
Resposta: Você, membrozinho comum, do dízimo insignificante.
O irmão Milton Afonso descansou. E talvez nunca tenha parecido tão importante para a Igreja Adventista do Sétimo Dia quanto agora, quando já não pode assinar cheque algum. As homenagens que se seguiram à sua morte confirmaram aquilo que décadas de relacionamento entre o empresário e a denominação já haviam demonstrado: não morreu simplesmente mais um adventista fiel, mas um homem que a própria Igreja reconheceu como seu principal apoiador privado nos projetos de comunicação e educação na América do Sul, associado durante décadas a bolsas de estudo, escolas, hospitais, assistência social, evangelismo, emissoras de rádio, televisão e estruturas que ajudaram a ampliar extraordinariamente a presença institucional adventista no continente. Seu nome foi colocado em espaços físicos da denominação, recebeu o título de patrono da comunicação adventista, sua história tornou-se documentário e seu centenário foi celebrado com a presença da mais alta liderança da Igreja.
Vamos chamá-lo ao longo deste artigo como seria chamado numa igreja adventista num sábado de manhã: o irmão Milton Afonso. A palavra será importante, porque irmão é irmão. Pelo menos deveria ser. O irmão milionário e o irmão que limpa gratuitamente o templo comparecem diante do mesmo Deus; a irmã empresária e a irmã que sobrevive com um salário mínimo possuem a mesma dignidade espiritual; o dízimo do grande empresário e o dízimo do pedreiro obedecem ao mesmo princípio religioso. O tamanho do patrimônio não deveria determinar o tamanho do irmão. A morte do irmão Milton, porém, oferece uma oportunidade rara para observar o que acontece dentro de uma organização religiosa quando um desses irmãos possui recursos suficientes para financiar sozinho projetos que dezenas de milhares de irmãos comuns jamais poderiam financiar individualmente.
“FOI A EXTENSÃO DOS BRAÇOS DE DEUS”
Entre as manifestações que começaram a circular depois da morte do irmão Milton Afonso, uma delas merece ser preservada pela extraordinária força das palavras escolhidas. Nas redes sociais e grupos de Whats App, irmãos resumiram sua vida afirmando: “Foi a extensão dos braços de Deus para milhares de pessoas.”
Não disseram simplesmente que ele foi generoso, que ajudou muita gente, que financiou a Igreja ou mesmo que Deus o utilizou para fazer o bem. A expressão vai muito além disso: apresenta o irmão Milton como “extensão dos braços de Deus”. Talvez quem a escreveu nem tenha percebido a enormidade teológica da metáfora, mas justamente por isso ela revela com impressionante espontaneidade o ponto a que chegou a sacralização da memória do grande patrocinador.
Jesus empregou uma imagem semelhante, porém extraordinariamente mais solene, em Lucas 11:20. Respondendo à acusação de que expulsava demônios por poder maligno, declarou: “se é pelo dedo de Deus que expulso demônios, então chegou a vocês o Reino de Deus”. O texto paralelo de Mateus 12:28 utiliza a expressão “Espírito de Deus”. Nas Escrituras, portanto, o “dedo de Deus” aparece como linguagem da manifestação do próprio poder divino. Agora releia a homenagem feita ao irmão Milton: “Foi a extensão dos braços de Deus para milhares de pessoas”. O dedo já era de Deus. Agora deram-Lhe braços — e disseram que sua extensão foi o irmão Milton Afonso.
É difícil imaginar homenagem mais elevada. O milionário que durante décadas financiou projetos denominacionais deixa de ser apresentado apenas como doador e passa a ocupar, na linguagem religiosa de seus admiradores, uma posição quase anatômica na metáfora da atuação divina. É nesse ponto que surge uma pergunta que deveria incomodar especialmente uma igreja que afirma não fazer acepção entre seus membros: quantos milhões são necessários para que uma Organização transforme um irmão em braço de Deus?
O IRMÃO MILTON NÃO ERA UM DOADOR QUALQUER
Não precisamos diminuir aquilo que o irmão Milton Afonso realizou para tornar a história incômoda; basta medir aquilo que a própria denominação conta. A memória adventista associa seu nome à educação de milhares de estudantes, à assistência social, à saúde, ao evangelismo e, de maneira especialmente importante, à expansão dos meios de comunicação da Igreja. Seu nome foi dado a espaços denominacionais, recebeu o título de patrono da comunicação adventista na América do Sul e, quando completou cem anos, sua vida foi celebrada numa cerimônia que reuniu dirigentes sul-americanos e o próprio presidente mundial da IASD. Em outra homenagem, o presidente da Divisão Sul-Americana, Stanley Arco, relacionou a existência de numerosos templos, escolas, colégios, universidades e emissoras à “bênção de Deus” e à generosidade de Milton Afonso.
A associação merece ser observada cuidadosamente porque reaparece em diferentes formas: bênção de Deus e generosidade do irmão Milton; homem usado por Deus; missionário; patrono; benfeitor; e, finalmente, “extensão dos braços de Deus”. Não estamos diante de uma simples nota de agradecimento a alguém que colaborou com uma campanha de construção. Estamos diante da formação de uma memória denominacional na qual fortuna, filantropia, prosperidade, fidelidade e providência divina vão sendo progressivamente entrelaçadas até que se torna difícil distinguir onde termina a homenagem ao doador e onde começa a construção de um personagem exemplar para a espiritualidade financeira adventista.
MAS DE QUEM ERA, AFINAL, O DINHEIRO?
É justamente aqui que precisamos abandonar por alguns instantes a linguagem das homenagens e entrar na contabilidade. Quando ouvimos durante décadas que “Milton ajudou”, “Milton doou” ou “Milton financiou”, é natural imaginar o irmão Milton Afonso retirando dinheiro de sua conta pessoal e entregando-o diretamente à Igreja. A documentação histórica, porém, mostra que nem sempre é essa a descrição adequada. Em projetos importantes aparece explicitamente a Golden Cross, companhia fundada pelo empresário. Há registro público de aproximadamente um milhão de dólares destinado pela Golden Cross à propagação adventista no chamado mundo russo, apresentado naquele contexto como parte de sua filantropia, e a própria historiografia adventista relaciona a companhia ao avanço tecnológico que possibilitou à comunicação denominacional utilizar satélite durante um período decisivo de sua expansão.
A diferença é fundamental. Uma coisa é o irmão Milton retirar um milhão de dólares de seu patrimônio pessoal e entregá-lo à Igreja; outra é uma empresa desembolsar um milhão dentro de sua atividade filantrópica. O benefício recebido pela denominação pode ser exatamente o mesmo — um milhão continua sendo um milhão para quem o recebe —, mas a história econômica da operação não é a mesma. Por isso, antes de reunirmos tudo sob a expressão confortável “doações de Milton”, precisamos perguntar quanto saiu efetivamente do patrimônio pessoal do irmão Milton, quanto saiu da Golden Cross e quanto foi desembolsado por outras empresas, fundações ou entidades relacionadas à estrutura empresarial e filantrópica que ele comandava.
FILANTROPIA É BONDADE, MAS TAMBÉM É CONTABILIDADE
A palavra “filantropia” produz uma imagem quase automaticamente positiva dentro de uma igreja. Pensamos em órfãos alimentados, estudantes pobres recebendo bolsas, hospitais atendendo necessitados, missionários enviados a lugares distantes e escolas abertas para crianças sem recursos. Mas numa organização empresarial de grande porte a filantropia também possui dimensões jurídicas, contábeis e tributárias, e esse aspecto esteve presente na história da Golden Cross. A condição filantrópica da organização esteve relacionada a vantagens tributárias economicamente relevantes, a ponto de a perda dessa condição aparecer na imprensa empresarial como uma diferença financeira que precisaria ser compensada pelo aumento da competitividade da companhia.
É justamente por isso que seria irresponsável reduzir toda essa história à frase simplista de que o irmão Milton “doava para pagar menos imposto”. A questão documental é muito mais interessante e muito maior: como eram contabilizados os recursos destinados aos projetos adventistas quando saíam da estrutura empresarial e filantrópica? Essa pergunta ganha peso porque a filantropia da Golden Cross esteve no centro de grandes controvérsias fiscais durante a década de 1990, quando autoridades questionaram a classificação de determinadas despesas apresentadas em relatórios de filantropia. O ponto relevante para nós não é transformar este artigo num catálogo de processos contra um homem morto, mas compreender que “filantropia”, naquele ecossistema, tinha também consequências econômicas concretas.
Isso significa que a história denominacional do grande benfeitor ainda possui uma contabilidade praticamente invisível ao membro comum. Quando se afirma que o irmão Milton ajudou milhares de estudantes, financiou evangelismo ou participou da expansão da comunicação, permanece aberta uma pergunta extremamente simples: quem efetivamente desembolsou cada milhão, de qual caixa ele saiu e como aquele desembolso foi registrado? Enquanto essa conta não for aberta, a expressão “Milton deu” pode estar reunindo sob o mesmo nome operações economicamente bastante diferentes.
QUANTO CUSTAVA REALMENTE UM MILHÃO DOADO?
Essa pergunta deveria interessar especialmente a uma Igreja que transformou a trajetória financeira do irmão Milton em exemplo espiritual. Um milhão retirado do patrimônio pessoal de alguém é uma coisa; um milhão desembolsado por uma empresa dentro de um programa de filantropia é outra; um milhão que participa do cumprimento de requisitos ligados a determinada condição filantrópica é outra; e um milhão cujo desembolso produz consequências tributárias também é outra. Em todos os casos, a instituição beneficiária pode receber exatamente um milhão, mas o custo econômico efetivamente suportado pelo doador não precisa ser idêntico.
Décadas depois, entretanto, todas essas possibilidades podem desaparecer dentro de uma frase devocional: “O irmão Milton deu um milhão para a obra de Deus”. É justamente essa simplificação que merece ser examinada. Não para negar que estudantes tenham estudado, escolas tenham recebido recursos, emissoras tenham sido adquiridas ou estruturas de comunicação tenham sido construídas, mas para descobrir como a generosidade celebrada pela Igreja funcionava economicamente na origem. Uma denominação que transforma a prosperidade de um empresário em testemunho religioso deveria ser igualmente interessada em explicar a engenharia financeira da filantropia que tornou possível parte desse testemunho.
UM PASTOR ADVENTISTA DIRIGIA A FILANTROPIA DA GOLDEN CROSS
A proximidade entre o mundo empresarial do irmão Milton e o ambiente adventista era suficientemente grande para que um pastor adventista aposentado, Sesóstris César Souza, se tornasse diretor do Departamento de Filantropia da Golden Cross e permanecesse nessa atividade durante aproximadamente duas décadas. Sob sua administração foram desenvolvidos importantes projetos assistenciais, entre eles a construção de orfanatos para meninas. O dado é especialmente revelador porque impede que imaginemos dois mundos estanques, um empresarial e outro denominacional, que eventualmente se encontravam apenas quando um cheque atravessava a porta da igreja.
Havia adventistas trabalhando dentro da Golden Cross, religião presente no ambiente empresarial, filantropia administrada por adventista e dinheiro empresarial chegando a projetos ligados ao adventismo. Existia, portanto, um ecossistema no qual fé, empresa, assistência, educação e denominação se encontravam continuamente. Décadas depois, a memória institucional concentrou grande parte dessa história numa figura individual: o irmão Milton Afonso, o grande benfeitor. É justamente por isso que reconstruir a origem dos recursos não diminui sua importância; permite compreender o verdadeiro tamanho e a verdadeira natureza de sua influência.
QUANTOS PASTORES FORAM FORMADOS COM ESSE DINHEIRO?
A quantidade de estudantes atribuída à ajuda do irmão Milton impressiona. Diferentes homenagens falam em milhares ou dezenas de milhares de beneficiados, e há referências que chegam à casa de aproximadamente 60 mil estudantes. Se esses números fazem parte da memória construída em torno do grande patrocinador, existe uma informação que deveria ser especialmente relevante para a história da IASD: quantos desses estudantes cursaram Teologia e posteriormente se tornaram pastores adventistas? Quantos se tornaram administradores? Quantos chegaram aos escalões denominacionais que, anos depois, participariam das homenagens ao homem que ajudou a financiar sua formação ou a instituição onde estudaram?
A pergunta não pressupõe qualquer irregularidade. Seu interesse está justamente no contrário: se o apoio foi tão extraordinário quanto a Igreja afirma, então precisamos medir sua influência real sobre a formação do próprio corpo pastoral adventista. Talvez o irmão Milton não tenha apenas financiado prédios, emissoras e escolas; talvez tenha ajudado a formar uma parcela relevante das pessoas que posteriormente ocupariam púlpitos e escritórios da denominação. Se foi assim, a expressão “extensão dos braços de Deus” ganha ainda outra dimensão: alguns dos homens que hoje o homenageiam podem pertencer a gerações ministeriais formadas dentro de estruturas educacionais que sua fortuna ajudou a sustentar.
O IRMÃO MILTON AJUDOU A CONSTRUIR O PÚLPITO QUE AGORA O ELOGIA
Talvez nenhuma área demonstre essa relação com tanta clareza quanto a comunicação. O irmão Milton Afonso não foi simplesmente um empresário que, no fim da vida, recebeu elogios da mídia adventista. Ele participou da construção e expansão dessa própria mídia. Rádio, televisão, satélite, imóveis, instalações e infraestrutura aparecem repetidamente na história de seu relacionamento com a denominação. Décadas depois, quando ele morre, a máquina de comunicação que ajudou a construir conta ao continente quem ele foi, relembra suas contribuições e preserva sua memória.
Há uma circularidade quase perfeita nessa relação: o patrocinador ajudou a construir o púlpito; o púlpito agora eterniza o patrocinador. Isso não apaga nenhum benefício produzido pelos investimentos, mas explica por que a memória institucional de um grande financiador merece ser lida também como produto da própria estrutura que recebeu seus recursos. A Novo Tempo não está falando apenas de um membro ilustre da Igreja; está falando de alguém que participou materialmente da construção daquilo que a Novo Tempo se tornou.
QUANDO UM IRMÃO É MAIS IRMÃO QUE OS OUTROS
É aqui que a palavra “irmão” começa a incomodar. O irmão Milton Afonso recebeu praça, teve seu nome colocado em instalações, tornou-se patrono da comunicação adventista, ganhou documentário biográfico, recebeu homenagens de dirigentes continentais e mundiais e chegou ao fim da vida cercado por uma memória institucional que associava sua generosidade à bênção divina. Depois de morto, essa linguagem continua crescendo, chegando agora à definição de que teria sido “a extensão dos braços de Deus para milhares de pessoas”.
Compare esse tratamento com o do irmão que permaneceu durante quarenta ou cinquenta anos no último banco de uma igreja pequena. Ele trabalhou, devolveu dízimos, entregou ofertas, ajudou a comprar material para reformas, participou da construção do templo, contribuiu para missões, sustentou campanhas, colocou combustível no próprio carro para trabalhar gratuitamente para a Igreja e talvez tenha ajudado Novo Tempo durante anos com pequenas contribuições. Quando morreu, recebeu uma homenagem sincera de sua congregação, algumas palavras do pastor e o carinho daqueles que o conheceram. Depois veio o sábado seguinte. Não houve praça, edifício, documentário, patronato nem presidente mundial atravessando continentes. Ele também era irmão. Apenas não era um irmão milionário.
A VIÚVA NÃO GANHOU NEM UMA PLAQUINHA
Há uma mulher no Evangelho de Marcos que torna toda essa discussão especialmente constrangedora. Jesus observava pessoas depositando dinheiro no gazofilácio enquanto muitos ricos entregavam grandes quantias. Então apareceu uma viúva pobre e colocou apenas duas pequenas moedas. Financeiramente, sua contribuição era insignificante diante do que os ricos depositavam, mas Jesus chamou os discípulos e declarou que ela havia dado mais do que todos, porque os outros contribuíram do que lhes sobrava enquanto ela, de sua pobreza, entregara tudo o que possuía para viver.
Nem o nome dessa mulher conhecemos. Não existe Praça da Viúva Pobre, Edifício Viúva do Gazofilácio ou título de Patrona das Finanças do Templo. Não conhecemos sacerdote algum que tenha organizado uma cerimônia em sua homenagem nem alguém que a tenha chamado de extensão dos braços de Deus. Ela entregou tudo e permaneceu anônima. O detalhe é devastador porque revela que a contabilidade de Jesus utilizava uma unidade de medida completamente diferente da contabilidade institucional: o homem olha para quanto entrou; Cristo também olha para quanto ficou. A viúva entregou quase nada e ficou sem nada; o milionário pode entregar milhões e continuar milionário. Na contabilidade administrativa, o milionário vence de lavada. Na contabilidade apresentada por Jesus, a conclusão pode ser exatamente a inversa.
JESUS TAMBÉM ENCONTROU UM HOMEM RICO
Outro personagem dos Evangelhos torna o contraste ainda mais desconfortável. Um homem rico procurou Jesus querendo saber o que precisava fazer para alcançar a vida eterna, e Cristo chegou exatamente ao ponto que mais lhe doía: mandou que vendesse o que possuía, entregasse aos pobres e O seguisse. O homem foi embora triste. Jesus não lhe ofereceu uma placa em troca de uma grande contribuição, não negociou percentual, não propôs colocar seu nome numa ala do templo nem sugeriu que conservasse a fortuna e financiasse um grande projeto religioso. Pediu tudo. Em linguagem de mordomia adventista, poderíamos dizer que Jesus apresentou ao jovem rico o plano de devolução mais radical das Escrituras: dízimo de cem por cento.
A comparação é inevitável porque a religião contemporânea encontrou maneiras muito mais confortáveis de conciliar riqueza e espiritualidade. O milionário pode continuar milionário, entregar parte de sua fortuna, financiar obras religiosas e ter sua própria prosperidade apresentada como testemunho da bênção divina. O problema não está em alguém possuir dinheiro ou utilizá-lo para ajudar pessoas; está na facilidade com que uma instituição beneficiada pelo dinheiro transforma a prosperidade do benfeitor em argumento espiritual sem aplicar ao pobre o mesmo critério de sucesso.
A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE ADVENTISTA SÓ FUNCIONOU PARA O IRMÃO MILTON?
A trajetória do irmão Milton Afonso foi utilizada pela própria literatura adventista como exemplo de fidelidade financeira, confiança em Deus, generosidade e prosperidade. A narrativa é sedutora: o homem coloca Deus em primeiro lugar, é fiel, devolve dízimos, entrega ofertas, ajuda a obra, prospera e, porque prospera, pode ajudar ainda mais. Sua prosperidade passa então a funcionar como testemunho da bênção recebida, criando uma circularidade perfeita na qual fidelidade explica prosperidade e prosperidade confirma fidelidade.
Não é necessário colocar uma placa escrita “Teologia da Prosperidade” na porta para perceber o problema. Milhões de adventistas também devolveram dízimos durante a vida inteira e não ficaram milionários; colocaram Deus em primeiro lugar e continuaram pobres; entregaram ofertas e continuaram pagando aluguel; guardaram o sábado e continuaram contando dinheiro no supermercado; morreram fiéis sem que nenhum presidente mundial aparecesse no funeral. Quando a prosperidade do irmão Milton é transformada em demonstração da bênção de Deus, o membro pobre tem o direito de perguntar por que sua fidelidade de quarenta ou cinquenta anos não produziu a mesma prosperidade. Talvez a teologia da prosperidade adventista funcione melhor quando o fiel já possui uma Golden Cross.
E KELLOGG? TAMBÉM ERA RICO, IRMÃOS.
Existe ainda um personagem que não pode faltar nesta conversa: John Harvey Kellogg. Ele também administrou dinheiro, instituições e poder dentro do adventismo, transformando o Sanatório de Battle Creek numa instituição internacionalmente conhecida e acumulando influência extraordinária. Sua relação com a estrutura denominacional, porém, terminou de maneira radicalmente diferente. Kellogg entrou em conflito com a Organização, disputou controle institucional e acabou do lado de fora; o irmão Milton colocou durante décadas recursos gigantescos a serviço de projetos que a Organização desejava realizar e terminou transformado em patrono e exemplo de generosidade.
Um tornou-se advertência histórica; o outro, modelo. Um ficou associado na memória denominacional à crise, independência e apostasia; o outro, à fidelidade, generosidade, missão e bênção. As diferenças entre as duas histórias são muitas e não precisam ser apagadas para que o contraste central permaneça provocador: qual é o verdadeiro pecado imperdoável de um milionário adventista — possuir poder demais ou possuir poder demais sem colocá-lo a serviço da Organização?
O IRMÃO MILTON DESCANSA. SUA MEMÓRIA NÃO.
A doutrina adventista ensina que os mortos descansam inconscientes até a ressurreição. O irmão Milton Afonso descansa, mas sua memória denominacional trabalha em horário extraordinário. Patrono, benfeitor, missionário, exemplo, homem usado por Deus, personagem associado à bênção e agora “extensão dos braços de Deus”: a sucessão de títulos e metáforas religiosas começa a produzir algo que se aproxima menos de um simples agradecimento e mais de uma hagiografia financeira. Daqui a pouco será preciso antecipar a ressurreição especial apenas para que a Organização possa homenageá-lo pessoalmente outra vez.
Enquanto isso, a viúva continua sem nome. E talvez esse seja o detalhe mais profundamente cristão e mais profundamente inconveniente desta história: Jesus conseguiu enxergar grandeza financeira onde a instituição provavelmente enxergava insignificância. A mulher que não tinha patrimônio, empresa, influência nem milhões chamou a atenção do Filho de Deus com duas moedas. Dois mil anos depois, organizações religiosas continuam correndo o risco de enxergar exatamente ao contrário.
E AGORA, QUEM PAGA A CONTA?
O irmão Milton Afonso morreu, mas toda a estrutura que ele ajudou a financiar permaneceu de pé. Permaneceram prédios, universidades, escritórios, departamentos, emissoras, estúdios, equipamentos, folhas de pagamento e administrações. Permaneceu, sobretudo, uma estrutura continental que não entra em estado de repouso enquanto aguarda a ressurreição de seus grandes patrocinadores. As despesas vencem todos os meses, e é justamente aí que reaparece aquele personagem quase invisível nas grandes cerimônias: você, o membro comum, cujo dízimo isoladamente parece insignificante, mas que, multiplicado pelo dízimo igualmente insignificante de centenas de milhares de outros irmãos, transforma-se numa corrente financeira permanente.
Durante décadas houve um irmão capaz de participar de projetos numa escala inalcançável para o adventista comum. Um grande patrocinador pode resolver de uma vez aquilo que milhares de pequenos membros demorariam anos para financiar. Agora esse irmão descansa, mas os milhares de pequenos continuam vivos, trabalhando e devolvendo. Separadamente são R$ 100, R$ 200, R$ 300, R$ 500 ou qualquer outro valor que desaparece dentro de uma estrutura continental. Juntos, porém, esses pequenos valores formam uma fortuna. É aí que o membrozinho que não ganha praça, prédio, documentário ou título de patrono se torna absolutamente indispensável.
VOCÊ, MEMBROZINHO COMUM, DO DÍZIMO INSIGNIFICANTE
Você provavelmente nunca será patrono da comunicação adventista, não terá uma praça com seu nome nem verá seu sobrenome colocado num edifício. O presidente de sua Associação talvez não saiba quem você é; o presidente da União provavelmente nunca viu seu rosto; o presidente da Divisão talvez jamais ouça seu nome; e o presidente mundial certamente não atravessará um oceano para comemorar seu centenário. Quando você morrer, talvez sua igreja coloque uma fotografia no telão, o pastor diga algumas palavras sinceras sobre sua fidelidade e sua família receba abraços. Depois chegará o sábado seguinte, e a Organização continuará funcionando.
Mas não se engane sobre sua importância financeira. Seu dízimo pode ser insignificante quando comparado aos milhões de um grande patrocinador, e seu nome pode desaparecer sem deixar uma placa sequer, mas multiplique você por centenas de milhares de outros membros igualmente pequenos e teremos a verdadeira corrente financeira permanente da denominação. O milionário pode financiar um projeto extraordinário de uma vez; o membro comum financia a rotina todos os meses, durante décadas, sem precisar ser convidado para nenhuma cerimônia. É o pequeno contribuinte religioso, anônimo e constante, que permanece quando o grande patrocinador morre.
OS BRAÇOS DESCANSARAM. AS CONTAS NÃO.
Disseram que o irmão Milton Afonso foi “a extensão dos braços de Deus para milhares de pessoas”. Pois os braços agora descansam. A IASD continua, a Divisão Sul-Americana continua, a Novo Tempo continua, as instituições continuam, os departamentos continuam e as despesas continuam chegando. Os boletos, afinal, não creem no estado inconsciente dos mortos: vencem todos os meses, independentemente de quem esteja aguardando a ressurreição.
Então, quem pagará as contas da IASD na Divisão Sul-Americana a partir de agora? A resposta está todos os sábados diante do púlpito, muitas vezes sem que ninguém perceba sua importância. É você, irmãozinho; é você, irmãzinha; é você, membrozinho comum, com seu dízimo aparentemente insignificante. Talvez ninguém coloque seu nome numa praça, talvez nenhum edifício seja batizado em sua homenagem e talvez pastor algum o descreva como extensão dos braços de Deus. Mas há uma coisa sobre a qual você pode ter absoluta certeza: na hora de pagar as contas, a Organização jamais esquecerá que você existe.
NOTA FINAL — DÍZIMO BÍBLICO NÃO É BOLETO DENOMINACIONAL
Há ainda uma distinção que precisa ser feita para que ninguém confunda fidelidade a Deus com submissão automática ao sistema financeiro criado por uma denominação. A Bíblia ensina o dízimo, mas não contém qualquer mandamento determinando que o cristão entregue obrigatoriamente dez por cento de sua renda em dinheiro a uma Associação administrativa da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A estrutura Associação–União–Divisão–Associação Geral, os mecanismos modernos de remessa, os percentuais administrativos e os destinos estabelecidos pela Organização pertencem ao sistema denominacional adventista; não são instituições prescritas pela Escritura. No Antigo Testamento, os dízimos aparecem ligados à produção da terra e dos rebanhos, ao sustento dos levitas, às festas religiosas e também ao cuidado dos vulneráveis, com diferentes disposições em textos como Levítico 27, Números 18 e Deuteronômio 14. Mesmo quando dinheiro aparece no procedimento, como em Deuteronômio 14:24-26, ele não corresponde simplesmente ao atual sistema de recolhimento de dez por cento do salário em dinheiro por uma administração eclesiástica.
O Novo Testamento também não estabelece uma Associação como destinatária obrigatória de dez por cento da renda do cristão. As comunidades cristãs são ensinadas a sustentar aqueles que trabalham na proclamação do evangelho, socorrer irmãos necessitados e contribuir para a obra de Deus, mas Paulo descreve a contribuição cristã com uma linguagem que merece ser lembrada sempre que a oferta religiosa começa a parecer cobrança: “cada um contribua segundo propôs no coração, não com tristeza ou por necessidade” (2 Coríntios 9:7). Em 1 Coríntios 16:2, ele recomenda que cada um separe conforme sua prosperidade; em 2 Coríntios 8 e 9, insiste na disposição voluntária e na generosidade. Não encontramos ali uma tabela denominacional de ofertas obrigatórias, muito menos “segundo dízimo”, percentuais adicionais, pactos ou programas financeiros contemporâneos apresentados como se cada detalhe administrativo tivesse descido pronto do Sinai.
Isso não significa que seja antibíblico uma igreja organizar tesouraria, sustentar ministros, financiar evangelismo ou estabelecer métodos para distribuir os recursos que seus membros voluntariamente lhe confiam. Significa algo bem diferente e muito mais importante: uma regra administrativa da IASD deve ser apresentada como regra administrativa da IASD, e não promovida automaticamente à categoria de mandamento explícito de Deus. A Igreja pode ensinar seu sistema de mordomia, explicar por que prefere que o dízimo seja encaminhado pela tesouraria e convidar seus membros a sustentá-lo. O que não pode fazer sem demonstrá-lo biblicamente é transformar cada mecanismo criado pela Organização em equivalente moderno obrigatório do sistema bíblico e depois tratar quem questiona o mecanismo como se estivesse necessariamente roubando a Deus.
E essa distinção torna-se ainda mais necessária quando se fala em ofertas adicionais exigidas, metas, percentuais sugeridos que acabam tratados como dever espiritual, “pactos”, campanhas e outras modalidades de arrecadação. Oferta compulsória é uma contradição nos próprios termos. Se determinada porcentagem não foi ordenada pela Escritura, a Organização pode recomendá-la, explicar sua finalidade e pedir a colaboração dos membros; não deveria atribuir a Deus uma obrigação que precisa primeiro ser encontrada num manual denominacional. O cristão pode decidir sustentar generosamente sua igreja — até muito além de dez por cento —, mas generosidade cristã e tributação eclesiástica não são sinônimos.
Portanto, antes de alguém dizer ao “membrozinho comum” que Deus exige que determinado dinheiro percorra obrigatoriamente determinado caminho administrativo, mostre o texto bíblico. Não o Manual da Igreja. Não o regulamento financeiro. Não o material do departamento de Mordomia. Não a tradição denominacional. Não a necessidade orçamentária da Associação. A Bíblia. Se a obrigação é apresentada como ordem de Deus, é da Palavra de Deus que precisa vir a ordem.
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TÔ DENTRO, MAS TÔ FORA! — Os que ainda não saíram, mas pararam de pagar o dízimo





