
Do “Senhor dos Exércitos” ao “Grande Comandante”, da caverna de Adulão à Sierra Maestra: a forte ênfase no Antigo Testamento, a identidade de Israel espiritual, os hinos de batalha e a formação de jovens como soldados de Cristo ajudam a entender por que adventistas cubanos não apenas socorreram, mas apoiaram, acompanharam e colaboraram com os revolucionários.
Antes da revolução, veio a formação
Quando perguntamos por que adventistas cubanos esconderam guerrilheiros, ofereceram comida, transportaram recursos, cuidaram de feridos, acompanharam revolucionários e depois, em Santa Clara, colocaram uma instituição adventista inteira em contato direto com homens de Che Guevara e Fidel Castro, é tentador procurar imediatamente uma ordem escrita. Quem mandou? Onde está a circular? Qual presidente autorizou? Qual pastor deu a orientação?
Continuamos procurando esses documentos porque eles são importantes, mas o que já encontramos mostra que a explicação não depende apenas da existência de uma ordem explícita. Uma pessoa não chega adulta a uma revolução com a cabeça vazia. Ela chega carregando aquilo que sua família, sua escola, sua igreja, seus professores, seus sermões, suas lições e seus hinos colocaram dentro dela. E o adventista chegava ao conflito cubano depois de anos sendo ensinado a enxergar a história por meio de um conjunto muito particular de personagens e categorias: povo de Deus, remanescente, Israel espiritual, Lei, fidelidade, perseguição, inimigos, libertadores, batalha e vitória.
É importante dizer isso de modo simples. O adventismo sempre deu enorme peso ao Antigo Testamento porque depende muito dele para explicar quem é. O sábado continua obrigatório porque o quarto mandamento continua válido juntamente com os demais mandamentos do Decálogo. A pesquisa de Joêzer Mendonça mostra que a autoconcepção adventista como “povo do tempo do fim” foi associada à condição de grupo que observa a totalidade dos Dez Mandamentos.
A mesma pesquisa mostra que a guarda do sábado foi entendida historicamente pelos adventistas como cumprimento da Lei de Deus prevista no Decálogo e que sábado, santuário e expectativa da volta de Cristo estavam entre os eixos doutrinários da denominação quando ela se organizou formalmente em 1863. Portanto, o Antigo Testamento não entra apenas como parte da Bíblia. Ele entra como fundamento da própria identidade religiosa.

Israel não ficou no passado
Isso muda muita coisa porque o fiel não aprende apenas que existiu um povo chamado Israel. Ele aprende a reconhecer elementos da própria experiência religiosa na história daquele povo. Um dos materiais adventistas que examinamos chega a chamar a Igreja de “povo remanescente” e de “Israel espiritual”.
Se somos Israel espiritual, então as histórias de Israel deixam de ser apenas relatos antigos de hebreus mortos há milhares de anos e passam a oferecer modelos de identidade. A Lei continua. O sábado continua. O conflito entre fidelidade e apostasia continua. O remanescente continua. A perseguição continua. E, dentro desse mesmo universo narrativo, continuam também Davi e Saul, Gideão e os midianitas, Josué e as cidades inimigas, os valentes, os reis, os exércitos e o “Senhor dos Exércitos”.
Mendonça mostra que a influência puritana ajudou a formar a mentalidade que desembocou no adventismo, inclusive com forte ênfase na observância dos Dez Mandamentos e na fidelidade relacionada ao sábado. Essa tradição ajudou os primeiros adventistas a interpretar o conflito escatológico como oposição entre os que guardam os mandamentos e os poderes que os perseguem. Em linguagem simples, o fiel aprendia que pertencia a um grupo especial, que esse grupo enfrentaria poderes maiores, que permanecer fiel exigiria coragem e que, no final, Deus daria a vitória aos seus. É difícil imaginar uma gramática religiosa mais facilmente transportável para uma revolução.
Da caverna de Adulão à Sierra Maestra
Agora coloquemos diante desse adventista uma história concreta. Um governante autoritário no poder. Homens perseguidos fugindo para as montanhas. Um pequeno grupo cercado de simpatizantes. Pessoas oferecendo abrigo, comida e proteção. Combatentes reunidos em torno de líderes carismáticos. Um adversário militar muito mais poderoso. Uma população cansada de violência e corrupção.
Para alguém que crescera ouvindo as histórias de Davi, aquilo podia parecer extraordinariamente familiar. Em 1 Samuel 22, Davi foge de Saul e se refugia na caverna de Adulão. Ali começam a se reunir ao seu redor homens aflitos, endividados e descontentes, e daquele pequeno grupo surgem os homens que passariam a acompanhá-lo. A Sierra Maestra podia parecer uma Adulão moderna.
Não estamos dizendo que Argelio Rosabal ou qualquer outro adventista cubano tenha deixado escrito: “Fidel é Davi, Batista é Saul e os Estados Unidos são os filisteus”. Não temos esse documento. O que estamos dizendo é que essa comparação já existia como possibilidade dentro do imaginário de quem havia sido educado nas narrativas de Israel.
Fidel ou Che podiam ocupar o lugar do perseguido que reúne seus valentes. Batista podia parecer Saul, o governante que persegue aquele que ameaça seu poder. E o grande poder estrangeiro associado ao regime podia assumir, no imaginário, a função que os filisteus exerciam nas histórias aprendidas desde a infância. A realidade política chegava praticamente pronta para ser traduzida por uma linguagem bíblica conhecida de cor.
O Senhor dos Exércitos estava conosco
E havia uma expressão bíblica capaz de reunir tudo isso: “O Senhor dos Exércitos está conosco.” Para quem vive numa religião fortemente moldada pelas histórias de Israel, isso não é apenas uma frase bonita. Ela apresenta Deus como Senhor das hostes, aquele que acompanha seu povo em meio ao conflito, sustenta os seus contra forças maiores e pode entregar a vitória.
Uma religião construída sobre esse tipo de linguagem não precisa ensinar explicitamente que o cristão deve pegar numa arma para produzir uma mentalidade em que guerra, fidelidade e vontade divina possam se aproximar. Basta ensinar durante anos que somos o povo de Deus, que existem inimigos, que há uma batalha, que precisamos permanecer firmes, que Deus marcha conosco e que a vitória pertence aos fiéis.
Quando essa pessoa encontra uma revolução de verdade, a passagem do símbolo para a realidade pode ser muito menor do que imaginamos. O guerrilheiro perseguido deixa de parecer apenas um homem armado. Pode parecer um valente. A montanha deixa de ser apenas esconderijo. Pode parecer Adulão. O governante deixa de ser apenas presidente ou ditador. Pode parecer Saul. E ajudar deixa de significar somente dar um prato de comida por compaixão. Pode significar apoiar, acompanhar, proteger, transportar, participar, caminhar junto e acreditar que aquela causa está do lado certo da história.

Os hinos nos ensinavam a ser soldados
Se o Antigo Testamento fornecia os personagens, os hinos forneciam a trilha sonora. E aqui a documentação que examinamos é especialmente forte. Joêzer Mendonça observa que o hinário funciona para os adventistas como uma espécie de “segunda Bíblia”, porque nele se encontram proposições fundamentais da fé denominacional, selecionadas por comissões de músicos e pastores e submetidas à aprovação institucional. Isso significa que não estamos falando simplesmente de músicas populares escolhidas espontaneamente pelos membros. Estamos falando de repertório religioso institucionalmente selecionado e usado para ensinar, emocionar e formar memória.
Esse repertório nos ensinava a nos imaginar como soldados e guerreiros. Cristo aparecia como General, Comandante, chefe das hostes. Havia guerra, inimigos, bandeiras, pendões, marcha, combate, firmeza e vitória. O próprio material adventista sobre a história de “Ó Cristãos, Avante!” descreve o cristão como alguém chamado a lutar contra as hostes de Satanás, marchar, vestir a armadura da fé e seguir Cristo como seu General até a vitória. Mendonça mostra também que a marcha militar foi usada no ambiente protestante para ajudar a fixar textos religiosos na memória e identifica no repertório adventista canções como “Ó Cristãos, Avante” e “O Pendão Real”.
A juventude recebia a mesma formação. O Melodias de Vitória, lançado em 1955 e considerado o primeiro hinário especificamente destinado aos jovens adventistas, trazia músicas para reuniões juvenis, acampamentos e encontros sociais e incluía pequenas marchas como “Marchar e Cantar” e “Avançai, Juvenis”. A análise musicológica desta última identifica ritmo binário e baixo marcado que caracterizam um estilo marcial.
Em outras palavras, antes de esses jovens enfrentarem qualquer guerra real, já tinham sido ensinados a experimentar sua religião como marcha. Antes de haver um inimigo político, já havia inimigo espiritual. Antes de haver comandante guerrilheiro, já havia um Grande Comandante. Antes do uniforme verde-oliva, já existiam uniforme, bandeira, hierarquia, disciplina e missão no mundo religioso juvenil.
Desbravadores em ação para valer
É por isso que a imagem pode parecer provocativa, mas ajuda a entender o mecanismo: na Sierra Maestra e depois em Santa Clara, encontramos algo parecido com Desbravadores em ação para valer. Não estamos dizendo que a organização dos Desbravadores enviou seus jovens à guerrilha. Estamos falando do imaginário.
Uniforme, disciplina, comando, marcha, bandeira, espírito de corpo, missão, acampamento, resistência, coragem e vitória já faziam parte da cultura religiosa. Numa situação normal, tudo isso era simbólico, pedagógico e espiritual. Em Cuba, a história colocou diante daqueles membros uma guerra verdadeira. Havia mata, montanha, perseguição, mensageiros, alimentos, transporte, esconderijos, feridos, comandantes e homens armados. O cenário que antes existia na Bíblia e no hino agora estava do lado de fora da igreja.
Em Cuba, o treinamento já estava dentro do Colegio de las Antillas
Em Cuba, essa formação não permaneceu apenas no terreno das ideias. Em 1945, o próprio campus do Colegio de las Antillas sediou o primeiro acampamento dos Jóvenes Misioneros Voluntarios cubanos. E, em 1951, o mesmo colégio recebeu o primeiro seminário de treinamento de cadetes médicos adventistas de Cuba.
A instituição que poucos anos depois alimentaria combatentes revolucionários, atenderia feridos e colocaria recursos à disposição das forças de Che Guevara já vinha sendo utilizada oficialmente pela Igreja para acampamento juvenil, treinamento missionário e preparação de jovens adventistas em atividades de campo. A própria Encyclopedia of Seventh-day Adventists preserva essa cronologia: primeiro acampamento dos jovens missionários voluntários no campus em 1945; primeiro seminário de treinamento de cadetes médicos cubanos no colégio em 1951.
O caso dos cadetes médicos é ainda mais revelador. Um relato adventista de 1952 informa que o acampamento cubano ocorreu durante as férias de dezembro de 1951 no Antillian Junior College e reuniu 104 jovens. Os secretários dos Missionários Voluntários das duas associações cubanas e o presidente do colégio serviram como oficiais do acampamento; havia capitão, tenentes, instrutores, representantes da Cruz Vermelha cubana e integrantes do departamento médico do Exército de Cuba.
O treinamento fazia parte do programa adventista de Medical Cadet Corps, criado exatamente para preparar jovens para situações relacionadas ao serviço militar, com primeiros socorros, disciplina, marcha e capacidade de responder a emergências. O próprio relatório afirma que os contatos com os departamentos médicos dos exércitos das repúblicas envolvidas foram considerados favoráveis e que os jovens entendiam esse preparo como necessário para enfrentar situações futuras. Antes de cuidar dos feridos de Che Guevara, o Colegio de las Antillas já treinava cadetes médicos adventistas.
Eu mesmo conheço o poder dessa formação porque a vivi. Quando criança, cantava “Grande Comandante” enquanto brincava com soldados de plástico. Na versão que ficou gravada na minha memória, cantávamos “Vamos por Jesus lutar” e “Pois os seus fiéis irão ganhar”. Aos seis anos, já era capitão nos Desbravadores. Quase sessenta anos depois, ainda me lembro daquelas palavras.
É exatamente assim que a formação funciona: entra antes da reflexão adulta. A criança ainda não sabe explicar pacifismo, militarismo, revolução ou não violência cristã, mas já sabe que existe um General, uma guerra, hostes, inimigos e uma vitória. Os hinos não apenas falavam de soldados. Eles nos ensinavam a nos sentir soldados.

Um Jesus com linguagem de guerrilheiro
Aqui encontramos uma contradição que merece ser exposta com clareza. Não estamos dizendo que Jesus tenha sido guerrilheiro. Pelo contrário. O Jesus dos Evangelhos não organizou uma força armada contra Roma, não preparou discípulos para uma insurreição e, quando Pedro usou a espada, mandou que a guardasse.
O problema é que o Jesus cantado em parte desse repertório podia ganhar uma aparência muito diferente: Grande Comandante, General, chefe de hostes, líder de uma guerra santa, aquele que marcha à frente e conduz seus soldados à vitória. O hino transformava a metáfora espiritual em imagens militares tão concretas que uma criança podia compreendê-las antes mesmo de compreender o Sermão do Monte.
E é justamente aí que o peso do Antigo Testamento se torna decisivo. Davi pode matar Golias. Josué pode conquistar uma cidade. Gideão pode destruir um exército inimigo. Os juízes podem libertar Israel pela violência. Davi pode reunir homens em Adulão e tornar-se comandante deles. Jesus, porém, manda amar os inimigos, orar pelos perseguidores e guardar a espada. Quando o cristão aprende a se imaginar primeiro como Israel em guerra e apenas depois como discípulo do Jesus do Sermão do Monte, abre-se um espaço perigoso: uma luta política concreta pode começar a parecer uma versão moderna das batalhas bíblicas.
Não era Teologia da Libertação
Não estamos diante daquilo que historicamente ficou conhecido como Teologia da Libertação. Não havia ali o corpo teórico que mais tarde seria associado a autores latino-americanos, análise marxista da sociedade, comunidades eclesiais de base e opção preferencial pelos pobres. Mas existe uma proximidade interessante num ponto: a possibilidade de enxergar um conflito político como luta moral entre opressor e oprimido e de imaginar que Deus estivesse do lado da libertação. Só que, no caso que estamos descrevendo, a linguagem não precisava vir de Marx. Podia vir de Samuel, Reis, Juízes, Josué e Salmos.
Por isso talvez seja mais adequado falar, editorialmente, numa “teologia da guerrilha santa”. Não como doutrina oficial da Igreja Adventista, porque não encontramos uma crença formal com esse nome, mas como descrição de um imaginário religioso em que o guerrilheiro justo podia parecer perfeitamente compatível com a fé.
A Sierra Maestra podia ser Adulão. O revolucionário podia ser Davi. Batista podia ser Saul. Os adversários estrangeiros podiam virar filisteus. Os companheiros eram os valentes. E, acima de todos, estava o Senhor dos Exércitos. Não era necessário elaborar uma teologia acadêmica da revolução. O fiel já possuía uma teologia narrativa da guerra.
E então aparece Walton Brown
É neste ponto que Walton J. Brown deixa de ser personagem lateral e se torna decisivo. Porque já não estamos falando apenas de alguns membros dispersos pelas montanhas orientais de Cuba. Brown era pastor, educador, diretor do Colegio de las Antillas e homem colocado pela própria estrutura denominacional numa posição de comando.
Quando a guerra chegou a Santa Clara, ele não apareceu como alguém completamente alheio ao que estava acontecendo. O próprio Brown registrou refeições oferecidas aos revolucionários, atendimento a feridos, participação de médicos e enfermeiros, fornecimento de materiais, veículos, gerador e contato pessoal com Che Guevara. O colégio tornou-se parte do ambiente operacional daqueles dias.
Posteriormente, documentos denominacionais chegariam a reconhecer que as instalações haviam sido praticamente tomadas pelas forças revolucionárias durante as semanas finais e que Fidel dera garantias em reconhecimento aos “favores recebidos”.
Brown é particularmente importante porque mostra que a história não pode ser empurrada toda para a categoria de iniciativa individual de membros entusiasmados. A Revolução saiu da Sierra Maestra e chegou a uma instituição adventista dirigida por um homem da organização. E esse homem sabia estabelecer limites: quando Che pediu o uso da gráfica para material político, Brown recusou. Isso revela algo fundamental. Walton Brown sabia que havia uma linha.
Se sabia que imprimir propaganda política ultrapassava essa linha, então surge inevitavelmente outra pergunta: quem lhe ensinou onde ela estava? Por que alimentar revolucionários, atender feridos, oferecer recursos, receber dirigentes e colocar o coral nesse ambiente cabiam de um lado da fronteira, enquanto imprimir propaganda ficava do outro?
Brown não apenas regeu para Fidel
Depois da vitória, a música volta ao centro da história. Brown relata que o coral do Colegio de las Antillas era muito solicitado e participaria de uma cerimônia na universidade ligada à presença de Fidel Castro. Outros testemunhos acrescentam episódios de aproximação entre o colégio, Fidel, Che e o coral.
E o depoimento de uma ex-aluna que participou daquele ambiente traz um detalhe extraordinário: segundo sua memória, Walton Brown acrescentou duas estrofes ao hino revolucionário que seria cantado para Fidel. No trecho preservado do testemunho, aparecem fragmentos de exaltação ao líder, incluindo palavras como “Fidel gran líder” e expressões de louvor e afeto: “Nós te alabamos, nós te amamos…!”. Não completamos aquilo que o áudio não permite ouvir com segurança, mas o testemunho em si é claro quanto à participação de Brown na adaptação.
Isso cria uma imagem difícil de ignorar. O diretor adventista que dirigia uma instituição formada por Bíblia, doutrina, disciplina e música religiosa acabou utilizando justamente a música para aproximar o colégio da nova liderança revolucionária. Brown não apenas regeu para Fidel. Segundo a testemunha, compôs para Fidel. O mesmo ambiente religioso em que Cristo era cantado como Grande Comandante agora colocava sua música diante do comandante vitorioso da Revolução Cubana.
Nem precisava chegar uma ordem
É por isso que a pergunta “onde está a ordem para apoiar os guerrilheiros?” talvez tenha sido formulada de maneira estreita demais. Continuamos querendo encontrar qualquer documento administrativo que exista, mas a ordem não precisava necessariamente chegar num memorando. Uma organização forma seus membros muito antes de lhes dar instruções específicas. Se durante décadas ela ensinou um universo no qual somos Israel espiritual, guardamos a Lei de Deus, pertencemos ao remanescente, enfrentamos inimigos, seguimos um General, marchamos em suas hostes, defendemos seu pendão e esperamos a vitória, ela já forneceu uma linguagem para interpretar situações de conflito.
Depois de toda essa formação, a Igreja não pode simplesmente desaparecer da história quando seus membros usam essas categorias para agir. Não pode ensinar Davi durante anos e considerar absolutamente estranho que alguém reconheça um Davi na montanha. Não pode ensinar Saul e os filisteus e fingir surpresa quando um regime e seus aliados são colocados nesses lugares. Não pode cantar General, hostes, marcha, guerra e vitória e depois tratar como inexplicável que membros passem a enxergar uma revolução como batalha justa. A Igreja participou da formação; portanto, não pode querer se ausentar completamente quando chega a hora de discutir as consequências dessa formação.
Se era proibido, mostrem onde ensinaram isso
Esse ponto torna ainda mais importante nossa busca documental. Se a liderança adventista de Cuba, da União, da Divisão ou da organização mundial considerava incompatível com a fé esconder guerrilheiros, transportar armas ou recursos, alimentar combatentes, colaborar com insurgentes ou acompanhar uma revolução armada, queremos ver onde isso foi ensinado naquele momento. Onde estão as circulares? Onde estão os sermões? Onde estão as cartas aos pastores? Onde estão as advertências aos membros do Oriente? Onde estão as atas em que a liderança tentou impedir a colaboração? Onde estão as medidas disciplinares? E, especialmente, onde está a orientação dada a Walton Brown estabelecendo até onde o Colegio de las Antillas poderia ir?
Porque existe uma diferença enorme entre dizer depois da Revolução que alguns membros “se envolveram” e mostrar que, antes da vitória, a Igreja tentou impedir esse envolvimento. Até agora encontramos abundante documentação sobre colaboração, refeições, atendimento, recursos, proximidade com os revolucionários e gratidão posterior pelos “favores recebidos”.
O que ainda não apareceu com a mesma clareza é a documentação contemporânea mostrando a organização dizendo aos seus membros: não façam isso. E quanto mais entendemos o tipo de formação religiosa que esses membros haviam recebido, menos satisfatória se torna a ideia de que tudo aconteceu espontaneamente e sem nenhuma relação com o ambiente espiritual que os produziu.
No Brasil, 1963 também merece atenção
O paralelo brasileiro acrescenta outro elemento interessante. O Cantai ao Senhor entrou em uso em 1963, imediatamente antes da ruptura política de 1964 e da longa fase de governos militares no Brasil. Não seria correto afirmar que o hinário foi produzido para preparar adventistas para a ditadura; o material que temos não autoriza essa conclusão. Mas a proximidade histórica merece atenção, especialmente porque a dissertação de Priscila Derevecki encontrou no próprio hinário uma seção com sete cânticos dedicados à pátria e ao patriotismo e concluiu que eles reforçavam uma forma de nacionalismo cristão, articulando religião, cultura e política.
A pesquisadora encontrou ainda sonoridade marcial em parte desse repertório, com metais, acordes em bloco, ritmo acentuado e associação com bandas militares; um dos arranjos estudados aparece também no Army and Navy Hymnal, utilizado no ambiente militar norte-americano. Em outro repertório adventista, ela identifica ritmo “cadenciado e marcial” e mostra como devoção religiosa e amor à pátria podiam aparecer lado a lado. E a mesma pesquisa observa que essa formação patriótica alcançou inclusive repertórios infantis, compondo aquilo que ela descreve como uma continuidade entre infância e vida adulta e associando a hinódia adventista a patriotismo e disciplina cívica.
Isso não prova uma ligação causal entre o Cantai ao Senhor e o regime militar brasileiro, mas mostra que a música adventista estava perfeitamente inserida num universo de patriotismo, disciplina, marcha e identidade coletiva justamente naquele período. E isso reforça a pergunta maior que estamos fazendo: quanto daquilo que depois aparece como comportamento político já havia sido preparado como sentimento religioso?
O problema não começou com Fidel
No final, a questão que Cuba coloca diante de nós é maior do que Fidel Castro, Che Guevara ou Walton Brown. Ela diz respeito à maneira como uma comunidade religiosa forma pessoas.
Quando o fiel aprende desde criança que pertence ao remanescente, que é Israel espiritual, que os Dez Mandamentos continuam obrigatórios, que existe uma grande batalha, que Deus é o Senhor dos Exércitos, que Cristo é General e Grande Comandante, que os crentes são suas hostes e que é preciso marchar, lutar e vencer, ele não recebe apenas doutrina. Recebe personagens, emoções, reflexos e maneiras de interpretar o mundo.
Em Cuba, a história ofereceu um cenário perfeito para que esse imaginário saísse do hinário e entrasse na montanha. Havia uma nova Adulão. Havia candidatos a Davi. Havia um Saul. Havia filisteus. Havia valentes reunindo-se. Havia marcha, disciplina, esconderijos, suprimentos, perseguição e guerra. Depois, em Santa Clara, apareceu Walton Brown, o Colegio de las Antillas, Che Guevara, os revolucionários, os feridos, as refeições, o coral e finalmente Fidel Castro.
Não era a Teologia da Libertação que décadas depois ganharia nome e bibliografia nas faculdades. Era algo mais antigo, mais simples e talvez mais poderoso porque já estava entranhado na memória religiosa: uma teologia da guerrilha santa, na qual a realidade podia ser lida com os personagens do Antigo Testamento e cantada com a linguagem dos exércitos.
E talvez por isso a frase mais importante desta investigação seja também a mais simples: não era preciso mandar aqueles adventistas para a guerra. Primeiro ensinaram-lhes, durante anos, a se enxergar como guerreiros. Quando a Sierra Maestra apareceu, eles já conheciam Davi, Saul e os filisteus. Já conheciam o Senhor dos Exércitos. Já sabiam quem era o General. Já tinham aprendido a marchar.
Referências
- MENDONÇA, Joêzer de Souza. A mensagem na música: estudos da Teomusicologia sobre os cânticos dos Adventistas do Sétimo Dia. Tese de Doutorado em Música. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” — UNESP, Instituto de Artes, São Paulo, 2014. Orientação de Dorotéa Machado Kerr.
- DEREVECKI, Priscila Aparecida Romero. “Oração pelo Brasil”: música e nacionalismo no hinário Cantai ao Senhor (1963). Dissertação de Mestrado em Música. Universidade Estadual do Paraná — UNESPAR, Curitiba, 2024. Orientação de Joêzer Mendonça.
- VARGAS, Keila Brito; FRANÇA, Lucilene da Silva. História de hinos do Hinário Adventista. Igreja Adventista do Sétimo Dia de Jerônimo Monteiro, 2010.
- TAVARES, Levi de Paula. Uma Teologia Adventista da Música na Igreja. Estudo baseado, entre outras referências, na obra de Samuele Bacchiocchi sobre música cristã. O material é relevante para a autocompreensão adventista como “povo remanescente” e “Israel espiritual”.
- ENCYCLOPEDIA OF SEVENTH-DAY ADVENTISTS. Villa Perla Mission. Registra que, em 1945, o primeiro acampamento dos Jóvenes Misioneros Voluntarios cubanos foi realizado no campus do Colegio de las Antillas e que, em 1951, o mesmo campus recebeu o primeiro seminário de treinamento de cadetes médicos adventistas cubanos.
- SCHOEN, V. “Medical Cadets in the Antillian Union Mission”. The Youth’s Instructor, 22 de julho de 1952. O relato informa que o treinamento cubano de dezembro de 1951 ocorreu no Antillian Junior College, reuniu 104 jovens e contou com oficiais do programa, representantes da Cruz Vermelha cubana e do departamento médico do Exército de Cuba.
Nota metodológica: a expressão “teologia da guerrilha santa” empregada neste artigo é uma formulação editorial para descrever o encontro entre a forte formação veterotestamentária, a identidade de Israel espiritual, a linguagem militar dos hinos e a atuação concreta de adventistas no ambiente revolucionário cubano. Não é o nome de uma doutrina oficial da Igreja Adventista.





