
Novos documentos, fac-símiles, fotos e publicações confirmam acordo de parceria e cumplicidade adventista com os guerrilheiros
Da rede de Argelio Rosabal na Sierra Maestra à colaboração do Colegio de las Antillas em Santa Clara, documentos cubanos e adventistas revelam uma relação que não terminou com a vitória revolucionária.

Che preservou a amizade e a gratidão por “El Pastor”, Fidel reconheceu os favores recebidos, e a própria administração denominacional admitiu ter alimentado “grandes esperanças” nas vantagens que poderiam resultar da proximidade com o novo poder.
A carta de Che Guevara a Argelio Rosabal e as fotografias de Fidel Castro no Colegio de las Antillas já eram documentos extraordinários quando os descobrimos. O que não conhecíamos em toda a sua extensão era a história que existia entre uma coisa e outra. Novas fontes, depoimentos e periódicos adventistas permitem agora reconstruir uma sequência muito maior.
Adventistas organizados ajudaram sobreviventes do Granma quando a Revolução ainda podia fracassar; Rosabal conquistou a amizade e uma gratidão extraordinária de Che ao abrir mão da própria camisa para vesti-lo; o Colegio de las Antillas colaborou materialmente com os revolucionários durante a batalha decisiva de Santa Clara; depois da vitória, Fidel, Che e outras autoridades mantiveram relações com a instituição; e a própria imprensa adventista reconheceria posteriormente que Castro ofereceu garantias em agradecimento aos “favores recebidos”, despertando na administração do colégio “grandes esperanças para o futuro”. A documentação não nos mostra uma Organização constrangida diante dessas relações. Mostra uma instituição usufruindo do prestígio, do acesso e das possibilidades que elas abriram.
A HISTÓRIA NÃO COMEÇOU COM FIDEL NO COLÉGIO

As fotografias reais de Fidel Castro cercado por estudantes e dirigentes no Colegio de las Antillas impressionam porque parecem colocar frente a frente dois mundos que a narrativa adventista posterior preferiu apresentar como naturalmente antagônicos: de um lado, uma instituição religiosa que durante décadas construiria sua identidade pública em torno da liberdade religiosa e do apartidarismo; do outro, os homens de uma revolução que caminharia para o comunismo e posteriormente entraria em conflito aberto com organizações religiosas. Mas, se começarmos a história pelas fotografias, chegaremos tarde demais.
Quando Fidel entrou naquele ambiente adventista, já existia uma relação anterior entre membros da denominação e homens de sua Revolução, e essa relação havia começado não nos salões do colégio, mas entre as casas, caminhos, plantações e pequenas comunidades religiosas da Sierra Maestra.
Depois do desembarque do Granma, em dezembro de 1956, os sobreviventes dispersos pela repressão de Batista procuravam desesperadamente comida, roupas, esconderijos, orientação e pessoas em quem pudessem confiar. Foi nesse ambiente que apareceu Argelio Rosabal Fonseca, conhecido entre os próprios adventistas como “El Pastor” por sua liderança religiosa.
Rosabal não era pastor ordenado formalmente, mas era liderança leiga reconhecida, como ainda hoje acontece em Cuba. Ele havia ajudado a organizar a congregação de Colonia Las Puercas, dirigia a igreja e a Escola Sabatina e possuía autoridade suficiente para mobilizar outros membros quando os sobreviventes começaram a aparecer.
A entrevista de 23 páginas concedida por ele a Tad Szulc e a própria memória de Che Guevara permitem reconstruir uma rede que reunia adventistas dispostos a conseguir roupas, fornecer comida, abrir casas, estabelecer contatos, esconder recursos, orientar deslocamentos e retirar os fugitivos de lugares comprometidos quando as tropas de Batista se aproximavam.
O próprio Che identificaria Rosabal em suas memórias como “um adventista chamado Argelio Rosabal” e registraria a atuação dele na transferência dos revolucionários para um esconderijo mais seguro. A documentação revolucionária, portanto, não depende da memória institucional adventista para colocar El Pastor dentro da história. O próprio Che o colocou ali.
É dentro dessa rede que precisamos compreender uma das cenas mais extraordinárias de toda essa história. E justamente aqui não podemos cometer o erro de transformar a camisa de Rosabal em simples item de uma operação logística. A rede explica como aqueles homens receberam auxílio e continuaram se movimentando; a camisa pertence a outra dimensão da história, porque ajuda a explicar a relação pessoal que se estabeleceu entre Che Guevara e El Pastor.
A CAMISA NÃO ERA AQUILO QUE ROSABAL TINHA PARA DAR
Rosabal não entregou a Che uma camisa que guardava para situações de emergência, uma roupa usada que já não lhe fazia falta ou uma peça excedente destinada à caridade. Entregou algo de que ele próprio necessitava: a roupa que estava usando. Quando percebeu a necessidade daquele homem, abriu mão daquilo que lhe servia e assumiu pessoalmente a privação que estava cobrindo no outro. Che ficou vestido; El Pastor ficou sem camisa. Segundo o relato preservado, Rosabal acabaria depois recorrendo a um saco de estopa para cobrir o próprio corpo. É justamente essa inversão que dá ao gesto sua dimensão: ele não resolveu a necessidade do outro utilizando uma sobra; transferiu para si a falta que estava aliviando em Che.
João Batista ensinara que quem tivesse duas túnicas deveria repartir com quem não tivesse nenhuma. Rosabal não estava diante da situação confortável de possuir duas e decidir qual delas poderia dispensar. Tinha a que vestia. E foi justamente essa que entregou. Por isso, a formulação precisa permanecer clara: a camisa não era aquilo que Rosabal tinha para dar; era aquilo que Rosabal tinha para vestir. E ele abriu mão dela.
Para Che, aquilo foi muito mais do que conseguir uma peça de roupa num momento difícil. Ele acabara de assistir a um homem religioso tirar de si aquilo de que também necessitava para cobrir um desconhecido perseguido. Rosabal não sabia que estava diante de um futuro ministro do governo revolucionário, de um comandante vitorioso ou de um personagem que se tornaria mundialmente conhecido. Che era naquele momento um homem em extrema vulnerabilidade, participante de uma expedição aparentemente desastrosa, perseguido por forças governamentais e dependente da disposição de pessoas simples para continuar vivo. Foi nessa condição, e não quando já possuía poder para recompensar alguém, que recebeu a roupa de El Pastor.
Aquilo marcou Che profundamente. E não precisamos diminuir a dimensão humana desse acontecimento para transformá-lo em História. A própria sequência posterior demonstra quanto aquela lembrança permaneceu. Che não esqueceu Rosabal, não esqueceu a comunidade religiosa à qual ele pertencia e não esqueceu uma promessa feita quando a vitória revolucionária ainda estava muito distante. O revolucionário que recebera a camisa passaria pela Sierra Maestra, pela guerra, pela vitória e pela transformação completa de sua posição dentro de Cuba sem apagar da memória aquele adventista.
ROSABAL NÃO COBROU; CHE LEMBROU

Depois da vitória, as posições estavam invertidas. Che já não era o homem perseguido que precisava da roupa de um camponês adventista. Tornara-se um dos personagens mais poderosos da nova Cuba. Seria perfeitamente possível que uma promessa feita na precariedade da Sierra desaparecesse depois de uma guerra, especialmente para alguém agora cercado por responsabilidades militares e políticas. Mas a promessa não desapareceu.
Em 2 de março de 1959, Che escreveu a Rosabal e tomou para si a iniciativa de recordar aquilo que havia prometido: contribuir para a construção da igreja de El Pastor. A força documental dessa carta está justamente na inversão da cobrança. Não era Rosabal procurando o comandante vitorioso para apresentar a conta de uma antiga dívida; era Che procurando Rosabal para dizer que ele próprio continuava lembrando.
O DOCUMENTO: A CARTA DE CHE GUEVARA A ARGELIO ROSABAL
A relação entre Che Guevara e Argelio Rosabal não depende apenas de lembranças produzidas décadas depois. Existe um documento escrito pelo próprio Che. Em 2 de março de 1959, já instalado no Departamento Militar de La Cabaña, em Havana, Guevara escreveu diretamente a El Pastor. O destinatário e o endereço preservados na correspondência são reveladores: “Argelio Rosabal”, Las Puercas, Ensenada de Mora, Pilón, Oriente. Che não escreveu genericamente à Igreja Adventista, a uma associação, a uma união ou ao Colegio de las Antillas. Escreveu ao homem que conhecera durante aqueles dias desesperados posteriores ao desembarque do Granma.

Reproduzimos abaixo a carta integral, preservando o espanhol original:
Carta del Che al pastor adventista Argelio Rosabal, 2 de marzo de 1959
Departamento Militar de La Cabaña
La Habana, 2 de marzo de 1959
Señor Argelio Rosabal Cal.
Las Puercas, Ensenada de Mora
Pilón. Ote.Estimado Argelio:
Recibí con mucho gusto la noticia de tan buen amigo como Ud.
Como tengo buena memoria, debo ser yo quien le recuerde que le prometimos financiarle su Iglesia si triunfábamos.
Escríbame los nombres completos suyos y de su esposa para adjuntarle los pasajes de avión hasta La Habana.
Reciban Uds el fraterno saludo de:
Ernesto Che Guevara
Comandante Jefe del Departamento Militar
de La Cabaña
O trecho central não deixa qualquer dúvida sobre a iniciativa de Che: “Como tengo buena memoria, debo ser yo quien le recuerde que le prometimos financiarle su Iglesia si triunfábamos.” A formulação é extraordinária. Rosabal não estava cobrando o comandante. Che cobra de si mesmo o cumprimento da promessa. E o verbo no plural — “le prometimos” — também merece nossa atenção: a promessa aparece formulada pelo próprio Che como compromisso assumido antes da vitória, condicionado precisamente ao triunfo da Revolução.
A carta vai além do financiamento da igreja. Che pede os nomes completos de Argelio e de sua esposa para providenciar as passagens aéreas do casal para Havana. A inversão histórica estava completa. Em dezembro de 1956, Che era o homem perseguido que chegara à rede de El Pastor necessitando de comida, proteção, orientação e roupa; em março de 1959, estava em La Cabaña, no centro do novo poder revolucionário, procurando o antigo protetor para cumprir a promessa e levá-lo à capital.
Moisés Mayán Fernández acrescenta a essa história uma peça documental decisiva: sua pesquisa registra a existência, nos arquivos da estrutura adventista em Holguín, de uma cópia dessa carta de 2 de março de 1959. Portanto, não estamos diante de uma tradição oral que posteriormente ganhou forma denominacional. A própria Organização preservou documentalmente a correspondência em que Che reconhece a promessa de financiar a igreja de Rosabal.
Entre a camisa e aquela carta havia uma guerra inteira. O homem que recebera a roupa agora possuía autoridade, recursos e acesso ao centro do novo Estado; o homem que abrira mão dela continuava ligado à pequena comunidade adventista da Sierra. E Che ainda reconhecia uma dívida de gratidão. A correspondência revela também interesse pessoal por Rosabal e sua esposa e a disposição de possibilitar que fossem a Havana. Não estamos diante de um ressarcimento burocrático feito por algum departamento do novo governo. A relação tinha memória, reconhecimento e amizade.
Também seria simplista reduzir tudo a emoção. Revoluções são construídas por relações de confiança, lealdades, compromissos e pessoas que demonstraram, nos momentos de maior risco, de que lado estavam dispostas a agir. A gratidão pessoal de Che por Rosabal não precisa ser negada para reconhecermos a importância política que uma relação dessa natureza poderia adquirir depois da vitória. No caso deles, as duas dimensões acabaram convivendo: a gratidão produziu amizade; a amizade consolidou confiança; a confiança produziu acesso; e esse acesso posteriormente teria utilidade muito além da casa de El Pastor.
O QUE ERA DE ROSABAL PASSOU A DAR PRESTÍGIO À IGREJA
Há um momento especialmente revelador na reconstrução feita por Israel González Valdés. Quando Che apareceu posteriormente num evento relacionado ao Colegio de las Antillas, poderia ter se limitado a recordar a alimentação, a assistência e os serviços recebidos naquela instituição durante os acontecimentos de Santa Clara. Em vez disso, a memória adventista registra que ele evocou a experiência dos adventistas da Sierra como demonstração do “espírito de amor da Igreja Adventista”.
O significado dessa passagem merece atenção: aquilo que havia começado com atos concretos de pessoas identificáveis, e que atingira seu ponto mais dramático no sacrifício pessoal de Rosabal, agora podia ser apresentado por Che como qualidade da denominação à qual aqueles homens e mulheres pertenciam.
Não foi a Associação Geral que tirou a camisa. Não foi a Divisão Interamericana. Não foi a União Antilhana. Não foi o Colegio de las Antillas. Foi Rosabal quem abriu mão da roupa de que precisava, foi ele quem assumiu a privação, e foi ele quem conquistou a amizade e a gratidão de Che quando não havia qualquer garantia de que aquela Revolução venceria. O que aconteceu posteriormente é outra coisa: o sacrifício foi de Rosabal; o prestígio acabou alcançando a Organização. E não encontramos a Organização recusando esse dividendo moral.
EM SANTA CLARA, A RELAÇÃO DEIXA DE CABER NUMA CASA DA SIERRA
A história do Colegio de las Antillas não deve ser artificialmente confundida com a de Rosabal, mas as duas linhas acabam convergindo. Na Sierra, estamos diante de uma comunidade adventista local organizada em torno de uma liderança religiosa reconhecida. Em Santa Clara, chegamos a uma instituição denominacional formal, dirigida por Walton J. Brown e ligada administrativamente à estrutura da Igreja. Quando a ofensiva revolucionária alcançou a região no fim de 1958, o colégio se encontrou dentro da zona decisiva do conflito e passou a prestar assistência material aos homens que combatiam o governo de Batista.
A documentação reunida por Brown, Moisés Mayán e outras fontes descreve refeições, atendimento e recursos utilizados naquele ambiente. A gráfica recusou imprimir propaganda revolucionária, episódio que posteriormente serviria para demonstrar um limite formal ao envolvimento político, mas a recusa ao material impresso não significou ruptura com os revolucionários. O colégio podia recusar transformar sua gráfica em oficina de propaganda e, simultaneamente, alimentar e auxiliar os homens que combatiam Batista. Quando reunimos os acontecimentos, a fronteira entre “neutralidade” e colaboração se torna muito menos confortável do que a narrativa posterior faria parecer.
E a importância dessa colaboração não terminou quando os tiros cessaram. Pelo contrário. Foi depois da vitória que a própria documentação adventista começou a registrar seus efeitos.
“AGORA ESTAMOS DESFRUTANDO OS EFEITOS POSTERIORES”
Walton J. Brown publicou em 1959 um relato sobre os acontecimentos e escolheu uma expressão extraordinariamente reveladora para introduzir aquilo que estava ocorrendo depois da batalha: “Now we are enjoying the ‘after-effects’ of that week.” A instituição estava “desfrutando os efeitos posteriores” daquela semana. Não encontramos ali um presidente de colégio constrangido por ter estabelecido relações excessivamente próximas com os vencedores, tentando convencer a Igreja mundial de que nada politicamente comprometedor havia acontecido. Encontramos Brown descrevendo positivamente aquilo que começava a acontecer como consequência da experiência compartilhada durante a batalha.
O novo governador de Las Villas visitou o Colegio de las Antillas e recordou as refeições feitas ali durante os combates. Autoridades passaram a procurar a instituição. O coral ganhou uma visibilidade que ultrapassou a rotina escolar e começou a ser solicitado para apresentações públicas, inclusive em ambientes relacionados ao novo poder. Dirigentes adventistas que se identificavam diante de revolucionários descobriam que o nome da Igreja já era conhecido por homens que haviam passado pelo C.A. e comido em seu refeitório durante a luta. A colaboração deixava, portanto, um patrimônio imaterial extremamente valioso: os vencedores sabiam quem eram os adventistas e se lembravam favoravelmente deles.
Essa é uma diferença fundamental em relação a uma simples doação financeira. O que o colégio havia adquirido não podia ser medido apenas em dólares. Era reconhecimento entre pessoas que agora controlavam o Estado, acesso a autoridades, prestígio diante do novo governo e uma memória de serviços prestados quando aqueles homens ainda precisavam deles.
AS FOTOS DE FIDEL GANHAM OUTRO SIGNIFICADO

É dentro desse contexto que precisamos rever as fotografias de Fidel Castro no Colegio de las Antillas. Elas não documentam apenas a curiosidade de um governante que resolveu conhecer uma escola religiosa. A visita aconteceu depois de uma relação já construída entre a instituição e os revolucionários. Fidel esteve na região para a inauguração da biblioteca da Universidad Central “Marta Abreu” de Las Villas. Depois do compromisso na universidade, Fidel, acompanhado do presidente Manuel Urrutia e de outras pessoas, esteve no ambiente adventista, onde foi recebido com cordialidade e entrou em contato com estudantes, dirigentes e o programa educacional do colégio.
As fotografias, portanto, são muito mais interessantes quando não são arrancadas da cronologia. Antes delas, houve a ajuda aos sobreviventes do Granma, Rosabal, sua rede e a extraordinária relação com Che; houve também Santa Clara, o refeitório, a assistência aos revolucionários e a memória construída entre os homens que participavam da ofensiva. Depois delas, continuaremos encontrando visitas, apresentações do coral, relações com autoridades, expectativas administrativas e, em momentos de crise, utilização da memória daqueles serviços para defender interesses da instituição.
O CORAL TAMBÉM ENTROU NA “LUA DE MEL”
O coral do Colegio de las Antillas tornou-se uma das faces mais visíveis dessa nova fase. Brown registraria que a procura pelo grupo aumentou extraordinariamente depois da Revolução. As apresentações chegaram a espaços civis e militares, e Che também apareceu nesse ambiente. O crescimento foi tão intenso que, posteriormente, a administração precisou limitar a atividade para que as apresentações não prejudicassem a vida acadêmica. A importância disso não está em imaginar que cantar diante de uma autoridade seja automaticamente adesão política; está na projeção pública que uma instituição denominacional passou a desfrutar dentro da nova ordem justamente depois de ter construído relações favoráveis com seus protagonistas.
O mesmo vale para o interesse manifestado pelo novo governo no modelo educacional do C.A. A instituição já possuía prestígio educacional antes da Revolução, inclusive junto a autoridades do período de Batista. O que os acontecimentos de 1958-1959 acrescentaram foi outra espécie de capital: uma história compartilhada com os homens que haviam conquistado o Estado. A escola não precisou começar do zero diante do novo governo. Quando Fidel, Che, o governador e outros dirigentes revolucionários encontraram os adventistas, havia uma memória recente a favor deles.

ONDE ESTÁ A CENSURA A ROSABAL E BROWN?
Essa questão tornou-se ainda mais importante à medida que ampliamos a pesquisa. Se a atuação de Rosabal e sua rede fosse considerada pela Organização uma violação intolerável de seu alegado apartidarismo, esperaríamos encontrar alguma tentativa institucional de demarcação. Se a colaboração de Brown e do Colegio de las Antillas com os revolucionários durante Santa Clara tivesse sido considerada um comprometimento político inaceitável, esperaríamos encontrar repreensão, censura, investigação ou pelo menos uma declaração pública deixando claro que a administração do colégio havia ultrapassado os limites estabelecidos pela denominação.
Nos três materiais centrais que estamos examinando — Brown, Moisés e González — e nos periódicos adventistas que localizamos até agora, não encontramos essa censura pública. Isso não nos autoriza a afirmar que nenhuma crítica privada jamais tenha existido em qualquer correspondência ainda desconhecida, mas permite registrar aquilo que efetivamente encontramos: a história foi preservada, os relacionamentos foram narrados, Brown continuou sua trajetória administrativa, a carta de Che relacionada a Rosabal permaneceu em acervo adventista e a imprensa denominacional publicou os benefícios que se seguiram às relações construídas com os revolucionários. Mais do que ausência de condenação, encontramos linguagem positiva sobre os resultados.
1965: A REVIEW AND HERALD CONFIRMA A RECIPROCIDADE
Seis anos depois da vitória revolucionária, quando a relação entre a Igreja e o governo cubano já atravessara mudanças profundas, a própria Review and Herald voltou à história do Colegio de las Antillas. Em sua edição de 16 de setembro de 1965, H. B. Lundquist publicou o artigo “Antillian College Expands in Puerto Rico”. O documento original está preservado nos arquivos oficiais adventistas e pode ser consultado diretamente pelo leitor.

Depois de recordar a utilização das instalações do colégio pelas forças revolucionárias durante as semanas finais da luta contra Batista, Lundquist escreveu uma frase cuja importância dificilmente pode ser exagerada:
“Castro, to show his appreciation for favors received, gave assurances that led the college administration to entertain high hopes for the future.”
Em português: “Castro, para demonstrar sua gratidão pelos favores recebidos, deu garantias que levaram a administração do colégio a alimentar grandes esperanças para o futuro.”
Não fomos nós que introduzimos no episódio a palavra “favores”. Não foi um historiador crítico da denominação que decidiu caracterizar dessa maneira a colaboração ocorrida durante a Revolução. Foi a própria Review and Herald. E a frase é ainda mais importante porque estabelece uma relação de causa e consequência: houve “favores recebidos”; esses favores produzira garantias; e essas garantias levaram a administração adventista a alimentar “grandes esperanças para o futuro”.
A sequência documental, portanto, não precisa ser construída por nós. Está impressa no periódico oficial da denominação: FAVORES RECEBIDOS → GRATIDÃO → GARANTIAS → GRANDES ESPERANÇAS DA ADMINISTRAÇÃO.
1965: A PRÓPRIA REVIEW FALA EM “FAVORES RECEBIDOS”
Assim, a confirmação mais surpreendente apareceu seis anos depois. Em 16 de setembro de 1965, quando a Revolução Cubana já havia revelado características que ninguém poderia confundir com uma simples troca democrática de governo, a Review and Herald publicou o artigo “Antillian College Expands in Puerto Rico”, de H. B. Lundquist.
Ao reconstruir retrospectivamente os acontecimentos, o periódico oficial reconheceu que as instalações do Colegio de las Antillas haviam sido praticamente tomadas pelas forças revolucionárias nas semanas finais da luta e utilizadas durante a ofensiva contra Batista. Em seguida escreveu que Castro, “to show his appreciation for favors received”, ofereceu garantias que levaram a administração do colégio a alimentar “high hopes for the future”
As palavras merecem permanecer juntas porque constituem uma sequência causal construída pela própria publicação adventista: favores recebidos, gratidão de Castro, garantias e grandes esperanças da administração. Não estamos impondo ao documento a palavra “favores”; foi a Review and Herald que a utilizou. Tampouco estamos deduzindo que a administração enxergou possibilidades na boa relação com o novo governo; a publicação afirma que as garantias de Castro alimentaram grandes esperanças para o futuro.
E essas esperanças não eram abstrações espirituais. A continuação do artigo fala da situação das indústrias do colégio e das possibilidades que pareciam abrir-se para sua produção. A administração vislumbrava condições favoráveis para atividades econômicas vinculadas à instituição e mercado para aquilo que produzia. A linguagem chega a transmitir o clima de prosperidade que parecia surgir naquele momento.
É aqui que percebemos por que concentrar nossa atenção em alguns milhares de dólares enviados internamente pela própria estrutura denominacional seria perder completamente a dimensão do que estava em jogo. O ativo realmente valioso era possuir uma relação favorável com os homens que agora governavam Cuba.
DE “EL PASTOR” AOS INTERESSES DA DENOMINAÇÃO
A história de Rosabal reaparece alguns anos depois de maneira especialmente reveladora. Em 1963, quando a denominação enfrentou o problema do Serviço Militar Obrigatório e procurou apresentar ao governo suas reivindicações relativas aos adventistas convocados, uma comissão composta por quatro pastores foi acompanhada justamente por Argelio Rosabal.
A escolha fazia sentido porque El Pastor possuía aquilo que os cargos eclesiásticos, por si sós, não garantiam: uma relação pessoal com Che Guevara. Rosabal entregou o memorando, e Che encaminhou a questão a Carlos Rodríguez, identificando-o como o adventista sobre quem já havia falado. A literatura que analisou o episódio entende essa intervenção como tentativa de conseguir consideração especial para o caso adventista.
O testemunho de Israel González Valdés permite identificar dois dos quatro pastores: o próprio González e Vicente Rodríguez. González afirma ter integrado a comissão, e Rodríguez confirma sua presença na audiência concedida pelo comandante Sergio del Valle, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, acompanhado pelo chefe nacional do Serviço Militar Obrigatório.
O memorando apresentava a disposição adventista de servir ao país e a lealdade ao governo, mas reivindicava respeito à observância do sábado e à posição não combatente, encerrando-se com a declaração “Cristo acima de tudo”. Segundo os participantes, Sergio del Valle leu o documento integralmente diante deles e o considerou “sincero e corajoso”. Os relatos consultados não nomeiam os outros dois pastores nem informam o local exato da audiência.
Além dessa audiência militar, Rosabal procurou pessoalmente Che Guevara, explicou a situação e lhe entregou a documentação. Caleb Rosado registra essa iniciativa, que resultou na carta de 28 de outubro de 1963, datada em Havana e dirigida a Carlos Rafael Rodríguez, presidente do Instituto Nacional de Reforma Agrária.
Carta de Ernesto Che Guevara a Carlos Rafael Rodríguez — 28 de octubre de 1963

La Habana, 28 de octubre de 1963
“Año de la Organización”Compañero Carlos Rafael Rodríguez
Presidente del Instituto Nacional de Reforma Agraria
CiudadCompañero:
Adjunto van los papeles de Argelio Rosabal, el adventista del que te hablé, cuya recompensa terrenal se ha convertido en castigo.
Como brillante joven comunista que eres, sabrás cómo evadir la ley, o cómo desviar mi atención.
(Lo de los perros y gatos va por separado.)
Un saludo revolucionario.
Patria o Muerte.
Venceremos.Mayor Ernesto Che Guevara
Em tradução para o português, Che escreveu: “Anexo os documentos de Argelio Rosabal. Ele é o adventista [do sétimo dia] de quem lhe falei, cuja recompensa terrestre se transformou em castigo. Como o brilhante Jovem Comunista que você é, saberá como evitar a lei, ou como desviar minha atenção.”
A carta encerra-se com uma informação enigmática adicional entre parênteses, seguida por uma saudação revolucionária e as palavras “Pátria ou morte. Venceremos”. Publicado em Reminiscences of the Cuban Revolutionary War (1968, p. 271) e transcrito por Rosado, o documento mostra o antigo vínculo funcionando como canal de acesso: Rosabal apresentou a demanda, Che reconheceu o conhecido da Sierra Maestra e encaminhou seus documentos a outro dirigente do governo.
A expressão “cuja recompensa terrestre se transformou em castigo” pode ser lida como uma brincadeira de Che com o universo religioso de Rosabal: a recompensa celestial ficaria por conta da fé, mas a terrestre precisava da intervenção dos companheiros da Revolução. A ironia se completa quando Guevara apela ao “brilhante Jovem Comunista” Carlos Rafael Rodríguez para encontrar uma saída em favor daquele crente. O adventista ajudara os revolucionários quando eram perseguidos; agora, Che solicitava consideração para ele dentro do poder que aqueles homens haviam conquistado.
Ou seja, Che está fazendo uma alusão evidente à situação de Rosabal: o homem que o ajudara quando ele era um fugitivo na Sierra Maestra agora aparece diante do Estado revolucionário enfrentando um problema decorrente justamente de sua condição adventista. A ironia de Che é que a “recompensa terrenal” de Rosabal havia se transformado em “castigo”. A carta de 1963, portanto, não registra simplesmente que Che ainda se lembrava dele. Mostra Che acionando pessoalmente Carlos Rafael Rodríguez para tentar resolver o problema apresentado por Rosabal.
“Cuya recompensa terrenal se ha convertido en castigo”
Che resumiu a contradição de Argelio Rosabal numa frase carregada de ironia: “cuya recompensa terrenal se ha convertido en castigo” — “cuja recompensa terrestre se transformou em castigo”. A frase é muito mais profunda do que uma brincadeira entre velhos conhecidos. A “recompensa terrestre” de Rosabal estava ligada à própria Revolução que ele ajudara quando seus homens eram perseguidos na Sierra Maestra; o “castigo” surgia quando a Revolução vitoriosa, agora transformada em Estado, estabelecia obrigações militares que atingiam justamente a comunidade religiosa à qual Rosabal pertencia.
A inversão era extraordinária. Em 1956, Rosabal e os adventistas de sua rede não perguntaram a Che se ele era combatente antes de alimentá-lo, escondê-lo, vesti-lo e ajudá-lo a escapar das forças de Batista. Rosabal abriu mão da própria camisa para que Che pudesse vestir-se. Adventistas participaram da proteção e movimentação daqueles homens e continuaram prestando auxílio mesmo quando o sábado adventista já havia começado. Para eles, naquele momento, prevaleceu a lógica elementar do Evangelho: “É lícito fazer o bem aos sábados.” Sete anos depois, entretanto, a Revolução que sobrevivera também graças à solidariedade de camponeses como aqueles havia se tornado governo e exigia de uma nova geração de adventistas participação em seu sistema militar.
É exatamente aí que a expressão de Che ganha toda a sua ironia: a recompensa terrestre havia se transformado em castigo. O homem que ajudara revolucionários armados quando eles eram perseguidos agora aparecia diante da Revolução vitoriosa para pedir consideração aos jovens de sua própria Igreja diante das obrigações militares impostas pelo novo Estado.
A mesma história que aproximava Rosabal de Che criava uma pergunta incômoda para os adventistas: se “El Pastor” e seus companheiros puderam auxiliar aqueles homens durante a guerra — inclusive atravessando as horas do sábado quando vidas estavam em jogo — por que os jovens adventistas da Cuba revolucionária não poderiam servir às forças armadas do governo que aqueles homens haviam criado?
Rosabal estava, portanto, dos dois lados do argumento. Para a Revolução, sua própria biografia demonstrava que ser adventista não significava necessariamente manter distância de homens armados ou de uma luta revolucionária. Para parte da Igreja, porém, aquilo que Rosabal fizera podia ser entendido como socorro a pessoas perseguidas em circunstâncias excepcionais, e não como autorização permanente para obrigar todo jovem adventista a portar armas, receber treinamento combatente ou violar sua consciência religiosa. Rosabal era simultaneamente a dificuldade histórica da argumentação adventista e sua melhor credencial diante de Che.
Isso torna ainda mais revelador o fato de a denominação ter colocado Rosabal junto dos quatro pastores enviados para tratar do problema. Os ministros possuíam autoridade eclesiástica para explicar a posição da Igreja; Rosabal possuía aquilo que nenhum cargo denominacional poderia produzir: uma dívida histórica de gratidão. Che sabia quem ele era. Sabia o que aquele homem e sua gente haviam feito. E, ao encaminhar seus documentos a Carlos Rafael Rodríguez, não precisou apresentá-lo formalmente. Bastou escrever: “Argelio Rosabal, el adventista del que te hablé”. Rosabal já havia sido assunto entre os dois dirigentes revolucionários.
É então que a frase seguinte ganha um peso quase provocativo. Che informa que a “recompensa terrestre” daquele adventista havia se convertido em “castigo” e pede, em tom de cumplicidade, que Rodríguez encontre uma saída: como “brilhante jovem comunista”, ele saberia como contornar a lei ou desviar a atenção de Che. O comandante estava, em outras palavras, procurando dentro do próprio aparelho revolucionário uma maneira de aliviar o problema que a legislação revolucionária criara para aquele velho amigo adventista.
E logo aparece o parêntese: “Lo de los perros y gatos va por separado.” Lida nessa sequência, a brincadeira ganha ainda mais sabor. Quatro pastores oficiais acompanhavam o homem chamado “El Pastor”; representantes de uma denominação tentavam explicar por que seus jovens necessitavam de tratamento diferenciado justamente ao governo que alguns de seus próprios membros haviam ajudado quando ele ainda era guerrilha. A Revolução podia devolver a pergunta: se vocês estiveram conosco quando éramos perseguidos, por que não podem estar conosco agora que somos o Exército? E a Igreja precisava responder que socorrer Che na Sierra Maestra não equivalia a transformar todos os seus jovens em combatentes.
A ironia de Che condensa essa transformação histórica numa única linha: “cuya recompensa terrenal se ha convertido en castigo”. Em 1956, Rosabal havia colocado aquilo que possuía à disposição de um revolucionário perseguido. Em 1963, era Rosabal quem chegava ao revolucionário transformado em autoridade para pedir ajuda diante de uma obrigação criada pela Revolução. Antes, Che precisava de “El Pastor”; agora, “El Pastor” precisava de Che. A recompensa e o castigo provinham, ironicamente, da mesma Revolução.

“Lo de los perros y gatos va por separado”
E é somente depois de resumir a situação de Rosabal com a extraordinária expressão “cuya recompensa terrenal se ha convertido en castigo” que Che acrescenta entre parênteses: “Lo de los perros y gatos va por separado.” A brincadeira vem carregada de tudo aquilo que acabamos de reconstruir. Diante dele não estava simplesmente um adventista pedindo um favor pessoal, mas uma questão denominacional levada por quatro pastores oficiais acompanhados justamente daquele outro “Pastor” que conhecia a Revolução desde quando ela ainda cabia nas casas, caminhos e esconderijos da Sierra Maestra.
Não era Rosabal sozinho procurando um antigo companheiro dos dias difíceis da Sierra Maestra. A denominação adventista enfrentava um problema com o novo Serviço Militar Obrigatório e organizara uma representação para tratar do assunto. Quatro pastores participavam da iniciativa, mas junto deles seguia um quinto homem que não possuía ordenação ministerial: Argelio Rosabal, justamente aquele adventista que, muito antes da vitória revolucionária, já era conhecido em sua comunidade como “El Pastor”.
E essa frase que Che acrescentou entre parênteses à carta — “Lo de los perros y gatos va por separado” — ganha outra força quando colocada diante da contradição que os adventistas levavam ao governo revolucionário. A questão não era simplesmente se um jovem adventista poderia ou não portar uma arma. Havia uma pergunta histórica muito mais incômoda por trás daquela negociação: se Argelio Rosabal e os adventistas que atuaram com ele haviam apoiado os homens da Revolução quando Che, Fidel e seus companheiros ainda combatiam Batista, por que agora outros jovens adventistas não poderiam integrar normalmente o exército da Revolução vitoriosa?
Esse problema se tornava ainda mais agudo porque a participação adventista nos primeiros momentos da guerrilha não se limitara a oferecer um prato de comida a um desconhecido que passava pela estrada. A rede associada a Rosabal escondera homens, providenciara roupas, alimentos, informações e deslocamentos, protegera recursos dos revolucionários e colaborara concretamente para que sobreviventes do Granma escapassem das forças de Batista. E essa solidariedade não desaparecia automaticamente quando chegava o pôr do sol de sexta-feira.
Como vimos na reconstrução dos acontecimentos de dezembro de 1956, a própria sequência cronológica coloca a família Rosabal acolhendo aqueles homens quando o sábado adventista já havia começado. Para “El Pastor”, portanto, a obrigação religiosa não significara abandonar homens perseguidos quando chegavam as horas sagradas. “É lícito fazer o bem aos sábados” fornecia uma lógica religiosa perfeitamente compreensível para aquela conduta.
Alguns anos depois, porém, a Revolução havia vencido e transformado seus guerrilheiros em governo, suas colunas em forças armadas e a necessidade militar em obrigação legal. Nesse novo cenário surgiu uma pergunta que os próprios acontecimentos da Sierra Maestra tornavam inevitável: por que aquilo que fora possível para Rosabal e seus companheiros quando a Revolução era perseguida passaria a ser impossível para jovens adventistas quando a mesma Revolução se tornara Estado? Do ponto de vista revolucionário, a distinção podia parecer especialmente difícil de compreender. Se adventistas haviam ajudado a salvar, abastecer, esconder e proteger homens armados que combatiam Batista, por que seus filhos agora reivindicariam tratamento diferenciado diante das Forças Armadas revolucionárias?
A questão das armas tornava a contradição ainda mais delicada. A denominação precisava explicar que auxiliar guerrilheiros em perigo não significava necessariamente aceitar que todo adventista empunhasse uma arma, recebesse treinamento combatente ou subordinasse sua observância religiosa às exigências militares. Mas, diante de Che, havia um homem cuja própria biografia complicava qualquer separação demasiadamente simples entre adventismo e Revolução. Argelio Rosabal era a prova viva de que um adventista podia considerar seu dever cristão ajudar revolucionários armados e, ainda assim, continuar sendo reconhecido como adventista. Ele não surgia na discussão como teórico do problema. Trazia a Sierra Maestra consigo.
É justamente por isso que sua presença ao lado dos quatro pastores oficiais se torna tão significativa. A Igreja não enviou somente ministros para argumentar teologicamente diante do novo governo. Levou também o homem que conhecia Che desde quando Che não era ministro, comandante vitorioso ou autoridade do Estado, mas um sobrevivente perseguido. Os quatro pastores podiam explicar a posição denominacional; “El Pastor” podia personificar a exceção histórica que tornava aquela posição muito mais difícil — e, ao mesmo tempo, podia abrir a porta necessária para negociá-la.
A composição daquela representação chega a ser irônica. De um lado estavam quatro pastores oficiais, homens que representavam institucionalmente a Igreja; do outro estava o “Pastor” que não era pastor denominacional, mas cuja credencial diante da Revolução nenhum daqueles ministros possuía. Rosabal conhecera Che quando o futuro comandante não tinha gabinete, cargo ou poder para oferecer. Conhecera-o ferido e perseguido, quando os sobreviventes do Granma dependiam da solidariedade dos camponeses para continuar vivos.
Foi naquele contexto que Rosabal abriu sua casa, participou da rede que protegeu e movimentou revolucionários e chegou ao gesto extremo de tirar a própria camisa para entregá-la a Che, ficando depois reduzido a vestir um saco de estopa. Aquele ato não significou entregar uma peça que lhe sobrava: Rosabal abriu mão de algo de que ele próprio necessitava para atender à necessidade imediata daquele homem ferido. O gesto marcou de tal maneira a relação entre ambos que Che posteriormente prometeu ajudar na construção da igreja adventista e manteve contato com “El Pastor”.

Daí o sabor especial da brincadeira: “Lo de los perros y gatos va por separado.” Naquela representação estavam reunidos homens que precisavam explicar ao governo revolucionário diferenças internas que, vistas do lado de Che, podiam parecer quase uma briga de cães e gatos. Afinal, um grupo de adventistas havia ajudado seus homens na Sierra; agora outros adventistas apresentavam objeções às exigências militares da Revolução que aqueles primeiros adventistas haviam ajudado a colocar no poder. E, para tornar a cena ainda mais irônica, os quatro pastores oficiais haviam levado consigo justamente “El Pastor”, o adventista guerrilheiro que conhecia pessoalmente o comandante.
Rosabal, portanto, ocupava uma posição extraordinariamente ambígua e útil. Sua presença dizia simultaneamente duas coisas. Para Che, dizia: “nós não fomos inimigos de vocês quando vocês precisaram de nós”. Para a Igreja, permitia dizer: “aquilo que Rosabal fez em circunstâncias excepcionais não significa que nossos jovens possam ser obrigados a agir militarmente contra a própria consciência”. O mesmo homem que poderia ser utilizado pelo governo como exemplo de colaboração adventista com a Revolução podia ser utilizado pela denominação como interlocutor privilegiado para pedir que essa colaboração histórica não fosse convertida numa obrigação militar geral.
Isso ajuda a compreender por que Rosabal era muito mais do que acompanhante daquela comissão. Os quatro pastores possuíam autoridade eclesiástica; ele possuía autoridade biográfica. Eles podiam falar sobre doutrina, consciência, sábado e serviço militar. Rosabal podia olhar para Che e lembrar, simplesmente por estar presente, que adventistas haviam ajudado os revolucionários quando ajudá-los era perigoso e não oferecia qualquer vantagem previsível. E Che sabia disso melhor do que qualquer funcionário que recebesse um memorando burocrático, porque ele próprio havia sido beneficiário daquela solidariedade.
É também por isso que a frase seguinte da carta é tão reveladora. Che não encaminha simplesmente um expediente administrativo. Ele manda a Carlos Rafael Rodríguez os documentos de “Argelio Rosabal, el adventista del que te hablé” e brinca que Rodríguez, como brilhante jovem comunista, saberia encontrar uma maneira de contornar a lei ou desviar sua atenção. O problema adventista estava esbarrando numa lei da Revolução; Che estava recorrendo à relação pessoal e política para procurar uma saída. E o nome que permitia transformar o memorando denominacional em assunto pessoal era justamente Rosabal.
A inversão histórica é impressionante. Em dezembro de 1956, Che precisava que Rosabal encontrasse uma maneira de ajudá-lo a sobreviver. Em outubro de 1963, Rosabal precisava que Che encontrasse uma maneira de ajudar os adventistas diante da lei revolucionária. No primeiro momento, o Estado perseguia Che e Rosabal abriu sua rede de proteção. No segundo, Che fazia parte do Estado e abria para Rosabal um caminho dentro dele. Entre os dois episódios havia sete anos de amizade, gratidão e memória.
É nesse contexto que a brincadeira dos “perros y gatos” ganha sua intensidade. A Igreja chegava ao governo carregando uma contradição que sua própria história ajudara a criar: adventistas haviam colaborado com os revolucionários quando eles precisavam de homens dispostos a correr riscos; agora pediam que o governo revolucionário reconhecesse o direito de outros adventistas não assumirem determinadas obrigações militares. E quem estava ali para negociar essa aparente contradição? Quatro pastores oficiais acompanhados do homem que podia tornar toda a discussão pessoal para Che Guevara: Argelio Rosabal, o quinto homem da delegação, o não ordenado, o velho amigo da Sierra, aquele que todos já conheciam simplesmente como “El Pastor”.
E isso se encaixa de maneira impressionante com a carta de 2 de março de 1959 que já recuperamos: quatro anos antes, Che escrevera diretamente a Rosabal lembrando espontaneamente a promessa de financiar sua igreja; em 1963, Rosabal aparece novamente diante dele, agora como integrante da iniciativa adventista relacionada ao serviço militar, e Che o apresenta a um dos homens mais importantes do governo como “el adventista de quien te hablé”.
A cena de 1963 ilumina retrospectivamente a importância daquela camisa sem diminuí-la. Rosabal não abriu mão de sua roupa em 1956 pensando que sete anos depois a denominação precisaria chegar ao gabinete de Che. Seu gesto não foi investimento; foi sacrifício. Justamente por isso produziu uma dívida moral tão poderosa. O que posteriormente aconteceu foi que uma relação conquistada por meio daquele sacrifício pessoal passou a possuir utilidade institucional. Quando a Igreja precisou apresentar uma questão delicada ao novo Estado, El Pastor não era apenas uma bela história para ser contada em sermões. Era alguém que Che conhecia.
Rosabal era ao mesmo tempo o problema histórico da argumentação adventista e sua melhor credencial diante de Che. Isso explica muito melhor por que levar justamente ele junto aos quatro pastores.
A RELAÇÃO COM O PODER NÃO NASCEU COM FIDEL
Há ainda uma descoberta que torna todo esse quadro mais desconfortável. Ao voltarmos aos periódicos adventistas anteriores à Revolução, encontramos o Colegio de las Antillas celebrando, já em 1954, seu “enviable prestige among the government officials” — “prestígio invejável entre funcionários governamentais”. O colégio era visitado, reconhecido e recomendado por autoridades educacionais durante o período em que Fulgencio Batista controlava Cuba. Isso significa que a busca de boas relações com o poder estatal não nasceu quando Fidel chegou a Havana. A instituição já valorizava publicamente seu prestígio junto às autoridades do governo anterior.
Quando o equilíbrio político cubano começou a mudar, a história ganhou uma ironia difícil de ignorar. Adventistas da Sierra já haviam construído relações com os insurgentes desde 1956; em 1958, a própria Associação Geral acompanhava diretamente os “problemas educacionais em Cuba” e enviava E. E. Cossentine para inspecionar o C.A.; no fim daquele ano, enquanto Washington já trabalhava com a perspectiva de que Batista não conseguiria permanecer no poder, dirigentes adventistas estavam novamente em Cuba.
Ainda não encontramos um documento que registre uma comunicação direta do governo norte-americano à cúpula adventista informando que Batista cairia, e não transformaremos em prova aquilo que ainda permanece como hipótese. Mas relações informais, canais reservados de informação e contatos de bastidores, por sua própria natureza, nem sempre produzem rastros documentais acessíveis — e sua eventual ausência nos arquivos não demonstra que tais contatos não tenham existido.
O que podemos demonstrar é que a própria cronologia torna cada vez menos sustentável a imagem de uma Organização isolada, desinformada ou distante da crise cubana: enquanto Washington avançava para a conclusão de que Batista perdera as condições de permanecer no poder, dirigentes de níveis superiores da estrutura adventista acompanhavam diretamente a situação da ilha, visitavam o Colegio de las Antillas e circulavam entre Santa Clara e Havana justamente nas semanas decisivas que antecederam a queda do regime.
Quando Batista finalmente fugiu, a denominação não precisou descobrir os vencedores. Alguns de seus membros já os conheciam desde a Sierra; o Colegio de las Antillas havia acabado de conviver com eles durante Santa Clara; e, nas semanas e meses seguintes, a instituição começaria a desfrutar aquilo que Brown chamou de “efeitos posteriores”. Anos depois, a própria Review resumiria a reciprocidade com palavras ainda mais claras: Fidel agradecera pelos “favores recebidos” e suas garantias haviam despertado “grandes esperanças” na administração adventista.
A CARTA E AS FOTOS AGORA CONTAM UMA HISTÓRIA MAIOR

É por isso que precisamos olhar novamente para os dois conjuntos documentais que deram origem a esta matéria. A carta de Che e as fotografias de Fidel não são curiosidades independentes. A carta mostra o poder revolucionário lembrando-se de um adventista que o ajudara quando ainda não possuía poder; as fotografias mostram o novo poder sendo recebido dentro de uma instituição adventista que também havia prestado assistência aos revolucionários durante a luta. Entre os dois documentos existe uma cadeia de relações pessoais e institucionais que começa antes da vitória e continua depois dela.
A carta revela memória e gratidão. As fotografias revelam proximidade e prestígio. Brown acrescenta os “efeitos posteriores”. González preserva o reconhecimento do “espírito de amor da Igreja Adventista”. O episódio de 1963 demonstra a utilidade posterior do acesso de Rosabal a Che. E a Review and Herald, olhando retrospectivamente para aqueles acontecimentos em 1965, fornece a formulação institucional que faltava: Castro demonstrou gratidão pelos “favores recebidos”, ofereceu garantias e a administração alimentou “grandes esperanças para o futuro”.
NÃO FOI A IGREJA QUE DEU A CAMISA — MAS ELA USUFRUIU DO PRESTÍGIO
Essa distinção precisa permanecer muito clara para que a história não seja injusta com Rosabal. Não devemos transformar retrospectivamente El Pastor em funcionário de uma estratégia política concebida pela Associação Geral. O que sua entrevista revela é um homem profundamente inserido em sua comunidade religiosa que, diante de seres humanos perseguidos e necessitados, decidiu que era preciso salvá-los. A demonstração máxima dessa disposição foi abrir mão não de uma sobra, mas da própria roupa que necessitava usar. O impacto daquele gesto permaneceu na memória de Che a ponto de sobreviver à guerra, à vitória e à transformação completa de sua posição social e política.
O problema institucional começa depois, quando percebemos que o capital moral produzido por homens como Rosabal não permaneceu restrito a eles. Che transformou a experiência em elogio à Igreja; sua amizade com El Pastor abriu acesso posterior; o colégio construiu sua própria história de colaboração em Santa Clara; as novas autoridades recordaram os serviços recebidos; Brown comemorou os efeitos posteriores; e a administração passou a alimentar expectativas concretas a partir das garantias do novo governo. A Organização não deu a camisa, mas acabou participando dos dividendos históricos produzidos pela reputação daqueles que haviam ajudado os revolucionários quando ajudá-los ainda era perigoso.
PARCERIA, CUMPLICIDADE E RECIPROCIDADE
Quando publicamos inicialmente a carta e as fotografias, utilizamos as palavras “parceria” e “cumplicidade” para chamar atenção para uma história que havia sido fragmentada durante décadas. A documentação reunida desde então permite definir melhor o que queremos dizer. Não estamos afirmando que cada adventista envolvido possuía a mesma motivação, que Rosabal obedecia a uma ordem secreta da Associação Geral ou que Brown e Che compartilhavam a mesma ideologia.
A documentação mostra algo historicamente mais interessante: pessoas e instituições adventistas prestaram auxílio concreto aos revolucionários; relações de confiança foram construídas durante a luta; depois da vitória essas relações continuaram; e a própria administração adventista reconheceu os benefícios e expectativas decorrentes da gratidão dos vencedores.
A cumplicidade, nesse sentido histórico, não precisa significar identidade ideológica. O Colegio de las Antillas não precisava converter-se ao marxismo para perceber que possuir boas relações com Fidel, Che e outras autoridades era institucionalmente vantajoso. Assim como anteriormente podia desfrutar prestígio entre funcionários do Estado sob Batista sem tornar-se “batistiano”, podia posteriormente estabelecer relações proveitosas com o novo poder sem declarar-se comunista. Mudavam os governantes, mas permanecia o interesse institucional em preservar espaço, reconhecimento, acesso e capacidade de negociação.
O QUE NÃO ENCONTRAMOS TAMBÉM IMPORTA
Depois de examinarmos Brown, Moisés Mayán, Israel González Valdés e os periódicos adventistas que conseguimos localizar, permanece uma ausência significativa: até agora não encontramos uma reação pública da Organização dizendo que Rosabal comprometera a Igreja ao organizar adventistas para ajudar os revolucionários, nem uma censura pública a Brown pela colaboração do C.A. durante Santa Clara.
Precisamos formular isso com rigor: ausência nos documentos examinados não prova que jamais tenha existido alguma crítica privada ou correspondência ainda desconhecida. Mas aquilo que efetivamente encontramos aponta na direção oposta. Encontramos preservação da memória, continuidade administrativa, utilização posterior das relações e periódicos oficiais narrando positivamente seus resultados.
Isso se torna ainda mais significativo porque a retrospectiva de 1965 foi publicada quando a lua de mel com a Revolução já havia terminado. A denominação já conhecia nacionalizações, restrições religiosas, tensão com os Estados Unidos e a orientação socialista do governo. Mesmo assim, ao reconstruir aquele período, a Review and Herald não introduziu uma condenação retrospectiva de Brown ou dos serviços prestados aos revolucionários. Registrou tranquilamente que Castro agradecera pelos “favors received” e que suas garantias haviam produzido “high hopes for the future”.
DA IGREJINHA DA SERRA AOS CORREDORES DO NOVO PODER
A sequência completa é muito mais reveladora do que qualquer documento isolado. Na Sierra Maestra, uma pequena comunidade adventista liderada por El Pastor ajudou homens que poderiam ter sido mortos ou capturados antes que a Revolução realmente começasse. Rosabal abriu sua rede de relações, sua casa, sua liderança e, no momento mais pessoal dessa história, abriu mão da própria roupa para vestir Che. O revolucionário guardou aquilo na memória, transformou gratidão em amizade e, depois da vitória, tomou a iniciativa de recordar a promessa que fizera à igreja daquele homem. Posteriormente, a memória desse comportamento seria ampliada para uma homenagem ao “espírito de amor da Igreja Adventista”.
Em Santa Clara, a relação alcançou uma instituição denominacional. O Colegio de las Antillas alimentou e auxiliou revolucionários durante a batalha. Quando esses homens venceram, começaram os “efeitos posteriores”: visitas, reconhecimento, projeção pública, relacionamento com autoridades e expectativas. Fidel entrou no ambiente adventista; Che apareceu diante daquela comunidade; o coral ganhou espaços públicos; o modelo educacional despertou interesse; e a memória dos serviços prestados passou a possuir valor numa Cuba em que os antigos guerrilheiros agora decidiam o futuro das instituições.
Finalmente, a própria imprensa denominacional deixou escrita a relação que não precisamos inventar: houve “favores recebidos”; houve gratidão de Castro; houve garantias; e houve “grandes esperanças para o futuro”.
É por isso que a carta de Che e as fotos de Fidel valem muito mais hoje do que quando as encontramos pela primeira vez. Elas já não são apenas duas provas curiosas de que dirigentes revolucionários tiveram contato com adventistas. São janelas abertas para uma relação construída durante a luta e aproveitada depois da vitória.
O HOMEM QUE RECEBEU A CAMISA NÃO ESQUECEU; A ORGANIZAÇÃO TAMBÉM NÃO DESPERDIÇOU A MEMÓRIA
No começo dessa história, Che Guevara não tinha nada para oferecer a Argelio Rosabal. Não governava, não controlava ministério, não podia abrir portas, proteger uma instituição ou cumprir promessas financeiras. Precisava sobreviver. Rosabal, por sua vez, tinha uma camisa de que necessitava e encontrou diante de si alguém que necessitava dela ainda mais. Tirou-a e entregou-a. O valor daquele gesto está justamente no fato de não ter sido feito como investimento em poder futuro. A camisa não comprou Che. Revelou Rosabal. E aquilo que Che viu naquele homem jamais desapareceu completamente de sua memória.
Depois, tudo mudou. O perseguido tornou-se comandante. Os rebeldes tornaram-se governo. Os homens alimentados em Santa Clara tornaram-se autoridades. A gratidão ganhou capacidade de produzir consequências. E a instituição religiosa à qual Rosabal, Brown, estudantes, professores e funcionários pertenciam passou a encontrar diante de si pessoas que sabiam quem eram os adventistas e se lembravam daquilo que haviam feito.
É nesse ponto que nossa investigação chega hoje. O sacrifício foi de El Pastor, mas o prestígio alcançou a Organização; a colaboração aconteceu durante a luta, mas seus efeitos continuaram depois da vitória; e aquilo que poderia ter sido tratado posteriormente como comprometimento político inconveniente aparece nos próprios documentos adventistas como relacionamento do qual a instituição esperou e usufruiu resultados.

Há, porém, um último documento que projeta essa história muito além de 1959 e mostra que a memória de Argelio Rosabal não permaneceu restrita às recordações pessoais dos homens que ele conhecera na Sierra Maestra. Décadas depois, o reconhecimento assumiu a forma oficial do próprio Estado cubano. Um diploma do Consejo de Estado de la República de Cuba concede nominalmente a Argelio Rosabal Fonseca a “Medalla Conmemorativa 40 Aniversario de las Fuerzas Armadas Revolucionarias”.
O significado institucional dessa condecoração é difícil de minimizar: quase quatro décadas depois dos acontecimentos do Granma, “El Pastor” continuava suficientemente identificado com a memória revolucionária para receber uma medalha comemorativa vinculada às próprias Forças Armadas Revolucionárias. Aquele líder religioso camponês adventista, cuja congregação-célula acolhera, alimentara, escondera e ajudara homens perseguidos quando a Revolução ainda lutava para sobreviver não desapareceu da memória do poder depois que os guerrilheiros se transformaram em governo.
Esse documento também torna cada vez mais difícil reduzir Rosabal à figura pitoresca de um simples “camponês humanitário” que, por acaso, cruzou o caminho dos revolucionários. A Revolução sabia quem ele era. Che Guevara sabia — e continuou sabendo anos depois, a ponto de identificá-lo diante de Carlos Rafael Rodríguez como “el adventista del que te hablé”. Camilo Cienfuegos, Ramiro Valdés e outros protagonistas daquele processo aparecem ligados à memória de sua atuação; os adventistas preservaram sua história; e, décadas mais tarde, o próprio Consejo de Estado ainda registrava oficialmente seu nome numa condecoração relacionada às Forças Armadas Revolucionárias.
A sequência é longa demais para ser dissolvida em folclore: começa com homens perseguidos batendo à porta de “El Pastor”, atravessa a amizade e a gratidão de Che, alcança a utilização posterior de Rosabal como ponte numa negociação adventista com o novo Estado e termina, décadas depois, com a República de Cuba colocando oficialmente uma medalha em seu nome. O personagem que algumas narrativas posteriores poderiam preferir reduzir a uma nota de rodapé continuava inscrito na memória institucional da Revolução.
As cartas de Che e as fotografias de Fidel não encerram essa história. Agora sabemos que elas apenas nos permitiram começar a enxergá-la inteira. O que inicialmente parecia uma coleção de episódios dispersos — a camisa, os sobreviventes do Granma, a rede da Sierra Maestra, o Colegio de las Antillas, Santa Clara, as visitas dos revolucionários, as cartas, os favores recordados, as negociações posteriores e, finalmente, a condecoração de Rosabal — começa a revelar uma continuidade histórica muito mais extensa do que a narrativa convencional permitia perceber.
E quanto mais os próprios arquivos adventistas falam, menos convincente se torna a imagem de uma denominação que teria permanecido à margem da Revolução Cubana apenas observando os acontecimentos de longe.
FONTES PRINCIPAIS
BROWN, Walton J. Relatos sobre o Colegio de las Antillas e a Revolução Cubana, incluindo a descrição dos acontecimentos de Santa Clara e das relações posteriores com as autoridades revolucionárias.
GUEVARA, Ernesto “Che”. Pasajes de la guerra revolucionaria. Memórias da campanha revolucionária, incluindo referências aos adventistas que auxiliaram os rebeldes e a Argelio Rosabal.
ROSABAL, Argelio. Entrevista a Tad Szulc. Tad Szulc Collection, Archives & Special Collections, Otto G. Richter Library, University of Miami, Accession 88-2, Box 3, Folder 37. Depoimento de 23 folhas sobre a rede adventista que auxiliou sobreviventes do Granma.
MAYÁN, Moisés. Pesquisa histórica sobre o Colegio de las Antillas, a Revolução Cubana e as relações entre adventistas e dirigentes revolucionários.
GONZÁLEZ VALDÉS, Israel. Reconstrução histórica da Igreja Adventista em Cuba e do relacionamento do Colegio de las Antillas com as novas autoridades revolucionárias.
REVIEW AND HERALD. “Antillian College Expands in Puerto Rico”, 16 de setembro de 1965. O artigo registra que Castro, “to show his appreciation for favors received”, ofereceu garantias que fizeram a administração do colégio alimentar “high hopes for the future”.
PERIÓDICOS DA DIVISÃO INTERAMERICANA E DOCUMENTAÇÃO DENOMINACIONAL. Relatos contemporâneos e retrospectivos sobre o Colegio de las Antillas, suas relações com autoridades cubanas, atividades educacionais e acontecimentos posteriores à Revolução.





