Esse novo vídeo do irmão Rogério Custódio procura demonstrar que diversas experiências atribuídas a Ellen G. White apresentam paralelos significativos com práticas espiritualistas amplamente difundidas durante o século XIX. A apresentação é construída principalmente por meio de comparações entre relatos encontrados nos escritos de Ellen White, registros do espiritismo ligados a Chico Xavier e estudos sobre o ambiente religioso norte-americano do período.

O Espiritualismo no Adventismo Primitivo: Paralelos, Contexto e uma Perspectiva Histórica Mais Ampla
O primeiro eixo da argumentação do vídeo acimaconcentra-se nas viagens espirituais descritas por Ellen White. O vídeo reúne passagens em que ela afirma ter sido conduzida por um anjo ou guia espiritual para visitar outros mundos, contemplar habitantes de planetas e conversar com personagens bíblicos como Enoque. Em seguida, essas descrições são colocadas lado a lado com narrativas psicografadas atribuídas à mãe de Chico Xavier, que também descrevem visitas ao planeta Saturno, seres moralmente superiores e viagens conduzidas por um mentor espiritual. O objetivo dessa comparação é mostrar semelhanças entre os dois conjuntos de relatos.
Outro bloco importante aborda a conhecida descrição de Ellen White sobre um mundo com sete luas, tradicionalmente identificado pelos pioneiros adventistas como Saturno. O vídeo observa que essa identificação foi feita por contemporâneos, como Joseph Bates, e ressalta que Ellen White nunca a contestou publicamente. Em paralelo, apresenta textos espíritas que descrevem Saturno como um planeta habitado por seres elevados, estabelecendo um paralelo temático entre ambas as narrativas.
A apresentação também destaca elementos comuns como a existência de guias espirituais, viagens extracorpóreas, seres perfeitos que nunca conheceram o pecado, comunicação entre diferentes mundos, habitantes moralmente superiores, ausência de doenças e morte, além do desejo manifestado pelos viajantes de permanecer nesses ambientes paradisíacos antes de serem conduzidos de volta à Terra.
Outro tema desenvolvido é o chamado “cordão verde”, uma experiência mística relatada por Ellen White em sua juventude. O vídeo procura estabelecer uma relação entre esse episódio e determinados objetos religiosos distribuídos atualmente em alguns contextos adventistas, sugerindo continuidade simbólica entre práticas do século XIX e determinados elementos devocionais contemporâneos.
Na parte final, Rogério Custódio amplia o foco para o ambiente religioso do século XIX e utiliza pesquisas da historiadora Ann Taves para argumentar que muitos fenômenos posteriormente associados às visões de Ellen White já eram conhecidos em movimentos espiritualistas norte-americanos. Entre esses fenômenos estão:
- transes religiosos;
- perda de forças físicas;
- suspensão aparente da respiração;
- gritos extáticos de “Glória”;
- viagens espirituais;
- descrições de outros planetas;
- atuação de guias espirituais;
- entrega de objetos simbólicos durante experiências visionárias.
Segundo essa linha de argumentação, Ellen White seria compreendida não como um fenômeno isolado, mas como alguém inserido em um contexto religioso que já apresentava manifestações semelhantes.
Um aspecto que poderia enriquecer significativamente essa pesquisa
Na minha avaliação, o vídeo poderia ganhar ainda mais profundidade caso dedicasse um capítulo inteiro à reconstrução do ambiente religioso norte-americano entre aproximadamente 1800 e 1860, período extremamente fértil para o surgimento de movimentos restauracionistas, espiritualistas, visionários e mileritas.
Nesse contexto, Ellen White deixaria de aparecer apenas como objeto de comparação com o espiritismo posterior e passaria a ser compreendida dentro do universo religioso que moldou sua formação.
Um capítulo específico poderia apresentar, por exemplo, personagens e movimentos como:
- Charles Finney, representante dos grandes reavivamentos protestantes e das reuniões campais (Camp Meetings);
- Joseph Smith, fundador do mormonismo, cujas experiências visionárias surgem praticamente no mesmo ambiente religioso;
- As Irmãs Fox, consideradas o marco inicial do espiritualismo moderno norte-americano;
- Andrew Jackson Davis, frequentemente chamado de “profeta do espiritualismo”, conhecido por suas descrições de viagens espirituais e outros mundos;
- Os Swedenborgianos, seguidores de Emanuel Swedenborg, cujas descrições de visitas aos céus e a outros planetas influenciaram profundamente o imaginário espiritual do século XIX;
- O mesmerismo, que popularizou estados alterados de consciência, transes e fenômenos considerados mediúnicos;
- Os Camp Meetings, grandes reuniões de reavivamento marcadas por êxtases religiosos, quedas, gritos e manifestações físicas;
- O Millerismo, movimento do qual posteriormente surgiria o adventismo sabatista.
Ao apresentar esse panorama histórico, Ellen White passaria a ser vista naturalmente como participante de um ambiente religioso extremamente dinâmico, em que visões, transes, êxtases, revelações, curas, viagens espirituais e manifestações sobrenaturais eram temas recorrentes.
Essa contextualização histórica tornaria a análise mais ampla, permitindo ao leitor compreender que muitos fenômenos discutidos no vídeo não surgiram isoladamente, mas faziam parte de um cenário religioso bastante complexo nos Estados Unidos da primeira metade do século XIX. Isso contribuiria para uma compreensão mais rica do contexto em que o adventismo primitivo se desenvolveu e ajudaria a situar Ellen White dentro das correntes religiosas e culturais de sua época.

Ellen White e o Universo Visionário de Sua Época
Por que compreender o ambiente religioso da América do século XIX é indispensável para interpretar historicamente as primeiras experiências visionárias do adventismo
Existe um princípio metodológico que orienta praticamente toda pesquisa histórica séria: nenhum personagem pode ser compreendido isoladamente de seu tempo. Ideias não surgem espontaneamente. Movimentos religiosos não aparecem no vazio. Experiências espirituais, por mais extraordinárias que pareçam, sempre são vividas dentro de um determinado contexto cultural, intelectual e religioso. Esse princípio é aplicado indistintamente ao estudo do judaísmo do Segundo Templo, da Reforma Protestante, do pietismo alemão, do metodismo inglês ou do pentecostalismo moderno. Entretanto, quando o assunto é Ellen G. White, essa regra metodológica frequentemente desaparece. Tanto admiradores quanto críticos costumam concentrar sua atenção exclusivamente em suas visões, seus escritos e suas reivindicações proféticas, enquanto dedicam relativamente pouco espaço ao ambiente histórico que tornou essas experiências inteligíveis para seus contemporâneos. Essa lacuna empobrece o debate. Antes de perguntar qual foi a origem de suas visões, é necessário compreender por que elas foram compreendidas e aceitas dentro de um ambiente religioso extremamente receptivo a esse tipo de manifestação.
A primeira metade do século XIX constitui um dos períodos mais intensos da história religiosa norte-americana. Os Estados Unidos ainda eram uma nação jovem, marcada pela expansão territorial, pela formação de novas comunidades e por profundas transformações sociais. Ao mesmo tempo, experimentavam sucessivas ondas de reavivamento conhecidas como Segundo Grande Despertamento, fenômeno que alterou profundamente a espiritualidade protestante. Não se tratava apenas de um aumento na frequência aos cultos ou de um renovado interesse pela religião. O período foi caracterizado por intensa expectativa escatológica, forte emocionalidade, busca de experiências pessoais com Deus, surgimento de movimentos restauracionistas e uma convicção amplamente difundida de que o Espírito Santo continuava intervindo diretamente na história por meio de sonhos, visões, curas, profecias e manifestações extraordinárias.
Foi nesse cenário que se desenvolveram os grandes Camp Meetings, reuniões campais que reuniam milhares de pessoas durante vários dias de pregação, oração e intensa participação emocional. Relatos da época descrevem indivíduos caindo ao chão, permanecendo imóveis por longos períodos, chorando incontrolavelmente, gritando palavras de louvor, entrando em estados de êxtase e afirmando receber impressões espirituais profundas. Tais manifestações eram interpretadas de maneiras diferentes pelos diversos grupos religiosos, mas dificilmente eram consideradas fenômenos completamente inéditos. Faziam parte da paisagem espiritual daquele tempo. Hoje, muitos desses episódios seriam imediatamente associados a movimentos pentecostais ou carismáticos; entretanto, na América do início do século XIX, eles estavam presentes em diversos segmentos do protestantismo avivalista.
Esse ambiente ajuda a compreender por que tantas comunidades estavam predispostas a aceitar pessoas que afirmavam receber revelações sobrenaturais. A questão não consistia apenas em acreditar ou não em milagres. Havia uma expectativa coletiva de que Deus continuava falando ao seu povo de maneiras extraordinárias. Essa expectativa favoreceu o surgimento de inúmeros líderes religiosos que reivindicavam experiências visionárias. Joseph Smith relatava visitas angelicais que dariam origem ao movimento mórmon. Diversos pregadores afirmavam receber mensagens proféticas durante os reavivamentos. Andrew Jackson Davis descrevia longas viagens espirituais realizadas durante estados de transe. O espiritualismo moderno começava a ganhar força. Ao mesmo tempo, grupos influenciados pelos escritos de Emanuel Swedenborg continuavam difundindo descrições detalhadas do céu, do inferno e até mesmo de outros mundos habitados. A sociedade americana encontrava-se profundamente fascinada pelo sobrenatural.
É precisamente dentro desse universo que Ellen Harmon — posteriormente conhecida como Ellen G. White — inicia suas primeiras experiências visionárias. Esse dado histórico merece atenção porque frequentemente é substituído por uma narrativa muito mais simples, segundo a qual suas visões surgiriam como um fenômeno praticamente isolado na história religiosa americana. Entretanto, quando observadas à luz do contexto histórico, essas experiências passam a integrar um panorama muito mais amplo de intensa experimentação espiritual. Isso não significa reduzir suas visões às experiências de seus contemporâneos nem afirmar automaticamente que todas possuíam a mesma natureza. Significa apenas reconhecer que Ellen White viveu numa época em que sonhos, êxtases, transes e relatos sobrenaturais ocupavam posição central na vida religiosa de milhares de pessoas.
Essa constatação torna-se ainda mais importante quando observamos o desenvolvimento do millerismo, movimento do qual surgiria posteriormente o adventismo sabatista. O milerismo nasceu dentro da atmosfera dos grandes reavivamentos protestantes, compartilhando sua linguagem apocalíptica, sua intensa expectativa escatológica e sua convicção de que Deus conduzia diretamente os acontecimentos finais da história. O Grande Desapontamento de 1844 não encerrou essa expectativa; ao contrário, levou diversos grupos a reinterpretar a experiência vivida e buscar novas explicações para o fracasso da previsão inicial. Nesse ambiente de profunda crise religiosa, experiências visionárias passaram a desempenhar papel ainda mais relevante, oferecendo orientação espiritual para comunidades que buscavam compreender o significado dos acontecimentos recentes.
É justamente nesse contexto que as primeiras visões de Ellen White adquirem importância crescente entre os adventistas remanescentes. Seus relatos descrevem viagens espirituais, encontros com personagens bíblicos, contemplação de cidades celestiais, visitas a outros mundos e orientações recebidas de um ser que ela identifica como um anjo ou mensageiro celestial. Essas narrativas tornaram-se fundamentais para a consolidação da identidade adventista nascente. Entretanto, quando analisadas historicamente, elas também apresentam elementos que dialogam com um repertório religioso amplamente conhecido na América daquele período. A presença de um guia espiritual, por exemplo, aparece em numerosos relatos visionários do século XIX, embora cada tradição atribua significados diferentes a essa figura. Da mesma forma, descrições de viagens da alma, contemplação de realidades celestiais e observação de mundos habitados não eram exclusividade do adventismo. Elas circulavam em diferentes correntes religiosas, espiritualistas e místicas que coexistiam naquele ambiente cultural.
Esse panorama explica por que pesquisadores da história das religiões, como Ann Taves, consideram indispensável estudar Ellen White dentro do universo religioso do qual participou. O interesse desses estudos não consiste em confirmar ou negar a autenticidade de suas experiências, mas compreender como determinados fenômenos religiosos emergem em contextos específicos e passam a ser interpretados pelas comunidades que os recebem. Essa abordagem metodológica difere tanto da apologética quanto da crítica confessional. Em vez de iniciar pela conclusão, procura reconstruir cuidadosamente o cenário histórico em que essas experiências ocorreram. Sob essa perspectiva, Ellen White deixa de aparecer como uma figura isolada e passa a integrar uma geração inteira de líderes religiosos profundamente marcada pela linguagem das visões, dos transes, das revelações e das experiências extraordinárias.
Essa observação também ajuda a compreender por que determinados episódios de seus escritos despertam interesse especial entre historiadores. Relatos de visitas a mundos onde o pecado jamais teria entrado, descrições de habitantes moralmente superiores, referências a planetas identificados posteriormente como Saturno, experiências envolvendo objetos simbólicos como o chamado “cordão verde” e narrativas de transes físicos prolongados são frequentemente analisados não apenas em si mesmos, mas também em relação ao ambiente cultural em que surgiram. A pergunta histórica deixa de ser simplesmente se esses relatos ocorreram; passa a ser como eles dialogavam com expectativas religiosas amplamente compartilhadas naquele período.
É precisamente nesse ponto que muitos debates contemporâneos acabam se tornando menos produtivos do que poderiam. Frequentemente, qualquer tentativa de contextualizar Ellen White dentro do universo religioso do século XIX é interpretada como um ataque à sua autoridade profética. Entretanto, contextualizar historicamente um personagem não equivale a desqualificá-lo. Nenhum pesquisador considera ofensivo afirmar que Lutero pertenceu ao ambiente intelectual do Renascimento, que João Wesley foi moldado pelo anglicanismo e pelo pietismo ou que Joseph Smith surgiu no contexto do chamado “Distrito Incendiado” de Nova York. Pelo contrário, compreender o ambiente histórico de um personagem constitui requisito básico para qualquer investigação séria. O mesmo princípio deve ser aplicado ao estudo de Ellen White.
Quando essa reconstrução histórica é realizada de forma cuidadosa, percebe-se que o adventismo primitivo não nasceu isoladamente, mas participou de um dos momentos mais criativos, intensos e diversificados da história religiosa americana. A convivência entre reavivamentos protestantes, movimentos restauracionistas, espiritualismo nascente, mesmerismo, expectativas apocalípticas e intensa produção de relatos visionários criou um ambiente singular, no qual experiências sobrenaturais eram não apenas possíveis, mas frequentemente esperadas. Reconhecer esse contexto não resolve automaticamente todas as questões sobre a natureza das visões de Ellen White, mas impede que elas sejam estudadas como fenômenos desconectados da realidade histórica em que surgiram.
Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes que a história pode oferecer ao debate contemporâneo. Antes de formular conclusões teológicas, torna-se indispensável compreender o universo cultural que moldou a linguagem, as expectativas e as formas de experiência religiosa da época. Somente quando Ellen White é recolocada nesse amplo cenário do século XIX é que sua trajetória pode ser examinada com a profundidade que uma personagem de tamanha influência histórica exige. Essa perspectiva não obriga o leitor a abandonar suas convicções nem determina antecipadamente qualquer conclusão sobre a origem de suas experiências. Ela apenas restitui à investigação aquilo que toda boa historiografia procura preservar: o contexto, a continuidade histórica e a complexidade do mundo em que as ideias nasceram.






