FIDEL E CHE GUEVARA NOS TRAÍRAM!

Testemunhas adventistas resgatam a triste história do apoio aos revolucionários comunistas, que a IASD depois tentou esconder






Documentário produzido por adventistas de Santa Clara preservou em imagens e depoimentos a história do pastor Walton Brown, Che Guevara, Fidel Castro e do colégio que a Revolução Cubana acabaria tomando.






ABERTURA — UMA HISTÓRIA QUE O TEMPO NÃO PÔDE APAGAR

Primeiro aparecem as lembranças. Bíblias antigas, documentos, fotografias, objetos guardados durante décadas e o diploma pelo qual a Universidad de Montemorelos concedeu a Virgilio Zaldívar Marrero o título de Doutor em Educação Honoris Causa passam diante da câmera enquanto começa a soar uma música que parece ter sido escolhida para transformar saudade em argumento histórico. É o quarteto Heraldos del Rey, com aquela sonoridade inconfundível dos antigos quartetos adventistas, interpretando Hogar de mis recuerdos: “El hogar de mis recuerdos, a ti volver anhelo. No hay sitio bajo el cielo más dulce que el hogar”. A edição não está apenas apresentando uma instituição de ensino que deixou de existir. Está conduzindo antigos alunos de volta a um lugar que continuou existindo dentro deles muito depois que seus corredores, dormitórios, salas de aula, fábricas, plantações e capela deixaram de lhes pertencer.

Logo compreendemos por que a música foi colocada ali. A narração apresenta um lugar “casi olvidado, desconocido por muchos”, onde permanecem anos da história de um povo “que el tiempo no ha podido borrar”. O antigo Colegio de las Antillas surge diante da câmera pobremente conservado, descrito como um gigante sem vida que continua de pé como monumento daquilo que um dia foi. Então vem a declaração que fornece a chave para compreender todo o documentário: “Parece una historia común, pero es mi historia, de mi gente, y aquí estamos nosotros para desempolvarla y dejar que ella misma brille con luz propia”. Não é a Associação Geral tentando reabrir um capítulo incômodo de sua própria história, nem uma comissão denominacional procurando explicar como uma instituição adventista terminou alimentando homens de Che Guevara, recebendo Fidel Castro, colocando seu coral diante dos revolucionários e, anos depois, sendo tomada pelo mesmo regime. São adventistas de Santa Clara voltando ao passado de sua própria comunidade antes que morressem as últimas pessoas capazes de dizer: nós estávamos lá.

O título escolhido por eles parece hoje quase profético: El Colegio de las Antillas: ¿una historia olvidada? Depois de tudo o que conseguimos reunir sobre Walton J. Brown, Che Guevara, Fidel Castro e a participação do C.A. nos acontecimentos que cercaram a batalha de Santa Clara, a pergunta já não pode ser tratada apenas como recurso poético. Aquela história realmente desapareceu da memória da maioria dos adventistas. E não estamos falando de um episódio marginal, protagonizado por membros desconhecidos de alguma pequena congregação rural. Estamos falando de Walton J. Brown, diretor do Colegio de las Antillas durante os acontecimentos decisivos de dezembro de 1958 e dos primeiros meses de 1959, um administrador que posteriormente ocuparia posições cada vez mais elevadas dentro da própria estrutura mundial da Igreja Adventista.

Brown deixou registros contemporâneos do que aconteceu e, em 1990, publicou um livro dedicado justamente à história daquela instituição: ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas. A existência da obra não depende de boato, tradição oral ou lembrança imprecisa. O livro existiu, circulou dentro do universo adventista e continuou sendo utilizado posteriormente pela própria historiografia denominacional, que cita páginas determinadas para sustentar episódios envolvendo Fidel Castro e os primeiros tempos da Revolução. É aí que começa um dos aspectos mais desconcertantes desta investigação: o livro continuou existindo como fonte para quem escrevia a história oficial, mas praticamente desapareceu do alcance de quem quisesse conferir por conta própria aquilo que Walton Brown havia escrito.

Até agora não localizamos a ordem administrativa que eventualmente tenha determinado recolhimento, silêncio ou desaparecimento de ¡O Mi C.A.!, mas não precisamos transformar a inexistência dessa folha de papel em álibi para aquilo que aconteceu diante de nossos olhos. O fato documental é muito mais incômodo: uma obra escrita por um importante administrador adventista sobre uma das instituições educacionais mais relevantes da denominação no Caribe, utilizada décadas depois como fonte por pesquisadores adventistas e citada com indicação precisa de páginas, tornou-se extraordinariamente difícil de encontrar. A memória institucional continuou sabendo que o livro existia, continuou retirando informações dele e continuou apontando para suas páginas, enquanto o leitor comum perdeu o acesso àquilo que essas páginas efetivamente diziam. O apagamento não precisa deixar recibo para que seus resultados possam ser observados.

E o conteúdo que sobreviveu dessas páginas ajuda a compreender por que esse desaparecimento é tão inconveniente. Não estamos procurando um livro apenas porque ele é raro. Estamos procurando o relato retrospectivo do homem que dirigia o Colegio de las Antillas quando os revolucionários chegaram, que autorizou ajuda material, que atravessou a estrada para encontrar Che Guevara, que soube recusar o uso da imprensa adventista para propaganda política, que dirigiu o coral num período de aproximação com os novos governantes e que posteriormente escreveu a história daquela escola. Quando uma obra assim praticamente some das estantes enquanto suas páginas continuam sendo citadas seletivamente pela historiografia denominacional, perguntar o que havia nela não é conspiracionismo. É obrigação elementar de qualquer investigação histórica.

Foi justamente nesse ponto que aconteceu algo que provavelmente ninguém encarregado de administrar a memória denominacional poderia controlar por completo: ainda existiam testemunhas. Homens e mulheres que haviam estudado, trabalhado, comido, dormido, cantado e orado no Colegio de las Antillas continuavam vivos. Alguns haviam trabalhado na fábrica de conservas, outros na cozinha, na lavanderia, na imprensa, na panificação, na fazenda ou nos escritórios. Alguns chegaram adolescentes e trabalharam centenas de horas para pagar os estudos; outros conheceram o C.A. já nos anos finais. Eles se lembravam do leite produzido na pasteurizadora, das plantações, das sociedades estudantis, dos cultos, das amizades, do trabalho e da disciplina, mas se lembravam também de coisas muito mais difíceis de encaixar na imagem posterior de uma denominação rigorosamente apartidária diante da Revolução Cubana.

Lembravam dos revolucionários. Lembravam da alimentação fornecida aos homens de Che Guevara. Lembravam que Walton Brown sabia e ajudava. Lembravam Fidel Castro entrando no colégio, sentando-se à mesa, ouvindo o coral, fazendo perguntas e elogiando o modelo educacional adventista. Lembravam Che participando de uma programação musical em Santa Clara. Outra ex-aluna, registrada posteriormente em 2024, ainda conservava na memória fragmentos das duas estrofes que Brown teria acrescentado ao hino revolucionário diante de Fidel: “Fidel, magnífico líder” e “te alabamos, te amamos”. E lembravam, finalmente, da outra extremidade dessa história: a campana chamando todos à capela, os representantes do governo diante dos alunos e a ordem para deixar a instituição. Uma das testemunhas encontrou a expressão mais brutal para resumir aquele momento: “Aquello fue peor que un velorio”.

É dessa sequência que nasce o título desta reportagem: FIDEL E CHE GUEVARA NOS TRAÍRAM! Não porque os adventistas de Santa Clara utilizem necessariamente essas palavras no documentário, mas porque a sucessão dos acontecimentos preservados por eles conduz inevitavelmente à amarga ironia. O colégio ajudou homens da Revolução quando eles ainda lutavam pelo poder; seus recursos foram colocados a serviço de necessidades concretas dos rebeldes; depois da vitória, os novos governantes foram recebidos, alimentados, homenageados e tratados como amigos. Brown chegou a registrar, ainda em 1959, sua satisfação por possuir “alguns bons amigos”. Uma publicação adventista de 1965 reconheceria posteriormente que Castro, demonstrando sua apreciação pelos favores recebidos, dera garantias que alimentaram grandes esperanças na administração do colégio. Poucos anos depois, a instituição que alimentara revolucionários descobriu quanto valiam aquelas garantias.

É também por isso que precisamos compreender corretamente a natureza do documentário que agora recuperamos. ¿Una historia olvidada? não é uma produção da Associação Geral destinada a esclarecer o comportamento da denominação durante a Revolução. É uma produção nascida dentro do adventismo cubano local. A Igreja Adventista de Santa Clara apresenta o trabalho; a Unión Cubana aparece nos agradecimentos; seu presidente participa e oferece o depoimento final sobre o propósito daquela recuperação histórica; professores e dirigentes do Seminario Teológico Adventista de Cuba também aparecem diante das câmeras. Arnaldo Prevals, que posteriormente disponibilizou uma versão do filme em melhor resolução, não foi mero republicador: aparece nos créditos entre os operadores de câmera e como responsável pela edição. Estamos diante de uma comunidade adventista contando sua própria história, com acesso a antigos alunos, fotografias, documentos e dirigentes que ainda podiam falar sobre o C.A.

E aqui reside uma das maiores ironias de toda a investigação. Os adventistas de Santa Clara não parecem ter produzido o documentário para denunciar sua própria organização. Ao contrário, o filme transpira afeto pelo colégio, respeito pelos antigos dirigentes, confiança religiosa e aquela maneira característica pela qual o adventista comum interpreta a própria história em linguagem de providência, missão, serviço e sofrimento. Os realizadores não colocam Brown no banco dos réus, não procuram reconstruir as decisões tomadas acima dele e não perguntam quem estabeleceu os limites que permitiam fornecer comida, recursos e assistência aos revolucionários enquanto proibia transformar a imprensa do colégio numa gráfica de propaganda política. Eles queriam salvar a memória de uma escola amada e, justamente porque não estavam tentando construir uma acusação, preservaram com espantosa naturalidade fatos que se tornam explosivos quando confrontados com a imagem institucional construída posteriormente.

Essa diferença precisa permanecer clara ao longo de toda a nossa leitura. Não estamos atribuindo aos antigos alunos a responsabilidade pelas decisões administrativas tomadas pela organização. Eles eram estudantes, funcionários, professores e membros de uma comunidade que confiava em seus dirigentes. A ingenuidade que aparece no documentário pertence principalmente a essa base que viveu os acontecimentos sem acesso aos bastidores em que políticas e limites eram definidos. Walton Brown, porém, ocupava outra posição. Era o diretor. Administrava recursos, dirigia o coral, supervisionava uma instituição de importância interamericana e demonstrou, quando recusou imprimir propaganda revolucionária, que compreendia perfeitamente que existia uma fronteira política. Essa recusa não o absolve do restante; ao contrário, torna o restante ainda mais significativo, porque mostra que ele sabia distinguir aquilo que considerava permitido daquilo que julgava ultrapassar a linha.

É precisamente essa linha que nossas publicações anteriores começaram a investigar. A pergunta nunca foi simplesmente se Walton Brown gostava pessoalmente de Fidel Castro ou se havia se tornado comunista, distração que reduziria uma questão institucional a uma preferência individual. A pergunta é muito mais séria: quem ensinou Brown até onde ele podia ajudar Che Guevara? Quem formou aquele administrador para reconhecer que alimentar combatentes, fornecer materiais, prestar assistência, manter contatos e posteriormente cultivar relações com os vencedores cabia dentro de determinada margem de atuação, enquanto imprimir propaganda política não cabia? Brown não nasceu administrativamente em Santa Clara. Era literalmente filho da missão, criado dentro da estrutura internacional adventista e formado para servir a uma organização que há décadas negociava sua presença com governos, autoridades e regimes muito diferentes entre si.

Por isso, o documentário local vale tanto. Ele não resolve sozinho a pergunta sobre o nível superior das decisões, mas destrói qualquer tentativa de reduzir tudo a rumores hostis à Igreja. São os próprios adventistas cubanos que contam que o C.A. alimentou os revolucionários; são eles que dizem que Brown ajudou; são eles que recordam Fidel, Che, o coral e as visitas; são eles que preservam fotografias; são eles que contam a tomada da instituição e são eles que, décadas depois, voltaram ao antigo campus para impedir que aquela história morresse com suas últimas testemunhas. A investigação crítica não colocou essas palavras na boca deles. Encontrou-as ali.

Isso torna ainda mais perturbador o contraste entre a memória da comunidade e a memória administrada pela instituição. Enquanto antigos alunos guardavam nos próprios corpos e lembranças uma história de aproximação, esperança e posterior perda, o livro de Brown tornava-se cada vez mais difícil de alcançar. Enquanto a historiografia adventista continuava citando páginas de ¡O Mi C.A.!, gerações inteiras de membros da Igreja podiam atravessar a história da Revolução Cubana sem jamais ouvir que o colégio adventista de Santa Clara havia alimentado homens de Che Guevara, que Fidel fora recebido ali, que o coral se apresentara diante dos revolucionários ou que Brown escrevera sobre possuir “alguns bons amigos”. O silêncio não apagou os acontecimentos; apenas os separou uns dos outros.

Os adventistas de Santa Clara fizeram o contrário. Juntaram rostos, fotografias, documentos, edifícios e vozes. O próprio documentário reconhece que a maioria dos integrantes da primeira geração que conheceu, estudou e viveu no C.A. já havia morrido, mas afirma que alguns homens e mulheres tinham sido preservados como verdadeiros baluartes e “testigos presenciales”, capazes de ajudar a conhecer e manter aquela história. Eles compreenderam que aquele arquivo humano possuía prazo de validade e ligaram as câmeras antes que fosse tarde demais. Quando aquelas vozes se calassem, o prédio abandonado continuaria de pé, mas não poderia explicar sozinho quem havia comido ali, quem havia sido recebido, quem ajudara quem e por que a perda posterior do colégio doera tanto.

O resultado é uma extraordinária inversão histórica. O livro escrito pelo administrador que viveu os acontecimentos praticamente desapareceu do alcance público, mas os antigos alunos falaram. A estrutura denominacional não colocou essa história diante de sucessivas gerações com a mesma clareza com que preservou outras narrativas de seu passado, mas os adventistas cubanos foram buscar suas fotografias e seus sobreviventes. E aquilo que talvez pretendesse ser apenas uma homenagem local acabou funcionando como arquivo audiovisual de uma história muito maior: a história de uma instituição adventista que ajudou homens que estavam tomando o poder, acreditou ter conquistado amigos entre os vencedores, recebeu deles elogios e garantias e, finalmente, viu esses mesmos vencedores tomarem aquilo que durante décadas havia chamado de lar.

É por isso que Hogar de mis recuerdos deixa de ser apenas música de fundo. Quando ouvimos “a ti volver anhelo”, já sabemos que aqueles homens e mulheres não estavam retornando simplesmente a uma escola antiga. Estavam voltando ao cenário de uma relação que começou com ajuda, passou pela amizade proclamada, atravessou os salões onde Fidel foi recebido e os programas em que Che apareceu e terminou diante de uma plataforma ocupada pelos representantes de um Estado que lhes dizia para sair. O documentário chama aquele lugar de uma história que o tempo não conseguiu apagar. Talvez a frase mais precisa seja ainda mais incômoda: o tempo não apagou porque as testemunhas não deixaram.

E agora que elas falaram, precisamos ouvi-las até o fim. Antes de ser base improvisada durante a batalha, refeitório dos revolucionários, lugar de recepção para Fidel Castro, ponto de aproximação com Che Guevara ou patrimônio tomado pelo Estado, o Colegio de las Antillas havia sido a casa dessas pessoas. Para compreender a dimensão da traição que elas acabariam experimentando, precisamos primeiro compreender aquilo que possuíam antes de perdê-lo.






CAPÍTULO 1 — ANTES QUE MORRESSEM AS TESTEMUNHAS

O documentário não corre imediatamente para dezembro de 1958, e essa escolha acaba sendo fundamental para compreendermos a dimensão do que aconteceria depois. Antes de Che Guevara, Fidel Castro e Walton Brown entrarem juntos nessa história, os realizadores reconstroem o mundo que existia antes da Revolução chegar aos portões do Colegio de las Antillas. A narrativa recua às primeiras experiências da educação adventista em Cuba, passa pelas dificuldades enfrentadas para estabelecer uma instituição permanente e chega ao projeto educacional que finalmente criaria raízes em Santa Clara. O C.A. não aparece como escola improvisada ou pequeno empreendimento denominacional perdido no interior da ilha, mas como resultado de décadas de investimento numa concepção adventista de educação que pretendia unir formação intelectual, trabalho manual e religião.

A trajetória apresentada pelo documentário começa muito antes de 1940. Os realizadores recuperam as experiências educacionais iniciadas nas primeiras décadas do adventismo cubano, lembram a etapa de Bartle e acompanham as sucessivas tentativas de estabelecer uma instituição industrial capaz de formar jovens para o serviço denominacional. Houve mudanças de propriedade, dificuldades ambientais, prejuízos e até destruição provocada por ciclone, mas o projeto sobreviveu até encontrar em Santa Clara o espaço onde alcançaria sua expressão mais conhecida. Quando o colégio começou a funcionar ali, em 12 de maio de 1940, carregava consigo essa história anterior e uma filosofia educacional resumida numa tríade que os antigos alunos continuariam repetindo décadas depois: mente, mão e coração. A mente para aprender, a mão para trabalhar e o coração para Deus.

Essa fórmula não era ornamento colocado num brasão. O trabalho fazia parte da própria engrenagem financeira e pedagógica da instituição. Os depoimentos recuperados pelos adventistas de Santa Clara descrevem estudantes dividindo os dias entre salas de aula e uma extensa estrutura produtiva que incluía agricultura, criação de animais, fábrica de conservas, imprensa, lavanderia, cozinha, panificação, escritórios e outras atividades. Uma antiga aluna recorda sua formação ligada à teologia e ao trabalho bíblico, mas também o aprendizado de datilografia e atividades de secretaria; outras testemunhas lembram os diferentes departamentos pelos quais passaram, as horas de trabalho utilizadas para custear os estudos e a rotina de uma escola em que praticamente todos participavam de alguma maneira da manutenção da comunidade.

As fotografias utilizadas no documentário tornam essa descrição ainda mais importante. O que poderia parecer apenas uma enumeração de setores econômicos reaparece em rostos, grupos de alunos, edifícios, plantações e cenas de trabalho. Aos poucos, forma-se a imagem de uma pequena cidade educacional. Havia gente estudando, preparando alimentos, trabalhando na imprensa, cuidando da propriedade, lavando roupas, cultivando a terra, administrando setores e participando das atividades religiosas e culturais. O Colegio de las Antillas ensinava enquanto produzia e produzia enquanto ensinava. Essa estrutura seria decisiva quando a guerra chegasse, porque os revolucionários não encontrariam apenas uma escola do outro lado da estrada: encontrariam uma instituição organizada, abastecida e capaz de transformar rapidamente sua infraestrutura em apoio material.

Um dos exemplos mais reveladores dessa capacidade aparece nas lembranças sobre a produção de alimentos. A propriedade cultivava arroz, feijão, tubérculos, hortaliças, cana e outros produtos, mas é a pasteurizadora que ocupa um espaço particularmente afetivo na memória dos ex-alunos. O leite produzido no C.A. não atendia apenas aos estudantes. Segundo os depoimentos preservados no filme, alcançava também Santa Clara e ajudava a construir fora dos portões a reputação de eficiência da instituição. Uma testemunha fala daquele leite com uma nostalgia quase infantil, dizendo que posteriormente viveu em outros lugares sem encontrar nada parecido. O detalhe pode parecer doméstico, mas é historicamente importante: antes que os homens de Che Guevara procurassem alimento naquela região, o Colegio de las Antillas já possuía uma estrutura produtiva capaz de abastecer muito mais gente do que seus próprios estudantes.

Essa presença econômica vinha acompanhada de prestígio educacional. O documentário recorda visitas de pessoas interessadas em conhecer o método do colégio e descreve uma procura suficientemente grande para exigir organização dos grupos que chegavam ao campus. Ali também ocorreram reuniões administrativas das estruturas adventistas Oriental e Ocidental, encontros da União Antillana e, em dezembro de 1948, um concílio da Divisão Interamericana. Portanto, quando Walton J. Brown assumiu a direção na década seguinte, não recebeu uma escolinha isolada cuja administração pudesse ser tratada como assunto exclusivamente local. Recebeu uma instituição inserida na estrutura educacional adventista interamericana, conhecida regionalmente, visitada por administradores e suficientemente importante para receber encontros da própria Divisão.

Esse dado precisa permanecer diante de nós quando chegarmos aos acontecimentos de 1958. A tendência de reduzir tudo a decisões improvisadas de Brown numa emergência militar se torna muito mais difícil quando lembramos o tamanho da instituição que ele administrava e sua posição dentro da organização. O diretor não controlava apenas algumas salas de aula. Sob sua administração existiam terras, produção de alimentos, veículos, instalações, uma imprensa, dormitórios, refeitório, funcionários, professores, alunos e uma estrutura econômica construída durante décadas. Quando partes dessa capacidade foram colocadas à disposição das necessidades revolucionárias, não estamos falando simplesmente de um indivíduo oferecendo o próprio prato de comida a um ferido encontrado na estrada. Estamos falando de recursos de uma instituição denominacional administrada por um dirigente denominacional.

É exatamente por isso que os depoimentos dos antigos alunos possuem tamanho valor. Os realizadores poderiam ter reconstruído o passado apenas com fotografias, datas e uma narração institucional, mas preferiram colocar diante da câmera pessoas que haviam vivido naquele mundo. Argelia Linares, Andrés Rodríguez, Clarita del Castillo, Ilsis Fernández, Magalis Martínez e outros ex-alunos dividem espaço com Coralia García, ligada à comunicação adventista de Santa Clara, e com pastores e educadores como Aramís de Armas, Luis Amador Morales, Francisco Hernández e Aldo Joel Pérez. A história passa continuamente da lembrança pessoal para a reconstrução institucional, permitindo que pequenos detalhes da vida cotidiana sobrevivam ao lado dos grandes acontecimentos.

Esses homens e mulheres não aparecem como investigadores tentando demonstrar envolvimento político da Igreja. Falam como pessoas que voltaram mentalmente à juventude. Recordam professores, colegas, trabalho, namoros, atividades culturais, cultos e aquela sensação peculiar de pertencer a uma comunidade que ocupava praticamente todos os aspectos da vida. Há quem descreva os anos passados no C.A. como um sonho e quem recorde que, apesar da quantidade de trabalho, havia felicidade naquele cotidiano. Essa camada afetiva não é decoração sentimental do documentário. Ela explica por que a perda posterior seria experimentada como uma espécie de morte coletiva. O Estado não tomaria apenas uma propriedade registrada em nome de uma organização religiosa; tomaria o lugar onde aquelas pessoas haviam construído sua juventude.

É também por isso que a frase escolhida pelos realizadores para explicar a presença dos sobreviventes merece atenção especial. A maioria dos integrantes daquela primeira geração já havia morrido, reconhece o documentário, mas alguns homens e mulheres permaneciam como “testigos presenciales”, testemunhas capazes de ajudar a conhecer e preservar a história. Eles estavam conscientes de que aquela memória possuía prazo. Uma fotografia pode sobreviver sem que ninguém saiba quem aparece nela; um edifício pode continuar de pé depois que todos esqueceram o que aconteceu dentro dele; um documento pode permanecer décadas numa caixa sem que ninguém perceba sua importância. A testemunha, porém, leva consigo nomes, vozes, gestos e conexões que desaparecem quando ela morre.

Os adventistas de Santa Clara fizeram então algo que se tornaria muito mais importante do que provavelmente imaginaram: ligaram a câmera enquanto essas pessoas ainda podiam falar. E, porque estavam interessados em recuperar a vida inteira do C.A., não apenas os episódios politicamente seguros, acabaram preservando também aquilo que a memória denominacional mais ampla não transformou em narrativa conhecida. O mesmo aluno que fala da fábrica pode recordar os revolucionários; a mesma mulher que descreve o trabalho na cozinha pode lembrar quem foi alimentado; a mesma comunidade que mostra fotografias de atividades escolares pode colocar diante da câmera alguém capaz de dizer que Che Guevara esteve nas proximidades e que o colégio forneceu alimentação aos seus homens.

Essa passagem da rotina para a Revolução não acontece artificialmente. O próprio funcionamento do C.A. ajuda a explicar a rapidez com que a instituição se tornou útil aos rebeldes. A cozinha já alimentava muita gente; a propriedade já produzia alimentos; havia veículos, instalações, tecidos, camas, espaços e uma população treinada para trabalhar coletivamente. O campus ficava diante da Universidad Central de Las Villas, que se tornaria um ponto estratégico na ofensiva sobre Santa Clara. A geografia colocou os revolucionários diante de uma estrutura excepcionalmente preparada para fornecer aquilo de que uma força em combate precisava. Mas a geografia explica apenas por que o colégio era útil. Não explica quem autorizou que sua utilidade fosse colocada a serviço dos homens que estavam derrubando o governo.

Essa distinção é essencial porque durante muito tempo a história pôde ser contada de maneira confortável: a guerra chegou, havia feridos, o colégio era cristão e ajudou. O problema é que os documentos não param aí. A assistência não se limitou a socorrer uma pessoa caída diante dos portões. Houve alimentação organizada, fornecimento de materiais, participação de pessoal ligado ao colégio, utilização de recursos e contato entre a administração e os revolucionários. Walton Brown atravessou a estrada para encontrar Che Guevara. Mais tarde, o próprio Brown registraria que aproximadamente 180 médicos e combatentes passaram pela mesa no primeiro dia de 1959. Quando os revolucionários solicitaram algo que ele considerou politicamente além do limite — a utilização da imprensa para produzir propaganda — Brown soube recusar.

Portanto, a capacidade de discernimento político já estava presente. Brown não era um diretor perdido em meio aos tiros, incapaz de compreender quem eram aqueles homens ou o que pretendiam. Sabia que havia coisas que o colégio podia fornecer e uma coisa que não deveria fornecer. Essa fronteira torna impossível transformar tudo o que veio antes dela numa sucessão automática de gestos sem significado político. Se o diretor soube que imprimir propaganda revolucionária ultrapassava a linha, então sabia também que alimentação, materiais, assistência e contatos estavam sendo mantidos deliberadamente do lado que considerava permitido. A pergunta histórica passa a ser outra: de onde vinha essa compreensão dos limites e por que justamente aquela combinação de ajuda era aceitável para um administrador adventista?

O documentário local não faz essa pergunta. Seus realizadores olham para o passado com a simplicidade de quem vê na disposição de ajudar uma extensão natural dos valores ensinados pelo colégio. Essa leitura diz muito sobre a mentalidade da comunidade e não deve ser confundida com a posição de quem administrava a instituição. O aluno que carregava alimentos ou trabalhava no refeitório não precisava conhecer as implicações políticas da decisão; Walton Brown precisava. A ecônoma executava uma tarefa; Brown dirigia o C.A. É exatamente nessa diferença entre a inocência da base e a responsabilidade da administração que a investigação precisa insistir.

A localização do colégio tornou tudo ainda mais intenso. Do outro lado da estrada estava a Universidad Central de Las Villas, e nos últimos dias de dezembro de 1958 aquela região passou a integrar diretamente a ofensiva de Che Guevara contra Santa Clara. A Revolução não precisou procurar durante muito tempo uma retaguarda capaz de fornecer comida e assistência. Havia uma instituição organizada diante dela. Nos relatos preservados posteriormente, veículos revolucionários aparecem sob as árvores, pessoal médico recebe auxílio, feridos precisam de materiais e a cozinha do C.A. entra no circuito dos acontecimentos. Aquilo que durante anos havia servido à formação de estudantes passa, em questão de horas, a servir também às necessidades de uma força revolucionária.

Então chega a madrugada de 27 de dezembro. O documentário recorda Che Guevara, o “Vaquerito” e outros integrantes das tropas rebeldes na região. As estudantes percebem movimentação, começam a circular informações sobre os homens que estavam próximos e a Universidad Central se transforma em ponto de apoio das forças de Che. É nesse momento que a memória local deixa de falar apenas de uma escola admirada e passa a registrar sua entrada direta na história política cubana. A alimentação dos revolucionários vinha do outro lado da estrada, do Colegio de las Antillas.

E aqui o filme produzido pelos próprios adventistas de Santa Clara entrega uma frase cuja importância dificilmente poderia ser exagerada. Depois de explicar que o abastecimento estava sendo fornecido pelo C.A., a narrativa identifica quem ocupava a posição de comando dentro da instituição e não deixa a colaboração suspensa no ar como iniciativa anônima de alunos entusiasmados: “El doctor Brown, que era el director en ese momento, ayudó en ello, también la ecónoma María y las alumnas.” Walton Brown sabia. Walton Brown participou. Walton Brown ajudou.

Essa frase não nasceu num artigo crítico contra a Igreja, não foi escrita por um adversário do adventismo e não apareceu como acusação numa investigação externa. Foi preservada pelos próprios adventistas de Santa Clara enquanto tentavam salvar a memória de sua escola. Para eles, dizer que Brown ajudou os revolucionários não parecia escandaloso; fazia parte da história que receberam e viveram. É exatamente essa ausência de constrangimento que torna o depoimento tão poderoso. A comunidade local não percebe a necessidade de apagar o episódio porque ainda o enxerga através da memória de uma instituição prestativa, admirada e posteriormente injustiçada.

Mas hoje possuímos algo que aqueles realizadores não estavam tentando reunir numa investigação crítica: o relato publicado pelo próprio Brown em 1959, a memória dos ex-alunos, os registros sobre a atuação adventista entre os rebeldes, o testemunho de Argelio Rosabal, as referências de Che Guevara aos adventistas que o auxiliaram e a historiografia denominacional posterior. Quando essas peças são colocadas juntas, a frase “Brown ajudou” deixa de ser uma recordação isolada e passa a integrar um padrão muito mais amplo de aproximação entre adventistas e homens da Revolução.

É justamente nesse ponto que precisamos abandonar a imagem confortável de um colégio simplesmente surpreendido pela guerra. O C.A. foi alcançado pelos acontecimentos, mas sua administração tomou decisões dentro deles. Brown não escolheu que Che Guevara instalasse forças na região da Universidad Central; escolheu, porém, como sua instituição responderia quando aqueles homens precisaram de recursos. E sabemos que fazia escolhas porque, diante do pedido de propaganda impressa, ele escolheu dizer não. Havia uma linha. O que precisamos descobrir não é se Brown sabia que ela existia, porque sua própria conduta demonstra que sabia. Precisamos compreender quem a desenhou, quais critérios determinavam o que um administrador adventista podia oferecer a uma força revolucionária e por que o homem que recusou colocar a imprensa a serviço da propaganda não viu o mesmo impedimento em colocar outros recursos do colégio à disposição daqueles que estavam prestes a conquistar Cuba.

Quando as últimas testemunhas de Santa Clara se sentaram diante das câmeras, talvez não imaginassem que estavam devolvendo essa pergunta à história. Queriam falar de sua escola antes que morressem. Queriam mostrar o prédio, recordar o leite, os professores, o trabalho, as amizades e os anos felizes. Mas chegaram inevitavelmente à madrugada em que os homens de Che apareceram do outro lado da estrada e alguém precisou decidir o que fazer. A resposta ficou preservada na voz deles: o Colegio de las Antillas forneceu alimentação, a ecônoma e as alunas participaram e Walton Brown ajudou. A partir dali, a história já não seria apenas sobre uma escola que a Revolução encontrou pelo caminho. Seria sobre uma escola adventista que entrou na Revolução — e sobre aquilo que aconteceu quando os homens ajudados por ela venceram.






CAPÍTULO 2 — QUANDO CHE E FIDEL ENTRARAM NA MEMÓRIA ADVENTISTA

Na madrugada de 27 de dezembro de 1958, a história que durante quase duas décadas havia sido construída dentro dos limites do Colegio de las Antillas encontrou-se definitivamente com a Revolução Cubana. Che Guevara avançava sobre Santa Clara e a região da Universidad Central de Las Villas tornou-se parte da operação militar que decidiria o destino da cidade. O documentário produzido pelos adventistas de Santa Clara preserva a lembrança da chegada de Che, do “Vaquerito” e de outros combatentes às proximidades do colégio, situando-os ali aproximadamente entre uma e três horas da madrugada. A universidade estava do outro lado da estrada, mas a infraestrutura capaz de alimentar aqueles homens estava no C.A. O que durante anos havia servido à educação adventista passou a atender também às necessidades das forças que estavam prestes a derrotar definitivamente o regime de Fulgencio Batista.

A memória local é direta nesse ponto. Os revolucionários permaneciam na região da Universidad Central, enquanto a alimentação lhes era fornecida pelo Colegio de las Antillas. E o documentário não deixa a decisão sem responsável: “El doctor Brown, que era el director en ese momento, ayudó en ello, también la ecónoma María y las alumnas”. Não se trata, portanto, de descobrir quase setenta anos depois que alguns estudantes, escondidos da direção, deram comida a guerrilheiros que passavam pela estrada. O diretor estava envolvido, a responsável pela alimentação estava envolvida e estudantes participavam. A engrenagem do colégio entrou em funcionamento diante das necessidades dos revolucionários.

O mais importante é que essa memória preservada décadas depois não está sozinha. Walton J. Brown havia contado parte substancial da mesma história poucos meses depois dos acontecimentos, quando ainda era diretor do C.A. Em seu relato publicado em 30 de abril de 1959 na Review and Herald, Brown descreveu os últimos dias da Revolução e apresentou a instituição adventista como participante ativa daquele momento. Veículos foram colocados à disposição, médicos e enfermeiros ligados ao colégio atenderam necessidades surgidas durante os combates, lençóis, travesseiros e materiais foram utilizados para auxiliar feridos e a estrutura disponível foi mobilizada numa cidade mergulhada em guerra. O próprio diretor não descreve uma escola fechada atrás de seus muros esperando os tiros terminarem. Descreve uma instituição em movimento.

Há uma cena particularmente importante porque elimina qualquer possibilidade de imaginar Brown distante dos comandantes revolucionários. Ele e C. E. Schmidt atravessaram a estrada em direção à Universidad Central e encontraram Che Guevara trabalhando diante de um mapa. Brown estava, portanto, pessoalmente diante do homem que comandava a ofensiva sobre Santa Clara. Não estamos reconstruindo uma cadeia hipotética em que alunos ajudaram desconhecidos que por acaso pertenciam às forças de Che e a administração soube disso apenas depois. O diretor do Colegio de las Antillas encontrou o comandante revolucionário no próprio centro de operações instalado diante de sua instituição.

Enquanto isso, a cozinha continuava funcionando. No primeiro dia de janeiro de 1959, aproximadamente 180 médicos, integrantes das forças rebeldes e outras pessoas ligadas àquela movimentação foram alimentados no colégio, segundo o próprio Brown. O número é importante porque devolve escala ao acontecimento. Cento e oitenta refeições não constituem o gesto espontâneo de alguém que oferece um prato a um homem faminto encontrado diante do portão. Exigem alimentos, instalações, trabalhadores, autorização e organização. O refeitório do C.A. transformou-se, naquele momento, numa peça da retaguarda que sustentava pessoas envolvidas na vitória revolucionária em Santa Clara.

É nesse contexto que uma lembrança preservada em outro registro audiovisual acrescenta um detalhe quase cinematográfico. Uma ex-aluna do Colegio de las Antillas, falando em 2024, recordou que revolucionários que estavam comendo junto aos estudantes no refeitório os convidaram para buscar ovos e galinhas numa propriedade pertencente a um norte-americano. Os jovens não simplesmente saíram correndo para acompanhar os barbudos. Precisaram perguntar ao diretor. Segundo ela, “el Dr. Brown dijo que sí, que fuéramos”. A cena possui algo de quase cômico quando vista tantas décadas depois: revolucionários recém-chegados, estudantes adventistas e uma excursão autorizada pelo diretor para aquilo que, em linguagem menos revolucionária, poderíamos chamar de socializar as galinhas alheias. Mas o detalhe é historicamente valioso justamente por mostrar a normalidade que aquela convivência havia adquirido dentro do campus.

Os revolucionários não eram figuras abstratas observadas de longe. Estavam sentados à mesa com estudantes. Conversavam com eles. Faziam convites. E os alunos continuavam submetidos à autoridade de Brown, perguntando ao diretor se podiam acompanhá-los. A resposta afirmativa mostra novamente que o administrador não estava apenas reagindo a emergências médicas inevitáveis. Participava da administração cotidiana de uma situação na qual seus estudantes conviviam diretamente com homens da Revolução.

Mas existe outro episódio que talvez revele ainda mais sobre Brown justamente porque nele o diretor disse não. Em determinado momento, os revolucionários procuraram utilizar a imprensa do Colegio de las Antillas para produzir material político. Brown recusou. A gráfica adventista não seria colocada à disposição da propaganda revolucionária. Esse episódio é decisivo porque demonstra que o diretor compreendia perfeitamente que havia uma dimensão política naquilo que estava acontecendo e que determinadas formas de colaboração poderiam comprometer explicitamente a instituição. Ele reconheceu uma fronteira e soube defendê-la quando o pedido ultrapassou aquilo que considerava aceitável.

A recusa da gráfica não funciona, portanto, como absolvição do que veio antes. Funciona como chave para compreendê-lo. Brown distinguia graus de participação. Alimentar revolucionários era permitido; imprimir sua propaganda, não. Fornecer materiais e assistência era permitido; transformar a imprensa adventista em instrumento político dos rebeldes, não. Manter contato com Che era permitido; colocar o nome e os equipamentos da instituição diretamente a serviço da comunicação revolucionária ultrapassava a linha. Essa distinção demonstra consciência, critério e decisão. Brown sabia que existia uma linha porque soube exatamente quando dizer que ela não seria atravessada.

E é justamente aí que surge uma das perguntas centrais de toda esta investigação: quem ensinou Walton Brown até onde ele podia ajudar Che Guevara? O diretor não inventou sua identidade administrativa na manhã de 27 de dezembro. Era filho de missionários, havia crescido dentro do sistema adventista internacional, fora educado e preparado para administrar instituições da denominação e ocupava a direção de um dos principais centros educacionais adventistas do Caribe. Sua capacidade de distinguir colaboração aceitável de identificação política explícita não apareceu magicamente quando um guerrilheiro pediu a gráfica. Era parte da formação de um administrador que sabia que sua instituição precisava negociar a sobrevivência em ambientes políticos mutáveis sem declarar formalmente adesão partidária.

Essa pergunta se torna ainda mais necessária quando colocamos Cuba dentro de um cenário protestante mais amplo. Igrejas e missões norte-americanas possuíam longa experiência de convivência, negociação e relacionamento com governos latino-americanos, e a religião protestante em Cuba nunca existiu isolada da presença econômica, cultural e política dos Estados Unidos. A própria história posterior revelaria, de maneira documental, que órgãos do governo norte-americano estudaram e utilizaram possibilidades de contato com organizações religiosas e clérigos em diferentes contextos internacionais. Não é necessário transformar automaticamente cada missionário em agente para reconhecer o ambiente em que essas instituições aprenderam a operar: religião, diplomacia, interesses nacionais, acesso a autoridades e preservação institucional frequentemente ocupavam espaços muito próximos.

A IASD também possuía seu próprio histórico de relacionamento pragmático com governos. Sua defesa pública da separação entre Igreja e Estado nunca significou ausência de negociação com o Estado, e administradores enviados a diferentes países precisavam saber como conversar com autoridades, obter permissões, proteger propriedades, preservar escolas, garantir circulação de missionários e manter a obra funcionando sob regimes politicamente incompatíveis entre si. Brown era produto dessa cultura administrativa. A questão não é imaginar que ele recebeu necessariamente um telegrama dizendo quantos pratos poderia servir a Che Guevara. A questão é reconhecer que sua conduta revela um administrador treinado para saber que relacionamento e cooperação podiam ocorrer sem que a instituição assumisse formalmente a identidade política de quem recebia sua ajuda.

O comportamento posterior reforça essa leitura. Quando Batista caiu e os revolucionários venceram, a aproximação não terminou. Ao contrário, aquilo que poderia ter sido explicado exclusivamente pelas circunstâncias extremas da batalha transformou-se em relacionamento com os novos donos do poder. O coral do Colegio de las Antillas passou a ser solicitado para apresentações públicas, autoridades visitaram a instituição e Brown começou a registrar com satisfação a receptividade encontrada no novo ambiente político. A guerra acabara, mas os contatos permaneceram.

É aqui que Fidel Castro entra de maneira decisiva na memória do C.A. O documentário produzido em Santa Clara coloca na tela uma informação específica: “El 15 de marzo de 1959 Fidel Castro visita por primera vez el Colegio”. A data é importante porque coincide com a presença documentada de Fidel na Universidad Central de Las Villas naquele período e ajuda a organizar uma sequência que durante muito tempo apareceu dispersa entre diferentes fontes. Ao mesmo tempo, precisamos preservar uma distinção fundamental: existem referências a mais de uma ocasião envolvendo Fidel, a universidade, o colégio e o coral. Não devemos comprimir automaticamente todos esses acontecimentos numa única visita apenas para produzir uma cronologia mais simples.

O que as fontes permitem enxergar é uma relação repetida. Brown escreveu em seu “Informe de Cuba” que o coral estava sendo muito solicitado depois da pacificação do país. Já havia cantado no Auditório Municipal, apresentara-se diante de mais de mil pessoas num grande salão do regimento e participaria, no domingo seguinte, de uma cerimônia especial na universidade na presença de Fidel Castro. Brown acrescentou que lhe haviam dito que Fidel possivelmente visitaria o colégio. O diretor também relatou a visita do novo governador da província, que assumira o cargo no dia anterior e dissera que os primeiros lugares que estava visitando eram a universidade e o Colegio de las Antillas. A explicação fornecida por Brown é extraordinária: durante os dias da guerra, no fim de dezembro, aquele homem havia comido com eles.

É então que Brown encerra a passagem com uma frase que hoje possui um peso que ele dificilmente poderia ter imaginado: “De modo que tenemos algunos buenos amigos”. Temos alguns bons amigos. Não era um ex-aluno tentando justificar retrospectivamente o comportamento do colégio. Era o próprio diretor, em 1959, interpretando a nova situação política e celebrando o capital de relacionamento acumulado durante os dias da Revolução. A alimentação fornecida no momento da guerra agora aparecia convertida em acesso aos novos governantes.

O documentário local preserva a mesma atmosfera. Fidel visita o Colegio de las Antillas, recebe alimentação, observa a instituição, faz perguntas sobre seus métodos e atividades e ouve o coral. Segundo a memória registrada no filme, sua reação ao modelo educacional foi entusiasmada: “Muchas escuelas como esta deben establecerse en este país.” A frase sobreviveria em diferentes formas dentro da memória adventista. Em outras reconstruções, Fidel aparece dizendo que aquela era exatamente a espécie de escola que desejava para a nova Cuba. As formulações variam, mas o núcleo permanece: o líder revolucionário elogiou publicamente o modelo do C.A.

Não é difícil imaginar o efeito dessas palavras sobre uma administração religiosa que acabara de atravessar uma revolução sem perder imediatamente sua principal instituição educacional. O homem que comandava o novo país visitava o colégio, comia ali, fazia perguntas, ouvia sua música e elogiava seu sistema. O novo governador também aparecia, lembrando que havia recebido alimentação durante a batalha. O coral era solicitado em espaços públicos. Brown escrevia que possuíam bons amigos. Tudo parecia indicar que a ajuda oferecida nos momentos decisivos havia produzido uma reserva de boa vontade capaz de proteger a instituição na nova ordem.

Mas a aproximação musical com Fidel guardava ainda um detalhe que durante décadas permaneceu praticamente restrito à memória de quem esteve ali. Em março de 2024, numa programação dedicada à memória do Colegio de las Antillas, uma ex-aluna idosa contou diante das câmeras sua lembrança da apresentação do coral na presença de Fidel. Walton Brown não era apenas diretor administrativo. Era músico, regente e compositor, e dirigia pessoalmente o coral da instituição. Segundo a testemunha, ao final do hino relacionado ao 26 de Julho, Brown acrescentou duas estrofes.

Ela não recitou diante da câmera uma partitura completa nem apresentou um manuscrito das estrofes, mas preservou fragmentos que haviam permanecido em sua memória por mais de seis décadas. Entre eles aparecem as expressões “Fidel, magnífico líder” e “te alabamos, te amamos”. A testemunha acrescenta que Fidel ficou comovido. O valor desse depoimento está justamente em sua origem: não foi produzido por adversários da Igreja procurando ridicularizar Brown, mas por uma mulher que estudou no C.A. e recordava com afeto a instituição e aqueles acontecimentos. É uma testemunha ocular falando daquilo que afirma ter presenciado.

Esse episódio muda a temperatura da história. Até aqui poderíamos falar de alimentos, assistência, veículos, materiais e relações administrativas. Agora aparece a linguagem da homenagem. O diretor que recusara imprimir propaganda política teria acrescentado versos de exaltação a Fidel diante do próprio Fidel. A fronteira fica ainda mais intrigante. A gráfica não podia produzir propaganda revolucionária, mas o coral podia cantar versos acrescentados por Brown ao hino revolucionário. Não estamos diante de um administrador incapaz de perceber símbolos políticos. Estamos diante de alguém que os administrava.

A importância disso não está em discutir se cada palavra lembrada pela ex-aluna corresponde letra por letra ao que Brown escreveu naquele dia. O núcleo testemunhal é claro: ela recorda Brown acrescentando duas estrofes, identifica Fidel como destinatário e preserva fragmentos de louvor ao líder revolucionário. Esse testemunho deve ser colocado ao lado, e não abaixo, das fontes escritas. Brown era regente do coral; o coral efetivamente se apresentou diante de autoridades revolucionárias; Fidel esteve ligado a essas apresentações; outras fontes adventistas registram a proximidade; e a memória da participante fornece o detalhe que os relatórios administrativos não tinham interesse em conservar.

Che Guevara também entraria nessa relação pela música. O Colegio de las Antillas possuía uma tradição musical reconhecida e seu coral era um dos instrumentos de projeção pública da instituição. Em determinada programação realizada no Teatro Cloris, em Santa Clara, Che foi convidado. Segundo os testemunhos preservados posteriormente, o comandante chegou quando o programa já havia começado e acompanhou parte da apresentação. O episódio se tornou particularmente memorável porque um dos presentes recordaria Che dizendo que havia muitos anos não experimentava a “paz espiritual” que sentira durante aquele curto período.

A cena é quase inacreditável quando comparada à imagem posterior construída em torno das relações entre adventismo e comunismo: Che Guevara, símbolo mundial da revolução marxista, sentado numa programação ligada ao Colegio de las Antillas e sendo lembrado por adventistas como alguém tocado espiritualmente pela música. Mas ela não aparece isolada. Faz parte da mesma sequência em que revolucionários haviam sido alimentados no C.A., Brown encontrara Che durante a batalha, Fidel fora recebido pela instituição, o coral se apresentara diante das novas autoridades e o diretor celebrara a existência de “bons amigos”.

O próprio Che já conhecia adventistas antes de entrar nessa fase de relacionamento com o colégio. A atuação de Argelio Rosabal e de outros adventistas no Oriente cubano mostra que a rede de auxílio aos rebeldes não começou em Santa Clara. Rosabal, dirigente adventista conhecido como “El Pastor”, ajudou homens da guerrilha, participou de uma rede de apoio que envolvia esconder combatentes, conseguir roupas e alimentos e lidar até mesmo com armas e munições. Nas memórias de Che, adventistas aparecem entre aqueles que ofereceram apoio franco aos revolucionários. Portanto, quando Che chegou à região do Colegio de las Antillas, a palavra “adventista” não lhe era desconhecida nem necessariamente hostil.

Isso amplia a pergunta que o caso Brown provoca. O que aconteceu no C.A. não pode mais ser tratado como um pequeno acidente local sem antecedentes. No Oriente, adventistas haviam auxiliado guerrilheiros. Em Santa Clara, a principal instituição educacional adventista da ilha forneceu apoio durante a ofensiva decisiva. Depois da vitória, dirigentes revolucionários visitaram o colégio, comeram ali, ouviram seu coral e elogiaram seu modelo. Brown registrou que possuíam bons amigos. Quando reunimos essas peças, a palavra “apartidarismo” começa a exigir uma definição muito mais elástica do que aquela normalmente apresentada aos membros da Igreja.

E talvez seja exatamente a recusa da gráfica que permita compreender essa elasticidade. Para Brown, aparentemente existia diferença entre ajudar a Revolução e tornar a instituição formalmente propagandista da Revolução. O primeiro comportamento podia ser enquadrado dentro da margem de atuação; o segundo produziria uma identificação explícita que ele não estava disposto a assumir. Essa distinção é muito mais sofisticada do que a imagem de neutralidade absoluta. Ela permite colaborar sem assinar manifesto, aproximar-se sem filiar-se, alimentar sem imprimir panfleto, cultivar acesso sem declarar adesão. É uma forma de apartidarismo capaz de conviver com extraordinária proximidade política desde que a placa da Igreja não seja oficialmente colocada sobre a propaganda do aliado circunstancial.

Brown parece ter acreditado que essa fórmula funcionara. A Revolução vencera, o colégio permanecia aberto, autoridades apareciam, Fidel elogiava a escola, Che era recebido em ambiente musical e os antigos beneficiários da ajuda agora ocupavam o governo. O diretor podia olhar para trás e interpretar a atuação durante a batalha como investimento que havia produzido relações úteis. “Temos alguns bons amigos”, escreveu ele. A frase é quase impossível de ler hoje sem perceber a tragédia que já se aproximava.

Porque os amigos tinham vencido. E, quando um grupo revolucionário vence, deixa de depender da hospitalidade daqueles que o ajudaram durante a marcha. Os homens que precisaram de comida, abrigo, cuidados, veículos e relações locais passariam a controlar ministérios, forças armadas, propriedades, escolas e leis. A assimetria escondida dentro daquela amizade logo começaria a aparecer. O C.A. podia ter servido aos revolucionários quando eles precisavam dele; isso não significava que os revolucionários se sentiriam eternamente obrigados a preservar o C.A.

A própria documentação adventista posterior reconheceria esse cálculo. Em 1965, ao recordar o que acontecera durante a Revolução, uma publicação denominacional registrou que as instalações do colégio haviam sido praticamente tomadas pelas forças revolucionárias nas últimas semanas da luta e serviram de base para o ataque final contra Batista. Em seguida veio a frase que expõe com rara clareza aquilo que a administração acreditou ter recebido em troca: Castro, “to show his appreciation for favors received”, dera garantias que levaram a administração do colégio a alimentar grandes esperanças para o futuro. Favores recebidos. Garantias oferecidas. Grandes esperanças. A própria linguagem denominacional preservou a lógica da relação.

É difícil imaginar confirmação mais clara de que os acontecimentos de 1958 e 1959 não foram percebidos internamente apenas como caridade indistinta oferecida a qualquer pessoa em sofrimento. Havia favores dos quais o novo governante podia demonstrar apreciação. Havia garantias concedidas em consequência dessa relação. E havia uma administração que depositava esperança nessas garantias. O que o documentário local conta com a simplicidade da memória afetiva aparece, na documentação denominacional, como uma verdadeira economia de relacionamento entre a instituição religiosa e o novo poder.

O problema é que garantias revolucionárias duram enquanto o poder revolucionário considera conveniente mantê-las. O colégio que servira refeições, oferecera assistência, abrira relações, cantara diante dos novos governantes e ouvira elogios começou gradualmente a descobrir que a gratidão de um regime não constitui título de propriedade. A Revolução que precisara do C.A. em dezembro de 1958 já não precisava dele da mesma maneira depois de consolidar o controle sobre Cuba.

Os antigos alunos não contam essa passagem como analistas de geopolítica. Contam como pessoas que assistiram à mudança acontecer ao redor delas. Primeiro havia entusiasmo, visitas e esperança. Depois vieram interferências, limitações e perdas. A instituição tentou continuar funcionando dentro da nova realidade, adaptando-se às condições impostas e confiando durante algum tempo que ainda existia espaço para permanecer. Aqueles “bons amigos” continuavam no poder, mas a amizade começava a revelar sua verdadeira natureza.

Quando olhamos retrospectivamente para Brown diante do mapa de Che, para os aproximadamente 180 homens alimentados, para os revolucionários sentados com estudantes no refeitório, para a autorização dada aos jovens que sairiam atrás de ovos e galinhas, para a gráfica recusada, para Fidel comendo no colégio, para o coral, para as duas estrofes lembradas pela ex-aluna, para Che no Teatro Cloris e finalmente para a expressão “alguns bons amigos”, percebemos que não estamos diante de episódios independentes. Estamos diante de uma sequência. Cada cena acrescenta uma camada de proximidade e cada camada torna mais amarga aquilo que viria depois.

O Colegio de las Antillas acreditou ter atravessado a Revolução com habilidade. Ajudara os vencedores sem entregar formalmente sua gráfica à propaganda, conquistara acesso, recebera elogios e garantias e continuava funcionando. Parecia a demonstração perfeita de que Brown conhecia a linha e soubera caminhar sobre ela. O que ninguém parecia perceber era que a linha não estava desenhada apenas pela Igreja. Do outro lado havia homens que, uma vez instalados no poder, poderiam simplesmente redesenhá-la.

E foi isso que aconteceu. A mesma comunidade que guardou com orgulho a lembrança de Fidel sentado à sua mesa preservaria também a lembrança do dia em que representantes do governo entraram em sua capela para dizer que deveriam sair. Entre uma cena e outra existe a verdadeira história dos “bons amigos” de Walton Brown. É essa passagem — do elogio de Fidel ao “pior que um velório” — que precisamos acompanhar agora.






CAPÍTULO 3 — DO “MUITAS ESCOLAS COMO ESTA” AO “PIOR QUE UM VELÓRIO”

Se a história terminasse nos primeiros meses de 1959, seria possível escrever sobre o Colegio de las Antillas como um caso extraordinariamente bem-sucedido de aproximação adventista com os vencedores da Revolução Cubana. O colégio havia atravessado os combates de Santa Clara, alimentado revolucionários, mobilizado recursos, colocado Walton Brown diante de Che Guevara e recebido depois homens que passaram a ocupar o poder. Fidel Castro visitara a instituição, comera ali, ouvira o coral, fizera perguntas sobre o sistema educacional e deixara na memória adventista o elogio segundo o qual muitas escolas como aquela deveriam existir em Cuba. Brown, observando a nova realidade, registrara satisfeito que possuíam “alguns bons amigos”. E a própria documentação denominacional reconheceria posteriormente que Castro, em demonstração de apreço pelos “favores recebidos”, oferecera garantias que levaram a administração a alimentar grandes esperanças para o futuro.

Essas palavras são importantes porque desmontam qualquer tentativa posterior de reescrever a relação como se Igreja e Revolução tivessem ocupado desde o primeiro instante campos naturalmente inimigos. Não foi assim que os próprios adventistas descreveram aqueles dias. Houve aproximação, houve cooperação, houve gratidão reconhecida, houve garantias e houve esperança. A administração do C.A. não saiu da batalha considerando que havia servido inadvertidamente aos futuros perseguidores da Igreja. Saiu acreditando que havia construído relações favoráveis com os homens que agora controlavam Cuba. Brown não escreveu que temia os novos governantes; escreveu que possuíam bons amigos. A tragédia que viria depois não apaga essa primeira fase. Ao contrário, é justamente ela que transforma a perda do colégio numa história de traição.

A palavra pode incomodar quem prefere narrativas institucionais assépticas, mas descreve perfeitamente o arco preservado pelas próprias fontes adventistas. Ninguém se sente traído por alguém em quem nunca depositou confiança. A traição pressupõe aproximação anterior, expectativa, algum tipo de compromisso ou esperança construída a partir da relação. E foi exatamente isso que aconteceu. Os revolucionários receberam ajuda quando ainda lutavam, os vencedores manifestaram reconhecimento depois da vitória, a administração acreditou nas garantias recebidas e tentou permanecer dentro da nova Cuba. Quando o Estado revolucionário finalmente tomou o colégio, não estava confiscando a propriedade de uma instituição que desde Sierra Maestra lhe declarara guerra. Estava tomando uma escola pertencente a pessoas que haviam alimentado seus homens e acreditado que essa história lhes asseguraria alguma proteção.

É importante insistir nisso porque a memória adventista posterior corre o risco de produzir uma inversão confortável: a Igreja aparece como vítima religiosa de um regime comunista e todo o período anterior à intervenção passa a funcionar apenas como prólogo humanitário. A vítima posterior engole a colaboradora anterior. O sofrimento é real, a perda é real e a intervenção foi devastadora para aqueles estudantes e professores, mas nada disso autoriza apagar a fase em que a administração procurou conviver com o novo poder, aproveitou os canais de relacionamento abertos durante a Revolução e depositou esperanças nas garantias oferecidas pelos homens que ajudara.

O documentário de Santa Clara é especialmente valioso porque seus realizadores não parecem sentir necessidade de resolver essa contradição. Eles contam as duas coisas. Contam Fidel sendo recebido e contam o governo tomando o colégio. Contam o elogio ao modelo educacional e contam a ordem para sair. Contam o relacionamento com os revolucionários e depois mostram antigos alunos emocionados diante daquilo que perderam. Essa ingenuidade narrativa preserva algo que uma reconstrução institucional mais calculada poderia tentar separar: o começo e o fim pertencem à mesma história.

Durante algum tempo, entretanto, parecia possível que as promessas funcionassem. O adventismo continuou existindo em Cuba, a Igreja procurou ajustar-se às transformações e o Colegio de las Antillas não desapareceu imediatamente depois da vitória revolucionária. Essa permanência é importante porque demonstra que não houve uma ruptura instantânea entre a denominação e o novo regime. O processo foi gradual. A Revolução avançou sobre estruturas econômicas, educacionais e sociais da ilha enquanto a Igreja tentava preservar o máximo possível de sua obra. A administração não fechou voluntariamente as portas em protesto contra o comunismo, não retirou imediatamente seus alunos e não transformou o campus numa trincheira de oposição. Tentou permanecer.

A imagem da mulher traída, que utilizamos anteriormente para descrever essa relação, torna-se particularmente adequada aqui. A mulher não abandonou o rei quando começou a perceber quem ele era. Continuou na casa, procurou adaptar-se às novas regras, acreditou nas palavras recebidas e tentou conservar o espaço que ainda possuía. Havia razões concretas para essa esperança. Os revolucionários conheciam o colégio. Alguns haviam sido alimentados ali. Autoridades haviam visitado o campus. Fidel elogiara o sistema. O novo governador lembrava que comera no C.A. durante os dias da guerra. A própria documentação adventista diria depois que Castro dera garantias em reconhecimento aos favores recebidos. Por que uma administração que possuía esse capital de relacionamento abandonaria imediatamente tudo aquilo que construíra durante décadas?

O problema é que a relação de forças havia mudado completamente. Em dezembro de 1958, Che e seus homens precisavam de comida, materiais, atendimento e apoio local. Depois da vitória, eram eles que controlavam o Estado. O Colegio de las Antillas continuava possuindo valor econômico, educacional e simbólico, mas já não negociava com guerrilheiros dependentes de redes de auxílio. Negociava com um governo revolucionário capaz de escrever as regras, controlar a educação, intervir em empresas, determinar o destino das propriedades e redefinir os limites dentro dos quais uma instituição religiosa poderia funcionar.

Os “bons amigos” de Brown haviam deixado de ser homens necessitados de amigos. Esse é o ponto em que a assimetria escondida desde o início aparece com toda a força. Enquanto a Revolução precisava do colégio, a relação podia parecer reciprocamente vantajosa. Depois que a Revolução passou a controlar Cuba, a gratidão pelos pratos servidos em Santa Clara tornou-se apenas uma lembrança dentro de uma política muito maior. Uma instituição religiosa podia recordar quantas refeições oferecera; o Estado podia simplesmente decidir que aquela propriedade agora atendia melhor aos objetivos da Revolução.

A perda não aconteceu de uma só vez. O documentário preserva a lembrança de uma espécie de cerco progressivo, e a pasteurizadora aparece como um dos sinais mais concretos dessa transformação. Aquela instalação que durante anos simbolizara a capacidade produtiva do C.A., fornecendo leite aos alunos e também à população de Santa Clara, foi atingida antes da intervenção completa do colégio. Segundo a memória registrada pelos ex-alunos, a pasteurizadora foi intervinda aproximadamente dois anos antes da tomada final da instituição. O detalhe é importante porque mostra que o patrimônio adventista começou a ser desmontado por partes enquanto a escola ainda tentava continuar.

A ironia é difícil de ignorar. A mesma capacidade produtiva que ajudara a tornar o colégio útil à comunidade e aos revolucionários durante os dias decisivos passou a ser atraente para um Estado que ampliava seu controle sobre a economia. Caminhões, produção agrícola, leite, instalações e trabalhadores deixavam de ser apenas componentes de uma escola religiosa e passavam a existir dentro de uma revolução que reorganizava a propriedade. O C.A. descobria que sua eficiência, tão admirada por Fidel quando visitara o campus, também tornava sua estrutura valiosa demais para permanecer indefinidamente fora do controle estatal.

Ao mesmo tempo, a educação religiosa enfrentava novas restrições. O espaço disponível para instituições confessionais diminuía e a Igreja procurava encontrar maneiras de continuar formando seus jovens e preparando obreiros dentro das condições permitidas. Essa tentativa de adaptação precisa ser contada sem o verniz heroico que transforma toda permanência em resistência. A IASD fez aquilo que organizações internacionais costumam fazer quando um regime muda: negociou a continuidade possível, ajustou estruturas, protegeu aquilo que conseguia proteger e permaneceu enquanto havia espaço para permanecer. A mesma flexibilidade administrativa que permitira atravessar a transição de Batista para Castro agora era utilizada para tentar sobreviver dentro do sistema revolucionário consolidado.

Não há necessidade de transformar isso numa acusação abstrata contra cada adventista cubano. Para os alunos e famílias, permanecer significava continuar estudando, trabalhando, frequentando a igreja e tentando preservar a vida que conheciam. A responsabilidade pela política institucional estava em outro nível. A base confiava na administração e, como o próprio documentário revela, interpretava os acontecimentos dentro de uma visão religiosa: Deus havia protegido a escola, Deus permitira que ela prosperasse e, quando finalmente a instituição foi perdida, restaria a pergunta dolorosa sobre por que Deus permitira aquilo. Essa linguagem de providência funcionava como maneira de compreender uma realidade política sobre a qual aqueles jovens possuíam pouquíssimo controle.

Décadas depois, ao retornar ao antigo Colegio de las Antillas, um dos participantes do documentário expressa exatamente essa combinação de respeito e tristeza. O lugar provoca uma mistura de sentimentos porque havia sido um espaço importante para a obra adventista e, em suas palavras, chegara o momento em que, “sin conocer el por qué”, Deus permitira que lhes fosse tirado. A frase é comovente, mas também revela a distância entre a memória do adventista comum e as perguntas que uma investigação histórica precisa fazer. Para o ex-aluno, a perda pode permanecer envolta no mistério da providência. Para nós, existe uma sequência política concreta que não pode ser transferida para o céu.

Não foi Deus quem sentou diante do mapa na Universidad Central para conversar com Brown. Não foi Deus quem recebeu alimentos do C.A., visitou o campus, ouviu o coral, ofereceu garantias ou posteriormente ampliou o controle estatal sobre a educação. Foram homens, organizações e governos. Quando a história é deslocada integralmente para a providência, as decisões humanas desaparecem e com elas desaparece também a responsabilidade. O documentário não pretende realizar essa crítica, mas justamente por preservar a maneira como os ex-alunos interpretavam os acontecimentos nos permite enxergar a diferença entre aquilo que a comunidade acreditava e aquilo que a cronologia política revela.

O C.A. continuou tentando viver enquanto o espaço ao seu redor diminuía. Os estudantes ainda se reuniam, os professores ainda ensinavam e a comunidade ainda se reconhecia naquele lugar, mas a sensação de segurança construída nos primeiros meses da Revolução já não correspondia à realidade. A amizade com os novos governantes não impediu a intervenção progressiva. As garantias não congelaram a política revolucionária. Os favores recebidos não criaram dívida permanente. E os elogios de Fidel à escola não significaram que Fidel aceitasse para sempre uma instituição educacional confessional funcionando segundo regras próprias dentro do Estado que estava construindo.

Essa constatação torna ainda mais amarga a lembrança da frase “Muchas escuelas como esta deben establecerse en este país”. Se tomada isoladamente, ela poderia ornamentar uma história institucional: o líder da Revolução visitou uma escola adventista e ficou tão impressionado que desejou muitas outras semelhantes. Colocada ao lado do que aconteceu depois, transforma-se em ironia histórica. O Estado não multiplicou escolas adventistas como o C.A.; terminou apropriando-se daquela que havia despertado o elogio.

Também muda de significado a frase de Brown sobre os “bons amigos”. Quando foi escrita, expressava confiança. Depois da intervenção, passa a soar como registro de um erro de cálculo. Brown havia percebido corretamente que a ajuda prestada durante a guerra produzira boa vontade entre os vencedores, mas a administração parece ter superestimado o valor permanente dessa boa vontade. Amigos políticos não são necessariamente amigos institucionais, e gratidão revolucionária não constitui garantia de sobrevivência para uma organização religiosa quando os objetivos do Estado entram em conflito com sua autonomia.

Esse é o ponto em que o título desta reportagem deixa de funcionar apenas como provocação. Fidel e Che Guevara nos traíram resume a experiência histórica de uma comunidade que viu seus dirigentes ajudarem os revolucionários, testemunhou a aproximação posterior, ouviu elogios, confiou em garantias e acabou expulsa da própria casa. Che não precisou pessoalmente assinar o ato final de intervenção para fazer parte desse arco; sua importância está no início da relação, quando seus homens receberam apoio e o C.A. se tornou útil à ofensiva revolucionária. Fidel ocupa os dois extremos de maneira ainda mais evidente: aparece como visitante, beneficiário indireto da ajuda, admirador do modelo educacional e governante sob cujo regime a instituição acabaria perdida.

A comunidade, entretanto, demorou a compreender que a história caminhava para esse desfecho. O documentário preserva lembranças dos últimos anos como quem reconstrói uma lenta aproximação do inevitável. A cada nova interferência, aquilo que antes parecia impossível se tornava um pouco mais provável. A intervenção da pasteurizadora mostrava que a propriedade não era intocável. As mudanças na educação mostravam que o espaço confessional estava diminuindo. As dificuldades administrativas indicavam que as garantias recebidas anos antes já não possuíam a força imaginada. Mesmo assim, a vida continuava, porque instituições e pessoas raramente abandonam voluntariamente aquilo que construíram durante décadas apenas porque percebem sinais de perigo.

Até que chegou o momento em que já não havia adaptação possível. O documentário fixa fevereiro de 1967 como o ponto da intervenção completa do Colegio de las Antillas. A expressão utilizada na cartela é inequívoca: “EN FEBRERO DE 1967 EL COLEGIO DE LAS ANTILLAS FUE INTERVENIDO COMPLETAMENTE”. Aquilo que havia começado com perdas parciais alcançava finalmente a instituição inteira.

A memória desse dia sobrevive em detalhes que nenhuma cronologia administrativa conseguiria substituir. Uma campana convocou a comunidade para a capela. Alunos e funcionários foram chegando sem compreender completamente o que estava acontecendo. Diante deles estavam representantes do governo e integrantes da própria administração. Um dos elementos que ficou gravado na lembrança foi o comportamento de homens que fumavam diante dos estudantes, gesto aparentemente pequeno, mas que num ambiente adventista possuía enorme força simbólica. Aqueles homens não estavam entrando numa reunião comum da escola. Estavam demonstrando, inclusive corporalmente, que as regras da casa já não eram as regras que determinariam o que aconteceria ali.

Então veio a comunicação. Um dos testemunhos preservados no documentário resume o momento sem ornamentação: “Dijeron que teníamos que salir porque era una orden del gobierno y tuvimos que salir.” Disseram que tínhamos de sair porque era uma ordem do governo, e tivemos de sair. Toda a complexidade das relações construídas desde 1958 termina reduzida a uma frase simples. Não houve argumento sobre as refeições fornecidas aos revolucionários. Não houve cobrança das garantias recebidas. Não houve recurso à frase de Fidel sobre a excelência do modelo educacional. Não houve possibilidade de invocar os “bons amigos” de Brown. Havia uma ordem do governo. E eles tiveram de sair.

É difícil encontrar demonstração mais brutal da diferença entre proximidade com o poder e poder. Durante a Revolução, o colégio possuía algo de que os rebeldes precisavam. Em 1967, os papéis estavam completamente invertidos. O Estado possuía aquilo de que precisava para tomar o colégio: autoridade, força e controle jurídico. A instituição religiosa possuía lembranças, antigas promessas e uma história de colaboração. Nenhuma delas foi suficiente.

É nesse ponto que uma das testemunhas encontra palavras capazes de atravessar todas as décadas posteriores: “Aquello fue peor que un velorio. Aquello fue terrible… no te lo puedo describir.” Foi pior que um velório. Foi terrível. Não consigo descrever. A comparação é perfeita porque um velório pressupõe que algo morreu e que os sobreviventes podem ao menos reunir-se ao redor daquilo que perderam. No C.A., eles estavam vivos, o prédio continuava de pé, as árvores permaneciam no lugar, os dormitórios continuavam existindo, mas tudo aquilo deixava de lhes pertencer. Era possível olhar para a própria casa e saber que não poderiam mais permanecer nela.

Agora a música Hogar de mis recuerdos adquire todo o seu significado. “El hogar de mis recuerdos, a ti volver anhelo.” O lar tornou-se memória porque alguém tomou o lar. Os antigos alunos podiam voltar décadas depois, caminhar pelo terreno, reconhecer edifícios e apontar lugares onde haviam trabalhado, estudado e cantado, mas já não voltavam como donos daquela história material. Voltavam como sobreviventes. O espaço físico permanecia diante deles como aquilo que o próprio documentário chama de um gigante sem vida.

A crueldade histórica está na comparação entre as duas mesas. Na primeira, durante a Revolução, os adventistas serviam comida. Os homens de Che estavam entre aqueles que precisavam de apoio e o colégio tinha recursos para oferecer. Na segunda cena, anos depois, os adventistas estavam reunidos na capela enquanto representantes do governo comunicavam que deveriam deixar a propriedade. Entre as duas imagens passaram elogios, visitas, música, garantias e esperança. O resultado final não foi a multiplicação de escolas como aquela. Foi a perda daquela escola.

Por isso, transformar a história posterior do C.A. simplesmente numa narrativa sobre perseguição comunista é contar apenas metade do drama. A perseguição e a perda pertencem ao final. Antes delas existiu colaboração. Existiu confiança. Existiu cálculo administrativo. Existiu a expectativa de que os favores oferecidos durante a ascensão da Revolução produziriam alguma forma de proteção depois que os revolucionários chegassem ao poder. A própria documentação adventista reconheceu essa lógica quando relacionou os favores recebidos por Castro às garantias que alimentaram as esperanças da administração.

A mulher traída não era uma desconhecida do rei. Tinha aberto a porta quando ele ainda estava chegando, colocara comida à mesa, permitira aproximação e acreditara que a gratidão significava segurança. Quando percebeu que as promessas não lhe garantiriam a casa, tentou permanecer enquanto foi possível. Não rompeu heroicamente com o rei; foi o rei quem decidiu que ela já não permaneceria ali. Essa diferença é fundamental para compreender a história do Colegio de las Antillas sem permitir que a memória posterior transforme uma antiga relação de conveniência numa oposição que não existiu desde o começo.

E há uma última ironia. A mesma comunidade que perdeu o colégio continuou preservando com carinho as lembranças dos homens associados ao processo que terminaria por expulsá-la. Fidel permaneceu na memória como visitante importante. Che permaneceu associado à música e à “paz espiritual”. Brown permaneceu como diretor querido. Os antigos alunos continuaram cantando, contando histórias e retornando ao antigo campus. A memória afetiva conseguiu abrigar simultaneamente a amizade e a ferida, talvez porque para aqueles jovens a política nunca tivesse sido o centro da experiência. Eles estavam vivendo sua vida; eram os administradores e governantes que decidiam o tabuleiro.

Décadas depois, quando as câmeras foram ligadas, essa mesma comunidade contou tudo quase sem perceber o potencial explosivo da combinação. Não escondeu a ajuda aos revolucionários para tornar a Igreja mais heroica. Não eliminou Fidel para simplificar a narrativa da perseguição. Não apagou Che para preservar a imagem de neutralidade. Também não suavizou a dor da intervenção. Colocou as duas pontas da história diante de nós: primeiro os revolucionários chegaram e foram ajudados; depois os revolucionários venceram e o colégio acabou tomado.

Talvez por isso o documentário seja mais perigoso para uma narrativa institucional controlada do que seria um filme produzido por adversários da IASD. Um inimigo poderia ser acusado de selecionar fatos para atacar a Igreja. Os adventistas de Santa Clara estavam fazendo o contrário: selecionavam aquilo que amavam. Queriam preservar sua escola, seus professores, suas músicas, suas fotografias e seus companheiros. E foi justamente no interior dessa homenagem que sobreviveram Che, Fidel, Brown, os alimentos, os elogios, os favores, as garantias e o “pior que um velório”.

A história que emerge daí não é confortável para nenhum dos personagens. Os revolucionários que receberam ajuda acabaram pertencendo ao poder que tomou a instituição. Os administradores adventistas que acreditaram ter conquistado bons amigos descobriram os limites dessa amizade. E os estudantes que pouco ou nada decidiram foram aqueles que sentiram concretamente a perda. A organização continuaria existindo em outros lugares, Brown seguiria sua carreira e os líderes revolucionários continuariam governando Cuba. Quem carregaria durante décadas a lembrança da casa perdida seriam os alunos.

É exatamente por isso que precisamos ouvi-los antes de ouvir a versão organizada posteriormente pelos escritórios. Eles não possuem todas as respostas sobre as decisões tomadas acima de suas cabeças, mas preservaram aquilo que viram. E aquilo que viram já é suficiente para desmontar uma história simples de neutralidade seguida de perseguição: houve uma fase anterior de aproximação e colaboração, houve esperança explícita nos benefícios dessa relação e houve depois uma ruptura imposta pelo lado que passou a deter todo o poder.

Mas ainda resta uma pergunta incômoda. Se essa história estava tão viva entre antigos alunos cubanos, se Brown havia escrito sobre os acontecimentos já em 1959, se posteriormente publicou um livro inteiro sobre o C.A. e se a própria historiografia adventista continuou utilizando esse livro como fonte, por que tudo isso se tornou tão pouco conhecido entre os próprios adventistas? A resposta começa a aparecer quando deixamos de perguntar apenas o que as testemunhas lembravam e passamos a observar quem produziu o documentário, quem participou dele, quais perguntas foram feitas, quais não foram feitas e até onde uma comunidade local podia avançar ao reconstruir uma história que envolvia não apenas Fidel Castro e Che Guevara, mas sua própria organização religiosa.






CAPÍTULO 4 — ATÉ ONDE ELES PODIAM CONTAR ESSA HISTÓRIA?

Quanto mais assistimos a El Colegio de las Antillas: ¿una historia olvidada?, mais importante se torna distinguir duas coisas que à primeira vista podem parecer iguais: preservar uma história e investigá-la. Os adventistas de Santa Clara fizeram a primeira tarefa com uma riqueza extraordinária. Reuniram antigos alunos, professores, dirigentes, fotografias, documentos, imagens do campus, lembranças de atividades industriais, cenas da vida estudantil, testemunhos sobre Che Guevara, Fidel Castro, Walton Brown e a perda definitiva da instituição. O filme recupera detalhes que dificilmente sobreviveriam numa cronologia administrativa. Entretanto, seus realizadores não parecem ter partido da pergunta que hoje orienta nossa investigação. Eles não estavam tentando descobrir por que uma organização que se proclamava apartidária permitiu tamanho grau de cooperação com homens que disputavam militarmente o poder, quem estabeleceu os limites daquela colaboração ou de que maneira a memória desses acontecimentos foi administrada depois. Queriam salvar o Colegio de las Antillas do esquecimento.

Essa diferença explica simultaneamente a força e os limites do documentário. Sua força está na naturalidade. As testemunhas não falam como réus diante de um interrogatório. Ninguém parece preocupado em produzir uma defesa jurídica de Walton Brown, em demonstrar que os adventistas jamais estiveram politicamente próximos da Revolução ou em transformar Che e Fidel em personagens proibidos. Eles simplesmente aparecem porque faziam parte da história. A câmera pode sair de uma lembrança sobre o leite produzido pela escola e chegar aos revolucionários sendo alimentados; pode mostrar fotografias estudantis e depois ouvir que Brown ajudou os homens de Che; pode recordar a música do colégio e terminar diante da memória de Fidel e do coral. Essa ausência de constrangimento na base local transformou o filme num arquivo muito mais revelador do que talvez seus próprios realizadores tenham percebido.

Ao mesmo tempo, o documentário possui uma moldura institucional clara. Quem apresenta o trabalho é a Igreja Adventista de Santa Clara. A produção nasce dentro da comunidade adventista cubana, utiliza suas testemunhas, sua memória e seus espaços e inclui pessoas ligadas diretamente à estrutura denominacional. Isso precisa ser afirmado com precisão porque não estamos diante de um documentário independente produzido por jornalistas externos que encontraram antigos alunos ao acaso. Também não estamos diante de uma produção da Associação Geral da Igreja Adventista mundial. É uma obra local, adventista e cubana, realizada suficientemente perto da organização para colocar diante das câmeras dirigentes, professores e representantes de instituições denominacionais do país.

Entre os participantes identificados aparecem Coralia García, apresentada como diretora de Comunicações da IASD em Santa Clara; o pastor Aramís de Armas, professor do Seminario Teológico Adventista de Cuba; o pastor Luis Amador Morales, também professor do SETAC; o pastor Francisco Hernández, reitor do seminário; e o pastor Aldo Joel Pérez, presidente da Unión Cubana. Ao lado deles estão as vozes indispensáveis dos antigos alunos: Argelia Linares, Andrés Rodríguez, Clarita del Castillo, Ilsis Fernández, Magalis Martínez e outros sobreviventes daquela geração. A composição do filme produz, portanto, uma ponte entre a memória popular do antigo C.A. e a estrutura adventista que continuava existindo em Cuba décadas depois.

Esse detalhe impede duas simplificações igualmente ruins. A primeira seria apresentar o documentário como se a Associação Geral tivesse decidido abrir seus arquivos e realizar uma autópsia de sua conduta durante a Revolução. Não foi isso. A segunda seria tratá-lo como produção clandestina de ex-alunos revoltados contra a denominação. Também não foi isso. Os realizadores estão dentro do universo adventista, falam sua linguagem, recebem a participação de seus dirigentes e constroem a narrativa a partir de um profundo sentimento de pertencimento. É justamente por isso que o material possui tanto valor. Quando uma comunidade produz uma homenagem à própria história e, mesmo assim, preserva episódios politicamente incômodos, não podemos descartá-los como acusações fabricadas por inimigos da Igreja.

Os créditos finais ajudam a compreender ainda melhor essa arquitetura. Arnaldo Prevals aparece entre os responsáveis pelas câmeras, ao lado de Frank Márquez e Miguel Ángel Ramos, e aparece também como responsável pela edição. Isso significa que a cópia posteriormente publicada por Prevals em melhor resolução não chegou à internet pelas mãos de um espectador qualquer que encontrou o filme e resolveu republicá-lo. Ele participou diretamente de sua construção audiovisual. O ritmo, a seleção das imagens, a justaposição das fotografias, a música e a maneira pela qual os testemunhos foram costurados pertencem a alguém que estava dentro do próprio processo de produção.

Essa constatação é importante também para compreendermos a força emocional da obra. A escolha de Hogar de mis recuerdos, interpretada pelo quarteto Heraldos del Rey, não funciona apenas como trilha sonora. A música estabelece desde o início o ponto de vista afetivo de quem está contando a história. O C.A. é o lar perdido. Os antigos alunos são apresentados como sobreviventes de uma geração que desaparece. O prédio abandonado é uma espécie de corpo ainda visível de uma instituição morta. Quando as testemunhas falam da Revolução, não estão tentando reconstruir a geopolítica da Guerra Fria; estão contando o que aconteceu com a casa de sua juventude.

O próprio roteiro deixa isso explícito quando chama os antigos alunos de “verdaderos baluartes y testigos presenciales” e explica que Deus teria preservado alguns deles para que aquela história pudesse ser conhecida e mantida. Essa linguagem revela a visão religiosa dos realizadores. A preservação da memória é entendida como missão. O filme não procura desmontar a identidade adventista; pretende fortalecê-la ao lembrar uma instituição considerada exemplar. E é exatamente aí que ocorre a grande ironia: ao tentar demonstrar a grandeza do Colegio de las Antillas, os realizadores precisam mostrar também por que ele era tão importante durante a Revolução, como seus recursos foram utilizados e quem se relacionou com seus dirigentes.

A história politicamente incômoda entra pela porta da homenagem. Para mostrar que o colégio era admirado, aparece Fidel Castro elogiando seu modelo. Para mostrar sua importância social, surge a capacidade de alimentar pessoas e abastecer a região. Para mostrar a inserção do C.A. nos acontecimentos nacionais, aparecem Che Guevara e seus homens. Para mostrar a excelência musical, reaparecem o coral, as apresentações públicas e a aproximação com os líderes revolucionários. Para demonstrar o sofrimento final, os realizadores precisam contar que o mesmo governo tomou a instituição. O resultado é um filme em que aquilo que poderia ter sido expurgado para proteger uma narrativa posterior de neutralidade absoluta acaba preservado justamente porque era inseparável da memória de quem viveu ali.

Há, contudo, perguntas que o documentário não faz. Quando informa que Brown ajudou no fornecimento de alimentação aos revolucionários, não pergunta quem autorizava um diretor adventista a manejar recursos denominacionais daquela maneira. Quando conta que Che e suas tropas estavam na região e recebiam alimentos, não pergunta o que os níveis superiores da administração sabiam sobre aquela situação. Quando recorda Fidel visitando o colégio e elogiando seu sistema, não confronta esse episódio com a imagem posterior de rígido afastamento político. Quando mostra a perda da instituição, não retorna aos favores anteriores para perguntar por que a administração confiou tanto nas garantias recebidas. As peças estão diante da câmera; o inquérito sobre a responsabilidade institucional simplesmente não faz parte do filme.

Isso não diminui o documentário. Ao contrário, explica por que ele se tornou tão precioso para quem está disposto a fazer perguntas diferentes daquelas de seus realizadores. Eles queriam “desempolvar” a história; nós também precisamos perguntar quem deixou a poeira se acumular. Eles queriam conservar as lembranças antes que as testemunhas morressem; nós precisamos confrontar essas lembranças com o que Brown publicou, com aquilo que a denominação escreveu posteriormente, com o livro que praticamente desapareceu do alcance público e com a maneira pela qual a narrativa adventista sobre Cuba foi sendo administrada ao longo das décadas.

Talvez nenhum momento revele tão claramente a inserção institucional do documentário quanto sua conclusão. O último testemunho é dado por Aldo Joel Pérez, presidente da Unión Cubana. A Unión não aparece nos créditos como produtora formal, mas é agradecida, seu presidente participa e encerra a sequência de depoimentos falando sobre aquilo que se pretendia conservar por meio do vídeo. A obra, portanto, não estava circulando num subterrâneo adversarial do adventismo cubano. Dirigentes estavam ali. Professores do seminário estavam ali. A liderança da União estava ali. E todos participavam de uma produção que preservava, diante das câmeras, Che, Fidel, Brown, a ajuda aos revolucionários, a proximidade posterior e a tomada final do colégio.

Esse fato torna ainda mais interessante a pergunta sobre até onde aquela história podia avançar. O documentário recupera Che, Fidel, Brown, as refeições, o coral, os revolucionários, a intervenção e as lágrimas dos ex-alunos, mas não atravessa a porta que levaria da memória local para a responsabilidade denominacional internacional. Não pergunta o que Brown relatava aos superiores, quais critérios orientavam suas decisões, que comunicações circularam durante aqueles meses ou como dirigentes da Divisão Interamericana acompanhavam a aproximação com o novo poder cubano. Também não pergunta por que determinados episódios sobreviveram apenas como fragmentos dispersos enquanto a imagem institucional do apartidarismo permaneceu intacta diante de gerações de membros.

É nessa ausência que a figura de Walton Brown cresce. Para os antigos alunos, Brown é uma presença familiar da escola: diretor, músico, regente, administrador, homem que fazia parte da vida cotidiana do C.A. Para uma investigação institucional, porém, ele não pode permanecer apenas nessa dimensão. Brown fazia parte de uma cadeia de comando. O Colegio de las Antillas integrava uma estrutura denominacional internacional. Seus dirigentes participavam de concílios, suas atividades eram acompanhadas por instâncias superiores e seu diretor não administrava uma ilha organizacional dentro da ilha de Cuba. Apresentar tudo o que aconteceu em dezembro de 1958 e nos meses seguintes como aventura pessoal de Brown exigiria ignorar a própria natureza hierárquica e transnacional da organização que o colocara ali.

A recusa da gráfica torna essa questão ainda mais desconfortável. Se Brown estivesse simplesmente improvisando caridade cristã em meio ao caos, poderíamos imaginar uma sequência de decisões tomadas sem qualquer cálculo institucional. Mas ele reconheceu quando um pedido possuía natureza política explícita e recusou colocar a imprensa do colégio a serviço da propaganda revolucionária. Isso revela uma distinção inteligível para ele entre formas toleráveis e intoleráveis de cooperação. Um administrador que identifica propaganda partidária como limite não é politicamente ingênuo. É alguém capaz de avaliar o risco de determinada ação para a instituição que representa.

Essa fronteira não surgiu do nada. Brown fora formado dentro de uma organização mundial acostumada a operar sob governos muito diferentes, negociar autorizações, preservar instituições, manter canais com autoridades e adaptar sua atuação missionária a ambientes políticos mutáveis. O comportamento do diretor em Santa Clara possui justamente essa assinatura: cooperação suficiente para construir relações, recusa suficiente para evitar identificação formal. Alimentar homens de Che, disponibilizar recursos, manter contatos, aproximar-se dos vencedores e apresentar o coral cabiam de um lado da linha; imprimir propaganda revolucionária ficava do outro. A pergunta histórica não é se havia uma linha. Brown mostrou que havia. A pergunta é quem a desenhou e por que aqueles eram seus limites.

A trajetória posterior do próprio Brown torna a questão ainda mais séria. O que aconteceu em Cuba não encerrou sua carreira denominacional, não o transformou em administrador proscrito e não produziu uma queda institucional. Ao contrário, Brown continuou avançando dentro da estrutura educacional adventista, ocupou posições maiores e tornou-se um dos nomes importantes da administração educacional da denominação. Se suas decisões em Santa Clara tivessem representado uma ruptura grave e pessoal com os critérios da organização, seria extraordinário que essa mesma organização continuasse elevando-o a postos de confiança. Brown não caiu por Cuba. Brown caiu para cima.

Esse dado não precisa de uma carta disciplinar inexistente para adquirir significado. A própria carreira é informação institucional. Organizações hierárquicas expressam aprovação não apenas por meio de declarações públicas, mas também pelas pessoas que continuam promovendo. Brown saiu de uma experiência na qual uma instituição adventista colaborara materialmente com revolucionários e prosseguiu dentro da denominação como educador e administrador de crescente importância. Sua biografia posterior não combina com a imagem de um diretor que teria colocado sozinho a Igreja numa situação politicamente intolerável.

Também é revelador observar como a memória adventista conseguiu conservar parte desses acontecimentos sem permitir que se transformassem numa pergunta institucional maior. A Encyclopedia of Seventh-day Adventists registra que, nas últimas semanas da luta contra Batista, as instalações do Colegio de las Antillas foram basicamente tomadas pelas forças revolucionárias e serviram como base para o avanço final. Registra alimentação, assistência, visitas de autoridades, a presença de Fidel e outros episódios de aproximação. Mais importante: utiliza como fonte o livro de Walton J. Brown, ¡O Mi C.A.!, indicando páginas específicas. Isso significa que a informação não foi simplesmente perdida dentro da própria organização. Ela permaneceu acessível em determinados circuitos e continuou sendo utilizada por quem escrevia a história denominacional.

A diferença está entre preservar um dado tecnicamente e torná-lo parte da memória coletiva. Não é necessário afirmar que Che nunca esteve ali se o episódio puder permanecer enterrado numa enciclopédia especializada. Não é necessário dizer que Fidel jamais comeu no colégio se a referência estiver disponível apenas para pesquisadores que já sabem onde procurar. Não é necessário apagar o nome de Brown se sua narrativa mais extensa praticamente deixa de circular. A história pode sobreviver nos arquivos e desaparecer da consciência de milhões de membros que jamais saberão que esses arquivos existem.

Foi exatamente essa diferença que nossa investigação encontrou repetidas vezes. As peças estavam lá. Brown escrevera em 1959. A historiografia adventista posterior conhecia o livro de 1990. Ex-alunos continuavam falando. A igreja de Santa Clara produziu um documentário. Che havia registrado contatos com adventistas em suas próprias memórias. Argelio Rosabal deixara testemunho detalhado sobre a rede de apoio aos guerrilheiros no Oriente. O problema não era a inexistência das fontes. O problema era que elas haviam sobrevivido separadas, distribuídas entre periódicos antigos, entrevistas, livros quase inacessíveis, arquivos acadêmicos, vídeos pouco conhecidos e reconstruções locais.

Enquanto permanecessem separadas, cada uma parecia inofensiva. Brown forneceu refeições — um gesto cristão. Che conhecia adventistas — uma curiosidade. Fidel visitou uma escola — uma homenagem. O coral cantou — atividade cultural. Brown recusou a gráfica — prova de neutralidade. O colégio foi tomado — perseguição comunista. O livro sumiu — obra velha e rara. O documentário local — nostalgia de ex-alunos. O efeito muda completamente quando essas peças são colocadas na mesma mesa. A alimentação conecta-se ao encontro com Che; o encontro conecta-se à recusa da propaganda; a recusa demonstra consciência política; essa consciência conecta-se às relações posteriores; as relações chegam a Fidel, ao coral, aos elogios, às garantias e aos “bons amigos”; depois vêm a intervenção e a tomada da instituição. Por fim, o livro que deveria permitir ouvir Brown retrospectivamente torna-se praticamente inacessível.

É assim que uma história pode ser escondida sem precisar ser declarada falsa. Não se destrói necessariamente cada documento, não se proíbe cada referência e não se apaga cada nome. Mantêm-se as peças separadas. Brown escreve em 1959, mas o artigo envelhece dentro de uma coleção de periódicos. O livro aparece em 1990, mas deixa de circular até se tornar quase fantasmagórico. Uma enciclopédia denominacional consulta suas páginas, porém o leitor não consegue facilmente conferir o que havia nelas. Antigos alunos preservam lembranças em Cuba. Uma entrevista sobre Argelio Rosabal permanece durante décadas numa coleção universitária. Che Guevara registra adventistas em suas próprias memórias. Cada fragmento isolado parece pequeno; reunidos, contam uma história que a versão institucional jamais colocou diante de seus membros com a mesma clareza.

O desaparecimento de ¡O Mi C.A.! é particularmente revelador porque não estamos falando de um folheto anônimo impresso por um estudante e esquecido depois de poucos meses. Trata-se de um livro escrito por Walton J. Brown, um dos mais importantes educadores e administradores adventistas de sua geração, dedicado justamente à instituição que ele dirigiu durante os anos mais explosivos da história cubana. A obra existiu, circulou e permaneceu disponível dentro de determinados circuitos da própria historiografia denominacional, tanto que autores adventistas posteriores conseguiram consultá-la, retirar dela informações e citar páginas específicas. Ao mesmo tempo, para o leitor comum, o livro praticamente desapareceu. Essa assimetria é o fato que importa: quem administrava a memória histórica da denominação continuou sabendo onde estavam as informações; quem estava fora desse circuito perdeu o acesso normal à fonte que reunia essas informações numa única narrativa.

O apagamento foi eficiente justamente porque não precisou transformar todos os documentos em cinzas. Não era necessário convencer o adventista de que Walton Brown jamais ajudara os revolucionários; bastava que a maioria nunca soubesse que ele havia contado a história. Não era necessário negar que Fidel Castro comera no Colegio de las Antillas; bastava deixar essa informação enterrada em obras e publicações que quase ninguém consultaria. Não era necessário eliminar Che Guevara de cada registro; bastava impedir que sua presença fosse conectada aos alimentos, à Universidad Central, ao encontro com Brown, ao Teatro Cloris e à rede adventista que já o conhecia no Oriente. A história não precisava desaparecer fisicamente para desaparecer culturalmente. Precisava apenas deixar de ser contada inteira.

Esse caráter fragmentado explica também por que durante décadas foi tão fácil apresentar cada episódio com uma moldura própria e inofensiva. Se Brown alimentou combatentes, fala-se de assistência. Se Fidel foi recebido, fala-se de cortesia. Se o coral se apresentou, fala-se de música. Se Castro elogiou a escola, fala-se de reconhecimento educacional. Se Brown recusou a gráfica, transforma-se a recusa numa demonstração de neutralidade. Se a escola foi tomada em 1967, inicia-se ali a narrativa da perseguição. O que desaparece é a ligação entre essas cenas. Sem a ligação, não existe processo; existem apenas curiosidades históricas.

O documentário de Santa Clara se torna tão inconveniente justamente porque começa a restaurar o processo. Os realizadores fizeram, talvez sem perceber toda a dimensão do gesto, aquilo que a memória fragmentada havia impedido: começaram a reunir novamente as peças. Colocaram rostos nas referências, vozes nas datas e testemunhas diante dos edifícios. Mostraram que aqueles acontecimentos não eram notas de rodapé perdidas numa enciclopédia. Havia pessoas que estiveram no refeitório, pessoas que viram os revolucionários, pessoas que se lembravam de Fidel, pessoas que ouviram Che, pessoas que sabiam que Brown ajudara e pessoas que estavam na capela quando o governo finalmente ordenou que deixassem a instituição.

Um exemplo está na referência feita no próprio documentário ao testemunho de uma antiga aluna ligada posteriormente à administração econômica do colégio. O filme utiliza essa memória como fundamento para parte do relato sobre a presença de Che e menciona ainda uma publicação antiga que teria registrado o acontecimento. A transcrição automática disponível não preserva com segurança o título desse periódico, razão pela qual não faz sentido inventá-lo. Mas o ponto realmente importante está no método utilizado pelos realizadores: eles não dependiam apenas de lembranças vagas. Procuravam combinar testemunhos, fotografias, textos, datas e registros da vida institucional. Era uma verdadeira arqueologia comunitária, embora não tivesse como objetivo investigar a cadeia de decisões administrativas.

O mesmo ocorre com as cartelas cronológicas. O filme não se limita a dizer que Fidel esteve no C.A. “alguma vez”. Afirma que sua primeira visita ao colégio ocorreu em 15 de março de 1959. Também fixa fevereiro de 1967 para a intervenção completa da instituição. Essas datas mostram que os realizadores pretendiam construir uma história factual, não apenas uma sequência sentimental de recordações. Quando confrontamos suas informações com outros documentos, conseguimos avançar ainda mais: a presença de Fidel na Universidad Central, os programas do coral, as visitas posteriores, o testemunho da ex-aluna sobre as duas estrofes e os relatos escritos de Brown passam a fazer parte de uma cronologia muito mais precisa.

Essa cronologia produz outro problema para a versão simplificada da história: não houve uma única visita de Fidel e um único contato protocolar que depois pudesse ser transformado em curiosidade. As fontes apontam para mais de uma ocasião envolvendo o líder revolucionário, a universidade, o colégio, o refeitório e o coral. A documentação adventista registra que Castro visitou o campus em diferentes momentos e comeu ali. Há uma apresentação especial na Universidad Central, uma visita ao C.A., outra apresentação solicitada pelo líder revolucionário e referências posteriores a novas passagens pela instituição. O documentário fixa a primeira visita em 15 de março. A memória da ex-aluna liga outro episódio à inauguração da biblioteca universitária. O conjunto revela continuidade.

Essa continuidade muda o significado de tudo. Um encontro pode ser casual. Uma refeição pode ser cortesia. Uma apresentação pode ser protocolo. Uma visita pode ser curiosidade. Mas várias visitas, refeições, apresentações, elogios, garantias e a satisfação registrada por Brown com seus “bons amigos” não formam uma sucessão de coincidências. Formam uma relação. E é justamente essa relação que desaparece quando cada cena é narrada separadamente.

O filme produzido em Santa Clara conservou material suficiente para reconstruirmos essa imagem, embora não tenha dado o passo seguinte. Sua pergunta estava contida no próprio título: teria sido esquecida a história do Colegio de las Antillas? A resposta do documentário é que não, porque ainda existiam homens e mulheres capazes de recordá-la. Nossa pergunta é mais incômoda: como uma história com tamanha quantidade de documentos, testemunhas e registros conseguiu permanecer tão pouco conhecida entre os próprios adventistas?

A resposta começa justamente na diferença entre arquivo e memória. Um arquivo pode conter uma verdade que uma comunidade inteira desconhece. Uma enciclopédia pode registrar uma informação que quase nenhum membro jamais lerá. Um livro pode continuar sendo citado depois que o público perdeu acesso a ele. Um vídeo pode permanecer anos diante de todos e ainda assim não ser percebido como peça de um quadro maior. Controlar a memória não significa obrigatoriamente destruir tudo. Significa também decidir o que será destacado, o que será repetido, o que será ensinado e o que permanecerá tecnicamente disponível, porém culturalmente invisível.

Essa lógica ajuda a compreender por que ¡O Mi C.A.! passou a ocupar posição tão central em nossa busca. O livro não é apenas mais uma fonte sobre a escola. É a narrativa retrospectiva escrita pelo próprio homem que dirigia o C.A. quando Che Guevara estava do outro lado da estrada, quando revolucionários eram alimentados, quando a gráfica recebeu um pedido político, quando Fidel começou a aparecer no horizonte institucional e quando a relação com o novo poder estava sendo construída. Se existe uma obra capaz de concentrar a visão posterior de Brown sobre esses acontecimentos, é justamente essa.

E, no entanto, aquilo que deveria ser uma fonte básica para qualquer estudo sobre o Colegio de las Antillas tornou-se um objeto quase fantasmagórico. Sabemos que existiu. Sabemos quem o escreveu. Sabemos o ano. Sabemos que historiadores adventistas o consultaram. Sabemos até quais páginas sustentam determinados episódios. O que não encontramos é uma circulação pública compatível com a importância do autor e da instituição retratada. Um dos homens mais importantes da educação adventista escreveu a história de um dos colégios mais importantes do Caribe, viveu pessoalmente o encontro da escola com a Revolução e deixou um livro que quase ninguém hoje consegue colocar sobre a mesa.

Não é uma ausência neutra. O efeito histórico desse desaparecimento é concreto. Sem o livro, Brown permanece principalmente acessível através de trechos selecionados por outros autores. O leitor recebe a página 86 para uma informação, a página 87 para outra, talvez uma página adicional para determinado episódio, mas não consegue ler o conjunto, perceber a sequência, observar o vocabulário utilizado pelo próprio Brown ou descobrir aquilo que os autores posteriores decidiram não citar. A fonte existe, mas sua mediação permanece nas mãos de quem teve acesso a ela.

Foi justamente contra esse tipo de desaparecimento que os adventistas de Santa Clara, por outro caminho, acabaram reagindo. Eles perceberam que seus antigos alunos estavam morrendo e decidiram registrar suas vozes. Não esperaram que restassem apenas notas de rodapé. Ligaram as câmeras. Pediram que as testemunhas contassem. Mostraram as fotografias. Voltaram ao prédio. Recuperaram os nomes. E, ao fazer isso, devolveram ao espaço público uma parte da história que já não dependia exclusivamente das citações escolhidas por historiadores institucionais.

A ironia é enorme. O documentário não foi produzido para denunciar um apagamento institucional, mas acabou funcionando como antídoto contra ele. Os realizadores queriam impedir que o tempo apagasse o C.A.; terminaram preservando justamente episódios que demonstram quanto da história política daquela escola havia desaparecido da memória comum da denominação. Queriam mostrar por que o colégio fora especial; terminaram mostrando também por que sua história era incômoda. Queriam homenagear Brown e antigos alunos; terminaram devolvendo a Brown uma posição central em perguntas que a memória oficial jamais popularizou.

Quando Aldo Joel Pérez aparece no encerramento e fala sobre a importância de preservar aquela história, sua presença adquire uma dimensão que talvez ultrapasse a intenção original. O presidente da Unión Cubana ajuda a legitimar um documentário que, ao reunir testemunhas, devolve ao público peças capazes de provocar perguntas sobre a própria administração adventista. A história local não nasceu contra a instituição. Nasceu dentro dela. Mas, uma vez registrada, já não pode ser obrigada a responder apenas às perguntas que seus realizadores decidiram fazer.

Foi exatamente isso que aconteceu quando começamos a confrontar essas vozes com os escritos contemporâneos de Brown, os registros da Review and Herald, as publicações posteriores da denominação, as memórias de Che Guevara, o testemunho de Argelio Rosabal e as referências ao livro desaparecido. O documentário deixou de ser somente uma homenagem emocionante a uma escola perdida e tornou-se uma peça central de uma investigação sobre como uma organização religiosa pode preservar tecnicamente os elementos de uma história ao mesmo tempo que impede que essa história seja conhecida como um conjunto.

Então a pergunta “até onde eles podiam contar essa história?” ganha um segundo sentido. Os ex-alunos podiam contar aquilo que viveram. Os realizadores podiam registrar aquilo que a comunidade preservara. Professores e dirigentes cubanos podiam reconhecer a importância do passado. Mas nenhuma dessas vozes, isoladamente, possuía acesso automático aos bastidores administrativos internacionais em que se definiam políticas, relações e limites. A memória da base chega até a porta da estrutura; não necessariamente entra nos gabinetes.

É justamente por isso que não devemos cobrar daquelas testemunhas as respostas que somente os arquivos administrativos poderiam fornecer. Elas fizeram algo talvez ainda mais importante: impediram que o fato desaparecesse antes que pudéssemos fazer a pergunta. Disseram que Brown ajudou. Disseram que os homens de Che receberam alimentação. Disseram que Fidel esteve ali. Disseram que o coral cantou. Disseram que o governo finalmente tomou o colégio. Preservaram os acontecimentos. A responsabilidade de conectar esses acontecimentos ao comportamento institucional pertence agora a quem possui acesso às outras fontes.

E, quando fazemos essa conexão, surge uma conclusão desconfortável: a história do Colegio de las Antillas não desapareceu porque faltassem registros. Desapareceu da consciência adventista apesar da existência deles. O problema nunca foi ausência absoluta de memória. Foi administração da memória. Os fatos sobreviveram em lugares diferentes, sob controles diferentes, em suportes diferentes, sem que a denominação os apresentasse juntos à mesma comunidade que durante décadas ouviu discursos sobre apartidarismo, neutralidade política e distância dos poderes deste mundo.

Os adventistas de Santa Clara romperam involuntariamente essa fragmentação. Começaram a recolher as partes e, quando as câmeras registraram as últimas testemunhas, a história saiu novamente do controle de quem podia administrá-la apenas por meio de referências dispersas. Che estava no filme. Fidel estava no filme. Brown estava no filme. Os alimentos estavam no filme. O coral estava no filme. A tomada da instituição estava no filme. A dor estava no filme. Faltava apenas colocar tudo isso ao lado dos documentos escritos.

E foi exatamente aí que chegamos ao elemento mais estranho de toda essa história. Havia um homem que já havia feito parte desse trabalho de reunião décadas antes. Walton J. Brown escrevera um livro dedicado ao Colegio de las Antillas. A historiografia denominacional sabia disso, utilizava esse livro e citava suas páginas. Mesmo assim, a obra se tornou praticamente inacessível. Enquanto os velhos alunos lutavam contra a morte de suas lembranças, o testemunho escrito do diretor permanecia escondido atrás de referências bibliográficas que quase ninguém conseguia verificar.

O documentário termina tentando impedir que uma escola seja esquecida. Nossa investigação chega ao final deste capítulo perguntando por que o livro que deveria tornar esse esquecimento muito mais difícil desapareceu justamente do alcance de quem poderia lê-lo. E essa pergunta nos leva ao ponto em que a história deixa de ser apenas memória de Santa Clara e se transforma em investigação sobre o desaparecimento de uma fonte: ¡O Mi C.A.! existiu. A própria Igreja continuou sabendo que existia. Agora precisamos seguir o rastro daquilo que aconteceu quando o livro sumiu, mas a história se recusou a desaparecer.






CAPÍTULO 5 — O LIVRO SUMIU; A HISTÓRIA, NÃO

Existe algo quase perfeito, do ponto de vista de uma memória institucional controlada, em transformar um livro inconveniente numa referência bibliográfica. O título continua existindo, o autor continua identificado, o ano permanece registrado e pesquisadores autorizados ou suficientemente próximos dos arquivos ainda conseguem citar suas páginas. Tecnicamente, nada foi apagado. Culturalmente, porém, quase tudo pode desaparecer. Foi exatamente essa situação que encontramos quando chegamos a ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas, publicado por Walton J. Brown em 1990. O livro existe. A própria historiografia adventista demonstra que existe. Suas páginas foram consultadas e citadas. Mesmo assim, colocar hoje um exemplar diante dos olhos tornou-se extraordinariamente difícil.

Isso seria apenas uma curiosidade bibliográfica se estivéssemos falando de um autor secundário escrevendo sobre uma pequena escola onde passou alguns meses. Não estamos. Walton J. Brown dirigia o Colegio de las Antillas durante os acontecimentos decisivos da Revolução Cubana. Foi ele quem administrou a instituição enquanto os homens de Che Guevara estavam na região da Universidad Central de Las Villas, enquanto alimentos e recursos do colégio atendiam necessidades dos revolucionários, enquanto aproximadamente 180 pessoas ligadas à movimentação daqueles dias passaram pelo refeitório, enquanto a imprensa recebeu um pedido de propaganda política e enquanto começavam as relações com os vencedores. Brown encontrou Che, dirigiu o coral, acompanhou a transição política e posteriormente escreveu sobre possuir “alguns bons amigos” entre os novos homens do poder. Décadas depois, esse mesmo personagem decidiu escrever a história do C.A.

Portanto, ¡O Mi C.A.! não é apenas um livro sobre uma escola adventista desaparecida. É o testemunho retrospectivo de um administrador que esteve no centro dos acontecimentos e teve décadas para pensar sobre aquilo que vivera. Brown escreveu o relato contemporâneo de 1959 quando a Revolução ainda era novidade e Fidel Castro ainda aparecia aos olhos da administração como possível amigo da instituição. O livro de 1990 pertence a outro momento. Quando Brown o publicou, já sabia que o Colegio de las Antillas havia sido perdido, que a Revolução tomara um rumo muito diferente daquele imaginado nos primeiros meses, que as garantias não haviam preservado a escola e que sua própria carreira denominacional seguira muito além de Cuba. Entre o artigo de 1959 e o livro de 1990 existem mais de três décadas de experiência e conhecimento posterior.

É justamente por isso que queremos ler Brown inteiro, não apenas Brown citado por outros. Queremos saber como ele organizou a sequência dos acontecimentos, que episódios considerou importantes, como descreveu Che Guevara, o que disse sobre Fidel Castro, que palavras utilizou para explicar a ajuda prestada durante os combates, como interpretou a recusa da gráfica, o que recordou das apresentações do coral, como tratou as relações com os revolucionários depois da vitória e de que maneira explicou a perda posterior da instituição. Queremos saber também o que não aparece nas citações selecionadas por autores posteriores. Uma fonte histórica não pode ser reduzida às frases que terceiros escolheram retirar dela.

E aqui começa a anomalia. A Encyclopedia of Seventh-day Adventists, ao reconstruir a história do Colegio de las Antillas, cita ¡O Mi C.A.! repetidamente e fornece inclusive páginas específicas. As referências conduzem às páginas 83, 86, 87, 88, 89, 90 e 92 em diferentes momentos da narrativa. Isso significa que o autor responsável pela reconstrução possuía acesso suficientemente preciso à obra para consultar episódios determinados e transformá-los em notas de rodapé. O livro, portanto, não é uma lenda bibliográfica transmitida por alguém que ouviu falar de um manuscrito perdido. Ele estava disponível para consulta dentro do circuito em que a história denominacional estava sendo produzida.

Uma dessas referências é particularmente reveladora. A página 86 é utilizada na reconstrução da visita de Fidel Castro ao colégio e da frase atribuída a ele sobre aquele ser exatamente o tipo de escola que desejava para a nova Cuba. A página seguinte, 87, sustenta a continuação da história envolvendo outra apresentação do coral a pedido do líder revolucionário. Outras páginas servem para episódios relacionados àquele período. A sequência mostra que Brown dedicou espaço significativo às relações entre o C.A. e os novos governantes. Não estamos procurando num livro de centenas de páginas uma frase perdida por acaso. Há um conjunto narrativo localizado justamente na região que a historiografia adventista posterior consultou.

Isso também nos ajuda a compreender por que a busca pelo livro não pode ser tratada como fetiche de colecionador. Já possuímos documentação suficiente para saber que houve colaboração. Já possuímos o artigo de Brown de 1959. Já possuímos testemunhos de ex-alunos. Já possuímos a reconstrução adventista posterior. Já possuímos registros sobre Argelio Rosabal e a atuação de adventistas no Oriente. Já possuímos as referências de Che Guevara. Já possuímos o documentário de Santa Clara. Encontrar ¡O Mi C.A.! não decidirá se tudo isso aconteceu. O que o livro pode fazer é revelar como Brown, décadas depois, decidiu contar aquilo que aconteceu.

Essa distinção é fundamental porque seria muito conveniente transformar o livro desaparecido numa espécie de Santo Graal sem o qual nenhuma conclusão pudesse ser alcançada. Não aceitaremos esse adiamento. O que já sabemos é suficiente para estabelecer a existência da colaboração, da aproximação e das expectativas políticas produzidas por ela. O livro pode acrescentar detalhes extraordinários, esclarecer cronologias, revelar personagens, preservar formulações de Brown e talvez responder perguntas que hoje continuam abertas, mas sua ausência não apaga as fontes que já estão diante de nós.

Na realidade, acontece o contrário. Quanto mais fontes independentes conseguimos reunir, mais intrigante se torna o desaparecimento prático do livro. Brown contou em 1959 que a instituição auxiliara durante a Revolução. Ex-alunos preservaram a lembrança da alimentação fornecida aos homens de Che. O documentário local afirmou que Brown ajudou. A historiografia adventista posterior utilizou ¡O Mi C.A.! para reconstruir visitas e apresentações. A própria documentação denominacional de 1965 reconheceu “favores recebidos” por Castro e garantias que alimentaram grandes esperanças na administração. Não estamos diante de uma acusação sustentada por uma única fonte desaparecida. Estamos diante de uma rede documental dentro da qual justamente uma das fontes mais importantes se tornou praticamente inacessível.

O contraste é ainda maior quando observamos quem era Walton Brown em 1990. Sua trajetória já o havia levado muito além da direção de um colégio cubano. Filho de missionários, educador, músico, administrador e dirigente de longa carreira, Brown fazia parte da história institucional da própria denominação. Não era um dissidente escrevendo memórias proibidas depois de abandonar a Igreja. Não era um adversário publicando acusações contra antigos colegas. Era um homem do sistema escrevendo sobre uma instituição do sistema. Se mesmo um livro assim conseguiu praticamente desaparecer da circulação, a pergunta não é por que deveríamos desconfiar de Brown. A pergunta é por que uma obra de tamanha relevância histórica não foi preservada e disponibilizada de maneira compatível com a importância que a própria historiografia denominacional lhe atribuiu.

É nesse ponto que a história de Virgilio Zaldívar Marrero se torna especialmente interessante. Zaldívar dedicou décadas à preservação da memória adventista cubana. Professor, educador e historiador, esteve profundamente ligado à história da educação adventista na ilha e produziu centenas de páginas sobre o desenvolvimento da denominação em Cuba. Seu nome aparece associado à recuperação de documentos, à preservação de livros e à reconstrução da história que sobrevivera às perdas institucionais. A biblioteca do Seminario Teológico Adventista de Cuba recebeu posteriormente seu nome, reconhecimento adequado para alguém cuja vida se confundiu com a tentativa de impedir que o passado adventista cubano desaparecesse.

Zaldívar também aparece numa conexão direta com Walton Brown. Em fevereiro de 1987, quando foi homenageado por três décadas dedicadas ao ensino, recebeu das mãos de Brown um distintivo de ouro comemorativo de trinta anos de serviço educacional. A imagem é sugestiva: dois homens profundamente ligados à educação adventista cubana, um deles antigo diretor do C.A., o outro preservador de sua história, juntos poucos anos antes da publicação de ¡O Mi C.A.!. Brown publicaria o livro em 1990.

A documentação localizada até aqui não permite reconstruir o processo editorial e de pesquisa de ¡O Mi C.A.! nem atribuir a Zaldívar participação específica na preparação da obra. Não precisamos dessa hipótese para reconhecer algo mais importante: Brown continuava relacionado ao universo adventista cubano e aos homens que preservavam sua memória histórica. Em 1982, quase vinte e dois anos depois de deixar a ilha, voltou a Cuba acompanhado de L. Herbert Fletcher. Em 1987 aparece na homenagem a Zaldívar. Em 1990 esteve novamente no país por nove dias, aconselhando líderes sobre problemas educacionais. O livro surge exatamente dentro desse período de retomada de contatos com Cuba e de interesse renovado pela história educacional da ilha.

Essa proximidade cronológica é importante porque destrói a imagem de um Brown completamente desligado do C.A. que, trinta anos depois, teria escrito apenas de memória uma obra nostálgica. O antigo diretor continuava circulando em ambientes ligados à educação adventista cubana, encontrando pessoas associadas à preservação daquela história e voltando à própria ilha. O que ainda precisamos descobrir é quais documentos utilizou, quem colaborou com informações, onde a obra foi impressa, quantos exemplares circularam, para quem foram enviados e como chegou às mãos dos pesquisadores que a citaram posteriormente.

Há inclusive divergência nas referências bibliográficas disponíveis. A Encyclopedia of Seventh-day Adventists registra a obra de maneira simples, sem local e sem editora claramente identificados, enquanto uma referência acadêmica posterior a apresenta como publicada pela Pacific Press, em Idaho. Essa atribuição precisa ser tratada com cuidado até que um exemplar permita examinar folha de rosto, ficha editorial e demais elementos físicos da edição. Mas a divergência, longe de diminuir nosso interesse, aumenta a estranheza: estamos falando de um livro suficientemente importante para sustentar páginas da historiografia adventista e, mesmo assim, ainda precisamos reconstruir até mesmo os detalhes básicos de sua publicação.

Onde estão os exemplares? Essa pergunta é muito mais concreta do que qualquer discussão abstrata sobre intenção. Se autores adventistas conseguiram citar páginas específicas, alguém teve acesso ao livro. Se Brown distribuiu exemplares entre antigos colegas, administradores, bibliotecas ou instituições educacionais, alguns deles podem continuar guardados. Se a obra passou por uma editora denominacional, deveriam existir rastros editoriais. Se circulou de maneira privada, precisamos descobrir entre quais pessoas e instituições. Um livro não chega às notas de uma enciclopédia por geração espontânea. Existe uma cadeia material entre o autor, o exemplar e o pesquisador que o consultou.

É essa cadeia que queremos reconstruir. Não para substituir a investigação sobre Cuba por uma caça ao livro, mas porque o percurso físico de ¡O Mi C.A.! pode revelar tanto quanto seu conteúdo. Saber onde Brown imprimiu, quem recebeu, quem preservou, quem consultou e quem continuou possuindo acesso à obra nos ajuda a compreender como a memória do C.A. circulou dentro da denominação depois de 1990. O desaparecimento público do livro e sua sobrevivência dentro de circuitos especializados são duas partes da mesma história.

A própria existência do documentário de Santa Clara torna essa questão ainda mais provocadora. Enquanto a obra de Brown se tornava praticamente invisível para o público, adventistas cubanos percebiam que outra biblioteca estava prestes a desaparecer: a memória dos sobreviventes. A maioria da primeira geração já havia morrido. Os realizadores então fizeram com as câmeras aquilo que qualquer instituição interessada em sua própria história deveria ter feito com o livro de Brown: preservaram, copiaram e colocaram novamente em circulação.

Essa diferença entre os dois destinos é extraordinária. A memória oral, por natureza frágil e mortal, acabou preservada em vídeo. A memória impressa, que deveria ser mais resistente, tornou-se difícil de encontrar. Homens e mulheres idosos conseguiram chegar até nós através de uma câmera; o livro escrito por um administrador internacionalmente conhecido da Igreja não conseguiu fazer o mesmo com a mesma facilidade. O papel, neste caso, revelou-se mais vulnerável que a voz.

Mas talvez seja mais correto dizer que não foi o papel que falhou. Foram os circuitos de preservação. Um livro sobre uma instituição denominacional não desaparece da memória coletiva porque suas páginas decidiram esconder-se. Ele depende de bibliotecas, arquivos, editoras, catálogos, pesquisadores, reedições e digitalização. Quando uma organização deseja preservar determinada obra, possui inúmeros meios para fazê-lo. Quando uma obra permanece décadas praticamente inacessível apesar de continuar sendo citada internamente, o problema deixa de ser simplesmente bibliográfico e passa a ser institucional.

O efeito desse processo pode ser medido pelo que aconteceu conosco durante esta investigação. Conseguimos localizar artigos de 1959. Encontramos periódicos denominacionais antigos. Encontramos anuários. Encontramos fotografias. Encontramos referências acadêmicas. Encontramos a autobiografia de Zaldívar. Encontramos registros de Brown retornando a Cuba. Encontramos o documentário de Santa Clara. Encontramos uma entrevista de vinte e três páginas com Argelio Rosabal numa coleção universitária. Encontramos até páginas em que a própria enciclopédia adventista informa exatamente onde determinadas histórias aparecem no livro de Brown. E, ainda assim, o próprio ¡O Mi C.A.! permanece fora de alcance.

É difícil imaginar ilustração melhor para o funcionamento da memória fragmentada. Temos a nota de rodapé, mas não o livro. Temos a página indicada, mas não podemos virá-la. Temos a citação escolhida, mas não o parágrafo anterior nem o seguinte. Sabemos que Brown falou, mas ainda ouvimos sua voz de 1990 através de intermediários. Para uma instituição que construiu uma das maiores redes editoriais e educacionais protestantes do mundo, essa situação não pode ser tratada como detalhe irrelevante.

Também não devemos permitir que a raridade do livro seja utilizada para inverter o ônus da história. Não somos nós que precisamos provar novamente cada episódio até que ¡O Mi C.A.! apareça. A documentação já reunida fala por si. Quem desejar sustentar que a Igreja permaneceu completamente apartidária diante da Revolução é que precisa explicar por que seu diretor alimentava homens ligados a Che, encontrava o comandante revolucionário, autorizava diferentes formas de auxílio, recusava especificamente propaganda impressa, dirigia um coral que se aproximou dos novos governantes, recebia Fidel e depois escrevia satisfeito que possuíam “alguns bons amigos”. Precisa explicar também por que uma publicação adventista reconheceu posteriormente que Castro dera garantias em agradecimento aos “favores recebidos”.

O livro desaparecido não é o segredo que sustenta nossa investigação. Esse é talvez o ponto mais importante. Durante algum tempo, parecia que encontrar ¡O Mi C.A.! poderia revelar aquilo que faltava para compreender a história. Hoje sabemos que a situação se inverteu. O que já sabemos é suficiente. O livro deixou de ser a chave sem a qual a porta permanece fechada. Tornou-se uma testemunha que queremos localizar porque a porta já está aberta e agora desejamos saber quanto mais existe do outro lado.

Isso muda também a maneira de interpretar o documentário de Santa Clara. Os realizadores disseram que estavam ali para “desempolvar” a história e permitir que ela brilhasse com luz própria. Sem saber, fizeram exatamente aquilo que décadas de fragmentação haviam tornado necessário. Recuperaram pessoas que poderiam morrer sem deixar depoimento, mostraram fotografias que poderiam permanecer anônimas, registraram o prédio antes que se deteriorasse ainda mais e devolveram ao público episódios que precisavam apenas ser colocados ao lado dos documentos escritos para adquirir novo significado.

Quando fazemos isso, percebemos que a história nunca esteve realmente perdida. Estava distribuída. Uma parte permanecia nas páginas da Review and Herald. Outra nas lembranças dos alunos. Outra nas memórias de Che. Outra na entrevista de Rosabal. Outra na historiografia cubana. Outra na Encyclopedia of Seventh-day Adventists. Outra nas fotografias. Outra no documentário. Outra no livro de Brown. O desaparecimento funcionava enquanto ninguém reunisse tudo.

É por isso que o título ¿una historia olvidada? ganha um significado que ultrapassa a intenção original dos realizadores. Sim, aquela história havia sido esquecida por grande parte da comunidade adventista. Mas não porque o tempo tivesse destruído todas as provas. As provas estavam espalhadas diante de nós. O esquecimento foi possível porque elas deixaram de formar uma narrativa comum. Cada pedaço permaneceu no lugar onde causava menos desconforto.

Brown numa revista missionária podia ser o diretor protegido por Deus durante uma revolução. Brown numa enciclopédia podia ser fonte histórica. Fidel numa fotografia podia ser apenas visitante famoso. Che numa lembrança musical podia ser curiosidade. Rosabal isolado no Oriente podia parecer caso individual. O colégio tomado em 1967 podia ser prova de perseguição comunista. Mas Brown, Fidel, Che, Rosabal, o refeitório, a gráfica, o coral, os favores, as garantias e a intervenção colocados na mesma linha do tempo contam outra história. Contam a história de uma organização que soube aproximar-se de homens que estavam conquistando o poder, acreditou ter construído relações capazes de protegê-la e depois descobriu que os novos governantes já não precisavam retribuir os favores recebidos.

É precisamente essa história inteira que o desaparecimento de ¡O Mi C.A.! ajudou a manter fora da visão do leitor comum. Não porque o livro seja a única prova, mas porque um livro possui algo que uma coleção de notas dispersas não possui: continuidade. O leitor começa numa página e passa para a seguinte. Vê acontecimentos relacionados. Percebe personagens reaparecendo. Descobre como o próprio autor organiza causas e consequências. A fragmentação protege a narrativa institucional; a continuidade ameaça essa proteção.

Por isso continuaremos procurando ¡O Mi C.A.!. Queremos a capa, a folha de rosto, a editora, a tiragem, a dedicatória, o prefácio, os capítulos, as fotografias, as notas e cada página em que Brown falou sobre Cuba. Queremos descobrir onde estão os exemplares utilizados pela historiografia adventista e quem ainda possui uma cópia. Queremos saber se antigos alunos guardaram o livro, se familiares de Brown preservaram seus papéis e se bibliotecas denominacionais possuem exemplares ainda não visíveis em seus catálogos públicos. Não porque a história dependa dele, mas porque nenhuma instituição deveria possuir o privilégio de citar seletivamente uma fonte que o restante de nós não consegue ler.

E existe ainda uma razão mais profunda para continuar procurando. Brown morreu, muitas das testemunhas morreram e o Colegio de las Antillas deixou de existir como instituição adventista há décadas. Cada documento recuperado diminui a capacidade de qualquer estrutura controlar o passado apenas pela seleção daquilo que decide republicar. Digitalizar um livro raro, preservar uma entrevista, identificar uma fotografia e colocar fontes independentes lado a lado são maneiras de devolver a história a quem deseja examiná-la sem intermediários.

Os adventistas de Santa Clara compreenderam isso intuitivamente quando apontaram suas câmeras para os velhos alunos. O tempo estava vencendo. Era preciso ouvir aquelas pessoas enquanto ainda podiam falar. Eles salvaram vozes que poderiam ter desaparecido para sempre. Agora a mesma lógica precisa ser aplicada ao livro de Brown: alguém, em algum lugar, ainda pode possuir um exemplar. Uma biblioteca pode tê-lo numa estante não catalogada digitalmente. Um ex-aluno pode ter recebido uma cópia. Um antigo administrador pode tê-lo guardado entre seus papéis. A história do C.A. já demonstrou que sobrevive nos lugares mais inesperados.

Talvez seja essa a maior derrota do apagamento. Não importa quantos anos uma história permaneça fragmentada; basta que alguém comece a juntar os pedaços. Foi isso que aconteceu. O artigo de 1959 encontrou o documentário. O documentário encontrou os testemunhos. Os testemunhos encontraram Che. Che encontrou Rosabal. A enciclopédia encontrou o livro. E as páginas citadas pela própria denominação apontaram novamente para Walton Brown.

O livro sumiu, mas a história não. E agora que sabemos quanto sobreviveu fora dele, seu desaparecimento deixou de proteger o passado. Produziu apenas uma nova pergunta: quem ainda tem um exemplar de ¡O Mi C.A.! e está disposto a colocá-lo novamente diante do público? Porque a história que durante décadas pôde permanecer dividida entre arquivos, memórias e notas de rodapé já começou a se recompor, e nenhuma estante fechada poderá devolver todas essas peças ao silêncio.






EPÍLOGO — A HISTÓRIA QUE SE RECUSOU A DESAPARECER

Quando os realizadores de El Colegio de las Antillas: ¿una historia olvidada? apontaram suas câmeras para os antigos alunos de Santa Clara, talvez imaginassem que estavam apenas salvando da morte uma memória afetiva. E estavam. Mas fizeram muito mais do que isso. Preservaram uma sequência histórica que, quando reunida com os documentos escritos, se torna impossível de tratar como simples coleção de curiosidades. O colégio adventista alimentou homens ligados a Che Guevara, colocou sua infraestrutura a serviço de necessidades da Revolução, viu Walton Brown atravessar a estrada para encontrar o comandante rebelde, recebeu Fidel Castro, apresentou seu coral diante das novas autoridades, ouviu elogios ao modelo educacional, confiou em garantias oferecidas em reconhecimento a “favores recebidos” e terminou, anos depois, expulso da própria casa pelo governo revolucionário.

Essa sequência é o coração desta história. Não precisamos transformá-la numa novela conspiratória, porque ela já é suficientemente perturbadora quando contada apenas com aquilo que as fontes sustentam. O problema nunca foi provar que Walton Brown era marxista. Essa pergunta sempre foi pequena demais. Brown não precisava aderir ideologicamente ao comunismo para administrar uma relação política com homens que estavam conquistando o poder. A recusa da gráfica demonstra justamente que ele compreendia a natureza política daquilo que estava acontecendo. Soube dizer não quando o pedido exigia identificação explícita; soube dizer sim em outras formas de colaboração. A fronteira existia e Brown a conhecia.

É por isso que a pergunta decisiva continua sendo a mesma: quem ensinou Brown até onde ele podia ajudar? Não estamos falando de um missionário isolado improvisando numa estrada rural. Brown era diretor de uma importante instituição educacional adventista integrada à estrutura interamericana da denominação. Era filho da missão, produto de uma cultura administrativa internacional e homem formado para operar em ambientes políticos diversos. Sabia que instituições religiosas sobrevivem negociando espaços, mantendo canais, preservando propriedades e administrando relações com governos. Em Santa Clara, aplicou esse conhecimento diante de uma revolução.

Cuba não interrompeu a carreira de Brown. Depois dos acontecimentos de Santa Clara, sua trajetória denominacional continuou ascendente, levando-o a responsabilidades cada vez maiores na educação adventista. Isso não é detalhe biográfico. Organizações também revelam aquilo que consideram compatível com sua cultura administrativa pela maneira como continuam confiando responsabilidades aos homens que estiveram à frente de decisões críticas. Brown não foi afastado para as margens depois de Cuba. Brown caiu para cima.

Ao mesmo tempo, a comunidade que viveu a história pagou o preço concreto das relações construídas por seus dirigentes. Os estudantes não estavam sentados em gabinetes decidindo até onde a Igreja poderia aproximar-se dos revolucionários. Estavam trabalhando, estudando, cantando, servindo refeições e confiando em quem administrava a instituição. Foram eles que décadas depois continuaram carregando a memória do leite, dos dormitórios, do trabalho, das amizades e da campana que os chamou para ouvir que deveriam sair. Foram eles que encontraram a expressão capaz de resumir a perda: “Aquello fue peor que un velorio.”

Essa frase deveria impedir qualquer tentativa de transformar a história numa disputa abstrata entre instituições. Houve sofrimento real. Houve perda. Houve uma comunidade arrancada de um espaço que considerava lar. Mas a dor posterior não apaga a aproximação anterior. Ao contrário, torna a sequência ainda mais incômoda. O C.A. não foi tomado por homens que sempre haviam sido tratados como inimigos. Foi tomado por um poder que crescera diante de uma instituição adventista capaz de lhe oferecer ajuda, relações, hospitalidade e boa vontade.

Esse é o verdadeiro sentido do título FIDEL E CHE GUEVARA NOS TRAÍRAM! Não se trata de colocar na boca das testemunhas uma frase que elas não pronunciaram literalmente. Trata-se de interpretar a experiência histórica que elas mesmas preservaram. Houve confiança. Houve proximidade. Houve expectativa. Houve garantias. E houve depois a perda. A traição não está numa palavra isolada; está na sequência.

Fidel aparece como o personagem mais claro dessa transformação. Primeiro surge à frente do movimento cujos homens haviam recebido alimentação e ajuda do colégio; depois visita pessoalmente o C.A., come no refeitório, ouve o coral, faz perguntas e elogia o modelo educacional. A própria documentação adventista reconhece que suas garantias alimentaram grandes esperanças na administração em resposta aos favores recebidos. Depois, o regime que ele comandava avança progressivamente sobre a instituição até a intervenção completa de 1967. O mesmo poder que primeiro agradeceu terminou ordenando a saída.

Che ocupa outro lugar na narrativa. Sua presença está ligada à fase em que a Revolução ainda dependia de redes locais, alimentos, contatos e estruturas de apoio. O Colegio de las Antillas entrou nessa rede no momento decisivo da ofensiva sobre Santa Clara. Brown encontrou Che. Os homens de Che foram alimentados. O próprio documentário local preserva essa história sem constrangimento. E outras fontes mostram que adventistas já apareciam no caminho de Che antes disso, especialmente através de Argelio Rosabal e da rede de apoio existente no Oriente cubano.

Isso torna impossível reduzir Santa Clara a um acidente isolado. Havia adventistas auxiliando revolucionários em diferentes regiões. Havia dirigentes locais suficientemente inseridos em redes de confiança para esconder combatentes, conseguir recursos e manter contatos. Havia uma instituição educacional capaz de oferecer apoio material quando a ofensiva chegou ao centro da ilha. E havia depois uma administração denominacional tentando aproveitar a boa vontade gerada por essas relações para preservar sua obra dentro da nova ordem.

Essa não é a história simples que durante décadas dominou a consciência adventista. A versão conhecida costuma começar tarde demais. Começa quando o regime já está restringindo a religião, intervindo instituições e finalmente confiscando o colégio. Nessa versão, a IASD aparece apenas como vítima de um Estado comunista. O problema é que a documentação começa antes. E quando começamos antes, encontramos a Igreja ajudando homens que ainda estavam lutando para chegar ao poder.

Essa diferença muda tudo. Uma denominação pode sofrer perseguição posterior e ainda assim ter colaborado anteriormente com quem viria a persegui-la. Uma vítima posterior pode ter sido aliada circunstancial antes. Uma relação pode começar em conveniência e terminar em ruptura. A história não precisa escolher entre “a IASD ajudou” e “a IASD foi prejudicada”. As duas coisas aconteceram em momentos diferentes. O erro está em permitir que a segunda seja utilizada para apagar a primeira.

Foi exatamente esse apagamento que tornou o documentário de Santa Clara tão importante. Os realizadores não produziram uma acusação contra a organização, mas salvaram elementos que impedem a narrativa de ser simplificada. Ao dizer que Brown ajudou, preservaram responsabilidade administrativa. Ao mostrar Fidel, preservaram proximidade. Ao lembrar Che, preservaram o vínculo com a Revolução. Ao registrar a intervenção, preservaram a consequência. Ao colocar ex-alunos diante da câmera, impediram que a história sobrevivesse apenas na linguagem cuidadosamente selecionada das publicações institucionais.

Talvez seja essa a grande força das testemunhas locais: elas falam de dentro da experiência, não de dentro da necessidade posterior de harmonizar o passado com a imagem institucional. Por isso conseguem lembrar simultaneamente aquilo que uma narrativa oficial preferiria separar. Fidel pode aparecer como visitante admirado e depois como parte do regime que tomou a escola. Che pode aparecer ligado à “paz espiritual” e também à força revolucionária que recebeu apoio. Brown pode ser lembrado como diretor querido e, ao mesmo tempo, como homem que ajudou os rebeldes. A memória popular preserva contradições que a memória institucional tenta organizar.

Foi assim também com a música. A lembrança de que Brown teria acrescentado duas estrofes ao hino revolucionário diante de Fidel, com fragmentos como “Fidel, magnífico líder” e “te alabamos, te amamos”, não sobreviveu num relatório administrativo que precisasse justificar política denominacional. Sobreviveu na memória de quem estava ali. A mesma coisa ocorreu com Che no Teatro Cloris e com a lembrança de “paz espiritual”. Esses detalhes são valiosos porque mostram a temperatura da relação, aquilo que documentos administrativos frequentemente não registram.

E então voltamos ao livro. ¡O Mi C.A.! tornou-se praticamente inacessível, mas não conseguiu levar consigo a história inteira. Brown deixou rastros em 1959. Outros autores o citaram depois. A enciclopédia adventista apontou páginas. As testemunhas falaram. O documentário reuniu imagens. Che deixou sua própria memória. Rosabal deixou a dele. O silêncio nunca conseguiu ser completo.

É por isso que o desaparecimento do livro se torna menos uma vitória do apagamento e mais uma demonstração de seus limites. Fragmentar uma história pode atrasar seu reencontro, mas não garante que as partes nunca voltarão a se tocar. Um artigo guardado num arquivo pode reaparecer. Um vídeo antigo pode ser redescoberto. Uma ex-aluna pode falar diante de uma câmera. Uma coleção universitária pode preservar uma entrevista esquecida. Uma nota de rodapé pode revelar o título de um livro que alguém julgava perdido.

Foi exatamente assim que esta história voltou. Não apareceu inteira numa única gaveta. Precisou ser reconstruída. Brown apareceu de um lado. Che de outro. Fidel em outra fonte. Rosabal em outra coleção. O documentário em outro canal. O livro desaparecido surgiu nas referências de quem ainda conseguira consultá-lo. Quando as peças começaram a se encontrar, o quadro que durante décadas parecia inexistente revelou que sempre estivera ali, desmontado.

Essa é talvez a forma mais sofisticada de apagamento histórico: não destruir os fatos, mas separá-los. Uma peça em cada arquivo, uma lembrança em cada sobrevivente, uma citação em cada publicação, uma fotografia sem contexto, um livro raro, um testemunho esquecido. Enquanto permanecem separados, ninguém enxerga o desenho. Quando se juntam, o desenho reaparece.

O desenho que reapareceu em Cuba é desconfortável. A Igreja Adventista não permaneceu à margem dos acontecimentos como espectadora apolítica. Seus membros participaram de redes de apoio, sua principal instituição educacional na ilha auxiliou revolucionários, seus dirigentes manejaram diferentes níveis de cooperação e sua administração posterior acreditou que os favores prestados produziram garantias úteis. O próprio comportamento de Brown demonstra que havia consciência política suficiente para estabelecer limites.

Isso não exige que todos os envolvidos compartilhassem a ideologia revolucionária. Exige apenas que reconheçamos aquilo que fizeram. A política não começa apenas quando alguém assina uma ficha partidária. Uma instituição também age politicamente quando escolhe quem ajuda, até onde ajuda, o que recusa, com quem cultiva relações e que benefícios espera dessas relações depois que o poder muda de mãos.

Por isso, a recusa da gráfica continua sendo uma das peças mais reveladoras de toda a história. Brown não recusou tudo. Recusou exatamente aquilo que deixaria uma marca explícita de propaganda partidária. Isso demonstra que a linha existia e que ele sabia reconhecê-la. A alimentação, os materiais, os contatos, as apresentações e as relações ficaram do outro lado dessa fronteira. E quanto mais clara é a fronteira, mais difícil se torna tratá-la como simples improvisação.

A pergunta que permanece para a história adventista, portanto, não é apenas o que Brown fez. Já sabemos bastante sobre isso. A pergunta é quem formou Brown para saber onde estava a linha, quais critérios administrativos estavam em jogo e o que os níveis superiores da organização sabiam sobre a maneira como o C.A. navegava a Revolução. Essa investigação ainda pode avançar muito se novos documentos aparecerem.

Mas o essencial já não depende de uma descoberta futura. O essencial está diante de nós. O Colegio de las Antillas ajudou. Brown sabia. Che recebeu apoio dentro desse ambiente. Fidel foi recebido como amigo. A administração alimentou expectativas com base nos favores prestados. O regime depois tomou a escola. Os alunos sofreram. O livro de Brown praticamente desapareceu. E a memória local conseguiu preservar aquilo que a história institucional não conseguiu apagar por completo.

Talvez por isso a imagem final mais poderosa continue sendo a de antigos alunos retornando ao campus. Eles caminham por um lugar que já não lhes pertence, reconhecem estruturas, lembram nomes e contam histórias. O prédio está diante deles como corpo material de algo que lhes foi retirado, mas a memória continua funcionando como território que o governo nunca conseguiu confiscar. E foi justamente essa memória que, décadas depois, entregou ao restante de nós as peças necessárias para reconstruir o que aconteceu.

Os realizadores disseram que estavam ali para “desempolvar” a história e deixá-la brilhar com luz própria. Conseguiram. Talvez mais do que imaginavam, porque a luz atingiu também partes da história que a memória institucional preferiu deixar na sombra. Che reapareceu. Fidel reapareceu. Brown reapareceu. Os favores reapareceram. As garantias reapareceram. A traição reapareceu. E o livro desaparecido reapareceu pelo menos como pergunta.

Agora a responsabilidade muda de mãos. As testemunhas falaram. Os documentos foram encontrados. As conexões começaram a ser feitas. Quem possui outras fotografias, cartas, relatórios, exemplares de ¡O Mi C.A.!, gravações ou lembranças daquele período não está diante de uma curiosidade sem importância. Está diante de peças de uma história que já sofreu demais com a fragmentação.

A estrada entre o Colegio de las Antillas e a Universidad Central ainda está lá. O edifício ainda está lá. As fotografias ainda estão lá. Muitas das pessoas que viveram aqueles dias já não estão. Brown também não está. Che e Fidel desapareceram. Mas as decisões tomadas naquele espaço continuam produzindo perguntas.

E talvez seja justamente essa a conclusão mais incômoda para quem acreditou que o tempo resolveria o problema. O tempo levou as testemunhas uma a uma, fechou instituições, envelheceu documentos e tornou livros raros. Mas não conseguiu apagar a história. Porque antes que o último sobrevivente se calasse, alguém ligou uma câmera. Antes que todos os periódicos fossem esquecidos, alguém os digitalizou. Antes que o livro desaparecesse por completo, alguém anotou suas páginas. E antes que os fragmentos permanecessem separados para sempre, alguém começou a juntá-los.

O Colegio de las Antillas perdeu o prédio. A IASD perdeu o controle sobre a narrativa. E a história, depois de décadas enterrada em pedaços, voltou a falar.






APELO AOS LEITORES — AJUDE-NOS A ENCONTRAR ¡O MI C.A.!

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Se você possui um exemplar de ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas, de Walton J. Brown, publicado em 1990, ou sabe onde ele pode ser encontrado, pedimos sua ajuda. Esta obra é uma das fontes mais importantes para a reconstrução da história do Colegio de las Antillas e de sua relação com os acontecimentos da Revolução Cubana, mas tornou-se extraordinariamente difícil de localizar. Sabemos que o livro existiu, foi utilizado por historiadores adventistas e continua sendo citado em trabalhos posteriores com indicação de páginas específicas, porém ainda não conseguimos acesso ao volume completo.

Se você tiver esse livro em sua biblioteca pessoal, numa coleção de família, igreja, seminário, universidade, arquivo ou biblioteca, entre em contato conosco. Não é necessário ceder ou enviar o exemplar original. Você pode simplesmente fotografá-lo, digitalizá-lo ou disponibilizar uma cópia em PDF para consulta. Fotografias legíveis feitas com um telefone celular já poderão ser extremamente úteis. Se não for possível fotografar ou digitalizar o livro inteiro, temos interesse especial nas páginas 83 a 93, particularmente nas páginas 83, 86, 87, 88, 89, 90 e 92, citadas posteriormente em estudos adventistas sobre o Colegio de las Antillas. Fotografias da capa, contracapa, página de rosto, ficha ou dados editoriais, prefácio, sumário e demais páginas que permitam identificar a edição também serão muito importantes.

Nosso apelo se dirige especialmente aos antigos alunos do Colegio de las Antillas e seus familiares, descendentes de antigos professores e administradores, pastores, pesquisadores, colecionadores de livros e periódicos adventistas e pessoas ligadas a bibliotecas, universidades, seminários e arquivos em Cuba, Estados Unidos, Porto Rico, México, América Latina e outros países. Talvez um exemplar esteja há décadas numa estante particular sem que seu proprietário saiba como ele se tornou importante para a reconstrução dessa história. Se você conhece alguém que estudou ou trabalhou no C.A., pergunte também se a família conservou o livro ou sabe quem poderia possuí-lo.

Também queremos ouvir quem já encontrou alguma referência ao livro na internet. Se você souber onde existe uma versão digitalizada, PDF, catálogo bibliográfico, registro de biblioteca, anúncio de venda, fotografia do exemplar ou qualquer página na web relacionada à obra, envie-nos a informação. Mesmo que o link atualmente não funcione, um endereço antigo, uma captura de tela, o nome de uma biblioteca ou uma referência de catálogo poderá abrir uma nova pista. Também queremos descobrir onde e por quem o livro foi efetivamente impresso e distribuído em 1990, uma questão bibliográfica que ainda permanece aberta.

Se você puder ajudar, use o espaço de comentários logo abaixo deste artigo para responder. Informe onde o livro pode ser encontrado, coloque o link que encontrou, indique o nome de uma biblioteca ou coleção ou diga simplesmente que possui um exemplar e pode fotografá-lo ou digitalizá-lo. Caso prefira que alguma informação não seja tornada pública, escreva isso no próprio comentário para que possamos estabelecer contato de outra maneira. Não descarte uma informação por parecer pequena: uma fotografia da capa, um nome escrito numa página, um carimbo de biblioteca ou uma simples indicação de onde alguém viu o livro poderá ser justamente a pista que falta para finalmente encontrarmos ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas.

Español

Si usted posee un ejemplar de ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas, de Walton J. Brown, publicado en 1990, o sabe dónde puede encontrarse, le pedimos su ayuda. Esta obra constituye una de las fuentes más importantes para reconstruir la historia del Colegio de las Antillas y su relación con los acontecimientos de la Revolución Cubana, pero se ha vuelto extraordinariamente difícil de localizar. Sabemos que el libro existió, fue utilizado por historiadores adventistas y continúa siendo citado en estudios posteriores con referencias a páginas específicas, pero todavía no hemos logrado acceder al volumen completo.

Si conserva este libro en una biblioteca personal, colección familiar, iglesia, seminario, universidad, archivo o biblioteca, por favor póngase en contacto con nosotros. No es necesario entregar ni enviar el ejemplar original. Puede simplemente fotografiarlo, digitalizarlo o facilitarnos una copia en PDF para su consulta. Fotografías legibles tomadas incluso con un teléfono celular pueden ser de enorme utilidad. Si no fuera posible fotografiar o digitalizar el libro completo, tenemos especial interés en las páginas 83 a 93, particularmente las páginas 83, 86, 87, 88, 89, 90 y 92, citadas posteriormente en estudios adventistas sobre el Colegio de las Antillas. También serían muy importantes fotografías de la portada, contraportada, página de título, datos editoriales, prólogo, índice y cualquier otra página que permita identificar correctamente la edición.

Este llamado está dirigido especialmente a antiguos alumnos del Colegio de las Antillas y sus familiares, descendientes de antiguos profesores y administradores, pastores, investigadores, coleccionistas de libros y publicaciones adventistas y personas vinculadas a bibliotecas, universidades, seminarios y archivos de Cuba, Estados Unidos, Puerto Rico, México, América Latina y otros países. Es posible que algún ejemplar permanezca desde hace décadas en una biblioteca particular sin que su propietario sepa la importancia que ha adquirido para reconstruir esta historia. Si conoce a alguien que estudió o trabajó en el C.A., pregúntele también si su familia conserva el libro o sabe quién podría tener un ejemplar.

También queremos saber de cualquier persona que haya encontrado alguna referencia al libro en Internet. Si conoce una versión digitalizada, un archivo PDF, un catálogo bibliográfico, un registro de biblioteca, un anuncio de venta, fotografías del ejemplar o cualquier página web relacionada con la obra, envíenos esa información. Incluso si el enlace ya no funciona, una dirección antigua, una captura de pantalla, el nombre de una biblioteca o una referencia de catálogo podría proporcionarnos una nueva pista. También deseamos determinar dónde y por quién fue realmente impreso y distribuido el libro en 1990, una cuestión bibliográfica que todavía permanece abierta.

Si usted puede ayudarnos, utilice el espacio de comentarios que aparece inmediatamente debajo de este artículo para responder. Indique dónde puede encontrarse el libro, publique el enlace que haya localizado, proporcione el nombre de una biblioteca o colección, o simplemente díganos que posee un ejemplar y puede fotografiarlo o digitalizarlo. Si prefiere que alguna información no sea publicada, indíquelo en el propio comentario para que podamos establecer contacto por otra vía. No descarte ningún dato por parecer insignificante: una fotografía de la portada, un nombre escrito en alguna página, un sello de biblioteca o una simple indicación de dónde alguien vio el libro podría ser precisamente la pista que necesitamos para localizar finalmente ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas.

English

If you own a copy of Walton J. Brown’s ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas, published in 1990, or know where a copy can be found, we are asking for your help. This book is one of the most important sources for reconstructing the history of Colegio de las Antillas and its relationship with the events of the Cuban Revolution, yet it has become extraordinarily difficult to locate. We know that the book existed, that it was used by Adventist historians, and that later historical studies continue to cite specific pages from it, but we have not yet been able to obtain access to the complete volume.

If you have this book in a personal library, family collection, church, seminary, university, archive, or public library, please contact us. There is no need to give away or send the original copy. You may simply photograph it, scan it, or make a PDF copy available for research. Clear photographs taken with a mobile phone would already be extremely valuable. If photographing or scanning the entire book is not possible, we are especially interested in pages 83 through 93, particularly pages 83, 86, 87, 88, 89, 90, and 92, which were later cited in Adventist historical studies concerning Colegio de las Antillas. Photographs of the front and back covers, title page, publication information, preface, table of contents, and any other pages that could help establish the book’s bibliographical details would also be extremely helpful.

We especially appeal to former students of Colegio de las Antillas and their families, descendants of former teachers and administrators, pastors, researchers, collectors of Adventist books and periodicals, and people connected with libraries, universities, seminaries, and archives in Cuba, the United States, Puerto Rico, Mexico, Latin America, and elsewhere. A copy may have been sitting on a private bookshelf for decades without its owner realizing how important it has become for reconstructing this history. If you know someone who studied or worked at C.A., please ask whether the family may still have the book or know someone who does.

We would also like to hear from anyone who has ever found a reference to the book online. If you know of a digitized version, PDF file, library catalogue record, bookseller listing, photograph of a copy, or any webpage related to the book, please send us the information. Even if an old link no longer works, the URL, a screenshot, the name of a library, or a catalogue reference could provide an important new lead. We are also trying to determine precisely where and by whom the book was originally printed and distributed in 1990, a bibliographical question that remains unresolved.

If you can help, please reply using the comments section immediately below this article. Tell us where the book can be found, post a link you have discovered, provide the name of a library or collection, or simply let us know that you own a copy and are willing to photograph or scan it. If you would prefer certain information not to be made public, please state that in your comment so that we can arrange another way to communicate. Please do not dismiss a clue because it seems too small: a photograph of the cover, a handwritten name inside the book, a library stamp, or simply the recollection of where someone once saw a copy may be exactly the clue we need to finally locate ¡O Mi C.A.! Historia del Colegio de Las Antillas.






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