
Argelio Rosabal foi fundador de uma congregação adventista, dirigente da igreja, diretor da Escola Sabatina, formador religioso de sua comunidade e reconhecido por seus próprios irmãos como figura pastoral.
Em 1956, Rosabal mobilizou o rebanho para salvar homens do Granma, escondeu, alimentou, deslocou e protegeu combatentes, recebeu armas para ocultação e ajudou a manter viva uma guerrilha que ainda não possuía o Estado. Décadas depois, quando descendentes daquele mesmo homem foram atingidos pelo Estado revolucionário, quando Omar Rosabal acabou numa prisão considerada arbitrária por um órgão das Nações Unidas e quando até o túmulo de “El Pastor” foi profanado, outra imagem bíblica passou a exigir atenção: Ezequiel 34.
Se Ezequiel 23 pergunta com quem a religião se deitou e Apocalipse 17 pergunta qual besta ela decidiu montar, Ezequiel 34 pergunta algo ainda mais constrangedor: onde estavam os pastores quando as ovelhas feridas precisaram deles?
“EL PASTOR” NÃO NASCEU NA BOCA DE CHE GUEVARA
Há uma correção fundamental sem a qual toda essa história fica deformada. Argelio Rosabal não deve ser apresentado como um simples agricultor adventista a quem Che Guevara e Juan Almeida, por alguma peculiaridade revolucionária, resolveram apelidar de “El Pastor”. O próprio Rosabal esclareceu posteriormente que não era pastor ordenado, mas sua condição institucional e comunitária estava longe de ser irrelevante: dirigia a igreja adventista local, exercia a direção da Escola Sabatina e participara da fundação de uma congregação.
Em outras palavras, não possuía a credencial ministerial que o organograma denominacional exigiria para chamá-lo tecnicamente de pastor, mas exercia no cotidiano da comunidade funções inequívocas de liderança religiosa, ensino, organização e cuidado do grupo. O título pelo qual os revolucionários passaram a conhecê-lo não caiu do céu nem foi produzido por uma imaginação romântica de Che; correspondia ao lugar que Rosabal ocupava entre os adventistas com quem aqueles homens passaram a conviver. Os guerrilheiros aprenderam quem era “El Pastor” porque havia um rebanho que o reconhecia como sua liderança.
Isso muda profundamente o significado de tudo o que aconteceu a partir de dezembro de 1956. Quando Rosabal decidiu que era necessário “salvar essa gente”, não agiu apenas como indivíduo movido por compaixão privada. Seu próprio depoimento mostra que reuniu adventistas num sábado, apresentou a situação dos sobreviventes do Granma, orientou os presentes e criou uma rede de atuação. Cerca de quinze ou vinte adventistas, segundo sua memória, ficaram envolvidos ou “orientados”.
A partir daí aparecem roupas, alimentação, esconderijos, transporte clandestino, mensagens, vigilância, deslocamentos e proteção contra as tropas de Batista; aparecem também armas e munições que Che pediu que fossem escondidas. A frase “temos que salvar essa gente” não significava simplesmente impedir que homens famintos morressem de inanição para depois entregá-los às autoridades ou devolvê-los à vida civil. Significava preservar combatentes perseguidos, impedir sua captura e criar condições para que eles alcançassem novamente a estrutura insurgente. Rosabal mobilizou membros de uma comunidade religiosa para que homens de uma força armada sobrevivessem e retornassem à guerra.
“EL PASTOR”: O DIRIGENTE ADVENTISTA DENTRO DA REDE QUE MANTEVE A GUERRILHA VIVA


O próprio Che Guevara elimina qualquer tentativa de reduzir Argelio Rosabal a um camponês que ofereceu comida por compaixão. Em Pasajes de la Guerra Revolucionaria, páginas 118-119, ao narrar os dias desesperados que se seguiram ao desastre de Alegría de Pío, Che registra que seu pequeno grupo estava escondido “na casa de um adventista chamado Argelio Rosabal, a quem todos conheciam como El Pastor”. A formulação é decisiva: Che não afirma que inventou o apelido; registra uma identidade já reconhecida ao seu redor. Rosabal era “El Pastor” porque assim era conhecido naquela comunidade religiosa que dirigia. E, quando soube que o esconderijo anterior havia sido denunciado, que Pablo Hurtado fora preso e que as armas dos guerrilheiros tinham caído nas mãos do Exército, não se limitou a lamentar a situação. Segundo Che, “hizo contacto rápidamente” com outro camponês conhecedor da região e, naquela mesma noite, os revolucionários foram retirados dali e conduzidos a um refúgio mais seguro. O homem acionado por Rosabal era Guillermo García, que depois se tornaria um dos principais comandantes revolucionários. A narrativa de Che coloca, portanto, o dirigente adventista dentro da cadeia concreta que protegeu homens dispersos do Granma e os ajudou a reencontrar o núcleo sobrevivente de Fidel Castro.
Guillermo García Frías percorreu uma distância extraordinária desde o camponês que Argelio Rosabal acionou em dezembro de 1956. Tornou-se comandante da Revolução, membro da elite governante e administrador de um vasto aparato econômico estatal. Décadas depois, seu nome e o de sua família aparecem associados por críticos do regime a privilégios, negócios agroalimentares, importações, exploração de recursos e estruturas empresariais reservadas à elite revolucionária. O camponês que ajudou fugitivos a sobreviver terminou integrado à classe de poder que passou a controlar recursos num país onde a maioria sobrevivia à escassez.
Há ainda um detalhe que altera profundamente a leitura do episódio. Che não apresenta Rosabal como um desconhecido a quem os guerrilheiros, por conveniência, resolveram chamar de pastor; escreve que ele era um adventista “a quem todos conheciam como El Pastor”. A expressão indica reconhecimento prévio, identidade social consolidada e uma função percebida pela comunidade antes mesmo de o grupo de Che entrar em sua casa. Quando colocamos essa frase ao lado do que já sabemos — Rosabal como fundador da congregação, dirigente da igreja e diretor da Escola Sabatina — o quadro se torna muito mais claro: os revolucionários não inventaram o personagem religioso, apenas aprenderam dos próprios adventistas quem exercia, na prática, aquela liderança.
E foi justamente esse homem, dotado de autoridade suficiente para mobilizar membros, estabelecer contatos e acionar uma rede de proteção, que aparece na narrativa de Che no momento em que os sobreviventes do Granma precisavam escapar de uma posição comprometida e alcançar um esconderijo mais seguro. “El Pastor” não é um apelido folclórico acrescentado posteriormente à história; é a marca de uma liderança religiosa real inserida na engrenagem que ajudou a manter viva a guerrilha.
Recorte de imprensa cubana reproduzindo o relato de Che Guevara sobre Argelio Rosabal. Che registra que o dirigente adventista era “conhecido por todos como El Pastor” e relata que, ao saber que o esconderijo anterior havia sido descoberto pelo Exército, Rosabal rapidamente acionou uma rede local e ajudou a transferir os sobreviventes do Granma para um refúgio mais seguro. A fotografia publicada abaixo do relato identifica Argelio Rosabal.
RELATO DE CHE
“Nosso grupo era formado, se não me falha a memória, por Pancho González, Ramiro Valdés, Almeida e eu; o outro, por Camilo, Benítez e Chao; Pablo Hurtado permanecia doente na casa.
Assim que fomos embora, o dono da casa não conseguiu resistir à tentação de contar a notícia a um amigo, para discutir onde esconderiam as armas. Este o convenceu de que elas poderiam ser vendidas, entrando em negociação com um terceiro, que fez a denúncia ao Exército. Poucas horas depois de termos deixado aquela primeira casa hospitaleira de Cuba, o inimigo invadiu o local, prendeu Pablo Hurtado e capturou todas as armas.
Nós estávamos na casa de um adventista chamado Argelio, a quem todos conheciam como El Pastor. Esse companheiro, ao tomar conhecimento da lamentável notícia, entrou rapidamente em contato com outro camponês da região, que conhecia muito bem a área e dizia simpatizar com os rebeldes. Naquela noite nos tiraram dali e nos levaram para outro refúgio mais seguro. O camponês que conhecemos naquele dia chamava-se Guillermo García, hoje chefe do Exército do Ocidente e membro da Direção Nacional do nosso Partido.
Depois estivemos em algumas outras casas de camponeses…”

Não era apenas o homem que tinha uma casa aberta. Era “El Pastor” acionando gente, território e confiança comunitária para manter vivos homens que precisavam voltar à guerrilha.
Não estamos diante de assistência humanitária neutra prestada depois do combate. Aqueles homens continuavam combatentes procurados, carregavam as últimas armas que haviam conseguido salvar, tentavam escapar do Exército de Batista e buscavam retornar ao núcleo armado da Revolução. O próprio Che explica que abandonar os fusis naquele momento era, segundo Fidel, um “crime” e uma “estupidez”, porque a arma constituía sua única esperança de sobrevivência caso encontrassem o Exército. É nesse contexto militar inequívoco que aparece “El Pastor”. Rosabal não apenas acolhe fugitivos; ajuda a retirá-los de uma posição comprometida, aciona outro colaborador e participa da transferência para um esconderijo mais seguro. Na memória escrita pelo próprio Che, o adventista Argelio Rosabal aparece como parte funcional da rede que manteve vivos homens que o governo procurava eliminar e que, poucos dias depois, voltariam a compor o núcleo armado da guerrilha.

NÃO ERA APENAS CARIDADE; ERA UMA REDE QUE MANTINHA A GUERRILHA VIVA
O próprio Che Guevara fornece uma confirmação externa particularmente importante porque identifica Rosabal pelo nome, registra sua condição adventista e recorda a função concreta que ele exerceu quando a situação dos revolucionários tornou-se perigosa. Depois que armas confiadas a outro homem foram descobertas e a posição dos sobreviventes ficou comprometida, Rosabal conseguiu novo contato e ajudou a retirar os guerrilheiros daquele lugar para um esconderijo mais seguro.
Em outra passagem de suas memórias, Che registra o “apoio franco” oferecido por adventistas e afirma que essa colaboração continuou “durante todo o transcurso da guerra”. A memória do beneficiário encontra, portanto, o depoimento detalhado daquele que organizava parte da rede. Che conta, de fora, que recebeu proteção de adventistas; Rosabal explica, por dentro, como aquela proteção foi organizada. Quando as duas fontes são lidas juntas, desaparece a possibilidade de reduzir o episódio a uma xícara de café oferecida por acaso a homens que passavam pela estrada.
Essa constatação também impede outra simplificação: imaginar que Rosabal estaria agindo como uma espécie de agente secreto completamente desconectado da comunidade que liderava. Ele mobilizou adventistas e utilizou a confiança existente dentro daquela comunidade. O conteúdo religioso da Escola Sabatina, a liderança da congregação, as relações entre os membros e a autoridade moral de “El Pastor” não ficaram suspensos enquanto a guerrilha passava.
Ao contrário, constituíram parte do capital social que lhe permitiu organizar rapidamente uma rede de proteção. O rebanho religioso tornou-se, naquele momento, uma rede capaz de esconder e movimentar homens procurados pelo governo. Isso não transforma cada participante em guerrilheiro armado, mas coloca a comunidade muito mais perto da guerra do que a palavra “neutralidade” permitiria imaginar.
EZEQUIEL 23: QUANDO A RELIGIÃO PROCURA AMANTES PODEROSOS
É aqui que Ezequiel 23 acrescenta uma dimensão que Apocalipse 17 sozinho não oferece com a mesma violência verbal. O profeta apresenta Oolá e Oolibá, figuras de Samaria e Jerusalém, como mulheres que abandonam sua fidelidade e procuram amantes entre poderes estrangeiros. A linguagem é deliberadamente sexual, ofensiva e desconfortável porque o objetivo do profeta é impedir que alianças políticas sejam higienizadas pelo vocabulário diplomático. Aquilo que reis, sacerdotes e administradores poderiam chamar de estratégia, proteção nacional ou habilidade política, Ezequiel chama de prostituição. A culpa não está simplesmente em conversar com estrangeiros; está em buscar segurança, identidade e vantagem no poder que deveria permanecer externo à fidelidade religiosa. A instituição passa a desejar precisamente aquilo contra o qual deveria manter distância.
Essa chave profética ilumina a experiência cubana com uma intensidade difícil de evitar. A Igreja que proclamava apartidarismo e distância das ideologias encontrou homens que ainda não possuíam o Estado e ajudou alguns deles enquanto lutavam para conquistá-lo. Depois, quando esses mesmos homens venceram, a relação ganhou outra natureza: Che recordou a promessa de financiar a igreja de Rosabal; dirigentes revolucionários reconheceram os adventistas; o Colegio de las Antillas recebeu a nova liderança; Fidel foi recebido, alimentado e homenageado; Che participou de atividades ligadas ao colégio; administradores procuraram construir convivência com o novo regime. O amante perseguido transformara-se em rei. A relação iniciada na fragilidade da guerrilha podia agora oferecer algo muito mais valioso: acesso ao poder.
Ezequiel 23 é especialmente desconcertante porque as mulheres da visão não permanecem fiéis a um único amante. Elas procuram diferentes potências conforme muda o equilíbrio político. A prostituição profética, portanto, não exige fidelidade ideológica a um rei específico; sua própria natureza é a disponibilidade para novas alianças. Isso conversa diretamente com aquilo que temos chamado de falso apartidarismo. Uma igreja verdadeiramente apartidária mantém princípios estáveis diante de poderes diferentes. Uma instituição camaleônica, porém, pode transformar a ausência de compromisso formal com qualquer partido numa extraordinária liberdade para aproximar-se de todos eles. Não precisa converter-se definitivamente ao comunismo, ao capitalismo, ao nacionalismo ou a qualquer outra ideologia; precisa apenas descobrir qual rei ocupa o palácio naquele momento e qual linguagem permitirá continuar próxima dele.

APOCALIPSE 17: A MULHER NÃO FOGE DA BESTA; ELA APRENDE A MONTÁ-LA
Apocalipse 17 leva esse princípio a uma imagem ainda mais conhecida pelos próprios adventistas. A mulher aparece relacionada com os reis da terra e montada sobre uma besta escarlate. Durante gerações, a pregação adventista ensinou seus membros a localizar essa mulher em outras organizações religiosas, especialmente naquelas que utilizaram governos, legislação, coerção estatal e alianças políticas para preservar ou ampliar poder religioso. O problema dessa leitura não é necessariamente aquilo que denunciou, mas a facilidade com que transformou a profecia num retrato dos outros. A mulher era sempre outra igreja; a besta era sempre outro sistema; os reis eram sempre aliados de outra religião. Dessa maneira, a interpretação profética podia produzir indignação sem produzir exame de consciência.
Cuba introduz justamente esse espelho incômodo. A questão não é afirmar que Fidel Castro ou Che Guevara constituíssem literalmente determinada cabeça escatológica identificável da besta. O problema é muito mais próximo e, por isso mesmo, muito mais difícil: o método da mulher pode ser reproduzido por qualquer instituição religiosa que descubra vantagens na proximidade com o poder temporal. A religião começa ajudando homens que ainda não governam, preserva capital de relacionamento quando eles chegam ao poder e, depois, transforma acesso político em instrumento de sobrevivência institucional. Não precisa ajoelhar-se diante de uma ideologia; basta aprender a cavalgar o Estado.
Foi exatamente esse capital relacional que o próprio Rosabal voltaria a representar posteriormente. A história preservada pelo projeto documental que estamos reconstruindo mostra que sua relação pessoal com Che não desapareceu quando a guerrilha venceu. Em contexto posterior, quando a Igreja precisava chegar ao governo revolucionário, Rosabal podia tornar-se ponte porque não chegava ao antigo guerrilheiro como desconhecido. Che sabia quem era aquele adventista. Sabia onde havia recebido proteção. Sabia o que aquela rede fizera quando seus homens estavam vulneráveis. A ajuda oferecida durante a guerra convertera-se em acesso depois da vitória. Essa transformação de solidariedade em capital institucional é precisamente o tipo de fenômeno que uma leitura séria de Apocalipse 17 deveria obrigar adventistas a examinar dentro da própria história, e não apenas na história de Roma.
A BESTA CRESCEU — E O “EL PASTOR” DEIXOU DE SER NECESSÁRIO
Décadas depois, porém, a história da família Rosabal sofreu uma inversão cruel. O Estado revolucionário que se consolidou a partir daqueles homens perseguidos já não dependia das casas, esconderijos, alimentos, mensagens e rotas organizadas por adventistas no interior cubano. A dívida simbólica podia sobreviver nas memórias de Che e nas histórias familiares, mas o equilíbrio de poder havia mudado completamente. O movimento insurgente que precisava do “El Pastor” transformara-se num Estado dotado de polícia, tribunais, prisões, burocracia e controle sobre propriedades. A besta, para utilizar a imagem apocalíptica como analogia do mecanismo político, já não precisava que a carregassem para lugar algum.
É nesse ambiente que aparece o caso de Omar Rosabal Sotomayor, descendente de Argelio. Ele acabou condenado em Cuba por delitos envolvendo proxenetismo e tráfico de pessoas, num processo que a família denunciou como politicamente manipulado. O caso chegou ao Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Detenção Arbitrária, que examinou também a resposta apresentada pelo governo cubano e concluiu, na Opinião 48/2018, que a privação de liberdade de Omar era arbitrária na categoria III, isto é, que as violações das normas relativas ao julgamento justo eram graves o bastante para conferir caráter arbitrário à detenção. No acompanhamento posterior, o próprio sistema das Nações Unidas registrou para o caso: “No action taken to implement opinion”. O Estado revolucionário que décadas antes havia encontrado abrigo numa rede ligada a “El Pastor” não demonstrava qualquer disposição especial para tratar seus descendentes como herdeiros de uma dívida histórica.
ATÉ O TÚMULO DE “EL PASTOR” ENTROU NA HISTÓRIA
A situação tornou-se ainda mais simbólica quando familiares denunciaram, em 2018, a profanação do túmulo de Argelio Rosabal. A sepultura do homem cuja memória estava ligada à proteção de revolucionários, ao salvamento de sobreviventes do Granma e ao relacionamento pessoal com Che apareceu vandalizada dentro do mesmo país governado pelo sistema político nascido daquela Revolução. A importância histórica desse episódio não depende de transformar a violação do túmulo numa operação ordenada pelo topo do governo, algo que a documentação disponível não permite afirmar. O que importa é que a família denunciou publicamente a profanação e a inseriu num contexto mais amplo de conflito e perseguição. Até onde os registros públicos que conseguimos localizar permitem verificar, não aparece uma responsabilização pública conhecida capaz de encerrar o episódio nem uma reparação que tenha transformado aquele túmulo numa questão institucional resolvida.
A ironia é quase insuportável. Quando Che e seus companheiros estavam vulneráveis, Rosabal colocou sua casa, sua liderança e sua comunidade a serviço da sobrevivência deles. Quando seus descendentes enfrentaram o Estado revolucionário, o velho capital heroico não ofereceu imunidade. Nem o nome “El Pastor”, nem a ajuda registrada pelo próprio Che, nem a lembrança dos sobreviventes do Granma impediram que a família entrasse em choque com o sistema que aqueles revolucionários construíram. A besta não possui gratidão teológica. O poder preserva alianças enquanto são úteis e as abandona quando deixam de ser necessárias.
E É AQUI QUE EZEQUIEL 34 MUDA O CENTRO DA ACUSAÇÃO
Até aqui, Ezequiel 23 e Apocalipse 17 permitem examinar a relação entre religião e poder. Ezequiel 34, porém, pergunta algo diferente e talvez ainda mais doloroso. O capítulo dirige sua acusação contra os pastores de Israel. Eles deveriam fortalecer as fracas, curar as doentes, tratar as feridas, procurar as perdidas e proteger o rebanho dos animais que o devoram. Em vez disso, cuidam de si mesmos, deixam as ovelhas dispersarem-se e permitem que se tornem presa. Deus não pergunta apenas o que aqueles pastores ensinavam; pergunta o que aconteceu às ovelhas enquanto eles ocupavam posição de liderança. Essa diferença transforma o caso Rosabal numa questão que ultrapassa Cuba e chega diretamente à estrutura pastoral adventista.
Argelio mobilizou adventistas para proteger homens que estavam fora do rebanho. Quando Che estava ferido, perseguido, asmático, faminto e vulnerável, “El Pastor” encontrou gente, roupa, comida, esconderijo, rotas e disposição para correr riscos. Décadas depois, quando a própria família de Rosabal denunciava perseguição, confisco, prisão arbitrária e profanação do túmulo do homem cuja história a Revolução conhecia tão bem, surge uma pergunta que Ezequiel 34 não permite evitar: onde estavam os pastores adventistas? Não apenas o pastor local que talvez tivesse pouco poder para enfrentar o Estado, mas a estrutura que Rosabal ajudou a construir, a administração denominacional cubana, a Divisão, os departamentos de Liberdade Religiosa, os dirigentes capazes de produzir declarações, buscar autoridades, mobilizar imprensa internacional e transformar perseguição a membros em causa religiosa.
O SILÊNCIO PRECISA SER DOCUMENTADO — E, SE EXISTIU DEFESA, ELA PRECISA APARECER
Aqui é necessário aplicar à própria crítica o rigor documental que exigimos da Igreja. Não seria correto afirmar categoricamente, sem examinar arquivos denominacionais, correspondência interna e iniciativas eventualmente não publicadas, que a IASD nada fez pelos descendentes de Rosabal. Pode ter havido contatos discretos, assistência pastoral, intervenções administrativas ou iniciativas que ainda não localizamos. Mas essa possibilidade não elimina a questão; torna-a pesquisável. Até onde a documentação pública localizada até agora permite ver, não encontramos uma grande campanha denominacional internacional em defesa de Omar Rosabal, uma mobilização comparável ao peso histórico de seu pai, uma exigência pública de investigação da profanação do túmulo ou uma memória institucional que transformasse a situação da família numa questão de honra denominacional. Se esses documentos existem, deveriam ser apresentados, porque podem modificar o quadro; se não existem, o silêncio torna-se parte da própria história.
Ezequiel 34 torna essa ausência pública mais séria porque o capítulo não permite que o pastor se esconda atrás do argumento de que o animal que atacou a ovelha era poderoso demais. O dever pastoral nasce precisamente quando existe ameaça. O pastor não é testado quando o rebanho está seguro, mas quando a ovelha está ferida, isolada ou nas mãos de quem pode destruí-la. Uma denominação que possui departamentos, associações, divisões, assessorias jurídicas, relações governamentais, meios de comunicação e canais internacionais dispõe de recursos que uma família individual não possui. Por isso, o caso Rosabal deveria provocar uma investigação denominacional tão cuidadosa quanto a investigação histórica que fazemos da ajuda à Revolução. A mesma Igreja que soube encontrar caminhos até os revolucionários quando eles subiam ao poder deveria ser capaz de explicar quais caminhos encontrou para defender as ovelhas quando o poder desceu sobre elas.
A PROSTITUTA É A IGREJA; ROSABAL E SEUS DESCENDENTES SÃO OUTRA PARTE DA HISTÓRIA
Essa distinção precisa permanecer absolutamente clara. Não é a família Rosabal que ocupa, em nossa leitura, o lugar simbólico da prostituta de Ezequiel 23 ou Apocalipse 17. Rosabal e seus descendentes pertencem à história do rebanho, das lideranças locais, das escolhas individuais e das consequências históricas de uma relação com o poder. A figura da prostituta recai sobre a religião institucional quando ela abandona distância profética e aprende a negociar intimidade com os reis. A Igreja é julgada não porque conversou com autoridades — qualquer organização precisa fazê-lo —, mas quando proximidade, proteção, prestígio, acesso ou sobrevivência institucional começam a determinar comportamentos que seus princípios declarados deveriam impedir.
É justamente essa distinção que torna a combinação de Ezequiel 23, Apocalipse 17 e Ezequiel 34 tão poderosa. Ezequiel 23 pergunta com quem a Igreja buscou segurança e prazer político. Apocalipse 17 pergunta sobre qual poder temporal ela aprendeu a cavalgar. Ezequiel 34 pergunta o que aconteceu às ovelhas enquanto os pastores administravam essas relações. As três imagens não dizem a mesma coisa; juntas, porém, constroem uma acusação teológica muito mais densa. A instituição pode aproximar-se dos reis em nome da sobrevivência e, simultaneamente, falhar quando os próprios membros precisam que sua estrutura de proteção funcione contra aqueles mesmos reis.
O ESTADO ACUSOU O FILHO DE PROSTITUIÇÃO; OS PROFETAS FAZEM OUTRA PERGUNTA
Existe, inevitavelmente, uma ironia lexical no caso de Omar Rosabal, porque a acusação penal envolvia proxenetismo. Seria intelectualmente desonesto transformar automaticamente essa coincidência em prova de inocência ou culpa; o processo deve ser avaliado juridicamente e o parecer da ONU fala de graves violações de julgamento justo, não de uma revelação sobrenatural sobre cada fato alegado. Mas a coincidência permite uma pergunta editorial legítima porque a palavra “prostituição” possui, nos profetas, um significado muito mais amplo e mais perigoso para uma instituição religiosa. O Estado acusou um descendente de “El Pastor” de delitos relacionados à prostituição literal. Ezequiel e Apocalipse perguntariam se, muito antes disso, a instituição religiosa não havia praticado a prostituição profética: procurar amantes poderosos, negociar proximidade com reis e adaptar-se aos governos de cuja benevolência dependia.
A diferença é essencial. O crime literal diz respeito à exploração de pessoas e deve ser julgado mediante provas e devido processo. A prostituição profética diz respeito à infidelidade de uma comunidade que deveria pertencer a Deus e passa a buscar proteção nos poderes deste mundo. Um tribunal pode condenar ou absolver o primeiro. O segundo precisa ser examinado pela própria história da instituição. Quem ela procura quando o poder muda? Que linguagem adota? Que princípios flexibiliza? Que relações preserva? Que benefícios espera? Quem ela protege quando os antigos aliados transformam-se em perseguidores? São essas perguntas que tiram Ezequiel 23 e Apocalipse 17 do museu da apologética e os colocam diante da IASD como espelho.
“EL PASTOR” SALVOU HOMENS; QUEM PASTOREOU SUA CASA?
Talvez essa seja a pergunta que reúna toda a história. Rosabal não foi pastor ordenado, mas sua comunidade o reconhecia como liderança pastoral; dirigiu a igreja, dirigiu a Escola Sabatina, participou de sua fundação e, diante de homens perseguidos, utilizou essa autoridade para mobilizar pessoas. Os revolucionários aprenderam com aquela comunidade quem era “El Pastor”. A burocracia denominacional poderia discutir a validade técnica do título; os homens que precisavam sobreviver entenderam perfeitamente sua função. Ele organizou seu rebanho para proteger pessoas que, poucos anos depois, ajudariam a governar Cuba.
Décadas depois, quando sua própria descendência ficou em conflito com o poder que havia nascido daquela guerrilha, a questão de Ezequiel 34 deixou de ser abstrata. Quem fortaleceu os fracos? Quem tratou os feridos? Quem procurou os que estavam sendo esmagados? Quem exigiu justiça? Quem defendeu a memória daquele homem quando seu túmulo foi violado? Se a denominação possui respostas documentadas para essas perguntas, elas precisam entrar na história. Mas se a estrutura que durante décadas celebrou missão, liberdade religiosa e solidariedade deixou a família enfrentar sozinha o Estado que “El Pastor” ajudara a nascer, então Ezequiel 34 oferece uma acusação que nenhuma discussão burocrática sobre credenciais pastorais consegue neutralizar.
A BESTA NÃO GUARDA GRATIDÃO — E O PASTOR QUE SE APROXIMA DELA PRECISA LEMBRAR DISSO
O caso Rosabal termina por reforçar aquilo que “Paixão pela Besta” já apontava de outra perspectiva: o poder temporal não pertence à religião que imagina utilizá-lo. Hoje a guerrilha precisa da Igreja; amanhã a Igreja precisa do governo; depois, o governo já não precisa de nenhum dos dois. A besta pode carregar a mulher por algum tempo, mas continua sendo besta. Pode receber comida, esconderijo, assistência, música, homenagem e reconhecimento; pode prometer financiamento, proteção e respeito; pode sentar-se à mesa e elogiar a escola. Nada disso converte poder coercitivo em amigo permanente do rebanho.
A história de “El Pastor” torna essa verdade quase insuportavelmente concreta. Quando os revolucionários estavam perdidos, adventistas organizaram-se para encontrá-los. Quando estavam famintos, deram-lhes comida. Quando estavam expostos, esconderam-nos. Quando precisavam deslocar-se, mostraram caminhos. Quando precisavam esconder armas, Rosabal participou desse circuito. Quando venceram, Che lembrou da relação. Mas quando décadas depois a família do homem que ajudara aqueles combatentes entrou em conflito com o Estado que eles construíram, a antiga reciprocidade não protegeu seus descendentes, e nem o túmulo de Rosabal permaneceu fora da disputa. A lição profética não poderia ser mais dura: quem procura segurança nos reis precisa lembrar que reis não pastoreiam ovelhas; governam interesses.
EZEQUIEL 23, APOCALIPSE 17 E EZEQUIEL 34 DIANTE DA MESMA IGREJA
No fim, os três textos bíblicos colocam a denominação diante de perguntas diferentes, mas convergentes. Ezequiel 23 pergunta se a religião buscou amantes entre os poderes deste mundo e chamou essa promiscuidade de prudência. Apocalipse 17 pergunta se a instituição que passou mais de um século denunciando a mulher montada sobre a besta aprendeu, quando lhe foi conveniente, a utilizar a mesma montaria. E Ezequiel 34 pergunta se, enquanto administrava relações com governos, dirigentes, interesses e sobrevivência institucional, seus pastores permaneceram realmente atentos às ovelhas que podiam ser feridas por esses mesmos poderes.
É possível denunciar Babilônia e aprender sua diplomacia. É possível pregar contra a prostituição com os reis e cultivar acesso aos reis. É possível defender liberdade religiosa e, ao mesmo tempo, tornar a preservação institucional mais urgente do que a defesa de pessoas concretas. E é possível possuir milhares de pastores ordenados enquanto um homem chamado “El Pastor”, sem a credencial formal, deixa uma pergunta que atravessa décadas: quando sua casa finalmente precisou do rebanho que ele ajudara a construir, quem apareceu para pastoreá-la?
O FILHO DE “EL PASTOR” CONTA O PREÇO PAGO PELA FAMÍLIA
O testemunho de Argelio Rosabal Sotomayor, filho de Argelio Rosabal Fonseca, acrescenta uma dimensão que torna ainda mais difícil reduzir a atuação do pai a um gesto episódico de caridade. Em julho de 2018, ao denunciar publicamente o que descrevia como perseguição de sua família pelo Estado cubano, ele não tentou diminuir a participação do pai na vitória revolucionária; fez exatamente o contrário. Escreveu que, “sem medo de críticas”, precisava admitir que seu pai havia sido “parte fundamental” do triunfo de 1º de janeiro de 1959 e que fora o primeiro camponês disposto a arriscar a própria vida para socorrer e salvar os sobreviventes do Granma, porque acreditava que aqueles homens traziam a esperança de um futuro melhor para Cuba e não permitiria que fossem massacrados.
É uma declaração extraordinária porque vem do próprio filho, décadas depois, quando a família já estava em conflito aberto com o regime que nascera daquela revolução. Não se trata, portanto, de propaganda produzida em 1959 para agradar aos vencedores. Mesmo denunciando duramente o governo revolucionário, Argelio Sotomayor continuava reconhecendo que seu pai havia contribuído decisivamente para que alguns dos homens perseguidos de 1956 sobrevivessem e continuassem seu caminho até a vitória.
Há apenas uma correção que precisamos fazer ao modo como o filho narra a origem do apelido. Ele escreve que o pai foi posteriormente “batizado” por Che Guevara como El Pastor. A documentação que já reunimos permite compreender a frase de maneira mais precisa. Che não transformou arbitrariamente um camponês em pastor por meio de um apelido pitoresco. Argelio Rosabal Fonseca havia participado da fundação da igreja adventista local, dirigia aquela congregação, era diretor da Escola Sabatina, ensinava e organizava a comunidade e exercia, na prática, uma função pastoral reconhecida entre os membros. Foi nesse ambiente que os revolucionários aprenderam quem era aquele homem.
Che preservou no apelido aquilo que a própria comunidade adventista lhe apresentou: Rosabal era “El Pastor” porque agia como pastor e era reconhecido como liderança religiosa por seu rebanho. A distinção entre não possuir ordenação ministerial formal e exercer efetivamente a liderança da igreja interessa à burocracia denominacional; para os guerrilheiros escondidos entre adventistas, o que importava era saber quem dirigia aquelas pessoas, quem podia reuni-las, mobilizá-las e transformar uma comunidade religiosa numa rede de proteção.
ELE MOBILIZOU O REBANHO PARA SALVAR A REVOLUÇÃO; QUEM MOBILIZOU A IGREJA PARA SALVAR SEUS DESCENDENTES?
É exatamente nesse ponto que Ezequiel 34 passa a iluminar a história com muito mais força. O contraste não precisa ser artificialmente construído: ele já está dentro dos próprios acontecimentos. Quando homens do Granma estavam perseguidos, vulneráveis e correndo risco de morte, Rosabal reuniu adventistas, distribuiu responsabilidades e colocou sua autoridade religiosa a serviço deles. Não apenas abriu a porta de casa. Organizou pessoas, forneceu meios de sobrevivência, criou esconderijos, participou de deslocamentos e comunicações e entrou numa rede que permitia que combatentes procurados escapassem do Exército e retornassem à luta.
Seu filho, sessenta anos depois, continuava descrevendo aquela decisão como disposição de “dar a vida” para salvar os revolucionários. Quando, porém, a direção da vulnerabilidade se inverteu e os perseguidos passaram a ser membros da própria família de “El Pastor”, a pergunta inevitável deixa de ser apenas o que o Estado cubano fez e passa a alcançar também a Igreja: onde estava o rebanho organizado, onde estavam seus dirigentes e onde estavam os pastores quando os descendentes daquele homem começaram a pedir socorro?
O relato publicado por Argelio Rosabal Sotomayor é particularmente doloroso porque apresenta uma sequência de acontecimentos que, se tomada nos termos de sua denúncia, corresponde quase literalmente ao vocabulário de abandono de Ezequiel 34. Ele afirma que seu irmão Omar foi transformado em alvo de policiais e funcionários interessados em retirar-lhe os bens; que mulheres ligadas à prostituição teriam sido recrutadas, preparadas e pressionadas para acusá-lo de proxenetismo; que elas próprias teriam reconhecido no julgamento que haviam sido pressionadas e enganadas; que, apesar disso, a condenação de oito anos foi mantida; e que posteriormente a casa e a propriedade foram confiscadas, enquanto a esposa e os dois filhos de Omar foram declarados ocupantes ilegais e finalmente desalojados pela força.
Essas alegações chegam até nós pelo testemunho da família Rosabal, e nós acreditamos nelas; e o núcleo referente à falta de garantias processuais deixou de ser apenas uma denúncia doméstica quando o Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária examinou o caso e considerou a prisão de Omar arbitrária em razão de graves violações do direito a um julgamento justo. A família gritou; organismos internacionais acabaram ouvindo. A pergunta que permanece para nossa investigação é quando, como e com que intensidade a estrutura adventista ouviu.
UMA MENINA DE DOZE ANOS NO MEIO DA CONTA QUE A HISTÓRIA COBROU
A parte mais grave do testemunho do filho de Rosabal exige ainda mais cuidado, justamente porque envolve uma criança e acusações extremas. Segundo Argelio Rosabal Sotomayor, Yanet Rosabal Oramas, então com doze anos, foi submetida a tal nível de pressão cotidiana por policiais e outros funcionários que tentou suicídio quatro vezes, permaneceu semanas em estado crítico e desenvolveu problemas psiquiátricos duradouros; ele acrescentou que o irmão mais novo, de apenas cinco anos, também começou a apresentar problemas.
Na mesma denúncia, afirmou que Yanet havia sido estuprada por agentes ou homens ligados ao regime e ameaçada para que jamais revelasse a identidade dos responsáveis. CiberCuba publicou essas acusações em um extenso texto assinado por Rosabal Sotomayor, dando voz direta à família e registrando publicamente denúncias que consideramos verdadeiras. É a família Rosabal narrando o que viveu, denunciando o que sofreu e identificando os responsáveis como os conheceu em sua própria experiência. A força desse testemunho está justamente nisso: não é uma reconstrução distante, mas a memória de quem atravessou pessoalmente essas perseguições.
Mas, teologicamente, essa é justamente a cena que torna Ezequiel 34 impossível de deixar à margem. O profeta não pergunta aos pastores quantos congressos realizaram, quantas doutrinas defenderam corretamente ou quantas relações institucionais conseguiram preservar com o governo. Pergunta pelas ovelhas concretas: a ferida, a doente, a enfraquecida, a dispersa, aquela que virou presa.
Aqui temos, segundo o testemunho familiar, uma menina adventista ou descendente direta da família de um fundador e dirigente adventista, hospitalizada depois de sucessivas tentativas de suicídio, apresentando-se como vítima de violência sexual e vivendo dentro de uma família que apelava desesperadamente por ajuda internacional.
Seu tio afirma ter recorrido a autoridades cubanas, ao Conselho de Direitos Humanos, a presidentes de diferentes países, ao papa, à Casa Real espanhola e a qualquer pessoa que pudesse ouvi-lo; termina perguntando literalmente a quem mais poderia recorrer. É nesse ponto que a ausência ou presença da Igreja Adventista deixa de ser detalhe administrativo e se transforma em questão teológica: ele precisou perguntar ao mundo inteiro “a quem mais posso recorrer?” enquanto pertencia à família do homem que havia fundado e dirigido uma comunidade adventista?
EZEQUIEL 34 NÃO PERMITE QUE OS PASTORES SE ESCONDAM ATRÁS DA INSTITUIÇÃO
É importante formular essa pergunta sem ultrapassar o que ainda não provamos. Não podemos afirmar, neste momento, que nenhum pastor adventista visitou a família, que nenhuma liderança tentou interceder discretamente ou que jamais houve qualquer providência denominacional; para isso precisamos continuar procurando correspondência, registros da Igreja em Cuba, manifestações da Divisão Interamericana, documentos de Liberdade Religiosa, periódicos denominacionais e eventual contato com os próprios descendentes. Mas já podemos formular uma pergunta documental muito concreta: onde estão essas ações? Porque o contraste público é impressionante.
A história de Rosabal como homem que ajudou Che foi preservada em memórias revolucionárias; a carta de Che sobre a promessa de financiar sua igreja existe; sua contribuição para a sobrevivência dos expedicionários tornou-se conhecida; a família pediu ajuda publicamente e conseguiu levar o caso de Omar até as Nações Unidas. Se a denominação mobilizou seus recursos para aquela família quando ela estava sob pressão, precisamos encontrar e publicar os documentos. Se não os encontrarmos, a ausência deixará de ser mero silêncio arquivístico e passará a exigir explicação.
Ezequiel 34 torna especialmente incômoda qualquer eventual assimetria. Em 1956, um dirigente adventista sem ordenação ministerial formal conseguiu mobilizar aproximadamente quinze ou vinte membros para proteger homens perseguidos pelo governo. Sessenta anos depois, uma denominação internacional, com associações, uniões, divisão, departamentos jurídicos, estruturas de liberdade religiosa, redes de comunicação e acesso a organismos internacionais, teria diante de si os descendentes daquele dirigente denunciando prisão arbitrária, perda da casa, perseguição policial, adoecimento de crianças e violência.
Se a resposta institucional foi robusta, queremos documentá-la. Se foi tímida, queremos compreender por quê. Se simplesmente não houve resposta significativa, então o contraste se torna devastador: “El Pastor”, sem cargo ministerial e sem aparato denominacional, conseguiu reunir o rebanho para proteger guerrilheiros; os pastores profissionais, cercados por toda a máquina eclesiástica, precisam mostrar o que fizeram quando foi a família de “El Pastor” que precisou ser protegida.
A PROFANAÇÃO DO TÚMULO FECHA O CÍRCULO
O mesmo testemunho de julho de 2018 acrescenta que, poucas semanas antes, o túmulo de Argelio Rosabal Fonseca havia sido profanado e vandalizado. O filho atribuiu o ato a agentes policiais e funcionários governamentais ou, no mínimo, à sua anuência; essa responsabilidade específica continua sendo uma alegação familiar que precisa ser apresentada como tal enquanto não aparecer documentação independente suficiente para estabelecê-la. O fato histórico verificável no material disponível é que a família denunciou publicamente a profanação e a vinculou ao conflito com o Estado. É difícil imaginar símbolo mais sombrio: o túmulo do homem que arriscara a vida para que os revolucionários não fossem massacrados aparecia vandalizado no país governado pelos herdeiros políticos daquela mesma Revolução. E, pelo que conseguimos encontrar até agora, não surgiu depois uma investigação pública conhecida capaz de identificar responsáveis e encerrar o episódio com punição ou reparação.
Essa imagem deveria perseguir a memória adventista porque ela reúne Ezequiel 23, Apocalipse 17 e Ezequiel 34 numa única história sem confundi-los. Ezequiel 23 permite perguntar pela religião que se aproxima dos poderes e procura neles segurança, sobrevivência ou vantagem; Apocalipse 17 mostra a mulher que acredita poder permanecer montada sobre o poder político; Ezequiel 34 desloca finalmente os olhos da instituição para as pessoas e pergunta onde estavam os pastores quando o rebanho foi ferido.
A primeira geração aproximou-se de homens que se tornariam governantes; a segunda geração descobriu que governantes não preservam gratidão como sacramento; a terceira, segundo a denúncia familiar, carregou no corpo e na mente consequências de um conflito que já não tinha qualquer romantismo revolucionário. Uma menina de doze anos, quatro tentativas de suicídio relatadas pela família, denúncias de estupro, uma casa confiscada, um pai encarcerado e um túmulo vandalizado compõem um cenário diante do qual a teologia deixa de ser exercício acadêmico. Ezequiel pergunta pelos feridos.
A PERGUNTA QUE PRECISAMOS FAZER AGORA À IASD
Não basta perguntar se a Igreja Adventista apoiou ou não a Revolução Cubana. Nossa documentação já permite discutir com profundidade a rede adventista que colaborou com guerrilheiros, a atuação de Rosabal, o Colegio de las Antillas, Walton J. Brown e as relações construídas com os vencedores.
O caso dos descendentes acrescenta uma pergunta moral posterior e talvez ainda mais difícil: o que a IASD fez quando chegou a hora de devolver à família de Rosabal uma fração da solidariedade que Rosabal havia oferecido aos homens que construíram o novo Estado? Onde estão as cartas da Associação, da União, da Divisão Interamericana ou da Associação Geral? Onde estão os protestos de Liberdade Religiosa? Onde estão os pedidos de investigação sobre a profanação da sepultura? Onde estão as gestões sobre a prisão considerada arbitrária pela ONU? Onde está a assistência à família? Onde estão as manifestações sobre a situação das crianças? É preciso procurar tudo isso antes de concluir definitivamente que houve abandono. Mas a ausência de documentação pública já é suficientemente séria para que a pergunta seja feita em voz alta.

QUANDO A BESTA JÁ NÃO PRECISA DE QUEM A AJUDOU
Argelio Rosabal Fonseca reuniu adventistas para salvar homens que ainda não tinham poder. Quando aqueles homens e seus sucessores passaram a possuir todo o poder, os descendentes de “El Pastor” disseram que precisavam ser salvos deles. E então já não basta perguntar o que fez a Revolução. Ezequiel 23 pergunta com quem a Igreja se deitou; Apocalipse 17 pergunta qual poder ela decidiu cavalgar; Ezequiel 34 pergunta o que fizeram os pastores quando as ovelhas começaram a ser feridas.
Se a IASD encontrou caminhos para defender a família de Rosabal, esses documentos precisam aparecer. Se não encontrou, ou se preferiu o silêncio enquanto preservava sua própria sobrevivência institucional, então a história de “El Pastor” termina com uma acusação ainda mais grave do que aquela que começou nas montanhas de Cuba: a Igreja que soube aproximar-se dos futuros reis talvez não tenha demonstrado a mesma disposição para permanecer ao lado de suas próprias ovelhas quando os reis se voltaram contra elas.





