
Antes de examinarmos o vídeo, é importante explicar a linguagem visual escolhida para representar o Leviatã Adventista nesta matéria. O dragão aparece com sete cabeças de cores diferentes porque a imagem não pretende identificar a Organização Adventista com uma única corrente ideológica ou partido. Ao contrário: as cores simbolizam sua capacidade camaleônica de atravessar conjunturas políticas distintas, aproximar-se de governos de orientações opostas, adaptar seu discurso ao ambiente do momento e preservar, em cada cenário, seus interesses institucionais, políticos e financeiros.
É exatamente aí que o discurso do apartidarismo começa a revelar sua contradição. Para o membro comum, a recomendação é cautela, contenção, distância das paixões partidárias e, muitas vezes, silêncio público. Para a estrutura institucional, porém, existe ampla liberdade para dialogar com autoridades, defender interesses próprios, negociar espaços, buscar proteção jurídica, preservar redes educacionais, acessar recursos públicos e manter interlocução com quem estiver no poder. Não se trata de neutralidade. Trata-se de uma política institucional própria, exercida sob o nome de apartidarismo.
As sete cores do Leviatã representam justamente essa plasticidade. Mudam os governos, mudam os partidos, mudam os discursos e mudam os interlocutores; a Organização continua encontrando caminhos para se acomodar à nova conjuntura e preservar sua influência. A cabeça pode assumir uma cor hoje e outra amanhã. O que não muda é a habilidade de permanecer próxima do poder enquanto ensina sua base a desconfiar da política, moderar sua manifestação e evitar aquilo que a própria administração pratica em nível institucional.
É por isso que a pergunta “a Igreja é de direita ou de esquerda?” é pequena demais. O problema é mais profundo. Ela pode ser direita quando a direita governa, dialogar com a esquerda quando a esquerda ocupa o poder e reivindicar neutralidade quando precisa justificar essa elasticidade diante dos membros. Esse é o falso apartidarismo que estamos examinando: não ausência de política, mas concentração da política nas mãos de quem administra a instituição.
A crítica de Edegard Silva Pereira ajuda a compreender esse mecanismo. Em O Leviatã Adventista, ele descreveu uma estrutura em que os administradores permanecem politizados enquanto a massa de membros é afastada do processo decisório. Seu diagnóstico atinge exatamente o nervo da questão: o fiel trabalha, contribui, executa e obedece, enquanto os movimentos estratégicos da instituição são conduzidos em esferas sobre as quais ele exerce pouca fiscalização.
O vídeo que veremos a seguir deve, portanto, ser analisado dentro desse contraste. De um lado, uma comunidade ensinada a tratar a política com extrema cautela. Do outro, uma organização que sabe reconhecer interesses, formular critérios eleitorais, aproximar-se de autoridades e proteger seu espaço institucional. O próprio artigo mostra que a direção adventista já apresentou como critério político o apoio ao sistema educacional privado mantido pela Igreja — prova de que a instituição não se limita a observar a política de longe: ela formula interesses e orienta seus membros sobre aquilo que considera relevante para preservá-los.
Por isso, as sete cabeças coloridas não representam indecisão ideológica. Representam adaptabilidade ao poder. O Leviatã muda de cor porque o poder muda de cor. E a pergunta permanece a mesma: se a Organização reivindica para si o direito de conversar com governos, defender interesses e influenciar critérios políticos, com que autoridade pode exigir dos membros uma neutralidade que ela própria não pratica?
As falas de Felippe Amorim e Erton Köhler recolocam a pergunta que atravessa nossa série: quem define os limites da participação política dos membros e quem fiscaliza os interesses da própria Organização?
Por Mister R — 28 de setembro de 2026
Faltam seis dias para o primeiro turno das eleições brasileiras, marcado para 4 de outubro. Enquanto o eleitor se prepara para escolher governantes e representantes, precisamos recolocar uma pergunta que a linguagem religiosa frequentemente deixa pela metade: quem pode fazer política dentro de uma igreja que recomenda cautela política aos seus membros? Não começamos essa discussão hoje.
Nossa série sobre “Fé sem bandeiras”, as relações adventistas com autoridades e o chamado apartidarismo já reuniu perguntas que não se resolvem com um apelo à tranquilidade. Agora, as intervenções de Felippe Amorim e Erton Köhler permitem aproximar o discurso dirigido ao fiel de uma análise antiga e incômoda da estrutura denominacional: O Leviatã Adventista, de Edegard Silva Pereira.
O que já colocamos diante dos leitores
Em 24 de agosto, questionamos se o apartidarismo poderia se converter em silêncio moral. Em 28 de agosto, examinamos tanto as orientações anteriores da Revista Adventista sobre posicionamento quanto a distância entre o discurso contemporâneo e a história política denominacional. Em 30 de agosto, discutimos a atualização da regulamentação política da DSA em ano eleitoral. Esses textos estabeleceram a questão da coerência: o padrão apresentado ao membro precisa alcançar também quem dirige a instituição.
Em setembro, “Direita, volver! Esquerda, volver!” retomou aproximações históricas com diferentes campos do poder. No dia seguinte, a análise de um vídeo de Williams Costa Júnior discutiu a distância entre uma fórmula de neutralidade e as preferências expressas por participantes da conversa. Já em 18 de setembro, examinamos possíveis efeitos eleitorais da contenção da expressão política e retomamos relações institucionais, recursos e o caso Ezequiel Gomes. O passo seguinte é investigar o funcionamento do poder que estabelece essas fronteiras. Não basta perguntar qual partido recebe simpatia; precisamos perguntar quem pode decidir, falar e discordar.
Uma eleição não precisa salvar o planeta para fazer diferença
Felippe Amorim parte de uma situação lamentável: irmãos de igreja que romperam relações por causa de partidos. Concordamos que preferência eleitoral não justifica hostilidade. O problema surge quando a crítica à briga desemboca no argumento de que ninguém dará jeito no mundo e de que a solução virá com a volta de Jesus. A eleição passa a ser avaliada diante de uma exigência que nenhuma atividade humana conseguiria cumprir. Um hospital também não elimina definitivamente a doença. Uma escola não encerra toda ignorância. Nem por isso aconselhamos o abandono da medicina ou da educação. O valor de uma ação presente não depende de sua capacidade de realizar a redenção final.
Não precisamos atribuir ao pastor uma proibição do voto que ele não pronunciou. Precisamos examinar sua hierarquia de prioridades. Governos podem reduzir ou ampliar sofrimentos concretos, e cidadãos podem fiscalizá-los sem transformá-los em salvadores. Esperar a volta de Jesus não responde automaticamente como agir diante de uma injustiça hoje. A amizade entre irmãos deve sobreviver à divergência eleitoral, mas a preservação da amizade não exige que a consciência do cidadão seja suspensa.
Köhler apresenta critérios políticos — e inclui a própria instituição
A segunda intervenção tem procedência identificada. A Agência Adventista de Notícias divulgou o vídeo em 22 de setembro de 2014, quando Erton Köhler presidia a Divisão Sul-Americana. É uma gravação anterior à sua eleição para a presidência mundial. A divulgação oficial confirma, entre os critérios eleitorais, o “apoio ao sistema educacional privado mantido pela Igreja”. Esse é o ponto que merece nossa atenção: um interesse institucional aparece acompanhado da autoridade dos princípios religiosos.
Defender a liberdade de funcionamento de escolas confessionais é uma posição pública que pode ser argumentada. Mas o eleitor tem direito de perguntar o que significa “apoio”, quais medidas estão sendo propostas e por que esse interesse deve ocupar lugar na sua decisão. A fala não demonstra uma negociação eleitoral nem especifica benefícios públicos. Demonstra orientação política. Não citar o nome de um candidato não torna neutra a seleção dos critérios pelos quais ele será julgado. A instituição participa da formação da escolha, ainda que deixe ao membro a tarefa de preencher o nome.
Edegard chamou o problema de despolitização
Em O Leviatã Adventista, adaptação de sua dissertação de mestrado de 1988, Edegard Silva Pereira examina a convivência entre representação formal e poder burocrático. Na página 62 do arquivo de 72 páginas, ele observa que a igreja possui governo, divisão territorial, períodos administrativos e eleições. Portanto, sua organização também comporta relações políticas. No mesmo trecho, formula uma acusação expressa:
“Os administradores são os únicos politizados e eles excluem os demais participantes do processo administrativo pelo comportamento que está sendo analisado. E assim, deixam o caminho livre para manipularem, com considerável autonomia, o corpo de crentes.”
Essa é a interpretação crítica de Edegard, cuja abrangência precisa ser examinada em cada contexto. Sua utilidade está em retirar a discussão do terreno das aparências. Pode existir uma comunidade muito mobilizada para campanhas, contribuições e atividades e pouco participante das decisões que determinam essas mesmas tarefas. O membro trabalha, financia e executa; resta saber quanto consegue deliberar e fiscalizar. A pergunta não ofende a fé. Ela examina a administração.
As urnas internas também merecem exame
Na página 57, o autor descreve a influência dos superiores nas nomeações e a preparação antecipada das pautas. Na página 66, ao tratar da “anti-administração”, escreve que “a ação administrativa é norteada pela conquista e a manutenção do poder”. Também denuncia a preferência por subordinados subservientes na distribuição de cargos. O livro oferece uma hipótese sobre reprodução de poder; não constitui, por si só, uma prova sobre as escolhas pessoais de cada dirigente que ascendeu depois de sua redação.
A descrição oficial do processo eleitoral mundial de 2025 permite uma comparação concreta. Uma comissão delibera reservadamente, propõe um nome para presidente e submete a indicação aos delegados, que podem aprová-la ou devolvê-la. Depois de eleito, o presidente participa da comissão em caráter consultivo durante as nomeações seguintes. A participação consultiva não significa controle absoluto, mas revela um espaço institucional de influência. Para avaliar a representação, precisamos saber como as alternativas são construídas e quais condições existem para contestá-las. Uma oração não torna desnecessária a prestação de contas.
A regra mudou; nossa cronologia precisa acompanhar a mudança
A comunicação oficial sobre a atualização de 2026 registrou a retirada das orientações sobre manifestações públicas, remetendo-as a documentos posteriores. Por isso, não podemos descrever automaticamente a redação antiga como se continuasse intacta. Tampouco podemos transformar a retirada de uma seção em autorização irrestrita: em 29 de maio, Jorge Rampogna publicou orientações sobre presença pública e missão, retomando limites à atuação político-partidária. Regras, comentários e aplicações precisam ser distinguidos. Exigir precisão da instituição também exige precisão de nós.
O mesmo vale para o argumento eleitoral desenvolvido em nosso artigo de 18 de setembro. Uma restrição à manifestação pode produzir efeitos assimétricos, mas uma hipótese de benefício eleitoral não equivale à demonstração de acordo partidário ou intenção de favorecer uma candidatura. A análise ganha força quando explicita essa diferença e volta à questão verificável: quem é disciplinado, por qual regra, em que circunstâncias e com qual possibilidade de defesa? A resposta deve valer para o pastor de distrito, para o comunicador e para o administrador.
O membro também tem direito de fazer perguntas
Na semana da eleição, propomos um teste simples de coerência. Se a igreja ensina seus membros a examinar ideologia, conduta e interesses dos candidatos, deve aceitar perguntas igualmente rigorosas sobre seus próprios dirigentes. Quem os indica? Quem controla a agenda? Como os recursos são aplicados? Que relações institucionais são mantidas com autoridades? Como um membro pode discordar sem ser tratado como inimigo da missão? Nenhuma dessas perguntas exige transformar o templo em comitê de campanha.
A liberdade de consciência fica incompleta quando protege apenas o voto secreto e deixa desprotegido o direito de questionar a autoridade religiosa. Podemos rejeitar a idolatria de candidatos e exigir responsabilidade dos governantes. Podemos preservar a convivência na igreja e examinar sua administração. A esperança cristã não precisa funcionar como suspensão da cidadania. E o apartidarismo só merece esse nome quando garante independência diante de todos os partidos, sem se converter em privilégio de quem pode conversar com o poder enquanto aconselha os demais a baixar a voz.
Se é prudente desconfiar das ambições dos políticos, é igualmente prudente fiscalizar as ambições de quem governa em nome de Deus.





