
Depois de conhecermos os documentos que revelam a parceria da Associação Geral com a propaganda de Adolf Hitler, a destruição de uma edição missionária considerada inconveniente ao regime nazista e o abandono à morte de adventistas perseguidos, não basta pedir desculpas, inaugurar memoriais ou anunciar novos programas de evangelização. Nossa proposta é radical: Erton Köhler deveria convocar a liderança mundial para reconhecer a falência moral da instituição, iniciar sua dissolução definitiva, vender seu patrimônio, indenizar os descendentes das vítimas e encerrar a estrutura administrativa que reivindica representar a última mensagem de Deus à humanidade.
O dia em que a Igreja deveria anunciar o próprio encerramento
Em 22 de outubro de 2026, quando se completarem 182 anos do Grande Desapontamento de 1844, o presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Erton Carlos Köhler, deveria comparecer diante das câmeras, convocar uma transmissão internacional e pronunciar o discurso mais importante de toda a história da denominação. Não deveria anunciar uma nova campanha missionária, uma meta de batismos, um projeto de arrecadação, uma iniciativa de crescimento ou outra dessas celebrações administrativas nas quais a organização apresenta seus próprios números como se fossem certificados de aprovação celestial. Deveria anunciar o reconhecimento público de que a instituição perdeu a autoridade moral para continuar apresentando-se como porta-voz privilegiada de Deus, especialmente depois de sua colaboração documentada com a propaganda de Adolf Hitler. Deveria pedir perdão à humanidade, às vítimas do nazismo, aos judeus perseguidos, aos adventistas reformistas, aos membros abandonados pela própria denominação e aos descendentes daqueles que morreram enquanto dirigentes religiosos procuravam preservar relações com um dos regimes mais criminosos da história. E deveria apresentar, naquele mesmo pronunciamento, uma proposta formal de encerramento definitivo da estrutura mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
A escolha de 22 de outubro não seria casual. Foi nessa data, em 1844, que milhares de seguidores do movimento milerita aguardaram a volta de Jesus Cristo e experimentaram o acontecimento posteriormente conhecido como Grande Desapontamento. A própria história oficial adventista reconhece que a expectativa não se cumpriu. Daquele fracasso nasceu uma tradição religiosa que reinterpretou a data e construiu uma doutrina sobre o início de uma fase especial do ministério celestial de Cristo. Em 2026, entretanto, a instituição poderia enfrentar outro desapontamento, desta vez produzido não por uma expectativa profética frustrada, mas pela descoberta de que a organização que se dizia depositária da verdade participou da propaganda de Hitler, justificou relações com seu governo e mandou destruir uma publicação missionária já impressa. Se a denominação insiste em associar 22 de outubro ao juízo, à purificação e ao exame dos registros, que comece examinando os próprios arquivos, as próprias decisões e a própria responsabilidade histórica.
O presidente atual não praticou os crimes do passado, mas preside a instituição que precisa responder por eles
Erton Köhler não era nascido quando Hulda Jost percorreu os Estados Unidos defendendo Adolf Hitler. Não participou da assembleia mundial de São Francisco em 1936, não assinou a correspondência enviada ao Führer e não votou a ordem de destruição de The New Caesars em 1938. Nossa cobrança não pretende atribuir a ele atos que não praticou. A questão é institucional: Köhler ocupa hoje a presidência da Associação Geral, precisamente a organização cujos arquivos conservam documentos comprometedores sobre a colaboração adventista com o Terceiro Reich. Ao aceitar a presidência mundial, recebeu não apenas o prestígio do cargo, as prerrogativas administrativas e a responsabilidade de representar milhões de membros, mas também o dever de responder pela história da instituição que dirige. Não pode escolher apenas as páginas convenientes dessa história, celebrando pioneiros, missionários e dirigentes considerados exemplares enquanto os documentos sobre Hitler permanecem tratados como episódios periféricos.
A autoridade de um presidente religioso não pode servir exclusivamente para defender a continuidade da organização. Também deveria permitir-lhe reconhecer quando a própria estrutura se tornou moralmente insustentável. Se a Associação Geral possui legitimidade para convocar assembleias, distribuir recursos, estabelecer políticas, orientar editoras e reorganizar instituições, seu presidente deveria ter coragem para propor à representação mundial o ato administrativo mais radical de todos: a dissolução da estrutura que já não merece a confiança que exige dos fiéis. Não estamos sugerindo que Köhler possa vender sozinho, mediante uma assinatura, propriedades pertencentes a diferentes entidades jurídicas espalhadas pelo planeta. Estamos exigindo que utilize a autoridade de seu cargo para convocar os órgãos competentes e iniciar um processo mundial de liquidação institucional, reparação histórica e encerramento definitivo.
A Igreja que pregava contra os reis da terra fez propaganda para Hitler
É impossível discutir o futuro moral da Associação Geral sem recordar o que nossa investigação já apresentou. Desde 1935, a administração mundial adventista participou da preparação da viagem de Hulda Jost aos Estados Unidos, operação que contou com a colaboração do Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels, do Ministério das Relações Exteriores alemão, da embaixada da Alemanha em Washington e de seus consulados. Em 1936, Jost percorreu o território americano com um programa de mais de 140 conferências previstas, utilizando igrejas adventistas, instituições denominacionais e outros auditórios para defender Hitler, justificar seu governo e minimizar denúncias de perseguição aos judeus. A campanha culminou na assembleia mundial adventista de São Francisco, diante de representantes internacionais da denominação. O historiador Roland Blaich documentou essa operação em Selling Nazi Germany Abroad: The Case of Hulda Jost, com base em correspondências da Associação Geral e arquivos do próprio governo nazista.
A dirigente adventista chegou a escrever diretamente a Adolf Hitler, em 30 de abril de 1936, prestando contas dos resultados obtidos nos Estados Unidos e identificando a colaboração dos principais administradores adventistas e das autoridades diplomáticas alemãs. G. W. Schubert, presidente da Divisão Centro-Europeia, posteriormente reconheceu a propaganda mundial realizada em favor do Terceiro Reich diante da assembleia internacional de São Francisco. O Ministério da Propaganda também reconheceu a utilidade política dessa colaboração. Não se trata de uma acusação construída exclusivamente a partir da indignação de críticos da denominação. Trata-se de uma sequência documental na qual dirigentes adventistas e autoridades nazistas registraram sua própria cooperação. A instituição que ensinava seus membros a denunciar os poderes perseguidores abriu suas estruturas à promoção internacional de um governo que perseguia adversários, discriminava judeus e avançava na construção de uma ditadura totalitária.
O escândalo não termina na propaganda. Em março de 1938, a Comissão da Associação Geral determinou a retirada e destruição de uma edição já impressa de The New Caesars, de Gwynne Dalrymple, preparada pela Pacific Press para distribuição missionária. O livro havia sido anunciado ao público, seria vendido por 25 centavos e integrava uma iniciativa destinada também a financiar a expansão evangelística. Roland Blaich registrou a decisão em Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church, identificando a política aprovada em 10 de março de 1938 e a circular expedida por J. L. McElhany em 14 de março. A administração mundial considerou que a circulação da obra prejudicaria as atividades adventistas na Europa e ordenou sua destruição. A Igreja que havia colaborado com a promoção de Hitler utilizou sua autoridade para impedir que uma publicação missionária considerada inconveniente chegasse aos leitores.
Uma organização que fez isso não deveria continuar vendendo superioridade espiritual
Durante gerações, a Igreja Adventista apresentou sua interpretação das profecias como advertência especial contra a união entre religião e Estado. Denunciou os reis da terra, os poderes perseguidores, a apostasia religiosa e a submissão da consciência aos governantes. Entretanto, quando Hitler chegou ao poder, publicistas adventistas alemães exaltaram sua liderança, dirigentes procuraram justificar biblicamente a cooperação com o Estado nazista e a própria Associação Geral participou de uma operação que beneficiou sua propaganda internacional. A contradição não poderia ser mais profunda. Uma denominação que pretendia ensinar o mundo a reconhecer os novos césares colaborou com a promoção de um deles e, posteriormente, determinou a destruição de um livro missionário intitulado justamente Os Novos Césares.
Que autoridade moral resta a uma instituição que apresenta a si mesma como guardiã da verdade, mas cuja administração mundial participou de acontecimentos dessa natureza? Com que legitimidade continua cobrando dízimos, ofertas, fidelidade administrativa e obediência denominacional enquanto evita uma prestação de contas mundial sobre sua colaboração com o regime nazista? Por que seus dirigentes continuam celebrando conquistas institucionais, inaugurando templos, ampliando propriedades e divulgando estatísticas de crescimento sem colocar no centro de sua memória oficial os documentos que mostram a participação da Associação Geral na propaganda de Hitler? Não estamos questionando a liberdade de indivíduos professarem sua fé, guardarem o sábado, estudarem a Bíblia ou anunciarem a volta de Cristo. Estamos questionando o direito moral de uma corporação religiosa continuar reivindicando autoridade espiritual especial depois de uma história institucional que inclui parceria propagandística com o Terceiro Reich e censura de literatura missionária para preservar sua atuação sob aquele regime.
Erton Köhler deveria começar anunciando a dissolução da Associação Geral
Nossa proposta é que, em 22 de outubro de 2026, Erton Köhler apresente à liderança mundial uma resolução de dissolução voluntária da Associação Geral e de encerramento coordenado das estruturas denominacionais vinculadas à organização. O processo deveria começar pela suspensão dos programas de expansão patrimonial, pela interrupção de campanhas destinadas a aumentar a arrecadação institucional e pela convocação de uma assembleia extraordinária dedicada exclusivamente à reparação histórica e à liquidação administrativa. A denominação deveria abandonar a pretensão de preservar indefinidamente sua própria existência e reconhecer que a continuidade de uma estrutura religiosa não constitui um valor superior à verdade, à justiça e à responsabilidade diante das vítimas.
Não queremos outra comissão encarregada de produzir um documento de arrependimento que será arquivado, traduzido para alguns idiomas e apresentado como prova de sensibilidade institucional. Não queremos uma cerimônia com dirigentes emocionados, uma oração cuidadosamente redigida, um minuto de silêncio e uma fotografia oficial diante de algum monumento. Queremos uma decisão que atinja o centro do poder denominacional. Queremos que a Associação Geral reconheça que a própria estrutura administrativa participou de atos incompatíveis com a mensagem religiosa que afirmava representar. E queremos que esse reconhecimento produza consequências materiais, administrativas e financeiras, começando pelo encerramento da organização que continua beneficiando-se do prestígio e dos recursos acumulados ao longo de sua história.
Venda dos templos, sedes administrativas e demais propriedades
O passo seguinte deveria ser o levantamento completo do patrimônio mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, incluindo sedes administrativas, propriedades imobiliárias, centros de convenções, instalações recreativas, imóveis comerciais, estruturas editoriais, veículos, equipamentos, participações patrimoniais e outros bens pertencentes às entidades denominacionais. Cada divisão, união, associação, missão e instituição vinculada deveria apresentar um inventário público de seus ativos, passivos, reservas financeiras, investimentos e obrigações. O processo não poderia ser conduzido pelos mesmos administradores que durante décadas se acostumaram a tratar o patrimônio religioso como instrumento de expansão institucional. Deveria ser entregue a uma comissão independente de auditores, representantes de vítimas, especialistas em reparação histórica e profissionais encarregados de realizar a liquidação com transparência internacional.
As propriedades deveriam ser vendidas ou transferidas para finalidades de reparação e interesse público, sem distribuição de benefícios pessoais aos dirigentes e sem criação de uma nova estrutura denominacional destinada a preservar o mesmo poder sob outro nome. Os recursos disponíveis, depois do cumprimento integral das obrigações legais e trabalhistas, deveriam formar um fundo internacional de reparação destinado prioritariamente às vítimas sobreviventes e aos descendentes de pessoas atingidas pela perseguição nazista, incluindo adventistas de origem judaica excluídos de suas comunidades, famílias de perseguidos e mortos, além de outros grupos que sofreram consequências da colaboração institucional. Esse fundo não seria uma indenização capaz de devolver vidas destruídas, mas uma demonstração concreta de que a instituição finalmente reconheceu que o patrimônio acumulado não deve ter prioridade sobre a reparação das injustiças históricas.
Hospitais, escolas e instituições assistenciais não deveriam continuar funcionando como patrimônio denominacional
Uma das objeções previsíveis a essa proposta seria a existência de hospitais, escolas, universidades e instituições assistenciais mantidas pela Igreja. Mas o fato de uma organização religiosa administrar serviços úteis à sociedade não transforma sua estrutura de poder em entidade moralmente intocável. Hospitais podem ser transferidos a fundações independentes, sistemas públicos ou organizações sem fins lucrativos. Escolas e universidades podem continuar funcionando sob administrações autônomas, sem subordinação doutrinária e sem utilização de seus recursos para sustentar a burocracia eclesiástica. Instituições de assistência social podem ser reorganizadas para servir diretamente às populações atendidas, sem funcionar como instrumentos de prestígio ou influência de uma denominação mundial.
A liquidação deveria preservar os direitos dos pacientes, estudantes, trabalhadores e beneficiários desses serviços. Ninguém deveria ser abandonado num hospital, privado de concluir um curso ou lançado ao desemprego sem o pagamento integral de seus direitos. Mas essas obrigações não justificariam a preservação da propriedade denominacional. Pelo contrário, deveriam orientar a transferência responsável dos serviços para instituições independentes, enquanto os bens e recursos remanescentes seriam destinados à reparação histórica. O objetivo seria encerrar o controle da Igreja sobre essas estruturas, não destruir os serviços que beneficiam a população. A missão de socorrer enfermos, educar crianças e alimentar necessitados não depende da existência de uma Associação Geral, de uma hierarquia eclesiástica ou de um presidente mundial.
Demitir a burocracia eclesiástica e encerrar a carreira dos administradores religiosos
Também propomos o encerramento de todos os cargos administrativos denominacionais, desde a Associação Geral até as estruturas regionais e locais, com a extinção progressiva dos postos vinculados à manutenção da organização. Presidentes, secretários executivos, tesoureiros, diretores departamentais, assessores, coordenadores e demais funcionários não deveriam continuar sustentando uma estrutura cujo encerramento foi formalmente decidido. Todos os vínculos de trabalho deveriam ser encerrados mediante pagamento integral de salários, indenizações, benefícios previdenciários e demais direitos. Os profissionais que prestam serviços sociais, educacionais ou de saúde poderiam ser incorporados às instituições independentes que assumissem essas atividades. A burocracia eclesiástica, entretanto, deveria deixar de existir.
Durante décadas, a denominação construiu uma estrutura administrativa internacional que consome recursos, ocupa propriedades, produz regulamentos, supervisiona comunidades e estabelece mecanismos de controle sobre ministros e membros. A continuidade dessa máquina tornou-se, em muitos momentos, um objetivo em si mesmo. A organização precisa crescer, arrecadar, construir, contratar, publicar relatórios, promover campanhas e demonstrar resultados para justificar sua própria existência. Nossa proposta rompe com essa lógica. Se a instituição reconhece que sua história inclui colaboração com um regime criminoso e decisões incompatíveis com a mensagem que afirmava defender, não deveria tratar a preservação de seus cargos e departamentos como obrigação sagrada. Deveria reconhecer que nenhuma carreira administrativa é mais importante do que a verdade histórica e a reparação das vítimas.
Todo o patrimônio líquido para os descendentes das vítimas, não para uma nova campanha de propaganda
O fundo de reparação deveria ser administrado por representantes independentes das vítimas e de seus descendentes, com fiscalização pública, critérios transparentes e documentação acessível. Seu primeiro compromisso seria localizar famílias atingidas pela perseguição nazista e pela conduta institucional adventista, inclusive descendentes de membros excluídos por sua origem judaica e de pessoas abandonadas diante das autoridades do regime. Também deveria apoiar pesquisas históricas, preservação de arquivos, identificação de vítimas esquecidas e iniciativas de reparação em comunidades afetadas pelo antissemitismo e pela perseguição religiosa. A destinação dos recursos precisaria ser acompanhada por auditorias internacionais, impedindo que a antiga estrutura denominacional continuasse controlando o dinheiro sob o pretexto de administrar sua própria culpa.
Não seria admissível vender propriedades e transferir os recursos para uma nova fundação controlada pelos mesmos dirigentes, com outro logotipo e os mesmos métodos de administração. Não seria admissível utilizar a liquidação para financiar uma campanha de reconstrução da imagem institucional. Não seria admissível transformar a reparação histórica em mais um departamento de relações públicas. O patrimônio deveria deixar definitivamente o controle denominacional e passar a beneficiar pessoas e comunidades atingidas pelas injustiças reconhecidas. A Igreja que utilizou recursos missionários para promover sua presença internacional e preservar relações com o regime de Hitler deveria demonstrar, finalmente, que a vida das vítimas possui mais valor do que a continuidade de sua estrutura administrativa.
Abandonaram seus próprios irmãos judeus aos carrascos de Hitler. Sessenta anos depois, acharam que um pedido de perdão bastaria!
Não estamos falando simplesmente de judeus excluídos do rol de membros, como se tudo não tivesse passado de uma lamentável decisão administrativa tomada por alguma comissão de igreja. Estamos falando de seres humanos perseguidos por sua origem, rejeitados por irmãos da própria fé, privados da proteção de suas comunidades religiosas e abandonados diante da máquina de terror do regime nazista. Estamos falando de pessoas que encontraram portas fechadas justamente onde deveriam encontrar acolhimento, solidariedade e proteção cristã. A gravidade dessa traição foi reconhecida pela própria Igreja Adventista do Sétimo Dia na declaração oficial publicada em 8 de maio de 2005 pelas administrações da Alemanha e da Áustria. Naquele documento, assinado por Klaus van Treeck, Günther Machel e Herbert Brugger, a denominação reconheceu que publicações adventistas exaltaram Adolf Hitler, reproduziram ideias antissemitas e que membros de origem judaica foram marginalizados, excluídos e abandonados à própria sorte, ficando assim entregues à prisão, à expulsão ou à morte. Essa é a confissão que precisa ser apresentada ao mundo em toda a sua brutalidade. Não se tratou apenas de discriminação religiosa. A própria Igreja admitiu que abandonou pessoas perseguidas diante de um Estado que as encarcerava, deportava e assassinava.
O caso de Manfred Wachenheimer expõe a monstruosidade dessa conduta. Adventista de origem judaica, frequentador da congregação de Leipzig, ele foi excluído de sua comunidade sob pressão de membros que pretendiam acomodar-se às exigências raciais do regime nazista. Mesmo depois de afastado, continuou procurando participar dos cultos, como alguém que ainda acreditava encontrar entre seus irmãos um lugar para adorar a Deus. Quando o pastor Hermann Kobs tentou defendê-lo, pessoas ligadas à própria comunidade denunciaram o pastor à Gestapo. Kobs foi preso e, posteriormente, afastado de suas funções pastorais pela administração denominacional. Wachenheimer também caiu nas mãos da polícia política nazista, foi enviado ao campo de concentração de Buchenwald e assassinado em 4 de julho de 1942, mediante uma injeção de substância tóxica. O relato foi publicado pela própria Igreja Adventista alemã. Um homem que procurava continuar frequentando os cultos terminou assassinado num campo de concentração, enquanto o pastor que tentou protegê-lo foi denunciado e punido. É essa a história que precisa ser lembrada quando a liderança adventista fala de fidelidade, obediência, missão e testemunho cristão.
E o que fez a instituição depois da guerra? Esperou. Passaram-se os anos, morreram testemunhas, desapareceram administradores, envelheceram sobreviventes e multiplicaram-se as gerações que desconheciam os acontecimentos. Somente em 2005, sessenta anos depois da derrota de Hitler, as administrações adventistas alemã e austríaca apresentaram uma declaração pública reconhecendo sua culpa. E mesmo essa confissão não resolveu a responsabilidade da Associação Geral, sediada nos Estados Unidos, cuja participação na propaganda internacional do regime nazista está documentada desde 1935. Foi a administração mundial que participou dos preparativos da campanha de Hulda Jost, realizada em colaboração com o Ministério da Propaganda de Joseph Goebbels e com a diplomacia alemã. Foi diante da assembleia mundial adventista de São Francisco, em 1936, que se apresentaram as supostas realizações do governo de Hitler e se justificou biblicamente a cooperação da Igreja com o Estado nazista. Foi também a Comissão da Associação Geral que, em março de 1938, determinou a retirada e destruição da edição já impressa de The New Caesars, livro missionário considerado prejudicial à atuação adventista na Europa. A confissão de 2005 reconheceu pecados terríveis das administrações alemã e austríaca, mas não representou uma prestação de contas correspondente à participação da própria sede mundial nesses acontecimentos.
Em 2021, quase oitenta anos depois do assassinato de Manfred Wachenheimer, a denominação participou da instalação de uma pequena pedra memorial na calçada diante da igreja adventista de Leipzig. O nome da vítima finalmente ganhou um lugar visível diante do templo de onde havia sido afastada. Mas uma pedra não devolve a vida de um homem assassinado, uma homenagem não repara o abandono de uma família e uma cerimônia não substitui a responsabilidade institucional. Durante décadas, a organização continuou administrando propriedades, recebendo dízimos e ofertas, ampliando suas instituições, elegendo presidentes e apresentando-se ao mundo como portadora de uma mensagem profética especial. A memória das vítimas, entretanto, recebeu reconhecimento público quando já haviam transcorrido gerações inteiras. A denominação que encontrou espaço em seus auditórios para a propaganda favorável a Hitler levou décadas para reconhecer publicamente o sofrimento daqueles que foram perseguidos por seu governo.
É por isso que nossa proposta dirigida a Erton Köhler não se limita a exigir mais um pedido de desculpas. A Associação Geral precisa responder por seus próprios atos, abrir integralmente os arquivos, identificar as decisões tomadas em sua sede e reconhecer que a responsabilidade não terminou nas fronteiras da Alemanha e da Áustria. E precisa transformar o reconhecimento em reparação material. Em vez de continuar acumulando patrimônio imobiliário, construindo sedes administrativas e sustentando uma gigantesca burocracia denominacional, deveria iniciar sua dissolução voluntária, liquidar seus bens, cumprir integralmente as obrigações trabalhistas e destinar o patrimônio líquido disponível a um fundo independente de reparação das vítimas e de seus descendentes. Hospitais, escolas e serviços essenciais poderiam continuar funcionando sob administrações independentes, mas o controle eclesiástico sobre essas instituições deveria terminar. O dinheiro acumulado em nome de Deus deveria finalmente servir à memória e à reparação daqueles que foram abandonados quando mais precisavam de proteção.
Erton Köhler deveria aproveitar 22 de outubro de 2026 para anunciar que a Associação Geral não pretende continuar escondendo sua responsabilidade histórica atrás de pedidos regionais de perdão e homenagens memoriais. Deveria reconhecer diante da humanidade que a Igreja Adventista participou da propaganda de Hitler, que membros judeus foram abandonados à perseguição e à morte e que a organização mundial precisa responder por sua própria colaboração com o Terceiro Reich. Deveria propor o encerramento definitivo da estrutura administrativa denominacional e a destinação de seus recursos à reparação das vítimas. Porque uma instituição que durante gerações se apresentou como defensora dos perseguidos, mas colaborou com a propaganda de um regime perseguidor e abandonou membros à sua violência, não pode considerar suficiente uma declaração de arrependimento publicada sessenta anos depois. VERGONHA, VERGONHA MÁXIMA! Não basta pedir perdão pelos judeus abandonados à prisão e à morte enquanto se conserva intacto o patrimônio da instituição. É preciso reconhecer a responsabilidade, reparar as vítimas e seus descendentes e ter a coragem de encerrar a estrutura que traiu de maneira tão escandalosa os princípios que afirmava representar.
Fechar a organização não significa proibir ninguém de adorar a Deus
O encerramento da Igreja Adventista do Sétimo Dia como organização internacional não exigiria o abandono da Bíblia, da oração, do sábado ou da esperança na volta de Jesus. Nenhuma associação religiosa possui propriedade exclusiva sobre Deus, sobre a consciência humana ou sobre as Escrituras. Os membros continuariam livres para reunir-se em suas casas, formar comunidades independentes, estudar a Bíblia, exercer sua fé e praticar a caridade. O que deixaria de existir seria a estrutura corporativa que reivindica autoridade sobre essas comunidades, administra seus recursos e utiliza sua história institucional como fundamento de legitimidade espiritual. A fé dos indivíduos não precisa morrer com a organização. Pelo contrário, muitos poderiam descobrir que a liberdade de consciência se torna mais plena quando deixa de depender de presidentes, associações, regulamentos e hierarquias religiosas.
A distinção é fundamental. Não estamos propondo perseguição aos adventistas, proibição de cultos ou supressão de direitos religiosos. Estamos propondo que a própria instituição reconheça sua falência moral e decida encerrar voluntariamente sua existência administrativa. Nenhum fiel deveria ser impedido de guardar o sábado ou de anunciar suas convicções. Mas também nenhum dirigente deveria continuar utilizando o nome de Deus para exigir a perpetuação de uma organização que participou da propaganda de Hitler e suprimiu uma publicação missionária considerada inconveniente ao regime nazista. A liberdade religiosa pertence às pessoas, não à burocracia que pretende representá-las.
O verdadeiro juízo investigativo deveria começar pelos arquivos da Associação Geral
Durante gerações, a teologia adventista ensinou que, desde 1844, desenvolve-se no céu uma obra especial de juízo e exame dos registros. A denominação apresentou essa doutrina como parte central de sua identidade profética. Entretanto, os arquivos terrenos da própria Associação Geral conservam correspondências que exigem investigação pública. Ali aparecem a aprovação da viagem de Hulda Jost, os contatos com dirigentes europeus, a colaboração com a diplomacia alemã, os relatos da campanha realizada nos Estados Unidos e a decisão de destruir The New Caesars. Se a instituição acredita que Deus examina os registros das ações humanas, deveria demonstrar disposição para submeter seus próprios documentos ao escrutínio da história.
O dia 22 de outubro de 2026 poderia tornar-se, assim, a data de um juízo institucional assumido publicamente. Erton Köhler deveria reconhecer que a denominação não pode continuar apresentando-se como autoridade profética especial enquanto evita responder por decisões tomadas por sua própria administração mundial. Deveria anunciar a abertura integral dos arquivos relacionados à Alemanha nazista, a criação de uma comissão independente de investigação e a proposta de dissolução da estrutura denominacional. Deveria declarar que nenhum patrimônio, nenhum cargo, nenhuma tradição administrativa e nenhuma interpretação profética podem servir de escudo contra a responsabilidade histórica. A Igreja que pregou durante décadas sobre o juízo deveria aceitar que sua própria história fosse julgada à luz dos documentos.
Não queremos mais desculpas sem consequências
O problema das declarações institucionais de arrependimento é que frequentemente preservam intacta a estrutura que produziu os acontecimentos lamentados. Reconhece-se uma culpa, publica-se um documento, realiza-se uma cerimônia e, no dia seguinte, a administração continua funcionando normalmente. Os mesmos cargos permanecem, as propriedades continuam acumuladas, os programas de arrecadação prosseguem e a organização utiliza o próprio pedido de perdão como demonstração de maturidade espiritual. Nossa proposta rejeita esse ciclo. Se a Associação Geral reconhece a gravidade de sua colaboração com a propaganda nazista, deveria aceitar consequências proporcionais à responsabilidade institucional. Não bastaria lamentar o passado enquanto se preserva o patrimônio e o poder que a organização acumulou.
Por isso, defendemos uma medida extrema: dissolver a estrutura, liquidar seus bens, reparar as vítimas e encerrar definitivamente a administração mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia. A proposta não pretende apagar as boas ações realizadas por membros sinceros, missionários, professores, médicos e voluntários. Mas essas ações pertencem às pessoas que as praticaram e às comunidades que delas se beneficiaram. Não constituem autorização moral para perpetuar indefinidamente uma corporação religiosa. Nenhuma quantidade de hospitais construídos, escolas inauguradas, programas de rádio produzidos ou campanhas evangelísticas realizadas pode transformar a colaboração com a propaganda de Hitler em acontecimento irrelevante. O bem praticado por indivíduos não cancela automaticamente a responsabilidade da administração por seus próprios atos.
O discurso que Erton Köhler deveria pronunciar em 22 de outubro de 2026
Imaginemos, finalmente, que o presidente mundial tenha coragem de comparecer diante dos membros e da humanidade para reconhecer aquilo que os documentos revelam. Em vez de celebrar o crescimento da organização, poderia declarar que a Associação Geral participou de uma campanha internacional favorável ao governo de Adolf Hitler, que a operação alcançou a assembleia mundial adventista de 1936 e que, dois anos depois, a administração mundial determinou a destruição de uma edição missionária considerada inconveniente à sua atuação sob o regime nazista. Poderia reconhecer que a denominação falhou diante de perseguidos, excluiu membros de origem judaica e demorou décadas para apresentar pedidos públicos de perdão. Poderia admitir que nenhuma instituição religiosa tem direito de exigir confiança ilimitada quando sua própria história revela decisões tão comprometedoras.
Em seguida, deveria anunciar que proporá à representação mundial o encerramento definitivo da estrutura denominacional, a venda de suas propriedades, a transferência independente de seus serviços sociais, a extinção dos cargos administrativos e a destinação do patrimônio líquido a um fundo internacional de reparação. Deveria convidar as famílias das vítimas a participar da definição desse processo e abrir os arquivos da Associação Geral à investigação pública. E deveria encerrar o pronunciamento reconhecendo que Deus não depende da sobrevivência de uma organização religiosa para continuar sendo adorado, que a verdade não precisa de uma corporação para permanecer verdadeira e que a liberdade de consciência não pode ser subordinada aos interesses de uma administração eclesiástica.
Vergonha máxima: a instituição deveria desaparecer, não a memória de suas vítimas
O dia 22 de outubro de 1844 ficou conhecido como Grande Desapontamento porque uma promessa de acontecimentos extraordinários não se cumpriu. O dia 22 de outubro de 2026 poderia entrar para a história como a data em que a Igreja Adventista finalmente reconheceu que sua pretensão de superioridade espiritual se tornou insustentável diante dos próprios documentos. Seria uma oportunidade para substituir a autopreservação institucional pela responsabilidade histórica, a expansão patrimonial pela reparação das vítimas e a propaganda denominacional pela verdade sobre seu passado. Erton Köhler poderia transformar a presidência mundial num instrumento de encerramento digno de uma organização que perdeu a autoridade moral para continuar reivindicando o papel de mensageira exclusiva de Deus.
Não queremos que os nomes de Hulda Jost, G. W. Schubert, J. L. McElhany e dos administradores envolvidos na colaboração com o regime nazista desapareçam dos arquivos. Queremos que sejam estudados, contextualizados e apresentados às novas gerações. Não queremos que Manfred Wachenheimer e outras vítimas sejam reduzidos a pequenas inscrições memoriais. Queremos que suas histórias sejam conhecidas, que suas famílias sejam procuradas e que a instituição responsável por decisões comprometedoras destine recursos concretos à reparação. Não queremos que o patrimônio acumulado continue servindo à autopromoção de uma administração mundial. Queremos que seja transformado em benefício daqueles que sofreram as consequências de uma história que a denominação demorou demais para enfrentar.
Erton Köhler deveria aproveitar 22 de outubro de 2026 para fazer aquilo que nenhum presidente da Associação Geral teve coragem de propor: pedir perdão à humanidade, reconhecer a parceria e a cumplicidade institucional com o regime de Hitler, iniciar a venda de todas as propriedades denominacionais, destinar o patrimônio líquido à reparação das vítimas e de seus descendentes, encerrar os cargos administrativos e submeter à Igreja mundial a decisão de dissolver definitivamente sua estrutura. Não seria o fim da liberdade religiosa, nem o fim da fé em Deus, nem o fim da esperança cristã. Seria o fim de uma organização que, depois de anunciar ao mundo o perigo dos novos césares, colaborou com a propaganda de um dos mais terríveis deles. Vergonha, vergonha máxima! Que a memória das vítimas permaneça, que os documentos sejam abertos, que a reparação seja feita e que a instituição tenha finalmente a coragem de fechar suas portas para sempre.





