depois do triunfo, Fidel Castro, acompanhado por integrantes de seu governo, visitou o Colegio de las Antillas. Segundo o pastor, Fidel elogiou a instituição e declarou que a Revolução estabeleceria muitas escolas como aquela em Cuba. A visita posteriormente não impediria a deterioração das relações entre o Estado revolucionário e as instituições religiosas.

O colégio seria atingido pela política governamental, professores estrangeiros enfrentariam dificuldades e a experiência adventista sob o comunismo se tornaria dura. Mas esse desenvolvimento posterior não pode ser utilizado como borracha histórica. Perseguição posterior não transforma apoio anterior em inexistência. Uma relação pode começar em simpatia, auxílio e proximidade e terminar em repressão. Aliás, a entrevista de Rolando é precisamente um documento extraordinário porque conserva os dois momentos dentro da mesma narrativa.

Esse ponto é essencial. Durante décadas tornou-se conveniente contar a história cubana começando pelo sofrimento dos adventistas sob o comunismo, como se aquilo explicasse automaticamente tudo o que havia acontecido antes. Não explica. O fato de jovens adventistas terem posteriormente sofrido nas UMAP, de atividades religiosas terem sido restringidas e de instituições terem sido tomadas pelo Estado é parte real e dolorosa da história. Mas nada disso retroage no tempo e desacontece 1956, 1958 ou 1959.

Nada disso retira comida da boca dos guerrilheiros que a receberam, desenterra as armas que foram escondidas, desfaz a mobilização de Rosabal, apaga o “apoyo franco” escrito por Che, cancela o fornecimento feito pela administração do colégio ou retira Che do palco em que foi convidado a discursar diante de um evento adventista. O comunismo rompeu posteriormente aquela convivência; isso não significa que a convivência anterior nunca existiu.

E ENTÃO MICHELSON FAZ A PERGUNTA QUE PRECISAVA FAZER

Depois de toda essa longa narrativa, a entrevista chega finalmente ao ponto central. Michelson pergunta: “A Igreja Adventista apoiou a revolução ou o governo? Se sim, conhecendo as consequências ou inocentemente?” A construção da pergunta já é interessante. Há uma alternativa que permite inclusive admitir algum apoio e imediatamente qualificá-lo como inocente, isto é, praticado sem conhecimento das consequências.

Rolando, porém, vai além e oferece a resposta mais absoluta possível: “Posso dar a resposta exata a essa pergunta com conhecimento de causa. A Igreja Adventista do Sétimo Dia nunca apoiou a revolução ou o governo comunista.” Admite apenas a possibilidade de que algum membro, pessoalmente, pudesse ter feito isso “de uma forma ou de outra”, mas insiste: “nossa organização nunca o fez”.

A resposta é perfeita para a narrativa. O problema é que o próprio Rolando já havia produzido o material que a contradiz. Algumas dezenas de parágrafos antes, ele não dissera que “algum membro” fornecera alguma coisa. Dissera: “A administração forneceu o que eles precisavam.” Não falara somente de simpatia particular numa casa distante. Falara de professores da “nossa escola” simpatizando com os guerrilheiros. Não descrevera apenas um encontro emergencial durante os combates.

Contara que, depois da vitória, Che fora convidado para abrir um concerto do coro adventista. E não atribuíra a Che a impressão de que os adventistas eram completos desconhecidos políticos. Registrara exatamente o contrário: “entre os adventistas e a revolução existe uma velha amizade”.

O PASTOR RESPONDE; O SER HUMANO SE LEMBRA

É aqui que precisamos compreender Rolando não apenas como fonte, mas como ser humano. Durante décadas ele viveu dentro da Igreja Adventista. Foi criança adventista, estudante adventista, seminarista adventista, pastor adventista, administrador adventista e evangelista adventista. Sua identidade religiosa, sua trajetória profissional, suas amizades, suas referências e grande parte de sua compreensão da própria vida foram construídas dentro dessa comunidade.

Esperar que um homem com essa biografia, entrevistado por outro pastor adventista sobre uma controvérsia envolvendo a reputação histórica da denominação, respondesse como se fosse um observador completamente desligado da instituição seria desconhecer como funcionam seres humanos e organizações. Quando Rolando responde institucionalmente, protege a história da instituição à qual dedicou a vida. Quando começa a lembrar, porém, já não controla com a mesma precisão aquilo que suas lembranças revelam.

Não há nisso nada de misterioso. Todos carregamos narrativas pelas quais organizamos nossa própria história. Um pastor não deixa de ser homem quando se aposenta; continua carregando afetos, lealdades, gratidão, experiências dolorosas e a linguagem adquirida durante décadas. No caso cubano há ainda um elemento psicológico particularmente poderoso: Rolando sofreu sob o regime que sucedeu à Revolução. Sua memória adulta está marcada pelas restrições religiosas, pela perda do colégio, pela perseguição aos crentes e pelo sofrimento de adventistas sob o comunismo.

É perfeitamente compreensível que, olhando retrospectivamente, ele queira separar sua igreja daquele regime. Mas a memória histórica possui uma inconveniência: ela preserva também aquilo que aconteceu antes de sabermos como a história terminaria. E quando Rolando retorna mentalmente a 1958 e 1959, reaparecem os “bravos jovens barbudos”, os professores simpatizantes, a administração alimentando as tropas, Che no concerto e a “velha amizade”.

MICHELSON CONSEGUIU O “NUNCA” — MAS PUBLICOU TAMBÉM O RESTO

É justamente por conhecer jornalismo que não tratamos a entrevista como uma transcrição inocente caída do céu. Michelson era o entrevistador, escolheu o entrevistado, formulou as perguntas e publicou o material dentro de uma sequência de postagens sobre a controvérsia cubana. O jornalista trabalha com pauta e enfoque. Ele sabe aquilo que procura esclarecer e conduz a entrevista até os pontos necessários à matéria.

Naquele contexto de julho de 2021, depois de anos de postagens do Adventistas.Com e poucos dias depois da publicação de “Adventistas apoiaram a revolução cubana?”, a pergunta decisiva precisava ser feita. E foi. Michelson conseguiu de Rolando uma frase categórica, editorialmente preciosa: “A Igreja Adventista do Sétimo Dia nunca apoiou a revolução ou o governo comunista.”

Mas aconteceu algo extraordinário: Michelson conseguiu o “nunca”, mas publicou também as provas humanas daquilo que o “nunca” não conseguia explicar. Publicou “a administração forneceu o que eles precisavam”. Publicou a simpatia dos professores pelos guerrilheiros. Publicou o convite para Che abrir o concerto. Publicou a “velha amizade”. Publicou a visita de Fidel. Publicou a lembrança das adventistas que ajudaram os homens do Granma. E, assim, a entrevista que deveria funcionar como testemunho privilegiado em defesa da narrativa denominacional transformou-se, quando lida cuidadosamente, numa das peças mais interessantes para questioná-la.

“NUNCA” CONTRA “APOYO FRANCO”

Agora coloquemos as palavras frente a frente. De um lado, Rolando em 2021: “nunca apoiou”. Do outro, Che Guevara escrevendo sobre adventistas: “apoyo franco”. Rolando tenta restringir qualquer participação à possibilidade de “algum membro” individual. Mas sua própria memória diz: “a administração forneceu”. A narrativa posterior procura separar Igreja e Revolução; a memória preservada pelo próprio pastor coloca Che dizendo que entre adventistas e Revolução existia uma “velha amizade”. Não precisamos acrescentar adjetivos para perceber o conflito. Basta colocar as frases lado a lado.

E quando acrescentamos Argelio Rosabal, a contradição cresce. Rosabal não aparece em seu depoimento simplesmente oferecendo um prato de comida a um desconhecido. Ele era diretor da igreja e diretor da Escola Sabatina, havia participado da fundação daquela congregação e mobilizou outros adventistas quando soube da situação dos guerrilheiros. Sua frase — “hay que salvar a esa gente” — desencadeia uma operação de auxílio que envolve roupas, alimentação, esconderijos, deslocamentos e armas. Quando acrescentamos Walton Brown e o Colegio de las Antillas, a história se amplia novamente. Quando acrescentamos a documentação posterior sobre os canais abertos entre adventistas e dirigentes revolucionários, deixa de ser possível reduzir tudo a um punhado de atos individuais desconectados.

A GUERRA DE POSTAGENS ACABOU PRODUZINDO MAIS DOCUMENTOS

Há uma ironia histórica nisso tudo. Quando começamos a publicar sobre Argelio Rosabal e Che Guevara em 2018, estávamos tentando recuperar uma história quase desconhecida do adventista brasileiro comum. Perguntamos provocativamente se os pastores sabiam quem havia sido Rosabal e avisamos que voltaríamos ao assunto. Voltamos. A controvérsia cresceu. Em 2021, quando Cuba voltou às manchetes, a discussão reapareceu. Vieram textos, respostas, explicações e a tentativa de estabelecer uma interpretação alternativa àquela que o Adventistas.Com vinha defendendo. Mas cada nova resposta nos entregava novas peças.

A entrevista de Rolando é talvez o melhor exemplo. Se o objetivo era encerrar a discussão com a autoridade de um pastor cubano dizendo que a Igreja “nunca apoiou”, aconteceu exatamente o contrário. O testemunho ampliou nosso arquivo. Agora tínhamos um pastor cubano dizendo publicamente que a administração do Colegio de las Antillas forneceu às tropas de Che aquilo de que necessitavam. Tínhamos sua lembrança de professores adventistas simpatizando com os guerrilheiros. Tínhamos Che convidado para discursar na abertura de um concerto adventista. Tínhamos a expressão “velha amizade”. E tínhamos tudo isso publicado não pelo Adventistas.Com, mas pelo próprio blog que participava daquela disputa interpretativa.

QUANDO A VERDADE ENTRA PELAS BRECHAS

É assim que documentos devem ser lidos. Não basta perguntar qual conclusão o autor deseja que aceitemos. Precisamos observar quais fatos ele preservou antes de chegar à conclusão. Uma fonte pode tentar convencer o leitor de determinada interpretação e, simultaneamente, fornecer elementos que permitem chegar a outra. A entrevista de Rolando é preciosa justamente porque contém essa tensão em estado quase puro.

O pastor diz “nunca”; o homem se lembra da administração fornecendo. O pastor separa a Organização; o homem se lembra dos professores simpatizantes. O pastor nega o apoio; o homem se lembra de Che falando em “velha amizade”. A narrativa institucional tenta organizar o passado; a memória humana continua trazendo de volta cenas que não se deixam organizar tão facilmente.

E talvez essa seja a grande lição documental dessa guerra de postagens. Não precisávamos que Michelson concordasse conosco. Precisávamos que continuasse publicando documentos, testemunhos e respostas. Quanto mais a história era explicada, mais detalhes apareciam. Quanto mais se tentava restringir o episódio a atos individuais, mais surgiam referências à administração, aos professores, ao colégio, ao coro, aos dirigentes revolucionários e à continuidade das relações. A tentativa de responder ao Adventistas.Com acabou preservando parte da documentação que fortalece justamente as perguntas que fazíamos desde 2018.

QUEREMOS BARRABÁS!

Há ainda uma dimensão simbólica nessa entrevista que se conecta diretamente com aquilo que hoje sabemos sobre o apoio adventista aos homens de Fidel e Che. O jornalista procura a frase que encerre a controvérsia: “nunca apoiou”. O entrevistado a fornece.

Por alguns instantes, parece que a narrativa está resolvida. Mas Barrabás já havia atravessado as páginas anteriores. Estava nos “bravos jovens barbudos”, estava nas tropas alimentadas, estava na simpatia dos professores, estava na “velha amizade”, estava no comandante armado convidado para abrir o concerto. Era impossível retirar tudo isso da entrevista sem retirar junto a própria memória do entrevistado.

Por isso, quando hoje retornamos àquela matéria, não lemos apenas aquilo que Michelson perguntou nem apenas aquilo que Rolando concluiu. Lemos também aquilo que Rolando revelou enquanto tentava explicar. E a diferença é enorme. Uma conclusão pode ser aprendida, repetida e defendida. Uma lembrança concreta tem cheiro, lugar, personagens e ação: Che chegou; pediu comida; a administração forneceu. Professores simpatizavam. Houve um concerto. Che foi convidado. Che falou. Fidel visitou. É nesse nível que a história deixa de ser slogan institucional e volta a ser acontecimento.

A VERDADE PREVALECE PORQUE OS DOCUMENTOS SE ENCONTRAM

E hoje sabemos ainda mais do que sabíamos naquela guerra de postagens. A entrevista de Michelson já não está sozinha. Ela pode ser colocada diante das memórias publicadas pelo próprio Che, do depoimento muito mais extenso de Argelio Rosabal, dos registros adventistas sobre o Colegio de las Antillas e da documentação acadêmica que mostra a continuidade dos contatos entre adventistas e dirigentes revolucionários.

Cada documento ilumina o outro. O “apoyo franco” de Che ajuda a compreender a “velha amizade” lembrada por Rolando. A atuação de Rosabal dá conteúdo concreto àquilo que poderia parecer apenas uma expressão amistosa. A declaração de que “a administração forneceu o que eles precisavam” impede que toda a história seja confinada à iniciativa de indivíduos isolados.

É por isso que voltamos a 2021. Não para reanimar uma discussão pessoal com Michelson Borges, mas porque aquela guerra de postagens produziu documentação histórica. E a entrevista que deveria ajudar a responder ao Adventistas.Com acabou nos oferecendo uma testemunha adicional.

Michelson conseguiu de Rolando a frase que precisava: “nunca apoiou”. Mas Rolando, porque era pastor e também era homem, carregava uma memória maior do que a frase. E foi por essa diferença entre a resposta institucional e a memória humana que a verdade encontrou passagem.

Desde 2018 estamos puxando esse fio. Quanto mais puxamos, mais aparece. Primeiro Rosabal. Depois Che. Depois o colégio. Depois os professores. Depois as armas, os alimentos, os esconderijos e os contatos. Depois a documentação sobre a continuidade das relações. E agora podemos voltar à própria entrevista publicada para nos responder e perguntar ao leitor, sem necessidade de esconder qualquer das duas versões: Em qual Rolando devemos acreditar — no que diz abstratamente que “nunca” houve apoio ou no Rolando que, quando começa a contar o que aconteceu, afirma que “a administração forneceu o que eles precisavam” e recorda Che falando numa “velha amizade” entre adventistas e Revolução?

Para nós, a resposta está nos fatos narrados pelo próprio entrevistado.

A pauta procurou a negativa. O pastor entregou o “nunca”. Mas o homem se lembrou do que aconteceu.

E a verdade entrou pelas brechas.






Dois dias depois, Michelson Borges pediu mais um pedacinho de entrevista

A entrevista de 25 de julho de 2021 não foi o fim da história. Apenas dois dias depois, Michelson Borges voltou a procurar Rolando de los Ríos, o pastor cubano que havia escolhido como testemunha para responder à controvérsia sobre a participação adventista na Revolução Cubana.

Desta vez, o procedimento ficou registrado pelo próprio jornalista: apareceu um novo texto sobre adventistas e Revolução, Michelson o levou a Rolando e pediu-lhe uma resposta. A segunda postagem permite compreender com muito mais clareza a função que aquele pastor passou a exercer na guerra de versões daquele julho de 2021.

Rolando não era simplesmente um cubano contando espontaneamente suas memórias. Tornara-se a testemunha recorrente acionada por Michelson para contestar aquilo que vinha sendo publicado sobre o envolvimento de adventistas com Fidel Castro, Che Guevara e seus guerrilheiros.

A ENTREVISTA NÃO TERMINOU EM 25 DE JULHO

Quando analisamos anteriormente a longa entrevista publicada por Michelson Borges em 25 de julho de 2021, mostramos a extraordinária tensão existente entre a conclusão oferecida por Rolando de los Ríos e os acontecimentos que ele próprio havia narrado. O pastor declarou categoricamente que “a Igreja Adventista do Sétimo Dia nunca apoiou a revolução ou o governo comunista”.

Entretanto, antes de pronunciar esse “nunca”, sua memória já havia registrado que Che Guevara chegou com seus soldados ao Colegio de las Antillas, pediu comida e “a administração forneceu o que eles precisavam”; Rolando também reconheceu que professores daquela instituição simpatizavam com os “jovens barbudos”, contou que Che posteriormente foi convidado para fazer o discurso de abertura de um concerto do coro adventista e atribuiu ao próprio comandante a afirmação de que “entre os adventistas e a revolução existe uma velha amizade”.

A entrevista, portanto, já possuía duas camadas: a conclusão denominacional do pastor e a memória concreta do homem. A primeira dizia “nunca”; a segunda descrevia acontecimentos que tornavam esse “nunca” cada vez mais difícil de sustentar.

Poderíamos imaginar que a participação de Rolando naquela controvérsia terminara ali. Michelson entrevistara um pastor cubano, publicara suas lembranças, obtivera dele uma negativa categórica e entregara o resultado aos leitores. Mas não foi isso que aconteceu. Dois dias depois, Michelson voltou à mesma testemunha. E dessa vez o próprio texto publicado deixa absolutamente clara a dinâmica do novo contato. Michelson informa que encontrou uma nova publicação dos críticos da Igreja, voltou a procurar Rolando, apresentou-lhe aquele material e obteve dele uma resposta específica. Essa segunda postagem transforma nossa compreensão da primeira, porque revela que Rolando havia se tornado uma espécie de testemunha de resposta naquela guerra de postagens.

“VOLTEI A CONTATAR O PASTOR”

Em 27 de julho, Michelson publicou um novo texto com um título muito mais combativo que o da entrevista anterior: “Pastor adventista cubano refuta acusações contra a Igreja Adventista”. O subtítulo também abandonava qualquer aparência de simples investigação histórica e já entregava a conclusão ao leitor: “Críticos se esforçam para emplacar a narrativa falsa de que a IASD teria apoiado a visão marxista/comunista dos revolucionários em Cuba.” Não se tratava, portanto, de uma segunda entrevista ampla sobre a história cubana. O objetivo agora estava explicitado desde o título: refutar os críticos e defender a imagem da IASD.

Michelson Borges tornou-se, na prática, uma espécie de Revista Adventista não oficial para o público adventista mais crítico e habituado a procurar respostas na internet. A comunicação oficial fala a partir da instituição; Michelson pode falar com aparência de independência, entrar em controvérsias que uma revista denominacional talvez preferisse evitar, responder rapidamente aos críticos e utilizar uma linguagem muito mais adequada às disputas da internet. Está suficientemente próximo da Organização para conhecer sua teologia, seus argumentos e seus mecanismos de defesa, mas suficientemente fora dos veículos oficiais para que suas respostas pareçam pessoais, espontâneas e independentes.

É precisamente essa posição intermediária que torna seu trabalho editorialmente importante para compreendermos a guerra de narrativas em torno de Cuba: quando o Adventistas.Com levantava documentos incômodos, não era necessário que a Revista Adventista entrasse diretamente no confronto; Michelson podia ocupar esse espaço e falar para o adventista que pesquisava na internet justamente aquilo que dificilmente encontraria desenvolvido nos canais oficiais.

Michelson começa reproduzindo um texto que circulava nas redes sociais sobre a relação entre adventistas e Revolução Cubana. O material afirmava que havia duas narrativas importantes, uma no início da luta, na Sierra Maestra, e outra no final, em Santa Clara, nas quais adventistas haviam oferecido hospedagem, alimentação e primeiros socorros aos combatentes, desenvolvendo-se uma aproximação entre eles e Che Guevara.

Michelson imediatamente enquadra essa interpretação como tentativa de construir uma “narrativa falsa” e de “deturpar a imagem da IASD”. Em seguida, recorda aos leitores que já havia publicado a longa entrevista com Rolando apenas dois dias antes e apresenta o pastor como alguém que poderia contradizer aquela interpretação por haver vivido em Cuba durante parte do período revolucionário.

É então que aparece a frase que muda a natureza documental dessa sequência: “Voltei a contatar o pastor e mostrei-lhe esse novo texto dos críticos da igreja.” É Michelson quem nos conta como procedeu. Apareceu um texto que ele desejava contestar; ele retornou à mesma testemunha; mostrou-lhe exatamente aquilo que estava sendo dito pelos críticos; e solicitou uma reação. Rolando não estava, portanto, simplesmente sentado recordando livremente o passado cubano. Naquele segundo momento, recebeu do entrevistador o texto que deveria comentar e sabia precisamente qual controvérsia estava sendo travada.

AGORA SABEMOS PARA QUE ROLANDO ESTAVA SENDO CHAMADO

Esse segundo contato ajuda a iluminar retrospectivamente toda a sequência. Em 25 de julho, Michelson havia apresentado Rolando como personagem de uma grande entrevista sobre “A realidade da IASD em Cuba”. Em 27 de julho, quando surge material que considera prejudicial à interpretação que defendia, não procura outro historiador, outro pastor cubano, um ex-guerrilheiro, um administrador do antigo Colegio de las Antillas ou alguém que pudesse oferecer uma perspectiva diferente. Volta a Rolando.

A testemunha que dois dias antes havia fornecido a frase categórica de que a Organização “nunca apoiou” a Revolução é novamente acionada para responder ao novo material. O segundo contato mostra, portanto, que Rolando já não funcionava editorialmente apenas como fonte de memória; funcionava como testemunha capaz de oferecer a resposta denominacional necessária àquela controvérsia.

E existe uma ironia importante nessa escolha. Quando Michelson publicou “A realidade da IASD em Cuba”, Rolando de los Ríos já não vivia em Cuba havia aproximadamente quatro décadas. Nascido na ilha em 1947, vivera os anos iniciais da Revolução, estudara no Colegio de las Antillas, iniciara ali seu ministério e permanecera no país até 1980. Depois disso, transferira-se para os Estados Unidos, onde estudou na Andrews University e continuou trabalhando durante décadas como pastor, administrador e evangelista adventista, até se aposentar.

Sua importância como testemunha dos acontecimentos que efetivamente presenciara era indiscutível; mas apresentá-lo em 2021 como porta de entrada para “a realidade da IASD em Cuba” também exigia lembrar que aquela realidade contemporânea já não era sua experiência cotidiana havia quarenta anos. Rolando era sobretudo uma testemunha de memória — e justamente por isso suas lembranças concretas são tão preciosas.

A SEGUNDA RESPOSTA É AINDA MAIS REVELADORA

Depois de receber de Michelson o novo texto, Rolando oferece uma resposta curta. E nela ocorre novamente o fenômeno que já havíamos observado na entrevista anterior: ao tentar negar uma interpretação, ele confirma parte essencial dos acontecimentos sobre os quais aquela interpretação havia sido construída.

O pastor contesta a utilização da expressão “revolução socialista” para descrever aquilo que os adventistas teriam apoiado nos primeiros momentos. Argumenta que, naquele período, a Revolução ainda não se apresentava ao povo como socialista ou comunista e afirma que a população cubana fora enganada quanto ao destino que o movimento posteriormente tomaria.

Até aí temos a defesa. Mas então Rolando explica o que realmente ocorria entre os cubanos — e inclui expressamente os adventistas. Segundo ele, “a grande maioria do povo cubano (e entre eles os adventistas) simpatizava com os jovens rebeldes” que combatiam a ditadura de Fulgencio Batista.

A frase é extraordinária. Michelson havia retornado à testemunha para rebater um texto que falava em simpatia e auxílio adventistas aos revolucionários, e a resposta obtida começa reconhecendo exatamente a simpatia dos adventistas pelos rebeldes. A discordância de Rolando não está propriamente em saber se havia simpatia. Ele a admite. Sua tentativa é deslocar a discussão para aquilo que os adventistas sabiam naquele momento sobre a futura orientação marxista do regime.

Isso é muito diferente de dizer que a relação não existiu. Rolando argumenta que os adventistas simpatizavam com os rebeldes porque acreditavam que eles lutavam contra Batista para estabelecer democracia e propriedade privada, e não porque estivessem conscientemente escolhendo o marxismo-leninismo.

Essa é uma interpretação possível das motivações daqueles adventistas. Mas motivação e acontecimento são duas perguntas diferentes. Podemos discutir por que simpatizaram. Podemos discutir o que sabiam. Podemos discutir o que Fidel havia revelado ou ocultado. Podemos discutir se compreendiam ou não o destino político da Revolução. O que já não podemos fazer, depois da própria resposta de Rolando, é afirmar que não havia simpatia adventista pelos rebeldes.

A DEFESA MUDA DE LUGAR

Observe-se como a linha defensiva se desloca. Na entrevista de 25 de julho, a fórmula categórica era: “nunca apoiou”. Dois dias depois, diante de um texto mais específico sobre a relação de adventistas com os revolucionários, Rolando responde reconhecendo que adventistas efetivamente simpatizavam com os jovens rebeldes, mas argumenta que não sabiam que a Revolução acabaria se declarando socialista ou comunista. Já não estamos discutindo, portanto, a inexistência de aproximação. Estamos discutindo a consciência ideológica daqueles que se aproximaram.

Essa diferença é enorme. Porque nossa investigação documental não depende de provar que cada adventista que alimentou um guerrilheiro havia lido Marx, aderido ao materialismo histórico ou ingressado clandestinamente no Partido Comunista. Essa nunca foi a questão necessária para estabelecer os acontecimentos.

A pergunta documental é muito mais simples: Adventistas simpatizaram com os rebeldes? Ajudaram os rebeldes? Alimentaram os rebeldes? Esconderam guerrilheiros? Preservaram armas? Uma administração adventista forneceu recursos às tropas? Houve proximidade depois da vitória? E, quando fazemos essas perguntas, o próprio Rolando fornece elementos afirmativos.

Michelson queria rebater a interpretação de que adventistas haviam se solidarizado com os revolucionários. Rolando respondeu: a maioria dos cubanos, “e entre eles os adventistas”, simpatizava com aqueles rebeldes. Michelson queria afastar a ideia de uma aproximação comprometedora entre IASD e Revolução. Dois dias antes, o próprio Rolando havia dito que “a administração forneceu o que eles precisavam” às tropas de Che e atribuíra ao comandante a expressão “velha amizade” entre adventistas e Revolução. Quanto mais a testemunha era chamada para fechar a questão, mais detalhes permaneciam registrados.

O ARGUMENTO DO “POVO ENGANADO”

É nesse segundo texto que aparece com clareza a explicação que permitirá conciliar duas memórias aparentemente incompatíveis: Rolando admite que adventistas simpatizavam com os rebeldes, mas sustenta que eles foram enganados sobre aquilo em que a Revolução se transformaria. Essa interpretação é psicologicamente compreensível para alguém que viveu os primeiros anos do movimento e depois sofreu sob o Estado comunista. Ela permite dizer simultaneamente: “sim, simpatizávamos com aqueles jovens” e “não apoiávamos o comunismo”. Mas, para nossa investigação, isso resolve uma questão e abre outra. Se os adventistas simpatizaram com os guerrilheiros acreditando numa determinada promessa política, então houve simpatia e apoio aos guerrilheiros independentemente de sua posterior decepção com o regime.

A decepção posterior não pode alterar retroativamente o acontecimento anterior. Alguém pode apoiar um movimento político e posteriormente arrepender-se. Pode acreditar numa promessa e depois considerar-se enganado. Pode ajudar homens que imagina libertadores e depois concluir que contribuíram para instalar outra ditadura. Tudo isso acontece na história humana. O que não é possível é transformar o arrependimento posterior em prova de que a ação anterior jamais aconteceu. Se Rolando sustenta que o povo foi enganado, sua própria explicação pressupõe que existiu uma expectativa positiva suficientemente forte para que houvesse simpatia pelos homens que prometiam derrubar Batista.

E aqui aparece novamente a diferença entre o pastor que organiza retrospectivamente a história e o homem que se recorda dela. O pastor aposentado, depois de décadas nos Estados Unidos e conhecendo todo o desenvolvimento posterior do castrismo, sabe que precisa separar a IASD do comunismo. O jovem cubano que existia dentro de sua memória, porém, ainda se lembra de outro ambiente: lembra-se dos “bravos jovens barbudos”, lembra-se dos professores simpatizantes, lembra-se da administração fornecendo aquilo de que as tropas precisavam, lembra-se de Che sendo recebido num evento adventista. A experiência posterior condena o regime; a memória anterior preserva a simpatia que precedeu essa condenação.

DE “NUNCA APOIOU” PARA “OS ADVENTISTAS SIMPATIZAVAM” EM 48 HORAS

Colocadas cronologicamente, as duas publicações são impressionantes. Em 25 de julho, Rolando declara que a Igreja Adventista “nunca apoiou” a Revolução. Na mesma entrevista, porém, conta que a administração do colégio forneceu recursos às tropas e que professores simpatizavam com os guerrilheiros. Em 27 de julho, Michelson retorna a ele especificamente para rebater novo material dos críticos. E Rolando então reconhece expressamente que os adventistas estavam entre os cubanos que simpatizavam com os jovens rebeldes. Sua defesa passa a ser que não sabiam que a Revolução seria comunista.

Em apenas quarenta e oito horas, portanto, o leitor atento pode acompanhar a narrativa deslocando-se. Primeiro: nunca apoiamos. Depois: sim, os adventistas simpatizavam com os rebeldes, mas não sabiam que aquilo terminaria no comunismo. E, paralelamente, permaneciam no primeiro depoimento os fatos concretos: a administração forneceu, professores simpatizaram, Che foi recebido, falou-se em velha amizade. Quanto mais a controvérsia obrigava a resposta a tornar-se específica, mais difícil ficava sustentar a simplicidade do “nunca”.

A TESTEMUNHA FOI CHAMADA NOVAMENTE PORQUE HAVIA UMA GUERRA DE NARRATIVAS

Essa sequência precisa ser recolocada no ambiente editorial de julho de 2021. O Adventistas.Com não começara a falar sobre Rosabal e Che naquela semana. Desde 2018 vínhamos recuperando essa história e questionando a maneira como ela havia sido contada aos adventistas brasileiros. Em 16 de julho de 2021, voltamos ao assunto no contexto da crise cubana. Em 23 de julho, publicamos documentação sobre a relação construída entre adventistas e governo revolucionário e sobre o tratamento diferenciado posteriormente obtido em determinados episódios.

Paralelamente, circulavam os textos da série sobre adventismo e Revolução Cubana. Michelson publicou em 21 de julho o artigo de Isaac Malheiros perguntando se adventistas haviam apoiado a Revolução. Em 25 de julho veio Rolando. Em 27 de julho, diante de novo material, Michelson voltou a Rolando. A sequência cronológica não é acessória. Ela mostra uma discussão pública em movimento.

E o próprio vocabulário da postagem de 27 de julho revela o clima. Michelson já não apresenta simplesmente versões históricas concorrentes. Fala em “narrativa falsa”, caracteriza a interpretação adversária como tentativa “desonesta” de deturpar a imagem da IASD e apresenta Rolando como aquele que contradiz os críticos. Depois declara explicitamente que voltou a contatá-lo e lhe mostrou o novo texto. Rolando havia se transformado na testemunha que Michelson acionava para responder. Isso não diminui automaticamente o valor do testemunho; ao contrário, permite que o leiamos corretamente, compreendendo o contexto em que as respostas foram solicitadas e publicadas.

O PARADOXO DA “TESTEMUNHA OCULAR”

Há ainda um detalhe que merece atenção. Michelson apresenta Rolando como testemunha ocular dos fatos relacionados à Revolução. Para aquilo que Rolando efetivamente viveu, seu testemunho é valioso e deve ser preservado. Mas é preciso respeitar também a cronologia de sua própria biografia. Rolando nasceu em 1947, tinha onze anos quando a Revolução triunfou, estudou posteriormente no seminário adventista, iniciou o ministério em Cuba em 1967 e deixou definitivamente a ilha em 1980. Quando Michelson o entrevistou, em 2021, Rolando estava fora de Cuba havia cerca de quarenta anos. Sua vida posterior havia sido construída nos Estados Unidos, onde estudou na Andrews University e trabalhou por décadas para a denominação como pastor, administrador e evangelista, até a aposentadoria.

Isso torna particularmente curiosa a escolha do título “A realidade da IASD em Cuba”. Rolando possuía memória legítima de uma parte importantíssima dessa realidade histórica, especialmente dos anos em que viveu na ilha. Mas a “realidade da IASD em Cuba” de 2021 já vinha sendo vivida durante quatro décadas por adventistas que permaneceram no país depois que ele partiu. Michelson, contudo, não voltou a Cuba para buscar a segunda resposta. Voltou ao pastor que vivia nos Estados Unidos havia quarenta anos e que, dois dias antes, lhe entregara a negativa que precisava.

QUANTO MAIS ELE DEFENDE, MAIS ELE CONFIRMA

E chegamos ao aspecto mais fascinante dos dois textos. Rolando não é uma máquina programada para repetir uma nota oficial. É um ser humano. Carrega lealdades institucionais, uma carreira inteira dedicada à Igreja, experiências dolorosas com o regime cubano e, ao mesmo tempo, lembranças que pertencem a um período anterior à interpretação que posteriormente construiu sobre aqueles acontecimentos. É por isso que quanto mais é chamado para defender a narrativa denominacional, mais o homem aparece por baixo do pastor. Ele quer dizer que a Igreja jamais apoiou o comunismo; mas se lembra de que adventistas simpatizavam com os rebeldes. Quer separar a Organização da Revolução; mas se lembra de que “a administração forneceu o que eles precisavam”. Quer demonstrar distância; mas se lembra de Che falando numa “velha amizade”.

Essa tensão não enfraquece Rolando como fonte. Ao contrário: torna-o extraordinariamente valioso. Se ele fosse simplesmente um adversário da IASD, alguém poderia descartar suas lembranças como hostilidade. Mas estamos diante de um homem que dedicou a vida à denominação e que, mesmo quando chamado repetidamente para defendê-la, preservou acontecimentos que dificultam a defesa absoluta. É precisamente porque Rolando deseja proteger sua Igreja que suas admissões ganham peso. Elas não aparecem num discurso construído para atacar a Organização. Aparecem dentro de um discurso construído para defendê-la.

MICHELSON MOSTROU O TEXTO. ROLANDO RESPONDEU. E A BRECHA AUMENTOU.

Esse é o aspecto documental que não pode mais ser ignorado. Em 27 de julho, Michelson não apenas voltou à mesma testemunha; mostrou-lhe o texto específico que pretendia contestar. Rolando sabia, portanto, exatamente qual interpretação estava sendo questionada. Poderia simplesmente ter respondido que adventistas nunca simpatizaram com aqueles homens, nunca apoiaram sua luta e jamais tiveram qualquer proximidade com eles. Não respondeu assim. Disse que a maioria dos cubanos — “e entre eles os adventistas” — simpatizava com os rebeldes. Sua objeção foi outra: acreditavam estar apoiando homens que derrubariam Batista e restaurariam a democracia; não sabiam que o processo terminaria numa ditadura comunista.

Essa resposta pode ser utilizada para discutir as motivações dos adventistas. Pode ser utilizada para argumentar que muitos não eram marxistas. Pode até ser utilizada para sustentar que foram politicamente enganados. O que ela não pode fazer é provar que a simpatia não existiu. Porque é o próprio Rolando quem acaba de confirmá-la. E, quando juntamos essa admissão aos atos concretos documentados em outras fontes, a questão deixa de ser apenas sentimental. Simpatizaram; alguns ajudaram; grupos organizados prestaram auxílio; uma administração forneceu recursos; guerrilheiros e armas foram escondidos; Che registrou “apoyo franco”; depois falou-se em “velha amizade”.

A RESPOSTA AOS CRÍTICOS ACABOU ENRIQUECENDO O ARQUIVO DOS CRÍTICOS

Existe uma ironia difícil de ignorar. Michelson publicou a segunda postagem para afirmar que os críticos estavam construindo uma narrativa falsa. Entretanto, ao voltar a Rolando e pedir-lhe outra resposta, conseguiu uma declaração que passou a integrar justamente o conjunto documental que precisa ser explicado: “a grande maioria do povo cubano (e entre eles os adventistas) simpatizava com os jovens rebeldes”. O texto destinado a refutar a existência dessa aproximação acabou registrando explicitamente a simpatia adventista pelos homens que faziam a Revolução.

Foi assim que aquela guerra de postagens funcionou. Nós levantávamos documentos e perguntas. Vinham respostas. Examinávamos as respostas e encontrávamos novos elementos. Surgiam novas publicações. Michelson retornava à sua testemunha. A testemunha procurava defender a Organização, mas acrescentava outra peça ao quebra-cabeça. Quanto mais tentavam fechar a história, mais documentação a controvérsia produzia.

A VERDADE NÃO PRECISAVA QUE ROLANDO ROMPESSE COM A IGREJA

Talvez este seja o ponto humano mais profundo dessa história. Para que Rolando se tornasse uma fonte importante, ele não precisava romper com a IASD, renegar sua carreira, condenar seus antigos colegas ou adotar a interpretação do Adventistas.Com. Não precisava fazer nada disso. Bastava lembrar. Bastava contar que a administração forneceu aquilo de que as tropas precisavam. Bastava reconhecer a simpatia dos professores. Bastava recordar a “velha amizade”. Bastava admitir, quando novamente provocado, que os adventistas estavam entre aqueles que simpatizavam com os jovens rebeldes.

O pastor podia continuar dizendo “nunca apoiou”. O homem continuava fornecendo acontecimentos.

E acontecimentos possuem uma resistência peculiar. Podemos interpretá-los, reorganizá-los, justificá-los, arrepender-nos deles ou explicar por que agimos daquela maneira. O que não podemos fazer é obrigá-los a deixar de ter acontecido. Se adventistas simpatizaram com os rebeldes porque acreditavam que receberiam democracia, isso explica uma motivação; não apaga a simpatia. Se alimentaram guerrilheiros porque acreditavam estar combatendo uma ditadura, isso oferece uma justificativa; não retira a comida que entregaram. Se esconderam homens e armas porque acreditavam numa causa justa, podemos discutir sua consciência; não podemos desenterrar retrospectivamente aquelas armas e declarar que jamais estiveram ali.

DOIS DIAS DEPOIS, A VERDADE ESCAPOU OUTRA VEZ

É por isso que a postagem de 27 de julho precisa ser lida junto com a entrevista de 25. Separadas, parecem duas intervenções de um pastor cubano. Juntas, revelam uma dinâmica muito mais rica. Michelson precisava responder à controvérsia e encontrou em Rolando sua testemunha. Obteve o “nunca”. Dois dias depois apareceu novo material. Michelson voltou ao mesmo homem, mostrou-lhe aquilo que os críticos estavam dizendo e pediu nova resposta. Rolando novamente defendeu a Organização — e novamente deixou registrada uma informação que a defesa precisava explicar.

Em 25 de julho: “A Igreja Adventista do Sétimo Dia nunca apoiou a revolução”. Mas também: “a administração forneceu o que eles precisavam”.

Em 27 de julho: a Organização nunca apoiou o governo comunista. Mas também: os adventistas estavam entre aqueles que simpatizavam com os jovens rebeldes.

Não precisamos escolher uma frase e esconder a outra. Publicamos as duas. É justamente quando colocamos lado a lado aquilo que Rolando conclui e aquilo que Rolando conta que a entrevista adquire todo o seu valor.

MICHELSON VOLTOU À TESTEMUNHA. NÓS VOLTAMOS AOS DOCUMENTOS.

Vinte e quatro anos depois? Não. Quarenta e oito horas. Foi esse o intervalo entre a grande entrevista e o novo acionamento da mesma testemunha. Isso mostra a intensidade daquela disputa editorial e explica por que precisamos recuperar hoje não apenas frases isoladas, mas a sequência completa das publicações. Havia uma guerra de narrativas em andamento. O Adventistas.Com e outros pesquisadores colocavam sobre a mesa episódios esquecidos da relação entre adventistas e Revolução Cubana. Michelson procurava responder. Rolando foi transformado em testemunha privilegiada dessa resposta. E cada vez que a memória daquele homem era acionada, alguma coisa escapava da moldura.

O mais extraordinário é que a verdade não precisou derrotar Rolando. Precisou apenas atravessá-lo. Ele permaneceu pastor adventista, permaneceu crítico do comunismo, permaneceu convencido de que sua Igreja não apoiara o regime e permaneceu interpretando os acontecimentos a partir da experiência dolorosa que teve posteriormente. Nada disso impediu que sua memória preservasse aquilo que ocorreu antes: adventistas simpatizavam com os rebeldes; a administração do colégio forneceu recursos às tropas; professores admiravam aqueles homens; Che foi recebido; existia a lembrança de uma “velha amizade”.

Michelson voltou à mesma testemunha porque precisava encomendar outra resposta para a controvérsia que continuava avançando. E Rolando respondeu — mas novamente não conseguiu responder apenas como pastor.

O pastor conhecia a narrativa que precisava defender, carregava décadas de vínculo com a denominação e protegeu a Organização; o homem, porém, carregava uma memória que não podia ser inteiramente disciplinada pela narrativa institucional. Por isso, enquanto o pastor insistia que a Igreja nunca apoiara a Revolução, o homem recordava adventistas simpatizando com os rebeldes, professores admirando os barbudos, a administração fornecendo às tropas aquilo de que necessitavam e Che falando numa “velha amizade” entre adventistas e Revolução.

Michelson procurou Rolando pela segunda vez porque precisava de uma nova negativa; recebeu a negativa, mas recebeu junto mais memória. O pastor protegeu a Organização; o homem preservou os fatos. E, pela segunda vez em apenas dois dias, quanto mais tentavam fechar a narrativa, mais a verdade encontrava uma brecha por onde escapar.

Deixe um comentário