COLEÇÃO RESGATE CÓSMICO: A Restauração da Cosmovisão Bíblica

Volume I — A Cosmovisão Hebraico-Bíblica da Criação
A estrutura do mundo revelada pelo próprio Criador.
Volume II — Quando a Filosofia Mudou o Mundo para Universo
Da cosmologia antiga à revolução copernicana.
Volume III — A Invenção dos Mundos Habitados
Como nasceu o imaginário cosmológico moderno.
Volume IV — Ellen White e a Expansão da Cosmologia Adventista
O método bíblico para examinar toda revelação sobrenatural.
Volume V — Alienígenas, Pluralidade dos Mundos e o Grande Engano
Por que Deus revela algumas coisas e silencia sobre outras.
Volume VI — O Resgate da Cosmovisão Bíblica
Uma investigação documental à luz das Escrituras.
Volume VII — O Último Conflito de Cosmovisões
Cosmovisão, escatologia e a restauração final da verdade.
VOL. II — Quando a Filosofia Mudou o Mundo para Universo
Da cosmologia antiga à revolução copernicana.
Prefácio
Poucos acontecimentos influenciaram tão profundamente a história da humanidade quanto as mudanças de ideias que ocorreram quase sem serem percebidas. Guerras alteram fronteiras, impérios surgem e desaparecem, sistemas políticos sucedem-se ao longo dos séculos; contudo, transformações intelectuais costumam produzir efeitos ainda mais duradouros. Quando uma civilização modifica a maneira pela qual compreende a realidade, modifica também a forma como interpreta sua história, organiza seu conhecimento, constrói suas instituições e, inevitavelmente, lê seus próprios textos sagrados. Quase sempre, essa mudança acontece lentamente. Uma geração recebe determinados pressupostos como evidentes, a seguinte já não conhece outra forma de pensar, e, por fim, aquilo que um dia representou uma profunda ruptura passa a ser considerado simplesmente o modo natural de compreender o mundo.
Foi a percepção desse processo que deu origem à investigação apresentada neste livro.
Durante muitos anos, dediquei-me ao estudo das Escrituras, da história do pensamento cristão e da formação de importantes correntes hermenêuticas. Nesse percurso, uma observação passou a chamar minha atenção de maneira crescente. Diversas interpretações amplamente aceitas entre cristãos de diferentes tradições pareciam possuir fundamentos muito mais complexos do que normalmente se admitia. Algumas eram apresentadas como se decorressem naturalmente da leitura bíblica, embora, ao serem examinadas com maior cuidado, revelassem estreita relação com pressupostos filosóficos, culturais e cosmológicos incorporados ao longo da história.
Essa constatação não produziu respostas imediatas. Pelo contrário, deu origem a novas perguntas. Em que momento determinadas categorias externas à revelação passaram a participar da interpretação das Escrituras? Como ocorreu esse processo? Teria ele sido resultado de uma ruptura claramente identificável ou de uma transformação gradual, quase imperceptível? Mais importante ainda: quais consequências essa mudança produziu para a compreensão cristã da criação, da redenção e da própria escatologia?
Essas perguntas conduziram esta pesquisa por um caminho diferente daquele normalmente percorrido nos debates sobre ciência e religião. Em vez de iniciar pela discussão de modelos astronômicos, teorias cosmológicas ou descobertas científicas, a investigação voltou-se para uma questão anterior a todas elas. Antes de perguntar como o universo deve ser descrito, pareceu necessário perguntar quem possui autoridade para estabelecer a estrutura pela qual toda a realidade será interpretada. Em outras palavras, a questão central deixou de ser cosmológica para tornar-se epistemológica e hermenêutica.
Ao longo desse percurso, tornou-se cada vez mais evidente que nenhuma interpretação bíblica é produzida em completo isolamento. Todo intérprete aproxima-se das Escrituras trazendo consigo uma compreensão prévia da realidade, formada por sua cultura, por sua tradição intelectual e pelos pressupostos que aprendeu a considerar evidentes. Essas estruturas de pensamento frequentemente permanecem invisíveis justamente porque se tornam familiares. Pensamos por meio delas antes mesmo de perceber sua existência. É por essa razão que mudanças de cosmovisão costumam exercer influência muito mais profunda do que alterações em doutrinas isoladas. Elas transformam o ambiente intelectual dentro do qual todas as doutrinas passam a ser compreendidas.
Este livro nasceu do desejo de examinar esse processo à luz da própria revelação bíblica. Seu propósito não consiste em promover controvérsias nem em oferecer respostas para todas as questões relacionadas à criação ou ao universo. Também não pretende desqualificar a investigação científica ou negar a importância da razão humana. Sua proposta é mais específica: investigar se determinadas mudanças de cosmovisão alteraram, ao longo da história, a autoridade utilizada para interpretar as Escrituras e, consequentemente, influenciaram a formação de importantes construções teológicas.
O leitor perceberá, desde as primeiras páginas, que esta obra não procura construir uma teoria alternativa para substituir outra. Seu objetivo é mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente: retornar continuamente ao texto bíblico para perguntar o que Deus efetivamente revelou e quais limites a própria revelação estabelece para a reflexão teológica. Em uma época marcada pela multiplicação de hipóteses, talvez uma das atitudes intelectualmente mais responsáveis seja reaprender a distinguir entre aquilo que Deus decidiu revelar e aquilo que preferiu conservar em silêncio.
Convido, portanto, o leitor a percorrer esta investigação com disposição para reexaminar pressupostos antigos e com respeito pela autoridade das Escrituras. Nenhuma conclusão deverá ser aceita apenas porque é apresentada nestas páginas. Toda conclusão deverá ser confrontada com a revelação bíblica, que constitui o único fundamento capaz de orientar, corrigir e limitar toda construção teológica verdadeiramente cristã. Se, ao final desta jornada, estivermos mais conscientes da necessidade de permitir que a Palavra de Deus interprete nossa compreensão da realidade, então o propósito desta obra terá sido plenamente alcançado.
Início do começo
“As obras do Senhor são grandes, procuradas por todos os que nelas se comprazem.” (Salmo 111:2)
Toda investigação começa com um ato de confiança. Antes mesmo de reunir evidências, formular hipóteses ou estabelecer métodos, o pesquisador precisa decidir qual autoridade reconhecerá como fundamento de sua investigação. Essa decisão antecede todas as demais, pois determina não apenas as respostas que serão aceitas, mas também as perguntas que serão consideradas legítimas. Em qualquer área do conhecimento, o ponto de partida exerce profunda influência sobre o caminho percorrido e, frequentemente, sobre o destino da própria pesquisa.
Essa realidade também se aplica à teologia. Antes de interpretar qualquer passagem das Escrituras, antes de discutir doutrinas, analisar profecias ou formular sistemas de pensamento, existe uma questão anterior que raramente recebe a atenção que merece: quem possui autoridade para interpretar a realidade criada? Embora essa pergunta pareça simples, dela depende toda a estrutura da compreensão cristã acerca de Deus, da criação, da história e da redenção.
As Escrituras iniciam sua narrativa com uma declaração cuja profundidade muitas vezes deixa de ser percebida. “No princípio criou Deus os céus e a terra.” Essas palavras não apenas afirmam que o universo teve origem em um ato criador. Elas estabelecem, desde o primeiro versículo da Bíblia, uma relação inseparável entre criação e autoridade. Aquele que trouxe todas as coisas à existência é também o único que conhece perfeitamente sua natureza, sua finalidade e suas leis. Consequentemente, ninguém pode interpretar a criação com maior autoridade do que o próprio Criador.
Essa conclusão parece tão evidente que dificilmente despertaria qualquer controvérsia. Poucos cristãos negariam que Deus conhece perfeitamente Sua obra. Entretanto, a questão torna-se mais complexa quando perguntamos qual autoridade, na prática, orienta nossa compreensão da realidade. Quando procuramos explicar a origem do universo, compreender a natureza do homem, interpretar as profecias ou organizar nossa visão do mundo, partimos realmente da estrutura apresentada pela revelação ou utilizamos, muitas vezes sem perceber, pressupostos desenvolvidos em outros ambientes intelectuais e posteriormente incorporados à leitura das Escrituras?
Responder a essa pergunta exige mais do que comparar doutrinas ou confrontar interpretações isoladas. Exige examinar o fundamento sobre o qual essas interpretações foram construídas. Afinal, nenhuma conclusão surge espontaneamente. Toda conclusão depende de premissas, e toda premissa repousa sobre determinada compreensão da realidade. Quando os fundamentos se modificam, modificam-se também as conclusões, ainda que o texto bíblico permaneça exatamente o mesmo.
Essa observação talvez explique por que homens sinceros, igualmente comprometidos com a autoridade das Escrituras, chegam por vezes a interpretações profundamente diferentes. O problema nem sempre reside no texto inspirado, mas na estrutura de pensamento que acompanha o intérprete antes mesmo da leitura. Ninguém se aproxima da Bíblia completamente desprovido de pressupostos. Todos fomos educados dentro de determinada cultura, aprendemos a pensar segundo categorias específicas e herdamos maneiras de compreender o universo que raramente submetemos a exame. Esses pressupostos tornam-se quase invisíveis justamente porque nos acompanham desde o início de nossa formação intelectual.
Ao longo da história do cristianismo, a Igreja enfrentou inúmeras controvérsias doutrinárias. Algumas envolveram a natureza de Cristo, outras discutiram a salvação, os sacramentos, a autoridade da tradição, o significado das profecias ou a organização eclesiástica. Muitas dessas questões foram amplamente debatidas e continuam despertando interesse até hoje. Entretanto, existe uma investigação ainda mais profunda, capaz de lançar nova luz sobre todas elas. Antes de perguntar por que determinadas interpretações surgiram, talvez seja necessário perguntar como elas se tornaram possíveis. Antes de examinar as conclusões, convém investigar os pressupostos que abriram caminho para elas.
É justamente essa investigação que orienta as páginas deste livro.
O leitor não encontrará aqui uma tentativa de recontar a história da astronomia nem um tratado destinado a discutir modelos científicos do universo. Também não encontrará um ataque à filosofia ou uma rejeição indiscriminada da investigação científica. A ciência e a filosofia possuem campos próprios de atuação e ofereceram importantes contribuições ao desenvolvimento da civilização. O problema examinado nesta obra pertence a outra esfera. Nosso interesse concentra-se na relação entre autoridade e interpretação. Perguntaremos se, em determinado momento da história, categorias desenvolvidas fora da revelação passaram a exercer influência crescente sobre a maneira pela qual as Escrituras eram compreendidas e se essa mudança alterou, ainda que gradualmente, a própria estrutura da hermenêutica cristã.
Essa pergunta não nasceu da desconfiança em relação ao conhecimento humano. Nasceu da convicção de que a revelação possui características que nenhuma investigação produzida pela criatura pode substituir. O conhecimento adquirido por meio da observação é valioso, mas permanece limitado pelas condições da própria criatura. Deus, porém, não observa a criação de fora; Ele é seu Autor. Sua compreensão não depende de hipóteses, experimentos ou inferências. Quando Deus fala sobre Sua criação, fala com a autoridade de quem conhece perfeitamente aquilo que fez.
Essa diferença é decisiva. A observação humana pode descrever fenômenos, formular modelos, corrigir interpretações anteriores e ampliar continuamente o conhecimento disponível. A revelação, entretanto, possui natureza distinta. Ela não resulta do esforço do homem para alcançar Deus, mas da iniciativa de Deus em dar-Se a conhecer. Por essa razão, sempre que a revelação e a especulação ocupam posições equivalentes como fontes de autoridade, estabelece-se uma tensão que atravessa toda a história do pensamento religioso.
Tal tensão não deve ser simplificada. A tradição cristã jamais desprezou a razão. Pelo contrário, reconheceu-a como dom concedido pelo próprio Criador. O problema não consiste no uso da razão, mas no lugar que ela ocupa. Quando a razão reconhece os limites estabelecidos pela revelação, torna-se instrumento precioso para compreender aquilo que Deus revelou. Quando, porém, passa a estabelecer os limites da própria revelação, ocorre uma inversão de autoridade cujas consequências se estendem muito além de uma discussão filosófica. A maneira de interpretar as Escrituras modifica-se porque o fundamento da interpretação também foi modificado.
É precisamente nesse contexto que surge a necessidade de examinar aquilo que, ao longo desta obra, chamaremos de cosmovisão. Utilizaremos esse termo não para designar um conjunto de opiniões particulares, mas a estrutura fundamental por meio da qual uma pessoa interpreta toda a realidade. Cada cosmovisão responde, explícita ou implicitamente, às grandes perguntas da existência. De onde viemos? Quem somos? Qual é a natureza da realidade? Como podemos conhecer a verdade? Qual autoridade deve orientar nossa compreensão do mundo? Ainda que essas perguntas nem sempre sejam formuladas conscientemente, suas respostas influenciam todas as demais áreas do pensamento.
A investigação desenvolvida neste livro parte da hipótese de que ocorreu, ao longo da história, uma profunda transformação nessa estrutura interpretativa. Essa transformação não consistiu apenas na adoção de novos modelos científicos nem na incorporação de conceitos filosóficos específicos. Ela envolveu uma mudança mais profunda: a substituição gradual do ponto de partida utilizado para compreender a realidade. Em vez de permitir que a revelação definisse o horizonte dentro do qual todas as demais formas de conhecimento seriam organizadas, passou-se, progressivamente, a reinterpretar a própria revelação a partir de categorias construídas pela razão humana.
Caso essa hipótese esteja correta, suas implicações ultrapassam em muito o campo da cosmologia. Elas alcançam a compreensão da criação, da natureza do homem, da história da salvação, da escatologia e da própria relação entre Deus e Sua Palavra. Não estaremos diante de uma simples mudança de linguagem, mas diante de uma alteração no fundamento hermenêutico que sustenta a leitura das Escrituras.
Essa é a razão pela qual esta investigação começa antes de Copérnico, antes do Renascimento, antes da Revolução Científica e antes mesmo do surgimento das grandes escolas filosóficas que influenciaram o pensamento ocidental. Ela começa em um princípio muito mais antigo e muito mais simples: se Deus criou todas as coisas e decidiu revelar-Se ao ser humano, é da própria revelação que devemos partir para compreender a realidade. Todas as demais questões dependerão da resposta dada a esse princípio.
As páginas seguintes não pretendem oferecer respostas apressadas nem exigir concordância imediata. O convite dirigido ao leitor é outro. Percorreremos juntos um caminho de investigação, examinando textos bíblicos, acontecimentos históricos e mudanças hermenêuticas que marcaram o desenvolvimento do pensamento cristão. Em cada etapa procuraremos distinguir, tanto quanto possível, aquilo que procede claramente da revelação daquilo que foi sendo incorporado ao longo da história por influência de pressupostos externos. Somente depois dessa caminhada será possível avaliar se a mudança de paradigma investigada nesta obra realmente ocorreu e quais consequências produziu para a compreensão contemporânea das Escrituras.
Toda investigação honesta exige disposição para reexaminar seus próprios pressupostos. Se este livro contribuir para que o leitor retorne às Escrituras com o propósito de permitir que elas mesmas definam os limites da interpretação, então seu objetivo terá sido alcançado. Afinal, a questão fundamental não consiste em saber qual sistema filosófico parece mais sofisticado nem qual teoria científica alcançou maior aceitação em determinada época. A questão verdadeiramente decisiva permanece a mesma desde o primeiro versículo da Bíblia: quem possui autoridade para interpretar a criação, o Criador ou a criatura?
A investigação proposta neste livro exige, desde o início, um compromisso que nem sempre é fácil de assumir. Ela convida o leitor a suspender, ainda que provisoriamente, algumas certezas adquiridas ao longo de sua formação intelectual para perguntar de onde elas realmente procedem. Esse exercício não representa um desprezo pela tradição nem uma rejeição do conhecimento acumulado ao longo dos séculos. Ao contrário, demonstra respeito pela própria verdade, pois toda convicção genuína deve estar disposta a submeter seus fundamentos a um exame criterioso.
Ao longo da história, homens e mulheres sinceros defenderam interpretações muito diferentes das Escrituras. Não há motivo para duvidar da honestidade espiritual de muitos deles. Entretanto, a sinceridade, por si só, nunca constituiu garantia de acerto. A própria Bíblia registra numerosos exemplos de pessoas profundamente religiosas que, apesar de seu zelo, compreenderam de maneira equivocada aquilo que Deus havia revelado. O problema não estava na revelação, mas nas expectativas, tradições e pressupostos que condicionavam sua leitura.
Esse aspecto merece cuidadosa reflexão porque permanece atual. Nenhuma geração interpreta as Escrituras em completo isolamento da cultura em que vive. Todos somos influenciados, em maior ou menor grau, pelas categorias intelectuais de nosso tempo. A linguagem que utilizamos, as perguntas que formulamos, os problemas que consideramos relevantes e até mesmo aquilo que nos parece evidente são profundamente marcados pelo ambiente cultural em que fomos educados. Essa influência não precisa ser consciente para produzir efeitos. Pelo contrário, ela costuma tornar-se mais poderosa justamente quando deixa de ser percebida.
É nesse contexto que a presente investigação procura desenvolver-se. Seu propósito não consiste em identificar culpados nem em atribuir intenções indevidas aos personagens da história. O desenvolvimento do pensamento humano é sempre complexo, envolvendo fatores religiosos, filosóficos, científicos, políticos e culturais que frequentemente se entrelaçam de maneira inseparável. Simplificar esse processo seria cometer a mesma injustiça que este livro procura evitar. Nosso objetivo é compreender como determinadas mudanças ocorreram e de que maneira elas passaram a influenciar a interpretação das Escrituras.
Essa investigação também não parte do pressuposto de que toda influência externa à tradição hebraica deva ser rejeitada. O cristianismo dialogou com diferentes culturas desde seus primeiros séculos, e esse diálogo produziu importantes contribuições para a linguagem teológica, para a organização do pensamento e para a defesa racional da fé. O problema não reside no diálogo em si, mas na possibilidade de que, em determinado momento, instrumentos concebidos para auxiliar a compreensão da revelação tenham passado, gradualmente, a estabelecer os critérios pelos quais a própria revelação passou a ser interpretada. Quando isso acontece, a relação entre instrumento e fundamento deixa de permanecer equilibrada.
Tal observação conduz naturalmente a outra pergunta. Como identificar o momento em que um recurso hermenêutico deixa de servir às Escrituras para começar a governar sua interpretação? Não existe uma resposta simples para essa questão, nem seria possível apontar um único acontecimento histórico responsável por uma transformação tão ampla. Mudanças dessa natureza normalmente se desenvolvem ao longo de gerações. Novas ideias são inicialmente recebidas como instrumentos úteis, depois passam a ocupar posição de destaque e, por fim, tornam-se tão familiares que deixam de ser percebidas como pressupostos. Quando esse estágio é alcançado, a própria origem dessas categorias tende a desaparecer da memória coletiva.
É justamente por isso que a história assume papel importante nesta obra. Ela não será utilizada como autoridade superior às Escrituras, mas como testemunha do processo pelo qual determinadas formas de pensar se desenvolveram. A história permite acompanhar o surgimento, a evolução e a consolidação de ideias que, muitas vezes, chegaram até nós já completamente incorporadas ao patrimônio intelectual do cristianismo. Conhecer esse percurso não significa rejeitar automaticamente tudo o que foi construído ao longo dele. Significa apenas reconhecer que toda tradição possui uma história e que compreender essa história constitui parte indispensável de qualquer investigação séria.
As Escrituras oferecem um princípio que acompanhará toda esta pesquisa. Sempre que Deus revelou Sua vontade, esperou que Seu povo distinguisse cuidadosamente entre aquilo que Ele efetivamente havia dito e aquilo que os homens acrescentavam por conta própria. Essa preocupação atravessa toda a narrativa bíblica. Os profetas denunciaram tradições humanas que obscureciam a Palavra de Deus. Cristo advertiu contra interpretações que anulavam o mandamento divino em favor de costumes estabelecidos pelos homens. Os apóstolos exortaram a Igreja a permanecer fiel ao ensino recebido e a examinar cuidadosamente toda doutrina apresentada em nome da verdade. Em todos esses casos, a preocupação central permanecia a mesma: preservar a autoridade da revelação acima de qualquer construção humana.
Essa preocupação continua plenamente atual. O desenvolvimento do conhecimento jamais elimina a necessidade de examinar continuamente os pressupostos que orientam nossa leitura das Escrituras. Quanto maior o patrimônio intelectual acumulado por uma civilização, maior também se torna a responsabilidade de distinguir entre aquilo que nasceu da revelação e aquilo que foi sendo acrescentado ao longo do tempo. Essa tarefa exige humildade, paciência e disposição para rever convicções antigas sempre que elas não encontrarem sólido fundamento na Palavra de Deus.
As páginas seguintes não oferecerão respostas simplificadas para questões complexas. Ao contrário, procurarão desenvolver uma investigação paciente, na qual cada etapa dependerá das evidências apresentadas pela etapa anterior. O leitor perceberá que algumas conclusões somente poderão ser compreendidas depois que determinados pressupostos históricos e hermenêuticos forem cuidadosamente examinados. Essa opção metodológica não decorre de preferência literária, mas da própria natureza do tema. Questões relacionadas à formação de cosmovisões não podem ser resolvidas por afirmações isoladas; exigem o acompanhamento de processos históricos longos, nos quais pequenas mudanças acumuladas acabam produzindo profundas transformações na maneira de compreender a realidade.
Por essa razão, o ponto de partida desta investigação permanecerá sempre o mesmo. Antes de perguntar como determinada interpretação surgiu, perguntaremos qual autoridade lhe deu origem. Antes de examinar conclusões, examinaremos pressupostos. Antes de discutir teorias, voltaremos à revelação. Somente quando essa ordem for preservada será possível avaliar, com equilíbrio e responsabilidade, se determinadas mudanças representaram legítimo desenvolvimento da compreensão bíblica ou se constituíram uma alteração mais profunda na estrutura pela qual a própria revelação passou a ser interpretada.
A autoridade precede a interpretação
Se toda interpretação depende de um ponto de partida, torna-se inevitável perguntar quem possui autoridade para estabelecer esse ponto de partida. Essa pergunta pode parecer meramente teórica, mas suas implicações alcançam todas as áreas da fé cristã. Antes de discutirmos a origem do universo, a natureza do homem, o significado da história ou o cumprimento das profecias, precisamos responder a uma questão anterior: quem deve interpretar a realidade criada?
A resposta mais imediata parece evidente. Se Deus é o Criador de todas as coisas, ninguém conhece Sua criação melhor do que Ele. Essa conclusão não decorre de uma construção filosófica nem de um sistema teológico elaborado posteriormente; decorre da própria lógica da revelação. As Escrituras apresentam Deus como Aquele que trouxe todas as coisas à existência, sustenta o universo por Sua palavra e conhece perfeitamente tudo o que realizou. Se isso é verdadeiro, seria razoável procurar o significado último da criação em outra fonte que não o próprio Criador?
Essa pergunta conduz naturalmente a outra. Quando abrimos as Escrituras, estamos realmente permitindo que Deus explique Sua criação ou já nos aproximamos do texto trazendo uma compreensão previamente construída acerca do universo? Em outras palavras, a revelação ocupa o lugar de fundamento sobre o qual edificamos nosso pensamento ou, muitas vezes sem perceber, tornou-se um texto que procuramos harmonizar com pressupostos adquiridos em outros ambientes intelectuais?
Essa distinção talvez pareça sutil, mas dela depende todo o desenvolvimento desta investigação. Existe uma diferença profunda entre utilizar a razão para compreender aquilo que Deus revelou e utilizar a razão para estabelecer previamente aquilo que a revelação poderá ou não significar. No primeiro caso, a inteligência humana exerce a função que sempre lhe pertenceu: servir como instrumento para compreender a Palavra de Deus. No segundo, a relação se inverte. A razão deixa de ser serva da revelação para tornar-se o critério diante do qual a própria revelação passa a ser examinada.
Essa inversão dificilmente ocorre de maneira abrupta. Nenhuma geração desperta, de um dia para o outro, decidida a abandonar a autoridade das Escrituras. Os grandes deslocamentos do pensamento desenvolvem-se lentamente. Novas categorias são inicialmente recebidas como instrumentos úteis de reflexão. Posteriormente passam a orientar determinadas interpretações. Com o passar do tempo, tornam-se tão familiares que deixam de ser percebidas como pressupostos. Quando esse estágio é alcançado, já não se pergunta de onde vieram essas categorias nem por que passaram a ocupar posição tão central. Elas simplesmente passam a fazer parte da maneira considerada natural de compreender a realidade.
Não é difícil encontrar exemplos desse fenômeno na própria história bíblica. Em diferentes momentos, o povo de Deus preservou a linguagem da fé enquanto assimilava formas de pensar provenientes das culturas ao seu redor. Os profetas denunciaram repetidas vezes esse processo porque compreenderam que a infidelidade nem sempre começava pela rejeição aberta da Palavra de Deus. Muitas vezes iniciava-se quando outros referenciais passavam, silenciosamente, a orientar a compreensão dessa mesma Palavra. A linguagem permanecia religiosa; o fundamento, porém, já havia começado a mudar.
Tal observação convida-nos a examinar cuidadosamente nossa própria maneira de ler as Escrituras. Será que todas as categorias que utilizamos nasceram realmente da revelação? Ou algumas delas foram sendo incorporadas ao longo dos séculos até adquirirem autoridade semelhante àquela que reconhecemos ao próprio texto bíblico? Essa pergunta não deve ser respondida apressadamente. Ela exige investigação paciente, porque pressupostos dificilmente se revelam de imediato. Justamente por constituírem o ambiente intelectual dentro do qual pensamos, costumam permanecer invisíveis aos próprios intérpretes.
É por essa razão que esta obra não começará analisando sistemas filosóficos, escolas teológicas ou modelos científicos. Antes de examinar qualquer um desses temas, será necessário compreender como se forma uma estrutura de interpretação da realidade. Somente depois dessa etapa será possível perguntar se a Igreja preservou integralmente o ponto de partida estabelecido pela revelação ou se, em algum momento de sua história, outros fundamentos passaram a compartilhar essa posição de autoridade.
Essa investigação poderá parecer lenta para alguns leitores. Contudo, dificilmente seria conduzida de outra maneira. Quando o objetivo consiste em examinar os alicerces de uma construção, não se começa pelo telhado. As grandes conclusões dependem de pequenos princípios, e são esses princípios que determinam a estabilidade de toda a estrutura. Se o fundamento permanecer sólido, o edifício resistirá. Se o fundamento for alterado, ainda que discretamente, toda a construção acabará refletindo essa mudança.
É precisamente por isso que as páginas seguintes dedicarão atenção especial aos princípios antes de abordar as conclusões. A intenção não é retardar o desenvolvimento da investigação, mas assegurar que cada passo seja dado sobre bases claramente identificadas. Afinal, somente quando sabemos de onde partimos podemos avaliar com segurança o caminho que percorremos e o destino ao qual chegaremos.
A Revelação Basta Para Interpretar a Criação?
Se Deus criou todas as coisas e decidiu revelar-Se ao ser humano, outra pergunta surge quase naturalmente. A revelação concedida pelo Criador seria suficiente para estabelecer os princípios pelos quais Sua criação deve ser compreendida ou ela dependeria, necessariamente, de outras estruturas de pensamento para tornar-se inteligível?
Essa questão merece ser formulada com cuidado. Não estamos perguntando se a observação da natureza possui valor, nem se a investigação científica pode ampliar o conhecimento humano acerca do universo. As Escrituras jamais condenam o estudo da criação. Pelo contrário, convidam o homem a contemplar as obras de Deus, a reconhecer nelas Sua sabedoria e a perceber, por meio delas, evidências de Seu poder e de Sua majestade. O problema, portanto, não está na investigação da criação, mas na autoridade que lhe é atribuída quando se procura interpretar a própria revelação.
Tal distinção parece simples, mas possui consequências profundas. Existe uma diferença entre observar a criação à luz da Palavra de Deus e reinterpretar a Palavra de Deus à luz das conclusões alcançadas pela observação da criação. No primeiro caso, a revelação ocupa o lugar de fundamento e a investigação humana desenvolve-se dentro dos limites estabelecidos pelo Criador. No segundo, a ordem se inverte. Ainda que essa inversão ocorra de maneira quase imperceptível, a autoridade já não permanece no mesmo lugar.
Talvez alguém pergunte se essa diferença não seria apenas uma questão de método, sem maiores implicações para a fé cristã. Entretanto, será realmente possível alterar o ponto de partida de uma investigação sem modificar também suas conclusões? Quando dois edifícios são construídos sobre fundamentos diferentes, ainda que utilizem materiais semelhantes, podem apresentar a mesma estabilidade? Da mesma forma, quando duas interpretações partem de autoridades distintas, seria razoável esperar que produzam exatamente a mesma compreensão da realidade?
Essas perguntas conduzem a uma observação frequentemente esquecida. As maiores transformações intelectuais da história raramente começaram pela negação explícita de princípios anteriormente aceitos. Em geral, iniciaram-se por pequenas mudanças nos pressupostos utilizados para interpretar esses mesmos princípios. A linguagem permaneceu, muitas vezes, inalterada. As palavras continuaram sendo pronunciadas. Os textos continuaram sendo lidos. O que mudou foi o horizonte dentro do qual essas palavras passaram a ser compreendidas.
Esse fenômeno não é estranho às Escrituras. Sempre que Israel abandonou o caminho indicado por Deus, a ruptura raramente ocorreu de forma imediata. Em muitos momentos, o povo continuou oferecendo sacrifícios, frequentando o templo e preservando práticas religiosas tradicionais. Entretanto, pouco a pouco, outros referenciais passaram a ocupar espaço crescente em sua maneira de compreender a vontade divina. A fidelidade exterior já não correspondia inteiramente ao fundamento interior sobre o qual a vida espiritual estava sendo construída.
Não seria prudente perguntar se processos semelhantes podem ocorrer também na história da interpretação bíblica? Não seria possível preservar a linguagem da fé enquanto, gradualmente, se modificam os pressupostos utilizados para compreender essa mesma fé? Se isso realmente aconteceu, quando começou esse processo? Desenvolveu-se de forma consciente ou quase imperceptível? E como distinguir aquilo que nasceu diretamente da revelação daquilo que foi sendo incorporado ao longo do tempo por influência de outras estruturas de pensamento?
Responder a essas perguntas exige paciência. Nenhuma investigação séria alcança conclusões sólidas por meio de respostas apressadas. Antes de examinar os grandes acontecimentos da história do pensamento cristão, será necessário compreender como os pressupostos se formam, como se consolidam e por que, muitas vezes, deixam de ser percebidos por aqueles que vivem sob sua influência.
É justamente nesse ponto que a noção de cosmovisão começará a adquirir importância. Contudo, antes de definir esse conceito, convém compreender por que ele se tornou indispensável para esta investigação. Se realmente existe um conjunto de pressupostos que antecede toda interpretação, então conhecer sua origem talvez seja uma das tarefas mais importantes para quem deseja compreender não apenas o desenvolvimento da teologia cristã, mas também a maneira pela qual a própria revelação passou a ser lida ao longo dos séculos.
As páginas seguintes procurarão acompanhar esse processo passo a passo. Não partiremos da conclusão para buscar argumentos que a confirmem. Faremos o caminho inverso. Examinaremos as evidências, compararemos os fundamentos, observaremos o desenvolvimento histórico e permitiremos que as próprias Escrituras indiquem, tanto quanto possível, os limites dentro dos quais essa investigação deverá permanecer. Somente então estaremos em condições de perguntar se a mudança ocorrida na maneira de compreender o universo representou apenas uma transformação na descrição da criação ou se alcançou um nível muito mais profundo, alterando silenciosamente a própria estrutura utilizada para interpretar a Palavra de Deus.
Introdução ao capítulo introdutório
Quem Interpreta a Criação?
Toda vez que Deus decidiu revelar alguma verdade ao ser humano, Ele o fez porque essa verdade não poderia ser plenamente alcançada por outro caminho. Essa constatação, embora simples, possui profundas implicações para toda investigação que se proponha a compreender a criação, a história e o próprio plano da redenção. Se a revelação existe, ela existe porque há realidades que escapam aos limites da observação humana. Se Deus falou, é porque havia algo que somente Ele poderia dizer.
Essa afirmação parece tão evidente que dificilmente seria contestada por qualquer cristão. No entanto, talvez seja justamente por parecer tão evidente que raramente perguntamos quais são suas consequências. Se Deus conhece perfeitamente todas as coisas porque é o Autor de todas elas, e se decidiu revelar ao homem aquilo que julgou necessário para sua salvação e para sua compreensão da realidade, qual deve ser o lugar ocupado por essa revelação quando procuramos interpretar o universo? Ela constitui o fundamento sobre o qual edificamos todo o nosso pensamento ou tornou-se apenas uma das muitas vozes que participam dessa construção?
Responder a essa pergunta exige cuidado. Não se trata de estabelecer um conflito entre a fé e a razão, nem de opor a investigação científica ao estudo das Escrituras. A história demonstra que homens profundamente comprometidos com a Palavra de Deus dedicaram sua inteligência ao estudo da natureza, convencidos de que investigar a criação era também uma forma de contemplar a sabedoria do Criador. O problema, portanto, não reside na investigação da criação. A questão é outra. Quando a investigação termina e a interpretação começa, qual autoridade possui a palavra final?
Talvez essa pergunta devesse preceder muitas outras que costumam ocupar o centro dos debates contemporâneos. Antes de discutir modelos cosmológicos, teorias sobre a origem do universo ou sistemas filosóficos destinados a explicar a realidade, seria prudente perguntar quem possui autoridade para interpretar aquilo que foi criado. Afinal, seria razoável admitir que a criatura compreenda plenamente uma obra cuja origem lhe permanece inacessível? Ou seria mais coerente reconhecer que o Criador continua sendo a única autoridade capaz de explicar integralmente aquilo que somente Ele conhece em sua totalidade?
As primeiras páginas das Escrituras parecem conduzir naturalmente a essa segunda conclusão. A Bíblia não inicia sua narrativa demonstrando a existência de Deus nem procurando justificar Sua autoridade. Ela simplesmente afirma que, no princípio, Deus criou os céus e a terra. Antes que qualquer ser humano observasse o universo, formulasse perguntas sobre sua origem ou construísse teorias para descrevê-lo, a revelação já apresentava um dado fundamental: toda a realidade depende do ato criador de Deus. Essa declaração não responde apenas à pergunta sobre a origem do universo. Ela estabelece, desde o primeiro versículo da Bíblia, quem possui autoridade para falar sobre ele.
Entretanto, se essa verdade ocupa posição tão central na revelação, por que a história do pensamento cristão apresenta interpretações tão diferentes acerca da própria criação? Como explicar que homens igualmente comprometidos com as Escrituras tenham construído compreensões tão distintas da realidade? Estaria a dificuldade na clareza da revelação ou na maneira pela qual ela passou a ser interpretada? Seria possível que, ao longo dos séculos, mudanças ocorridas fora do texto bíblico tivessem influenciado silenciosamente a forma de lê-lo?
Essas perguntas não surgem da desconfiança em relação à Palavra de Deus. Nascem exatamente da convicção oposta. Se a revelação é perfeita em sua origem, torna-se legítimo investigar se todas as interpretações produzidas em seu nome permaneceram igualmente fiéis aos princípios estabelecidos por ela. Essa investigação não pretende colocar a Bíblia sob julgamento. Pretende examinar os pressupostos utilizados pelos intérpretes, porque toda interpretação depende, inevitavelmente, de um ponto de partida.
Talvez alguém pergunte se realmente existe interpretação sem pressupostos. É possível aproximar-se de qualquer texto completamente livre de conceitos anteriores? Não lemos todos a partir da cultura em que fomos educados, da linguagem que aprendemos, das tradições que recebemos e das categorias intelectuais que assimilamos ao longo da vida? Se isso acontece na leitura de qualquer documento, por que seria diferente justamente quando abrimos as Escrituras?
Essas perguntas não diminuem a autoridade da Bíblia. Ao contrário, revelam a necessidade de distinguir cuidadosamente entre aquilo que Deus efetivamente revelou e os esquemas de pensamento que levamos conosco quando procuramos compreender essa revelação. Talvez o maior desafio da hermenêutica cristã nunca tenha consistido apenas em interpretar corretamente um texto inspirado, mas em reconhecer os pressupostos que, muitas vezes sem percebermos, já orientavam nossa leitura antes mesmo de chegarmos ao texto.
A história oferece inúmeros exemplos desse fenômeno. Ideias inicialmente recebidas como instrumentos auxiliares podem, pouco a pouco, assumir funções muito mais amplas do que aquelas para as quais foram concebidas. Hipóteses transformam-se em paradigmas. Métodos convertem-se em critérios. Aquilo que começou servindo à interpretação termina, algumas gerações depois, governando a própria interpretação. Quando esse processo se completa, torna-se extremamente difícil distinguir entre aquilo que procede da revelação e aquilo que foi sendo incorporado ao longo da história como parte aparentemente natural da tradição.
Não seria prudente perguntar se algo semelhante ocorreu também na maneira pela qual muitos cristãos passaram a compreender a criação? Não seria possível que determinadas categorias intelectuais, inicialmente utilizadas como instrumentos de reflexão, tenham adquirido autoridade suficiente para influenciar a própria leitura das Escrituras? E, se isso realmente aconteceu, em que momento essa transformação começou? Desenvolveu-se por meio de uma ruptura claramente percebida ou avançou lentamente, quase sem ser notada, até tornar-se parte do modo comum de pensar?
É precisamente essa investigação que orientará as páginas seguintes. Não começaremos pelas respostas, mas pelas perguntas. Não partiremos das conclusões para buscar argumentos que as confirmem. Percorreremos o caminho inverso. Voltaremos continuamente às Escrituras, examinaremos o desenvolvimento histórico do pensamento cristão e procuraremos identificar, tanto quanto possível, em que medida determinadas mudanças alteraram apenas a linguagem utilizada para descrever a realidade ou alcançaram um nível muito mais profundo, modificando o próprio fundamento sobre o qual essa realidade passou a ser interpretada.
Se essa investigação estiver corretamente formulada, o tema central deste livro deixará de ser a cosmologia, a filosofia ou a história da ciência. Todas essas áreas aparecerão ao longo da obra porque fazem parte do percurso histórico que precisaremos examinar. Nenhuma delas, porém, ocupará o lugar da pergunta fundamental. Ela continuará sendo a mesma desde o primeiro versículo das Escrituras até a última página desta investigação: quem possui autoridade para interpretar a criação, o Criador ou a criatura?
CAPÍTULO 1
A Mudança de Cosmovisão que Quase Ninguém Percebeu
A pergunta com a qual encerramos a Introdução permanece diante de nós. Se Deus é o Criador de todas as coisas e, por essa razão, a única autoridade plenamente competente para interpretar Sua própria obra, como explicar que, ao longo da história, diferentes formas de compreender a realidade tenham surgido entre pessoas igualmente comprometidas com a autoridade das Escrituras? Essa diversidade de interpretações poderia ser atribuída apenas às dificuldades naturais da leitura do texto bíblico ou existiria uma causa mais profunda, relacionada aos pressupostos levados pelos próprios intérpretes à sua tarefa?
Responder a essa pergunta exige que a investigação recue um passo. Antes de examinar doutrinas, debates teológicos ou sistemas filosóficos, precisamos compreender um fenômeno que normalmente permanece oculto. Nenhum homem interpreta a realidade sem partir de uma determinada compreensão do mundo. Mesmo quando não possui consciência disso, toda pessoa organiza seu pensamento a partir de princípios fundamentais que orientam sua maneira de perceber a existência, o conhecimento, a verdade, a história e a relação entre Deus e Sua criação. Esses princípios não costumam ser formulados diariamente, mas exercem influência constante sobre todas as conclusões que alcançamos.
É justamente esse conjunto de pressupostos que chamaremos de cosmovisão.
O termo é relativamente recente, mas a realidade que procura descrever acompanha a humanidade desde suas origens. Muito antes de existirem tratados de filosofia, escolas de pensamento ou sistemas científicos, homens já interpretavam a realidade segundo determinadas convicções fundamentais. Essas convicções respondiam, ainda que de maneira implícita, às grandes perguntas da existência: de onde viemos, quem somos, qual é a natureza do mundo em que vivemos, por que o mal existe, qual é o destino da humanidade e quem possui autoridade para responder a essas questões.
Sob esse aspecto, toda civilização possui uma cosmovisão, ainda que jamais utilize essa palavra para descrevê-la. Ela representa a estrutura invisível sobre a qual se apoiam todas as demais ideias. Assim como os alicerces de um edifício permanecem ocultos sob a construção, mas sustentam todo o conjunto, a cosmovisão sustenta silenciosamente a forma pela qual indivíduos e sociedades compreendem a realidade.
Essa observação conduz a uma pergunta que merece nossa atenção. Se toda interpretação depende de uma cosmovisão, de onde procede a cosmovisão do cristão? Ela nasce da própria revelação ou resulta da combinação entre a revelação e categorias intelectuais desenvolvidas em outros ambientes culturais? Essa pergunta não pode ser respondida por mera preferência pessoal. Ela exige que retornemos às Escrituras para observar qual estrutura de pensamento Deus apresentou ao homem desde o princípio.
É significativo que a Bíblia não comece discutindo conceitos abstratos nem propondo especulações acerca da origem do universo. A revelação inicia-se com um relato histórico. Deus cria. Deus fala. Deus organiza. Deus estabelece limites. Deus atribui funções. Deus declara o resultado de Sua obra. Desde as primeiras linhas do Gênesis, o leitor é conduzido a compreender a realidade não pela observação autônoma da criação, mas pela palavra daquele que a criou.
Esse detalhe possui enorme importância metodológica. A primeira cosmovisão apresentada ao ser humano não foi construída pela criatura mediante investigação, observação ou reflexão filosófica. Ela foi revelada pelo próprio Criador. Antes que Adão pudesse desenvolver qualquer teoria sobre o mundo, Deus já havia explicado quem era, o que havia feito, qual era a natureza da criação e qual seria o lugar do homem dentro dela. Em outras palavras, a primeira compreensão da realidade não nasceu da busca humana pelo conhecimento; nasceu da iniciativa divina de comunicar a verdade.
Essa constatação talvez pareça tão simples que corra o risco de ser subestimada. Entretanto, ela estabelece um princípio que acompanhará toda esta obra. Sempre que a revelação ocupa o lugar de fundamento, a compreensão da realidade desenvolve-se a partir daquilo que Deus tornou conhecido. Sempre que outro fundamento passa a ocupar essa posição, a interpretação da própria revelação começa, inevitavelmente, a sofrer influência desse novo ponto de partida.
É justamente aqui que nossa investigação começa a adquirir contornos históricos. A questão já não consiste apenas em saber que Deus revelou uma determinada compreensão da criação. Precisamos perguntar se essa compreensão permaneceu como fundamento da interpretação bíblica ao longo dos séculos ou se foi sendo gradualmente substituída por outra estrutura de pensamento. Essa substituição, caso tenha ocorrido, dificilmente se manifestaria por meio da rejeição aberta das Escrituras. Muito provavelmente desenvolver-se-ia de maneira lenta, por pequenas mudanças de pressupostos, até que uma nova forma de compreender a realidade passasse a parecer tão natural quanto a anterior. É esse processo, discreto e quase imperceptível, que passaremos a investigar.
A investigação que agora se inicia exige, entretanto, um cuidado metodológico que acompanhará toda esta obra. Sempre que se procura compreender uma transformação histórica de grandes proporções, existe a tentação de localizar um único acontecimento capaz de explicá-la integralmente. Essa forma de interpretar a história é atraente por sua simplicidade, mas raramente corresponde à realidade. Grandes mudanças não costumam nascer de um único fato nem da atuação isolada de uma única personalidade. Elas resultam de processos longos, nos quais pequenas alterações, quase imperceptíveis em seu início, acumulam-se ao longo de gerações até produzirem uma nova maneira de compreender o mundo.
Essa observação é particularmente importante para a investigação que desenvolveremos nas páginas seguintes. O objetivo deste livro não consiste em atribuir a um filósofo, a um cientista ou a um determinado período histórico a responsabilidade exclusiva pelas mudanças que examinaremos. Proceder dessa maneira significaria simplificar excessivamente um processo muito mais amplo e complexo. A história do pensamento humano não se desenvolve por rupturas absolutas. Ela avança por continuidade, adaptação, assimilação e, muitas vezes, por uma lenta substituição de pressupostos que quase nunca é percebida por aqueles que vivem durante o próprio processo.
Talvez seja justamente por isso que mudanças de cosmovisão sejam tão difíceis de identificar. Uma alteração doutrinária normalmente chama atenção porque modifica uma crença específica. Uma mudança de cosmovisão, porém, atua em um nível anterior às próprias doutrinas. Ela modifica o ambiente intelectual dentro do qual todas as crenças passam a ser compreendidas. Quando isso acontece, o próprio significado de conceitos antigos pode transformar-se, ainda que as palavras permaneçam rigorosamente as mesmas.
A experiência humana oferece numerosos exemplos desse fenômeno. O vocabulário frequentemente sobrevive às mudanças de pensamento. Palavras permanecem em uso durante séculos, enquanto seu conteúdo é progressivamente redefinido. O resultado é que pessoas pertencentes a épocas diferentes podem utilizar a mesma linguagem sem compartilhar a mesma compreensão da realidade. Essa possibilidade exige cautela do intérprete. Não basta verificar quais palavras foram empregadas; é igualmente necessário perguntar qual estrutura de pensamento lhes atribuía significado.
Essa consideração torna-se ainda mais relevante quando nos voltamos para a interpretação das Escrituras. A fidelidade ao texto bíblico não depende apenas da preservação de suas palavras, mas também do esforço contínuo para compreender o universo de significados dentro do qual essas palavras foram originalmente reveladas. Caso categorias intelectuais estranhas a esse universo passem a orientar silenciosamente a leitura do texto, corre-se o risco de conservar a linguagem da revelação enquanto se modifica, pouco a pouco, a maneira de entendê-la.
Não estamos sugerindo, com isso, que a verdade bíblica possa ser alterada. A Palavra de Deus permanece a mesma. O que pode sofrer alteração é a compreensão humana dessa Palavra. Essa distinção é fundamental. A autoridade da revelação não depende da interpretação que dela fazemos. Entretanto, nossa interpretação depende profundamente da maneira pela qual nos aproximamos da revelação. É precisamente nesse ponto que os pressupostos exercem influência decisiva.
Surge, então, uma pergunta que orientará todo o desenvolvimento deste capítulo. Se a revelação apresentou ao homem uma determinada compreensão da criação, em que momento começou a surgir outra forma de organizar essa compreensão? Essa nova estrutura nasceu dentro da própria revelação ou desenvolveu-se por influência de correntes intelectuais externas que, pouco a pouco, passaram a dialogar com o pensamento cristão? Responder a essa pergunta exigirá um retorno à história, não para substituir a autoridade das Escrituras, mas para compreender como determinadas ideias alcançaram a posição que hoje ocupam.
Somente depois desse percurso histórico estaremos em condições de comparar duas maneiras distintas de compreender a realidade. A primeira nascerá da própria narrativa bíblica, especialmente dos primeiros capítulos do Gênesis, onde Deus apresenta os fundamentos da criação, da ordem moral e da relação entre o Criador e Suas criaturas. A segunda surgirá do longo desenvolvimento do pensamento filosófico ocidental, cuja influência ultrapassou seu ambiente de origem e alcançou, em diferentes momentos, a própria interpretação das Escrituras.
A comparação entre essas duas estruturas de pensamento constitui o verdadeiro objeto desta investigação. Não procuraremos estabelecer um conflito artificial entre Bíblia e razão, nem entre fé e ciência. Perguntaremos apenas se ambas partiram do mesmo fundamento e reconheceram a mesma autoridade para interpretar a realidade. Caso a resposta seja negativa, será necessário investigar quais consequências essa diferença produziu ao longo da história da teologia cristã.
É justamente por essa razão que nossa investigação não começa em Atenas, em Alexandria, no Renascimento ou na Revolução Científica. Ela começa muito antes de qualquer uma dessas etapas. Começa no Éden, porque é ali que a revelação apresenta, pela primeira vez, a estrutura mediante a qual Deus desejava que o ser humano compreendesse a criação. Somente conhecendo esse ponto de partida poderemos avaliar, com equilíbrio e justiça, as mudanças que ocorreram posteriormente.
A Revelação Como Ponto de Partida
Toda investigação depende do lugar onde decide começar. Essa afirmação parece evidente, mas suas consequências raramente são examinadas com a atenção que merecem. Um mesmo conjunto de fatos pode conduzir a interpretações profundamente diferentes quando observado a partir de pressupostos distintos. Por essa razão, antes de perguntar quais mudanças ocorreram na história do pensamento cristão, devemos perguntar qual era o ponto de partida estabelecido pela própria revelação.
Essa pergunta nos conduz inevitavelmente ao livro de Gênesis. Não porque ali se encontrem todas as respostas para as questões que surgiram ao longo da história, mas porque é ali que Deus estabelece o fundamento sobre o qual toda a revelação posterior será construída. Nenhum outro livro da Bíblia responde a tantas perguntas fundamentais acerca da realidade. De onde veio o universo? Qual é a origem da vida? Quem é o homem? Qual é sua posição na criação? Por que existe ordem na natureza? Qual é a origem do mal? Por que a morte entrou no mundo? Qual é a relação entre o Criador e Suas criaturas? Antes que qualquer filósofo formulasse essas perguntas, a revelação já oferecia os princípios necessários para compreendê-las.
Convém observar que Deus não iniciou Sua revelação apresentando um sistema filosófico. Também não entregou ao homem um tratado científico destinado a explicar o funcionamento do universo. Em vez disso, revelou acontecimentos. A criação, o jardim, o sábado, a entrada do pecado, a promessa da redenção e a dispersão das nações são apresentados como fatos históricos que, ao mesmo tempo, estabelecem os fundamentos da compreensão bíblica da realidade. Essa característica merece atenção porque revela um aspecto essencial da maneira pela qual Deus ensina. A revelação não começa com abstrações; começa com atos concretos de Deus na história.
Seria possível construir uma compreensão da realidade ignorando esses acontecimentos inaugurais? Essa pergunta talvez pareça desnecessária para o leitor cristão. Entretanto, ela se tornará cada vez mais importante à medida que avançarmos nesta investigação. Se os primeiros capítulos de Gênesis estabelecem os fundamentos da cosmovisão revelada, qualquer alteração na maneira de compreendê-los inevitavelmente produzirá consequências para toda a estrutura do pensamento bíblico. Não estamos tratando de um tema periférico. Estamos diante do alicerce sobre o qual repousa todo o edifício da revelação.
Tal observação conduz naturalmente a outra questão. Quando os autores bíblicos posteriores falam da criação, a que compreensão eles recorrem? Quando os profetas anunciam o poder de Deus, quando os salmistas exaltam Suas obras, quando Cristo menciona “o princípio” ou quando os apóstolos explicam a origem do pecado e da redenção, estariam eles construindo uma nova visão da realidade ou simplesmente desenvolvendo aquilo que já havia sido revelado no início das Escrituras?
Responder a essa pergunta é decisivo para o método desta obra. Se a Bíblia interpreta a si mesma, então a compreensão apresentada em Gênesis não constitui apenas uma narrativa sobre o passado. Ela fornece a estrutura pela qual toda a revelação posterior deve ser compreendida. Nesse caso, o Gênesis deixa de ser apenas o primeiro livro da Bíblia para tornar-se o fundamento sobre o qual repousam a doutrina da criação, a compreensão do pecado, o significado da redenção, a esperança escatológica e a própria identidade do povo de Deus.
Talvez seja precisamente aqui que devamos formular outra pergunta. Se a revelação estabeleceu um fundamento tão abrangente para compreender a realidade, por que, ao longo da história, tornou-se tão comum buscar esse fundamento em outras fontes? Em que momento passou a parecer insuficiente iniciar nossa compreensão do universo pela narrativa apresentada pelo próprio Criador? Quando surgiu a ideia de que a revelação precisaria ser reorganizada segundo categorias concebidas fora dela para tornar-se intelectualmente satisfatória?
Essas perguntas não serão respondidas imediatamente. A própria natureza da investigação exige que caminhemos com prudência. Antes de examinar o encontro entre o pensamento bíblico e a filosofia, precisamos conhecer com clareza aquilo que a própria revelação apresenta como seu ponto de partida. Somente depois poderemos perguntar se esse fundamento permaneceu inalterado ou se, gradualmente, outra estrutura passou a ocupar seu lugar.
É por essa razão que permaneceremos, por algum tempo, nas primeiras páginas das Escrituras. Não porque desejemos discutir detalhes secundários da narrativa da criação, mas porque é ali que Deus estabelece os princípios pelos quais toda a realidade deverá ser interpretada. Se compreendermos corretamente esses princípios, teremos um critério seguro para avaliar as mudanças que encontraremos ao longo da história. Se os ignorarmos, correremos o risco de examinar séculos de desenvolvimento intelectual sem possuir um ponto de referência suficientemente sólido para discernir o que pertence originalmente à revelação e o que lhe foi sendo acrescentado posteriormente.
Nossa investigação, portanto, não começará perguntando o que disseram os filósofos nem quais teorias prevaleceram em diferentes épocas. Ela começará perguntando o que Deus revelou no princípio e por que essa revelação ocupava posição tão central na compreensão da realidade apresentada pelas Escrituras. Somente quando essa base estiver firmemente estabelecida poderemos acompanhar, com equilíbrio e segurança, o longo percurso histórico que conduziu à formação de outras maneiras de compreender o universo e interpretar a própria Palavra de Deus.
O Gênesis Como Fundamento da Revelação
Quando afirmamos que a investigação deve começar no Gênesis, não estamos apenas estabelecendo uma preferência metodológica. Estamos reconhecendo a maneira pela qual a própria Bíblia organiza sua mensagem. Os livros que compõem as Escrituras não foram escritos como obras independentes, unidas apenas por afinidades religiosas. Formam uma única narrativa, desenvolvida progressivamente ao longo da história, mas construída sobre fundamentos apresentados desde suas primeiras páginas. Essa característica explica por que os autores bíblicos retornam continuamente ao relato da criação quando procuram explicar temas aparentemente tão diferentes quanto o sábado, o casamento, o pecado, a redenção, o juízo ou a esperança da restauração final.
Esse fato merece ser cuidadosamente observado. Sempre que um escritor bíblico desejava esclarecer uma verdade fundamental, frequentemente voltava ao princípio. Não o fazia porque ignorasse os acontecimentos posteriores da história da redenção, mas porque compreendia que o início continha os princípios capazes de iluminar tudo o que viria depois. A criação não era lembrada apenas como um acontecimento remoto. Ela permanecia como o fundamento permanente da compreensão bíblica da realidade.
Tal observação conduz naturalmente a uma pergunta. Se a própria Escritura interpreta seus grandes temas retornando continuamente ao Gênesis, por que tantas vezes o estudo da criação passou a ocupar posição secundária na reflexão cristã? Não seria justamente o contrário o esperado? Se o fundamento esclarece a estrutura inteira, não deveria receber atenção proporcional à importância que possui dentro da revelação?
Talvez alguém responda que o centro da fé cristã não está na criação, mas na cruz de Cristo. Essa afirmação é verdadeira, desde que não nos leve a estabelecer uma oposição que a própria Bíblia jamais estabelece. A cruz responde a um problema cuja origem é apresentada justamente no Gênesis. A redenção pressupõe a criação. A promessa pressupõe a queda. O novo céu e a nova terra pressupõem o primeiro céu e a primeira terra. Separar esses acontecimentos significa romper a continuidade da narrativa bíblica. A revelação não apresenta esses temas como episódios isolados, mas como partes de uma única história iniciada pelo ato criador de Deus e conduzida por Ele até sua consumação.
Essa unidade explica por que Jesus e os apóstolos recorreram repetidamente ao princípio para fundamentar seus ensinamentos. Quando Cristo tratou da instituição do casamento, voltou à criação. Quando discutiu a relação entre homem e mulher, voltou à criação. Quando os apóstolos explicaram a entrada do pecado e a necessidade da redenção, voltaram à criação. A própria esperança escatológica encontra sua linguagem nas promessas de uma nova criação. Em todos esses casos, o Gênesis não aparece como simples referência histórica, mas como fundamento interpretativo.
Se isso é verdadeiro, outra pergunta se impõe. O que acontece quando esse fundamento começa a ser compreendido de maneira diferente daquela apresentada pela própria revelação? Permanecem inalteradas todas as doutrinas edificadas sobre ele ou, inevitavelmente, parte dessa estrutura também começa a sofrer modificações? A resposta parece decorrer da própria lógica. Sempre que o alicerce de uma construção é alterado, ainda que discretamente, seus efeitos acabam alcançando toda a edificação.
Essa observação talvez explique por que a presente investigação dedica tanta atenção aos pressupostos. Muitas controvérsias teológicas concentram-se nas conclusões, quando a verdadeira diferença encontra-se nos fundamentos. Dois intérpretes podem discutir durante anos acerca de determinada doutrina sem perceber que suas divergências começaram muito antes, no momento em que adotaram pontos de partida distintos para compreender a realidade. Enquanto esses fundamentos permanecerem ocultos, dificilmente o diálogo alcançará resultados satisfatórios.
É precisamente por essa razão que não iniciaremos nossa análise examinando os sistemas filosóficos desenvolvidos ao longo da história. Antes de perguntar como determinadas ideias penetraram na interpretação cristã, precisamos conhecer com clareza aquilo que a própria revelação estabelece como seu fundamento. Somente então será possível comparar estruturas de pensamento diferentes e avaliar em que medida elas permanecem em harmonia com o princípio estabelecido pelas Escrituras.
Ao proceder dessa maneira, evitamos dois erros igualmente prejudiciais. O primeiro consiste em atribuir à filosofia toda mudança ocorrida na história da teologia, como se o pensamento cristão tivesse sido apenas um reflexo passivo das correntes intelectuais de cada época. O segundo consiste em ignorar completamente a influência que essas correntes efetivamente exerceram sobre a formação de determinadas interpretações. Nenhuma dessas posições faz justiça à complexidade da história. O caminho mais seguro consiste em permitir que a própria revelação forneça o critério pelo qual examinaremos, posteriormente, o desenvolvimento histórico do pensamento cristão.
Somente depois de estabelecer esse fundamento estaremos em condições de acompanhar o processo pelo qual diferentes formas de compreender a realidade surgiram, dialogaram entre si e, em determinados momentos, influenciaram também a maneira pela qual muitos passaram a interpretar as Escrituras. Essa etapa exigirá um retorno à história, mas não começaremos pela história. Começaremos pela revelação, porque somente ela pode fornecer o referencial necessário para discernir, ao longo do caminho, aquilo que permaneceu fiel ao seu ponto de partida e aquilo que, gradualmente, passou a seguir outra direção.
Por Que Começar Pelo Gênesis?
Toda investigação precisa escolher um ponto de partida. Essa escolha nunca é irrelevante, porque o lugar onde começamos costuma determinar a direção que seguiremos e, muitas vezes, as conclusões às quais chegaremos. Surge, então, uma pergunta que merece ser enfrentada antes de prosseguirmos: por que esta investigação começa no Gênesis?
À primeira vista, talvez essa não pareça a escolha mais natural. Se o propósito desta obra é compreender como determinadas mudanças influenciaram a interpretação cristã da realidade, não seria mais lógico iniciar pela filosofia grega? Ou pelo encontro entre o pensamento cristão e a cultura helenística? Talvez pelo Renascimento, quando profundas transformações intelectuais alteraram a maneira como o Ocidente passou a compreender o universo? Não seriam esses os momentos decisivos dessa história?
Essas possibilidades parecem razoáveis. Entretanto, antes de investigar quando uma compreensão começou a modificar-se, não deveríamos perguntar qual era a compreensão originalmente apresentada pela revelação? Como reconhecer uma mudança sem conhecer, com suficiente clareza, aquilo que existia antes dela? Como afirmar que determinado fundamento foi substituído se não sabemos exatamente qual era esse fundamento?
É precisamente nesse ponto que o Gênesis assume uma importância singular. Não porque seja o primeiro livro da Bíblia apenas em ordem cronológica, mas porque a própria revelação faz dele o ponto de partida para compreender tudo o que será revelado depois.
Mas será que essa afirmação encontra apoio nas próprias Escrituras?
Quando os profetas desejaram lembrar ao povo quem era Deus, para onde dirigiram seu olhar? Quando os salmistas exaltaram o poder divino, qual acontecimento apareceu repetidas vezes como fundamento de seu louvor? Quando Jesus foi interrogado sobre temas fundamentais da existência humana, onde iniciou Sua resposta? Quando os apóstolos procuraram explicar a origem do pecado, da morte e da necessidade da redenção, em que parte das Escrituras encontraram o fundamento de sua argumentação?
Responder a essas perguntas talvez seja mais importante do que oferecer uma definição abstrata sobre a importância do Gênesis. Afinal, se os próprios autores inspirados retornam continuamente ao princípio para explicar os grandes temas da fé, não seria razoável perguntar se esse retorno revela um método de interpretação estabelecido pela própria revelação?
Essa observação merece ser considerada com atenção. Em nenhum momento os autores bíblicos tratam o relato da criação como um episódio isolado, destinado apenas a explicar a origem do mundo. Ao contrário, voltam a ele repetidamente para compreender acontecimentos muito posteriores. O princípio ilumina o restante da história. A criação esclarece a redenção. O Éden ajuda a compreender a cruz. A entrada do pecado explica a necessidade do juízo. A promessa de uma nova criação recupera a esperança perdida no início da narrativa bíblica.
Não parece existir, portanto, uma separação entre o Gênesis e o restante das Escrituras. Existe uma continuidade. Os mesmos princípios apresentados nas primeiras páginas reaparecem continuamente, sustentando toda a estrutura da revelação. Se isso é verdade, talvez nossa investigação não possa começar em outro lugar.
Mas essa conclusão conduz imediatamente a uma nova pergunta. Se a própria Bíblia retorna constantemente ao princípio para interpretar seus grandes temas, por que, em determinados momentos da história cristã, outras estruturas de pensamento passaram a exercer influência tão significativa sobre a maneira de compreender essas mesmas Escrituras? Em que momento o olhar começou a deslocar-se do fundamento apresentado pela revelação para outros referenciais? Essa mudança ocorreu de forma consciente ou desenvolveu-se lentamente, ao longo dos séculos, até tornar-se quase imperceptível?
Essas perguntas nos acompanharão durante toda esta investigação. Ainda não é o momento de respondê-las. Antes disso, será necessário compreender, com maior precisão, qual visão da realidade emerge naturalmente das primeiras páginas da Bíblia. Somente depois estaremos em condições de comparar esse fundamento com as estruturas de pensamento que surgiram posteriormente e avaliar, com equilíbrio, se permaneceram em harmonia com a revelação ou se, gradualmente, passaram a conduzir a interpretação por outro caminho.
Antes da Criação, a Revelação
Quando abrimos o primeiro capítulo da Bíblia, encontramos algo que, por sua familiaridade, talvez já não desperte a atenção que merece. Antes que exista um povo escolhido, antes que surjam profetas, sacerdotes, reis ou apóstolos, antes que a Lei seja entregue no Sinai e antes mesmo que o pecado entre na história humana, Deus fala. A revelação começa antes da queda. Esse detalhe raramente recebe a importância que merece.
Por que Deus decidiu revelar-Se antes que o homem formulasse qualquer pergunta? Se Adão ainda não conhecia o pecado, a morte, a dor ou a rebelião, por que Deus julgou necessário explicar-lhe a criação? Não bastaria que o homem contemplasse o mundo ao seu redor e tirasse suas próprias conclusões?
Essas perguntas conduzem a uma observação que acompanhará toda esta investigação. Deus não esperou que o ser humano construísse uma interpretação da realidade para, depois, corrigi-la. A revelação veio primeiro. Antes da experiência, Deus concedeu a interpretação. Antes da observação, ofereceu a verdade. Antes que a criatura procurasse compreender o universo, o Criador apresentou os princípios pelos quais Sua criação deveria ser entendida.
Essa ordem merece cuidadosa reflexão. Se a revelação precede a experiência, não seria essa também a ordem que deveria orientar toda investigação conduzida pelo povo de Deus? Em outras palavras, quando desejamos compreender a criação, deveríamos começar pelaquilo que vemos ou pelaquilo que Deus disse a respeito do que fez?
Essa pergunta não será respondida imediatamente. Ela permanecerá diante de nós porque, na verdade, constitui uma das questões fundamentais deste livro. Sempre que a ordem entre revelação e experiência se modifica, modifica-se também o fundamento da interpretação. E, quando o fundamento muda, toda a estrutura edificada sobre ele acaba, cedo ou tarde, refletindo essa mudança.
O Primeiro Ato de Revelação
Quando abrimos as primeiras páginas das Escrituras, deparamo-nos com um fato que, por ser demasiadamente conhecido, talvez já não desperte a atenção que merece. Antes que existisse uma nação escolhida, antes que houvesse profetas, sacerdotes ou reis, antes que qualquer mandamento fosse escrito em tábuas de pedra e antes mesmo que o pecado alterasse a experiência humana, Deus falou. A revelação não surgiu como resposta ao fracasso do homem. Ela precedeu esse fracasso. Deus revelou-Se antes que a humanidade sentisse necessidade de procurar explicações sobre a realidade.
Essa ordem não parece acidental. Se o Criador decidiu falar antes mesmo que o homem formulasse suas primeiras perguntas, não seria porque desejava oferecer, desde o princípio, o fundamento sobre o qual toda compreensão da realidade deveria ser construída? Se assim for, a revelação não aparece como um complemento da experiência humana. Ela aparece como seu ponto de partida.
Essa observação merece ser examinada com maior atenção. Adão abriu os olhos em um universo que não havia construído. Tudo o que contemplava existia antes dele. A luz, a terra, os mares, os animais, as árvores e o próprio jardim não eram resultado de sua investigação nem de sua capacidade de compreender o mundo. Eram dádivas recebidas das mãos do Criador. Como poderia interpretar corretamente aquilo cuja origem desconhecia? Como compreender o significado da criação sem ouvir Aquele que a trouxera à existência?
Talvez seja exatamente por essa razão que a primeira iniciativa partiu de Deus. Antes que o homem descrevesse o mundo, Deus explicou sua origem. Antes que procurasse descobrir seu lugar na criação, Deus lhe revelou sua identidade e sua missão. Antes que organizasse uma interpretação da realidade, recebeu do próprio Criador os princípios pelos quais essa realidade deveria ser compreendida.
Não seria essa a primeira grande lição hermenêutica das Escrituras?
Essa pergunta talvez surpreenda alguns leitores. Estamos acostumados a associar a hermenêutica ao estudo de métodos de interpretação desenvolvidos muito tempo depois da redação dos textos bíblicos. Entretanto, não seria possível afirmar que a primeira regra de interpretação já aparece nas primeiras páginas da própria revelação? Antes de interpretar a criação, o homem deveria ouvir o Criador. Antes de construir explicações, deveria receber a explicação dada por Deus. Antes de organizar o conhecimento, deveria reconhecer a autoridade daquele que conhece perfeitamente todas as coisas.
Se essa observação estiver correta, uma consequência importante começa a surgir diante de nós. Sempre que essa ordem é preservada, a revelação permanece como fundamento da compreensão humana. Mas o que acontece quando essa ordem se inverte? O que ocorre quando a criatura passa a organizar previamente uma compreensão da realidade e, somente depois, procura ajustar a revelação a essa estrutura? Permanecem inalteradas as conclusões ou o próprio processo de interpretação começa a seguir outro caminho?
Essas perguntas ainda não podem ser respondidas. Antes disso, será necessário observar outro aspecto frequentemente negligenciado na narrativa do Gênesis.
Quando Deus revelou a criação ao homem, não lhe entregou apenas informações sobre acontecimentos passados. Revelou também uma maneira de compreender toda a realidade. A criação não foi apresentada como um conjunto de fatos isolados, mas como uma ordem estabelecida pela vontade divina. Cada elemento ocupa um lugar. Cada criatura recebe uma função. Cada limite é definido pelo próprio Criador. Nada aparece como resultado do acaso ou da necessidade. Tudo encontra significado porque procede da vontade daquele que fez todas as coisas.
Essa característica talvez explique por que os autores bíblicos retornam continuamente ao princípio. Eles não procuram ali apenas uma explicação para a origem do mundo. Procuram o fundamento da ordem criada, da moral, da dignidade humana, do trabalho, do descanso, da família, da responsabilidade e da esperança. O princípio ilumina o restante da revelação porque nele Deus estabelece os fundamentos sobre os quais toda a história da redenção será desenvolvida.
Se isso é verdadeiro, outra pergunta passa a exigir nossa atenção. Como essa compreensão da realidade foi recebida pelas gerações posteriores? Permaneceu ela como fundamento permanente da interpretação bíblica ou começou, pouco a pouco, a compartilhar esse lugar com outras formas de compreender o universo? Essa é a questão que conduzirá os próximos passos de nossa investigação.
Revelação e Experiência: Qual Deve Vir Primeiro?
Talvez alguém considere excessiva a importância atribuída às primeiras páginas do Gênesis. Afinal, não seria possível compreender a realidade apenas pela observação da natureza? O universo não está diante de nossos olhos? Não seria suficiente estudá-lo cuidadosamente para descobrir sua origem, sua estrutura e suas leis?
Essas perguntas acompanham a humanidade há muito tempo. À primeira vista, parecem razoáveis. Afinal, desde os tempos mais antigos o homem observa os céus, contempla o movimento dos astros, investiga os ciclos da natureza e procura compreender o mundo em que vive. A curiosidade faz parte da própria condição humana e a Bíblia jamais a apresenta como um defeito. Pelo contrário, o próprio mandato para cultivar a terra e exercer domínio sobre a criação pressupõe observação, inteligência, organização e aprendizado.
Entretanto, será que observar é o mesmo que interpretar?
Essa distinção merece atenção. Dois homens podem contemplar o mesmo fenômeno e chegar a conclusões completamente diferentes. Ambos enxergam os mesmos fatos, mas não lhes atribuem o mesmo significado. Isso acontece porque os fatos, por si sós, não produzem uma interpretação. Eles precisam ser compreendidos dentro de uma estrutura que lhes dê sentido. Em outras palavras, a observação fornece informações; a interpretação organiza essas informações segundo determinados princípios.
É justamente nesse ponto que a revelação assume um papel insubstituível. Deus não concedeu ao ser humano apenas um mundo para observar. Concedeu-lhe também a explicação necessária para compreendê-lo corretamente. Antes que Adão acumulasse experiências suficientes para formular teorias sobre a realidade, já possuía aquilo que nenhuma experiência poderia oferecer: a palavra do próprio Criador.
Essa ordem talvez constitua um dos aspectos mais importantes da narrativa bíblica. O homem não iniciou sua existência procurando descobrir quem era Deus. Encontrou-se, desde o primeiro momento, diante de um Deus que Se revelou. Também não precisou construir lentamente uma explicação sobre sua própria origem. Recebeu essa explicação daquele que o havia formado. Nem mesmo foi obrigado a descobrir sozinho qual era sua missão. Deus a revelou antes que qualquer dúvida surgisse.
Seria exagero afirmar que essa ordem estabelece um princípio permanente? Ou deveríamos perguntar se a própria revelação pretende ensinar, desde o princípio, que o conhecimento humano deve desenvolver-se a partir daquilo que Deus revelou e não independentemente dessa revelação?
Essa pergunta nos conduz a outra observação importante. Sempre que as Escrituras apresentam momentos decisivos da história da salvação, a iniciativa pertence a Deus. Foi Deus quem chamou Abraão. Foi Deus quem revelou Sua Lei a Israel. Foi Deus quem enviou os profetas. Foi Deus quem Se fez carne em Cristo. Foi Deus quem inspirou as Escrituras. Em nenhum desses acontecimentos a revelação aparece como resultado da busca humana. Ela nasce da iniciativa divina.
Não parece existir, portanto, uma continuidade entre o modo como Deus revelou Sua vontade ao longo da história e aquilo que encontramos nas primeiras páginas do Gênesis? Em todos os casos, Deus fala primeiro. O homem responde depois. A revelação precede a interpretação. A palavra antecede a compreensão. O fundamento é estabelecido antes que o edifício comece a ser construído.
Se esse padrão atravessa toda a história bíblica, outra pergunta começa a tornar-se inevitável. Em que momento passou a parecer natural inverter essa ordem? Quando começou a difundir-se a ideia de que a interpretação da realidade poderia ser organizada primeiramente por categorias elaboradas pela razão humana, para somente depois buscar harmonização com a revelação? Essa mudança ocorreu de forma repentina ou desenvolveu-se lentamente, quase sem ser percebida, enquanto novas formas de pensar eram incorporadas ao ambiente intelectual do cristianismo?
Responder a essas perguntas exigirá um longo percurso histórico. Antes, porém, será necessário compreender outro aspecto da própria revelação. Se Deus ofereceu ao homem uma maneira de interpretar a criação, quais eram as características dessa compreensão? Que visão da realidade emerge naturalmente da leitura do Gênesis? E em que medida essa estrutura permaneceu presente ao longo de toda a narrativa bíblica?
São essas perguntas que orientarão os próximos passos de nossa investigação. Não porque desejemos transformar o Gênesis em objeto de especulação, mas porque a própria Escritura continuamente retorna ao princípio quando deseja explicar aquilo que vem depois. Talvez exista nisso uma lição metodológica que ainda não aprendemos plenamente.
A Revelação Apresenta Apenas Informações ou Também um Método?
À medida que avançamos nesta investigação, uma pergunta torna-se cada vez mais necessária. Quando lemos os primeiros capítulos do Gênesis, estamos diante apenas de um relato sobre acontecimentos ocorridos no princípio da criação ou também recebemos um princípio destinado a orientar toda a maneira pela qual o ser humano deveria compreender a realidade?
Essa distinção talvez pareça sutil, mas dela depende grande parte do que será desenvolvido nas páginas seguintes.
Se o Gênesis apenas informa que Deus criou todas as coisas, sua importância limita-se, em certa medida, ao conhecimento da origem do universo. Se, porém, além de narrar a criação, estabelece também o modo pelo qual essa criação deve ser compreendida, então suas implicações alcançam toda a interpretação bíblica. Nesse caso, o relato da criação deixa de ser apenas o primeiro acontecimento registrado nas Escrituras para tornar-se o primeiro princípio hermenêutico da revelação.
Mas será que a própria Bíblia autoriza essa conclusão?
Vale a pena observar cuidadosamente a maneira como Deus conduz a narrativa. Em nenhum momento o homem aparece construindo uma explicação para o universo mediante sucessivas tentativas de interpretação. Também não encontramos Deus corrigindo teorias formuladas por Adão sobre a origem da criação. O movimento ocorre exatamente no sentido inverso. Deus revela. O homem recebe. Deus fala. O homem aprende. Deus estabelece os limites. O homem passa a compreender sua existência dentro desses limites.
Essa sequência parece repetir-se ao longo de toda a história bíblica.
Quando Deus estabelece a aliança com Abraão, não o convida primeiro a elaborar uma compreensão sobre Seu plano para depois corrigi-la. Revela-lhe Seu propósito e somente então chama-o a responder em fé.
Quando Israel é libertado do Egito, a Lei não surge como resultado da experiência acumulada pelo povo no deserto. Ela é dada por Deus para orientar essa experiência.
Quando os profetas falam, não procuram adaptar a revelação às ideias predominantes de sua época. Chamam continuamente o povo de volta àquilo que Deus já havia revelado.
Quando Cristo inicia Seu ministério, também não apresenta uma nova fonte de autoridade. Reafirma continuamente: “Está escrito”. Não parece existir, portanto, um padrão constante em toda a revelação? Sempre que Deus intervém, Sua Palavra precede a compreensão humana. Sempre que o homem abandona esse princípio, a própria história bíblica registra as consequências dessa inversão.
Tal observação talvez explique por que as Escrituras demonstram tanta preocupação com a preservação da Palavra revelada. O problema nunca consistiu apenas em conservar um texto. Tratava-se de preservar o fundamento a partir do qual toda a realidade deveria ser compreendida.
Essa perspectiva lança nova luz sobre uma questão que acompanhará todo esta coleção.
Quando, ao longo da história, outras estruturas intelectuais começaram a dialogar com o pensamento cristão, qual posição passaram a ocupar? Permaneceram como instrumentos auxiliares da investigação ou começaram, ainda que lentamente, a exercer influência sobre o próprio fundamento da interpretação?
Responder a essa pergunta exige prudência. Nenhuma civilização altera sua maneira de compreender a realidade de um dia para o outro. Mudanças profundas raramente acontecem por rupturas bruscas. Desenvolvem-se gradualmente. Uma geração introduz pequenas modificações. A seguinte as recebe como naturais. A terceira já não consegue imaginar que um dia se tenha pensado de maneira diferente. Quando esse processo se completa, os pressupostos deixaram de ser percebidos porque passaram a constituir o próprio ambiente intelectual dentro do qual todos aprendem a pensar.
Talvez seja exatamente por isso que as maiores mudanças da história costumam ser também as menos percebidas por aqueles que vivem durante elas. Esse fato nos conduz naturalmente ao próximo passo de nossa investigação.
Se realmente ocorreu uma transformação na maneira pela qual a realidade passou a ser compreendida, ela dificilmente começou pelas conclusões. Muito provavelmente começou pelos pressupostos. Antes de modificar a interpretação das Escrituras, precisou modificar o modo como o próprio ato de interpretar passou a ser entendido. É justamente esse processo, silencioso e cumulativo, que passaremos a acompanhar a partir do capítulo seguinte, quando examinaremos como diferentes estruturas de pensamento começaram a dialogar com a tradição bíblica e quais consequências esse diálogo produziu para a formação da cosmovisão predominante no mundo cristão.
A Primeira Cosmovisão Não Foi Descoberta. Foi Revelada.
Se o ponto de partida da compreensão bíblica da realidade encontra-se no Gênesis, outra pergunta precisa ser enfrentada antes de avançarmos. Quando Deus criou o ser humano, pretendia que ele construísse, por seus próprios esforços, uma interpretação do universo ou decidiu revelar-lhe, desde o princípio, a maneira pela qual Sua criação deveria ser compreendida?
A própria narrativa bíblica parece conduzir-nos à resposta.
Em nenhum momento encontramos Adão observando a criação durante longo tempo para, somente depois, formular uma explicação sobre sua origem, sua ordem ou seu propósito. Também não encontramos Deus aguardando que o homem elaborasse diferentes hipóteses para então indicar qual delas se aproximava mais da verdade. A sequência apresentada pela revelação segue direção oposta. Primeiro Deus cria. Em seguida Deus fala. Somente depois o homem passa a conhecer a realidade na qual foi colocado.
Essa ordem merece cuidadosa atenção porque estabelece um princípio que atravessa toda a narrativa bíblica. O conhecimento fundamental não nasce da autonomia da criatura, mas da iniciativa do Criador. Antes que o homem pudesse perguntar, Deus respondeu. Antes que pudesse formular uma teoria sobre o universo, Deus revelou sua origem. Antes que procurasse descobrir quem era, Deus declarou sua identidade. Antes que tentasse definir sua missão, Deus lhe confiou responsabilidades e estabeleceu os limites de sua atuação.
Seria possível compreender corretamente a criação ignorando essa ordem?
A pergunta não procura diminuir a importância da observação, da inteligência ou da investigação humana. O próprio mandato dado ao homem para cultivar a terra e exercer domínio sobre os seres vivos pressupõe aprendizado, organização e desenvolvimento do conhecimento. A Bíblia jamais apresenta a ignorância como virtude. Entretanto, também jamais apresenta a autonomia intelectual como fundamento da verdade. Entre conhecer e interpretar existe uma diferença que não pode ser ignorada.
Conhecer significa observar aquilo que Deus fez. Interpretar significa compreender o significado daquilo que foi observado. A observação pode ser aperfeiçoada continuamente. A interpretação, porém, depende do referencial utilizado para organizar aquilo que foi conhecido. É justamente nesse ponto que a revelação assume um papel insubstituível. Ela não substitui a experiência humana, mas impede que essa experiência se transforme na autoridade última para explicar a realidade.
Tal princípio não permanece restrito ao relato da criação. Toda a história bíblica desenvolve-se segundo a mesma lógica. Deus chama Abraão antes que exista Israel. Revela Sua vontade antes de entregar a terra prometida. Concede Sua Lei antes que o povo organize sua vida nacional. Envia profetas antes que a apostasia se torne irreversível. Em todos esses momentos, a revelação antecede a experiência. A Palavra orienta a caminhada antes que os acontecimentos sejam plenamente compreendidos.
Não seria esse um padrão estabelecido pelo próprio Deus?
Se assim for, talvez devamos formular outra pergunta. Por que, em determinado momento da história, tornou-se cada vez mais comum inverter essa ordem? Quando começou a parecer natural construir previamente uma interpretação da realidade para, somente depois, procurar harmonizar essa interpretação com a revelação? Essa mudança ocorreu de forma consciente ou desenvolveu-se lentamente, quase sem ser percebida pelas gerações que participaram desse processo?
Responder a essas perguntas exige que avancemos com prudência. Antes de examinar o encontro entre a tradição bíblica e outras formas de pensamento, precisamos compreender melhor a estrutura apresentada pela própria revelação. Afinal, ninguém pode reconhecer uma mudança sem conhecer suficientemente o ponto do qual se afastou.
Talvez seja exatamente essa a razão pela qual os escritores bíblicos retornam continuamente ao princípio. Sempre que desejam reafirmar a autoridade de Deus, explicar a dignidade do ser humano, fundamentar a moral, recordar o significado do sábado ou renovar a esperança da restauração final, voltam à criação. Não recorrem ao princípio por simples respeito à antiguidade do relato, mas porque reconhecem nele o fundamento permanente da maneira pela qual Deus deseja que Sua criação seja compreendida.
Essa observação conduz naturalmente ao próximo passo de nossa investigação. Se a primeira compreensão da realidade foi revelada pelo próprio Criador, quais eram as características dessa compreensão? Em que aspectos ela se distingue das estruturas de pensamento que surgiram posteriormente? E, sobretudo, como identificar o momento em que outra maneira de interpretar o universo começou a disputar com a revelação o lugar de fundamento da compreensão humana?
É a partir dessas perguntas que nossa caminhada prosseguirá.
Uma Cosmovisão Pode Ser Substituída Sem Que Percebamos?
A pergunta que encerra a seção anterior conduz-nos a outra cuja resposta será decisiva para toda esta obra. Se Deus revelou ao homem uma maneira de compreender Sua criação, seria possível que essa compreensão fosse substituída sem que a própria revelação fosse formalmente rejeitada?
À primeira vista, muitos responderiam negativamente. Parece difícil imaginar que uma mudança tão profunda pudesse ocorrer sem provocar forte resistência entre aqueles que reconhecem a autoridade das Escrituras. Entretanto, a própria história bíblica convida-nos a examinar essa questão com maior prudência.
Quantas vezes Israel abandonou os princípios revelados sem abandonar imediatamente a linguagem da fé? Quantas vezes continuou oferecendo sacrifícios enquanto seu coração já se afastara da vontade de Deus? Quantas vezes preservou o templo, o sacerdócio e as cerimônias religiosas, embora os profetas denunciassem uma ruptura muito mais profunda, situada não nas formas exteriores da religião, mas na maneira pela qual o povo compreendia sua relação com Deus?
Essas perguntas sugerem uma possibilidade que merece cuidadosa investigação. Talvez as mudanças mais profundas não comecem pela rejeição explícita da verdade. Talvez comecem quando novos pressupostos passam a conviver silenciosamente com aquilo que Deus revelou. Durante algum tempo ambos parecem compatíveis. A linguagem permanece praticamente inalterada. As expressões continuam sendo utilizadas. Os textos bíblicos continuam sendo lidos. Entretanto, pouco a pouco, aquilo que inicialmente servia apenas como instrumento auxiliar passa a exercer influência crescente sobre a interpretação da própria revelação.
Não seria exatamente assim que grandes transformações intelectuais costumam ocorrer?
Quando observamos a história das ideias, dificilmente encontramos civilizações que abandonaram, de um dia para o outro, toda a estrutura de pensamento anteriormente aceita. O que normalmente encontramos é um processo muito mais lento. Novas formas de compreender a realidade surgem discretamente, convivem durante certo tempo com as antigas, conquistam espaço nas universidades, nas escolas, nos centros de formação intelectual e, por fim, tornam-se tão familiares que deixam de ser percebidas como novidades. Nesse momento, aquilo que um dia representou uma profunda mudança passa a parecer simplesmente o modo natural de pensar.
Se esse fenômeno ocorre na história das civilizações, seria prudente perguntar se algo semelhante também poderia ocorrer na história da interpretação bíblica.
Essa pergunta não parte da suspeita de que a Palavra de Deus tenha mudado. As Escrituras permanecem as mesmas. O que pode modificar-se é a maneira pela qual nos aproximamos delas. Um mesmo texto pode ser lido a partir de pressupostos diferentes. As palavras permanecem inalteradas. O horizonte de interpretação, porém, pode transformar-se profundamente.
Talvez possamos compreender melhor essa possibilidade recorrendo a uma comparação simples. Quando um edifício começa a apresentar rachaduras, raramente o problema se encontra nas paredes. Na maioria das vezes, a origem da dificuldade está nos alicerces. Durante certo tempo, a construção permanece aparentemente estável. Somente mais tarde os efeitos da alteração começam a tornar-se visíveis. Quem observa apenas a superfície pode imaginar que o problema surgiu de repente. Entretanto, sua verdadeira causa estava presente muito antes de seus sinais se manifestarem.
Não poderia acontecer algo semelhante com a interpretação das Escrituras?
Será que algumas das grandes divergências teológicas que marcaram a história cristã nasceram apenas da leitura de determinados textos bíblicos ou refletiam mudanças mais profundas nos fundamentos utilizados para compreendê-los? Antes de responder a essa pergunta, será necessário investigar quais eram esses fundamentos e como eles passaram, pouco a pouco, a organizar a compreensão da realidade.
É justamente aqui que o conceito de cosmovisão assume sua importância. Não porque represente uma ideia nova, mas porque oferece uma linguagem adequada para descrever um fenômeno tão antigo quanto a própria humanidade. Toda interpretação parte de uma compreensão prévia da realidade. A diferença entre uma cosmovisão e outra não está apenas nas respostas que oferece, mas, sobretudo, nas perguntas que considera legítimas e na autoridade que reconhece como fundamento dessas respostas.
Chegamos, portanto, a um ponto decisivo de nossa investigação. Se realmente existe uma estrutura de pensamento que antecede toda interpretação, devemos perguntar qual era a estrutura apresentada pela revelação e como ela passou a relacionar-se com outras formas de compreender o mundo que surgiram ao longo da história. Somente então poderemos avaliar se ocorreu uma simples ampliação do conhecimento humano ou se, de maneira quase imperceptível, o próprio fundamento da interpretação começou a deslocar-se para outra direção.
Essa distinção acompanhará todo o restante desta obra. Antes de compararmos diferentes concepções da realidade, precisaremos compreender, com a maior precisão possível, a estrutura apresentada pelas próprias Escrituras. Somente a partir desse fundamento será possível examinar, com equilíbrio e justiça, o longo processo histórico que transformou profundamente a maneira pela qual o mundo ocidental passou a compreender a criação e, consequentemente, a interpretar a Palavra de Deus.
A essa altura de nossa investigação, talvez já seja possível perceber que o problema não consiste simplesmente em comparar duas explicações diferentes acerca da origem ou da estrutura do universo. Se fosse apenas essa a questão, estaríamos diante de um debate restrito ao campo da cosmologia. Entretanto, as perguntas que surgiram até aqui conduzem a um problema muito mais profundo. Sempre que uma civilização modifica a autoridade a partir da qual interpreta a realidade, modifica também a maneira como compreende o próprio Deus, o ser humano, a história e o propósito da existência. A transformação não permanece confinada a uma única área do conhecimento. Ela alcança toda a estrutura do pensamento porque altera o fundamento sobre o qual esse pensamento é construído.
Talvez seja essa a razão pela qual as grandes mudanças históricas raramente sejam percebidas enquanto estão acontecendo. Quando um novo edifício é construído, todos observam suas paredes, suas colunas e sua arquitetura. Poucos, porém, acompanham a construção de seus alicerces, embora deles dependa a estabilidade de toda a obra. Algo semelhante ocorre com as ideias. As conclusões costumam receber toda a atenção, enquanto os pressupostos permanecem quase invisíveis. No entanto, são justamente eles que determinam o caminho pelo qual as conclusões serão alcançadas. Modifique-se o fundamento, e cedo ou tarde toda a construção refletirá essa alteração, ainda que, durante algum tempo, sua aparência permaneça praticamente inalterada.
É exatamente esse processo que procuraremos acompanhar nas páginas seguintes. Não investigaremos apenas o surgimento de novas teorias ou de novos sistemas filosóficos. Nosso interesse concentra-se na lenta formação de um novo ponto de partida para interpretar a realidade. Esse deslocamento dificilmente ocorreu de maneira repentina ou por decisão consciente de uma única geração. Desenvolveu-se ao longo de séculos, por meio do diálogo entre diferentes culturas, escolas filosóficas e tradições intelectuais, até que determinados pressupostos passaram a parecer tão evidentes que deixaram de ser percebidos como pressupostos. Quando isso aconteceu, a própria leitura das Escrituras começou, em muitos casos, a ser realizada dentro de um horizonte intelectual diferente daquele apresentado pela revelação.
Antes, porém, de acompanhar esse percurso histórico, convém fazer uma última observação. A Bíblia nunca apresenta a verdade como resultado de uma longa ascensão intelectual do homem em direção a Deus. O movimento descrito pelas Escrituras é sempre o inverso. É Deus quem toma a iniciativa de revelar-Se. É Deus quem fala aos patriarcas. É Deus quem chama os profetas. É Deus quem entrega Sua Lei. É Deus quem envia Seu Filho. É Deus quem inspira as Escrituras. Desde o princípio até o fim da narrativa bíblica, a revelação nasce da iniciativa divina, enquanto ao ser humano cabe recebê-la, compreendê-la e viver de acordo com ela. Essa ordem nunca é acidental. Ela expressa uma verdade fundamental: a criatura depende do Criador não apenas para existir, mas também para compreender corretamente a realidade na qual foi colocada.
Se esse princípio permanecer diante de nós, o caminho que percorreremos a seguir tornar-se-á mais claro. Não estaremos perguntando simplesmente como a filosofia se desenvolveu, nem de que maneira a ciência moderna passou a descrever o universo. Perguntaremos algo anterior a tudo isso: em que momento outras formas de compreender a realidade começaram a ocupar um espaço que, segundo a própria revelação, pertencia originalmente à Palavra de Deus? Essa será a questão que acompanhará toda a investigação. A resposta não será buscada em opiniões pessoais nem em preferências confessionais, mas no diálogo permanente entre as Escrituras e a história. Somente permitindo que a revelação estabeleça o ponto de partida e que a história testemunhe o caminho percorrido poderemos avaliar, com equilíbrio e responsabilidade, se realmente ocorreu uma mudança de cosmovisão e quais consequências essa mudança produziu para a interpretação da Bíblia e para a compreensão cristã da realidade.
A investigação conduzida até este ponto permite-nos formular, com maior precisão, a questão que servirá de eixo para toda a obra. Não perguntaremos simplesmente se uma teoria substituiu outra, nem se determinada escola filosófica exerceu maior ou menor influência sobre a cultura ocidental. Perguntaremos algo anterior a essas discussões. Em que momento a autoridade utilizada para interpretar a realidade começou a deslocar-se da revelação para outras formas de conhecimento? Essa pergunta pode parecer apenas uma reformulação das anteriores, mas, na verdade, representa uma mudança profunda de perspectiva. Enquanto a primeira dirige nossa atenção para as conclusões, esta nos obriga a examinar os fundamentos.
Essa distinção é importante porque os fundamentos raramente se apresentam de maneira explícita. Ninguém costuma iniciar uma investigação declarando todos os pressupostos que orientam seu pensamento. Na maioria das vezes eles permanecem implícitos, atuando silenciosamente sobre a maneira como os fatos são selecionados, organizados e interpretados. Justamente por isso tornam-se tão difíceis de identificar. Um pressuposto invisível costuma exercer influência muito maior do que uma afirmação claramente formulada, porque deixa de ser discutido e passa a ser simplesmente aceito como evidente.
Talvez possamos compreender melhor esse processo observando a própria história bíblica. Quando a serpente dialogou com Eva no jardim, não começou negando abertamente a existência de Deus nem rejeitando toda a revelação anteriormente recebida. Sua estratégia foi muito mais sutil. Introduziu uma nova possibilidade de interpretação. A pergunta dirigida à mulher não destruiu imediatamente a autoridade da Palavra divina; procurou apenas deslocar o fundamento sobre o qual essa Palavra deveria ser compreendida. Pela primeira vez, a criatura foi convidada a considerar a possibilidade de construir sua compreensão da realidade a partir de um referencial diferente daquele estabelecido pelo Criador.
Tal observação talvez mereça maior atenção do que normalmente recebe. O primeiro conflito registrado pelas Escrituras não ocorre entre religião e irreligião, nem entre fé e ateísmo. O conflito desenvolve-se entre duas autoridades que oferecem interpretações diferentes da mesma realidade. De um lado está a Palavra de Deus. De outro, uma nova leitura dos mesmos acontecimentos. A questão central nunca foi a existência da árvore, do fruto ou do jardim. A questão consistia em decidir qual voz seria reconhecida como autoridade para interpretar aquilo que Deus havia criado e aquilo que Deus havia dito.
Não parece significativo que a história bíblica comece justamente por esse conflito? Se o primeiro ataque dirige-se contra a autoridade da revelação, não seria razoável perguntar se esse mesmo princípio continuou manifestando-se, sob diferentes formas, ao longo da história? Será que as grandes mudanças ocorridas na compreensão da realidade não repetem, em contextos diferentes, essa mesma disputa acerca da autoridade? E, se isso for verdadeiro, não deveríamos examinar a história do pensamento humano procurando identificar de que maneira essa tensão reaparece nas diversas épocas?
Essas perguntas nos conduzem, naturalmente, para além das primeiras páginas do Gênesis. A partir deste momento, será necessário acompanhar o desenvolvimento da civilização humana, observando como diferentes culturas procuraram responder às grandes questões da existência. Não faremos isso para substituir a revelação pela história, mas para compreender como a história testemunha o surgimento de diferentes estruturas de pensamento. Somente depois de conhecer esse percurso poderemos comparar essas estruturas com aquela apresentada pela própria Bíblia e avaliar, com suficiente clareza, em que aspectos convergem, em que aspectos divergem e quais consequências essas diferenças produziram para a interpretação das Escrituras.
É justamente nesse ponto que nossa atenção começará a voltar-se para o mundo antigo. Muito antes do surgimento da ciência moderna, antes do Renascimento e antes das grandes transformações intelectuais da Europa, diferentes povos já procuravam explicar a origem do universo, a natureza da matéria, o lugar do homem e o fundamento da verdade. Essas tentativas não pertencem apenas à história da filosofia. Elas constituem parte indispensável da investigação que estamos desenvolvendo, porque foi nesse ambiente que começaram a formar-se categorias intelectuais que, muitos séculos depois, exerceriam profunda influência sobre a maneira como o Ocidente passou a compreender a realidade.
Nossa caminhada histórica, portanto, não começará procurando identificar erros ou acertos em cada sistema de pensamento. Começará com uma pergunta muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais decisiva: quando diferentes civilizações procuraram compreender o universo, de onde partiram? Partiram da revelação concedida pelo Criador ou da capacidade da própria criatura para explicar a realidade? A resposta a essa pergunta nos permitirá compreender por que determinadas concepções do mundo aproximaram-se da estrutura apresentada pelas Escrituras, enquanto outras seguiram caminhos profundamente diferentes. É esse percurso que iniciaremos a seguir.
“No princípio criou Deus os céus e a terra.”
Nenhuma outra declaração exerceu influência tão profunda sobre a maneira de compreender a realidade quanto essa primeira frase das Escrituras. Antes que existisse um povo chamado Israel, antes que fossem escritos os Dez Mandamentos, antes dos profetas, dos reis, dos evangelhos e das cartas apostólicas, Deus decidiu começar Sua revelação afirmando algo muito específico: tudo o que existe procede de um ato criador.
À primeira vista, essa parece apenas uma afirmação sobre a origem do universo*. Entretanto, será que é somente isso?
Quando um inventor apresenta sua obra, quem possui maior autoridade para explicar seu funcionamento: o inventor ou aqueles que apenas a observam? Quando um arquiteto conclui um edifício, quem conhece melhor seus fundamentos: aquele que o projetou ou aqueles que passam diante dele todos os dias? A resposta parece tão evidente que dificilmente despertaria discussão. Aquele que cria conhece sua obra de maneira que nenhum observador jamais poderá conhecer.
Por que, então, a Bíblia começa pela criação?
Será apenas porque Deus desejava informar ao homem como o universo surgiu? Ou porque desejava estabelecer, desde a primeira página da revelação, quem possui autoridade para explicar a realidade?
Essa pergunta talvez seja mais importante do que imaginamos.
Desde o princípio, o ser humano vive em um universo que não produziu. Não escolheu as leis que o governam. Não estabeleceu sua ordem. Não determinou sua origem nem seu propósito. Encontrou tudo pronto. A própria existência lhe foi dada antes que pudesse formular qualquer pergunta sobre ela. Como poderia, então, compreender corretamente aquilo cuja origem desconhecia?
É exatamente nesse ponto que a revelação começa. Antes que o homem construísse uma interpretação do universo, Deus falou. Antes que elaborasse teorias, Deus revelou. Antes que organizasse sua compreensão da realidade, Deus apresentou a realidade conforme ela verdadeiramente é. Essa ordem merece atenção.
A revelação não aparece como resposta à investigação humana. A investigação humana é que nasce da revelação. Essa talvez seja uma das diferenças mais profundas entre a maneira bíblica de compreender o conhecimento e muitas formas pelas quais a civilização passou, posteriormente, a explicar o mundo.
Ao longo da história, homens extraordinariamente inteligentes observaram a natureza, desenvolveram sistemas filosóficos, formularam teorias, organizaram métodos de investigação e ampliaram de maneira admirável o conhecimento humano. Nada disso deve ser desprezado. A capacidade de investigar, raciocinar e descobrir também faz parte dos dons concedidos pelo Criador.
Entretanto, uma pergunta permanece. A observação da criação basta para explicar a criação? Ou existe algo que somente o Criador pode revelar? É justamente aqui que nossa reflexão começa. Não perguntaremos, inicialmente, qual teoria científica descreve melhor o universo. Também não começaremos discutindo escolas filosóficas ou sistemas teológicos. Antes de tudo isso existe uma questão anterior.
Quem possui autoridade para interpretar a realidade? Enquanto essa pergunta permanecer sem resposta, qualquer discussão posterior continuará apoiando-se sobre um fundamento cuja legitimidade ainda não foi examinada. Talvez seja exatamente por isso que as Escrituras retornam continuamente ao princípio.
Quando os profetas desejam recordar quem é Deus, falam do Criador. Quando os salmistas exaltam Seu poder, celebram Suas obras. Quando Cristo explica o casamento, volta ao princípio. Quando Paulo fala sobre o pecado e a redenção, volta ao primeiro homem. Quando João descreve a consumação da história, anuncia novos céus e nova terra.
Do princípio ao fim, a Bíblia parece desenvolver uma única narrativa. Mas será que nós continuamos lendo as Escrituras a partir desse mesmo ponto de partida? Ou, em algum momento da história, passamos a olhar para a revelação a partir de outro fundamento?
Responder a essa pergunta exigirá percorrer um longo caminho. Antes, porém, será necessário compreender como a própria Bíblia ensina o homem a interpretar a realidade. Somente conhecendo esse fundamento poderemos reconhecer se ele permaneceu intacto ao longo da história ou se, pouco a pouco, outra maneira de compreender o mundo passou a ocupar seu lugar.
Introdução pra valer
Toda civilização procura responder às mesmas perguntas fundamentais. De onde viemos? Por que o universo existe? O que é o ser humano? Como surgiu o mal? Existe um propósito para a história? Para onde caminha a humanidade? As respostas oferecidas a essas perguntas variam de uma cultura para outra, de uma época para outra e, muitas vezes, de um pensador para outro. Entretanto, antes mesmo de compararmos essas respostas, existe uma pergunta anterior que raramente recebe a atenção que merece: quem possui autoridade para respondê-las? Essa talvez seja a questão mais importante de todas, porque dela depende a legitimidade de qualquer explicação que pretendamos oferecer acerca da realidade.
Antes de perguntarmos o que pensamos sobre o universo, deveríamos perguntar quem realmente pode explicá-lo. Antes de investigarmos as diferentes interpretações da criação, deveríamos perguntar quem conhece a criação em sua plenitude. Essa pergunta parece tão simples que muitos a considerariam desnecessária. Contudo, talvez seja justamente sua aparente simplicidade que tenha impedido gerações de perceberem suas consequências.
A Bíblia responde a essa questão logo na primeira frase. Antes de apresentar um povo, uma lei, uma aliança ou um plano de redenção, ela apresenta o Criador. “No princípio criou Deus os céus e a terra.” Essa declaração normalmente é lida como uma afirmação acerca da origem do universo*, mas ela faz muito mais do que isso. Ela estabelece quem possui autoridade para interpretar a realidade. Se Deus é o Criador de todas as coisas, então nenhuma criatura conhece a criação de maneira tão completa quanto Aquele que a trouxe à existência.
O conhecimento do Criador não depende de observação, hipótese, cálculo ou experiência. Deus não aprende sobre Sua obra; Ele a conhece porque é seu Autor. Essa diferença não é secundária. Ela estabelece uma distinção radical entre o conhecimento recebido por revelação e o conhecimento construído pela investigação humana. Ambos possuem seu lugar, mas não ocupam a mesma posição. A investigação pode ampliar nossa compreensão daquilo que Deus fez; somente a revelação pode explicar plenamente por que Deus o fez e qual é o significado de Sua obra.
Essa ordem aparece desde o início das Escrituras. Adão não foi colocado diante de um universo* desconhecido para, lentamente, descobrir sua origem mediante observação e experiência. Antes que pudesse formular qualquer teoria sobre a realidade, Deus já havia falado. Antes que pudesse construir uma explicação para sua existência, Deus já lhe havia revelado quem era, de onde viera, qual era sua missão e quais eram os limites dentro dos quais sua liberdade deveria ser exercida.
A primeira compreensão da realidade não nasceu da especulação humana. Nasceu da revelação divina. Esse detalhe talvez pareça apenas um aspecto da narrativa da criação, mas dificilmente será exagero afirmar que nele repousa um dos princípios mais importantes de toda a Bíblia. A revelação não surge para corrigir interpretações equivocadas elaboradas pelo homem; ela antecede qualquer interpretação possível. Deus não espera que a criatura explique Sua obra para depois dizer onde ela acertou ou errou. Ele revela primeiro e convida o homem a compreender o mundo a partir daquilo que foi revelado.
Se esse princípio permanecer diante de nós, uma consequência começa a tornar-se inevitável. Toda vez que a revelação deixa de ocupar essa posição de fundamento, outra autoridade necessariamente assume o seu lugar. Essa substituição nem sempre ocorre de maneira explícita. Raramente uma civilização declara que abandonará a revelação para construir uma nova compreensão da realidade. Processos históricos dessa natureza desenvolvem-se lentamente.
Novas categorias intelectuais surgem como instrumentos auxiliares, passam a orientar determinadas interpretações e, depois de algumas gerações, tornam-se tão familiares que deixam de ser percebidas como pressupostos. Quando isso acontece, a própria leitura das Escrituras pode continuar utilizando as mesmas palavras enquanto seu horizonte de compreensão já não é exatamente o mesmo. A linguagem permanece. O fundamento, porém, pode ter mudado silenciosamente.
É precisamente essa possibilidade que torna necessária a investigação desenvolvida neste livro. A questão central não será descobrir qual civilização produziu a filosofia mais sofisticada, qual teoria científica descreveu melhor determinados fenômenos naturais ou qual sistema teológico alcançou maior influência na história do cristianismo. Todas essas discussões possuem sua importância, mas pertencem a um nível posterior.
Antes delas existe outra pergunta, muito mais decisiva: a maneira pela qual os cristãos passaram a compreender a realidade permaneceu integralmente construída sobre o fundamento estabelecido pela revelação ou, em algum momento da história, outras estruturas de pensamento começaram a compartilhar esse lugar? Essa pergunta nos acompanhará do início ao fim desta obra. Ela estará presente quando examinarmos a narrativa da criação, quando acompanharmos o desenvolvimento da filosofia antiga, quando analisarmos o encontro entre o pensamento grego e o cristianismo, quando observarmos as transformações intelectuais do Renascimento e quando chegarmos às grandes mudanças que marcaram a modernidade. Em cada uma dessas etapas, a questão continuará sendo exatamente a mesma: quem interpreta a realidade, o Criador ou a criatura?
Responder a essa pergunta exigirá um retorno constante às Escrituras, porque somente elas podem mostrar qual era o fundamento originalmente apresentado por Deus. A história nos ajudará a compreender como diferentes formas de pensamento surgiram e se desenvolveram; a filosofia permitirá conhecer os pressupostos que moldaram diversas culturas; a ciência revelará como o homem ampliou extraordinariamente sua capacidade de observar a natureza.
Entretanto, nenhuma dessas áreas ocupará o lugar da revelação. Elas serão examinadas à luz do ponto de partida estabelecido pela própria Bíblia. Somente assim será possível distinguir entre o desenvolvimento legítimo do conhecimento humano e a substituição gradual do fundamento a partir do qual esse conhecimento passou a ser organizado. É exatamente nesse ponto que nossa caminhada começa.
*Ops, Gênesis 1:1 não descreve a criação do Universo! Deus criou os céus e a terra.
O termo “universo” pertence a outra cosmovisão.
A decisão de iniciar Sua revelação afirmando que, “no princípio, criou Deus os céus e a terra”, levanta uma pergunta que dificilmente pode ser ignorada. Se Deus escolheu cuidadosamente as primeiras palavras pelas quais Se daria a conhecer à humanidade, teríamos nós o direito de tratá-las apenas como uma forma antiga de expressar conceitos elaborados muitos séculos depois? Ou seria mais prudente admitir que o próprio texto merece ser ouvido antes que qualquer sistema de interpretação lhe atribua significados que talvez não lhe pertençam?
Essa pergunta não nasce de um apego à terminologia, mas do reconhecimento de que toda revelação utiliza linguagem. Sempre que Deus fala, escolhe palavras. E, se escolhe palavras, o intérprete deve começar perguntando por que essas palavras foram escolhidas e não outras. A fidelidade à revelação não consiste apenas em aceitar sua autoridade; consiste também em respeitar sua maneira de comunicar a verdade. Antes de ampliar um conceito, devemos compreendê-lo dentro do contexto em que foi revelado. Antes de substituir uma expressão por outra aparentemente equivalente, devemos perguntar se ambas realmente pertencem ao mesmo universo de pensamento ou se refletem pressupostos diferentes.
Essa preocupação acompanha toda a interpretação bíblica responsável. Quando Moisés escreveu o livro do Gênesis, não estava dialogando com os debates científicos ou filosóficos da modernidade. Também não procurava responder às perguntas formuladas por civilizações que ainda não existiam. Escrevia para transmitir a revelação recebida de Deus, utilizando a linguagem pela qual Deus decidiu apresentar Sua obra criadora. Se desejamos compreender essa revelação, talvez o primeiro dever do intérprete seja resistir à tentação de introduzir, logo na primeira leitura, categorias que pertencem a outros sistemas de pensamento. O texto deve ser ouvido antes de ser traduzido para qualquer linguagem posterior.
Essa observação pode parecer excessivamente cuidadosa, mas dela depende toda a investigação que estamos iniciando. Muitas das controvérsias que acompanharam a história da interpretação bíblica não nasceram da rejeição explícita das Escrituras, mas da tendência de aproximar o texto sagrado de estruturas intelectuais que lhe eram estranhas. Frequentemente isso foi feito com as melhores intenções. Buscava-se tornar a revelação mais compreensível ao homem de cada época. Entretanto, permanece uma pergunta cuja importância cresce à medida que refletimos sobre ela: em que momento uma tradução conceitual deixa de servir ao texto e começa, ainda que involuntariamente, a conduzir sua interpretação?
Essa questão não se limita ao primeiro versículo da Bíblia. Ela acompanhará toda a nossa caminhada. Sempre que encontrarmos uma expressão bíblica, perguntaremos primeiro o que ela significava dentro da própria revelação. Somente depois observaremos como foi compreendida em diferentes momentos da história. Essa ordem não pretende limitar a investigação. Pelo contrário, procura protegê-la. Quem deseja compreender o pensamento de um autor começa ouvindo o próprio autor. Somente depois consulta seus intérpretes. Se esse princípio é válido para qualquer obra humana, quanto mais para um texto que se apresenta como revelação do próprio Deus.
É por essa razão que nossa investigação permanecerá, durante algum tempo, nas primeiras páginas do Gênesis. Não porque desejemos extrair delas respostas para perguntas que jamais pretenderam responder, mas porque suspeitamos que nelas se encontram perguntas que a própria modernidade deixou de fazer. Talvez a maior contribuição do relato da criação não consista em satisfazer todas as curiosidades do leitor, mas em ensiná-lo a começar sua investigação pelo mesmo lugar onde Deus decidiu começar. Somente depois de compreender esse ponto de partida estaremos em condições de acompanhar o longo percurso histórico durante o qual outras formas de interpretar a realidade surgiram, desenvolveram-se e passaram a dialogar com a tradição bíblica.
A essa altura, talvez o leitor comece a perceber que a questão diante de nós não consiste simplesmente em decidir entre duas explicações diferentes sobre a origem das coisas. O problema é mais profundo. Antes mesmo de compararmos explicações, precisamos perguntar se todas elas partem da mesma autoridade. Essa pergunta modifica inteiramente o rumo da investigação, porque desloca nossa atenção das respostas para seus fundamentos.
Talvez duas pessoas utilizem palavras semelhantes e, ainda assim, estejam construindo raciocínios sobre pressupostos completamente diferentes. Talvez empreguem a mesma linguagem, citem os mesmos textos bíblicos e confessem a mesma fé, mas organizem sua compreensão da realidade a partir de pontos de partida distintos. Quando isso acontece, as divergências que surgem posteriormente não representam o início do problema; representam apenas sua manifestação mais visível.
Esse aspecto ajuda a compreender por que a Bíblia insiste tanto na necessidade de ouvir a Palavra de Deus antes de qualquer outra voz. Desde o Éden, a questão nunca consistiu apenas em saber o que Deus havia dito, mas em decidir quem possuía autoridade para interpretar aquilo que Deus dissera. A serpente não começou oferecendo uma nova criação nem um novo mundo. Começou oferecendo uma nova leitura da realidade. A árvore permaneceu a mesma. O jardim permaneceu o mesmo. A ordem criada permaneceu a mesma. O que mudou foi a interpretação proposta para esses elementos.
Pela primeira vez, a criatura foi convidada a olhar para a realidade não a partir da palavra do Criador, mas a partir de outra referência. Talvez seja significativo que o primeiro conflito registrado pelas Escrituras não envolva a existência de Deus, mas a autoridade de Sua Palavra para definir o significado da realidade.
Essa observação lança nova luz sobre toda a narrativa bíblica. Sempre que o povo de Deus se afastava de Seu caminho, a ruptura raramente começava pela rejeição aberta da revelação. Na maior parte das vezes, iniciava-se de maneira muito mais discreta. Outras referências passavam a orientar o pensamento. Outros critérios começavam a determinar as escolhas. Outras maneiras de compreender a vida, a justiça, a adoração e a própria história eram assimiladas pouco a pouco.
Quando os profetas denunciavam esse processo, não estavam apenas condenando determinados comportamentos. Procuravam conduzir o povo de volta ao fundamento perdido. O chamado ao arrependimento era, antes de tudo, um chamado ao retorno da autoridade da revelação.
Talvez devamos conservar essa perspectiva ao longo de toda a investigação. Nosso propósito não será acompanhar simplesmente a história das ideias, como se estivéssemos diante de uma sucessão de teorias produzidas pelo engenho humano. Procuraremos identificar os momentos em que determinadas formas de compreender a realidade passaram a disputar com a revelação o lugar de fundamento da interpretação. Essa disputa nem sempre ocorreu de maneira consciente. Em muitos casos, desenvolveu-se lentamente, acompanhando profundas transformações culturais que atravessaram séculos. Justamente por isso exige uma análise paciente.
Processos históricos dessa natureza não podem ser compreendidos pela observação de acontecimentos isolados. Precisam ser acompanhados em sua continuidade, porque pequenas mudanças acumuladas durante longos períodos frequentemente produzem consequências muito maiores do que grandes acontecimentos aparentemente decisivos.
É por essa razão que nossa caminhada histórica não começará pela modernidade, nem pelo Renascimento, nem mesmo pela filosofia grega. Antes de examinar esses períodos, será necessário compreender o mundo que existia antes deles. Somente conhecendo a estrutura apresentada pela própria revelação será possível reconhecer, mais adiante, em que momento outras estruturas começaram a aproximar-se dela, dialogar com ela e, em determinadas circunstâncias, influenciar a maneira pela qual muitos passaram a ler as Escrituras.
Sem esse ponto de referência, correríamos o risco de comparar diferentes formas de pensamento sem possuir um critério suficientemente sólido para discernir suas convergências e suas divergências. O caminho mais seguro continua sendo aquele estabelecido pela própria Bíblia: começar onde Deus começou e permitir que a revelação forneça os princípios pelos quais todo o restante será examinado.
Chega, então, o momento de formular uma pergunta que acompanhará toda esta obra. Se Deus revelou ao ser humano a maneira pela qual Sua criação deveria ser compreendida, quando começou o processo pelo qual outras estruturas de pensamento passaram a disputar esse lugar? Essa pergunta não procura identificar um único personagem, um único acontecimento ou uma única data.
As grandes transformações da história raramente possuem um ponto de partida tão facilmente identificável. Elas nascem lentamente, desenvolvem-se durante séculos e, quando finalmente alcançam toda uma civilização, já parecem tão naturais que poucos conseguem imaginar que um dia tenha existido outra forma de compreender a realidade.
Talvez seja justamente por isso que a investigação histórica deva começar muito antes dos acontecimentos normalmente lembrados quando se fala em ciência moderna, heliocentrismo ou Iluminismo. Esses movimentos representam etapas importantes de um processo muito mais antigo, mas não constituem seu início. Nenhuma árvore pode ser compreendida apenas por seus galhos. Quem deseja conhecer sua verdadeira natureza precisa descer até as raízes. O mesmo acontece com as ideias. Antes de produzirem consequências visíveis, passam longo tempo formando silenciosamente o terreno sobre o qual crescerão. Quando finalmente aparecem na superfície da história, seus princípios fundamentais já se encontram profundamente estabelecidos.
É precisamente esse percurso que precisaremos acompanhar. Não porque toda ideia desenvolvida fora da tradição bíblica deva ser rejeitada, mas porque nenhuma investigação séria pode ignorar a origem das categorias pelas quais interpreta a realidade. Uma palavra pode permanecer a mesma durante séculos e, ainda assim, adquirir significado completamente diferente. Um conceito pode conservar sua aparência exterior enquanto seu fundamento se modifica lentamente. Até mesmo um texto pode continuar sendo lido sem que seja compreendido dentro da estrutura de pensamento em que originalmente foi revelado. Quando isso acontece, as mudanças não costumam ser percebidas de imediato. Elas tornam-se evidentes apenas quando suas consequências começam a atingir outras áreas da compreensão humana.
Por essa razão, nossa atenção voltar-se-á inicialmente para o mundo antigo. Não começaremos pela Grécia porque consideremos a filosofia grega responsável por todas as transformações posteriores, nem porque desejemos reduzir a história do pensamento ocidental a uma única influência cultural. Começaremos ali porque foi naquele ambiente intelectual que surgiram algumas das perguntas que acompanhariam a civilização ocidental durante mais de dois milênios. O que é a realidade? Qual é a origem da ordem existente na natureza? O conhecimento nasce da experiência ou da razão? Existe uma estrutura permanente por trás das mudanças observadas pelos sentidos? Essas perguntas exerceram profunda influência sobre a história da filosofia. A questão que nos interessa, entretanto, é outra. Quando essas formas de pensar encontraram a tradição bíblica, o que aconteceu? Permaneceram em campos distintos ou começaram, pouco a pouco, a dialogar entre si? E, caso esse diálogo realmente tenha ocorrido, até que ponto influenciou a maneira pela qual muitos passaram a compreender a própria revelação?
Responder a essas perguntas exigirá um esforço constante de distinção. Em nenhum momento perderemos de vista o ponto de partida estabelecido pelas Escrituras. Não examinaremos a história para descobrir o que Deus deveria ter dito. Examinaremos a história para compreender o que os homens passaram a pensar depois que Deus falou. Essa diferença é decisiva. A revelação continuará ocupando o lugar de referência. A história aparecerá como testemunha do desenvolvimento do pensamento humano. Somente preservando essa ordem será possível acompanhar, com clareza, um dos processos intelectuais mais importantes da civilização ocidental: a lenta formação de uma nova maneira de compreender a realidade e, consequentemente, uma nova maneira de aproximar-se da própria Palavra de Deus.
Capítulo 2
Quando a Revelação Deixou de Ser o Ponto de Partida
Se a revelação apresentou ao ser humano o fundamento a partir do qual a realidade deveria ser compreendida, como explicar que, ao longo da história, outras formas de interpretar o mundo tenham adquirido tamanho prestígio? Essa pergunta não pode ser respondida apontando simplesmente um filósofo, uma escola ou um período histórico. As grandes mudanças da civilização raramente possuem um único autor. Desenvolvem-se lentamente. Uma ideia conduz a outra. Um pressuposto abre caminho para o seguinte. Ao final de muitos séculos, aquilo que começou como uma hipótese torna-se tão familiar que já não é percebido como hipótese, mas como a própria maneira natural de pensar.
É exatamente por isso que nossa investigação não começará pelas conclusões. Antes de perguntar como a cosmovisão moderna foi construída, devemos perguntar onde começou a mudança de fundamento. Em que momento a inteligência humana passou a acreditar que poderia descobrir, por seus próprios recursos, a estrutura última da realidade? Em que momento a razão deixou de ocupar a posição de instrumento da investigação para tornar-se seu fundamento? Essas perguntas conduzem naturalmente ao mundo antigo, não porque tudo tenha começado ali, mas porque foi ali que encontramos uma das primeiras tentativas sistemáticas de explicar a realidade sem partir da revelação.
Convém observar cuidadosamente o que isso significa. Os primeiros filósofos gregos não estavam discutindo o livro de Gênesis. Também não procuravam responder às perguntas formuladas pela tradição hebraica. Seu interesse era outro. Procuravam descobrir se a própria natureza continha, em si mesma, o princípio capaz de explicar sua existência, sua ordem e suas transformações. A questão central deixava de ser “o que Deus revelou?” para tornar-se “qual é o princípio da natureza?”. Essa mudança parece pequena quando formulada dessa maneira. Entretanto, ela alterava profundamente o caminho da investigação. A pergunta já não era dirigida à revelação, mas à própria natureza. Esperava-se que a natureza respondesse, mediante observação e reflexão, aquilo que anteriormente era recebido da Palavra de Deus.
É justamente aqui que a história da filosofia torna-se importante para esta obra. Não porque pretendamos acompanhar todos os seus sistemas ou analisar cada um de seus representantes, mas porque, pela primeira vez, encontramos uma investigação organizada sobre um fundamento diferente daquele apresentado pelas Escrituras. Pouco importa, para nosso propósito imediato, se Tales identificou esse princípio na água, Anaximandro no ápeiron ou Anaxímenes no ar. Essas respostas pertencem à história da filosofia. O que interessa à presente investigação é outra coisa: todos eles partiam da convicção de que a razão humana poderia descobrir o princípio unificador da realidade observando a própria natureza. É esse deslocamento metodológico, muito mais do que as conclusões alcançadas, que acompanhará todo o restante de nossa caminhada.
Tese do Volume II
A Bíblia afirma que Deus não apenas criou os céus e a terra, mas também revelou ao ser humano a maneira pela qual Sua criação deveria ser compreendida. A primeira cosmovisão, portanto, não nasceu da observação da natureza nem da investigação filosófica. Ela foi revelada pelo próprio Criador.
Entretanto, ao longo da história, desenvolveu-se gradualmente outra forma de interpretar a realidade. Em vez de partir da revelação, passou-se a buscar na própria razão humana o fundamento capaz de explicar a origem, a estrutura e o significado da existência.
Essa mudança não ocorreu de maneira repentina nem resultou da atuação de um único personagem. Foi um longo processo histórico que começou na Antiguidade, atravessou a filosofia grega, encontrou o cristianismo, foi incorporado progressivamente pela teologia, consolidou-se na cultura ocidental e, por fim, tornou-se o ponto de partida quase universal para a leitura das Escrituras.
A presente investigação procura acompanhar esse processo desde sua origem até suas consequências. Seu objetivo não é escrever uma história da filosofia, nem apresentar uma história da ciência ou da teologia cristã. Essas disciplinas aparecem apenas porque fazem parte de uma transformação muito maior: a substituição gradual da cosmovisão revelada por uma cosmovisão construída sobre outros fundamentos.
A questão central que orientará toda a obra permanecerá a mesma do início ao fim:
Quando a revelação deixou de ser o fundamento da interpretação da realidade e quais foram as consequências dessa mudança para a compreensão da Bíblia, da criação e da escatologia?
Todas as páginas seguintes procurarão responder essa única pergunta.
Introdução. Outra vez?
Poucas perguntas exerceram influência tão profunda sobre a história da humanidade quanto aquela que procura explicar a realidade em que vivemos. Desde os tempos mais antigos, homens de diferentes povos e culturas levantaram os olhos para os céus, observaram a terra sob seus pés e procuraram compreender a origem de todas as coisas, a razão da existência humana, a presença do mal e o destino da história. Civilizações inteiras foram edificadas sobre as respostas oferecidas a essas perguntas. Religiões, filosofias, sistemas políticos e concepções científicas nasceram da tentativa de interpretar a realidade. Entretanto, antes de examinarmos qualquer uma dessas respostas, existe uma questão anterior, da qual todas as demais dependem. Quem possui autoridade para interpretar a realidade? Aquele que a criou ou aqueles que apenas vivem nela?
Essa pergunta conduz-nos imediatamente às primeiras palavras das Escrituras. A Bíblia não começa descrevendo um povo, uma religião ou um código moral. Também não inicia sua narrativa procurando demonstrar a existência de Deus mediante argumentos filosóficos. A revelação começa com uma afirmação solene: “No princípio criou Deus os céus e a terra.”
Essas palavras ocupam a posição mais importante de toda a narrativa bíblica, não apenas porque aparecem primeiro, mas porque estabelecem o fundamento sobre o qual todo o restante da revelação será construído. Antes que o homem conheça a si mesmo, conhece o seu Criador. Antes que saiba quem é, aprende de quem procede sua existência. Antes que qualquer outra verdade seja revelada, Deus estabelece Sua autoridade sobre tudo aquilo que passará a ser revelado em seguida.
Essa ordem dificilmente pode ser considerada acidental. Se a primeira informação comunicada por Deus ao ser humano diz respeito ao ato criador, devemos perguntar se o objetivo dessa declaração limita-se a informar a origem dos céus e da terra ou se ela pretende estabelecer algo ainda mais fundamental. Sempre que um autor apresenta sua própria obra, ninguém considera estranho que seja ele o primeiro a explicar seu significado. Pelo contrário, essa parece ser a consequência mais natural de sua condição de autor.
A criatura pode observar a criação. Pode estudá-la, descrevê-la, descobrir regularidades, formular perguntas e ampliar continuamente seu conhecimento. Entretanto, permanece uma diferença que jamais poderá ser eliminada. O observador conhece aquilo que vê. O Criador conhece também aquilo que não pode ser visto, porque conhece a origem, o propósito e a finalidade de Sua própria obra. Se isso é verdadeiro, então a primeira frase da Bíblia não apresenta apenas um acontecimento. Ela estabelece uma autoridade.
Talvez seja precisamente nesse ponto que tenha início uma das questões mais importantes para a compreensão de toda a história bíblica. Deus não apenas criou; Deus também falou. A criação foi acompanhada pela revelação. O homem não foi colocado diante dos céus e da terra para construir, sozinho, uma explicação acerca de sua origem e de seu significado.
O próprio Criador tomou a iniciativa de revelar aquilo que nenhuma investigação humana poderia descobrir por si mesma. A revelação, portanto, não aparece como complemento da observação, mas como seu fundamento. Antes que a criatura procurasse interpretar a realidade, Deus já havia indicado o ponto de partida a partir do qual essa realidade deveria ser compreendida.
Se esse princípio permanecer diante de nós, outra pergunta surgirá inevitavelmente. Essa maneira de compreender a realidade permaneceu inalterada ao longo da história ou, em algum momento, começou a dividir espaço com outras formas de interpretação? Em outras palavras, a revelação continuou sendo reconhecida como fundamento para compreender os céus e a terra ou, pouco a pouco, outros referenciais passaram a ocupar esse lugar? Essa pergunta não diz respeito apenas à história da filosofia, da ciência ou da teologia. Ela alcança o próprio modo como a humanidade passou a compreender a revelação. Porque toda vez que muda o fundamento da interpretação, muda também a maneira pela qual a realidade é compreendida.
É justamente essa transformação que acompanharemos nas páginas seguintes. Não começaremos perguntando o que diferentes civilizações pensaram sobre a criação. Começaremos perguntando o que Deus revelou acerca dela. Somente depois voltaremos nossos olhos para a história, procurando compreender como outras estruturas de pensamento surgiram, desenvolveram-se e, gradualmente, passaram a influenciar a maneira pela qual muitos passaram a interpretar a própria revelação. Somente preservando essa ordem será possível distinguir entre aquilo que procede da Palavra de Deus e aquilo que foi sendo acrescentado ao longo dos séculos por diferentes tradições intelectuais.
A questão que orientará toda esta investigação nasce exatamente desse ponto: como a cosmovisão revelada nas primeiras páginas das Escrituras relacionou-se, ao longo da história, com outras formas de compreender a realidade, e quais foram as consequências desse encontro para a interpretação da Bíblia e para a compreensão do drama final apresentado pela própria revelação?
Introdução definitiva (Até quando?)
Toda tentativa humana de escrever uma introdução é provisória. Nenhuma é definitiva. Toda síntese pode ser ampliada, corrigida ou substituída. Foi exatamente essa a nossa experiência ao longo da elaboração deste livro. Reescrevemos inúmeras vezes as páginas iniciais, procurando encontrar a melhor forma de conduzir o leitor à questão central desta obra. A cada nova versão, permanecia a sensação de que ainda era possível aperfeiçoá-la.
Foi então que percebemos uma verdade tão simples quanto profunda: somente Deus é capaz de escrever uma introdução definitiva.
Não precisou de um capítulo. Não precisou de uma explicação filosófica. Não precisou justificar Seu método nem preparar o leitor. Bastou uma única frase para estabelecer o fundamento de toda a realidade, de toda a história e de toda a revelação.
Nenhum ser humano jamais escreveu uma abertura comparável a esta. Ela permanece insuperável não apenas por sua beleza literária, mas porque procede do próprio Autor da criação.
“No princípio, criou Deus os céus e a terra.” (Gênesis 1:1)
Nessa única sentença encontram-se a origem do tempo, da matéria, do espaço, da vida, da história e da esperança. Toda a Escritura parte desse fundamento. E este livro também.
Durante séculos, o debate entre fé e ciência foi apresentado como um conflito entre conhecimento e ignorância. Talvez, porém, essa nunca tenha sido a verdadeira questão. O problema fundamental não consiste em perguntar qual modelo astronômico descreve com maior precisão os movimentos observáveis dos corpos celestes. A pergunta mais profunda é outra: qual cosmovisão fornece o ponto de partida para interpretar a realidade?
Toda civilização interpreta o mundo a partir de pressupostos fundamentais. Antes das teorias, existem crenças. Antes da investigação científica, existe uma estrutura de pensamento que determina quais perguntas podem ser ser feitas, quais respostas serão consideradas aceitáveis e qual autoridade servirá como critério final da verdade. É nesse nível que esta obra se desenvolve.
Ao longo destas páginas, utilizaremos duas expressões que precisam ser claramente definidas desde o início.
Chamaremos de cosmovisão hebraico-bíblica a compreensão da realidade construída exclusivamente a partir da revelação das Escrituras. Nessa perspectiva, Deus é a fonte de todo conhecimento verdadeiro. A criação não interpreta o Criador; é o Criador quem interpreta Sua própria criação. A realidade visível somente pode ser corretamente compreendida quando observada à luz daquilo que Deus decidiu revelar. Os céus e a terra não constituem o fundamento da fé; a revelação constitui o fundamento para compreender os céus e a terra.
Em contraste, utilizaremos a expressão cosmovisão científico-filosófica copernicana para designar um paradigma intelectual muito mais amplo do que o simples heliocentrismo. Não se trata apenas da afirmação de que a Terra orbita o Sol. Trata-se da substituição gradual da estrutura cosmológica revelada nas Escrituras por uma compreensão da realidade construída principalmente sobre pressupostos filosóficos, racionalistas e naturalistas, posteriormente incorporados ao desenvolvimento da ciência moderna. Nesse paradigma, a observação da natureza passa a exercer autoridade crescente sobre a interpretação do texto bíblico. Em vez de a revelação orientar a compreensão do cosmos, o cosmos passa a determinar como a revelação deve ser reinterpretada.
Essa distinção é decisiva. Este livro não pretende discutir cálculos astronômicos nem revisar a história da mecânica celeste. Seu objeto de investigação é a mudança de autoridade epistemológica ocorrida na cultura ocidental. O centro da análise não é Copérnico como astrônomo, mas o processo histórico por meio do qual uma cosmologia sustentada por pressupostos filosóficos passou a ocupar o lugar anteriormente reservado à revelação bíblica na formação da imaginação religiosa cristã.
Ao longo dos séculos, essa mudança produziu consequências que ultrapassaram o campo da astronomia. A própria maneira de ler as Escrituras sofreu profundas transformações. Narrativas antes compreendidas como descrições reais da criação passaram a ser reinterpretadas à luz de modelos cosmológicos externos ao texto bíblico. O mesmo processo alcançou a angelologia, a demonologia, a escatologia, a compreensão do Céu, da criação, da Nova Terra e da própria relação entre Deus e Sua criação.
É precisamente nesse contexto que surge uma pergunta raramente formulada de maneira direta: teria essa nova cosmovisão preparado o ambiente intelectual para o surgimento de um dos maiores enganos religiosos da história?
Neste livro, utilizaremos a expressão grande engano não para designar um único acontecimento isolado, mas um processo progressivo de deslocamento da autoridade da revelação. O grande engano começa quando aquilo que Deus não revelou passa a ser preenchido por especulações apresentadas como conhecimento. Amadurece quando hipóteses recebem o mesmo peso da revelação. E alcança sua forma mais perigosa quando construções filosóficas passam a determinar a interpretação das Escrituras.
Sob essa perspectiva, o grande engano raramente consiste em negar frontalmente a verdade. Com muito mais frequência, consiste em deslocar seu centro. A revelação continua sendo citada, mas deixa de ocupar o lugar de autoridade suprema. Permanece presente, porém passa a ser continuamente reinterpretada para acomodar pressupostos externos. A verdade não é abandonada; é reorganizada em torno de outro fundamento.
Essa compreensão possui profundas implicações doutrinárias. Se a autoridade última pertence à revelação, toda doutrina deve nascer daquilo que Deus efetivamente disse. O silêncio das Escrituras passa a possuir valor teológico. As coisas que Deus decidiu não revelar permanecem fora do campo da doutrina. Entretanto, se a autoridade final passa a residir em uma cosmovisão construída externamente à revelação, o silêncio bíblico deixa de representar um limite e transforma-se em convite permanente à especulação. Nesse cenário, tornam-se possíveis sucessivas reconstruções da geografia celeste, da estrutura do universo invisível, da existência de civilizações extraterrestres, de diferentes formas de vida inteligente espalhadas pelo cosmos e de inúmeras interpretações proféticas edificadas sobre elementos que jamais constituíram objeto da revelação bíblica.
Essa observação não constitui, por si só, uma negação da possibilidade de Deus haver criado outras criaturas ou outros mundos. As Escrituras simplesmente não respondem a essa pergunta. E, justamente por não respondê-la, também não autorizam que ela seja transformada em fundamento doutrinário, em chave interpretativa da profecia ou em elemento integrante da fé cristã. O silêncio bíblico não deve ser confundido com autorização para especular.
É precisamente aqui que Deuteronômio 29:29 estabelece um princípio que atravessa toda a revelação:
“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus; porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.”
Essa declaração estabelece uma das fronteiras mais importantes da epistemologia bíblica. Deus distingue deliberadamente aquilo que decidiu revelar daquilo que escolheu conservar oculto. A fé não consiste em ultrapassar esse limite, mas em permanecer dentro dele. Sempre que a curiosidade humana procura ocupar o espaço reservado ao silêncio divino, cria-se um ambiente propício ao engano.
É exatamente essa hipótese que investigaremos. Não pretendemos demonstrar que toda a ciência moderna esteja equivocada, nem sustentar que toda descoberta científica seja incompatível com a revelação. A investigação seguirá outro caminho. Procuraremos compreender como determinadas mudanças de cosmovisão alteraram profundamente a forma de interpretar as Escrituras e de compreender a própria realidade espiritual. Perguntaremos se determinadas crenças amplamente difundidas na cultura contemporânea nasceram da revelação bíblica ou se derivam da incorporação gradual de pressupostos filosóficos estranhos ao texto sagrado.
No centro desta investigação permanece uma única pergunta: quem possui autoridade para interpretar a criação: o Criador ou as teorias humanas construídas sobre a observação da criação?
Toda a argumentação desenvolvida nos capítulos seguintes decorrerá da resposta a essa questão. Porque, uma vez estabelecida a autoridade que servirá de fundamento para nossa compreensão da realidade, todas as demais conclusões seguirão naturalmente o princípio adotado.
A mudança de Cosmovisão que começou a preparar o grande engano
Existem mudanças que ocorrem tão lentamente que praticamente nenhuma geração percebe estar vivendo uma revolução. Não há explosões, não há guerras, nem decretos oficiais anunciando que uma antiga forma de compreender a realidade foi abandonada. Tudo acontece silenciosamente. Uma ideia substitui outra. Um pressuposto ocupa o lugar de outro. Uma nova linguagem passa a dominar o pensamento coletivo até que, finalmente, aquilo que durante séculos foi considerado evidente começa a parecer estranho, enquanto a novidade assume o status de verdade inquestionável. A maior parte das grandes revoluções intelectuais da humanidade ocorreu exatamente dessa maneira. Elas não começaram nas ruas. Começaram na forma como os homens passaram a olhar para o mundo.
Talvez nenhuma dessas transformações tenha sido tão profunda para o pensamento cristão quanto a substituição gradual da cosmovisão hebraica pela cosmologia herdada da filosofia grega e posteriormente consolidada pela ciência moderna. Essa afirmação costuma causar desconforto, porque nossa geração foi educada a imaginar que a cosmologia contemporânea representa apenas um avanço técnico sobre conhecimentos antigos. Entretanto, antes mesmo de perguntar qual modelo do universo descreve corretamente a realidade física, existe uma questão muito mais fundamental: quem determina a estrutura pela qual o cristão interpreta toda a realidade? É a revelação de Deus ou são os modelos intelectuais produzidos pela cultura?
Essa pergunta pode parecer abstrata, mas dela depende praticamente toda a construção teológica do cristianismo. Nenhum homem lê a Bíblia de maneira neutra. Todos se aproximam das Escrituras carregando pressupostos sobre tempo, espaço, matéria, história, autoridade, natureza, conhecimento e até mesmo sobre a própria estrutura do mundo. Esses pressupostos funcionam como lentes invisíveis. Raramente percebemos sua existência justamente porque pensamos através deles. Eles moldam as perguntas que fazemos ao texto bíblico antes mesmo que o texto tenha oportunidade de responder.
É exatamente por isso que duas pessoas podem ler o mesmo versículo e chegar a conclusões completamente diferentes. O texto permanece o mesmo. O que muda é a cosmovisão daquele que o interpreta.
Esse talvez seja um dos aspectos menos compreendidos da teologia contemporânea. Costuma-se imaginar que heresias surgem apenas quando alguém rejeita explicitamente determinado versículo da Bíblia. Na realidade, o processo costuma ser muito mais sutil. O texto continua sendo citado. As palavras permanecem praticamente as mesmas. O que muda é o universo intelectual dentro do qual essas palavras passam a ser compreendidas. A Escritura continua aberta sobre a mesa, mas já não é ela quem estabelece os pressupostos fundamentais da realidade. Esses pressupostos chegam prontos, importados de outro sistema de pensamento.
Foi exatamente isso que ocorreu diversas vezes ao longo da história da igreja.
Quando o pensamento platônico penetrou no cristianismo, conceitos como a imortalidade natural da alma passaram lentamente a ocupar o espaço antes pertencente à antropologia hebraica. Séculos depois, quando categorias aristotélicas passaram a dominar a teologia medieval, inúmeras discussões começaram a ser formuladas a partir de perguntas que jamais haviam ocupado os profetas bíblicos. Em ambos os casos, a Bíblia permaneceu sendo lida. Entretanto, passou a ser interpretada por meio de categorias filosóficas que lhe eram originalmente estranhas.
O mesmo princípio pode ser aplicado à cosmologia.
Durante toda a narrativa bíblica, o universo aparece como palco da ação redentora de Deus. Não porque os escritores ignorassem a existência das estrelas, dos céus ou das hostes celestiais. Pelo contrário. Os profetas falam continuamente dos céus, contemplam a criação, exaltam a grandeza do firmamento e descrevem miríades de anjos, querubins, serafins, o trono divino e as hostes celestiais. Entretanto, existe um detalhe extraordinariamente significativo: nenhum deles demonstra interesse em desenvolver uma geografia do universo habitado.
Isso não deixa de ser curioso.
Se a existência de inúmeras civilizações espalhadas por incontáveis mundos fosse um elemento indispensável para compreender o plano da redenção, por que Moisés permaneceu completamente silencioso sobre esse assunto? Por que Isaías jamais desenvolveu essa temática? Por que Ezequiel, que descreveu querubins, rodas, a glória divina e o trono celestial, não dedicou uma única profecia para explicar sociedades vivendo em outros mundos? Por que Daniel, cujas visões percorrem sucessivos impérios mundiais até o estabelecimento do Reino eterno, não introduziu qualquer referência a comunidades inteligentes espalhadas pela criação?
Mais significativo ainda é observar o ministério de Jesus.
Durante aproximadamente três anos e meio, Cristo respondeu perguntas sobre praticamente todos os temas essenciais da fé. Falou sobre o Pai, explicou a natureza do Reino de Deus, comentou a criação, o sábado, o casamento, a morte, a ressurreição, os anjos, Satanás, o juízo, a vida eterna, a destruição de Jerusalém e a consumação dos séculos. Mesmo assim, não encontramos uma única ocasião em que tenha considerado necessário explicar aos discípulos a existência de sociedades vivendo em outros mundos ou a função que elas desempenhariam na história da redenção.
Esse silêncio merece ser levado a sério.
Vivemos em uma cultura que frequentemente interpreta o silêncio bíblico como autorização para especular. A lógica costuma ser a seguinte: se a Bíblia não nega explicitamente determinada hipótese, então estamos livres para desenvolvê-la. Esse, porém, nunca foi o método da revelação. A Bíblia não foi escrita para satisfazer toda curiosidade humana, mas para revelar aquilo que Deus julgou necessário para nossa salvação. Existe uma diferença profunda entre essas duas coisas.
O desejo humano por conhecimento é praticamente ilimitado. Queremos saber como vivem os anjos, como era a criação antes da formação da Terra, como são os céus, o que fazem os seres celestiais, quantos mundos existem, como vivem seus habitantes e quais leis regem outras civilizações. Nossa curiosidade naturalmente ultrapassa os limites da revelação. Deus, porém, não demonstrou interesse em satisfazê-la.
Esse fato, por si só, já deveria produzir grande prudência sempre que alguém afirma possuir informações detalhadas justamente sobre áreas nas quais as Escrituras permanecem deliberadamente silenciosas. Talvez seja aqui que comece um dos maiores problemas teológicos da modernidade.
Quando uma cosmovisão previamente estabelecida afirma que a criação abriga bilhões de mundos potencialmente habitados, torna-se quase inevitável que alguns leitores passem a procurar referências bíblicas capazes de acomodar essa expectativa. O processo ocorre quase inconscientemente. Primeiro forma-se a convicção cosmológica. Depois inicia-se a busca por textos que pareçam compatíveis com ela.
Observe cuidadosamente a ordem.
A hipótese não nasce da exegese.
Ela nasce da cosmovisão.
Somente depois procura apoio na revelação.
Esse mecanismo intelectual não é novo. Pelo contrário. Ele acompanha praticamente toda a história das grandes mudanças doutrinárias. Primeiro adota-se um pressuposto externo. Depois procura-se harmonizá-lo com a Bíblia. Finalmente, com o passar do tempo, a própria comunidade religiosa esquece que aquele pressuposto jamais nasceu das Escrituras. Ele passa a parecer tão natural que qualquer tentativa de questioná-lo é recebida como um ataque à própria fé.
Entretanto, a pergunta permanece:
Quem falou primeiro? Foi Deus ou foi a cultura?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que um cristão pode fazer antes de construir qualquer sistema teológico. Porque, se Deus realmente falou primeiro, toda cosmovisão humana deverá permanecer permanentemente sujeita à correção da Sua Palavra. Mas, se a cultura falou primeiro, inevitavelmente surgirá a tentação de reinterpretar as Escrituras para que elas pareçam concordar com aquilo que já decidimos acreditar.
Foi exatamente esse processo que ocorreu no Éden. A rebelião contra Deus não começou quando Eva estendeu a mão para colher o fruto proibido. A desobediência visível foi apenas a etapa final de uma transformação muito mais profunda, iniciada no campo das ideias. Antes que o comportamento fosse alterado, Satanás tratou de modificar a maneira como a mulher compreendia a realidade, o caráter de Deus e a própria natureza da verdade. A primeira batalha espiritual da história não foi travada em torno de uma árvore, mas em torno de uma cosmovisão.
O inimigo compreendia perfeitamente que, se conseguisse substituir a interpretação correta da realidade por outra aparentemente mais lógica e mais atraente, a desobediência surgiria quase naturalmente como consequência. O pecado nasce primeiro na mente, muito antes de manifestar-se nas ações.
É significativo observar que a serpente jamais iniciou sua argumentação negando frontalmente a existência de Deus ou atacando diretamente Sua autoridade. Uma estratégia tão grosseira provavelmente despertaria imediata desconfiança. Seu método foi muito mais sofisticado. Ela iniciou um diálogo teológico. Levantou uma dúvida. Reinterpretou uma ordem divina. Sugeriu uma explicação alternativa para aquilo que Deus havia dito. Em outras palavras, ofereceu uma nova estrutura de interpretação da realidade.
Deus havia afirmado que a desobediência conduziria à morte; a serpente apresentou outra leitura dos mesmos acontecimentos. Deus havia revelado Seu mandamento como expressão de amor e proteção; a serpente reinterpretou esse mandamento como uma restrição arbitrária destinada a impedir o desenvolvimento humano. Sem alterar os fatos, alterou completamente a maneira de compreendê-los.
Esse detalhe possui enorme importância, porque revela um padrão que atravessa toda a história bíblica. O grande engano raramente consiste em rejeitar toda a verdade. Muito mais frequentemente, consiste em reorganizá-la dentro de uma estrutura interpretativa diferente daquela estabelecida por Deus. Os elementos permanecem aparentemente os mesmos, mas sua relação muda completamente. É exatamente isso que caracteriza uma mudança de cosmovisão. Não se trata apenas de acrescentar uma nova informação ao conhecimento anterior; trata-se de substituir o próprio fundamento sobre o qual todas as demais informações passam a ser compreendidas.
Quando isso acontece, as consequências estendem-se muito além de uma única doutrina. Uma cosmovisão funciona como o alicerce invisível de um edifício. Quase ninguém observa seus fundamentos depois que a construção está pronta. Todos contemplam as paredes, as janelas, o telhado e a fachada. Entretanto, é o alicerce que determina a estabilidade de toda a estrutura. Se ele for substituído, todas as demais partes do edifício precisarão adaptar-se, ainda que externamente permaneçam muito semelhantes às anteriores.
Da mesma forma, quando uma cosmovisão diferente da revelada nas Escrituras passa a ocupar o lugar da revelação como estrutura organizadora do pensamento, praticamente todas as doutrinas acabam sofrendo algum grau de influência. Algumas mudanças são discretas; outras tornam-se profundas. Nenhuma, porém, permanece completamente isolada.
É precisamente por isso que as Escrituras insistem tanto na necessidade de guardar não apenas determinados mandamentos, mas também a própria forma de pensar. O chamado bíblico ao arrependimento nunca significou apenas abandonar determinados comportamentos exteriores. A palavra utilizada no Novo Testamento para descrever esse processo — metanoia — aponta justamente para uma transformação da mente, uma mudança na maneira de compreender a realidade à luz da revelação de Deus.
O evangelho não pretende apenas reformar hábitos; pretende restaurar a cosmovisão perdida no Éden. Antes da queda, o ser humano interpretava toda a criação a partir da palavra do Criador. Depois da queda, passou a interpretar a própria palavra do Criador a partir de sua experiência, de seus desejos e de sua autonomia intelectual. Essa inversão continua sendo a essência de toda rebelião.
Talvez seja exatamente nesse ponto que a discussão sobre cosmologia adquira uma dimensão muito maior do que normalmente lhe é atribuída. Não estamos debatendo simplesmente modelos astronômicos, diagramas da criação ou hipóteses científicas sobre a distribuição dos corpos celestes. O verdadeiro problema é epistemológico. Trata-se de perguntar quem possui autoridade para definir a estrutura fundamental da realidade. Será a revelação concedida por Deus ou serão os sistemas intelectuais desenvolvidos pela civilização humana?
Essa pergunta antecede qualquer debate específico sobre astronomia, porque diz respeito ao próprio método pelo qual o cristão conhece a verdade.
Quando essa ordem é invertida, a Bíblia deixa silenciosamente de ocupar o lugar de fundamento e passa a desempenhar apenas a função de comentário religioso sobre uma realidade previamente definida por outras fontes de conhecimento. A partir desse momento, o intérprete já não se aproxima das Escrituras perguntando: “Como Deus descreve Sua criação?” Em vez disso, passa a perguntar: “Como posso reinterpretar as Escrituras para que elas se ajustem ao modelo de realidade que já aceitei como verdadeiro?”
Essa diferença metodológica parece pequena, mas produz consequências imensas. No primeiro caso, a revelação julga a cultura. No segundo, a cultura torna-se o tribunal diante do qual a própria revelação deverá justificar-se.
É justamente nesse contexto que se torna indispensável investigar se determinadas construções teológicas modernas nasceram efetivamente da leitura direta das Escrituras ou se representam tentativas sinceras, porém posteriores, de harmonizar a revelação com pressupostos cosmológicos previamente assimilados.
Essa investigação não pretende questionar a sinceridade daqueles que formularam tais construções. A sinceridade nunca foi o verdadeiro problema. Eva também foi sincera ao acreditar que a nova interpretação apresentada pela serpente ampliaria seu conhecimento sem afastá-la de Deus. O ponto decisivo sempre foi outro: quem falou primeiro? Foi a Palavra do Senhor ou foi uma estrutura alternativa de interpretação da realidade?
Toda vez que essa ordem é invertida, ainda que de maneira quase imperceptível, o pensamento humano começa a afastar-se do terreno sólido da revelação para caminhar sobre o terreno instável da especulação. É exatamente por isso que toda investigação verdadeiramente bíblica precisa começar não pelas respostas que desejamos encontrar, mas pelos pressupostos que adotamos antes mesmo de abrir as Escrituras.
É nesse nível mais profundo, invisível e frequentemente negligenciado, que as grandes mudanças de cosmovisão acontecem e que os maiores desvios teológicos costumam nascer.
Quando a Cosmovisão passa a escrever a Teologia
Existe uma diferença profunda entre utilizar a Bíblia para construir uma cosmovisão e utilizar uma cosmovisão previamente adotada para reinterpretar a Bíblia. À primeira vista, essas duas operações podem parecer equivalentes. Na prática, porém, conduzem a resultados completamente distintos.
No primeiro caso, a revelação ocupa o lugar de autoridade absoluta. É ela quem estabelece os limites dentro dos quais o pensamento humano pode desenvolver-se. O intérprete aproxima-se das Escrituras disposto a permitir que Deus corrija seus pressupostos, ainda que isso signifique abandonar ideias profundamente arraigadas pela cultura em que vive.
No segundo caso, ocorre exatamente o contrário. A estrutura fundamental do pensamento já está previamente definida, e a função atribuída à Bíblia passa a ser encontrar formas de acomodar-se a essa estrutura. O texto continua sendo respeitado, continua sendo citado e continua sendo considerado inspirado, mas deixa de ocupar a posição de fundamento para tornar-se objeto de harmonização.
Poucos percebem quando essa inversão acontece, porque ela raramente se apresenta de maneira explícita. Ela ocorre silenciosamente, no nível mais profundo do pensamento, precisamente onde se formam os pressupostos que orientarão toda interpretação posterior.
Talvez por isso seja tão importante compreender que nenhuma doutrina nasce isoladamente. As ideias religiosas não surgem no vazio. Elas crescem dentro de uma determinada compreensão da realidade, da história e da criação. Quando essa compreensão se modifica, quase sempre a teologia modifica-se com ela. Não porque a Escritura tenha mudado, mas porque mudaram as perguntas dirigidas à Escritura.
A Bíblia responde às questões que lhe são apresentadas; entretanto, quem formula essas questões é sempre o intérprete. Se suas perguntas nascerem da cosmovisão revelada pelos profetas, suas respostas tenderão a permanecer dentro dos limites da revelação. Mas, se forem produzidas por pressupostos externos, o texto bíblico será continuamente pressionado a responder problemas que ele próprio nunca se propôs a resolver.
É exatamente nesse momento que começam a surgir construções teológicas extraordinariamente elaboradas, coerentes em sua lógica interna, mas cuja estrutura repousa muito mais sobre inferências do que sobre afirmações explícitas da Palavra de Deus.
Esse fenômeno torna-se particularmente evidente quando se observa o desenvolvimento histórico da ideia de múltiplos mundos habitados. É importante lembrar que essa hipótese não nasceu da leitura do Gênesis, dos Salmos ou dos Evangelhos. Muito antes do surgimento do cristianismo, filósofos gregos já especulavam sobre uma criação povoada por incontáveis mundos. Demócrito imaginava infinitos cosmos. Epicuro desenvolveu raciocínios semelhantes. Mais tarde, outros pensadores ampliaram essas hipóteses, sempre apoiados em argumentos filosóficos sobre a infinitude da criação, nunca na revelação divina.
Durante muitos séculos essas ideias permaneceram no campo da especulação metafísica. Entretanto, à medida que a astronomia moderna ampliou extraordinariamente o conhecimento humano acerca das estrelas e dos planetas, aquilo que antes era apenas hipótese filosófica passou a adquirir aparência de plausibilidade científica. Não porque houvesse sido demonstrada a existência de civilizações extraterrestres, mas porque a própria imensidão da criação parecia convidar à conclusão de que a Terra dificilmente poderia constituir uma exceção.
É justamente aqui que a questão deixa de ser astronômica e passa a ser teológica. O cristão não é chamado a construir sua doutrina a partir daquilo que parece provável, mas daquilo que Deus revelou. A diferença entre essas duas atitudes é imensa. Muitas coisas podem parecer razoáveis ao raciocínio humano e, ainda assim, jamais terem sido objeto da revelação divina.
O apóstolo Paulo recorda que “a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus”, não porque toda investigação humana seja ilegítima, mas porque o conhecimento adquirido pela razão possui limites que jamais poderão ser ultrapassados sem que o homem comece a substituir a certeza da revelação pela probabilidade da especulação. A Escritura convida continuamente o crente a permanecer dentro desses limites. Ela não condena a investigação honesta da natureza; condena a pretensão de transformar hipóteses humanas em fundamento da verdade revelada.
Esse princípio aparece repetidas vezes na história bíblica.
Quando Jó desejou compreender os mistérios da criação, Deus não lhe apresentou um tratado cosmológico. Em vez disso, conduziu-o ao reconhecimento da distância infinita que separa a sabedoria divina da compreensão humana.
Quando Moisés desejou contemplar plenamente a glória do Senhor, Deus estabeleceu limites claros para aquilo que lhe seria permitido conhecer.
Quando Daniel recebeu visões acerca do futuro, parte delas permaneceu deliberadamente selada.
Em todos esses episódios percebe-se um mesmo padrão: Deus revela aquilo que considera necessário e conserva em silêncio aquilo cuja revelação não pertence ao propósito da salvação.
O homem, porém, demonstra permanente dificuldade em aceitar esse silêncio. Existe nele um impulso constante para preencher as lacunas da revelação com hipóteses, sistemas e construções intelectuais que ofereçam uma sensação de completude. É precisamente nesse impulso que reside um dos maiores perigos para qualquer sistema teológico.
Essa observação conduz naturalmente a uma pergunta raramente formulada.
Se Deus desejasse ensinar que existem inúmeros mundos habitados desempenhando papel ativo no drama da redenção, em que momento da revelação seria mais natural esperar essa informação?
Certamente não em um escrito secundário, nem em uma experiência privada, nem em um relato visionário cuja autoridade dependa exclusivamente da confiança depositada em quem o recebeu.
Esperar-se-ia encontrá-la justamente nos grandes momentos em que Deus estabeleceu os fundamentos de Sua revelação.
Seria natural encontrá-la no relato da criação, onde a origem de todas as coisas é apresentada.
Ou nas grandes declarações proféticas acerca do governo universal de Deus.
Ou ainda no ensino do próprio Cristo, que revelou tudo quanto ouvira do Pai e estabeleceu os fundamentos do evangelho.
Contudo, quanto mais cuidadosamente examinamos esses textos centrais, mais percebemos que permanecem extraordinariamente concentrados na relação entre Deus e a humanidade, entre o Criador e Sua criação terrestre, entre o pecado introduzido no Éden e sua solução definitiva na cruz do Calvário.
Esse fato não significa, por si só, que Deus não possa ter criado outras formas de vida inteligente. Significa apenas que Ele não julgou necessário transformar essa possibilidade em elemento constitutivo da fé cristã.
Essa distinção é essencial.
O cristianismo nunca foi chamado a construir doutrinas sobre tudo aquilo que Deus poderia ter feito. Sua missão consiste em anunciar aquilo que Deus efetivamente revelou.
Sempre que essa fronteira é ultrapassada, a imaginação humana começa lentamente a ocupar o espaço reservado à autoridade das Escrituras. Pouco a pouco, aquilo que nasceu como hipótese adquire aparência de certeza; mais tarde converte-se em pressuposto; finalmente transforma-se em lente obrigatória para interpretar toda a revelação.
Quando esse processo se completa, torna-se extremamente difícil perceber que a ordem foi invertida. O edifício parece sólido, mas seu fundamento já não repousa exclusivamente sobre a Palavra de Deus.
É precisamente nesse ponto que a história da igreja assume importância decisiva para esta investigação. Se determinadas ideias hoje consideradas naturais não nasceram diretamente da revelação bíblica, torna-se necessário perguntar quando elas começaram a integrar o pensamento cristão e por quais caminhos foram incorporadas à interpretação das Escrituras.
Essa pergunta nos conduz inevitavelmente ao encontro entre duas formas profundamente distintas de compreender a realidade.
De um lado encontrava-se a cosmovisão hebraico-bíblica, construída sobre a convicção de que Deus falou e que Sua Palavra constitui o fundamento de toda compreensão verdadeira acerca da criação. De outro, desenvolvia-se o pensamento filosófico grego, cuja investigação buscava explicar a realidade por meio da observação, da razão e da reflexão metafísica.
É importante compreender que esta obra não pretende atribuir aos filósofos gregos a responsabilidade direta pelas transformações posteriores do pensamento cristão. O objetivo é outro. Procuraremos acompanhar o caminho percorrido por determinadas categorias filosóficas até o momento em que passaram a influenciar a maneira como muitos cristãos compreenderam a própria revelação.
Essa distinção é fundamental.
Uma ideia pode nascer em determinado contexto histórico e somente séculos depois produzir seus efeitos mais profundos. Entre sua origem e sua consolidação existe quase sempre um longo período de assimilação, adaptação e desenvolvimento. Foi exatamente isso que ocorreu com numerosas categorias filosóficas que, inicialmente estranhas ao universo bíblico, acabaram sendo gradualmente incorporadas ao vocabulário teológico do cristianismo.
O processo foi tão lento que praticamente nenhuma geração percebeu estar assistindo à substituição de um fundamento por outro. Não houve um momento específico em que a igreja declarou abandonar a cosmovisão revelada para adotar uma estrutura filosófica alternativa. A mudança ocorreu quase imperceptivelmente. Novos conceitos foram sendo incorporados, novas perguntas passaram a ser formuladas e antigas passagens bíblicas começaram a ser reinterpretadas à luz dessas novas categorias intelectuais.
É precisamente por isso que uma investigação puramente doutrinária não basta para compreender o problema. Torna-se necessário reconstruir também o percurso histórico das ideias. Não para substituir a autoridade das Escrituras pela história, mas para identificar em que momentos determinadas formas de pensar passaram a exercer influência crescente sobre a interpretação da própria revelação.
É esse caminho que percorreremos a partir de agora.
Não seguiremos a história da filosofia por simples interesse histórico, nem faremos uma cronologia da ciência ou da teologia. Examinaremos apenas aqueles acontecimentos que contribuíram para a formação da cosmovisão predominante no pensamento ocidental e que, direta ou indiretamente, alteraram a maneira pela qual muitos passaram a ler os primeiros capítulos de Gênesis, compreender a criação, interpretar a profecia e visualizar o conflito entre Cristo e Satanás.
Toda investigação histórica precisa de um ponto de partida. No caso da presente obra, esse ponto encontra-se na Grécia antiga.
Não porque ali tenha começado toda a história do pensamento humano, mas porque foi naquele ambiente intelectual que surgiu, de forma sistemática, uma das primeiras tentativas de explicar a realidade tomando a própria razão humana como fundamento da investigação. A partir desse momento, inicia-se um processo histórico cujos desdobramentos alcançariam a filosofia, a ciência, a teologia e, finalmente, a própria interpretação das Escrituras.
É para esse momento decisivo da história que agora voltaremos nossa atenção.
Quando a razão passou a buscar outro fundamento
Nenhuma transformação intelectual acontece de maneira instantânea. As grandes mudanças que alteram o curso da história costumam desenvolver-se lentamente, atravessando gerações até que seus pressupostos passem a ser aceitos como evidentes. Quando finalmente se consolidam, poucos conseguem recordar como tudo começou. As novas ideias parecem tão naturais que quase ninguém imagina que um dia tenham sido apenas hipóteses disputando espaço com outras formas de compreender a realidade.
Foi exatamente assim que ocorreu com uma das mudanças mais profundas da história do pensamento ocidental.
Durante muitos séculos, a tradição hebraica preservou a convicção de que o conhecimento verdadeiro começa quando Deus fala. A realidade não era compreendida como um enigma que o homem deveria decifrar sozinho, mas como uma criação cujo significado havia sido revelado pelo próprio Criador. O fundamento do conhecimento não residia na capacidade humana de investigar a natureza, mas na iniciativa divina de tornar conhecida Sua vontade. Primeiro vinha a revelação; depois, a compreensão.
Entretanto, fora do ambiente da revelação bíblica, outra maneira de abordar essas mesmas questões começava lentamente a ganhar forma. Em diversas regiões do mundo antigo surgiram tentativas de explicar a origem e a organização da realidade sem recorrer às narrativas religiosas tradicionais. Entre essas iniciativas, uma se destacaria pela influência que exerceria sobre toda a civilização ocidental: a filosofia desenvolvida nas cidades gregas da Ásia Menor.
Nosso objetivo não é reconstruir toda a história da filosofia antiga nem oferecer um manual sobre seus principais representantes. Isso nos afastaria da questão central desta obra. Interessa-nos compreender apenas um aspecto desse processo: a mudança do ponto de partida da investigação.
Até então, a pergunta fundamental podia ser resumida de maneira simples: o que Deus revelou?
Pouco a pouco, porém, outra pergunta começou a ocupar seu lugar:
Qual é o princípio da realidade que a própria razão humana pode descobrir?
Essa mudança parece discreta. À primeira vista, pode até parecer apenas uma diferença de método. Entretanto, suas consequências seriam imensas. Quando o fundamento da investigação deixa de ser a revelação e passa a ser a própria capacidade humana de explicar a realidade, modifica-se também a maneira de interpretar todas as demais questões. O conhecimento já não parte prioritariamente da Palavra de Deus, mas da observação, da reflexão filosófica e da elaboração racional.
É importante compreender que essa transformação não ocorreu porque um filósofo decidiu rejeitar deliberadamente a revelação bíblica. Os primeiros pensadores gregos desenvolviam suas reflexões dentro de um contexto cultural completamente distinto daquele dos profetas de Israel. Eles não procuravam comentar o livro de Gênesis nem responder às perguntas formuladas pela tradição hebraica. Seu interesse dirigia-se a outro problema: descobrir qual princípio explicaria a ordem, a permanência e as transformações observadas na natureza.
Esse detalhe é decisivo para nossa investigação. O aspecto mais importante não está nas respostas oferecidas por esses filósofos, muitas das quais seriam posteriormente abandonadas pelos próprios gregos. O ponto realmente significativo encontra-se no método adotado. Pela primeira vez encontramos um esforço sistemático para explicar a realidade partindo da própria natureza, e não da revelação divina. É justamente essa mudança de fundamento — muito mais do que as conclusões específicas alcançadas — que acompanhará toda a história intelectual do Ocidente.
Antes de examinarmos os principais representantes desse período, convém manter diante de nós a pergunta que orientará todo este capítulo:
O que mudou quando a razão passou a procurar, na própria natureza, o fundamento para compreender a realidade?
É essa pergunta, e não a simples curiosidade histórica, que conduzirá nossa investigação nas páginas seguintes.
A Cruz não precisa de complementos
Uma das características mais extraordinárias da revelação bíblica é sua impressionante unidade. Embora tenha sido escrita ao longo de aproximadamente quinze séculos, por dezenas de autores inseridos em contextos históricos muito diferentes, as Escrituras convergem continuamente para um único centro. Esse centro não é Israel, embora Israel ocupe lugar essencial na história da redenção. Não é a Lei, embora ela revele o caráter de Deus. Não é a criação, ainda que toda a criação proclame Sua glória. Tampouco é a vastidão dos céus ou a multidão das hostes celestiais que servem diante do trono divino. O centro permanente da revelação é uma Pessoa: Jesus Cristo.
Tudo o que a Bíblia comunica encontra seu significado último nEle. A criação prepara Sua vinda; as promessas apontam para Ele; os sacrifícios anunciam Sua obra; os profetas proclamam Seu reino; os evangelhos narram Seu ministério; as epístolas explicam o significado de Sua morte e ressurreição; o Apocalipse revela Seu triunfo definitivo. Do Gênesis ao Apocalipse, a Escritura desenvolve uma única história: a história da redenção realizada por Deus em Cristo.
Essa unidade revela também aquilo que Deus considerou essencial comunicar à humanidade. A Bíblia não foi escrita para satisfazer toda curiosidade intelectual. Seu propósito principal não consiste em responder todas as perguntas possíveis sobre a estrutura da criação, mas conduzir o pecador ao conhecimento do Salvador.
Por essa razão, os escritores bíblicos demonstram extraordinária sobriedade quando tratam de assuntos que ultrapassam esse propósito. Eles falam com segurança onde Deus falou. Permanecem em silêncio onde Deus escolheu permanecer em silêncio. A autoridade da revelação não depende da quantidade de informações que oferece, mas da fidelidade com que comunica aquilo que Deus julgou necessário para nossa salvação.
Essa perspectiva impede que o cristão confunda curiosidade com necessidade espiritual. Muitas perguntas podem despertar legítimo interesse intelectual. Entretanto, nem todas pertencem ao conteúdo da fé. Quando hipóteses passam a ocupar o espaço reservado às afirmações da revelação, a atenção da igreja corre o risco de deslocar-se do centro permanente das Escrituras para temas que jamais receberam igual importância do próprio Deus.
É justamente nesse ponto que a cruz assume seu verdadeiro lugar. Ela não necessita de complementos filosóficos, cosmológicos ou especulativos para explicar o plano da redenção. Nela, Deus revelou plenamente Seu amor, Sua justiça e Seu propósito salvador. Tudo aquilo que é indispensável para a fé converge para esse acontecimento central.
Por isso, a pergunta decisiva nunca será quantos mistérios ainda permanecem ocultos na criação, mas se aquilo que Deus revelou em Cristo é suficiente para fundamentar nossa fé. A resposta das Escrituras permanece inequívoca. A cruz basta. Onde Deus falou, a igreja proclama com confiança. Onde Deus permaneceu em silêncio, a igreja aprende, reverentemente, a permanecer em silêncio também.
A cosmovisão hebraico-bíblica: a revelação da estrutura da criação
A Bíblia não apresenta apenas uma interpretação da criação. Ela afirma revelar a criação como ela realmente é.
Muito antes de existir qualquer escola filosófica, qualquer tratado de cosmologia ou qualquer tentativa humana de explicar racionalmente a estrutura da criação, a Bíblia já iniciava sua narrativa com uma declaração extraordinária. Ela não apresenta uma hipótese. Não propõe uma teoria. Não oferece um modelo concorrente entre diversas possibilidades. As primeiras palavras das Escrituras são uma afirmação de autoridade absoluta:
“No princípio criou Deus os céus e a terra.”
Essa declaração estabelece imediatamente uma diferença radical entre a revelação bíblica e toda construção filosófica posterior. Enquanto a filosofia procura descobrir como a criação surgiu, a Bíblia afirma conhecer sua origem porque fala em nome daquele que a criou. Sua autoridade não deriva da observação da natureza nem da elaboração intelectual dos homens. Deriva da revelação do próprio Criador.
Essa distinção precisa ser cuidadosamente preservada.
Com frequência, utiliza-se a expressão “cosmovisão bíblica” como se a descrição apresentada pelas Escrituras ocupasse o mesmo nível das diversas cosmologias produzidas pelas civilizações antigas ou pelos sistemas científicos modernos. Embora essa linguagem seja comum, ela pode tornar-se profundamente enganosa.
A Bíblia jamais reivindica ser apenas mais uma cosmovisão possível.
Ela reivindica ser a revelação da realidade.
Se Deus é quem fala, então Sua descrição da criação não representa uma interpretação cultural entre tantas outras. Representa o testemunho do próprio Autor acerca da obra de Suas mãos. Colocar essa revelação no mesmo plano das especulações humanas significa, ainda que involuntariamente, abandonar o fundamento sobre o qual ela reivindica sua autoridade.
Quando um cristão afirma crer na inspiração das Escrituras, exatamente o que está confessando?
Está apenas reconhecendo que a Bíblia comunica corretamente princípios espirituais, permanecendo livre para reinterpretar toda a descrição da criação segundo categorias filosóficas posteriores?
Ou está afirmando que Deus revelou fielmente a estrutura da realidade criada, inclusive quando essa estrutura entra em conflito com construções intelectuais desenvolvidas pelos homens?
A resposta a essa pergunta determina praticamente toda a teologia.
Não estamos diante de uma discussão secundária.
Estamos diante da definição da própria autoridade da revelação.
Ao longo da história, inúmeras tentativas procuraram resolver essa tensão por meio de um compromisso aparentemente conciliador. Afirma-se que a Bíblia ensina corretamente o caminho da salvação, enquanto a filosofia ou a ciência seriam responsáveis por explicar a estrutura da criação.
À primeira vista, essa solução parece elegante.
Entretanto, ela produz uma consequência extremamente séria.
Ela divide a autoridade de Deus.
A revelação passa a governar apenas determinadas áreas da realidade, enquanto outras são entregues ao julgamento autônomo da razão humana. Como consequência, aquilo que a própria Escritura afirma acerca da criação começa, pouco a pouco, a ser reinterpretado para ajustar-se às categorias previamente aceitas da cosmologia dominante.
A Palavra já não descreve a realidade. Passa a adaptar-se às descrições produzidas por outros sistemas de pensamento.
Entretanto, esse nunca foi o método dos profetas.
Para Moisés, a criação não constituía um cenário neutro sobre o qual diferentes interpretações pudessem ser igualmente válidas. Ela era a obra visível do Deus que Se revelara a Israel.
O mesmo ocorre com Davi. Ao contemplar os céus e a terra, ele não procura construir uma teoria independente da revelação. Interpreta toda a criação a partir do Criador. Os céus proclamam a glória de Deus porque Lhe pertencem. A terra manifesta Sua sabedoria porque foi estabelecida por Sua palavra. A ordem da criação não nasce da observação humana, mas da vontade soberana daquele que chamou todas as coisas à existência.
Esse princípio percorre toda a Escritura.
Jó não recebe uma aula de filosofia natural. Recebe uma sucessão de perguntas pelas quais Deus reafirma Sua soberania sobre a criação.
Isaías contempla o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono.
Ezequiel vê o firmamento acima dos querubins, o trono sobre o firmamento e a glória do Senhor acima do trono.
Daniel contempla o tribunal celestial instalado acima da sucessão dos impérios humanos.
Em nenhum desses relatos a revelação demonstra qualquer preocupação em substituir sua própria descrição da criação por outra estrutura cosmológica. Pelo contrário, todos os autores bíblicos permanecem dentro da mesma arquitetura revelada desde os primeiros capítulos do Gênesis. A narrativa muda; os personagens mudam; as circunstâncias históricas mudam. A estrutura da criação, porém, permanece a mesma.
O mesmo princípio alcança o Novo Testamento.
Jesus jamais corrigiu o relato da criação apresentado por Moisés.
Pelo contrário. Sempre que faz referência ao Gênesis, trata-o como fundamento histórico e teológico de Seu próprio ensino. Ao falar do casamento, retorna à criação do homem e da mulher. Ao tratar do sábado, reafirma sua origem na obra criadora de Deus. Ao mencionar Abel, Noé, Abraão ou Sodoma, apresenta esses acontecimentos como parte da mesma história da redenção que culminaria em Sua própria missão.
Esse detalhe merece profunda reflexão.
Se o propósito de Cristo fosse substituir a estrutura da criação revelada no Antigo Testamento por outra compreensão da realidade, dificilmente teria perdido tantas oportunidades para fazê-lo.
No entanto, não encontramos uma única correção dessa natureza em Seus ensinamentos.
Jesus anuncia o Reino, revela o Pai, denuncia o pecado, proclama a necessidade do arrependimento e oferece Sua vida em resgate de muitos. Toda a Sua missão desenvolve-se dentro da mesma estrutura narrativa iniciada em Gênesis.
A criação continua sendo o começo da história.
A cruz continua sendo seu centro.
A nova criação continua sendo sua consumação.
Essa continuidade explica por que os apóstolos jamais sentiram necessidade de construir uma nova cosmologia para sustentar o evangelho.
A mensagem permaneceu exatamente a mesma.
O Deus que criou todas as coisas é o Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo.
Criação e redenção pertencem ao mesmo plano porque procedem do mesmo Senhor.
É essa unidade que confere à cosmovisão hebraico-bíblica sua extraordinária coerência e faz dela, para quem aceita a autoridade das Escrituras, não apenas uma interpretação possível da realidade, mas a própria realidade conforme revelada pelo Criador.
A Criação não é apenas o cenário da Redenção. Ela também é parte da Revelação.
Um dos maiores equívocos da teologia moderna talvez tenha sido reduzir a narrativa da criação a um simples pano de fundo para a história da salvação. Frequentemente afirma-se que o propósito de Gênesis consiste apenas em ensinar que Deus criou todas as coisas, permanecendo irrelevante a forma pela qual essa criação é descrita. Segundo essa perspectiva, os detalhes da narrativa pertenceriam apenas à linguagem antiga dos hebreus, enquanto a mensagem espiritual permaneceria válida independentemente da estrutura da criação apresentada pelo texto.
Entretanto, essa leitura dificilmente faz justiça à maneira como a própria Bíblia utiliza o relato da criação ao longo de toda a revelação.
Os profetas jamais trataram a criação como uma moldura descartável. Ao contrário, retornam continuamente a ela para explicar quem é Deus, quem é o homem, como o pecado entrou no mundo, por que existe a morte, qual a razão da encarnação de Cristo e qual será o destino final da humanidade.
A criação não funciona apenas como introdução da narrativa bíblica.
Ela constitui sua gramática permanente.
Todos os grandes temas das Escrituras são compreendidos dentro da estrutura estabelecida nos primeiros capítulos de Gênesis. Isso significa que modificar essa estrutura não representa simplesmente alterar um detalhe secundário da interpretação.
Significa alterar o ambiente no qual toda a história da redenção acontece.
Essa percepção torna-se ainda mais evidente quando observamos que a Bíblia jamais abandona a linguagem da criação. Do Pentateuco ao Apocalipse, os escritores sagrados continuam descrevendo Deus como aquele que habita os céus, reina acima da criação, estabelece Seu trono, governa os exércitos celestiais, envia Seus mensageiros à Terra e, finalmente, faz descer Sua Cidade Santa para habitar novamente com os homens.
Não se trata de imagens isoladas espalhadas aleatoriamente pelos livros bíblicos.
Trata-se de uma narrativa coerente que pressupõe continuamente a mesma estrutura fundamental da criação.
O Céu nunca é apresentado como outro planeta
Talvez um dos aspectos mais significativos da cosmovisão hebraico-bíblica seja precisamente este: quando as Escrituras falam do Céu, jamais o descrevem como um planeta semelhante à Terra localizado em algum ponto remoto da criação física. Essa observação pode parecer simples, mas possui enorme importância hermenêutica.
Sempre que os profetas contemplam o Céu, veem o lugar do governo divino. Veem o trono de Deus. Veem os querubins, os serafins, o santuário celestial, os anjos e a manifestação da glória do Senhor. Nunca descrevem o Céu como um corpo celeste sujeito às mesmas categorias empregadas para descrever os astros. Essa distinção não é acidental.
Ela revela que a realidade apresentada pelas Escrituras não foi construída a partir da observação astronômica, mas da revelação. A Bíblia não procura localizar geograficamente o trono de Deus dentro da criação visível. Ela simplesmente afirma sua existência e sua realidade.
Esse padrão permanece inalterado do Gênesis ao Apocalipse. João contempla o trono. Isaías contempla o trono. Ezequiel contempla o trono. Daniel contempla o trono. Em nenhum momento os escritores sagrados demonstram preocupação em converter essa realidade espiritual em objeto de descrição cosmológica.
O interesse da revelação permanece outro. Ela deseja mostrar quem reina sobre a criação, não satisfazer a curiosidade humana acerca da localização física do Céu. Essa diferença é profundamente significativa.
Sempre que a curiosidade humana procura responder perguntas que a revelação deliberadamente deixou em aberto, corre o risco de substituir a certeza da Palavra por construções intelectuais que, embora pareçam coerentes, já não repousam sobre aquilo que Deus efetivamente revelou.
É exatamente nesse ponto que começa a diferença entre a cosmovisão construída pela revelação e aquela construída predominantemente pela especulação.
Quando um cristão afirma acreditar na inspiração das Escrituras, exatamente o que está confessando? Estará dizendo apenas que a Bíblia comunica corretamente princípios espirituais, permanecendo livre para reinterpretar sua descrição da criação segundo categorias filosóficas posteriores? Ou estará afirmando que Deus revelou fielmente a estrutura da realidade criada, inclusive quando essa estrutura entra em conflito com as construções intelectuais desenvolvidas pelos homens?
A resposta a essa pergunta determina praticamente toda a teologia. Não estamos diante de um debate secundário. Estamos diante da definição da própria autoridade da revelação.
Ao longo da história, muitas tentativas procuraram resolver essa tensão por meio de um compromisso aparentemente conciliador. Afirma-se que a Bíblia ensina corretamente a salvação, enquanto a filosofia ou a ciência seriam responsáveis por explicar a estrutura da criação.
À primeira vista, essa solução parece elegante. Entretanto, ela produz uma consequência extremamente séria. Ela divide a autoridade de Deus.
A revelação passa a governar apenas determinadas áreas da realidade, enquanto outras são entregues ao julgamento autônomo da razão humana. O resultado inevitável é que, pouco a pouco, aquilo que a própria Bíblia afirma acerca da criação começa a ser reinterpretado para ajustar-se às categorias previamente aceitas da cosmologia dominante.
A Palavra já não descreve a realidade. Passa a adaptar-se às descrições produzidas por outros sistemas de pensamento. Esse nunca foi o método dos profetas.
Para Moisés, a criação não constituía um cenário neutro sobre o qual diferentes interpretações pudessem coexistir. Ela era a obra visível do Deus que Se revelara a Israel.
Davi segue exatamente o mesmo princípio. Ao contemplar os céus e a terra, não procura construir uma teoria independente da revelação. Interpreta toda a criação a partir do Criador. Os céus proclamam Sua glória porque Lhe pertencem. A terra manifesta Sua sabedoria porque foi estabelecida por Sua palavra. A ordem da criação não nasce da observação humana, mas da vontade soberana daquele que chamou todas as coisas à existência.
O mesmo princípio percorre toda a Escritura.
Jó não recebe uma aula de filosofia natural. Recebe uma sucessão de perguntas pelas quais Deus reafirma Sua soberania sobre a criação.
Isaías contempla o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono.
Ezequiel vê o firmamento acima dos querubins, o trono acima do firmamento e a glória do Senhor sobre o trono.
Daniel contempla o tribunal celestial estabelecido acima da sucessão dos impérios humanos.
Em nenhum desses relatos a revelação demonstra qualquer preocupação em substituir sua própria descrição da criação por outra estrutura cosmológica. Pelo contrário. Todos os autores bíblicos permanecem dentro da mesma arquitetura revelada desde os primeiros capítulos de Gênesis.
A narrativa muda. Os personagens mudam. As circunstâncias históricas mudam. A estrutura da criação permanece a mesma. O Novo Testamento confirma essa continuidade. Jesus jamais corrigiu o relato da criação apresentado por Moisés.Pelo contrário. Sempre que faz referência ao Gênesis, trata-o como fundamento histórico e teológico de Seu próprio ensino.
Ao falar do casamento, retorna à criação do homem e da mulher. Ao tratar do sábado, reafirma sua origem na obra criadora de Deus. Ao mencionar Abel, Noé, Abraão ou Sodoma, apresenta esses acontecimentos como parte da mesma história da redenção que culminaria em Sua própria missão. Esse detalhe merece profunda reflexão.
Se o propósito de Cristo fosse substituir a estrutura da criação revelada no Antigo Testamento por outra compreensão da realidade, dificilmente teria perdido tantas oportunidades para fazê-lo.
No entanto, não encontramos uma única correção dessa natureza em Seus ensinamentos. Jesus anuncia o Reino, revela o Pai, denuncia o pecado, proclama a necessidade do arrependimento e oferece Sua vida em resgate de muitos. Toda a Sua missão desenvolve-se dentro da mesma estrutura narrativa iniciada em Gênesis.
A criação continua sendo o começo da história. A cruz continua sendo seu centro. A nova criação continua sendo sua consumação. Essa continuidade explica por que os apóstolos jamais sentiram necessidade de construir uma nova cosmologia para sustentar o evangelho. A mensagem permaneceu exatamente a mesma.
O Deus que criou todas as coisas é o Deus que, em Cristo, reconciliava consigo o mundo. Criação e redenção pertencem ao mesmo plano porque procedem do mesmo Senhor.
É essa unidade que confere à cosmovisão hebraico-bíblica sua extraordinária coerência e faz dela, para quem aceita a autoridade das Escrituras, não apenas uma interpretação possível da realidade, mas a própria realidade conforme revelada pelo Criador.
O Céu não é apresentado como simples objeto da astronomia humana
Talvez um dos aspectos mais significativos da cosmovisão hebraico-bíblica seja precisamente este: quando as Escrituras falam do Céu, jamais o descrevem como um planeta semelhante à Terra, localizado em algum ponto remoto da criação física. Essa observação pode parecer simples, mas possui enorme importância hermenêutica. O Céu é apresentado como o lugar do governo de Deus, de onde procedem Sua autoridade, Seu juízo e Sua salvação. É o lugar onde está Seu trono, onde os anjos O servem continuamente, onde Cristo ministra como Sumo Sacerdote e de onde partirá a Nova Jerusalém no encerramento da história do pecado.
Observe que a Bíblia jamais demonstra interesse em localizar esse Céu mediante coordenadas astronômicas. Nenhum profeta procura calcular sua distância, descrevê-lo como integrante de um sistema planetário ou inseri-lo entre os corpos celestes observáveis. O Céu pertence à realidade da criação revelada. Ele é tão real quanto a Terra, mas não é apresentado como simples objeto da astronomia humana. Essa distinção preserva exatamente o caráter da revelação. Deus não convida Seus servos a procurar Seu trono mediante telescópios, mas mediante a fé em Sua Palavra.
Esse detalhe torna-se ainda mais importante quando percebemos que Cristo, durante todo o Seu ministério, jamais alterou essa linguagem. Ele ensinou Seus discípulos a orar: “Pai nosso, que estás nos céus.” Falou repetidamente do Reino dos Céus, da vontade do Pai realizada no Céu, dos anjos que contemplam continuamente a face do Pai e do Filho do Homem vindo nas nuvens do céu. Em nenhum momento reinterpretou essas expressões segundo categorias cosmológicas diferentes. O Céu continua sendo apresentado como a esfera do governo divino, e não como uma civilização planetária inserida no mesmo plano da habitação destinada ao homem.
A permanência dessa linguagem ao longo de toda a revelação dificilmente pode ser considerada acidental. Se Cristo conhecia perfeitamente a realidade celestial e, ainda assim, preservou a mesma estrutura apresentada pelos profetas, torna-se difícil sustentar que a narrativa bíblica aguardasse uma futura correção cosmológica. Pelo contrário. A continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento demonstra que a revelação permaneceu fiel ao mesmo modo de descrever a criação, o governo de Deus e o lugar de Sua habitação.
É precisamente essa continuidade que distingue a cosmovisão hebraico-bíblica das construções desenvolvidas posteriormente. Enquanto a especulação procura localizar, medir e explicar aquilo que Deus não revelou, as Escrituras permanecem rigorosamente concentradas naquilo que o próprio Senhor decidiu tornar conhecido. O interesse da revelação nunca consiste em satisfazer a curiosidade humana acerca da geografia do Céu, mas em conduzir o homem ao Deus que nele reina. A centralidade da mensagem bíblica não está na localização do trono, mas na autoridade daquele que está assentado sobre ele.
O Éden como centro da presença de Deus
Outro aspecto frequentemente negligenciado da narrativa bíblica é a posição ocupada pelo Éden dentro da história da criação. O texto de Gênesis não descreve o jardim apenas como um lugar agradável destinado à habitação do primeiro casal. Diversas passagens posteriores permitem compreender que o Éden desempenhava uma função muito mais elevada. Ali Deus caminhava com o homem; ali Sua presença manifestava-se de maneira imediata; ali encontravam-se a árvore da vida e o rio que irrigava toda a terra. Mais tarde, Ezequiel descreve o Éden utilizando linguagem claramente sacerdotal, associando-o ao monte santo de Deus e ao ambiente de Sua presença.
Essa ligação não parece acidental. Muitos estudiosos têm observado que o próprio tabernáculo reproduz diversos elementos presentes no Éden: os querubins guardando o acesso ao lugar santíssimo, a simbologia das árvores representada no candelabro, a presença do ouro e das pedras preciosas e, sobretudo, a ideia de um lugar onde Deus habita no meio de Seu povo. Sob essa perspectiva, o Éden aparece como o primeiro santuário da história, o ponto de encontro entre o Criador e Sua criação terrestre. A expulsão do homem, portanto, não representa apenas a perda de um jardim; representa a interrupção da comunhão imediata com Deus.
Essa mesma estrutura permanece ao longo de toda a revelação. O tabernáculo no deserto, posteriormente o templo em Jerusalém e, finalmente, o santuário celestial descrito no Novo Testamento não constituem instituições independentes entre si. Todos apontam para uma mesma realidade: Deus deseja habitar com Seu povo. A história da redenção desenvolve-se justamente em torno da restauração dessa comunhão perdida no Éden. O pecado rompeu esse relacionamento; a redenção providenciada por Cristo tem por objetivo restaurá-lo plenamente.
Essa continuidade alcança seu ponto culminante no Apocalipse. A Nova Jerusalém não representa o abandono da narrativa iniciada em Gênesis, mas sua consumação. O tabernáculo de Deus volta a estar entre os homens. O rio da vida reaparece. A árvore da vida torna novamente a produzir seu fruto. A maldição é removida. O Éden perdido transforma-se, enfim, no Éden restaurado. O primeiro e o último livro da Bíblia correspondem um ao outro de maneira extraordinária: Gênesis começa com Deus preparando uma terra perfeita para a habitação do homem; o Apocalipse termina com Deus restaurando essa mesma terra para a habitação eterna dos remidos. A narrativa não é substituída; ela se completa. O princípio e o fim unem-se como as duas extremidades de uma única história da redenção.
É justamente essa unidade que confere à cosmovisão hebraico-bíblica sua impressionante coerência interna. A criação, a queda, a redenção e a restauração final não constituem episódios independentes, mas um único drama desenvolvido dentro da mesma estrutura revelada desde o princípio. Por essa razão, para quem reconhece a autoridade das Escrituras, a questão da cosmovisão deixa de ser mera curiosidade intelectual e passa a dizer respeito à fidelidade ao modo como Deus escolheu revelar Sua criação, Seu governo e Seu plano eterno de redenção.
A arquitetura sagrada da criação: do Éden à Nova Jerusalém
Existe uma característica da revelação bíblica que raramente recebe a atenção que merece. Os escritores das Escrituras não apenas compartilham a mesma compreensão acerca de Deus, do pecado e da redenção; eles também descrevem, de maneira extraordinariamente consistente, uma mesma arquitetura da criação. Essa unidade não aparece apenas em um ou outro livro isolado, mas atravessa toda a revelação, formando um único panorama teológico que permanece inalterado do Gênesis ao Apocalipse. Quando essa continuidade é observada cuidadosamente, torna-se difícil sustentar que cada autor estivesse apenas expressando sua própria compreensão cultural da criação. A impressão produzida pelo conjunto das Escrituras é exatamente a oposta: todos falam como testemunhas de uma mesma realidade revelada.
Essa arquitetura começa logo nas primeiras páginas da Bíblia. Deus cria os céus e a terra, separa as águas, estabelece o firmamento, organiza o espaço habitável, planta um jardim especialmente preparado para o homem e, dentro desse jardim, manifesta Sua própria presença. Desde o princípio, portanto, a criação apresenta uma ordem claramente definida. Ela não consiste em um conjunto aleatório de elementos, mas em uma realidade cuidadosamente organizada segundo a vontade do Criador. Cada parte ocupa seu lugar porque Deus assim o determinou. Essa ordem não é apenas física; é também teológica. Toda a criação aponta continuamente para seu Autor.
Essa mesma estrutura permanece ao longo de toda a narrativa bíblica. Os Salmos não reinterpretam o Gênesis segundo categorias filosóficas; celebram exatamente a criação descrita por Moisés. Quando Davi contempla os céus, não os apresenta como uma realidade autônoma capaz de explicar a si mesma. Os céus proclamam a glória de Deus precisamente porque são obra de Suas mãos. A natureza jamais aparece independente do Criador. Ela existe para testemunhar Seu poder, Sua sabedoria e Sua fidelidade. A criação inteira torna-se linguagem porque reflete continuamente a ação daquele que a estabeleceu.
O mesmo princípio aparece no livro de Jó. Depois de longos capítulos em que os homens procuram explicar o sofrimento mediante argumentos humanos, Deus finalmente responde. Sua resposta, porém, não consiste em uma explicação filosófica do mal. Ele conduz Jó de volta à criação. Pergunta-lhe onde estava quando foram lançados os fundamentos da terra, quando os mares receberam seus limites e quando as estrelas ocuparam seus lugares. O objetivo não é satisfazer a curiosidade humana, mas recordar que somente o Criador possui conhecimento absoluto da estrutura da realidade. A criação torna-se, assim, o grande testemunho da soberania divina.
Isaías reafirma exatamente o mesmo princípio. Quando deseja demonstrar a absoluta singularidade de Deus, não recorre primeiramente à filosofia, mas à criação. O Senhor é aquele que mede as águas na concha da mão, pesa os montes em balanças, estende os céus e chama as estrelas pelo nome. Mais uma vez, a criação aparece como obra continuamente sustentada pelo Criador. Ela não constitui uma máquina autônoma entregue ao acaso, mas permanece sob o governo daquele que a trouxe à existência. Essa continuidade literária possui enorme importância, pois demonstra que a cosmovisão apresentada pelas Escrituras não resulta da evolução de diferentes escolas de pensamento, mas de uma única revelação progressivamente reafirmada por sucessivas gerações de profetas.
Cristo nunca corrigiu o relato da Criação
Talvez um dos aspectos mais significativos de todo o Novo Testamento seja a maneira como Jesus Se relaciona com o relato da criação. Em nenhum momento Ele sugere que Moisés tenha descrito apenas uma antiga compreensão hebraica da criação. Pelo contrário. Sempre que faz referência ao Gênesis, trata-o como fundamento histórico e teológico de Seu próprio ensino. Ao discutir o casamento, retorna à criação do homem e da mulher. Ao falar do sábado, reafirma sua origem na obra criadora de Deus. Ao mencionar Noé, Abel, Abraão, Sodoma ou Jonas, apresenta esses acontecimentos como parte da mesma história da redenção que culminaria em Sua morte e ressurreição.
O Novo Testamento confirma continuamente a linguagem, os símbolos e a arquitetura teológica já estabelecidos desde o Gênesis. Jesus jamais inicia Seu ministério afirmando que Moisés compreendeu equivocadamente a criação. Nunca declara que os salmistas descreveram apenas uma antiga cosmologia hebraica. Tampouco apresenta Isaías, Ezequiel ou Daniel como homens limitados por uma visão primitiva da realidade criada. Sempre que recorre às Escrituras, trata-as como autoridade absoluta. O relato da criação permanece como fundamento de Seu ensino, e toda a narrativa do Antigo Testamento continua sendo apresentada como parte da mesma história redentiva.
O próprio modo como Cristo fala do Céu confirma essa continuidade. O Pai continua estando nos céus; os anjos continuam descendo e subindo para cumprir Sua vontade; o Reino dos Céus permanece como o centro da esperança dos discípulos; a vontade divina continua sendo realizada “assim na terra como no céu”; e o Filho do Homem virá nas nuvens do céu com poder e grande glória. Nada disso sugere qualquer substituição da estrutura anteriormente revelada. Ao contrário, toda a linguagem do Senhor pressupõe exatamente a mesma ordem da criação anunciada pelos profetas.
Os apóstolos seguem o mesmo caminho. Pedro fala da criação, da queda, do dilúvio, do juízo futuro e dos novos céus e da nova terra sem introduzir qualquer descrição diferente daquela recebida das Escrituras. Paulo proclama que todas as coisas foram criadas por Cristo e para Cristo, que a criação geme aguardando sua redenção e que será libertada da corrupção. João encerra a revelação contemplando o trono de Deus, o santuário celestial, os anjos, o Cordeiro, a Nova Jerusalém e a nova criação. Nenhum deles demonstra preocupação em reconstruir a descrição bíblica da realidade. Todos permanecem rigorosamente dentro da mesma narrativa iniciada por Moisés.
Essa continuidade constitui um dos mais fortes testemunhos internos da própria inspiração das Escrituras. Livros escritos ao longo de aproximadamente mil e seiscentos anos, por autores separados por grandes distâncias geográficas, diferentes culturas e contextos históricos distintos, preservam uma mesma compreensão da criação e do plano da redenção. Essa unidade dificilmente pode ser atribuída apenas à tradição literária. Ela corresponde precisamente ao testemunho que a própria Bíblia oferece acerca de si mesma: homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.
A Bíblia nunca corrige sua própria cosmovisão
Esse fato conduz a uma observação que talvez seja uma das mais importantes de todo este estudo. Ao longo de toda a produção bíblica, não encontramos um único momento em que Deus declare haver necessidade de corrigir a descrição da criação anteriormente revelada. A revelação progride em muitos aspectos. Novas alianças são estabelecidas. O plano da redenção torna-se progressivamente mais claro. Profecias recebem cumprimento. O Messias prometido finalmente vem ao mundo. A igreja é enviada para anunciar o evangelho a todas as nações. Entretanto, apesar desse extraordinário desenvolvimento da revelação, sua estrutura fundamental permanece inalterada.
Essa permanência possui enorme significado hermenêutico. Ela demonstra que a Bíblia não considera sua própria descrição da criação um elemento provisório, destinado a ser abandonado à medida que o conhecimento humano evoluísse. Se assim fosse, esperaríamos encontrar algum momento em que Deus dissesse claramente: “Aquilo que anteriormente revelei deve agora ser reinterpretado.” Contudo, esse momento jamais ocorre. Moisés não é corrigido por Isaías; Isaías não é corrigido por Daniel; Daniel não é corrigido por Cristo; Cristo não é corrigido pelos apóstolos; e João encerra a revelação utilizando a mesma linguagem inaugurada no Gênesis. Em vez de substituir o fundamento anteriormente estabelecido, cada escritor amplia a compreensão do plano da redenção permanecendo sobre a mesma base revelada.
Essa continuidade impressiona justamente porque atravessa toda a Escritura sem rupturas. A revelação cresce, aprofunda-se e amplia progressivamente a compreensão do plano da salvação, mas nunca abandona sua própria arquitetura. A criação continua sendo a criação de Deus. O Céu continua sendo o lugar de Seu governo. A Terra continua sendo o palco da redenção. O pecado continua sendo a ruptura da comunhão iniciada no Éden. Cristo continua sendo o segundo Adão. A Nova Jerusalém continua descendo para restaurar definitivamente aquilo que havia sido perdido. Sob essa perspectiva, a Bíblia apresenta-se não como uma coleção de cosmologias sucessivas, mas como uma única narrativa coerente acerca da realidade criada. Essa coerência constitui um de seus traços mais notáveis e exige do intérprete extremo cuidado antes de concluir que elementos fundamentais da revelação devam ser reinterpretados a partir de categorias elaboradas fora da própria revelação.
A pergunta que sustenta todo este livro
Chegamos, então, ao ponto em torno do qual gira toda a investigação desenvolvida nas páginas anteriores e que continuará orientando os volumes seguintes desta coleção. Durante todo este estudo evitamos discutir minuciosamente modelos astronômicos, cálculos científicos ou hipóteses acerca da quantidade de planetas existentes. Fizemos isso deliberadamente, porque entendemos que essa não é a questão central. O verdadeiro problema é anterior a qualquer debate cosmológico. Não consiste, em primeiro lugar, em perguntar qual modelo descreve corretamente a criação, mas em identificar qual autoridade possui o direito de descrevê-la. É essa pergunta, e não outra, que sustentará toda a investigação desenvolvida nos capítulos seguintes.
Talvez seja exatamente essa a pergunta mais importante de todo este livro.
Se a autoridade pertence ao Criador, então Sua revelação constitui o fundamento a partir do qual toda reflexão posterior deverá desenvolver-se. Nesse caso, o intérprete aproxima-se das Escrituras disposto a aprender como Deus descreve Sua própria criação, permitindo que essa revelação molde sua compreensão da realidade.
Se, porém, a autoridade fundamental passa a pertencer a sistemas filosóficos, hipóteses cosmológicas ou construções intelectuais elaboradas posteriormente, a ordem se inverte. A revelação deixa de formar a cosmovisão e passa a ser reinterpretada por uma cosmovisão previamente adotada. Nesse momento, a Bíblia já não exerce a função de fundamento. Ela transforma-se em um texto que necessita ser constantemente harmonizado com categorias externas à própria revelação.
Talvez seja exatamente essa a mudança mais profunda que possa ocorrer dentro da teologia. Ela não começa pela rejeição explícita da Palavra de Deus. Começa quando outra estrutura de pensamento passa, silenciosamente, a determinar como essa Palavra deverá ser compreendida. Primeiro mudam os pressupostos. Depois muda a interpretação. Finalmente, torna-se tão natural pensar segundo o novo paradigma que poucos percebem que a mudança ocorreu.
É precisamente esse mecanismo que torna tão atual a advertência registrada no Éden. A serpente não apresentou uma nova criação nem alterou os fatos observáveis. Limitou-se a oferecer uma interpretação alternativa daquilo que Deus havia dito. A Palavra permanecia a mesma; o que mudou foi a maneira de compreendê-la. A partir desse momento, toda a tragédia da história humana tornou-se possível.
Talvez essa seja a advertência permanente das Escrituras para cada geração. O maior perigo espiritual nem sempre consiste em abandonar completamente a Palavra de Deus. Muitas vezes, consiste em conservar suas palavras enquanto se altera, quase imperceptivelmente, o modo de compreendê-las.
CONCLUSÃO — O RETORNO AO PRINCÍPIO
Ao concluir este capítulo, podemos retornar às primeiras palavras do Gênesis com uma compreensão mais profunda do que aquela que possuíamos ao iniciá-lo. A grande questão nunca foi apenas como Deus criou os céus e a terra. A questão fundamental sempre foi quem possui autoridade para explicar essa criação. A Bíblia responde a essa pergunta desde sua primeira linha. O Criador fala acerca de Sua própria obra, e toda a revelação posterior desenvolve-se sobre esse fundamento.
Antes que existissem escolas filosóficas, observatórios, academias, sistemas cosmológicos ou grandes debates científicos, Deus já havia falado. Os profetas edificaram sua compreensão da realidade sobre essa Palavra. Os apóstolos anunciaram o evangelho apoiados nessa mesma revelação. Cristo confirmou continuamente sua autoridade. Em nenhum momento a Escritura sugere que o fundamento estabelecido no princípio devesse ser substituído por outro. Pelo contrário, toda a história da redenção reafirma que a Palavra do Criador permanece o ponto de partida para compreender corretamente a criação, o homem, o pecado, a redenção e a esperança da restauração final.
É dessa escolha que dependerão todos os capítulos seguintes. Se aceitarmos que a revelação possui autoridade para descrever a criação, ela permanecerá o fundamento sobre o qual construiremos toda a investigação. Se, ao contrário, adotarmos previamente outra estrutura de pensamento e apenas procurarmos harmonizar com ela o texto bíblico, as conclusões já estarão determinadas antes mesmo de iniciarmos a leitura das Escrituras.
É exatamente por isso que o próximo capítulo não começará discutindo astronomia. Antes que a cosmologia moderna reinterpretasse a criação, algo muito mais profundo já havia acontecido: a filosofia passara, lentamente, a fornecer as categorias por meio das quais muitos passaram a interpretar a própria revelação. É nesse momento decisivo da história que nossa investigação prosseguirá.
A Filosofia entrou na igreja muito antes da Astronomia
Quando a Revelação começou a ser interpretada pela sabedoria dos homens
Há um equívoco que frequentemente acompanha as discussões sobre a influência da cosmologia moderna na interpretação da Bíblia. Muitos imaginam que a grande mudança ocorreu apenas quando a astronomia substituiu a antiga compreensão da criação por novos modelos cosmológicos. Essa percepção, entretanto, ignora um processo muito mais antigo, mais profundo e mais decisivo. A transformação da cosmovisão cristã não começou diante dos telescópios. Começou séculos antes, quando categorias filosóficas passaram, lentamente, a ocupar o lugar que antes pertencia exclusivamente à revelação. Antes que a astronomia reinterpretasse a criação, a filosofia já havia reinterpretado a própria maneira de ler as Escrituras.
Essa observação possui enorme importância porque modifica completamente o ponto de partida da investigação. O problema central não consiste apenas na adoção de determinadas teorias acerca da criação. O verdadeiro problema é metodológico. Trata-se de perguntar qual autoridade passou a fornecer as categorias fundamentais por meio das quais a revelação seria compreendida. Enquanto os profetas partiam da Palavra de Deus para interpretar a realidade, muitos pensadores posteriores passaram a partir da filosofia para reinterpretar a própria Palavra de Deus. A inversão foi discreta. Não ocorreu mediante uma rejeição explícita das Escrituras. Continuou-se citando a Bíblia, pregando a Bíblia e afirmando sua inspiração. Entretanto, as perguntas dirigidas ao texto já não eram produzidas pela cosmovisão bíblica, mas pela tradição filosófica que, lentamente, se consolidava como linguagem comum da cultura ocidental.
Esse processo não ocorreu de maneira repentina nem pode ser atribuído a um único personagem histórico. Durante vários séculos, especialmente após a expansão da cultura helenística, o pensamento grego tornou-se o idioma intelectual predominante no mundo mediterrâneo. As categorias de Platão, Aristóteles, dos estoicos e de outras escolas filosóficas passaram a influenciar a lógica, a metafísica, a ética, a política e até mesmo a linguagem religiosa. Quando o cristianismo expandiu-se para além do ambiente judaico e passou a dialogar intensamente com o mundo greco-romano, encontrou diante de si um desafio inevitável: anunciar o evangelho em uma linguagem compreensível para homens profundamente formados por essa tradição filosófica.
Até esse ponto, a questão poderia parecer apenas linguística. Afinal, utilizar o vocabulário de uma cultura não significa necessariamente adotar seus pressupostos. Entretanto, a história demonstra que a fronteira entre linguagem e cosmovisão nem sempre permanece claramente definida. Aos poucos, categorias inicialmente empregadas apenas como instrumentos de comunicação começam também a influenciar a própria maneira de formular perguntas, organizar conceitos e interpretar a revelação. É justamente esse deslocamento, muitas vezes quase imperceptível, que interessa à presente investigação. Nosso objetivo não é reconstruir toda a história da filosofia, mas compreender em que medida determinadas categorias filosóficas deixaram de ser simples recursos de linguagem para tornar-se estruturas por meio das quais muitos passaram a ler as próprias Escrituras.
Esse processo não ocorreu de maneira repentina nem pode ser atribuído a um único personagem histórico. Durante vários séculos, especialmente após a expansão da cultura helenística, o pensamento grego tornou-se o idioma intelectual predominante no mundo mediterrâneo. As categorias de Platão, Aristóteles, dos estoicos e de outras escolas filosóficas passaram a influenciar a lógica, a metafísica, a ética, a política e até mesmo a linguagem religiosa. Quando o cristianismo expandiu-se para além do ambiente judaico e passou a dialogar intensamente com o mundo greco-romano, encontrou diante de si o desafio de anunciar o evangelho em uma linguagem compreensível para homens profundamente formados por essa tradição filosófica.
Foi nesse contexto que, gradualmente, determinadas categorias filosóficas deixaram de funcionar apenas como instrumentos de linguagem e passaram a exercer influência sobre a própria interpretação das Escrituras. A diferença entre essas duas situações é fundamental. Uma coisa é utilizar recursos filosóficos para organizar o pensamento ou expressar uma ideia; outra, muito diferente, é permitir que esses recursos passem a determinar o significado da revelação. Quando isso acontece, a filosofia deixa de servir à interpretação da Palavra e começa, ainda que de forma quase imperceptível, a estabelecer os limites dentro dos quais essa Palavra poderá ser compreendida.
Esse deslocamento metodológico pode ser observado em diferentes momentos da história da teologia. O problema não consiste simplesmente na utilização de determinada terminologia, mas na adoção de pressupostos que passam a orientar a leitura do texto bíblico. A Escritura continua sendo citada como autoridade; entretanto, algumas das perguntas dirigidas a ela já não nascem da própria revelação, mas das categorias intelectuais previamente aceitas pelo intérprete. A mudança ocorre no nível dos pressupostos e, exatamente por isso, costuma passar despercebida.
Talvez um dos exemplos mais conhecidos desse processo seja a doutrina da imortalidade natural da alma. Quando examinamos cuidadosamente o Antigo Testamento, percebemos que a esperança bíblica concentra-se na ressurreição, não na sobrevivência consciente e autônoma de uma alma imortal separada do corpo. A morte aparece repetidamente como um estado de inconsciência, aguardando a intervenção futura de Deus. Entretanto, à medida que o cristianismo dialogava com o platonismo, difundiu-se progressivamente a ideia de que o ser humano possuía uma alma naturalmente imortal, cuja verdadeira pátria encontrava-se liberta da matéria. Essa concepção harmonizava-se profundamente com a filosofia grega, mas alterava significativamente a maneira de compreender diversos textos bíblicos.
Esse diálogo entre o cristianismo e a filosofia produziu um fenômeno que merece cuidadosa atenção. Pouco a pouco, determinadas categorias filosóficas deixaram de funcionar apenas como instrumentos de linguagem e passaram a exercer influência sobre o próprio conteúdo da interpretação bíblica. A diferença entre essas duas situações é profunda. Utilizar a filosofia como ferramenta para organizar o pensamento não é o mesmo que permitir que ela determine aquilo que a Escritura deve significar.
É precisamente esse tipo de inversão que interessa à presente investigação. Nosso objetivo não é reconstruir toda a história da filosofia, nem negar sua influência sobre o desenvolvimento do pensamento ocidental, mas compreender em que momento determinadas categorias deixaram de servir como instrumentos auxiliares e passaram a moldar a própria compreensão da criação e da revelação bíblica. É esse deslocamento que procuramos acompanhar em seus desdobramentos históricos e teológicos.
O mesmo fenômeno pode ser ser observado em relação ao método alegórico de interpretação. Enquanto a tradição profética compreendia os acontecimentos históricos como parte concreta da atuação de Deus na história, determinados intérpretes, influenciados pela filosofia, passaram a privilegiar leituras cada vez mais simbólicas e espiritualizadas. O texto deixava de falar, em primeiro lugar, sobre aquilo que efetivamente afirmava para tornar-se suporte de significados filosóficos considerados mais elevados. A realidade histórica cedia, gradualmente, espaço à abstração metafísica e, como consequência, elementos fundamentais da narrativa bíblica passaram a ser reinterpretados segundo categorias completamente diferentes daquelas utilizadas por seus próprios autores.
Esse processo produziu uma mudança cuja profundidade talvez ainda não tenha sido suficientemente percebida. A Bíblia continuava sendo lida, mas já não era interpretada exclusivamente a partir de si mesma. Passava a ser examinada através de lentes filosóficas previamente aceitas. Em vez de perguntar: “Como os profetas compreendiam esta realidade?”, muitos passaram a perguntar: “Como esta passagem pode ser harmonizada com aquilo que já sabemos pela filosofia?” A mudança parecia pequena, mas suas consequências atravessariam séculos da história cristã.
É precisamente nesse ponto que encontramos uma das maiores lições metodológicas da Reforma Protestante. Quando os reformadores proclamaram o princípio da Sola Scriptura, não estavam apenas reagindo contra determinadas tradições eclesiásticas. Procuravam recuperar algo ainda mais profundo: o direito da própria Escritura de interpretar a si mesma. O verdadeiro conflito não dizia respeito apenas à autoridade da igreja ou do papa, mas ao método. Quem teria a palavra final na compreensão da realidade: a revelação inspirada ou os sistemas intelectuais acumulados ao longo dos séculos? A resposta da Reforma foi inequívoca: a Escritura deve permanecer acima de toda filosofia, tradição ou construção humana, precisamente porque somente ela procede do Deus que conhece perfeitamente Sua própria criação.
Contudo, a história demonstra que esse princípio precisou ser constantemente reafirmado. A tendência de reinterpretar a revelação mediante categorias externas jamais desapareceu; apenas mudaram as correntes de pensamento predominantes. Em determinadas épocas, foi o platonismo; em outras, o aristotelismo. Mais tarde, o racionalismo iluminista, o idealismo alemão, o positivismo, o naturalismo científico e outras correntes passaram a exercer influência semelhante. O padrão, entretanto, permaneceu surpreendentemente constante: primeiro consolidava-se uma nova maneira de compreender a realidade; depois buscava-se reinterpretar as Escrituras para adaptá-las a essa nova compreensão.
É exatamente nesse ponto que a investigação desenvolvida neste livro alcança uma etapa decisiva. Antes de perguntar como determinadas ideias acerca de outros mundos penetraram em parte do pensamento religioso do século XIX, torna-se necessário compreender que o terreno já havia sido preparado por um processo muito mais antigo. A questão não começa com a astronomia, nem mesmo com a filosofia moderna. Ela começa quando a revelação deixa de ser reconhecida como fundamento suficiente para descrever a realidade e passa a ser constantemente reinterpretada à luz de sistemas produzidos pela inteligência humana.
Essa talvez seja a mais importante advertência metodológica deixada pela história da igreja. Nenhuma geração está imune à tentação de permitir que a cultura forneça as categorias fundamentais para interpretar a Palavra de Deus. Em cada época, essa cultura assumirá formas diferentes. Em alguns momentos falará pela voz da filosofia; em outros, pela autoridade da ciência, da política, da psicologia ou das ideologias dominantes. A pergunta, entretanto, permanecerá sempre a mesma: a revelação continuará julgando a cultura ou será a cultura que passará a julgar a revelação?




