
Argelio Rosabal Fonseca não foi um adventista periférico que apareceu por acaso na história da Revolução Cubana. Fundador de congregação, dirigente da Igreja Adventista, diretor da Escola Sabatina e reconhecido por sua própria comunidade como liderança religiosa, transformou sua casa, sua autoridade, seus contatos e uma rede de adventistas em instrumento de proteção aos sobreviventes do Granma.
Che Guevara escreveu que “todos” o conheciam como “El Pastor”; décadas depois, o Conselho de Estado da República de Cuba o condecoraria com a Medalha Comemorativa do 40º Aniversário das Forças Armadas Revolucionárias. Entre uma coisa e outra, permanece uma pergunta que a memória denominacional não consegue resolver apagando credenciais, diminuindo verbos ou transformando dirigentes em simples camponeses: até onde uma Igreja pode ajudar a construir um poder e depois declarar-se apenas vítima quando esse mesmo poder se volta contra ela e contra os seus?
Antes da Revolução, ele já era “El Pastor”
Existe uma maneira particularmente eficiente de domesticar uma história inconveniente: conservar o personagem e amputar sua identidade. Argelio Rosabal Fonseca pode continuar aparecendo em narrativas sobre os sobreviventes do Granma, desde que seja apresentado como um camponês generoso, um homem religioso, um humanitário que por acaso frequentava a Igreja Adventista do Sétimo Dia. O problema é que os documentos não sustentam essa limpeza.
Rosabal havia participado da fundação de uma congregação adventista, dirigia a igreja, era diretor da Escola Sabatina e ocupava posição de liderança suficientemente reconhecida para que, quando os revolucionários entraram naquele ambiente, aprendessem com a própria comunidade quem era seu dirigente. Ele podia não possuir uma credencial ministerial formal emitida pela burocracia denominacional, mas exercia autoridade religiosa, organizava a vida da igreja, ensinava, reunia pessoas e respondia pela condução espiritual de um grupo.
A distinção entre “pastor ordenado” e “líder que fazia o trabalho pastoral” interessa ao organograma; para homens perseguidos, escondidos e tentando sobreviver, interessava saber quem tinha autoridade para mobilizar gente, abrir casas, conseguir comida, fornecer roupas, acionar contatos e transformar confiança religiosa em proteção concreta.
É justamente por isso que a formulação usada por Ernesto Che Guevara em Pasajes de la Guerra Revolucionaria é tão importante. Che não escreve que encontrou “um camponês chamado Argelio”, nem que resolveu, por humor, apelidá-lo de pastor. Escreve que estavam na casa de “un adventista llamado Argelio Rosabal a quien todos conocían como El Pastor”. A construção é inequívoca: Rosabal era adventista e “todos” o conheciam como “El Pastor”.
O título aparece como identidade já estabelecida, não como criação literária posterior. Isso coincide com aquilo que o próprio Rosabal declarou em entrevista: era diretor da Igreja Adventista do Sétimo Dia e diretor da Escola Sabatina. Quando Che, Almeida, Camilo, Ramiro Valdés e os demais entraram naquela rede, encontraram um homem que já ocupava diante de sua comunidade uma função pastoral reconhecível.

Che registra “El Pastor” dentro da rede de sobrevivência da guerrilha
O contexto em que Rosabal aparece no relato de Che impede qualquer tentativa séria de reduzir sua participação a uma obra de caridade desconectada da guerra. O pequeno grupo revolucionário estava exausto, faminto, disperso e sob perseguição militar depois do desembarque do Granma e da derrota de Alegría de Pío. Che descreve dias de fome, sede, doença, deslocamento clandestino e perda de armamento. Em determinado momento, as armas deixadas numa casa são denunciadas; o Exército de Batista invade o lugar, prende Pablo Hurtado e captura o material.
É exatamente nesse ponto que Che registra: “Nosotros estábamos en casa de un adventista llamado Argelio Rosabal a quien todos conocían como El Pastor.” Não é uma nota lateral nem um detalhe pitoresco. Rosabal aparece no instante em que a sobrevivência do grupo depende de uma nova rota, de um novo esconderijo e de alguém capaz de agir antes que a perseguição alcance também aquela casa.
Ao saber que o esconderijo anterior havia sido comprometido, Rosabal não apenas lamentou a situação. Che escreve que ele “hizo contacto rápidamente” com outro camponês conhecedor da região e simpático aos rebeldes. Naquela mesma noite, os guerrilheiros foram retirados dali e conduzidos a um refúgio mais seguro. O homem acionado era Guillermo García, que depois ocuparia posição de enorme peso no aparato militar e político revolucionário.
Guillermo García Frías saiu da condição de camponês da Sierra Maestra, acionado por Argelio Rosabal em dezembro de 1956 para ajudar os sobreviventes dispersos do Granma, e ascendeu rapidamente ao centro do poder revolucionário. Tornou-se comandante, integrou a cúpula política do regime e passou a dirigir importantes estruturas econômicas do Estado.
Com o passar dos anos, seu nome e o de seus familiares passaram a aparecer ligados a denúncias de privilégios, negócios agroalimentares, importações, exploração de recursos e empresas controladas por círculos próximos à elite governante. O homem que, no início, ajudava fugitivos famintos e perseguidos terminou fazendo parte da classe dirigente que administrava recursos e vantagens num país marcado pela escassez para a maioria.
Em seguida, o grupo atravessaria outras casas camponesas até alcançar a propriedade de Mongo Pérez, onde estavam Fidel Castro, Raúl Castro e outros sobreviventes do Granma. Dentro da narrativa de Che, portanto, a intervenção de Rosabal faz parte da sequência pela qual homens dispersos, quase derrotados e procurados pelo Exército conseguem voltar ao núcleo que reconstruiria a guerrilha.

Uma rede adventista que ultrapassava os limites da congregação
O depoimento de Rosabal e os relatos de sua família ampliam ainda mais o quadro. Seu filho Argelio Rosabal Sotomayor descreve o pai, então com 27 anos, deixando temporariamente suas obrigações na igreja e seguindo com a sogra, Ofelia Arcís, carregando alimentos, café e doces de coco para os sobreviventes. Recorda Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Juan Almeida, Ramiro Valdés, Francisco González, Rafael Chao e Reinaldo Benítez entre aqueles que receberam assistência. Afirma também que adventistas da região colaboraram de acordo com suas possibilidades, providenciando roupas e alimentos para aquele grupo. Essa memória não está isolada: encontra correspondência na narrativa de Che sobre o abrigo na casa de Rosabal, a retirada para um local mais seguro e o acionamento imediato de Guillermo García.
O ponto decisivo não é provar que todos os integrantes dessa rede fossem adventistas. Não precisamos transformar Guillermo García em membro da IASD para compreender a importância do que aconteceu. O dado mais forte é outro: um dirigente adventista local possuía capacidade para mobilizar sua comunidade religiosa e, simultaneamente, acionar relações que ultrapassavam os limites da congregação.
A rede de “El Pastor” conectava adventistas, familiares, camponeses, simpatizantes, pessoas vinculadas ao Movimento e homens que depois ocupariam posições centrais na estrutura revolucionária. Isso muda completamente a escala da história. Rosabal não era apenas alguém que possuía uma casa; era alguém que possuía capital social, confiança religiosa, autoridade comunitária e acesso a pessoas capazes de mover homens perseguidos por um território militarmente vigiado.
Guillermo García mostra até onde chegavam os contatos de “El Pastor”
A presença de Guillermo García na narrativa merece atenção especial porque mostra a extensão daquela rede sem que seja necessário exagerá-la. Che o descreve como homem conhecedor da região e simpático aos rebeldes; Rosabal o aciona rapidamente quando a situação se torna perigosa. Mais tarde, Guillermo García se tornaria figura importante no Exército revolucionário e na estrutura política cubana.
O significado histórico não está em transformá-lo artificialmente em adventista, mas em perceber que a liderança de “El Pastor” operava numa zona de contato entre religião, comunidade rural, insurgência e futuros quadros do poder revolucionário. Quando uma liderança religiosa consegue transformar sua rede comunitária em corredor de proteção para homens perseguidos, a palavra “ajuda” começa a adquirir conteúdo político muito mais profundo.
Esse ponto é essencial porque desmonta a imagem do “bom camponês solitário”. Um indivíduo isolado pode oferecer comida. Um dirigente com autoridade sobre gente e acesso a redes pode encontrar abrigo, distribuir tarefas, fornecer roupas, ocultar homens, conduzir deslocamentos, transmitir informações, desviar suspeitas e acionar contatos. É essa segunda figura que emerge dos documentos. “El Pastor” não era importante porque possuía um apelido interessante; era chamado assim porque exercia liderança suficiente para que aquela liderança produzisse consequências reais.
O tio servia a Batista; “El Pastor” protegia os homens que ele deveria capturar
Os relatos familiares acrescentam uma dimensão especialmente dramática. Segundo Argelio Rosabal Sotomayor, Ricardo, tio paterno de seu pai, servia no Exército de Batista e recebeu a missão de localizar e capturar os expedicionários. O conflito atravessava, portanto, a própria família: de um lado, um militar encarregado de encontrar os rebeldes; de outro, o dirigente adventista que os escondia e tentava mantê-los vivos.
O próprio Rosabal recordou mais tarde um desses encontros com os soldados. Quando lhe perguntaram a que exército pertencia, respondeu que pertencia a “outro exército”. Não estava mentindo. Falava dentro do universo religioso em que havia sido formado: o exército da Salvação, o exército de Cristo, a guerra espiritual, os soldados de Jesus que os hinos, sermões e atividades adventistas ensinavam os membros a imaginar que eram.
Seus interlocutores, porém, entenderam a expressão em outro sentido. Um parente militar tratou de explicar que Rosabal pertencia a uma instituição religiosa que não usava armas, e a tensão diminuiu. A resposta funcionou precisamente porque possuía dois níveis de significado: para Rosabal, era uma afirmação religiosa verdadeira; para os soldados, soou como prova de que aquele homem nada tinha a ver com a guerra que procuravam combater.
O episódio revela muito mais do que esperteza camponesa. Rosabal utilizou, conscientemente ou não, o imaginário militar da própria religião como instrumento de proteção dentro de uma guerra real. Adventistas cantavam sobre exércitos, comandantes, soldados, batalhas e vitória; aprendiam a falar de Cristo como general e de si mesmos como combatentes de uma guerra espiritual.
Naquele momento, essa linguagem permitiu a “El Pastor” responder a um militar sem abandonar sua identidade religiosa e sem revelar a verdade que colocaria os fugitivos em perigo. O paradoxo é extraordinário: o homem que pertencia simbolicamente ao “exército de Cristo” usou justamente essa identidade de não combatente para esconder homens de um exército revolucionário. Ele não precisou inventar uma mentira; bastou permitir que seus interrogadores chegassem à conclusão errada.
Ele não se referia a uma outra denominação chamada Exército da Salvação, como eles concluíram; era o velho vocabulário adventista de guerra espiritual que Rosabal tinha internalizado. Letras de hinos que falavam sobre o “Grande Comandante”, “nessa guerra santa”, “sempre avante”, “manda o General”, “vamos por Jesus lutar”. O homem que aprendeu a se pensar como soldado de Cristo soube usar essa identidade quando soldados de verdade chegaram à sua porta.
A ironia religiosa é profunda. Um membro de uma denominação que cultivava identidade de não combatente utiliza precisamente essa reputação para tranquilizar homens armados enquanto ajuda a proteger combatentes escondidos nas proximidades. Isso mostra que a questão moral da guerra não se resolve perguntando apenas quem carregava um fuzil. Uma guerra depende também de comida, abrigo, informação, transporte, medicina, mensagens, rotas e ocultação. É possível não apertar o gatilho e ainda assim participar da cadeia que permite que outro homem volte a apertá-lo. Essa não é uma condenação simplista da compaixão de Rosabal; é uma pergunta teológica sobre os limites entre misericórdia, neutralidade e apoio operacional.

A própria memória adventista ainda o chama de “pastor adventista”
Nem mesmo a memória adventista cubana contemporânea conseguiu eliminar completamente essa identidade. Em 11 de novembro de 2025, a página Mundo Adventista Cuba SG publicou uma retrospectiva sobre a história da denominação durante e depois da Revolução. Ao reproduzir a carta enviada por Che em 2 de março de 1959, identifica seu destinatário como “pastor adventista Argelio Rosabal”. A legenda da imagem repete a mesma expressão. A tentativa de reduzi-lo posteriormente a um “simples religioso” encontra, portanto, resistência dentro da própria produção adventista. A memória denominacional cubana o reconhece exatamente como sua comunidade o conhecia: uma liderança adventista com função pastoral.
A mesma publicação admite que “el adventismo en Cuba tuvo una participación indirecta durante la etapa de la lucha revolucionaria”. O adjetivo tenta reduzir o impacto, mas a própria lista de fatos o desmente: Che e seus companheiros receberam alimentos de dirigentes do Colegio de las Antillas; Fidel Castro foi recebido na instituição depois da vitória; o coral do colégio participou de recepções; Che foi convidado para encerrar um programa musical organizado pela instituição; e a página reproduz a carta em que o comandante lembra Rosabal da promessa de financiar sua igreja caso os revolucionários triunfassem. Chamaram de “participação indireta”; depois enumeraram comida, recepção, coral, acesso aos comandantes e promessa de financiamento.
A monografia oferecida pelos próprios adventistas preserva uma memória inconveniente
Ao final da publicação, o Mundo Adventista Cuba SG identifica como fonte a dissertação de mestrado de Moisés Mayán Fernández, Asentamiento y difusión de la Iglesia Adventista del Séptimo Día en la ciudad de Holguín, apresentada à Universidad de Holguín em 2021, e oferece o trabalho aos leitores que desejarem solicitá-lo por mensagem privada. O detalhe é importante porque a página não apresenta sua narrativa apenas como memória devocional. Vincula-a explicitamente a uma pesquisa acadêmica e se dispõe a fornecer essa pesquisa. A própria memória adventista, portanto, preserva documentos e referências que tornam difícil sustentar uma separação artificial entre Rosabal e a denominação.
Há ainda um aspecto que não deve ser diminuído: essa memória não está sendo preservada apenas por pesquisadores externos, críticos da denominação ou familiares de Rosabal. Adventistas cubanos continuam escrevendo sobre o assunto no presente, publicando documentos, recuperando episódios, citando pesquisas acadêmicas e chamando Argelio Rosabal pelo nome que sua comunidade lhe deu: “El Pastor”. A página Mundo Adventista Cuba SG, por exemplo, publicou em 2025 uma retrospectiva que o identifica expressamente como “pastor adventista Argelio Rosabal”, reproduz a carta de Che e oferece aos leitores a pesquisa acadêmica utilizada como fonte. Isso tem valor próprio. Mostra que, dentro do próprio adventismo cubano, ainda existe gente disposta a preservar uma memória menos higienizada, na qual Rosabal não aparece como estranho à Igreja, mas como parte de sua história.
Por isso, este artigo não pretende sequestrar a memória de “El Pastor” para transformá-la numa peça de acusação construída de fora para dentro. Estamos ouvindo também nossos irmãos adventistas cubanos, que continuam contando essa história, preservando documentos, recuperando memórias e recusando que “El Pastor” seja separado artificialmente da Igreja à qual pertenceu. São eles que preservam fotografias, cartas, relatos familiares, referências acadêmicas e lembranças que mantêm Rosabal ligado à Igreja, à Escola Sabatina, à rede de irmãos que ajudou os revolucionários e à memória da própria Revolução. Quando essa documentação contemporânea coincide com Che, com os testemunhos familiares e com os registros estatais, a tentativa de separar Rosabal da denominação deixa de ser apenas frágil; passa a exigir que se ignore também o que os próprios adventistas cubanos estão dizendo hoje.

Che não esqueceu a dívida e prometeu financiar sua igreja
A relação não terminou quando os expedicionários conseguiram escapar. Em 2 de março de 1959, já depois da vitória, Che Guevara escreveu a Argelio Rosabal a partir do Departamento Militar de La Cabaña. A carta começa com satisfação ao receber notícias de “tão bom amigo” e contém uma frase extraordinária: “Como tengo buena memoria, debo ser yo quien le recuerde que le prometimos financiarle su Iglesia si triunfábamos.” A expressão “se triunfássemos” coloca a promessa no período anterior à vitória. Havia, portanto, uma expectativa de reciprocidade futura formada enquanto os revolucionários ainda lutavam.
Che acrescenta que Rosabal deveria enviar os nomes completos dele e da esposa para que fossem providenciadas passagens aéreas para Havana. A guerra havia terminado, mas o vínculo construído durante a clandestinidade entrava agora na nova configuração política. Não se trata da lembrança vaga de um comandante que mal recordava quem lhe dera comida. Che sabia quem era Rosabal, lembrava sua igreja, lembrava a promessa e pretendia recebê-lo na capital. A assistência prestada quando os revolucionários eram frágeis havia produzido uma relação que sobrevivera à vitória.
Quando os fugitivos protegidos se transformaram em homens do poder
Os relatos do filho descrevem o que aconteceu quando os antigos fugitivos passaram a controlar o Estado. Segundo Argelio Rosabal Sotomayor, Camilo Cienfuegos e Ernesto Guevara receberam seu pai em suas casas depois da vitória. Ramiro Valdés, outro dos homens cuja sobrevivência esteve ligada àquela rede, teria providenciado a construção de uma residência melhor para Rosabal em Pilón, retirando a família das condições precárias em que vivia no interior. A própria casa se tornaria décadas depois parte central do conflito entre os descendentes e as autoridades cubanas, quando Omar Rosabal passou a ocupá-la.
Essa sequência mostra que os revolucionários não trataram Rosabal como estranho cuja ajuda tivesse sido esquecida. Existia reconhecimento pessoal, existiam relações posteriores e, segundo a família, existiram benefícios concretos. Tudo isso é coerente com a carta de Che, com a permanência de “El Pastor” na memória dos antigos combatentes e com a condecoração que viria décadas depois. O homem que ajudara quando eles não possuíam poder continuava sendo lembrado quando passaram a possuí-lo.
O Conselho de Estado também sabia quem era Argelio Rosabal

Décadas depois, o reconhecimento deixou de ser apenas memória pessoal e assumiu forma oficial. Um diploma do Consejo de Estado de la República de Cuba concede nominalmente a Argelio Rosabal Fonseca a “Medalla Conmemorativa 40 Aniversario de las Fuerzas Armadas Revolucionarias”. A condecoração vincula formalmente “El Pastor” à memória das próprias forças armadas nascidas do processo revolucionário. Quase quatro décadas depois dos acontecimentos do Granma, o Estado cubano ainda considerava sua contribuição digna de reconhecimento.
Esse documento torna praticamente impossível tratar Rosabal como personagem insignificante ou puramente folclórico. A Revolução sabia quem ele era. Che sabia. Camilo sabia. Ramiro Valdés sabia. Os adventistas sabiam. O Conselho de Estado sabia. A tentativa posterior de diluir seu papel numa vaga categoria de “camponês humanitário” exige ignorar um conjunto de reconhecimentos que vão da memória pessoal dos comandantes à condecoração estatal.
Argelio não é o problema; o problema começa quando o ideal vira poder
Seria moralmente pobre colocar Rosabal e os dirigentes que depois consolidaram o regime cubano no mesmo plano. Argelio aparece como homem movido por convicção religiosa, compaixão pelos perseguidos e repulsa diante da possibilidade de que aqueles expedicionários fossem exterminados. Não estava construindo uma carreira revolucionária, não buscava ministério, patente, cargo estatal ou posição partidária. Arriscou-se porque acreditou que homens perseguidos não deveriam ser entregues à morte e porque imaginava que a queda de Batista poderia abrir caminho para uma Cuba mais justa. Sua tragédia está precisamente em ter agido por ideal num processo que outros aprenderiam a converter em poder.
Essa distinção é teologicamente importante porque a Bíblia não condena a misericórdia prestada ao perseguido; condena o momento em que justiça se transforma em idolatria do poder. O problema de Rosabal não foi alimentar um homem faminto. O problema histórico começa quando homens alimentados, protegidos e escondidos passam a acreditar que a vitória lhes concede direito permanente sobre a consciência, a propriedade, a liberdade e a vida dos demais. É aí que o libertador pode converter-se em senhor, que a revolução nascida contra uma ditadura pode reproduzir práticas de dominação e que a gratidão pessoal cede lugar à lógica do aparelho estatal.
Ele ajudou a Revolução, mas não se tornou homem do regime
Argelio Rosabal nunca foi militante do Partido Comunista de Cuba e jamais se integrou ao aparato do regime. Sua ajuda aos expedicionários não se transformou em carreira política. Não converteu abrigo, risco e proximidade com futuros comandantes em posto de governo. Participou porque acreditava estar ajudando a libertar Cuba de uma ditadura e porque, movido por suas convicções religiosas e humanitárias, recusou-se a permitir que homens perseguidos fossem massacrados. A Revolução triunfou; Rosabal voltou para sua vida.
Essa independência ajuda a compreender a amargura posterior. Seu filho escreveu que durante muitos anos sentiu orgulho da contribuição do pai ao triunfo daquilo que havia sido “a ilusão de milhões de cubanos”, mas passou a enxergar a Cuba construída depois de 1959 como negação das promessas que haviam convencido homens como Rosabal a correr riscos. A grande tragédia de “El Pastor” é justamente essa: ele ajudou porque acreditou; outros, uma vez no poder, aprenderam a governar para permanecer no poder.

Quando a Igreja ajuda a construir o poder que depois a oprime
A implicação religiosa mais incômoda da história cubana está nesse paradoxo. Adventistas ajudaram homens vulneráveis antes da vitória; estruturas adventistas ofereceram comida, abrigo, contatos e hospitalidade; depois da tomada do poder, dirigentes estabeleceram convivência com o novo regime, receberam Fidel, convidaram Che e preservaram canais de relacionamento. Alguns anos depois, escolas adventistas seriam tomadas, membros sofreriam discriminação, jovens seriam pressionados pelo serviço militar, crentes enfrentariam conflitos por causa do sábado e adventistas seriam enviados às UMAP. A Igreja ajudou a sustentar homens que, uma vez no poder, integraram um Estado que acabaria restringindo a própria Igreja.
Isso não significa que a denominação tenha criado sozinha a Revolução Cubana. Significa algo mais sério: setores adventistas participaram de relações e redes que contribuíram para a sobrevivência, mobilidade e legitimação de homens que depois construiriam o novo Estado. Uma comunidade religiosa pode não controlar todas as consequências do que ajuda a colocar de pé, mas não pode apagar sua participação apenas porque o resultado se tornou inconveniente. A pergunta teológica madura não é apenas “o que pretendíamos?”, mas também “o que ajudamos a tornar possível?”.
Boas intenções não absolvem estruturas religiosas
Existe uma diferença entre a moralidade individual de Rosabal e a responsabilidade institucional da Igreja. Um indivíduo pode agir movido por compaixão sem compreender todo o futuro político de sua decisão. Uma instituição possui memória, dirigentes, educação, doutrina, hierarquia, mecanismos de decisão e capacidade de estabelecer limites. Quando seus membros são mobilizados, quando seus dirigentes entram em relação com forças insurgentes, quando suas instituições alimentam combatentes e quando, depois da vitória, procuram aproximação com os novos governantes, já não estamos diante apenas de impulsos pessoais. Entramos no terreno da responsabilidade coletiva.
É aqui que o discurso do apartidarismo se torna particularmente frágil. Uma igreja pode não possuir filiação formal a partido algum e ainda assim participar politicamente da história. Pode não publicar manifesto eleitoral e ainda assim alimentar combatentes. Pode não empunhar armas e ainda assim preservar aqueles que as empunham. Pode não assinar programa revolucionário e ainda assim fornecer capital social, abrigo, logística, contatos e legitimidade. A ausência de carteira partidária não transforma participação política em neutralidade.
A teologia da não violência encontra a logística da guerra
Há uma questão especialmente desconfortável para uma tradição que construiu identidade de não combatente. A não violência não pode ser definida apenas pela pergunta sobre quem puxou o gatilho. Uma guerra depende também de quem alimenta, esconde, transporta, informa, cura, comunica e mantém homens em condições de continuar combatendo. Se uma comunidade religiosa recusa formalmente o fuzil, mas ajuda a manter vivos e operacionais aqueles que carregam o fuzil, a discussão moral não termina porque nenhum adventista apertou o gatilho.
Isso não transforma automaticamente qualquer gesto de misericórdia em ato militar. O que torna o caso cubano diferente é a continuidade, a organização e o resultado. Rosabal mobilizou gente; Che registra transferência para esconderijo mais seguro; outros relatos mostram adventistas fornecendo roupas, alimentos e contatos. A pergunta teológica que permanece é incômoda: em que ponto o socorro ao perseguido deixa de ser apenas socorro e passa também a integrar a infraestrutura que mantém uma força combatente viva?
Ezequiel 23 e a religião que procura segurança nos poderosos
Ezequiel 23 oferece uma imagem brutal para relações em que religião e poder se confundem. O profeta descreve comunidades que procuram segurança nos braços de potências estrangeiras e transforma diplomacia em adultério espiritual. O escândalo não está simplesmente em existir contato político, mas em permitir que confiança, proteção e sobrevivência sejam transferidas para os poderes deste mundo. A religião passa a desejar aquilo que deveria julgar criticamente.
Em Cuba, a pergunta inevitável é se a Igreja, depois de participar de redes que ajudaram revolucionários antes da vitória, não passou a acreditar que o relacionamento construído com Che, Fidel e outros dirigentes garantiria segurança depois da tomada do poder. A carta de Che prometendo financiar a igreja de Rosabal, as visitas, os eventos, as recepções e as expectativas depositadas no novo governo formam uma sequência na qual proximidade política parece ter produzido esperança de proteção religiosa. Ezequiel 23 ensina exatamente o contrário: o amante político nunca pertence à religião; é a religião que começa a depender dele.

Apocalipse 17 e a ilusão de cavalgar o poder
Apocalipse 17 acrescenta uma imagem ainda mais familiar ao adventismo. A mulher aparece montada sobre a besta e, à primeira vista, parece controlá-la. Essa talvez seja uma das ilusões religiosas mais recorrentes da história: acreditar que proximidade com o poder significa domínio sobre o poder. A instituição imagina que pode utilizar governantes, regimes e sistemas em favor da missão; esquece que a besta possui vontade, dentes e interesses próprios. Enquanto a religião é útil, pode ser carregada. Quando deixa de ser útil, pode ser descartada.
A história cubana parece uma parábola dessa dinâmica. Adventistas ajudam revolucionários quando eles são perseguidos. Depois da vitória, esperam convivência, reconhecimento e espaço. Em seguida, instituições perdem autonomia, escolas são tomadas, membros enfrentam restrições e famílias adventistas descobrem que antiga gratidão não constitui proteção permanente. A besta não pertence à mulher que imagina cavalgar sobre ela.
Ezequiel 34 e a responsabilidade dos pastores quando o rebanho é ferido
Ezequiel 34 desloca a discussão do poder para a responsabilidade pastoral. O capítulo condena pastores que cuidam de si mesmos enquanto as ovelhas são feridas, dispersas e devoradas. Isso se torna particularmente perturbador quando aplicado aos descendentes de Rosabal. “El Pastor” mobilizou gente para salvar homens que não pertenciam ao seu rebanho. Décadas depois, quando sua própria família denunciou prisão, confisco, perseguição, trauma psicológico e profanação da sepultura, surge uma pergunta inevitável: quem mobilizou a Igreja para protegê-los?
A questão não é pequena. Se a organização possuía departamentos, associações, uniões, divisão, assessoria jurídica, estruturas de Liberdade Religiosa, redes internacionais e acesso a autoridades, então tinha recursos que a família de Rosabal não possuía. O contraste é perturbador: um dirigente local sem credencial ministerial formal conseguiu organizar gente para proteger revolucionários perseguidos; uma máquina eclesiástica internacional precisa mostrar o que fez quando os descendentes daquele dirigente disseram estar sendo esmagados pelo Estado que ele ajudara a nascer.
Da condecoração à perseguição da família
Em junho de 2022, Argelio Rosabal Sotomayor publicou uma série de textos intitulada Confidencias con Ramirito, dirigida a Ramiro Valdés. O tom é pessoal porque o destinatário era um dos homens protegidos naquele período. O filho recorda ao comandante que seu pai lhe salvara a vida quando quase ninguém acreditava naqueles expedicionários e cobra aquilo que considera a traição posterior às promessas da Sierra Maestra. Relata a prisão de Omar, a condenação de Onesimo, a tomada da casa e a peregrinação de familiares em busca de ajuda. A casa que simbolizara gratidão revolucionária transformou-se, décadas depois, em objeto de conflito entre o Estado e os descendentes do homem homenageado.
O arco histórico é cruel: o poder reconhece enquanto a memória é útil, condecora enquanto o herói serve à narrativa, mas não assume obrigação eterna para com aqueles que ajudaram a construí-lo. A medalha preserva a lembrança do serviço; não garante proteção à família. A gratidão política tem prazo de validade quando entra em conflito com os interesses do Estado.

Até a tumba de “El Pastor” entrou na conta
Argelio Rosabal morreu em julho de 2005. Segundo seu filho, a morte passou praticamente despercebida na comunicação oficial cubana, apesar de todo o reconhecimento que a Revolução lhe oferecera em vida. A família construiu e pagou sua sepultura. Anos depois, no contexto dos conflitos envolvendo seus descendentes, o túmulo foi profanado e vandalizado. O filho transformou esse episódio no símbolo máximo da ingratidão do regime: o homem que salvara homens perseguidos, ajudara a preservar futuros comandantes e fora condecorado pelo próprio Estado terminava com sua memória física violada.

É impossível colocar lado a lado a fotografia da medalha e a história da sepultura sem perceber a contradição. Primeiro o Estado condecorou “El Pastor”; depois sua família denunciou que nem sua tumba foi respeitada. A medalha permaneceu. O diploma permaneceu. O nome de Argelio Rosabal Fonseca permaneceu nos documentos. O que desapareceu foi a ideia de que reconhecimento político gera uma dívida moral permanente.

A Cuba de hoje também foi construída por pequenas alianças que pareciam provisórias
A Cuba contemporânea não nasceu de uma única igreja, de uma única rede ou de uma única família. Mas todo sistema de poder é construído por milhares de decisões acumuladas: pessoas que escondem, alimentam, transportam, financiam, silenciam, legitimam, negociam, acreditam e esperam. A Cuba de hoje também é resultado das pequenas estruturas sociais que ajudaram determinados homens a sobreviver quando eles ainda não possuíam Estado, exército regular, polícia ou máquina administrativa. Entre essas estruturas houve participação adventista.
A responsabilidade histórica não desaparece porque a intenção inicial era nobre. Rosabal talvez tenha desejado justiça; muitos adventistas provavelmente imaginaram estar praticando misericórdia; administradores podem ter acreditado que preservar boas relações protegeria a Igreja. Mas a história bíblica está cheia de homens que ajudaram a erguer estruturas que depois não conseguiam controlar. A pergunta religiosa adulta não é simplesmente se as intenções eram boas, mas se houve discernimento suficiente para perceber que todo poder alimentado cresce, cria interesses próprios e um dia já não precisa daqueles que o alimentaram.
Argelio salvou homens; os homens aprenderam a dominar
Esse é talvez o contraste moral mais importante da história. Argelio aparece como homem que arrisca sua segurança para impedir a morte de perseguidos. Os dirigentes revolucionários aparecem depois como homens que transformam vitória em Estado, Estado em aparelho e aparelho em permanência. O primeiro age porque acredita que ninguém merece ser massacrado; os segundos passam a controlar uma estrutura capaz de prender, confiscar, restringir e silenciar. A mesma história que começa com um pastor tentando impedir a morte termina com seus descendentes acusando o Estado revolucionário de persegui-los.
É por isso que Rosabal não deve ser convertido em comunista por associação nem transformado em santo sem consequências históricas. Sua grandeza e sua tragédia estão juntas: ele ajudou porque acreditou; outros utilizaram essa ajuda porque queriam vencer. Um agiu movido por consciência. Os outros, uma vez no poder, descobriram que poder busca preservar-se. É a passagem do ideal para a máquina, da libertação para o controle, da solidariedade para o domínio, que dá à história de “El Pastor” seu significado religioso mais profundo.

“Meu pai não morreu inocente sobre quem vocês eram”
Na terceira parte de Confidencias con Ramirito, o filho de Rosabal sintetizou essa ruptura numa frase devastadora: “Mi padre no se fue inocente de quienes eran ustedes, él se fue consciente de que, sin quererlo, había tenido en sus manos y amamantando un monstruo sanguinario y degenerado.” Essa frase não foi produzida por um crítico externo décadas depois tentando reinterpretar Cuba. Vem do filho do homem que participou diretamente daquela história e afirma que o próprio pai morreu consciente de que aquilo que ajudara a alimentar não correspondia à libertação que imaginara.
A imagem do monstro amamentado sem querer é teologicamente poderosa porque descreve a tragédia das boas intenções sem discernimento sobre o poder. Rosabal viu homens perseguidos e os alimentou. A Igreja viu oportunidades de convivência e estabeleceu relações. Os revolucionários venceram e construíram um Estado. Décadas depois, aqueles mesmos vínculos já não protegiam os descendentes de quem ajudara quando tudo ainda era frágil. O monstro não nasceu porque Argelio desejava um monstro; nasceu porque homens ambiciosos pelo poder souberam transformar ideal, ajuda, gratidão e vitória numa estrutura que passou a existir para conservar a si própria.
O problema para a IASD não é apenas quem foi “El Pastor”, mas o que ela ajudou a tornar possível
No fim, a história de Argelio Rosabal obriga a Igreja Adventista a enfrentar uma pergunta muito maior do que a classificação ministerial de um dirigente local. O problema não é saber se seu nome aparecia numa folha de pagamento pastoral. O problema é reconhecer que um homem profundamente integrado à comunidade adventista utilizou sua liderança, seus membros, seus contatos e sua fé para ajudar homens que mais tarde comandariam Cuba; que instituições adventistas mantiveram relações com aqueles vencedores; que dirigentes alimentaram expectativas de convivência e proteção dentro da nova ordem; e que essa nova ordem acabaria restringindo, perseguindo e ferindo pessoas pertencentes ao mesmo universo religioso que a ajudara quando ainda era frágil.
A Igreja pode continuar dizendo que foi apartidária. Os documentos obrigam a perguntar o que essa palavra significa quando membros, dirigentes e instituições participam de uma rede que alimenta, protege, move e legitima homens em guerra. Pode continuar dizendo que sofreu sob o regime. A história obriga a perguntar que parte de sua própria trajetória ajudou a criar proximidade com aqueles que construíram esse regime. Pode celebrar a resistência de seus membros posteriores. Mas precisa também olhar para trás e perguntar se, em algum momento, não ajudou a alimentar aquilo que depois a feriria.
Quando uma Igreja ajuda a colocar homens no poder, precisa responder pelo que fez enquanto eles ainda não tinham poder
Argelio Rosabal ajudou homens porque acreditava estar ajudando Cuba. Os homens que ele ajudou participaram da construção de um Estado que sua própria família terminaria denunciando. Entre uma coisa e outra existe uma pergunta religiosa que nenhuma medalha, nenhum silêncio institucional e nenhuma reconstrução hagiográfica consegue apagar: quando uma Igreja ajuda a colocar poder nas mãos de homens, ela também assume a responsabilidade de perguntar quem esses homens são, o que pretendem fazer com esse poder e o que acontecerá quando já não precisarem mais dela.





