
De Gland a Hitler: Como a Igreja Adventista abriu caminho para a militarização e a colaboração com o Terceiro Reich
Da orientação para pegar em armas e trabalhar aos sábados na Primeira Guerra Mundial à decisão ambígua de 1923; dos votos favoráveis ao Führer em Friedensau à propaganda internacional de Hulda Jost; das circulares militares de A. Minck aos relatórios assistenciais que agradeciam a Deus por Hitler.
Antes de Hitler: uma história de decisões institucionais
Nossa investigação começou com Hulda Jost, a dirigente adventista que escreveu a Adolf Hitler em 30 de abril de 1936 relatando os resultados de suas conferências nos Estados Unidos e os apoios que recebera durante sua campanha favorável à imagem da Alemanha nazista. A documentação alemã agora reunida mostra, porém, que essa história não começou com a viagem de Jost, nem com a chegada do nacional-socialismo ao poder. Suas raízes administrativas remontam à Primeira Guerra Mundial, quando dirigentes adventistas comunicaram ao governo alemão uma orientação sobre o serviço militar, o uso de armas e o trabalho aos sábados. A partir daquela decisão surgiram exclusões, divisões e negociações com a administração internacional; em janeiro de 1923, uma conferência em Gland, na Suíça, procurou resolver o conflito com uma declaração que rejeitava atos violentos, mas reconhecia ampla liberdade individual de prestar serviço ao Estado. Ao reconstruirmos essa trajetória e a confrontarmos com periódicos, relatórios assistenciais, memorandos e circulares da época de Hitler, encontramos uma história de escolhas institucionais muito mais longa do que se supunha.
As bases dessa reconstrução são duas publicações disponíveis integralmente em nosso acervo: a compilação alemã Warum gibt es eine Reformationsbewegung der Siebenten-Tags-Adventisten?, organizada no ambiente reformista e contendo transcrições históricas, e a edição de março de 1977 da revista Spectrum, que inclui os estudos assinados por Jack M. Patt e Erwin Sicher. As duas obras não têm a mesma perspectiva, mas ambas identificam textos, acontecimentos, jornais e pessoas com datas e referências específicas. Completamos esse conjunto com os trabalhos de Roland Blaich sobre a igreja alemã e a viagem de Hulda Jost. As passagens transcritas pelos reformistas serão identificadas como tal, enquanto as interpretações de Patt, Sicher e Blaich aparecerão atribuídas aos respectivos pesquisadores, permitindo ao leitor acompanhar os elos documentais sem perder a continuidade da narrativa.

1914: a liderança adventista alemã comunicou ao Ministério da Guerra sua disposição de servir à pátria com armas, inclusive aos sábados. A militarização começava com uma declaração oficial.
1914: uma carta ao Ministério da Guerra e o sábado sob as armas
Em 6 de agosto de 1914, com a Primeira Guerra Mundial recém-iniciada, H. F. Schuberth encaminhou às autoridades militares alemãs uma declaração de dirigentes adventistas. Conforme a reprodução contida no dossiê alemão, páginas 19–20, a comunidade afirmava que, diante da situação nacional, seus membros consideravam dever participar da defesa da pátria, inclusive com armas e com atividades aos sábados. O documento invocava a submissão às autoridades ensinada em 1 Pedro 2:13–17 e relatava instruções transmitidas às congregações.
Assim, o serviço militar e a quebra da observância sabática não foram apresentados apenas como escolhas de indivíduos convocados, mas como posição administrativa comunicada ao próprio Estado. A carta também indicava que as instalações de Friedensau — escola missionária, sanatório, pessoal médico, enfermeiras e outros recursos — poderiam ser colocadas à disposição das necessidades de guerra. Encontramos, portanto, já em 1914, a combinação entre orientação religiosa, obediência ao governo e oferta de infraestrutura assistencial para uma mobilização militar.
O peso histórico desse episódio aumenta porque sua consequência não se limitou ao front. Membros que recusaram pegar em armas ou trabalhar no sábado por motivos religiosos entraram em conflito com as lideranças da denominação. A compilação reformista apresenta registros de exclusões e uma declaração notarial que identifica, entre outros, O. Krebs, J. Wieck e St. Reckziegel como dissidentes antimilitaristas. A administração buscava demonstrar ao Estado que esses posicionamentos não representavam a política oficial da comunidade. Formava-se uma ruptura entre os que entendiam a submissão civil como fundamento para cumprir exigências militares e aqueles que afirmavam a supremacia dos mandamentos religiosos sobre tais exigências. O problema, portanto, não consistia somente em escolher entre armas e pacifismo; envolvia saber se uma instituição religiosa poderia punir os próprios membros por seguirem uma interpretação de consciência contrária à sua orientação de guerra.

Friedensau, 1920: diante da liderança mundial, adventistas que recusavam pegar em armas exigiram liberdade de consciência. A ruptura provocada pelas decisões militares de 1914 continuava sem solução.
1916 e 1920: os reformistas pediram consciência livre e reconciliação
A documentação reformista reproduz uma proposta de reconciliação datada de 1916. Seus autores queriam que a denominação recuperasse uma posição coerente sobre os mandamentos e aceitasse que os membros recusassem o serviço militar por consciência, sem serem chamados de traidores ou expulsos. O texto também evitava exigir condenação indiscriminada de todos os que haviam servido ou combatido durante a guerra, buscando uma solução baseada no direito de consciência para ambos os lados. Essa formulação permite compreender melhor a natureza da controvérsia: a liberdade religiosa reivindicada pelos dissidentes não era simplesmente a imposição do pacifismo a toda a comunidade, mas a rejeição da disciplina administrativa contra aqueles que consideravam o serviço militar incompatível com sua fé. Essa tensão perdurou depois de 1918, levando reformistas a solicitar audiências e negociações com líderes internacionais.
Em 1920, na presença de Arthur G. Daniells, realizaram-se conversações em Friedensau entre representantes da organização oficial e adventistas dissidentes. O documento alemão descreve depoimentos sobre perseguições, prisões e mortes sofridas na guerra e revela a insistência reformista em obter reconhecimento dos problemas causados pelas decisões de 1914. A reunião não produziu a reconciliação desejada. Entretanto, ela impede que a controvérsia seja retratada como um mal-entendido isolado na Alemanha ou como um assunto desconhecido pela liderança mundial: os representantes da administração internacional foram informados da ruptura e ouviram as reivindicações. Esse antecedente também é decisivo para compreender a posterior Conferência de Gland, destinada justamente a definir a posição institucional diante do Estado, do sábado e das armas.

Gland, 1923: a Igreja declarou rejeitar atos violentos e sangrentos, mas preservou a liberdade individual de servir ao Estado. A contradição militar permaneceu dentro da própria resolução.
Gland, 2 de janeiro de 1923: uma rejeição à violência acompanhada da liberdade de servir
A comissão da Divisão Europeia reuniu-se em Gland, na Suíça, de 27 de dezembro de 1922 a 2 de janeiro de 1923. Sua declaração final recebeu o título Unsere Stellung zum Staate im Frieden und Kriege — Nossa posição perante o Estado em tempos de paz e de guerra — e foi assinada por J. E. Jacques, presidente, e J. H. Schilling, secretário. O texto integral é reproduzido nas páginas 33–34 do PDF alemão. A resolução reconhecia a autoridade governamental como instrumento de ordem, justiça e paz; reafirmava os deveres civis de impostos e respeito; proclamava a validade dos Dez Mandamentos; defendia o sábado como tempo sagrado; e admitia trabalhos necessários e misericordiosos para aliviar o sofrimento, inclusive na guerra. Num dos trechos centrais, os signatários declaravam em alemão: Wir weigern uns, uns an gewaltsamen und blutigen Handlungen zu beteiligen, isto é, recusavam participar de atos violentos e sangrentos.
Logo em seguida, porém, a mesma declaração estabelecia: Wir gewähren aber jedem Gemeindeglied die absolute Freiheit, dem Staate zu jeder Zeit und an jedem Platze so zu dienen, wie es ihm sein persönliches Gewissen diktiert. Em português: “Concedemos, entretanto, a cada membro absoluta liberdade para servir ao Estado em qualquer tempo e lugar, conforme os ditames de sua consciência pessoal.” Eis o núcleo da controvérsia. A liderança oficial apresentava a decisão como reafirmação da recusa à violência e reconhecimento da responsabilidade individual, enquanto os reformistas sustentavam que a fórmula deixava em aberto a participação militar, não revogava expressamente a orientação de 1914 e não corrigia todas as consequências das exclusões. Ao cotejar essas posições, percebemos que Gland não corresponde a uma simples aprovação de matar nem a uma proibição inequívoca de todo serviço militar: a tensão estava exatamente no encontro entre o princípio pacifista escrito e a liberdade individual formulada em termos amplos.
Essa leitura é reforçada por outra referência da literatura reformista: uma resposta atribuída às autoridades militares alemãs em 30 de dezembro de 1927 afirmaria que a declaração de 6 de agosto de 1914 permanecia em seus arquivos sem registro de substituição. O documento é citado na lição A False Confession, e sua alegação ajuda a entender por que os reformistas não consideravam Gland uma solução administrativa completa. A própria compilação reconhece que, se a liberdade de consciência tivesse prevalecido em 1914, a exclusão dos dissidentes não teria sido justificável. O contraste entre as duas datas, 1914 e 1923, constitui portanto parte essencial da história da militarização adventista, a ser examinada junto das decisões e circulares posteriores, em vez de tratado como uma nota secundária.
O princípio da obediência atravessou outras fronteiras
O estudo reformista em alemão também reúne declarações de adventistas na União Soviética que empregavam linguagem de fidelidade ao Estado e liberdade individual diante de obrigações militares, chegando a elogiar dirigentes revolucionários. Esses materiais se referem a um regime e a circunstâncias políticas diferentes dos da Alemanha, mas iluminam um mecanismo recorrente: o uso de argumentos religiosos de obediência civil para justificar a adaptação das práticas institucionais a governos com orientações ideológicas diversas. A questão que nos interessa não é equiparar automaticamente esses Estados, mas identificar a elasticidade administrativa das interpretações sobre autoridade, consciência e serviço militar. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, a denominação alemã já possuía essa história de controvérsias internas, concessões diante do Estado e tentativa de conciliar princípios religiosos com exigências militares.
1933: o Führer vegetariano e o início da aproximação editorial
A ascensão de Hitler foi recebida com manifestações favoráveis em determinados periódicos adventistas alemães. Erwin Sicher, em Seventh-day Adventist Publications and the Nazi Temptation, na Spectrum, documenta artigos de A. Minck, Kurt Sinz e W. Müller que interpretavam a transformação política em termos de renovação nacional. Em 15 de agosto de 1933, Müller publicou no Der Adventbote o artigo An unsere Gemeindeglieder in Deutschland, dirigido aos membros, destacando o fato de Hitler ser apresentado como abstêmio, não fumante e vegetariano. Essas características eram relacionadas à reforma de saúde adventista, como se a compatibilidade de hábitos pessoais oferecesse sinais de afinidade moral ou religiosa. O mesmo autor discutia a legitimidade da saudação hitlerista e da bandeira com a suástica, procurando adequar a conduta pública dos membros ao novo governo. Outras contribuições, como Reformation, de Minck, e Der Retter, de Sinz, expressavam expectativas de recuperação nacional num momento em que a democracia alemã era desmantelada e as perseguições políticas e raciais se institucionalizavam.
A propaganda nazista cultivava a imagem de Hitler como homem austero, dedicado inteiramente à pátria, e essa representação despertava admiração em parte das mulheres alemãs. As adventistas viviam na mesma sociedade e estavam sujeitas às mesmas campanhas, embora não tenhamos números que permitam medir isoladamente esse fenômeno entre as fiéis. Em Hulda Jost, porém, a identificação favorável ao regime não é mera hipótese sobre sentimentos pessoais: suas conferências e sua correspondência permitem documentar uma atuação pública e internacional. O fato de sua própria comunidade religiosa valorizar a alimentação vegetariana, a abstinência de álcool e o combate ao tabagismo ajudava a tornar a imagem propagandística de Hitler especialmente familiar a certos círculos adventistas, mesmo quando o conteúdo político de seu governo já exigia escrutínio crítico muito mais sério.

Friedensau sob Hitler: a comunidade adventista que declarou votação integralmente favorável ao regime em 1933 também cultivou relações com autoridades do Estado nazista.
Dezembro de 1933: votos favoráveis e propaganda no exterior
Em 20 de dezembro de 1933, a organização adventista alemã enviou ao Ministério do Interior do Reich uma Denkschrift, isto é, um memorando institucional. A transcrição ocupa as páginas 37–38 do dossiê alemão e a mesma documentação é discutida por Sicher na Spectrum. Os autores do memorando defendiam a contribuição de sua rede missionária para a cultura alemã em outras partes do mundo, mencionavam a antiga África Oriental Alemã e manifestavam a expectativa de que a Alemanha voltasse a administrar aquele território colonial. Relatavam ainda ter orientado os membros a votar afirmativamente no plebiscito e nas eleições para o Reichstag. Sobre Friedensau, afirmavam: In Friedensau, Bezirk Magdeburg, das eine adventistische Kolonie ist, wurde hundertprozentig mit “Ja” gestimmt. A tradução é direta: “Em Friedensau, distrito de Magdeburgo, que é uma colônia adventista, votou-se cem por cento ‘Sim’.”
Há uma diferença de precisão entre as fontes que deve permanecer visível. Sicher reproduz, numa referência a uma circular anterior de Müller, o índice de 99,9% para Friedensau, enquanto o memorando enviado ao Ministério do Interior em dezembro afirma literalmente 100%. Não se trata necessariamente de resultados contraditórios de votações distintas; pode envolver arredondamento ou formas diferentes de relatar a mesma consulta. Para nossa investigação, o elemento inequívoco é o uso institucional desse resultado como demonstração de lealdade ao novo Estado. Mais grave ainda, o memorando declarava que a organização havia combatido, por meio de suas conexões mundiais, a chamada propaganda de atrocidades divulgada no exterior sobre a Alemanha. Assim, já em 1933, a própria administração alemã apresentava como mérito político uma atividade internacional destinada a contrariar notícias desfavoráveis ao regime, três anos antes de Hulda Jost enviar sua carta a Hitler.
A proibição provisória da IASD e o papel da assistência social
A disposição de cooperação não impediu que o governo nazista impusesse restrições à denominação. Sicher registra a proibição temporária dos adventistas na Prússia e em Hesse em novembro de 1933, revogada em 6 de dezembro depois de iniciativas jurídicas e administrativas. Os estudos de Roland Blaich identificam correspondências da Gestapo e dirigentes adventistas, além de atribuírem à atuação de Hulda Jost importância nos esforços de preservar o funcionamento institucional da Igreja. Uma correspondência de G. W. Schubert a C. H. Watson, de 29 de julho de 1934, é citada nessa discussão. Os adventistas buscaram demonstrar que eram cidadãos obedientes e que seus serviços sociais tinham utilidade pública; adaptações de terminologia, como o uso de Bibelschule em lugar de Sabbatschule em determinados contextos, revelam a pressão para afastar associações públicas com a tradição judaica e atender exigências do regime.
O Advent-Wohlfahrtswerk, AWW, organizado e dirigido durante anos por Hulda Jost, adquiriu nessa relação um papel central. O histórico institucional do AWW informa a subordinação de sua assistência social à Nationalsozialistische Volkswohlfahrt, NSV, a partir de 1934. A rede adventista podia atender pessoas necessitadas e promover ações de saúde, mas sua integração ao sistema assistencial nacional-socialista também reforçava a posição administrativa da denominação perante as autoridades. Em vez de imaginar uma atividade puramente paralela ao Estado, os documentos nos levam a examinar uma rede de cooperação que incluía enfermeiras, sanatórios, campanhas de inverno, educação materna e programas nacionais de saúde. Esse foi o ambiente em que Hulda Jost desenvolveu sua atuação política, muito antes de viajar para os Estados Unidos.

Hulda Jost: a assistência social adventista tornou-se uma ponte institucional com o nacional-socialismo, aproximando a denominação das estruturas assistenciais de Hitler.
Hulda Jost no próprio Adventbote: uma cronologia de textos
As referências bibliográficas reunidas por Sicher permitem acompanhar o trabalho de Jost em publicações alemãs de 1933 a 1937. Em novembro de 1933 aparece Aufgaben der NS-Volkswohlfahrt, sobre tarefas da assistência social nacional-socialista; em janeiro de 1934, uma contribuição coletiva sobre assistência e cultura sem álcool; em julho, Mütterbildung, sobre formação de mães; em agosto, Die neue Organisation der Volkswohlfahrt, sobre a nova organização assistencial; e em novembro de 1935, Winterhilfswerk 1935/36, sobre a campanha de inverno. Em 1º de janeiro de 1937, publica-se Kümmert euch um die Wohlfahrt des Landes, página 9, e em maio daquele ano, Das soziale Problem der Gegenwart. As notas de Sicher fornecem datas e páginas específicas desses artigos, tornando possível acompanhar a evolução pública das posições e atividades da dirigente a partir de publicações do próprio universo denominacional, sem depender exclusivamente de relatos posteriores.
Essa sequência revela a dimensão institucional de sua atuação. Jost não se tornou conhecida do governo alemão exclusivamente por uma viagem de propaganda em 1936: sua carreira estava vinculada à organização assistencial adventista e às estruturas sociais e sanitárias do regime desde os primeiros anos do nazismo. O estudo de Blaich, Selling Nazi Germany Abroad: The Case of Hulda Jost, demonstra que essa experiência foi aproveitada na preparação de conferências internacionais e no contato com representantes diplomáticos alemães. A política assistencial tornou-se, assim, uma plataforma que permitia à mesma dirigente circular entre ambientes religiosos, organizações sanitárias e representantes do Terceiro Reich.

1936: com apoio de estruturas adventistas e da diplomacia alemã, Hulda Jost atravessou o Atlântico para defender a imagem do Terceiro Reich. A propaganda de Hitler ganhou espaço até na assembleia mundial adventista.
1936: com a Associação Geral, a propaganda atravessa o Atlântico
A viagem de Hulda Jost aos Estados Unidos, aprovada e organizada com participação de estruturas adventistas, contou também com colaboração de autoridades do Ministério da Propaganda, do Ministério das Relações Exteriores, da embaixada alemã e de consulados. O historiador Roland Blaich documentou essa rede em seu estudo de 1993. Jost realizou apresentações em igrejas, sanatórios, escolas e associações, falando das realizações da assistência social alemã e defendendo a imagem do governo de Hitler contra notícias sobre perseguições e violações de direitos. Embora o roteiro previsse mais de 140 conferências e encontros, esse número representa uma programação, não comprovação de sua execução integral. A campanha, entretanto, alcançou efetivamente a assembleia mundial adventista em São Francisco, onde a dirigente apresentou conferências sobre a assistência social alemã, inclusive suas relações com o sistema nacional-socialista.
Em 30 de abril de 1936, Hulda Jost escreveu pessoalmente ao Führer. Relatou quarenta reuniões maiores e pelo menos vinte encontros menores, mencionou apoios administrativos e diplomáticos, destacou o esforço para modificar percepções negativas sobre a Alemanha e solicitou uma audiência depois do retorno à Europa. O valor histórico da carta reside no fato de que sua própria autora descreve a participação de estruturas adventistas e representantes do Estado alemão em sua atuação internacional. Não é necessário atribuir a todos os dirigentes a aprovação de todas as palavras pronunciadas por Jost para reconhecer que ela contou com espaços e apoios institucionais concretos, inclusive na assembleia mundial. A comparação com o memorando de 1933 reforça a tese de continuidade: antes mesmo da viagem, a organização alemã já havia apresentado a defesa internacional da imagem do país como serviço realizado por suas relações mundiais.
29 de abril de 1936: um contraste com a proibição dos reformistas
Um dia antes da carta de Jost, o regime nazista determinou a proibição do Movimento Adventista da Reforma, que sofreu repressão por se opor a certas exigências militares e políticas do Estado. A ordem de 29 de abril de 1936, reproduzida pelo dossiê alemão, foi expedida no âmbito da polícia política e vinculada à autoridade de Reinhard Heydrich; a proibição foi mantida depois de recursos em agosto daquele ano. As razões mencionadas incluíam a recusa do serviço militar e da saudação política, bem como a orientação internacionalista do grupo. Essa coincidência de datas não prova que a ação de Jost tenha provocado a perseguição aos reformistas, mas estabelece duas situações radicalmente distintas: enquanto uma organização de origem adventista era reprimida, uma dirigente da comunidade oficial relatava a Hitler os resultados de sua campanha favorável ao governo nazista no exterior.
A diferença torna-se ainda mais expressiva quando recordamos o histórico de 1914 e 1923. Os reformistas haviam surgido no contexto da recusa em aceitar a orientação favorável ao serviço militar durante a Primeira Guerra Mundial, e a resolução de Gland não resolvera completamente a controvérsia. A perseguição dos anos 1930 atingiu pessoas que continuaram a considerar algumas exigências do Estado incompatíveis com sua religião. O dossiê reformista recorda vítimas como Johann Hanselmann e Günter Pietz; os registros de sua memória e martírio precisam permanecer na narrativa, ao lado dos nomes dos dirigentes que fizeram escolhas diferentes. Não estamos diante de uma população adventista homogênea, mas de condutas institucionais e pessoais que variaram entre cooperação, acomodação, resistência e perseguição.
Friedensau em 1936–1937: teologia, uniformes e autoridades
Em 1º de janeiro de 1937, o Der Adventbote publicou na página 12 o artigo de W. Eberhardt Der Oberpräsident in Friedensau, sobre a visita de uma autoridade governamental ao centro adventista de formação. A referência é identificada por Sicher em sua pesquisa. A literatura reformista reproduz ainda uma fotografia que apresenta como estudantes ministeriais uniformizados diante do estabelecimento em outubro de 1936. No mesmo número do periódico, página 9, aparece um artigo de Hulda Jost sobre o bem-estar do país. A proximidade editorial dos dois textos é expressiva: a mesma edição reúne a linguagem da assistência social denominacional e um relato de relações entre Friedensau e autoridades do Estado nazista.
Friedensau aparecia na história desde a carta de agosto de 1914, quando suas instalações de saúde e formação foram oferecidas como recursos disponíveis em tempo de guerra. No memorando de dezembro de 1933, a comunidade também foi apresentada como exemplo de votação favorável ao governo. Os registros de 1936–1937 acrescentam a presença de autoridades e o ambiente da formação ministerial. Esses episódios precisam ser analisados segundo suas datas e documentos específicos, mas, considerados em conjunto, mostram como um centro religioso podia estar inserido nas redes políticas, sociais e militares de diferentes períodos do Estado alemão. O trabalho acadêmico de Patt também indica que enfermeiras ligadas à irmandade de Friedensau posteriormente prestaram serviços em clínicas e hospitais militares.
Eugenia, educação materna e reforma de saúde
Erwin Sicher mostra que as aproximações editoriais com o nazismo não se limitaram aos elogios a Hitler ou à política externa. Em sua investigação das publicações adventistas, identifica a divulgação de argumentos favoráveis à esterilização coercitiva depois das leis eugênicas alemãs, inclusive em periódicos dirigidos à juventude. Um artigo do Jugend-Leitstern qualificou a legislação como avanço para a elevação do povo, segundo a análise do historiador, e outras publicações reproduziram argumentos sobre hereditariedade, custos sociais e suposta preservação racial. Sicher também descreve a inserção de conceitos de raça e saúde hereditária em debates educacionais e de formação materna. Isso revela uma apropriação particularmente grave da linguagem de saúde por políticas estatais que discriminavam e violavam a integridade física de pessoas classificadas como deficientes ou hereditariamente indesejáveis.
A tradição adventista de valorização da saúde, combate ao álcool e tabagismo e assistência às famílias não se confunde automaticamente com a eugenia do regime. O ponto documental é outro: determinadas publicações e atividades passaram a apoiar ou normalizar medidas coercitivas da política racial nazista. A relação entre hábitos de saúde, assistência social e políticas do Estado deve ser reconstruída por seus textos concretos, e Sicher oferece numerosas referências bibliográficas para isso. Lida ao lado dos escritos de Hulda Jost sobre a organização assistencial nacional-socialista, essa documentação evidencia como as fronteiras entre serviço de saúde, propaganda e política racial podiam se tornar perigosamente permeáveis.
Da Áustria à Tchecoslováquia: o expansionismo nas páginas adventistas
A pesquisa de Sicher também identifica manifestações favoráveis, na imprensa adventista alemã, à anexação da Áustria em 1938 e à incorporação de territórios tchecos pelo Reich. Kurt Sinz, editor do Der Adventbote, publicou em 15 de abril de 1939 Das Goldene Prag, Schicksalsstadt im Großdeutschen Raum, apresentando Praga no novo espaço político dominado pela Alemanha. O historiador mostra como certas justificativas nacionalistas utilizadas pelo regime foram acolhidas ou reproduzidas em textos denominacionais. Essa documentação leva a pesquisa para além das conferências de Jost: uma publicação religiosa apresentava interpretações dos acontecimentos territoriais da Europa que se aproximavam de argumentos oficiais usados para legitimar a expansão nazista.
Não se trata de afirmar que todos os adventistas alemães compartilhavam da mesma posição. O que os documentos demonstram é a existência de artigos e orientações publicadas em meios denominacionais que merecem ser analisadas como expressão das escolhas de seus autores e editores. O historiador identifica ainda textos de Sinz como Der neue Staat und wir, de 1934, e Im Strom der Zeit, de novembro de 1939, compondo uma sequência de comentários sobre as transformações políticas alemãs ao longo da década. A relação entre linguagem religiosa e nacionalismo aparece, portanto, em diferentes temas e veículos editoriais.
O obituário de 1938: “boa adventista” e “boa alemã”
Hulda Jost morreu na noite de 9 para 10 de março de 1938, no sanatório de Skodsborg, na Dinamarca. No número 8 do Advent-Bote daquele ano, página 125, A. Minck assinou o obituário Frau Oberin Hulda Jost †, acompanhado de sua fotografia. A homenagem descrevia o trabalho assistencial, a dedicação religiosa, o patriotismo e a influência internacional da dirigente. A passagem mais expressiva afirmava: “Ela não era apenas uma boa adventista; era também uma boa alemã, que amava sua pátria e sabia representar sua terra natal em toda parte, com tato e dignidade.” O texto acrescentava que sua influência ultrapassara as fronteiras alemãs em benefício da comunidade religiosa e da pátria, oferecendo à nossa investigação uma descrição institucional positiva justamente da atividade internacional que a carta ao Führer ajuda a contextualizar.
O obituário não menciona Hitler nominalmente, e essa precisão importa ao interpretá-lo. Sua força documental decorre do confronto com outras fontes: em 1936, a própria Jost relatara ao ditador os resultados de sua campanha internacional; em 1938, a imprensa da denominação elogiava sua capacidade de representar a Alemanha além das fronteiras. A homenagem não examina criticamente a propaganda favorável ao regime, embora tenha sido publicada depois dos acontecimentos documentados por Blaich. É também relevante que Minck, signatário do obituário, apareça posteriormente nas atividades assistenciais e nas orientações militares da denominação durante a guerra. Sua atuação permite estudar uma continuidade de pessoas e estruturas, sem confundir as responsabilidades específicas de cada função.
1939: apelos religiosos em favor do dever de guerra
Com o início da Segunda Guerra Mundial, a discussão que havia dividido a denominação em 1914 voltou a adquirir consequências práticas. A compilação reformista reproduz uma manifestação atribuída ao Der Adventbote de 1º de outubro de 1939, incentivando orações por soldados e pelos dirigentes nacionais e mobilizando passagens bíblicas como João 15:13 no contexto do sacrifício militar. Os documentos revelam que a obediência religiosa e os deveres perante a pátria continuaram presentes na linguagem administrativa. O estudo de Patt descreve também as dificuldades enfrentadas pelos adventistas convocados diante do sábado, as negociações de dispensas para cultos e a participação em serviços de trabalho e forças armadas; em paralelo, registra casos de membros que recusaram o serviço militar e sofreram prisões. Esse contraste entre decisões administrativas e consciências individuais deve permanecer visível porque não é possível reduzir toda a experiência adventista à posição de seus dirigentes.

Berlim, 30 de abril de 1940: A. Minck determinou que os pastores orientassem os fiéis a cumprir as obrigações militares e de guerra, incluindo o trabalho aos sábados.
30 de abril de 1940: A. Minck exige orientação uniforme aos pastores
A circular de A. Minck, datada de 30 de abril de 1940, reproduzida no dossiê alemão, páginas 40–41, oferece um dos vínculos mais concretos entre a controvérsia de 1914, a resolução de Gland e a situação militar sob Hitler. Minck relata reclamações de autoridades sobre membros que recusavam trabalhar aos sábados em estabelecimentos considerados necessários ao esforço de guerra. Determina que dirigentes e pastores instruam novamente as comunidades sobre as obrigações perante o povo, a pátria e o governo, recorrendo a textos bíblicos sobre submissão às autoridades. A frase decisiva afirma: Die Bejahung des Wehr- und Kriegsdienstes auf Grund der Bibel schließt die Erfüllung der sich daraus ergebenden Pflichten ein. Em português: “A aceitação do serviço militar e do serviço de guerra com fundamento na Bíblia inclui o cumprimento dos deveres que deles decorrem.”

O Führer como presente divino: a assistência social adventista agradeceu a Deus por Hitler em seu relatório de guerra de 1939–1940. A lealdade política foi elevada à linguagem da adoração.
A circular também exige reuniões de pastores até 20 de maio e a comunicação dos resultados à administração. Isso vai além de registrar escolhas espontâneas de indivíduos em uniforme: uma autoridade eclesiástica procurava garantir o ensino e a aplicação de uma orientação sobre obrigações militares e trabalho sabático. Em 1914, Schuberth havia declarado às autoridades a disposição de servir à pátria inclusive com armas aos sábados; em 1923, Gland proclamara a rejeição aos atos sangrentos, mas abrira espaço à liberdade individual de servir ao Estado; em 1940, Minck voltava a exigir que os pastores orientassem os membros a cumprir deveres decorrentes do serviço militar e da guerra. A comparação dessas três etapas é um dos eixos mais importantes da nossa investigação porque reúne decisões administrativas tomadas em guerras diferentes, com referências religiosas semelhantes e consequências práticas sobre o sábado e a vida militar.
1941: a mobilização de membros e pastores em números
A compilação reformista apresenta um levantamento atribuído a G. Seng, datado de 1º de janeiro de 1941, com 603 adventistas convocados, entre eles 35 pastores. O documento menciona 16 pastores e 105 membros em funções sanitárias, além de 17 pastores e 247 membros promovidos a diferentes patentes, e registra quatro membros e um pastor mortos até aquela data. Esses números, apresentados pela fonte como recortes das atividades militares, precisam ser lidos conforme as categorias da lista, sem somá-los como se fossem grupos necessariamente independentes. Seu valor documental está em mostrar que a presença militar adventista abrangia centenas de pessoas e incluía ministros religiosos, funções de saúde e patentes militares. As ordens pastorais de 1940 e a relação de 1941 permitem observar tanto a orientação administrativa quanto a amplitude da participação descrita pelos compiladores.
O levantamento oferece também uma ponte para o tema mais amplo da Igreja Militar Adventista. A denominação possuía experiência em serviços sanitários, contatos com autoridades militares e uma história de controvérsias sobre serviço armado que antecedia a Segunda Guerra Mundial. Aqui, contudo, a documentação refere-se especificamente às condições da Alemanha entre 1914 e 1941 e deve ser examinada dentro desse contexto antes de estabelecer analogias com estruturas militares denominacionais surgidas ou reorganizadas em outros países e décadas. A continuidade histórica merece estudo, mas a própria riqueza dos documentos exige acompanhar datas, administrações e formas institucionais concretas.
A assistência adventista integrada às campanhas de guerra
Jack M. Patt relata, em Living in a Time of Trouble, que adventistas participaram das campanhas de assistência de inverno do Reich, arrecadando recursos, vendendo selos assistenciais e distribuindo roupas e alimentos. Na temporada 1939–1940, segundo os números por ele apresentados, a venda de selos ultrapassou 89 mil dólares em valores históricos. O Advent-Wohlfahrtswerk também prestou ajuda a feridos, soldados, famílias de militares e populações afetadas pelo conflito. O estudo descreve a atuação de enfermeiras da irmandade de Friedensau em clínicas e hospitais militares e serviços sociais de instituições como Friedensau, Waldfriede e Bad Aibling. Ao mesmo tempo, registra a participação em campanhas contra álcool e tabaco: em 1939, uma seção assistencial dedicada a essas atividades contava com 7.367 participantes ativos.
Essa documentação mostra como uma rede religiosa de saúde e socorro se integrou a programas sociais dirigidos pelo Estado nazista. Os serviços de cuidado efetivamente prestados a pessoas enfermas e necessitadas não deixam de ser assistência humana, mas a administração que os coordenava operava dentro de estruturas governamentais e de guerra que tinham objetivos políticos mais amplos. Em vez de separar artificialmente a atividade religiosa da relação estatal, os relatórios permitem examinar sua interdependência: a organização assistencial era útil ao governo, e sua utilidade contribuía para preservar espaços de funcionamento institucional. Essa relação já estava presente nos esforços de Hulda Jost antes de 1936 e continuou depois de sua morte.

Enquanto dirigentes oficiais colaboravam com o regime, adventistas reformistas que recusavam exigências militares nazistas conheceram a perseguição, a prisão e a morte.
O relatório de guerra de 1939–1940: gratidão a Deus por Hitler
O Tätigkeitsbericht des Kriegs-Winterhilfswerks 1939/40, reproduzido em trechos no documento alemão, identifica A. Minck e o secretário social Otto Brozio na administração assistencial. Na página 3 do relatório original, segundo a transcrição, uma frase atribui à sábia providência de Deus a entrega do Führer ao povo alemão: In stiller Anbetung danken wir Gott, der in weiser Vorsehung unserem Volke den Führer gab. Em português: “Em silenciosa adoração, agradecemos a Deus que, em sua sábia providência, concedeu o Führer ao nosso povo.” Outras passagens, indicadas nas páginas 9 e 16 do relatório, fazem referência a uma declaração de fidelidade ao Führer e à pátria e celebram vitórias militares alemãs. O conteúdo vai muito além de um balanço de donativos ou hospitais: vincula assistência religiosa, obediência política e interpretação providencial das campanhas de guerra.
Esse relatório é especialmente relevante para nossa investigação sobre Hulda Jost porque evidencia a continuidade administrativa do AWW depois de 1938. Minck havia homenageado a dirigente no obituário, e agora aparece relacionado a uma organização que manifestava gratidão religiosa por Hitler durante a guerra. Não é necessário atribuir a Jost decisões tomadas depois de sua morte para mostrar o desenvolvimento institucional da estrutura assistencial que ajudara a dirigir. O contraste entre o obituário, a circular pastoral e o relatório militarmente entusiasmado forma uma sequência de documentos que permite investigar a cultura administrativa daquela organização, seus dirigentes e sua linguagem política.
O aniversário de Hitler nos calendários devocionais
A mesma compilação alemã reproduz homenagens ao Führer atribuídas a calendários adventistas de 20 de abril de 1940 e 20 de abril de 1941. O texto associado ao Advent-Kalender de 1940, também discutido por Sicher, apresentava Hitler como governante dotado de confiança, firmeza e bênção divina; o de 1941, atribuído a Im Wort, vinculava o agradecimento a Deus à oração pelo Führer e a um compromisso de fidelidade. A formulação alemã transcrita ao final deste último texto é: Wir vereinigen unsern Dank mit dem Gebet für den Führer und dem Gelöbnis zu unbeirrbarer Treue — “Unimos nossa gratidão à oração pelo Führer e à promessa de fidelidade inabalável.” A circulação de tais mensagens no contexto devocional demonstra que a admiração política também podia ser comunicada em linguagem de oração e providência, direcionada ao leitor religioso individual.
A justaposição dessas homenagens com o apoio editorial à política externa, com os apelos de serviço militar e com os relatórios de assistência evidencia a amplitude dos canais denominacionais mobilizados. Não eram apenas afirmações ocasionais feitas em ambientes políticos: periódicos, calendários e relatórios religiosos reproduziam interpretações favoráveis de Hitler e de acontecimentos do regime. Ao mesmo tempo, pesquisadores como Sicher indicam diferentes graus de adesão, acomodação, pressão e resistência entre autores e membros, o que reforça a necessidade de atribuir cada manifestação ao seu veículo e signatário em vez de falar por todos indistintamente.

Enquanto dirigentes oficiais colaboravam com o regime, adventistas reformistas que recusavam exigências militares nazistas conheceram a perseguição, a prisão e a morte.
A perseguição aos reformistas e aos adventistas de origem judaica
A memória das vítimas ocupa um lugar indispensável nessa história. O estudo reformista recorda membros que sofreram repressão por motivos de consciência, entre eles Johann Hanselmann e Günter Pietz, enquanto a perseguição nazista atingiu também adventistas de origem judaica vinculados à denominação oficial. Manfred Wachenheimer, assassinado em Buchenwald em 4 de julho de 1942, foi marginalizado por sua comunidade; o pastor Hermann Kobs tentou defendê-lo e enfrentou consequências dentro do ambiente eclesiástico. Max-Israel Munk e familiares também sofreram exclusão e perseguição, embora ele tenha sobrevivido. Essas trajetórias ajudam a compreender as consequências humanas da acomodação institucional às políticas raciais do Estado nazista e lembram que houve diferenças significativas de conduta entre pessoas e congregações.
A documentação de memoriais posteriores, incluindo a homenagem a Wachenheimer em Leipzig em 2021, oferece nomes e episódios que não devem ser absorvidos numa discussão puramente administrativa. Houve dirigentes que fizeram concessões políticas, membros que as aceitaram, outros que resistiram e pessoas que foram abandonadas por comunidades religiosas às quais pertenciam. O estudo dessas trajetórias não diminui a importância da correspondência de Jost, do memorando de Friedensau ou das ordens militares; pelo contrário, mostra o custo humano de uma história em que a preservação institucional se tornou, por vezes, mais visível que a proteção de indivíduos perseguidos.
A responsabilidade internacional e a insuficiência dos reconhecimentos posteriores
A documentação reunida não permite reduzir toda a história a uma única responsabilidade centralizada em Washington, mas demonstra episódios de alcance internacional que exigem examinar a Associação Geral. A liderança mundial conheceu a crise militar após a Primeira Guerra, participou das negociações de 1920 e viu dirigentes europeus formular a posição de Gland em 1923. A viagem de Jost aos Estados Unidos, por sua vez, recebeu apoio de estruturas da administração mundial e alcançou a assembleia geral de 1936, conforme documentado por Blaich. O historiador também examina decisões de 1938 relativas à edição missionária de The New Caesars, de Gwynne Dalrymple, em contexto de preocupação com o regime nazista. Essas conexões documentais indicam que a discussão não é apenas sobre erros regionais de ministros alemães, mas também sobre o papel desempenhado pela administração internacional em episódios determinados.
Os reconhecimentos posteriores de culpa, embora importantes, tiveram naturezas diversas e alcance predominantemente regional. Houve manifestações em 1988, 1989 e 1995, uma declaração conjunta particularmente expressiva das administrações alemã e austríaca em 2005, novos pronunciamentos em 2012 e 2019 e uma manifestação de 2014 relacionada sobretudo à ruptura com os reformistas na Primeira Guerra Mundial. Não se deve somar esses episódios como se constituíssem décadas contínuas de pedidos mundiais de perdão. A declaração de 2005 reconheceu problemas históricos graves, incluindo exaltação de Hitler em publicações e abandono de adventistas de origem judaica, mas não representou uma prestação de contas mundial completa sobre todos os atos administrativos relacionados à campanha internacional de Jost. Como registrou também a reportagem da Adventist News Network sobre o reconhecimento de 2005, os pedidos de desculpas foram formulados por estruturas alemãs e austríacas. A correção editorial permanece fundamental: houve manifestações localizadas, esporádicas, limitadas e com resultados insuficientes diante da amplitude dos acontecimentos examinados.
Uma trajetória de 1914 a 1941 que já não cabe numa explicação regional
A sequência documental formada por Schuberth em 1914, pelas exclusões e negociações de 1916–1920, pela resolução de Gland em 1923, pelo memorando de dezembro de 1933, pelos escritos de Hulda Jost, pela campanha de 1936, pelo artigo de Friedensau em 1937, pelo obituário de 1938, pela circular de Minck em 1940 e pelos relatórios e calendários de 1940–1941 revela diferentes etapas de uma longa negociação institucional com as exigências do poder estatal. Os acontecimentos não tiveram as mesmas causas imediatas, nem envolveram sempre as mesmas pessoas, mas compartilham um problema que a documentação permite formular com precisão: como líderes religiosos interpretaram a fidelidade bíblica, a liberdade de consciência e a obrigação de servir à pátria quando o Estado exigia disponibilidade militar e lealdade política.
A carta de Hulda Jost a Hitler continua sendo uma fonte central porque mostra, pela voz de sua própria autora, a atuação de uma dirigente adventista em favor da imagem internacional do regime nazista, com redes de apoio religioso e diplomático. Entretanto, os documentos que a cercam impedem qualquer tentativa de tratá-la como personagem isolada, sem antecedentes ou continuidade institucional. Friedensau, o AWW, os periódicos, as circulares pastorais, o serviço militar e a documentação dos reformistas apresentam um quadro mais amplo de decisões, justificativas, adaptações e consequências. A pergunta histórica que permanece aberta não é apenas se determinados adventistas admiraram Hitler, mas como uma organização religiosa decidiu atuar diante de governos que demandavam sua obediência e como posteriormente reconheceu — ou deixou de reconhecer — as responsabilidades decorrentes de suas escolhas.
Ilustrações editoriais produzidas com inteligência artificial. Documentos históricos, pesquisas e referências identificados ao longo da reportagem.
Fontes documentais e bibliografia
1. Warum gibt es eine Reformationsbewegung der Siebenten-Tags-Adventisten? Compilação histórica em alemão; especialmente as passagens sobre a carta de 1914, as reuniões de Friedensau e Gland, a declaração de 1923, o memorando de 1933, as proibições dos reformistas, a circular de A. Minck e os relatórios de guerra de 1939–1941.
2. Spectrum, vol. 8, nº 3, março de 1977. Jack M. Patt, “Living in a Time of Trouble: German Adventists Under Nazi Rule”, pp. 2–10; Erwin Sicher, “Seventh-day Adventist Publications and the Nazi Temptation”, pp. 11–24. Contém referências aos periódicos adventistas alemães e pesquisas sobre políticas, assistência, serviço militar, eugenia e o regime nazista.
3. Roland Blaich, “Selling Nazi Germany Abroad: The Case of Hulda Jost”, Journal of Church and State, vol. 35, nº 4, 1993, pp. 807–830. Estudo sobre correspondências administrativas, propaganda internacional, viagem de Jost e sua carta a Hitler.
4. Roland Blaich, “Religion under National Socialism: The Case of the German Adventist Church”, Central European History. Pesquisa sobre arquivos governamentais, Gestapo e relações entre a comunidade adventista alemã e o Estado nazista.
5. International Missionary Society, “Lesson 14 — A False Confession”. Apresenta a interpretação reformista sobre a decisão de Gland, a carta militar de 1914 e a resposta de 1927.
6. Advent-Wohlfahrtswerk, histórico institucional de 125 anos. Publicação sobre a história da assistência social adventista e suas relações com as estruturas assistenciais alemãs.
7. Declaração conjunta adventista da Alemanha e Áustria, maio de 2005; reportagem contemporânea da Adventist News Network; declaração de 2014 sobre culpa e fracasso nas relações com reformistas; memorial de Manfred Wachenheimer em Leipzig, 2021.
8. Der Adventbote e Advent-Bote, números identificados de 1933–1941, incluindo W. Müller, Hulda Jost, W. Eberhardt, Kurt Sinz e A. Minck. Obituário de Hulda Jost: Advent-Bote, 1938, nº 8, p. 125, “Frau Oberin Hulda Jost †”, A. Minck. As referências específicas a números e páginas estão nos estudos de Sicher, Patt e Blaich acima vinculados.





