EM OFF: O acerto que não podia ser impresso em Cuba

Comida, sangue e assistência para os homens de Che — mas nenhuma propaganda na gráfica adventista. Quem estabeleceu essa estranha fronteira em Santa Clara?

De Hitler e Mussolini ao Exército dos Estados Unidos, da União Soviética a Waco, de Ruanda a Angola, a história mostra uma Organização acostumada a negociar com os reinos deste mundo. Em Santa Clara, a gráfica adventista revelou que havia uma fronteira: Walton J. Brown sabia exatamente onde deveria dizer não. A pergunta que permanece é quem lhe ensinou até onde podia dizer sim.

No sábado, 27 de dezembro de 1958, enquanto Santa Clara entrava em sua batalha decisiva e estudantes adventistas oravam por proteção, o Colegio de las Antillas começou a ocupar uma posição que a narrativa denominacional posterior procuraria enquadrar principalmente como assistência humanitária. Os acontecimentos, porém, foram muito além do socorro ocasional a dois homens cansados. À medida que a ofensiva revolucionária avançou, o colégio forneceu alimentação, recebeu médicos e enfermeiros, disponibilizou lençóis, travesseiros, bandagens e materiais médicos, participou de doação de sangue e primeiros socorros, recebeu veículos revolucionários em sua propriedade e alimentou centenas de pessoas ligadas às forças rebeldes.

Walton J. Brown encontrou Che Guevara diante de um mapa na Universidade Central de Las Villas e discutiu com ele as necessidades das pessoas que chegariam nos dias seguintes. A historiografia adventista registraria depois que as instalações escolares foram praticamente tomadas pelas forças revolucionárias nas semanas finais da luta e serviram de base para o avanço final contra Batista.

No meio dessa colaboração, entretanto, surgiu um limite definido: quando os revolucionários pediram que a gráfica adventista imprimisse propaganda, a administração recusou porque aquilo representaria envolvimento político formal. A recusa demonstra que havia discernimento, capacidade de escolha e uma fronteira institucional. O ponto central desta investigação nasce exatamente daí: se os administradores sabiam onde parar, quem havia estabelecido até onde podiam avançar?

O PROBLEMA NÃO COMEÇA COM WALTON BROWN

Santa Clara não pode ser examinada como se Walton Brown dirigisse uma escola independente, isolada de qualquer estrutura superior e surpreendida por acontecimentos sem precedentes. O Colegio de las Antillas integrava uma cadeia administrativa internacional. Acima de sua direção existiam administrações locais e regionais, a Divisão Interamericana e, no topo, a Associação Geral. Essa Organização possuía décadas de experiência em relacionamento com governos, militares, autoridades diplomáticas, regimes autoritários e estruturas civis.

Sua história anterior a 1958 já mostrava administradores negociando reconhecimento, proteção, serviço militar, funcionamento institucional, liberdade religiosa e modalidades de cooperação com poderes públicos. Por isso, a pergunta sobre Brown não pode ser limitada ao temperamento de um diretor individual. Precisamos saber dentro de que cultura administrativa ele agiu, quais princípios operacionais conhecia, que orientações haviam circulado e quais limites a estrutura adventista estabelecia para instituições colocadas diante de guerras, revoluções e mudanças de regime.

Durante muito tempo, o membro comum recebeu uma imagem simplificada dessa relação. A Igreja seria apartidária, manteria distância dos conflitos políticos, não se comprometeria com governos e conservaria sua missão acima das disputas dos reinos deste mundo. A prática administrativa foi muito mais complexa.

A Organização procurou governos quando precisou deles, negociou com regimes que a pressionavam, estabeleceu relações com militares, assinou programas com Estados, buscou proteção legal, entrou em palácios, recorreu à polícia e valorizou dirigentes capazes de circular entre autoridades. O membro recebia a regra; a Organização conservava a margem de negociação.

1903: A ASSOCIAÇÃO GERAL VAI PARA WASHINGTON

A transferência da sede mundial de Battle Creek para a região de Washington é um dos primeiros grandes sinais dessa mudança de escala administrativa. Os incêndios que atingiram instituições adventistas, a reorganização denominacional e a expansão mundial criaram a necessidade de uma nova sede, mas a escolha de Washington incorporou também as vantagens oferecidas pela proximidade da capital federal.

Ellen G. White recomendou que as vantagens de Washington fossem examinadas, e a denominação efetivamente mudou-se para a região. Durante a fase inicial, a Associação Geral funcionou em 222 North Capitol Street, a poucos quarteirões do Capitólio dos Estados Unidos, antes de consolidar sua presença em Takoma Park.

A mudança representava mais do que a substituição de um endereço. Uma administração que passava a dirigir uma Igreja internacional instalava-se junto ao centro político de um país que, nas décadas seguintes, se tornaria potência mundial. Washington concentrava governo federal, diplomacia, embaixadas, departamentos militares, burocracia internacional e pessoas capazes de abrir ou fechar portas em várias partes do mundo.

A denominação reconheceu a utilidade daquela geografia. A sede mundial cresceu junto ao ambiente político da capital, e essa proximidade acabaria acompanhada por relações institucionais cada vez mais diretas com estruturas governamentais norte-americanas.

HITLER: A SOBREVIVÊNCIA INSTITUCIONAL DIANTE DO TERCEIRO REICH

A experiência adventista na Alemanha nazista mostrou cedo como o discurso de separação dos poderes deste mundo podia ceder espaço à preservação institucional. Dirigentes adventistas procuraram demonstrar ao regime que a Igreja não constituía ameaça política, negociaram condições de funcionamento, adaptaram linguagem pública e buscaram conservar reconhecimento num Estado que controlava associações, imprensa, serviço militar, propriedades e vida religiosa. A preocupação central era manter a denominação funcionando dentro de um sistema totalitário que possuía poder para fechar instituições, dissolver organizações e perseguir comunidades consideradas hostis.

O problema ficou exposto depois da derrota do nazismo. Em maio de 1948, o major J. C. Thompson, ligado à seção de Assuntos Religiosos do governo militar norte-americano em Berlim, reclamou à Associação Geral que a denominação adventista estava entre as poucas organizações religiosas da cidade que ainda não haviam realizado uma limpeza política interna satisfatória.

O episódio coloca diante de nós uma realidade desconfortável: a acomodação administrativa ao poder havia deixado marcas suficientemente profundas para chamar atenção das autoridades responsáveis pela desnazificação. A Organização havia aprendido a sobreviver negociando com um regime que se tornaria símbolo mundial de tirania e massacre.

MUSSOLINI: SAUDAÇÕES, AGRADECIMENTOS E NEGOCIAÇÃO COM O FASCISMO

Na Itália fascista, a relação assumiu outra forma, mas revelou a mesma capacidade de adaptação. Adventistas sofreram prisões, limitações e vigilância, enquanto dirigentes procuravam preservar espaço legal de atuação. Depois de mudanças na legislação sobre religiões reconhecidas, Gian Luigi Lippolis enviou a Mussolini, em nome de pastores adventistas, um telegrama agradecendo a liberdade concedida ao culto e à discussão religiosa. Em outro episódio, um congresso adventista enviou saudações ao rei e ao próprio Mussolini depois de uma tentativa de assassinato contra o ditador.

A mensagem administrativa era clara: mesmo diante de um regime hostil, a Organização considerava necessário manter canais, demonstrar respeito, agradecer concessões e negociar sua permanência. A neutralidade apresentada aos membros como distância dos conflitos políticos não impedia a liderança de desenvolver uma diplomacia religiosa destinada a preservar instituições, atividades e reconhecimento. Essa diferença entre regra pública e prática administrativa reapareceria muitas vezes no restante do século.

WHITECOAT: A ASSOCIAÇÃO GERAL E O EXÉRCITO DOS ESTADOS UNIDOS

Em outubro de 1954, essa proximidade com o poder assumiu forma muito mais concreta. Representantes militares procuraram Theodore R. Flaiz, secretário do Departamento Médico da Associação Geral, para discutir a participação de militares adventistas como voluntários humanos em pesquisas biomédicas conduzidas pelo Exército dos Estados Unidos.

O assunto avançou para reuniões institucionais, avaliação denominacional e aprovação pela estrutura adventista. Em janeiro de 1955, o programa foi aprovado pelo secretário do Exército e os primeiros voluntários começaram a participar. Ao longo dos anos seguintes, cerca de dois mil ou mais militares adventistas passaram pela Operação Whitecoat, que permaneceria ativa até 1973.

O dado decisivo para esta investigação é institucional: quatro anos antes da batalha de Santa Clara, a Associação Geral já sabia negociar diretamente com uma estrutura militar do governo norte-americano, estabelecer modalidades de colaboração, definir aquilo que considerava compatível com a consciência adventista e organizar a participação de seus membros dentro de limites previamente acordados. A denominação não estava alheia ao mundo militar, nem considerava toda forma de cooperação com as forças armadas incompatível com sua identidade.

Theodore Flaiz deixou ainda uma frase especialmente reveladora numa carta ao cirurgião-geral George E. Armstrong, em outubro de 1954. Escreveu que, se alguém deveria reconhecer uma dívida de lealdade e serviço pelas cortesias e considerações recebidas do Departamento de Defesa, os adventistas estavam em posição de sentir uma dívida de gratidão por essas considerações. As palavras são importantes porque mostram uma mentalidade de reciprocidade institucional: o governo concedia consideração; a Igreja reconhecia dívida, lealdade, serviço e gratidão. Essa linguagem precede Santa Clara em apenas quatro anos.

1958: BROWN AGIA DENTRO DE UMA ORGANIZAÇÃO QUE JÁ CONHECIA O PODER

Quando Walton Brown precisou decidir o que fazer em dezembro de 1958, ele pertencia a uma Organização cuja sede mundial estava na região de Washington, cuja administração havia negociado diretamente com o Exército dos Estados Unidos, cuja experiência europeia incluía acomodação e negociação diante de Hitler e Mussolini e cuja Divisão Interamericana administrava Cuba a partir dos Estados Unidos.

A Revolução Cubana também não surgira de repente. Já durava anos, já envolvera adventistas na Sierra Maestra e já havia se transformado em questão internacional acompanhada por Washington, por diplomatas e por qualquer organização estrangeira que possuísse patrimônio e pessoal na ilha.

Isso altera profundamente a imagem de um Brown improvisando sozinho. O problema administrativo já existia antes de os homens de Che chegarem ao colégio: como uma instituição adventista deveria comportar-se se o governo de Batista entrasse em colapso e as forças revolucionárias passassem a controlar o território? Como proteger estudantes, funcionários, propriedade e continuidade institucional sem produzir uma identificação política formal? Que tipo de auxílio seria considerado admissível e que tipo de colaboração ultrapassaria o limite? A gráfica de Santa Clara mostra que alguém já trabalhava com esse tipo de distinção.

WASHINGTON JÁ CONSIDERAVA BATISTA UM GOVERNO EM QUEDA

Em 17 de dezembro de 1958, dez dias antes daquele sábado no Colegio de las Antillas, o embaixador norte-americano Earl E. T. Smith informou ao ministro das Relações Exteriores cubano que os Estados Unidos não continuariam apoiando o governo existente e que Batista estava perdendo o controle efetivo do país. Washington já considerava o regime politicamente esgotado, embora procurasse impedir que a transição terminasse numa situação de desordem ou no domínio absoluto de Fidel Castro. O embargo de armas contribuíra para enfraquecer Batista, e nas últimas horas de dezembro o Departamento de Estado discutia o colapso acelerado do governo, o risco de guerra civil e o futuro político da ilha.

Batista fugiu em 1º de janeiro de 1959. Dias depois, o governo norte-americano caminhou para reconhecer o governo provisório de Manuel Urrutia. A transição já era uma realidade observada por Washington antes da batalha final. A Divisão Interamericana administrava Cuba a partir dos Estados Unidos, e a Associação Geral funcionava havia décadas no ambiente político da capital norte-americana. A mudança de poder cubana não aconteceu num ponto cego do mundo administrativo em que a denominação estava inserida.

ANTES DE SANTA CLARA, ADVENTISTAS JÁ HAVIAM AJUDADO A REVOLUÇÃO

Os antecedentes cubanos tornam a história ainda mais séria. Na Sierra Maestra, famílias adventistas participaram de redes de auxílio clandestino aos homens da insurgência, oferecendo alimento, roupas, abrigo, informações e proteção. Argelio Rosabal, conhecido como “El Pastor”, aparece como personagem importante nessa relação. Che Guevara, cuja asma lhe causava crises severas durante a campanha guerrilheira, esteve entre os revolucionários que conheceram a ajuda prestada por adventistas. Portanto, quando os homens da Revolução chegaram a Santa Clara, existia memória anterior de colaboração. Eles sabiam que adventistas haviam ajudado; adventistas sabiam quem eram aqueles homens; a relação não começou no portão do colégio.

Essa continuidade enfraquece a tentativa de explicar tudo exclusivamente como reação humanitária aos acontecimentos da última semana do ano. A assistência de Santa Clara veio depois de anos em que adventistas cubanos já haviam criado pontes com pessoas ligadas à Revolução. Quando o movimento deixou as montanhas e avançou para controlar cidades, uma comunidade religiosa que já havia ajudado seus homens tornou-se novamente útil.

27 DE DEZEMBRO: ORAÇÃO NO COLÉGIO, GUERRA DO LADO DE FORA

No sábado, 27 de dezembro, as atividades externas do colégio foram canceladas e a comunidade adventista orou por proteção e paz. Dois homens exaustos receberam descanso, e estudantes ofereceram leite. O episódio ainda poderia ser descrito como misericórdia individual. Nos dias seguintes, entretanto, a escala mudou. O colégio passou a alimentar pessoas ligadas às forças revolucionárias, recebeu médicos e enfermeiros, forneceu materiais e colocou serviços à disposição de uma estrutura diretamente envolvida na batalha.

Walton Brown deslocou-se até a Universidade Central de Las Villas e encontrou Che Guevara diante de um mapa. Che informou que médicos, enfermeiros e outras pessoas chegariam e pediu colaboração do colégio para alimentá-los. Brown respondeu que teria dificuldade para conseguir os suprimentos necessários. Che explicou que a região estava sob controle revolucionário e que seus homens ajudariam a obter o que fosse preciso. A conversa demonstra planejamento, previsão de necessidades e coordenação. Um comandante revolucionário informou a um administrador adventista o que sua estrutura precisaria nos dias seguintes; o administrador apresentou um problema logístico; o comandante ofereceu solução. A partir daí, já não estamos falando apenas de atos espontâneos de compaixão praticados diante de indivíduos que apareciam ao acaso.

A PRÓPRIA HISTORIOGRAFIA ADVENTISTA CHAMOU A AJUDA DE “DEFINITIVA”

A Enciclopédia Adventista descreve a assistência do colégio como “definitiva” e recupera a afirmação de H. B. Lundquist de que as instalações escolares foram basicamente tomadas pelas forças revolucionárias durante as últimas semanas da luta e serviram como base para o avanço final contra Batista. Centenas de soldados passaram pelo refeitório, médicos e enfermeiros receberam refeições, lençóis, travesseiros, bandagens e materiais médicos foram fornecidos, houve doação de sangue e primeiros socorros e veículos revolucionários permaneceram na propriedade. A instituição tornou-se parte da retaguarda que sustentava pessoas ligadas à força que conquistava Santa Clara.

A motivação religiosa atribuída à assistência não altera sua consequência material: alimento sustentava homens, sangue mantinha feridos vivos, bandagens e materiais sustentavam atendimento, médicos e enfermeiros alimentados continuavam trabalhando e instalações protegiam pessoas, veículos e recursos durante a ofensiva que decidia o controle da cidade. Quando todos esses elementos aparecem juntos, chamar o conjunto apenas de “ajuda humanitária” descreve a intenção alegada, mas não esgota o efeito real da operação.

A GRÁFICA DEMONSTRA QUE A ADMINISTRAÇÃO SABIA DIZER NÃO

O pedido para utilização da gráfica adventista é o ponto em que a narrativa muda de natureza. Os revolucionários quiseram imprimir propaganda política e a administração recusou, explicando que aquela era uma imprensa cristã e que a instituição não deveria envolver-se formalmente em política. Esse “não” demonstra que os dirigentes não estavam simplesmente obedecendo a tudo porque homens armados controlavam a região. Eles avaliaram o pedido, identificaram uma fronteira institucional e exerceram sua capacidade de recusa.

É exatamente por isso que os demais atos ganham novo peso. Se imprimir propaganda ultrapassava a linha da neutralidade, então alimentação, atendimento, sangue, materiais, instalações e presença de veículos permaneciam, para aqueles administradores, dentro de uma zona considerada admissível. A diferença entre essas ações não estava necessariamente em sua importância prática para a batalha, mas em sua capacidade de produzir comprometimento político formal. Um prato de comida desaparece depois de consumido, uma bandagem termina descartada, o sangue não carrega timbre denominacional e um veículo pode deixar o terreno algumas horas depois. Uma folha de propaganda impressa numa gráfica adventista poderia sobreviver, circular, ser fotografada, arquivada e apresentar a instituição como participante direta da comunicação política revolucionária.

A fronteira, portanto, parece ter sido traçada entre cooperação material que podia ser apresentada como assistência e participação política que deixaria uma assinatura institucional permanente. A gráfica não prova ausência de envolvimento. Ela demonstra que havia consciência suficiente para distinguir modalidades de envolvimento.

E DEPOIS BROWN PUBLICOU O QUE HAVIA FEITO

A recusa da gráfica se torna ainda mais importante quando deixamos de olhar apenas para os acontecimentos de dezembro de 1958 e examinamos aquilo que Walton J. Brown decidiu fazer depois deles: publicar um relato detalhado da atuação do Colegio de las Antillas durante a batalha e a mudança de poder. Fonte primária: Walton J. Brown, “During the Recent Revolution in Cuba, God’s Work Was Safe Under HIS Wings”, Review and Herald, vol. 136, nº 18, 30 de abril de 1959, pp. 16, 17, 21, 23 e 24, Review and Herald Publishing Association, Washington, D.C.

Brown não escreveu apenas uma recordação devocional sobre estudantes protegidos de bombas e metralhadoras. Seu texto registra nomes, números, pedidos, serviços, conversas, decisões administrativas e limites. Ele conta que os revolucionários chegaram, que veículos foram autorizados a permanecer sob as árvores da propriedade, que médicos e enfermeiros precisariam ser alimentados, que lençóis, travesseiros e bandagens foram fornecidos, que estudantes participaram dos primeiros socorros, que dezenas e depois centenas de rebeldes passaram pelo refeitório e que ele próprio atravessou a rodovia para encontrar Ernesto Che Guevara diante de um mapa da cidade. Brown colocou no papel uma descrição suficientemente detalhada para permitir que qualquer dirigente adventista que lesse o artigo soubesse exatamente até onde o colégio havia ido.

Há, porém, um trecho que ganha importância extraordinária quando o artigo é relido sob essa perspectiva. Na noite daquele primeiro domingo, Brown e C. E. Schmidt, gerente administrativo, foram até um corredor da universidade onde Che Guevara havia instalado seu quartel-general. Não se tratou apenas de entregar comida ou atender um ferido que aparecera diante da escola. Os dois administradores foram procurar o comandante e conversaram diretamente com ele sobre a posição institucional do colégio.

Brown escreveu que explicaram a Che “os princípios da Igreja Adventista do Sétimo Dia e do Antillian College”, manifestaram disposição de fazer tudo aquilo que fosse possível para ajudar a preservar vidas e, ao mesmo tempo, salientaram que havia determinadas coisas que não poderiam fazer. Che respondeu que conhecia os adventistas do sétimo dia e que cuidaria pessoalmente para que nada acontecesse que interferisse em suas convicções e práticas religiosas.

Essa conversa precisa ser colocada no centro da investigação porque mostra uma negociação explícita de limites entre a administração adventista e o comandante revolucionário. Brown e Schmidt não aparecem simplesmente esperando que os acontecimentos decidissem por eles. Foram ao quartel-general, apresentaram a identidade institucional do colégio, declararam sua disposição para cooperar e comunicaram que essa cooperação possuía fronteiras.

Che, por sua vez, reconheceu a identidade adventista e comprometeu-se a respeitar essas fronteiras. O que aconteceu depois precisa ser lido à luz dessa conversa: a cooperação prosseguiu, os serviços continuaram, centenas de homens foram alimentados, materiais foram fornecidos e o relacionamento permaneceu sem ruptura, até que surgiu um pedido que a administração classificou como incompatível com os limites que acabara de apresentar ao comandante.

Foi exatamente isso que aconteceu quando representantes revolucionários solicitaram a utilização da gráfica para imprimir propaganda destinada a Santa Clara. Brown fez questão de registrar no artigo não apenas que recusou, mas também a argumentação utilizada. A administração explicou que a gráfica estava ligada a uma instituição religiosa, mencionou outros tipos de material que evitava imprimir e declarou expressamente que os adventistas não tomavam partido politicamente, mas procuravam apenas fazer o bem.

A recusa foi tão deliberada que Brown disse aos revolucionários que, se quisessem, poderiam operar a gráfica com seus próprios homens, tomando-a pela força, mas que a administração preferia que o material fosse produzido em outro lugar. Os revolucionários não utilizaram a força, encontraram outra gráfica e posteriormente informaram que respeitavam os princípios apresentados pelos adventistas.

Brown publicou, portanto, as duas partes de uma mesma política de comportamento. De um lado, registrou aquilo que o colégio aceitou fazer: receber, alimentar, atender, fornecer materiais, permitir a presença de veículos, colaborar com médicos e enfermeiros e manter contato direto com o comando revolucionário. De outro, registrou aquilo que decidiu não fazer: colocar uma instalação denominacional diretamente a serviço da propaganda política.

A combinação é mais reveladora do que qualquer uma das partes isoladamente, porque demonstra que a administração não se considerava sem escolha e tampouco tratava todas as formas de cooperação como equivalentes. Existia uma classificação. Existia uma fronteira. E Brown considerou importante deixar registrado publicamente que essa fronteira fora respeitada.

O ARTIGO DE BROWN PODE SER LIDO COMO PRESTAÇÃO DE CONTAS

É nesse ponto que a natureza do documento precisa ser reconsiderada. Até agora utilizamos o texto de Brown principalmente como fonte histórica para reconstruir os acontecimentos no Colegio de las Antillas. Ele é isso, evidentemente, mas pode ser mais. Sua estrutura permite lê-lo também como uma espécie de prestação de contas pública sobre a maneira como a administração atravessou a batalha e a mudança de regime.

Brown apresenta o problema, descreve o isolamento do colégio, relata a aproximação dos revolucionários, documenta a negociação com Che, enumera a assistência prestada, mostra a fronteira aplicada à gráfica, descreve a preservação da instituição e termina relatando os benefícios institucionais que apareceram depois da vitória. O texto possui começo, desenvolvimento e conclusão compatíveis com uma narrativa de missão cumprida.

Essa característica se torna ainda mais importante porque Brown não escreve como um administrador que precisasse esconder da Organização aquilo que havia acontecido. Não disfarça o encontro com Che, não elimina os veículos revolucionários, não reduz artificialmente o número de homens alimentados e não omite que estudantes e professores forneceram materiais e participaram dos primeiros socorros.

Ao contrário, publica tudo isso para leitores adventistas. Informa que aproximadamente cem homens jantaram no primeiro dia, descreve a passagem contínua de dezenas, grupos maiores e finalmente centenas de rebeldes pelo colégio e registra que, já em 1º de janeiro, cento e oitenta médicos e soldados revolucionários ainda jantaram na instituição. A dimensão da assistência não aparece numa denúncia descoberta posteriormente em arquivo inimigo da Igreja; aparece no relato do próprio presidente do colégio.

Esse dado merece atenção porque Brown ocupava um cargo administrativo e sabia que aquilo que publicava poderia ser lido por seus superiores. Se sua conduta representasse uma ruptura evidente com uma orientação recebida, uma iniciativa clandestina ou uma colaboração que precisasse ser ocultada da Divisão Interamericana e da Associação Geral, a decisão de descrevê-la minuciosamente numa publicação denominacional seria difícil de explicar.

O texto transmite exatamente a impressão contrária: Brown apresenta suas decisões como atuação institucionalmente legítima, mostra que os princípios adventistas foram explicitados a Che, demonstra que a fronteira política foi preservada na gráfica e celebra o resultado alcançado.

Isso transforma a publicação numa peça importante para a hipótese do possível acerto. Um relatório não precisa trazer no cabeçalho a expressão “prestação de contas” para cumprir essa função. Quando um administrador descreve publicamente aquilo que fez, registra os limites que observou e apresenta os resultados obtidos, ele fornece aos níveis superiores da própria instituição condições para avaliar sua conduta. Brown publicou precisamente os elementos que permitiriam essa avaliação: o que os revolucionários pediram, o que o colégio concedeu, o que recusou, como Che reagiu, como a instituição foi preservada e qual relacionamento surgiu depois da vitória.

O TÍTULO TAMBÉM AJUDA A ENTENDER O QUE BROWN ESTAVA FAZENDO

Até o título do artigo merece ser relido nesse contexto: “Durante a recente revolução em Cuba, a obra de Deus esteve segura — sob Suas asas”. Brown organiza toda a narrativa em torno da ideia de que a instituição atravessou a revolução protegida. Essa proteção, entretanto, não aparece no texto como experiência passiva.

Enquanto estudantes oravam, administradores tomavam decisões, conversavam com revolucionários, negociavam com Che, forneciam assistência, estabeleciam limites e administravam uma instituição colocada no caminho da ofensiva. No final, Brown interpreta a sobrevivência como resposta divina às orações, mas o próprio relato documenta também a extensa atividade humana e administrativa que acompanhou essa sobrevivência.

Essa estrutura permite perceber outra mensagem implícita. Brown está dizendo aos leitores que o colégio permaneceu adventista durante a crise. A prova apresentada por ele não é a ausência de contato com os revolucionários, porque o contato foi intenso e ele próprio o descreve. A prova é outra: ajudamos, mas mantivemos nossos princípios; cooperamos, mas recusamos propaganda; conversamos com Che, mas explicamos nossos limites; recebemos os homens da Revolução, mas continuamos orando; atravessamos a queda de um governo e a ascensão de outro sem permitir que a gráfica denominacional produzisse material político. Essa é precisamente a lógica que transforma o texto numa possível certificação pública de que a cooperação permaneceu dentro da fronteira institucional considerada aceitável.

O TEXTO NÃO TERMINA NA PROTEÇÃO: TERMINA NOS “EFEITOS POSTERIORES”

O final do artigo torna essa leitura ainda mais forte porque Brown poderia ter encerrado sua narrativa assim que soube que nenhuma pessoa havia sido morta no campus. Se o único objetivo fosse testemunhar sobre proteção divina, o ponto culminante já estava pronto: bombas caíram, aviões metralharam a propriedade, estudantes e professores se esconderam, ninguém morreu, Batista fugiu e a batalha terminou. Brown, porém, continua. Conta que cento e oitenta médicos e soldados rebeldes jantaram no colégio na noite de 1º de janeiro, relata os preparativos feitos para continuar alimentando homens sem comprometer o sábado e somente depois chega ao culto de gratidão. Ainda assim, o artigo não termina ali.

Brown abre uma nova etapa com uma expressão extremamente significativa: “Agora estamos desfrutando dos ‘efeitos posteriores’ daquela semana.” A escolha das palavras merece ser levada a sério. Os efeitos posteriores não são apresentados apenas como paz restaurada ou retorno das aulas. O novo governador da província de Las Villas aparece no colégio e diz que aquela instituição e a universidade estavam entre os primeiros lugares que desejava visitar depois de assumir o cargo. Faz questão de falar com os rapazes e moças que o haviam servido durante a semana da batalha e recorda as refeições que fizera no refeitório. A ajuda prestada durante a luta havia produzido memória no homem que agora ocupava o governo provincial.

Depois vem o coral. Brown registra que ele passou a ser solicitado para cantar no auditório municipal, no quartel do regimento e diante do próprio Fidel Castro numa cerimônia especial na Universidade Central. A instituição que poucos dias antes servira refeições aos homens que avançavam sobre Santa Clara agora aparecia publicamente nos espaços do novo poder. A sequência não precisa ser construída por nós; Brown a construiu. Primeiro descreveu o auxílio. Depois descreveu a vitória. Em seguida descreveu o reconhecimento.

E ENTÃO BROWN COLOCA A DIVISÃO INTERAMERICANA DENTRO DA HISTÓRIA

O detalhe mais importante para nossa investigação aparece quase no encerramento. Brown introduz A. H. Roth, presidente da Divisão Interamericana, e C. L. Powers, secretário-tesoureiro da União das Antilhas. Roth se identifica diante de um soldado rebelde em Havana; Powers conversa com um inspetor alfandegário no aeroporto. A reação registrada por Brown é imediata: “Oh, sim, conhecemos os adventistas do sétimo dia. Nós comemos no Antillian College durante a batalha de Santa Clara.” A frase é extraordinária porque mostra que aquilo que acontecera no colégio já funcionava como credencial denominacional diante de representantes do novo poder.

Brown não termina a história com ele mesmo recebendo agradecimentos. Termina mostrando o presidente da Divisão Interamericana experimentando diretamente o reconhecimento produzido pela assistência de Santa Clara. A identidade “adventista do sétimo dia” acionava imediatamente uma memória positiva: vocês são os que nos alimentaram durante a batalha. O benefício institucional havia subido pela cadeia administrativa. O que estudantes, funcionários e administradores fizeram no colégio tornou-se capital de relacionamento disponível para dirigentes que chegavam a Havana depois da vitória.

Isso coloca A. H. Roth numa posição muito mais importante dentro da investigação. Precisamos saber quando ele recebeu as primeiras informações sobre aquilo que estava acontecendo, quais comunicações chegaram à Divisão Interamericana, o que Brown relatou antes da publicação, se houve correspondência entre o colégio, a União e a Divisão e como Roth avaliou a conduta adotada. Sua aparição no próprio artigo mostra que ele não pertence à periferia da história. Brown o coloca no desfecho como dirigente máximo da Divisão que encontra um representante da Revolução e descobre que a assistência prestada pelo colégio já havia construído uma reputação favorável para a denominação.

UM TEXTO QUE PODIA FALAR COM MAIS DE UM PÚBLICO AO MESMO TEMPO

A publicação de Brown também precisa ser considerada pelo que comunicava a diferentes leitores. Para o público adventista, oferecia uma narrativa religiosa de proteção, oração, princípios preservados e testemunho diante de centenas de homens. Para a administração superior, apresentava um registro suficientemente detalhado para mostrar como a crise fora administrada: houve cooperação, houve negociação, houve limites, a gráfica não foi utilizada para propaganda, a instituição permaneceu intacta e o novo governo passou a reconhecer positivamente os adventistas. Para os próprios revolucionários e autoridades cubanas que eventualmente tivessem conhecimento do relato, permanecia registrada a ajuda recebida durante os dias decisivos da conquista de Santa Clara.

O texto também produzia uma mensagem perfeitamente inteligível fora de Cuba. Uma organização religiosa internacional podia demonstrar que não havia se declarado revolucionária, não imprimira propaganda e não assumira formalmente uma posição partidária, embora tivesse mantido relacionamento funcional com os homens que assumiram o controle do território e lhes prestado extensa assistência. Essa combinação era administrativamente valiosa porque permitia preservar duas afirmações ao mesmo tempo: diante do novo governo, os adventistas podiam ser lembrados como aqueles que ajudaram; diante de qualquer questionamento externo, podiam apontar para a gráfica e afirmar que não haviam aderido politicamente à Revolução.

É exatamente essa dupla legibilidade que torna o documento tão importante. A alimentação dizia uma coisa aos homens que haviam passado fome durante a batalha; a recusa da gráfica dizia outra aos leitores preocupados com neutralidade política. O encontro com Che mostrava acesso ao novo poder; a declaração de princípios mostrava que a administração estabelecera limites. Os cento e oitenta homens alimentados no Ano-Novo registravam a dimensão da cooperação; a preparação de refeições antecipadas para preservar o sábado demonstrava continuidade da identidade religiosa. Brown construiu uma narrativa em que cooperação e neutralidade formal não aparecem como opostos, mas como partes complementares da mesma atuação.

E SE A PUBLICAÇÃO FOSSE A CONFIRMAÇÃO DE QUE TUDO FORA FEITO CONFORME O COMBINADO?

É nesse ponto que a publicação de Brown se encontra diretamente com a hipótese do acerto. Se havia uma orientação anterior sobre como o colégio deveria atravessar a mudança de poder, o relato publicado depois da batalha contém exatamente os elementos necessários para demonstrar que ela fora observada. A instituição ajudou os homens que assumiram o território, preservou relacionamento com o comando revolucionário, evitou confronto desnecessário, protegeu estudantes e patrimônio, continuou funcionando, recusou identificação política formal e terminou reconhecida favoravelmente pelo novo governo. A sequência corresponde com notável precisão àquilo que esperaríamos de uma política destinada a cooperar sem aderir formalmente.

Nessa hipótese, o artigo pode ter funcionado como confirmação indireta para dois lados. Para o novo poder cubano, permanecia documentado que os adventistas haviam ajudado quando a batalha ainda estava sendo decidida, alimentando homens, atendendo necessidades e colaborando com médicos e feridos. Para a cúpula denominacional, permanecia documentado que Brown não permitira que essa cooperação ultrapassasse a fronteira formal da propaganda política. Um mesmo relato dizia aos vencedores “nós ajudamos vocês” e dizia à Organização “nós não nos tornamos oficialmente parte de vocês”.

Isso ajuda a explicar por que a gráfica ocupa espaço tão significativo no texto. Se Brown quisesse apenas contar uma história emocionante de proteção divina, poderia ter omitido completamente uma negociação sobre folhetos que terminaram sendo impressos em outro lugar. O episódio, porém, possui enorme utilidade numa prestação de contas porque demonstra precisamente onde a administração parou. Depois de relatar tudo aquilo que o colégio fez pelos revolucionários, Brown registra também o ato que permitiria dizer que a instituição não havia assumido posição política formal. A gráfica funciona quase como certificado de limite.

O mesmo ocorre com a conversa noturna com Che. Brown poderia simplesmente dizer que os revolucionários respeitaram o colégio. Em vez disso, registra que ele e Schmidt foram ao quartel-general, explicaram os princípios adventistas, declararam aquilo que estavam dispostos a fazer e avisaram que determinadas coisas não poderiam fazer. Che reconheceu a posição e prometeu respeitá-la. O artigo preserva, portanto, a memória de uma negociação em que as condições da convivência foram apresentadas e aceitas.

A publicação de Brown pode ser, assim, uma das peças mais importantes para investigar se existia um entendimento anterior ou superior. Ela não documenta expressamente quem teria definido os limites antes daquela conversa com Che, mas documenta que Brown agia como alguém que conhecia limites, sabia explicá-los, sabia aplicá-los e depois considerou importante registrar publicamente que os havia observado.

Se houve um acerto, uma orientação ou uma política administrativa para atravessar a queda de Batista, o texto de Brown pode ter servido como confirmação indireta de que tudo fora executado conforme o previsto: cooperar suficientemente para ser lembrado pelos vencedores, preservar suficientemente a forma para continuar reivindicando neutralidade e sair da batalha com a instituição intacta e com as portas do novo poder abertas.

E SE ESSE FOSSE EXATAMENTE O ACERTO?

A seletividade da administração aponta para uma hipótese concreta: havia uma orientação, um entendimento ou um acerto que definia até onde a instituição poderia cooperar. A fórmula sugerida pelos fatos é coerente com o comportamento observado: assistência material e humanitária podia ser prestada; identificação política formal, não. Alimentos, sangue, atendimento, materiais e instalações permaneciam dentro da zona justificável. Propaganda produzida numa gráfica adventista ultrapassava a fronteira porque colocaria o nome da instituição diretamente a serviço da Revolução.

Um entendimento dessa natureza não precisaria assumir a forma de um acordo solene com Che Guevara nem de uma ordem escrita durante a batalha. Poderia existir dentro da própria cadeia denominacional como orientação para enfrentar mudanças de poder: preservar vidas, proteger a instituição, cooperar com autoridades de facto, evitar confronto desnecessário, manter abertos canais com quem controlasse o território e impedir atos que identificassem oficialmente a Igreja com propaganda partidária ou revolucionária. Walton Brown não precisaria receber uma ordem enquanto bombas caíam sobre Santa Clara se já soubesse, antes da crise, quais eram os limites administrativos dentro dos quais podia agir.

O documento decisivo, portanto, pode não conter a frase “ajudem Che Guevara”. Pode tratar de preservação institucional, relacionamento com autoridades de facto, neutralidade em situações de guerra, assistência durante conflitos, comunicação com governos revolucionários ou instruções para administradores de instituições em zonas de instabilidade. A investigação precisa procurar a linguagem burocrática capaz de explicar aquilo que a conduta de Brown revela na prática. A pergunta histórica não é se existia uma fronteira; a recusa da gráfica demonstra que existia. A pergunta é quem a desenhou.

22 DE JANEIRO DE 1959: A ASSOCIAÇÃO GERAL REVÊ “GOVERNOS E GUERRA”

Poucas semanas depois da vitória revolucionária, em 22 de janeiro de 1959, o Comitê da Associação Geral, durante a revisão do Manual da Igreja, decidiu reter a declaração intitulada “The Relationships of Seventh-day Adventists to Civil Governments and War” porque partes do texto deveriam passar por revisão. Em abril, a decisão de mantê-la para consideração futura foi confirmada. As atas não atribuem essa revisão ao caso cubano, mas o momento é significativo para uma investigação sobre a maneira como uma instituição adventista acabara de atravessar guerra, ocupação territorial e mudança revolucionária de governo.

Enquanto procuramos compreender quais eram os limites administrativos entre assistência, neutralidade, governo e guerra no Colegio de las Antillas, descobrimos que a própria Associação Geral discutia naquele início de 1959 a formulação oficial de sua relação com governos civis e guerra. A documentação ainda precisa revelar que debates específicos cercavam essa revisão, quais experiências recentes estavam na mente dos dirigentes e que tipo de orientação prática poderia estar circulando entre os níveis administrativos. A proximidade cronológica torna essa correspondência, essas atas e esses arquivos ainda mais importantes para a reconstrução do caso cubano.

O NOVO PODER NÃO ESQUECEU QUEM O AJUDOU

A continuidade do relacionamento depois da batalha impede que o episódio seja encerrado dentro da categoria de emergência humanitária. Representantes do novo poder retornaram para agradecer. Um funcionário da alfândega reconheceu adventistas porque havia comido no colégio durante aqueles dias. Fidel Castro visitou a instituição, comeu ali, ouviu o coral e demonstrou interesse pelo modelo educacional. A Enciclopédia Adventista resumiu a relação com uma expressão reveladora: “The empathy was reciprocal.” A empatia era recíproca. A palavra descreve mais do que tolerância; descreve um relacionamento positivo construído entre a instituição e homens que haviam acabado de conquistar o poder.

Essa reciprocidade tornou-se ainda mais visível quando o colégio precisou levantar recursos para um projeto ligado a José Martí e organizou um concerto no Teatro Cloris. A presença de Che Guevara foi considerada valiosa porque acrescentaria peso, publicidade e prestígio ao evento. Lugares foram reservados e sua chegada foi aguardada. Durante a batalha, Che pedira colaboração do colégio; depois da vitória, o colégio passou a desejar a presença de Che porque o prestígio do comandante poderia favorecer seus próprios objetivos. Primeiro Che precisou do colégio; depois o colégio precisou de Che. O vínculo criado durante os dias de combate já produzia capital político.

DE WHITECOAT A FOOD FOR PEACE: COOPERAR COM O ESTADO VIROU MÉTODO ADMINISTRATIVO

A história posterior mostra que a cooperação com governos se transformou em parte normal da arquitetura adventista internacional. A SAWS, organização adventista de assistência que mais tarde daria origem à ADRA, trabalhou com programas do governo dos Estados Unidos como Food for Peace e Alliance for Progress. No Chile, documentação adventista registrou contratos especiais com Food for Peace envolvendo milhões de libras de alimentos e valores expressivos, além de participação financeira do governo chileno nos custos de distribuição. No Peru, a estrutura adventista trabalhou com a Alliance for Progress durante períodos de emergência, distribuindo grandes volumes de alimentos e participando de projetos ligados a escolas, estradas, água e saneamento. Documentos denominacionais também registraram a combinação de esforços adventistas com Food for Peace e Alliance for Progress no Chile, Brasil e Peru.

Em 1978, a Associação Geral possuía política específica para utilização de alimentos provenientes de Food for Peace e USAID, estabelecendo regras para administrar commodities governamentais dentro dos requisitos oficiais. Poucos anos depois, a assistência adventista recebia volume significativo de recursos e alimentos vinculados à USAID. A instituição que ensinava distância dos poderes deste mundo administrava contratos, recursos públicos, regulamentos governamentais e programas de cooperação internacional porque havia transformado relacionamento estatal numa ferramenta de sua expansão humanitária e institucional.

DE WASHINGTON A BRASÍLIA: A GEOGRAFIA DA ADMINISTRAÇÃO ACOMPANHA A GEOGRAFIA DO PODER

A transferência da Divisão Sul-Americana de Montevidéu para Brasília, concretizada na década de 1970, confirma essa percepção administrativa. A pedra fundamental da nova sede foi lançada em 1974 e sua inauguração ocorreu em 1976. A Câmara dos Deputados registrou publicamente naquele período que a sede continental adventista estava sendo transferida para Brasília. A administração sul-americana passou a funcionar na capital que reunia Presidência da República, ministérios, Congresso, embaixadas, tribunais e os centros de decisão do governo brasileiro.

O acervo do Adventistas.Com registrou repetidamente ao longo dos anos críticas à estrutura residencial da alta administração adventista na capital e referências ao Setor de Mansões. O significado desse dado vai além de uma discussão sobre padrão de moradia. Trata-se da geografia institucional escolhida pela cúpula: nos Estados Unidos, Washington; na América do Sul, Brasília. O poder denominacional se instala próximo dos lugares onde o poder político funciona, enquanto o membro comum continua ouvindo uma linguagem religiosa de distanciamento dos reinos deste mundo. A Organização sabe que ministérios, diplomatas, presidentes, parlamentares e autoridades capazes de abrir portas estão nas capitais e organiza sua presença de acordo com essa realidade.

NEAL C. WILSON: DO COMITÊ DA ASSOCIAÇÃO GERAL À URSS SOCIALISTA

Neal C. Wilson representa talvez a expressão mais sofisticada dessa cultura diplomática. Durante sua presidência mundial, acumulou experiência internacional e participou diretamente dos esforços adventistas de relacionamento com a União Soviética. A documentação da própria Igreja reconheceu posteriormente que a reorganização e legalização da União Russa em 1981 ocorreu em parte graças aos esforços de Wilson. Num Estado socialista oficialmente ateu, altamente centralizado e profundamente controlado, a presença institucional adventista dependia de administradores capazes de conversar com autoridades e negociar reconhecimento.

A aposentadoria não encerrou esse papel. Em janeiro de 1991, atas da Associação Geral registraram Wilson como “General Administrative Consultant for the USSR Division”. Em maio, a Organização afirmou oficialmente que ele continuaria servindo à Igreja, trabalhando em estreita relação com a presidência mundial e com a liderança da Divisão soviética e assumindo missões especiais solicitadas pelo presidente da Associação Geral. Sua experiência política e diplomática havia se tornado patrimônio administrativo da denominação.

Relatos biográficos adventistas registraram ainda contatos periódicos do Departamento de Estado norte-americano em razão de seu conhecimento do Oriente Médio adquirido durante os anos no Egito. Para o membro, política aparecia como território perigoso; para a cúpula, capacidade de trânsito entre governos podia representar uma das qualificações mais úteis de um administrador.

WACO: QUANDO A DISSIDÊNCIA ATRAVESSA A PORTA DA POLÍCIA

O relacionamento com o Estado também aparece quando a Organização enfrenta grupos que considera problemáticos. Em 1992, antes do cerco que tornaria David Koresh e os davidianos conhecidos mundialmente, Shirley Burton, então diretora de Comunicação da Associação Geral, recebeu de um dirigente adventista na Austrália uma advertência sobre a possibilidade de violência ou de um episódio de suicídio coletivo em Waco. O Washington Post registrou depois que autoridades da Igreja avisaram a polícia local. O aviso à polícia está documentado; a responsabilidade pelos atos posteriores das autoridades constitui outra etapa da história.

O mecanismo inicial, entretanto, precisa ser examinado. Um grupo de raízes adventistas é identificado como problema por estruturas denominacionais; informações deixam o ambiente eclesiástico e chegam ao Estado; a partir daí entram em cena instrumentos que a Igreja não possui, como investigação policial, vigilância, mandados, agentes armados e operações. Depois vieram o ATF, o FBI, o cerco e os mortos. A história de Waco obriga a perguntar que responsabilidade possui uma organização religiosa quando ajuda a transformar um conflito de origem religiosa em problema para o aparelho estatal.

ANGOLA: A IGREJA RECORRE À POLÍCIA CONTRA O DISSIDENTE

Em Angola, essa passagem aparece de forma ainda mais explícita. José Julino Kalupeteka havia pertencido ao adventismo e posteriormente organizou um movimento separado. A liderança adventista declarou que recorreu às autoridades em 2010 e novamente em 2014 por causa do uso do nome adventista, encaminhando participações a comandos da Polícia Nacional em Viana e Cacuaco. A sequência histórica é clara: primeiro existiu conflito denominacional; depois a Organização levou o problema ao Estado; em 2014 o movimento sofreu intervenção e fechamento; em 2015 ocorreu o confronto do Monte Sumi, seguido por mortes cujo número permanece disputado entre as diferentes fontes.

O acervo do Adventistas.Com preserva ainda o testemunho de um sobrevivente que acusou Domingos Bimba, apresentado naquele relato como ancião adventista e chefe da investigação criminal na Caála, de participar da perseguição a Kalupeteka e de contribuir para a circulação da acusação de que o dissidente estaria formando um exército. Segundo esse testemunho, a fronteira entre conflito religioso e aparato policial teria sido ainda mais estreita. A acusação permanece atribuída à testemunha, mas sua relevância para a investigação é direta porque surge dentro de uma história em que a própria liderança adventista admitiu ter recorrido à polícia contra o movimento.

TED WILSON EM ANGOLA: “NÃO NOS ENVOLVEMOS EM POLÍTICA”, MAS AJUDAMOS OS GOVERNOS

O relacionamento da liderança mundial com o governo angolano acrescenta uma ironia difícil de ignorar. Em 2011, Ted N. C. Wilson visitou Angola, encontrou autoridades e esteve presente na assinatura de um protocolo formal de cooperação entre a Igreja Adventista e o Governo da Província de Luanda. O acordo abrangia educação, saúde, meio ambiente, combate à violência contra mulheres, apoio a famílias vulneráveis, juventude, saneamento, arborização e outras áreas, acompanhado por estrutura permanente de coordenação. Durante aquela visita, Wilson declarou que a Igreja Adventista não se envolvia em questões políticas, mas ajudava sempre os governos no processo de desenvolver valores morais.

A frase resume a assimetria institucional com extraordinária precisão. A administração pode afirmar que não se envolve em política ao mesmo tempo em que celebra um protocolo oficial de cooperação com um governo. Isso só é possível porque, para a cúpula, “política” recebe definição muito mais estreita que aquela frequentemente transmitida ao membro. Cooperação com governos, acesso a autoridades, negociação institucional e presença nos palácios podem ser classificados como relações públicas, liberdade religiosa ou serviço comunitário, permanecendo fora daquilo que a Organização decide chamar de envolvimento político.

2020: QUANDO A ASSOCIAÇÃO GERAL PRECISOU DO PALÁCIO PRESIDENCIAL

Anos depois, quando dirigentes reconhecidos pela estrutura adventista enfrentaram acusações criminais em Angola, a capacidade diplomática da Organização apareceu em toda sua extensão. A estrutura mundial acompanhou o caso durante longo período. Ganoune Diop visitou o país diversas vezes e encontrou autoridades e assessores jurídicos. Em 2020, Ted Wilson reuniu-se com o presidente João Lourenço no palácio presidencial e agradeceu sua intervenção na situação daqueles líderes, além de apresentar outras preocupações adventistas, como a realização de exames aos sábados. Também houve contatos com outras autoridades de alto nível.

O Estado, portanto, não era território proibido. A liderança sabia entrar no palácio, sabia procurar ministros, sabia procurar o procurador-geral, sabia utilizar seus canais e sabia acionar sua estrutura internacional quando precisava deles. Essa realidade precisa ser colocada ao lado do tratamento dispensado a dissidentes religiosos que, em outros momentos, também foram levados ao conhecimento das autoridades. A pergunta não é se a Organização sabe relacionar-se com o poder. A história demonstra que sabe. A pergunta é como decide utilizar esse acesso, a favor de quem e contra quem.

RUANDA: QUANDO A AUTORIDADE ADVENTISTA TERMINA NO BANCO DOS RÉUS

Ruanda destrói qualquer tentativa de transformar cargo denominacional em presunção de confiabilidade moral. Durante o genocídio de 1994, o complexo adventista de Mugonero tornou-se um dos lugares associados ao massacre de pessoas que haviam procurado refúgio. Élizaphan Ntakirutimana, importante dirigente adventista, e seu filho Gérard, médico do hospital, foram julgados pelo Tribunal Penal Internacional para Ruanda. Élizaphan recebeu condenações relacionadas a auxílio e cumplicidade em genocídio, com modificações específicas posteriores em recurso, enquanto Gérard foi condenado por genocídio e crimes contra a humanidade.

A importância de Mugonero para esta investigação não está em transformá-lo em analogia direta com Cuba, mas em eliminar a ideia de que posição elevada dentro do sistema adventista merece confiança espiritual automática. Um presidente pode falhar moralmente, um pastor pode colaborar com violência, um médico adventista pode cometer crime e uma instituição religiosa pode tornar-se cenário de massacre. O organograma não é inspirado, e a autoridade administrativa não possui poder para transformar uma decisão humana em decisão divina.

UMA CULTURA INSTITUCIONAL DE NEGOCIAÇÃO COM O PODER

Esses episódios possuem mecanismos e graus de responsabilidade diferentes, mas revelam uma característica institucional recorrente: a Organização preserva para seus administradores ampla capacidade de relacionamento com os centros de poder quando sua sobrevivência, seu patrimônio, seu reconhecimento, sua expansão, sua influência ou sua segurança estão em jogo. Na Alemanha nazista, negociou para preservar funcionamento; na Itália fascista, enviou agradecimentos e buscou espaço legal; nos Estados Unidos, cooperou formalmente com o Exército em Whitecoat; em programas humanitários, trabalhou com Food for Peace, Alliance for Progress e USAID; na União Soviética, utilizou a experiência diplomática de Neal Wilson; em Waco, informações denominacionais chegaram à polícia; em Angola, a Igreja recorreu ao Estado contra dissidentes e, ao mesmo tempo, firmou protocolos oficiais com o governo e utilizou acesso presidencial quando seus próprios dirigentes precisaram de proteção; em Ruanda, líderes adventistas chegaram ao banco dos réus de um tribunal internacional.

O padrão não depende de uma única conspiração nem de uma cadeia secreta atravessando gerações. Ele aparece na cultura administrativa: o apartidarismo funciona rigidamente para baixo e flexivelmente para cima. O membro recebe uma linguagem de distância; a cúpula utiliza diplomacia, contratos, relações governamentais, liberdade religiosa, representação institucional, cooperação oficial e acesso a autoridades. O membro recebe a regra. A Organização conserva a margem de negociação.

ESSA HISTÓRIA MUDA A PERGUNTA SOBRE SANTA CLARA

Depois desse percurso, Walton Brown já não pode ser apresentado como um administrador isolado diante de um problema completamente novo. Ele pertencera a uma Organização habituada a estabelecer limites em suas relações com governos e militares. A Associação Geral estava na região de Washington. Whitecoat já existia. A Divisão Interamericana administrava Cuba a partir dos Estados Unidos. Adventistas haviam ajudado revolucionários na Sierra Maestra. Washington sabia que Batista estava caindo. Brown encontrou Che, discutiu abastecimento, cooperou com uma estrutura revolucionária e depois recusou propaganda porque aquela modalidade de colaboração ultrapassaria a fronteira política que a administração reconhecia.

A hipótese de algum entendimento anterior nasce dessa seletividade. Poderia ser um acerto com representantes revolucionários, uma orientação interna da administração cubana, uma política da Divisão Interamericana ou uma diretriz mais ampla da estrutura denominacional sobre como atravessar mudanças de governo. A investigação precisa descobrir quem sabia, quem foi informado, que mensagens circularam e quais regras determinavam o comportamento de uma instituição adventista diante de forças que estavam assumindo o controle territorial.

POR QUE A LINHA VERMELHA ESTAVA NA TINTA?

A pergunta continua perturbadora porque as ações permitidas possuíam efeitos materiais muito mais imediatos que uma folha impressa. Alimento sustentava homens durante a batalha; sangue salvava feridos; bandagens e materiais permitiam atendimento; médicos e enfermeiros alimentados continuavam trabalhando; instalações ofereciam espaço e segurança; veículos estacionados na propriedade pertenciam à força revolucionária que conquistava a cidade. A propaganda, por sua vez, produziria uma evidência institucional inequívoca, algo que poderia circular com o vínculo político visível de uma gráfica adventista.

Se essa era a lógica, o limite não separava assistência de participação, mas participação justificável de comprometimento formal. A Organização podia ajudar materialmente desde que pudesse apresentar a ajuda como serviço humanitário; não podia deixar uma impressão política que identificasse seu nome diretamente com a Revolução. A gráfica transforma essa hipótese em algo muito maior que uma especulação periférica porque mostra que os dirigentes sabiam que existia uma fronteira e sabiam aplicá-la.

QUEM DESENHOU ESSA FRONTEIRA?

Walton Brown tinha superiores. O Colegio de las Antillas fazia parte de uma estrutura administrativa. A Revolução já durava anos. Adventistas já haviam colaborado com seus homens. A queda de Batista era acompanhada internacionalmente. A Divisão Interamericana estava nos Estados Unidos. A Associação Geral tinha experiência de cooperação com estruturas militares e de negociação com governos. Nesse cenário, a ausência de uma pergunta sobre orientação superior seria muito mais estranha que a própria pergunta.

Precisamos localizar correspondência, atas, relatórios, circulares, cartas e instruções entre a administração cubana, a Divisão Interamericana e a Associação Geral. Precisamos saber o que foi comunicado antes da batalha, durante a mudança de governo e depois da vitória. Precisamos procurar não apenas pelos nomes de Fidel ou Che, mas por expressões administrativas como neutralidade, assistência, preservação de propriedade, autoridades de facto, guerra, revolução, governo civil e proteção institucional. O possível acerto talvez esteja escondido precisamente dentro dessa linguagem burocrática.

A “EMPATIA RECÍPROCA” FOI O RESULTADO

Os vencedores lembraram-se do colégio. Fidel visitou a instituição, comeu ali, ouviu o coral e mostrou interesse por seu modelo educacional. Autoridades revolucionárias agradeceram a ajuda recebida. A própria historiografia adventista utilizou a expressão “empatia recíproca”. Mais tarde, a presença de Che Guevara tornou-se desejável num evento do próprio colégio porque acrescentaria prestígio e publicidade. O relacionamento iniciado ou aprofundado durante a batalha produziu acesso depois dela.

Esse resultado não precisa ser imaginado. Ele está na sequência dos fatos: assistência durante a luta, gratidão depois da vitória, visitas, convivência, interesse mútuo e utilização do prestígio dos novos governantes. O capital de relacionamento existiu. Os homens que tomaram o poder sabiam quem os havia ajudado, e a instituição soube utilizar posteriormente a proximidade criada com eles.

O SANGUE AINDA ESTAVA FRESCO

Enquanto essa reciprocidade começava, Santa Clara contava mortos, feridos e prisioneiros. Guerrilheiros morreram, homens das forças governistas morreram, civis foram atingidos e famílias perderam parentes. Há memória local de um adolescente de 14 anos que participou da resistência aos tanques com coquetéis incendiários, foi atingido e morto e teve o corpo posteriormente esmagado por um tanque. Milhares de soldados governistas terminaram capturados. A cidade transformada depois em símbolo revolucionário atravessou dias de tiros, bombas, medo e cadáveres.

A preservação física do campus não pode funcionar como resposta moral a essa história. Uma instituição cristã não é julgada somente pelo fato de ter sobrevivido a uma batalha. Precisa ser julgada também pelas escolhas que fez enquanto tentava sobreviver. A ausência de mortos dentro da propriedade não santifica automaticamente as decisões administrativas tomadas ali, porque sobrevivência física não é sacramento e proteção patrimonial não substitui fidelidade moral.

AOS MEMBROS, DISTÂNCIA DOS REINOS DESTE MUNDO; À ORGANIZAÇÃO, PORTAS ABERTAS NOS PALÁCIOS

Durante gerações, o adventista comum foi ensinado a respeitar profundamente a cadeia administrativa e a desconfiar de quem confrontasse suas decisões. Ao mesmo tempo, recebeu uma compreensão simplificada do apartidarismo, como se a Organização permanecesse naturalmente afastada dos poderes políticos e seculares. A história mostra administradores vivendo outra realidade: Washington, Brasília, Exército norte-americano, governos fascistas, programas estatais, União Soviética, palácio presidencial em Angola, polícia, tribunais, diplomacia e relações públicas. A Organização não vive fora dos reinos deste mundo. Ela aprende a circular entre eles.

Essa capacidade não concede autoridade espiritual adicional aos administradores. Produz exatamente a necessidade oposta: fiscalização, documentação e escrutínio. Uma instituição que possui patrimônio, interesses, departamentos especializados, relações internacionais e estratégias de sobrevivência pode tomar decisões movida por cálculos administrativos que não coincidem automaticamente com princípios bíblicos. A confiança não pode ser exigida com base no cargo, na comissão, no título ou no nível hierárquico.

A ASSOCIAÇÃO GERAL NÃO ADQUIRIU O DIREITO DE EXIGIR CONFIANÇA IRRESTRITA

A história aqui reunida retira da Associação Geral qualquer direito de exigir confiança irrestrita apenas porque ocupa o topo da estrutura denominacional. A mesma Organização que ensina apartidarismo aos membros desenvolveu durante décadas relações com governos, militares, regimes ideologicamente opostos, programas estatais e centros de poder. Seus administradores negociaram quando consideraram necessário, cooperaram quando identificaram vantagem institucional, procuraram autoridades quando precisaram de proteção e utilizaram a força do Estado quando conflitos internos chegaram a determinado ponto.

Por isso, quando a Organização invoca neutralidade, precisamos examinar suas relações; quando afirma ter prestado apenas assistência humanitária, precisamos medir a extensão concreta dessa assistência; quando classifica determinado ato como politicamente comprometedor, precisamos perguntar por que outros atos materialmente relevantes foram permitidos; quando um administrador demonstra conhecer uma fronteira tão precisa, precisamos descobrir de onde essa fronteira veio. O problema de Santa Clara não termina em Walton Brown porque Walton Brown fazia parte de uma estrutura muito maior que ele.

A GRÁFICA CONTINUA FALANDO

No sábado de 27 de dezembro de 1958, estudantes adventistas oraram enquanto a guerra cercava o Colegio de las Antillas. Nos dias seguintes, a instituição alimentou, recebeu, forneceu, atendeu e cooperou com pessoas ligadas à força revolucionária que conquistava Santa Clara. Brown encontrou Che Guevara e discutiu necessidades concretas. A memória adventista reconheceu o peso da ajuda e registrou que a propriedade serviu ao avanço final contra Batista. Depois vieram a vitória, os agradecimentos, Fidel, o coral, Che e a “empatia recíproca”. No centro dessa história, entretanto, uma máquina permaneceu parada porque os administradores sabiam que imprimir propaganda ultrapassaria a linha política que haviam decidido respeitar.

Esse silêncio é a pista. A administração que soube dizer não à propaganda também sabia que estava dizendo sim a todo o restante. Se Walton J. Brown conhecia a fronteira entre assistência admissível e comprometimento político formal, chegou a hora de descobrir quem estabeleceu essa fronteira, quem acompanhou sua aplicação e se houve, antes ou durante a tomada de Santa Clara, algum entendimento ou acerto que ensinasse aos administradores adventistas como colaborar com os vencedores sem colocar formalmente o nome da Organização na Revolução. A pergunta permanece: quem autorizou os adventistas a ajudar os homens de Che — e quem lhes ensinou exatamente onde deveriam dizer não?

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