Entenda como a elite financeira e administrativa da IASD encontrou o mapa da mina e se apropriou do tesouro sagrado
O manuscrito proibido de Walter Rea sobre o escândalo Davenport, os conflitos de interesse e a crise de responsabilidade na liderança adventista
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Piratas do Privilégio ocupa um lugar singular na história contemporânea do adventismo porque não nasceu como um livro de análise escrito décadas depois dos acontecimentos, mas como uma tentativa de registrar, quase a quente, aquilo que seu autor, o pastor Walter Rea, considerava uma das mais graves crises morais, administrativas e financeiras já enfrentadas pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Redigido em 1984, o manuscrito reconstrói o chamado Caso Davenport, acompanha relações financeiras entre Donald J. Davenport, administradores, instituições e dirigentes denominacionais, reproduz correspondências, listas, referências a processos judiciais, documentos internos e reportagens da época, e formula acusações severas sobre conflito de interesses, omissão administrativa, favorecimento e ausência de prestação de contas.
A importância histórica da obra começa precisamente aí. Rea não escreve como observador neutro nem pretende fazê-lo. Ele escreve como pastor adventista que afirma ter encontrado documentação comprometedora e que, a partir dela, passou a confrontar a administração denominacional. Sua linguagem é frequentemente dura, acusatória e polêmica. Isso exige do leitor discernimento e confronto documental. Mas é justamente essa característica que transforma o manuscrito em uma fonte histórica indispensável: ele preserva a percepção de um protagonista da controvérsia, apresenta nomes, datas, cartas, valores, decisões administrativas e pistas documentais que podem — e devem — ser comparadas com atas oficiais, arquivos da Associação Geral, processos judiciais, matérias da imprensa e investigações independentes.
O próprio histórico material de Pirates of Privilege aumenta seu valor documental. O texto original permaneceu sem publicação comercial. A edição que chegou à internet foi reconstruída a partir de um manuscrito datilografado e de uma versão obtida por OCR. Em 2009, Kerry Wynne explicou que conseguiu comparar o arquivo eletrônico com uma cópia impressa e encadernada do manuscrito original de Walter Rea, corrigindo erros de reconhecimento e recuperando boa parte da formatação perdida. O editor deixa claro que o texto preservado correspondia a um rascunho que ainda passaria por revisão antes de eventual publicação, circunstância fundamental para que o leitor compreenda a natureza do documento que tem em mãos.
Há também uma razão histórica para não deixar esse material restrito a pesquisadores que dominem o inglês ou a arquivos especializados. O manuscrito reúne elementos que ajudam a compreender não apenas Donald Davenport, mas o funcionamento de uma estrutura denominacional em momento de crise. Entre as questões que atravessam o texto estão a mistura entre investimentos particulares de dirigentes e recursos institucionais, a responsabilidade fiduciária de administradores, os limites entre amizade pessoal e função denominacional, a circulação de advertências antes do colapso e a maneira como a Igreja reagiu quando o problema deixou de poder ser tratado internamente. No próprio início do manuscrito, Rea já apresenta o escândalo como um episódio envolvendo numerosas entidades, dirigentes e investidores adventistas, deixando evidente que sua intenção era investigar não apenas um empresário, mas a rede de relações que o cercava.
É por isso que decidimos colocar esta tradução à disposição do público de língua portuguesa. Não a publicamos porque consideramos Walter Rea infalível, nem porque cada acusação presente em suas páginas possa ser aceita sem verificação. Publicamos justamente porque documentos históricos não devem ser protegidos do exame público apenas porque são desconfortáveis. Uma comunidade religiosa amadurece quando seus membros podem conhecer não somente seus relatos oficiais de vitória, expansão e fidelidade, mas também os episódios em que suas instituições, seus administradores e seus mecanismos de controle foram colocados à prova.
Para o público adventista brasileiro e lusófono, o acesso ao texto integral permite algo que durante décadas esteve praticamente reservado a leitores de língua inglesa: acompanhar a argumentação de Rea em sua sequência original, verificar suas fontes, distinguir documentos de interpretações, conferir nomes, comparar datas e investigar por conta própria. Isso é particularmente importante porque o Caso Davenport continua sendo mencionado de forma fragmentária, geralmente reduzido à afirmação de que “um empresário enganou a Igreja”. Piratas do Privilégio mostra que a controvérsia foi muito mais ampla e envolveu questões de governança, fiscalização, confiança, conflito de interesses e responsabilidade de líderes que administravam recursos entregues por membros que acreditavam estar sustentando a missão da Igreja.
Nossa decisão de disponibilizar esta tradução, portanto, é também uma decisão editorial sobre memória e transparência. Não queremos substituir uma versão oficial por uma versão acusatória. Queremos devolver ao leitor uma peça documental que durante muito tempo circulou de maneira limitada e difícil de consultar. O leitor deve ter acesso ao texto e formar sua própria avaliação, confrontando-o com outras fontes.
Piratas do Privilégio não é confortável. Tampouco deveria ser. Seu valor histórico está justamente em obrigar o adventismo a olhar para uma parte de sua história em que fé, poder, dinheiro, amizade, autoridade e responsabilidade institucional se cruzaram de maneira perigosa. Disponibilizá-lo em português é permitir que essa história seja examinada, discutida e documentada por uma nova geração de leitores.
O que está em jogo aqui não é apenas o passado de Donald Davenport ou de alguns administradores. É uma pergunta que continua atual em qualquer organização religiosa: quem vigia aqueles a quem a comunidade entrega confiança, autoridade e dinheiro?
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POR QUE O TÍTULO “PIRATAS DO PRIVILÉGIO”?
O título Pirates of Privilege — “Piratas do Privilégio” — é uma metáfora escolhida por Walter Rea para condensar a acusação central do livro: a de que determinados dirigentes e pessoas bem posicionadas dentro da estrutura adventista teriam usado acesso, confiança institucional, informação privilegiada e posição administrativa para participar de negócios financeiros dos quais o membro comum estava distante.
A palavra “piratas” não significa que Rea esteja falando literalmente de ladrões no sentido jurídico. É uma linguagem deliberadamente provocativa. Para ele, alguns administradores comportavam-se como homens que se aproximavam dos recursos da Igreja, das oportunidades de investimento e das relações com Donald Davenport como quem se apropria de um tesouro que deveria estar sob proteção. Já na abertura do manuscrito, a edição descreve credores de Davenport entre entidades da Igreja, líderes e outros adventistas privilegiados, inclusive presidentes da Associação Geral e presidentes de uniões.
O termo “privilégio” é ainda mais importante. Rea insiste que os envolvidos não eram, em sua maioria, membros comuns. Eram pessoas que ocupavam posições de poder, participavam de comissões, conheciam administradores, tinham acesso a informações e, em alguns casos, podiam influenciar decisões sobre dinheiro institucional. No capítulo em que apresenta a lista de investidores, ele chega a dizer que ela parecia um verdadeiro “quem é quem” do adventismo e observa que se concentrava na elite financeira e administrativa da denominação.
Por isso, “Piratas do Privilégio” significa, na lógica de Rea, pessoas que teriam explorado as vantagens proporcionadas pela própria posição privilegiada dentro da Igreja. O título reúne duas ideias: de um lado, a apropriação ou exploração indevida de recursos e oportunidades; de outro, a existência de uma elite protegida por relações internas, prestígio e acesso que o membro comum não possuía.
Há ainda uma ironia no título. A Igreja pregava sacrifício, mordomia, simplicidade e responsabilidade no uso dos dízimos e ofertas, enquanto Rea procura demonstrar que parte da liderança participava de operações financeiras sofisticadas, pessoais e institucionais, justamente com o homem que depois estaria no centro do maior escândalo financeiro adventista daquele período. O contraste entre o sacrifício do membro e o privilégio do administrador é praticamente a espinha dorsal retórica do livro.
“Piratas do Privilégio” são, na acusação de Walter Rea, os homens que teriam transformado posições de confiança dentro da Igreja em acesso privilegiado a dinheiro, investimentos, influência e proteção institucional.
Há um detalhe editorial importante: o título é uma acusação de Rea, não uma sentença judicial. Isso não diminui sua força. Pelo contrário, ajuda o leitor a compreender desde a capa que está diante de um manuscrito de denúncia, deliberadamente combativo, e não de uma história institucional neutra.
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DEU NO WASHINGTON POST
‘Caso Davenport’ é triste, diz líder adventista
27 de agosto de 1982
Mais do que 44 anos atrás
DC, Maryland e Virgínia
Por Marjorie Hyer
O presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia afirma que alguns líderes da igreja “podem ser culpados de conflito de interesses e possivelmente outras infrações” em negociações com um incorporador imobiliário da Califórnia, cuja falência no ano passado deixou uma dívida de mais de 21 milhões de dólares para membros e instituições da igreja.
Em um artigo publicado na edição de 19 de agosto da Adventist Review, o presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Neal C. Wilson, afirmou que um relatório de 624 páginas encomendado pela igreja sobre o que ficou conhecido como o Caso Davenport mostra que “o quadro é triste”.
O Dr. Donald J. Davenport é um médico californiano que se tornou financista e, ao longo de várias décadas, usou seus laços com a igreja para persuadir outros adventistas e unidades da igreja a lhe emprestarem dinheiro para seus empreendimentos imobiliários.
Quando seu império financeiro desmoronou no verão passado, Davenport já havia envolvido dezenas de bancos da Califórnia e diversas seguradoras.
Wilson, em sua mensagem na Adventist Review, indica que o caso Davenport e a forma como a igreja lidou com ele abalaram a denominação, que conta com 571.000 membros. “Houve uma tendência à perda de confiança na liderança”, escreveu ele. “Uma lacuna de credibilidade vem se desenvolvendo. Lamentamos muito por isso, mas até termos o relatório, não era sábio nem prudente dizer muito.”
Autoridades da igreja na sede mundial em Takoma Park haviam se esquivado de perguntas até a conclusão do relatório completo por um escritório de advocacia de Los Angeles, Gibson, Dunn and Crutcher.
A inquietação entre os membros da igreja também foi alimentada por relatos em publicações não oficiais editadas por leigos, que circulavam entre os membros da igreja, que eram muito unidos, e que alegavam conflitos de interesse por parte de alguns dirigentes da igreja.
As mesmas publicações já vinham alertando há anos contra investimentos nos empreendimentos de Davenport devido a supostas irregularidades.
As acusações de conflito de interesses giram em torno de administradores fiduciários da igreja e outros líderes que emprestaram fundos pessoais a Davenport a taxas de juros exorbitantes — em vários casos, até 80%, segundo o relatório do administrador judicial da falência. Ao mesmo tempo, fundos da igreja sob seu controle foram emprestados a Davenport a taxas de juros mais modestas e convencionais, de acordo com o mesmo relatório.
Wilson faz apenas uma referência indireta a essa situação em sua declaração na Adventist Review, observando que “na mente de alguns indivíduos e organizações, o ganho presente parecia superar todas as outras considerações, e eles estavam dispostos a arriscar o bem-estar futuro e a integridade da igreja”.
Wilson recusou-se a tornar público o tão aguardado relatório da igreja “pelo menos por enquanto”. Uma comissão especial de revisão foi nomeada para estudar o material, disse ele, “e até que esta comissão conclua sua análise com base nos fatos apresentados no relatório, o acesso a ele será restrito por se tratar de dados legais confidenciais e privilegiados”.
A comissão foi incumbida de determinar até o final do ano “se as normas da igreja foram violadas e, em caso afirmativo, se houve conflito de interesses, desonestidade ou incompetência”, e de fazer recomendações de pessoal de acordo com isso, disse um porta-voz da igreja. As recomendações administrativas e de políticas públicas devem ser concluídas até 30 de junho de 1983.
Desde o colapso de seu império, Davenport retornou à prática da medicina no sul da Califórnia. Entre seus bens apreendidos durante o processo de falência estava um luxuoso apartamento mobiliado em Beverly Hills, que já foi destaque na revista Architectural Digest.
Embora a maioria dos adventistas siga a recomendação de sua igreja de viver com simplicidade e evitar adornos pessoais, chegando até mesmo a não usar alianças de casamento, os documentos de falência de Davenport revelaram um seguro para peles avaliadas em US$ 25.000 e joias no valor de US$ 425.000. Nem as peles nem as joias foram recuperadas pelo tribunal.
Em sua declaração, Wilson especulou que “com base nas melhores informações disponíveis neste momento… não podemos prever que uma parte substancial do dinheiro [devido por Davenport] seja recuperável”.
Ernest Ching, um advogado da Califórnia e membro da igreja que representa mais de vinte vítimas individuais e institucionais do desastre financeiro, disse concordar com essa estimativa.








