IDOLATRIA CONVENIENTE: A IASD aceitou o Jesus Guerrilheiro em Cuba e curvou-se perante o “deus patrocinador” no Brasil

Da formação de jovens em disciplina, marcha, sobrevivência e linguagem de guerra ao encontro com Fidel, Che, o Estado, o Exército e o dinheiro: quando a teologia prática revela aquilo que os manuais doutrinários preferem não dizer

Talvez tenhamos cometido durante muito tempo o erro de procurar a verdadeira teologia adventista apenas nos manuais, nas crenças fundamentais oficialmente votadas, nos tratados sistemáticos e nos pronunciamentos cuidadosamente redigidos por comissões denominacionais. Evidentemente tudo isso importa, mas uma religião não revela aquilo em que realmente acredita somente quando seus teólogos se reúnem para definir uma doutrina.

A teologia também aparece na liturgia, nos hinos, na educação juvenil, nos símbolos, na disciplina, na linguagem de guerra, na maneira como crianças aprendem autoridade, na estrutura de comando dos grupos religiosos, na relação com governos e, sobretudo, no comportamento coletivo quando a história deixa de ser abstração e coloca a Igreja diante de situações concretas de poder, violência, dinheiro, guerra e sobrevivência institucional. É justamente por isso que nossa análise não depende da existência de uma “doutrina oficial do Jesus guerrilheiro”.

O que os documentos permitem investigar é algo mais profundo: a existência de uma imaginação religiosa militarizada, de uma teologia prática de combate e de formas de messianismo terrestre capazes de operar sem jamais receber número, título ou aprovação formal numa assembleia mundial.

O ponto decisivo é este: teologia não é apenas o que uma Igreja escreve sobre Deus; é também o tipo de ser humano que ela forma para agir em nome de Deus. Se uma comunidade canta Cristo como “Grande Comandante”, fala de hostes, guerra, vitória, inimigos e avanço; se apresenta o mundo como cenário de um Grande Conflito entre forças rivais; se forma crianças e adolescentes em estruturas de unidade, hierarquia, bandeira, uniforme, ordem unida, marcha, acampamento, orientação, primeiros socorros, sobrevivência e obediência; se utiliza personagens veterotestamentários marcados por guerra, liderança, conquista e derrota de inimigos como modelos pedagógicos…

Se chama seus jovens de Pathfinders, Desbravadores e Conquistadores; se registra clubes chamados literalmente Soldados de Cristo, Soldadinhos de Cristo, Soldados da Cruz e outras variantes; e se, em determinados momentos históricos, membros e instituições formados dentro dessa gramática encontram exércitos, guerrilhas, ditaduras, revoluções e estruturas militares reais, então já não é suficiente responder que tudo aquilo era apenas metáfora espiritual. A pergunta histórica muda de natureza: o que acontece quando a metáfora encontra uma guerra de verdade?

O Grande Comandante não ficou no hinário

Para gerações de adventistas, a linguagem de combate religioso não era exceção perdida numa frase de sermão. Ela atravessava cânticos, evangelismo, profecia, juventude, Escola Sabatina e vida comunitária. Cristo aparecia como comandante; seus seguidores, como soldados; a missão, como combate; a história, como guerra cósmica. E essa linguagem encontrava uma pedagogia corporal concreta. O jovem não recebia um rifle, mas recebia uniforme, unidade, capitão, bandeira, disciplina, marcha, acampamento, treinamento de campo, nós, fogueiras, primeiros socorros, mapas, bússola, observação das estrelas e habilidades de sobrevivência.

Cada uma dessas práticas, isoladamente, pode ser explicada como escotismo, recreação, formação de caráter, autonomia ou serviço comunitário. O problema surge quando todas aparecem dentro da mesma arquitetura simbólica de missão, conquista, obediência, liderança e prontidão. A própria história do movimento juvenil adventista mostra que o objetivo era formar jovens organizados, disciplinados e preparados para agir, não simples espectadores passivos de atividades religiosas.

Não é necessário exagerar para perceber a densidade desse imaginário. A própria cultura denominacional passou a produzir espontaneamente clubes com nomes como Soldados de Cristo e Soldadinhos de Cristo, enquanto algumas unidades passaram a utilizar nomes de personagens como Davi, Sansão e Moisés. Num desses casos, o hino do clube retomava Davi, Golias, luta, coragem e vitória. O jovem podia ser ensinado a entender que o combate era espiritual, mas estava literalmente dentro de uma organização uniformizada, dividida em unidades, com capitães, bandeiras, ordem unida e linguagem de guerra religiosa. A forma não era neutra. Ela ensinava pertencimento, hierarquia, missão, disciplina, comando e obediência.

Antes da guerrilha, veio o treinamento

Cuba precisa ser lida depois dessa longa construção porque, então, a Revolução deixa de parecer um raio caído sobre uma comunidade completamente despreparada. O Colegio de las Antillas havia sediado formação juvenil, acampamentos e treinamento de cadetes médicos antes da fase decisiva da Revolução. A imprensa adventista da Divisão Interamericana falava de jovens como um “exército de obreiros”, descrevia escolas e sociedades como “centros de treinamento” e dizia preparar a juventude para os “movimentos finais”.

A guerra, obviamente, era apresentada como espiritual e missionária. Mas a linguagem de mobilização já estava pronta muito antes de Che Guevara chegar a Santa Clara. Quando os acontecimentos de 1958 transformaram a cidade em campo de batalha, a metáfora ganhou feridos verdadeiros, homens armados, necessidade de alimentos, deslocamentos, veículos, socorro e logística.

O Colegio de las Antillas não precisou inventar do nada uma cultura de resposta organizada. A instituição possuía pessoas treinadas em primeiros socorros, organização e disciplina de campo. Quando a ofensiva revolucionária chegou, professores e estudantes forneceram materiais, alimentos e atendimento, enquanto o campus passou a funcionar dentro da dinâmica operacional daqueles dias.

Walton J. Brown, diretor do colégio, recusou-se a utilizar a gráfica para imprimir propaganda revolucionária, e justamente por isso sua decisão se torna tão importante para nossa investigação. Ela demonstra que Brown compreendia que existia um limite. Ele sabia que imprimir propaganda política significaria ultrapassar determinada fronteira. A pergunta que permanece é inevitável: quem desenhou essa linha? Por que a gráfica era proibida, enquanto comida, socorro, recursos e outros tipos de assistência podiam ser oferecidos a homens envolvidos numa batalha?

Uma guerra não é feita apenas por quem dispara. Exércitos e guerrilhas existem porque alguém os alimenta, transporta, abriga, trata, informa e mantém funcionando. Quem presta primeiros socorros a um combatente pode salvar sua vida e devolvê-lo à operação. Quem alimenta homens armados mantém sua capacidade física de continuar lutando. Quem fornece veículos, instalações ou materiais acrescenta capacidade logística a uma força em combate.

Chamar tudo isso de “assistência humanitária” pode descrever a intenção religiosa de quem ajuda, mas não elimina o efeito material da ajuda. Foi justamente essa zona intermediária que a experiência adventista aprendeu a ocupar repetidamente: não necessariamente apertar o gatilho, mas encontrar uma função moralmente justificável dentro da estrutura de guerra.

O Jesus guerrilheiro não foi invenção nossa

É aqui que precisamos eliminar um equívoco importante: “Jesus guerrilheiro” não nasceu como piada inventada por nós. Segundo o próprio relato do pastor cubano entrevistado por Michelson Borges, existia em um seminário de outra denominação em Cuba uma representação de Jesus como guerrilheiro. O dado é precioso justamente porque mostra que essa associação entre cristianismo e revolução armada não precisa ser criada retrospectivamente por um crítico. Ela já fazia parte do ambiente religioso cubano. Em determinado setor do cristianismo da ilha, o Cristo celestial podia ser visualmente revestido da estética do combatente revolucionário. A farda, a arma, a luta política e a figura de Jesus podiam ocupar a mesma moldura simbólica.

Isso não significa afirmar que a Igreja Adventista tenha pendurado o mesmo quadro em suas salas de aula ou adotado oficialmente aquela cristologia. Significa algo mais interessante: o ambiente religioso cubano já havia produzido uma forma concreta de messianismo terrestre em que Cristo podia ser interpretado como personagem da Revolução. Quando colocamos essa informação ao lado de uma tradição adventista que cantava Cristo como Grande Comandante, formava jovens dentro de linguagem de disciplina e combate espiritual e interpretava a história contemporânea a partir de uma matriz profética fortemente veterotestamentária, a possibilidade de acomodação simbólica deixa de parecer extravagante.

A expressão “Jesus guerrilheiro” passa a nomear não uma caricatura, mas um fenômeno histórico e teológico: a capacidade de transportar atributos messiânicos, libertadores e providenciais para personagens e movimentos terrestres envolvidos em conflito político.

A Bíblia de guerra estava pronta

Essa capacidade de transposição é favorecida por uma leitura religiosa em que o Velho Testamento nunca permanece completamente no passado. Israel torna-se modelo do remanescente. Babilônia deixa de ser apenas um império antigo e passa a representar poderes posteriores. Ciro transforma-se em instrumento providencial. Davi continua sendo modelo do pequeno que enfrenta o gigante. Josué permanece símbolo de conquista. Reis, guerras, cercos, perseguições, impérios e libertações atravessam séculos e reaparecem como categorias interpretativas do presente.

O crente aprende a olhar para os acontecimentos e perguntar quem é Israel, quem é Babilônia, quem é o perseguidor, quem é o libertador, quem está cumprindo a função de Ciro, quem representa o remanescente e quem encarna os inimigos do povo de Deus. Quando essa gramática é internalizada por gerações, a história deixa de ser somente história e passa a ser continuamente traduzida em personagens bíblicos.

Nesse ambiente, Fidel Castro acabou convertido numa espécie de “escolhido ecumênico”. Diferentes tradições religiosas projetaram sobre ele suas próprias expectativas de libertação, renovação e providência. Como já demonstramos em artigo anterior, setores cristãos, inclusive adventistas, e correntes da religiosidade afro-cubana como a Santería enxergaram em Fidel — e, em menor medida, também em Che Guevara — sinais de uma missão histórica quase providencial.

Uns falavam em instrumento de Deus; outros, em libertador; outros ainda recorriam à linguagem de Eleguá, aquele que abre caminhos. Por linguagens diferentes, chegaram ao mesmo engano: atribuir caráter sagrado a homens e a um processo político que depois revelaria sua própria lógica de poder.

Em Cuba, essa tradução podia permitir que uma insurgência fosse percebida não apenas como revolução marxista, mas também como libertação de uma ordem considerada injusta, corrupção a ser derrubada, luta de um grupo menor contra um poder maior e virada histórica aparentemente providencial. Não precisamos provar que Walton Brown chamou Che Guevara de Davi ou que Rosabal identificou Fidel com Ciro.

O ponto é outro: uma religião que ensinou durante décadas seus membros a interpretar o presente por meio das guerras e libertadores bíblicos já possuía os instrumentos mentais necessários para atribuir significado religioso a uma revolução terrestre. Essa é precisamente a região em que uma escatologia espiritual pode começar a produzir um messianismo político sem jamais confessá-lo formalmente como doutrina.

Waco: quando o Velho Testamento saiu da página

É por isso que Waco pertence a esta discussão, não como equivalência simplista com o adventismo institucional, mas como demonstração extrema do que pode acontecer quando uma gramática apocalíptica e veterotestamentária encontra um conflito político real. David Koresh escolheu um nome carregado de simbolismo: Davi, o rei guerreiro, e Koresh, a forma hebraica de Ciro, o governante associado à queda de Babilônia e à libertação do povo.

Em Mount Carmel reapareciam temas familiares ao universo adventista: remanescente, perseguição, Babilônia, crise final, juízo, Armagedom, fidelidade absoluta e confronto com poderes terrestres. Quando o governo cercou fisicamente a comunidade, tanques, agentes armados, veículos blindados, alto-falantes e atiradores podiam deixar de ser elementos de uma operação policial e passar a ocupar posições dentro de uma narrativa bíblica de cerco, perseguição e conflito final.

Waco mostra de forma brutal que a interpretação precede o tiro. O problema não começa quando alguém pega uma arma; começa quando o mundo já está organizado em categorias de povo eleito, perseguidor, remanescente, Babilônia e confronto final. Quando a realidade oferece um cerco verdadeiro, a profecia pode deixar de explicar a realidade e passar a absorvê-la inteiramente. É nesse sentido que a comparação com Cuba se torna útil. Em Waco, o governo pôde ser interpretado como Babilônia. Em Cuba, um movimento insurgente podia ser interpretado como libertação. Em Mount Carmel, o discípulo podia olhar para o Estado e enxergar Babilônia; em Cuba, podia olhar para a Sierra Maestra e enxergar Davi. O cenário muda, mas a gramática que permite transformar política em narrativa sagrada permanece disponível.

O não combatente também participa da guerra

A Operação Whitecoat acrescenta outro elemento fundamental porque demonstra que a capacidade adventista de participar de estruturas de conflito sem assumir formalmente a identidade de combatente não foi exclusividade cubana. Jovens adventistas nos Estados Unidos foram utilizados em pesquisas humanas dentro do sistema militar norte-americano relacionado à guerra biológica. A liderança mundial da denominação discutiu o programa com representantes do Exército, avaliou as condições, deu seu endosso e ajudou a apresentar a participação como forma moralmente aceitável de serviço. Esses jovens podiam preservar a identidade religiosa de não combatentes e, simultaneamente, oferecer seus corpos para experimentos com agentes infecciosos que geravam conhecimento sobre exposição, dose, sintomas, tempo de incubação, incapacitação, profilaxia e tratamento. A Igreja fornecia legitimidade religiosa; o Estado fornecia o laboratório; os jovens forneciam o corpo.

É nesse ponto que o princípio do não combatentismo revela sua elasticidade prática. O adventista podia recusar-se a matar outro homem e, ainda assim, permanecer dentro de uma máquina preparada para a guerra. Podia rejeitar o rifle e aceitar o laboratório militar. Podia não lançar um agente biológico e, ao mesmo tempo, produzir dados indispensáveis para que o Exército soubesse como aquele agente se comportava em seres humanos. A guerra não desaparecia; mudava a posição ocupada pelo fiel dentro dela. O princípio não era necessariamente afastamento da guerra, mas redefinição da função desempenhada em seu interior.

A analogia funcional com Cuba é inevitável. O adventista cubano também podia não atirar e ainda contribuir concretamente para uma força em combate. Alimentar, tratar, transportar, organizar e disponibilizar recursos não transformava necessariamente o fiel em guerrilheiro, mas tornava sua ação parte da realidade operacional da guerra. Em Fort Detrick, o corpo adventista ajudava o Exército norte-americano a conhecer melhor agentes de interesse militar. Em Santa Clara, comida, cuidados e recursos adventistas ajudavam homens envolvidos na ofensiva que levaria à vitória revolucionária. De um lado da Guerra Fria, adventistas colaboravam dentro de um programa do Exército dos Estados Unidos; do outro, adventistas ajudavam revolucionários que logo se tornariam símbolos de um regime alinhado ao bloco socialista.

Muda a bandeira, permanece a adaptação

Se procurarmos uma fidelidade ideológica fixa, esses episódios parecem incompatíveis. Como pode uma mesma religião colaborar com estruturas militares norte-americanas e, poucos anos depois, ver seus membros e instituições auxiliando forças revolucionárias cubanas? Talvez a resposta esteja justamente no fato de que a coerência não precisa estar na ideologia. Pode estar no método. A denominação aprende a ocupar funções religiosamente justificáveis dentro de poderes completamente diferentes. Num lugar, chama-se serviço médico. Noutro, assistência humanitária. Noutro, liberdade religiosa. Noutro, missão. Noutro, relacionamento institucional. Os nomes mudam conforme as circunstâncias, enquanto a organização preserva a capacidade de conviver com governos, exércitos e regimes ideologicamente incompatíveis.

Talvez seja por isso que o chamado apartidarismo adventista deva ser analisado não apenas como declaração de neutralidade eleitoral, mas como instrumento de flexibilidade institucional. Uma Igreja que se compromete oficialmente com um partido corre o risco de cair com ele. Uma organização que proclama neutralidade consegue negociar com quase todos. O apartidarismo pode, portanto, ter duas faces: uma religiosa, que recusa submeter o evangelho a partidos; e outra pragmática, que permite à instituição manter portas abertas em regimes muito diferentes. Quando essa segunda face domina a primeira, neutralidade pode transformar-se em capacidade de adaptação quase ilimitada.

Ruanda: quando já não havia metáfora

Ruanda leva esse problema a uma dimensão infinitamente mais grave. No genocídio de 1994, pessoas profundamente inseridas em instituições adventistas foram condenadas por crimes ligados à perseguição e morte de tutsis. Elizaphan Ntakirutimana, pastor adventista, e seu filho Gérard, médico ligado ao Hospital Adventista de Mugonero, tornaram-se nomes centrais num processo judicial internacional que demonstrou envolvimento concreto em ações da violência genocida. Hospital, igreja e escola de enfermagem, espaços que deveriam representar cura, refúgio e proteção, foram atravessados pela lógica do massacre.

Não estamos afirmando que a teologia adventista produziu o genocídio ruandês nem que a organização mundial tenha ordenado aqueles crimes. O ponto é outro e igualmente perturbador: uma formação religiosa fortemente baseada em disciplina, pertencimento, hierarquia, obediência e identidade coletiva não imunizou todos os seus líderes e membros contra a captura por outra estrutura de autoridade. Em momentos normais, disciplina pode produzir excelentes médicos, missionários, professores e administradores. Em momentos de colapso social, as mesmas disposições podem ser reorientadas para outra causa. Por isso, o verdadeiro teste de uma pedagogia religiosa não é apenas sua capacidade de ensinar alguém a obedecer, mas sua capacidade de ensinar quando é necessário desobedecer. Se uma Igreja forma pessoas para servir, cumprir missão, respeitar autoridades e funcionar dentro de hierarquias, precisa formar com igual intensidade uma consciência capaz de romper com o poder quando o poder exige o mal.

Então falamos de teologia, sim

Depois de tudo isso, chamar essa longa tradição apenas de “metáfora militar” começa a parecer insuficiente. Quando uma linguagem atravessa o hinário, a pregação, a profecia, a formação juvenil, os símbolos, a estrutura de comando, os acampamentos, a educação de crianças, a relação com o Estado e, em momentos históricos determinados, encontra guerras, exércitos e revoluções verdadeiras, estamos diante de uma teologia prática de combate. Ela pode não ensinar formalmente a pegar em armas, mas ensina o mundo como conflito, Cristo como comandante, a Igreja como corpo organizado, o fiel como soldado, o adversário como inimigo e a história como marcha para uma batalha final. Essa combinação produz uma imaginação religiosa militarizada mesmo quando a violência física continua oficialmente rejeitada.

Podemos chamar essa estrutura de cristologia de combate, escatologia de mobilização ou messianismo adventista militarizado. O nome é menos importante que o fenômeno. Quando a batalha é espiritual, tudo permanece metafórico. Quando chega uma guerra real, porém, a organização precisa decidir quem pode ser ajudado, até onde pode ajudar, qual governo precisa ser reconhecido, que tipo de participação é permitido e onde começa a violação de sua proclamada neutralidade. É nesse momento que a teologia prática aparece com muito mais nitidez do que qualquer capítulo de um manual doutrinário.

Rosabal abriu o canal. Brown abriu o colégio. Che apareceu com uma promessa

O relacionamento de Argelio Rosabal com os revolucionários torna a história ainda mais complexa. Ele não era um desconhecido ocasional. Era personagem reconhecido dentro do ambiente adventista e estabeleceu uma relação suficientemente próxima com os homens da guerrilha para que Che Guevara, depois da vitória, lhe escrevesse pessoalmente. A carta de 2 de março de 1959 acrescenta um dado explosivo porque Che recorda uma promessa feita anteriormente: os revolucionários haviam prometido financiar sua igreja caso triunfassem. O verbo é decisivo. Não se tratava de uma ideia surgida depois de Fidel entrar em Havana. A promessa pertencia ao período anterior à vitória.

É nesse instante que o Jesus guerrilheiro começa a mostrar outra face. O homem armado que recebe apoio durante a guerra aparece, depois da vitória, disposto a transformar amizade política em benefício material para a religião. A transição é extraordinária: primeiro a revolução precisa de comida, socorro, contatos e apoio; depois a revolução vencedora pode oferecer recursos. O guerrilheiro começa a transformar-se em financiador. E essa passagem cria uma ponte inesperada entre Cuba e aquilo que décadas depois veremos em escala gigantesca no Brasil.

Talvez Che tenha oferecido a primeira amostra grátis do Deus Patrocinador

A frase é satírica, mas o mecanismo histórico merece ser levado a sério. Se o poder armado podia desenvolver uma relação com a religião pela assistência mútua, o poder econômico podia fazê-lo ainda com mais eficiência pelo financiamento. Che prometeu ajudar financeiramente uma igreja depois da vitória. Décadas mais tarde, no Brasil, Milton Soldani Afonso se tornaria um dos maiores financiadores privados da obra adventista, associado a projetos de comunicação, educação, bolsas, evangelização e expansão institucional. A escala é completamente diferente. As motivações são diferentes. As trajetórias são incomparáveis em quase todos os aspectos. Mas existe uma pergunta comum: o que acontece com a linguagem religiosa quando quem está diante da Igreja possui recursos capazes de alterar materialmente seu futuro?

Talvez Che tenha sido apenas uma espécie de amostra grátis do Deus Patrocinador. Em Cuba, a promessa vinha do comandante revolucionário que acabara de vencer uma guerra. No Brasil, viria de um empresário com patrimônio, empresas e capacidade de financiar projetos denominacionais durante décadas. Um chegava de farda verde-oliva; o outro, de terno. Um tinha guerrilheiros; o outro tinha capital. Um conquistava cidades; o outro ajudava a construir instituições. Ambos, contudo, representavam formas de poder terrestre capazes de oferecer à organização aquilo de que ela precisava.

As trinta moedas de prata continuam sendo uma advertência incômoda

É impossível entrar nessa discussão sem lembrar as trinta moedas de prata, não para equiparar Che, Milton ou qualquer outro personagem a Judas, mas porque o próprio cristianismo escolheu esse episódio como uma de suas imagens mais duradouras sobre a relação entre dinheiro e fidelidade. O problema nunca foi apenas possuir dinheiro ou receber recursos. Instituições religiosas precisam pagar salários, construir escolas, manter emissoras, sustentar missionários e financiar projetos. O problema começa quando o dinheiro adquire poder sobre memória, linguagem, gratidão, silêncio, proximidade e julgamento moral. Nesse ponto, a pergunta deixa de ser “quanto foi doado?” e passa a ser “quanto de reverência uma instituição está disposta a conceder a quem paga?”.

É aí que a imagem das trinta moedas recupera sua força simbólica. O dinheiro religioso nunca entra sozinho numa sala. Ele pode trazer consigo expectativas, dependências, acesso, gratidão e influência. Pode tornar alguém indispensável. Pode transformar o benfeitor em personagem quase sagrado. Pode produzir uma memória institucional tão agradecida que as zonas problemáticas de sua trajetória passem para segundo plano. Quando a filantropia se torna elemento central da sobrevivência e expansão de uma organização, o risco não é apenas financeiro. É teológico: a providência divina começa a adquirir CPF, empresa, patrimônio e capacidade de assinar cheques.

No Brasil, a Igreja encontrou o Deus Patrocinador

É nesse contexto que surge nossa expressão “Deus Patrocinador”. Ninguém precisa fingir que Milton Afonso foi literalmente divinizado para perceber o que a sátira denuncia. A própria memória denominacional o apresenta como figura decisiva para grandes projetos adventistas. Seus recursos ajudaram instituições, educação e comunicação em escala extraordinária. O dinheiro se transformava em estruturas visíveis da missão: prédios, bolsas, mídia, evangelização, oportunidades acadêmicas e expansão. Quanto maior a dependência material, maior a gratidão; quanto maior a gratidão, mais solene a memória; quanto mais solene a memória, mais fácil confundir generosidade humana legítima com linguagem quase providencial.

Aqui o poder já não precisa de fuzil. Não precisa de revolução. Não precisa de guerrilha. Basta pagar as contas. E talvez esse seja um poder ainda mais eficiente porque não exige que a Igreja abandone publicamente nenhuma doutrina. O patrocinador não precisa convencer a instituição a mudar o sábado, o santuário ou a segunda vinda. Ele apenas financia a estrutura dentro da qual essas doutrinas continuarão sendo pregadas. A relação pode ser apresentada como bênção, filantropia, generosidade e missão. E pode realmente conter tudo isso. Mas também produz uma pergunta que uma instituição religiosa deveria fazer a si mesma com enorme rigor: quando alguém passa a sustentar partes importantes de sua expansão, ainda é possível falar dele com a mesma liberdade crítica com que se fala de qualquer outro membro?

Em Cuba, coube um Jesus de farda verde-oliva. No Brasil, a Igreja preferiu ajoelhar-se

É por isso que nossa formulação precisa permanecer inteira: a IASD aceitou o Jesus guerrilheiro em Cuba e curvou-se perante o Deus Patrocinador no Brasil. Não estamos dizendo que Che era Jesus ou que Milton era Deus. Estamos dizendo que esses personagens funcionam como chaves editoriais para revelar duas formas de adaptação religiosa ao poder terrestre. Em Cuba, o poder chegava armado, revolucionário, acompanhado de homens em combate e de uma promessa de nova ordem política. A instituição encontrou maneiras de oferecer assistência, conviver com os vencedores e manter sua presença. No Brasil, o poder chegou na forma de patrimônio e capacidade de financiar. A Igreja encontrou maneiras de transformar a relação em gratidão, memória e providência institucional.

A teologia, portanto, também muda conforme a ocasião. Não necessariamente aquela que permanece impressa nos manuais, mas a teologia que se percebe no comportamento. Em Cuba, a IASD encontrou espaço para o Jesus guerrilheiro; no Brasil, reverenciou o Deus Patrocinador. Em Cuba, coube um Jesus de farda verde-oliva. No Brasil, diante do Deus Patrocinador, a Igreja preferiu ajoelhar-se. O poder apresentava-se de maneira diferente, mas em ambos os casos a organização precisava decidir até onde podia aproximar-se sem admitir que sua proclamada neutralidade estava sendo tensionada.

Talvez o verdadeiro dogma seja a sobrevivência institucional

Quando colocamos Alemanha, Estados Unidos, Cuba, Waco, Ruanda e Brasil numa mesma linha de análise, surge uma hipótese ainda mais desconfortável: talvez a grande coerência histórica não esteja numa ideologia de direita ou de esquerda, mas na capacidade institucional de sobrevivência e adaptação. Uma organização que atravessa monarquias, ditaduras, democracias, regimes militares, revoluções socialistas, governos conservadores e governos progressistas precisa desenvolver uma extraordinária habilidade de negociação com o poder. Em determinados contextos, essa flexibilidade pode ser prudência legítima. Em outros, pode transformar-se em acomodação. E, quando a acomodação passa a determinar o comportamento religioso, a sobrevivência institucional começa a funcionar como uma doutrina prática mesmo sem aparecer entre as crenças fundamentais.

Essa possibilidade ajuda a compreender por que “Igreja Apartidária” pode ser um nome insuficiente. Talvez seja mais adequado falar, editorialmente, numa Igreja Camaleônica do Sétimo Dia. O camaleão não precisa amar o ambiente em que está. Precisa apenas adquirir a cor necessária para sobreviver nele. Em Cuba, a cor pôde ser vermelha. Em outros lugares, a Igreja conviveu com regimes de orientação oposta. Nos Estados Unidos, encontrou espaço dentro da estrutura militar como não combatente. No Brasil, aproximou-se de financiadores capazes de sustentar sua expansão. Muda a bandeira, muda o governo, muda o discurso político; permanece a capacidade de adaptação.

A ordem não precisava vir num memorando

Isso torna ainda mais importante a pergunta sobre documentos e cadeia de autoridade em Cuba. Se a participação política dos membros era considerada incompatível com a fé, onde estão as advertências dirigidas aos adventistas que esconderam guerrilheiros, transportaram recursos, ajudaram homens armados ou participaram de redes de apoio? Onde estão as circulares anteriores à vitória? Onde estão as instruções da União, da Divisão e da Associação Geral? Não devemos inventar ordens que ainda não encontramos, mas também não precisamos imaginar que toda decisão institucional exige um telegrama secreto vindo de cima. Uma cultura suficientemente internalizada pode funcionar sem memorando.

Walton Brown sabia que havia uma linha. Recusou a gráfica. Alguém o formou para compreender que imprimir propaganda era diferente de alimentar combatentes e atender feridos. Talvez a resposta esteja em instruções que ainda serão localizadas. Talvez esteja numa tradição administrativa de não combatentismo, assistência e prudência institucional. Talvez estivesse na própria cultura denominacional, absorvida ao longo de anos. É por isso que a pergunta “quem desenhou essa linha?” continua sendo uma das mais importantes de toda a investigação. Ela não pressupõe antecipadamente uma conspiração; exige descobrir como uma organização religiosa definiu, formal ou informalmente, a fronteira entre caridade e colaboração política.

Rosabal abriu o canal, Brown abriu o colégio e Roth estava acima deles

Também por isso Arthur H. Roth permanece figura central. Ele havia trabalhado nas áreas de Educação e Missionários Voluntários, conhecia o sistema de formação juvenil, acompanhava Cuba antes da Revolução, escrevia sobre Havana e, quando a ofensiva revolucionária alcançou Santa Clara, estava no comando da Divisão Interamericana. Depois da vitória, foi pessoalmente a Cuba acompanhado do secretário-tesoureiro da União das Antilhas. A cronologia merece ser lida sem distrações: Rosabal estabeleceu relações com os revolucionários; Brown dirigiu a instituição que os auxiliou; Che prometeu financiamento à igreja; a Revolução venceu; e o presidente da Divisão chegou à ilha acompanhado de um dirigente financeiro. O que foi tratado nessas visitas, quais documentos foram produzidos e se a promessa de Che entrou ou não nas conversas são perguntas ainda dependentes de novas fontes, mas a sequência documental já basta para justificar a investigação.

Do Deus dos Exércitos ao deus que paga as contas

No fim, talvez seja essa a ponte mais provocadora de toda a história. O Jesus guerrilheiro representa a capacidade de uma religião militarizada simbolicamente acomodar um movimento armado dentro de uma narrativa de providência, libertação, assistência e missão. O Deus Patrocinador representa a capacidade de transformar poder econômico em linguagem de bênção, gratidão e legado. Num caso, o poder precisa de comida, socorro e legitimidade social. No outro, a Igreja precisa de dinheiro, prédios, emissoras, escolas e expansão. Um entra pela guerra; o outro entra pelo orçamento. Mas ambos obrigam a instituição a decidir quanto de sua linguagem religiosa será reorganizado para acomodar a relação.

E talvez o elemento mais irônico seja exatamente este: antes do Deus Patrocinador brasileiro, o próprio Che já aparecia prometendo financiar uma igreja. O guerrilheiro carregava, portanto, não apenas a arma, mas uma antecipação do cheque. O Jesus de farda verde-oliva já oferecia uma pequena amostra do mecanismo que mais tarde apareceria em outra escala: quando o poder terrestre pode entregar recursos à religião, a relação ganha imediatamente uma dimensão nova. As trinta moedas de prata continuam ecoando não porque toda doação seja traição, mas porque o cristianismo sempre soube que dinheiro e fidelidade precisam ser mantidos sob suspeita moral permanente.

A pergunta final já não é direita ou esquerda

Talvez tenhamos insistido demais em perguntar se a IASD esteve à direita ou à esquerda. A história sugere uma questão mais difícil: diante de quantos poderes contraditórios uma religião consegue se inclinar enquanto continua afirmando que se ajoelha somente diante de Deus? Em um país, o interlocutor é um exército. Em outro, uma revolução. Em outro, uma ditadura. Em outro, um grande empresário. Cada relação pode ser justificada isoladamente por argumentos plausíveis: serviço, saúde, sobrevivência, evangelização, liberdade religiosa, filantropia, assistência humanitária. O problema aparece quando todas são colocadas lado a lado e percebemos uma extraordinária capacidade de transformar proximidade com o poder em linguagem moralmente aceitável.

É nesse ponto que o “Jesus guerrilheiro” deixa definitivamente de ser piada e o “Deus Patrocinador” deixa de ser apenas sátira. Ambos se tornam nomes para uma mesma pergunta sobre teologia prática. Se uma Igreja pode encontrar o Cristo comandante no imaginário de guerra, acomodar revolucionários quando eles avançam, negociar com o Estado militar quando ele controla o território, permitir que seus jovens entrem em programas ligados à guerra biológica sem abandonar o rótulo de não combatentes e depois revestir grandes financiadores de uma memória quase providencial, então talvez a questão central não seja descobrir qual lado político ela escolheu. Talvez seja compreender como a necessidade institucional produz sucessivas teologias de ocasião.

Em Cuba, a IASD aceitou o Jesus guerrilheiro. No Brasil, curvou-se perante o Deus Patrocinador. Em Cuba, coube um Jesus de farda verde-oliva. No Brasil, diante do homem que financiava a obra, a Igreja preferiu ajoelhar-se. E, entre a guerrilha e o cheque, permanece a mesma pergunta que atravessa toda esta investigação: quando a religião aprende a adaptar sua linguagem a qualquer poder capaz de protegê-la, financiá-la ou ajudá-la a sobreviver, quem está realmente determinando sua teologia — o Cristo que ela anuncia ou o poder terrestre diante do qual precisa negociar sua permanência?

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