
Adventistas apoiaram a revolução cubana? A defesa publicada no blog de Michelson Borges não resiste aos documentos
Em julho de 2021, o blog pessoal do pastor, jornalista e redator adventista Michelson Borges publicou uma extensa defesa da Igreja Adventista diante das informações sobre o auxílio prestado por adventistas aos homens de Fidel Castro e Che Guevara durante a Revolução Cubana.
O texto, assinado pelo teólogo Isaac Malheiros, não surgiu no vazio. O Adventistas.Com já publicava documentos e questionamentos sobre essa história desde outubro de 2018 e havia acabado de retomá-la poucos dias antes. Agora, antes de lançarmos uma nova série documental sobre Cuba, voltamos àquela resposta. E voltamos com muito mais documentação do que possuíamos naquela época.
É importante começar identificando corretamente aquilo que estamos examinando. “Adventistas apoiaram a revolução cubana?” foi publicado em 21 de julho de 2021 no Outra Leitura, definido na própria página como “Blog do pastor e jornalista Michelson Borges”. O texto não é assinado por Michelson, mas por Isaac Malheiros, apresentado ao final como doutor em Teologia e professor do Instituto Adventista Paranaense. Portanto, não estamos atribuindo o artigo a Michelson como autor nem afirmando que o blog seja uma publicação oficial da Casa Publicadora Brasileira.
Estamos diante de algo diferente e editorialmente significativo: um espaço pessoal, sem se apresentar como órgão oficial da denominação, no qual Michelson pode publicar e repercutir uma defesa voluntária da Organização, inclusive abrindo espaço para que outro teólogo adventista desenvolva extensamente essa defesa.
Também não podemos permitir que a pergunta seja modificada no meio da discussão. Nossa questão histórica não é se adventistas foram posteriormente perseguidos pelo regime cubano. Foram. Tampouco é se cada adventista cubano era comunista ou se existiu uma resolução oficial da Associação Geral declarando apoio doutrinário ao marxismo. A questão é muito mais objetiva: adventistas ajudaram homens da Revolução Cubana?
Outros adventistas além de Argelio Rosabal participaram? Houve mobilização entre membros? Instituições adventistas foram envolvidas? A relação com Che terminou quando Fidel Castro chegou ao poder? A própria Igreja posteriormente utilizou os contatos construídos durante a guerrilha? E por que uma denominação que hoje gosta de apresentar sua trajetória sob palavras como “apartidarismo”, “discrição” e “neutralidade” precisa de tantas explicações quando seus próprios arquivos são abertos?
ANTES DA RESPOSTA DE 2021, O ADVENTISTAS.COM JÁ FAZIA ESSAS PERGUNTAS EM 2018
Quem chega agora a essa controvérsia precisa conhecer sua cronologia. O Adventistas.Com não descobriu Argelio Rosabal em 2021 nem inventou a discussão em resposta às disputas políticas recentes. Em outubro de 2018 publicamos uma sequência de matérias sobre Che Guevara, Rosabal, a Revolução Cubana e a maneira como essa história havia sido apresentada aos adventistas brasileiros. Naquele mesmo mês ampliamos o problema para as relações da denominação com Jânio Quadros e confrontamos diretamente Michelson Borges acerca da distância entre o discurso político apresentado aos membros e o comportamento que encontrávamos no arquivo denominacional.
Vale, portanto, colocar diante do leitor a sequência do que publicamos. Os títulos são importantes porque demonstram que as perguntas às quais Isaac Malheiros procuraria responder três anos depois já estavam formuladas publicamente.
4 DE OUTUBRO DE 2018 — “PERGUNTE A SEU PASTOR SE ELE SABE QUEM FOI ‘ARGELIO ROSABAL’”
Foi uma espécie de aviso do que viria. O texto era curto e dizia diretamente que o apoio adventista à Revolução Cubana era raríssimas vezes mencionado, anunciando que publicaríamos mais artigos sobre o assunto. Argelio Rosabal aparecia como a chave de uma história que a maioria dos adventistas brasileiros provavelmente desconhecia. Naquele momento, ainda não tínhamos diante de nós tudo o que hoje possuímos sobre seu papel dentro da comunidade adventista local.
4 DE OUTUBRO DE 2018 — “HISTÓRIA: A VERDADE SOBRE CHE GUEVARA, QUE TAMBÉM FOI APOIADO POR ADVENTISTAS NA REVOLUÇÃO CUBANA”
No mesmo dia avançamos para o conteúdo histórico. O artigo recuperou informação publicada pelo próprio Adventistas.Com muitos anos antes e destacou que um grupo de adventistas havia socorrido Guevara durante seus graves ataques de asma na Sierra Maestra. Também relacionou essa ajuda ao tratamento posteriormente recebido pelos adventistas. Já estava colocada uma questão que permanece central: a ajuda prestada durante a luta revolucionária criou relações que sobreviveram à vitória de Fidel Castro?
5 DE OUTUBRO DE 2018 — “CHE GUEVARA, APOIADO POR OBREIROS E MEMBROS DA IGREJA ADVENTISTA EM CUBA: HERÓI OU VILÃO?”
No dia seguinte, o assunto foi ampliado para a identidade do homem que estava sendo auxiliado. O artigo reuniu materiais divergentes sobre Guevara, inclusive documentação relacionada às execuções realizadas durante a guerrilha. Mais importante para a controvérsia atual é a formulação que já estava no título: “obreiros e membros da Igreja Adventista”. A questão não estava sendo apresentada como um simples encontro casual entre um guerrilheiro asmático e um indivíduo caridoso perdido nas montanhas.
6 DE OUTUBRO DE 2018 — “HISTÓRIA: ABENÇOARIA DEUS A UM GUERRILHEIRO SANGUINÁRIO COMO CHE GUEVARA?”
Esse artigo confrontou particularmente a interpretação religiosa dada posteriormente à história. Guevara, Juan Almeida e outros homens passaram por esconderijos e receberam auxílio de adventistas. A questão proposta pelo Adventistas.Com era se seria legítimo transformar posteriormente essa assistência numa narrativa providencial praticamente despolitizada, retirando do quadro aquilo que aqueles homens estavam fazendo, contra quem combatiam e qual movimento armado procuravam levar ao poder.
7 DE OUTUBRO DE 2018 — “HISTÓRIA DE APOIO A CHE GUEVARA FOI MAL CONTADA NA REVISTA ADVENTISTA BRASILEIRA”
Aqui o problema chegou diretamente à memória denominacional. Examinamos a maneira como a Revista Adventista havia contado a história de Argelio Rosabal e trouxemos uma informação que se tornaria fundamental: a relação não terminara na Sierra Maestra. Em 1963, já depois da vitória de Fidel, a Igreja Adventista criou uma comissão para tratar das dificuldades de seus jovens diante do serviço militar. Foi preparado um memorando. Quatro pastores foram escolhidos para encaminhá-lo acompanhados justamente por Argelio Rosabal. Rosabal chegou pessoalmente a Che, e Guevara encaminhou a questão a Carlos Rafael Rodríguez.
Essa data muda tudo: 1963. Che não era mais um médico asmático escondido numa casa adventista tentando sobreviver. Era uma das principais autoridades do Estado revolucionário. E Rosabal não estava mais socorrendo um fugitivo. Agora era o antigo relacionamento com o guerrilheiro convertido em autoridade que permitia acesso para tratar de uma questão de interesse adventista. O que começara como ajuda durante a guerra continuava produzindo relacionamento depois da vitória.
7 DE OUTUBRO DE 2018 — “DIREITA OU ESQUERDA: DE QUE LADO A IGREJA ADVENTISTA ESTAVA QUANDO JÂNIO QUADROS CONDECOROU CHE GUEVARA?”
No mesmo dia mostramos que a discussão não poderia ficar confinada a camponeses cubanos. O arquivo da Revista Adventista registrava relações públicas e prestigiosas da denominação brasileira com Jânio Quadros antes, durante e depois de sua passagem pela Presidência da República. Em 1957, ainda governador de São Paulo, Jânio apareceu como convidado especial e paraninfo de uma grande formatura adventista. Em 1961, já presidente, apareceu novamente no contexto do diálogo com comunidades religiosas. Em 1962, depois de sua renúncia e depois de haver condecorado Che Guevara com a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, Jânio foi recebido no Instituto Adventista de Ensino, almoçou ali, permaneceu durante horas e conversou longamente com os dirigentes da instituição.
Portanto, quando hoje se tenta resumir a história política adventista à palavra “apartidarismo”, o arquivo exige uma explicação muito maior. As relações com o poder não começaram com Lula, Bolsonaro, PT, PL ou redes sociais.
30 DE OUTUBRO DE 2018 — “MICHELSON BORGES MENTE, QUANDO OMITE QUE A IASD APOIOU LULA, GLEISI, ALCKMIN, RICHA, DÓRIA E O PRÓPRIO CHE GUEVARA”
Antes de terminar aquele mês, Michelson já estava diretamente no centro da discussão. O Adventistas.Com respondeu a um texto político publicado por ele após a eleição de Jair Bolsonaro e confrontou sua leitura com diferentes episódios envolvendo políticos e estruturas adventistas. Che Guevara voltou a aparecer. Portanto, é impossível apresentar a controvérsia de julho de 2021 como se tivesse surgido naquele momento. O debate público já existia havia quase três anos.
16 DE JULHO DE 2021 — “LIDERANÇA DA IASD APÓIA O GOVERNO DE CUBA DESDE A ÉPOCA DE CHE GUEVARA”
Em julho de 2021, quando protestos contra o governo cubano colocaram novamente a ilha no noticiário internacional, retomamos o assunto. A matéria partiu inclusive de informações divulgadas pela própria estrutura adventista interamericana sobre a Igreja em Cuba e recuperou nossa documentação anterior acerca da relação com Che. O ponto central era a longa capacidade institucional adventista de manter interlocução com o governo cubano enquanto, em outros contextos, a linguagem do afastamento político continuava sendo apresentada aos membros.
16 DE JULHO DE 2021 — “O ADVENTISMO EM CUBA — PARTE 1: ‘VIVA LA REVELACIÓN’”
No mesmo dia republicamos o primeiro texto de uma série produzida pela Revista Zelota. O artigo procurava recuperar aspectos pouco conhecidos da experiência adventista cubana antes, durante e depois da Revolução e afirmava que havia adventistas descontentes com Batista e receptivos à mudança política. Concordemos ou não com todas as interpretações de seu autor, o texto demonstrava que a história era muito mais complexa do que a imagem de uma comunidade religiosa completamente alheia à transformação política de Cuba.
21 DE JULHO DE 2021 — MICHELSON ABRE SEU BLOG PARA A RESPOSTA DE ISAAC MALHEIROS
Cinco dias depois, o Outra Leitura publicou “Adventistas apoiaram a revolução cubana?”. E aqui começa algo curioso: para negar ou relativizar a tese, Isaac Malheiros precisa admitir sucessivamente elementos fundamentais dela. Ele reconhece que muitos adventistas viram na Revolução uma “libertação redentora”, que houve adventistas celebrando sua vitória e demonstrando entusiasmo com o novo governo; reconhece que Argelio Rosabal ajudou Che, deu-lhe roupas e cuidou de sua saúde; reconhece que Che utilizou o Colegio de las Antillas; reconhece que Guevara desenvolveu respeito pelos adventistas; e admite que essa relação foi vantajosa para eles no começo do novo regime.
É uma defesa extraordinária porque começa concedendo praticamente todos os elementos necessários para continuarmos fazendo a pergunta que seu título procura responder.
23 DE JULHO DE 2021 — “LEALDADE AO GOVERNO GARANTIU MELHOR TRATAMENTO A ADVENTISTAS EM CUBA”
Dois dias depois, voltamos à documentação sobre a relação posterior à vitória revolucionária. O texto reproduzia a informação de que, em dezembro de 1958, o Antillian College alimentava e cuidava de soldados; depois mostrava a comissão criada pela própria Igreja, o memorando, os quatro pastores, Argelio Rosabal, o acesso a Che e a intercessão de Guevara. Era exatamente o tipo de documentação que impedia reduzir toda a história à compaixão espontânea de um camponês por um homem asmático.
27DE JULHO DE 2021 — PASTOR CUBANO QUE MICHELSON BORGES FOI BUSCAR PARA NOS DESMENTIR ACABOU CONFIRMANDO NOSSAS DENÚNCIAS
Já fazia mais de 40 anos que Rolando de los Ríos havia deixado Cuba quando Michelson o apresentou como testemunha da “realidade da IASD em Cuba”. Já idoso, o pastor deu a resposta que encerraria a discussão: a IASD “nunca apoiou” a Revolução. Só que sua memória não parou no “nunca”. Rolando acabou contando como adventistas simpatizaram com os rebeldes, como a administração do colégio forneceu às tropas de Che aquilo de que precisavam e como o próprio Che falou numa “velha amizade” entre adventistas e Revolução. Michelson procurava uma testemunha para nos desmentir; encontrou um homem cuja memória ajudou a confirmar aquilo que vínhamos publicando desde 2018.
3 DE AGOSTO DE 2021 — “O ADVENTISMO EM CUBA — PARTE 2: CHE GUEVARA, EL PASTOR Y LOS BARBUDOS”
A segunda parte da série da Revista Zelota enfrentou diretamente a resposta divulgada no blog de Michelson e recuperou os dois grandes núcleos de contato: adventistas na Sierra Maestra auxiliando homens do Granma e o ambiente institucional adventista relacionado ao Colegio de las Antillas. O artigo utilizou a expressão “assistência clandestina” e argumentou que existiam evidências de ação conjunta e organizada. Mais uma vez, Argelio deixava de ser suficiente como explicação para toda a história.
AGORA VAMOS À DEFESA DE ISAAC MALHEIROS, PONTO POR PONTO
Quase cinco anos se passaram desde aquela resposta. E hoje possuímos documentos que permitem testar suas afirmações de maneira muito mais rigorosa. Não precisamos discutir intenções escondidas de Malheiros nem imaginar o que Michelson pretendia ao publicar seu artigo. Basta colocar as frases da defesa ao lado dos documentos.
1. “MUITOS ADVENTISTAS” CELEBRARAM A REVOLUÇÃO — A PRIMEIRA ADMISSÃO ESTÁ NA PRÓPRIA DEFESA
Malheiros começa reconhecendo que muitos adventistas viram na Revolução uma “libertação redentora”, celebraram sua vitória e ficaram entusiasmados com o novo governo. Isso não prova que cada adventista cubano fosse revolucionário, evidentemente, mas destrói a imagem de uma comunidade unanimemente estranha ao movimento que levou Fidel Castro ao poder. O próprio texto utilizado para defender a Igreja admite simpatia política e entusiasmo entre adventistas.
Essa admissão é ainda mais importante porque nossa pergunta nunca dependeu de provar que cem por cento dos adventistas cubanos eram comunistas. Basta demonstrar que houve adventistas que fizeram escolhas políticas concretas diante do conflito, e que entre essas escolhas esteve auxiliar os homens que combatiam Batista.
2. “ROSABAL AJUDOU CHE” — OUTRA ADMISSÃO
O texto confirma que Argelio Rosabal ajudou Che Guevara, deu-lhe roupas e cuidou de sua saúde. Reproduz inclusive palavras do próprio Guevara. Portanto, não existe controvérsia séria sobre a existência da ajuda. A discussão passa a ser sua extensão.
E é exatamente aqui que a documentação que hoje possuímos ultrapassa enormemente a narrativa apresentada em 2021. A entrevista extensa de Argelio Rosabal mostra que ele não era apenas um camponês adventista isolado. Rosabal declarou que era diretor da igreja, diretor da Escola Sabatina e fundador de uma congregação naquela região. Contou que foi à igreja num sábado, reuniu adventistas e apresentou a necessidade de socorrer os sobreviventes do Granma. Sua frase resume a decisão: era preciso “salvar essa gente”.
Depois aparecem nomes, roupas, alimentos, esconderijos, deslocamentos, vigilância, mensagens e proteção. Rosabal não apenas abriu sua própria porta. Ele mobilizou outros adventistas.
3. ARGELIO NÃO ESTAVA SOZINHO — E O PRÓPRIO CHE NOS DÁ OUTRA PROVA
Há ainda as adventistas da família Moya. O próprio Che escreveu sobre elas e registrou algo que torna a tese da simples coerção particularmente difícil: eram adventistas e, por sua religião, contrárias à violência, mas deram apoio aos homens naquele momento e continuaram prestando apoio durante a guerra. O valor dessa testemunha é evidente. Não é o Adventistas.Com descrevendo o que Che teria recebido. É o próprio beneficiário registrando o auxílio.
Portanto, já temos pelo menos dois núcleos adventistas distintos aparecendo nas memórias do próprio Guevara. A tentativa de confinar tudo a um gesto pessoal e excepcional de Rosabal simplesmente não comporta a documentação.
4. “NO COLÉGIO, OS ADVENTISTAS NÃO TIVERAM OPÇÃO” — ESSA EXPLICAÇÃO NÃO RESOLVE O PROBLEMA
Essa é uma das frases mais frágeis do artigo de 2021. Malheiros afirma que Che utilizou o Colegio Adventista de las Antillas como ponto de apoio numa batalha decisiva, mas acrescenta que, nesse caso, os adventistas “não tiveram a opção de não colaborar”. Mesmo que admitíssemos coerção em determinado momento militar, isso não explica o conjunto da relação documentada pelo próprio presidente do colégio, Walton J. Brown, em 1959.
Brown descreveu 180 médicos e soldados rebeldes jantando na instituição. Descreveu os arranjos feitos para alimentá-los. Relatou o relacionamento com autoridades do novo governo. Registrou apresentações do coral adventista em ambientes relacionados ao novo poder e diante de Fidel Castro. Outros registros adventistas preservaram ainda o comparecimento de Che a uma atividade do coral e seu agradecimento público pela assistência recebida dos adventistas.
Uma ocupação militar pode explicar uma presença forçada. Não explica automaticamente o relacionamento posterior. Muito menos explica Sierra Maestra, as Moya, Rosabal e 1963.
5. “CHE SABIA QUE OS ADVENTISTAS NÃO PARTICIPARIAM DE SUA POLÍTICA” — MAS PARTICIPAÇÃO POLÍTICA NÃO SE REDUZ A PEGAR NUM FUZIL
A defesa procura separar a ajuda da política argumentando que Che sabia que adventistas não participariam da luta armada nem de sua política. Aqui aparece uma definição conveniente de participação: ou o adventista pega numa arma e entra formalmente no movimento, ou sua atuação deixa de ter dimensão política.
Mas esconder combatentes procurados pelo governo, alimentá-los, providenciar-lhes roupas, auxiliá-los em deslocamentos, transmitir mensagens e ajudá-los a sobreviver para continuar uma guerra são ações concretas dentro de um conflito político e militar. O fato de a motivação individual poder incluir compaixão cristã não torna politicamente neutro o efeito dessas ações. Os próprios participantes sabiam que estavam auxiliando homens perseguidos pelo governo de Batista.
6. “CHE DESENVOLVEU RESPEITO PELOS ADVENTISTAS” — EXATAMENTE. E O QUE ACONTECEU DEPOIS?
Malheiros reconhece que Che passou a respeitar os adventistas e que isso lhes foi vantajoso inicialmente. Essa admissão abre uma pergunta que sua própria defesa não explora até as últimas consequências: de que maneira a ajuda durante a guerra se converteu em vantagem depois dela?
Hoje temos uma resposta documental muito melhor. A relação construída na Sierra Maestra tornou-se acesso. Quando a Igreja precisou tratar de seus problemas com o serviço militar, criou uma comissão, redigiu um memorando e escolheu quatro pastores para encaminhá-lo acompanhados de Argelio Rosabal. Rosabal chegou pessoalmente a Che. Em 28 de outubro de 1963, Guevara encaminhou a documentação a Carlos Rafael Rodríguez e fez referência ao adventista sobre quem já havia falado anteriormente.
Isso não é mais gratidão abstrata. É uma relação funcionando dentro do novo Estado.
7. 1963 É O ANO QUE DESTRÓI A NARRATIVA DO ENCONTRO CASUAL
Precisamos insistir nessa data porque ela impede que o episódio seja congelado em 1956. Sete anos haviam transcorrido desde o desembarque do Granma. Batista havia caído. Fidel governava Cuba. Che já havia participado da estruturação do novo regime e ocupava posições de enorme poder. Mesmo assim, o antigo adventista da Sierra Maestra continuava sendo uma ponte.
Joseph Tahbaz, examinando essa história décadas depois, utilizou uma expressão ainda mais importante: os contatos que alguns adventistas construíram com dirigentes revolucionários na Sierra Maestra proporcionaram aos adventistas uma “relação privilegiada com o governo revolucionário”. E essa relação, segundo sua análise, permitiu aos adventistas apresentar diretamente suas preocupações aos dirigentes do novo poder.
A sequência é simples demais para ser escondida: ajuda durante a guerrilha, relacionamento pessoal, vitória revolucionária, acesso aos governantes e utilização desse acesso pela comunidade adventista.
8. “A IASD RECUSOU-SE A ASSINAR APOIO PÚBLICO AO GOVERNO” — ISSO NÃO APAGA O QUE JÁ HAVIA ACONTECIDO
Malheiros destaca que a Igreja teria sido convidada a assinar publicamente apoio ao novo governo e recusou. O dado é relevante para compreender os limites da relação, mas não funciona como borracha histórica. Recusar uma declaração formal de apoio não desfaz o auxílio prestado por adventistas durante a guerra, não elimina o envolvimento do colégio, não apaga o relacionamento com Che e não faz desaparecer a utilização posterior desse relacionamento.
É perfeitamente possível uma instituição evitar uma declaração formal de adesão ideológica e, simultaneamente, cultivar relações pragmáticas com quem exerce o poder. Aliás, é justamente essa diferença entre discurso formal e prática institucional que estamos examinando.
9. A PERSEGUIÇÃO POSTERIOR NÃO REFUTA A AJUDA ANTERIOR
A maior parte do artigo publicado no blog de Michelson muda então de terreno. Entram confiscos, prisões, UMAP, agressões, limitações à liberdade religiosa e histórias posteriores da família Rosabal. Esses acontecimentos podem ser importantes para escrever a história do regime cubano, mas não respondem à pergunta colocada no título.
Se um governo posteriormente persegue pessoas pertencentes a um grupo religioso, isso não significa que integrantes desse grupo não tenham anteriormente ajudado os homens que levaram aquele governo ao poder. Uma coisa não apaga a outra. O próprio artigo reconhece que o governo concedeu uma casa à família Rosabal em reconhecimento pela ajuda anteriormente recebida. Assim, até a narrativa utilizada para demonstrar a ingratidão posterior preserva a memória da colaboração anterior.
E a cronologia precisa ser mantida corretamente: não foi a Igreja Adventista que, depois de reconhecer uma incompatibilidade ideológica, tomou a iniciativa de romper com o comunismo cubano. Foi o Estado revolucionário que, à medida que consolidou sua política marxista-leninista, impôs restrições crescentes às denominações religiosas. Isso explica o conflito posterior. Não reescreve aquilo que aconteceu antes dele.
10. A PRÓPRIA FOTOGRAFIA PUBLICADA NA DEFESA CRIA OUTRO PROBLEMA
O artigo hospedado por Michelson contém uma fotografia com a legenda: “Che Guevara e Fidel no Colegio [Adventista] de las Antillas”. É quase uma síntese visual do problema. Uma defesa destinada a afastar a ideia de participação adventista precisa mostrar aos leitores Che, Fidel e uma instituição adventista na mesma história.
A fotografia não prova sozinha apoio ideológico. Nenhuma fotografia deveria ser utilizada dessa maneira. Mas colocada ao lado de Brown, Guevara, Rosabal, Tahbaz e dos documentos denominacionais, ela passa a integrar um conjunto muito maior. E é esse conjunto que precisa ser explicado.
11. O TEXTO DE 2021 NÃO CONHECIA O ARGELIO QUE HOJE PODEMOS OUVIR POR 23 PÁGINAS
Este talvez seja o maior avanço de nossa pesquisa. Hoje não dependemos apenas de relatos posteriores sobre Rosabal. Temos sua extensa entrevista preservada no acervo de Tad Szulc. Nela, Rosabal fala por si. Explica sua posição na igreja, a reunião dos adventistas, a decisão de socorrer os expedicionários, as roupas, os esconderijos, a alimentação, a oração, as mensagens, os deslocamentos e até as armas que Che lhe entregou para esconder.
Isso altera a escala documental do debate. Não precisamos perguntar a um defensor contemporâneo da Organização o que Rosabal teria feito. Podemos perguntar ao próprio Rosabal.
12. E O PRÓPRIO CHE TAMBÉM PODE RESPONDER
Guevara registrou adventistas em suas próprias memórias. Mencionou Rosabal. Mencionou as adventistas Moya. No caso delas, deixou registrado que, embora suas crenças fossem contrárias à violência, ofereceram apoio naquele momento e durante o transcurso da guerra. Isso é particularmente importante porque elimina a possibilidade de tratar toda assistência adventista como uma invenção posterior de críticos da denominação.
Che não escreveu suas memórias para acusar a Igreja Adventista. Estava narrando sua própria guerra. É justamente por isso que seu testemunho possui tanto valor.
13. CALEB ROSADO ACRESCENTA OUTRA CAMADA À HISTÓRIA
Em 1984, o pesquisador adventista Caleb Rosado publicou na Spectrum um estudo sobre Castro e as igrejas. Ao reconstruir aquele período, admitiu que adventistas, especialmente leigos no Oriente cubano, simpatizaram com os revolucionários e lhes prestaram “assistência clandestina”. Ao mesmo tempo, construiu uma interpretação na qual a crueldade e a corrupção de Batista aparecem antes dessa admissão e na qual a igreja cubana posterior é criticada por não haver redefinido suficientemente sua missão diante de uma “sociedade revolucionária”.
Rosado merece ser lido integralmente porque sua interpretação é quase tão importante quanto os fatos que admite. Quanto mais tenta explicar a posição adventista, mais elementos preserva para reconstruirmos aquilo que aconteceu.
14. JOSEPH TAHBAZ MOSTRA O QUE A AJUDA PRODUZIU
Tahbaz fornece a ponte que faltava entre a Sierra Maestra e o Estado revolucionário consolidado. Sua pesquisa mostra a comissão adventista, o memorando, os quatro pastores, Rosabal, Che e a intervenção de 1963. Mais do que isso: conclui que os relacionamentos formados entre adventistas e líderes revolucionários na Sierra Maestra produziram uma relação privilegiada com o governo.
Em outras palavras: quando Che precisava dos adventistas, adventistas abriram portas para Che. Quando os adventistas precisaram de acesso ao novo poder, a relação construída na Sierra Maestra ajudou a abrir a porta de Che.
15. E EM 2025 A PRÓPRIA ADVENTIST REVIEW USOU UMA EXPRESSÃO QUE ISAAC MALHEIROS NÃO PODERIA PREVER
Há ainda uma testemunha que não existia quando Malheiros escreveu sua defesa. Em 2025, a Adventist Review publicou uma reportagem sobre a relação adventista com autoridades cubanas. Não estamos falando de um blog crítico nem de uma publicação independente. A Adventist Review é publicada pela Associação Geral e se identifica como publicação geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
A reportagem começa com uma lembrança extraordinária. Caridad Diego Bello, responsável durante décadas pelo Escritório de Assuntos Religiosos ligado ao Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, contou que, quando assumiu a função, encontrou uma lista de pendências proveniente das anotações de Che Guevara. Entre elas estava a possibilidade de autorizar os adventistas a possuir um seminário teológico.
Depois a matéria atravessa décadas de relacionamento envolvendo dirigentes adventistas, União Cubana, Associação Geral, Divisão Interamericana, Maranatha, templos, seminário, autorizações, materiais, alfândega e vistos. E utiliza uma expressão que agora precisa ser colocada diante da defesa de 2021: “long-standing collaboration”.
Colaboração de longa data.
16. “HISTORICAMENTE, A IASD SEMPRE PROCUROU MANTER BOAS RELAÇÕES COM OS GOVERNOS, SEM DENOTAR APOIO POLÍTICO”
Esta frase de Isaac Malheiros talvez seja a mais importante de todo o artigo porque, sem perceber, ela nos entrega o problema conceitual que estamos discutindo. O que significa exatamente “manter boas relações” quando essas relações incluem auxílio durante uma revolução, acesso posterior a seus dirigentes, reivindicações levadas diretamente a uma autoridade beneficiada anteriormente, contatos institucionais prolongados e, décadas depois, uma publicação da própria Associação Geral falando em “colaboração de longa data”?
Talvez o verdadeiro problema nunca tenha sido a ausência de política. Talvez tenha sido a maneira como a Organização define quais de suas próprias relações com o poder serão chamadas de diplomacia, liberdade religiosa, relacionamento institucional, cooperação ou colaboração, enquanto do membro comum se exige “discrição” para preservar a imagem de apartidarismo.
A DEFESA DE 2021 ACABA FUNCIONANDO COMO UMA LISTA DE ADMISSÕES
Podemos agora resumir aquilo que o próprio artigo hospedado por Michelson admite: muitos adventistas receberam a Revolução com entusiasmo; Rosabal ajudou Che; deu-lhe roupas; cuidou de sua saúde; Che utilizou o Colegio de las Antillas; desenvolveu respeito pelos adventistas; essa relação lhes trouxe vantagens; e a família Rosabal chegou a receber uma casa do governo em reconhecimento pela ajuda prestada. A defesa acrescenta que a Igreja recusou posteriormente uma declaração pública de apoio e dedica a maior parte de seu espaço à perseguição religiosa ocorrida depois.
Mas nenhuma dessas informações desfaz as anteriores. Pelo contrário: quando retiramos a longa digressão sobre a perseguição posterior e voltamos à pergunta do título, descobrimos que o próprio texto acumulou elementos que tornam impossível uma resposta simplista.
O QUE O ADVENTISTAS.COM PUBLICOU ATÉ AQUI
Para facilitar a consulta dos leitores e deixar registrada a trajetória dessa investigação, esta é a sequência principal que localizamos em nosso arquivo:
4/10/2018 — “Pergunte a seu pastor se ele sabe quem foi ‘Argelio Rosabal’”
O primeiro alerta direto sobre o personagem adventista ligado à sobrevivência dos homens do Granma e sobre o silêncio em torno do apoio adventista à Revolução.
4/10/2018 — “História: A verdade sobre Che Guevara, que também foi apoiado por Adventistas na revolução cubana”
Recuperou o auxílio prestado a Guevara, seus problemas de saúde e a relação posterior dessa ajuda com a situação adventista.
5/10/2018 — “Che Guevara, apoiado por obreiros e membros da Igreja Adventista em Cuba: Herói ou vilão?”
Ampliou a discussão para a identidade e a violência de Che e explicitou no próprio título que o auxílio não deveria ser reduzido a um único indivíduo.
6/10/2018 — “História: Abençoaria Deus a um guerrilheiro sanguinário como Che Guevara?”
Questionou a interpretação providencial e religiosa dada posteriormente à assistência prestada a Guevara e seus companheiros.
7/10/2018 — “História de apoio a Che Guevara foi mal contada na Revista Adventista brasileira”
Confrontou a memória denominacional e trouxe a documentação sobre a comissão adventista, os quatro pastores, Rosabal e o acesso a Che em 1963.
7/10/2018 — “Direita ou esquerda: De que lado a Igreja Adventista estava quando Jânio Quadros condecorou Che Guevara?”
Trouxe a discussão para o Brasil e documentou relações adventistas com Jânio antes, durante e depois de sua Presidência, inclusive depois da condecoração concedida a Guevara.
30/10/2018 — “Michelson Borges mente, quando omite que a IASD apoiou Lula, Gleisi, Alckmin, Richa, Dória e o próprio Che Guevara”
Colocou Michelson diretamente na controvérsia e confrontou seu discurso político com episódios documentados envolvendo a denominação e diferentes figuras políticas.
16/7/2021 — “Liderança da IASD apóia o Governo de Cuba desde a época de Che Guevara”
Retomou a cronologia cubana durante a crise política de 2021 e relacionou a memória de Che às relações mantidas pela liderança adventista com o governo cubano.
16/7/2021 — “Nova série da Revista Zelota: O adventismo em Cuba (parte 1) — ‘Viva la Revelación’”
Republicou pesquisa sobre a experiência política dos adventistas cubanos e o entusiasmo de parte deles com a derrubada de Batista.
23/7/2021 — “Lealdade ao Governo garantiu melhor tratamento a adventistas em Cuba”
Apresentou documentação sobre Antillian College, serviço militar, comissão adventista, quatro pastores, Rosabal e Che, avançando justamente sobre aquilo que a defesa publicada dois dias antes não conseguia resolver.
3/8/2021 — “Nova série da Revista Zelota: O adventismo em Cuba (parte 2) — Che Guevara, el Pastor y los barbudos”
Aprofundou os dois grandes núcleos de auxílio adventista — Sierra Maestra e Colegio de las Antillas — e respondeu diretamente à tentativa de minimizar a participação.
28/8/2026 — “FÉ SEM BANDEIRAS? De Che Guevara aos candidatos brasileiros: a história política que a IASD precisa explicar”
Inseriu Cuba numa investigação maior sobre o discurso contemporâneo do apartidarismo adventista e confrontou a teoria da neutralidade política com a prática histórica da denominação.
28/8/2026 — “TRUMP SABE DISSO? Che Guevara, o médico que matava, foi ajudado pela Igreja Adventista — e a relação continuou depois dos fuzilamentos”
Reuniu a violência documentada de Guevara, o auxílio adventista durante a guerrilha, a continuidade da relação depois da vitória, o episódio de 1963 e a relação brasileira com Jânio Quadros.
FÉ COM BANDEIRAS E ARMAS — Vem aí a série IACSD: Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia.
29/8/2026 — “FÉ COM BANDEIRAS E ARMAS — Vem aí a série IACSD: Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia”
Anunciou a nova etapa documental da investigação, agora baseada diretamente em Walton J. Brown, Che Guevara, Argelio Rosabal, Caleb Rosado, Joseph Tahbaz e na própria documentação adventista contemporânea.
MICHELSON E ISAAC RESPONDERAM À PERGUNTA. AGORA OS DOCUMENTOS VÃO RESPONDER À RESPOSTA
É isso que mudou desde 2021. Naquela época, Isaac Malheiros reuniu dezenas de referências para demonstrar principalmente a perseguição posterior sofrida pelos adventistas cubanos. Agora podemos retornar à pergunta original com fontes muito mais próximas dos acontecimentos. Podemos ler o que o próprio Che escreveu. Podemos ouvir Argelio Rosabal em 23 páginas de entrevista. Podemos ler Walton J. Brown descrevendo os acontecimentos a partir da direção do Antillian College em 1959. Podemos examinar Caleb Rosado. Podemos acompanhar Joseph Tahbaz até a comissão adventista de 1963. E podemos chegar a 2025 e encontrar a própria Adventist Review descrevendo uma “colaboração de longa data” entre o governo cubano, a organização adventista e ministérios adventistas de apoio.
Por isso, enquanto a nova série não começa, deixamos uma pergunta simples para Michelson Borges, Isaac Malheiros, professores de Teologia, pastores e leitores adventistas: diante desse conjunto documental, ainda é suficiente responder que Argelio apenas ajudou um homem doente, que o colégio não teve escolha e que depois os comunistas perseguiram os adventistas?
Porque a próxima etapa não dependerá de nossa palavra.
Che Guevara falará.
Argelio Rosabal falará.
Walton J. Brown falará.
Caleb Rosado falará.
Joseph Tahbaz falará.
E a própria Adventist Review falará.
Depois disso, cada leitor poderá responder por conta própria à pergunta que Isaac Malheiros colocou no título de seu artigo em 2021:
ADVENTISTAS APOIARAM A REVOLUÇÃO CUBANA?
Nós vamos colocar os documentos sobre a mesa.





