Alberto R. Timm, o crítico dos críticos: as armas de um Agente especial contra os questionadores

Em abril de 2005, a Revista Adventista publicou “A Igreja e Seus Críticos”. Lido à luz do que acontecia naquele período, o artigo parece o retrato de uma operação de contenção: identificar o questionador, levantar informações sobre sua vida, explicar psicologicamente sua oposição, prevenir os demais membros contra sua influência e reduzir seus espaços de atuação.

Alberto R. Timm se tornaria uma das figuras mais destacadas da estrutura teológica adventista, mas naquele momento já desempenhava um papel que lembra, em sentido figurado, um personagem de thriller religioso: o especialista convocado quando as perguntas começavam a incomodar.

O agente especial entra em cena

Se transformássemos em um thriller religioso aquilo que vimos acontecer no adventismo daquele período, Alberto R. Timm seria um personagem particularmente interessante. Não porque precisemos inventar conspirações, salas secretas ou ordens clandestinas, mas porque sua atuação pública assumia, aos olhos de quem estava do outro lado da controvérsia, características semelhantes às de um especialista chamado quando determinados questionamentos começavam a ultrapassar os limites considerados administráveis.

Quem assistiu ou leu a O Código Da Vinci reconhecerá o tipo de personagem: culto, conhecedor da história da instituição, familiarizado com documentos, capaz de manejar textos antigos, linguagem acadêmica e autoridade religiosa, mas também envolvido na defesa de uma estrutura ameaçada por interpretações que ela considera perigosas. É nesse sentido exclusivamente literário que a comparação funciona. Timm não precisa ser transformado em vilão de ficção. Basta observar o papel que desempenhava. Quando surgiam discussões sobre Ellen White, pioneiros, Trindade, história adventista, autoridade profética e outras questões sensíveis, sua presença conferia à resposta denominacional um peso que o pastor local dificilmente conseguiria produzir sozinho. Ele era o especialista. O teólogo. O homem dos documentos. E, naquele abril de 2005, tornou-se também, de maneira extraordinariamente explícita, o crítico dos críticos.

Antes de responder à crítica, construa o perfil do crítico

O aspecto mais impressionante de “A Igreja e Seus Críticos” não é simplesmente o fato de Alberto Timm discordar dos questionadores. Isso seria absolutamente normal. Uma igreja tem o direito de defender suas doutrinas, seus dirigentes têm o direito de responder às acusações e seus teólogos podem demonstrar por que consideram determinadas interpretações equivocadas. O que chama atenção é o deslocamento realizado pelo artigo: o leitor é convidado a olhar não somente para aquilo que o crítico diz, mas para quem seria esse crítico, quais problemas carregaria, quais frustrações o moveriam e quais características pessoais explicariam sua atuação. Entram em cena desequilíbrio emocional, frustrações pessoais, problemas morais e familiares, dificuldades financeiras, problemas de autoestima, egocentrismo, individualismo e independência, espírito acusador e tendência generalizadora. Forma-se uma ficha. Antes que se termine de examinar a argumentação daquele irmão, já existe uma explicação disponível para compreender por que ele questiona. A crítica pode então deixar de parecer consequência de um problema real encontrado na história, na teologia ou na administração da Igreja e passar a parecer sintoma de alguma coisa errada com o próprio crítico.

A primeira arma: informações sobre a vida alheia

E aqui aparece uma questão que naquele tempo conhecíamos muito bem. Como se obtinham tantas informações sobre os questionadores? Como alguém sabia das dificuldades financeiras de determinado irmão, dos seus conflitos familiares, de suas frustrações, de seus problemas pessoais, de sua autoestima, de seus desejos de reconhecimento ou de supostas dificuldades morais? Existia naquele ambiente um eficiente sistema informal de compartilhamento de informações sobre a vida alheia. Hoje podemos revestir o fenômeno de expressões mais elegantes — troca de informações, acompanhamento pastoral, conhecimento do histórico, informações recebidas de pessoas próximas —, mas nós conhecemos o mecanismo por dentro: alguém contava alguma coisa a alguém, que contava a outro, que levava a informação adiante. Muitas dessas informações não eram submetidas a qualquer procedimento que permitisse ao acusado saber exatamente quem afirmara aquilo, em que circunstâncias, com quais provas e com que possibilidade de contestação. Era a velha fofoca adquirindo, ao subir os degraus da estrutura, uma aparência progressivamente mais respeitável. Quando finalmente reaparecia no discurso de alguém revestido de autoridade, já não parecia conversa de corredor. Parecia informação.

A segunda arma: transformar informação pessoal em explicação

O problema se agravava quando essas informações deixavam de ser apenas comentários sobre a vida de alguém e passavam a explicar suas posições religiosas. Um homem não discordaria porque encontrou um problema num argumento; discordaria porque estava frustrado. Outro não denunciaria determinada incoerência porque possuía documentos; faria isso porque desejava reconhecimento. Um terceiro não insistiria numa questão bíblica porque julgava haver encontrado evidências; sua insistência poderia ser interpretada como desequilíbrio, egocentrismo ou espírito acusador. Esse procedimento é extremamente eficiente porque muda silenciosamente o objeto do debate. Já não precisamos perguntar apenas: “O documento apresentado por ele é autêntico?”, “O texto bíblico realmente diz isso?”, “Ellen White escreveu essas palavras?”, “A liderança procedeu dessa maneira?”. Surge outra pergunta, muito mais conveniente para quem pretende neutralizar a influência daquele indivíduo: “O que aconteceu com esse irmão para ele ficar assim?” O argumento continua sobre a mesa, mas os olhos da congregação foram desviados do argumento para o argumentador.

A terceira arma: vacinar quem ainda não foi alcançado

Naquele período, porém, não bastava lidar com aqueles que já estavam envolvidos. Era necessário alcançar rapidamente quem ainda não havia entrado na discussão. E foi aí que vimos funcionar aquilo que podemos chamar, sem dificuldade, de vacinação dos não envolvidos. Organizavam-se semanas especiais, seminários e palestras sobre os assuntos que estavam sendo discutidos. Nomes conhecidos eram trazidos para falar sobre os temas. Alberto R. Timm participou desse ambiente de resposta; Rodrigo Silva e outros nomes reconhecidos também eram mobilizados em programações destinadas a reafirmar diante da membresia a interpretação denominacional. A força desse procedimento estava na antecipação. Antes que o membro comum tivesse contato prolongado com os questionadores, antes que lesse seus textos, examinasse seus documentos ou frequentasse suas reuniões, recebia uma explicação institucionalmente autorizada do problema. E, mais importante ainda, podia receber juntamente com a resposta doutrinária uma chave para interpretar psicologicamente aqueles que levantavam as perguntas. O não envolvido estava vacinado: caso o questionador chegasse posteriormente com uma pilha de documentos, ele já não encontraria um terreno neutro.

A quarta arma: isolar o foco

Com os envolvidos, o procedimento era diferente. Era preciso diminuir sua capacidade de influência. O questionador passava progressivamente a ser tratado como se constituísse um foco que não deveria contaminar o restante do corpo. A metáfora pode parecer dura, mas descreve bem o que vimos: isolava-se como se isola um câncer para impedir sua disseminação. Amigos eram prevenidos. Pessoas ainda não envolvidas eram aconselhadas a manter distância das discussões. Conversas deixavam de ser apenas conversas entre irmãos e passavam a ser observadas pelo prisma da preservação da unidade. O questionador começava a perceber que a controvérsia já não dizia respeito somente às ideias que defendia. Sua própria presença podia ser considerada um problema. E isso produzia um efeito social poderoso: permanecer próximo daquele irmão começava a ter um custo. Quem o escutasse demais poderia também passar a ser observado como alguém que estava “entrando no problema”.

A quinta arma: a visita acompanhada

Vinham então as visitas. Não necessariamente uma conversa informal entre o pastor e o membro, mas visitas acompanhadas por anciãos, líderes ou irmãos cuja mentalidade estivesse alinhada com a posição pastoral. A configuração já comunicava alguma coisa. De um lado estava o questionador; do outro, a representação visível da autoridade comunitária. Conversava-se, aconselhava-se, argumentava-se, advertia-se. Mas havia também testemunhas. O indivíduo sabia que aquilo que dissesse não permaneceria necessariamente entre ele e o pastor. E a visita cumpria simultaneamente funções pastorais e administrativas: compreender até onde aquele irmão estava disposto a ir, medir sua disposição de recuar, reafirmar os limites considerados aceitáveis e demonstrar que a instituição já estava acompanhando o caso. O agente especial não precisava estar fisicamente presente em cada sala. O método podia ser reproduzido localmente.

A sexta arma: retirar o microfone

Quando o convencimento não acontecia, reduzia-se o alcance. Cargos podiam ser retirados. Funções de liderança e ensino desapareciam. O púlpito fechava-se para determinados assuntos. O irmão que até então podia ensinar uma classe, dirigir alguma atividade ou exercer determinada responsabilidade descobria que sua condição havia mudado. Essa etapa é particularmente reveladora porque estabelece uma distinção entre liberdade de consciência e liberdade de influência. O indivíduo poderia continuar pensando aquilo, desde que não utilizasse os espaços institucionais para convencer os demais. Na prática, o debate deixava de ser simétrico: a instituição continuava dispondo do púlpito, das classes, das programações, dos especialistas convidados e dos canais oficiais de comunicação, enquanto o questionador via seus meios de expressão diminuírem progressivamente. Não era necessário vencer cada argumento. Muitas vezes bastava retirar o microfone de quem insistia em apresentá-lo.

A sétima arma: fechar as rotas alternativas

Mas os questionadores encontravam outros caminhos. Reuniam-se em casas. Produziam apostilas. Fotocopiavam documentos. Distribuíam textos. Mais tarde, utilizavam intensamente a internet e grupos de WhatsApp. E então o conflito se deslocava para esses canais. Reuniões sobre determinados temas eram proibidas ou combatidas; a distribuição de materiais era restringida; grupos de comunicação eram desestimulados ou proibidos; membros eram advertidos contra a participação nesses espaços. O princípio permanecia o mesmo: se o questionamento não podia mais circular pelo púlpito, não deveria simplesmente reconstruir seu próprio púlpito fora dele. Era preciso dificultar também as rotas alternativas pelas quais aquelas ideias poderiam alcançar pessoas ainda não envolvidas. O controle da discussão, portanto, não terminava na porta da igreja. A disputa acompanhava o questionador até os ambientes onde ele tentava continuar conversando com outros adventistas.

A oitava arma: autoridade acadêmica contra a insurgência doméstica

É nesse ponto que a presença dos grandes palestrantes adquiria extraordinária importância. De um lado podia haver um pequeno grupo reunido numa sala, examinando textos bíblicos, documentos históricos e escritos de Ellen White. Do outro, uma programação oficial com auditório, divulgação, pastor, professor, doutor, especialista e toda a autoridade simbólica da denominação. Não era apenas uma disputa entre duas interpretações. Era uma disputa profundamente assimétrica de legitimidade. O membro precisava decidir se confiaria naquele irmão conhecido, agora classificado como crítico, ou no especialista trazido pela Igreja. E Alberto R. Timm encaixava-se perfeitamente nesse segundo papel. Sua formação, domínio da história adventista, trânsito institucional e produção intelectual faziam dele um representante especialmente poderoso da resposta denominacional. O pequeno grupo tinha perguntas. A instituição colocava diante dele uma autoridade.

A nona arma: a disciplina

Quando todas as etapas anteriores não produziam o resultado esperado e o questionador permanecia ativo, existia finalmente a disciplina eclesiástica. O conflito que começara com uma pergunta bíblica ou histórica podia terminar administrativamente. A essa altura, porém, muita coisa já havia acontecido. Os demais membros haviam sido prevenidos; o crítico fora caracterizado; informações sobre sua vida haviam circulado; visitas tinham ocorrido; espaços de atuação haviam sido reduzidos; reuniões e materiais tinham enfrentado restrições; palestras oficiais haviam apresentado a resposta denominacional. A disciplina não aparecia no vazio. Surgia no final de um processo em que o indivíduo já podia estar socialmente isolado e institucionalmente enfraquecido. Era o último recurso de um sistema que possuía instrumentos muito anteriores à exclusão formal.

O artigo de 2005 e o manual que nunca precisou chamar-se manual

Não estamos afirmando que “A Igreja e Seus Críticos” fosse um manual secreto contendo todas essas etapas, porque não é isso que o artigo diz. A importância do texto é outra e, talvez, maior. Publicado pela revista oficial da denominação naquele ambiente histórico, ele oferecia uma gramática para compreender o questionador. Dizia ao leitor quais características poderiam estar por trás daquela figura incômoda. Enquanto nós víamos, na prática, mecanismos de prevenção, isolamento, perda de espaços, contenção da comunicação e disciplina, Timm explicava publicamente quem seriam os críticos, quais características apresentariam e quais estratégias utilizariam. O artigo não precisava ordenar: “faça isso com eles”. Bastava contribuir para estabelecer uma imagem daquele que questionava. Uma vez convencida a comunidade de que o crítico poderia ser emocionalmente desequilibrado, frustrado, egocêntrico, acusador, individualista ou movido por problemas particulares, as medidas destinadas a conter sua influência tornavam-se muito mais fáceis de compreender e aceitar.

O crítico dos críticos sobe na estrutura

E Alberto R. Timm continuou crescendo dentro da estrutura denominacional. Aqui precisamos evitar uma relação causal que não podemos demonstrar: não podemos afirmar como fato que ele ascendeu porque combateu questionadores, como se tivéssemos acesso às decisões e motivações de cada nomeação. Mas podemos registrar a coincidência histórica que torna sua trajetória tão interessante para esta narrativa: o teólogo que se destacou na defesa da interpretação institucional, que escreveu sobre o perfil dos críticos e que participou das grandes controvérsias doutrinárias do período tornou-se progressivamente uma das figuras mais influentes da teologia adventista. Seu desempenho como defensor da ortodoxia denominacional integrou uma carreira marcada por responsabilidades crescentes. Na imagem literária que propomos aqui, o “agente especial” cumpriu muito bem sua função e continuou subindo os andares do edifício que ajudava a defender.

Mas havia uma arma que não funcionava conosco

E aqui está talvez a parte mais importante de nossa memória daquele período. Os procedimentos podiam nos conter, mas não nos convencer biblicamente. Podiam prevenir outros membros contra nós. Podiam fazer circular informações pessoais. Podiam interpretar nossas motivações. Podiam retirar cargos, fechar púlpitos, impedir reuniões, combater grupos, restringir materiais, trazer especialistas e finalmente aplicar disciplina. Nada disso, porém, respondia automaticamente às perguntas que haviam provocado o conflito. Desmoralizar o questionador não demonstra que sua exegese está errada. Revelar — ou alegar — problemas familiares não altera o significado de um texto bíblico. Dificuldade financeira não muda uma fonte histórica. Baixa autoestima não falsifica um documento autêntico. Frustração pessoal não transforma uma declaração de Ellen White em outra coisa. Mesmo que tudo aquilo que se dissesse sobre determinado crítico fosse verdadeiro, ainda seria necessário voltar ao começo e enfrentar a pergunta que desencadeou toda a controvérsia.

E se o crítico fosse justamente o mensageiro?

É por isso que “A Igreja e Seus Críticos”, relido tantos anos depois, adquire uma dimensão que talvez seus leitores de abril de 2005 não pudessem perceber. Depois de encontrarmos Alberto R. Timm ensinando, em outra ocasião, que Deus pode colocar alguém em nosso caminho para dizer que precisamos mudar nossa trajetória e nosso comportamento, surge uma pergunta inevitável. O que acontece quando a pessoa enviada para incomodar não chega com credenciais institucionais? E se ela parecer inconveniente, insistente, desagradável, obstinada? E se criticar dirigentes? E se reunir documentos? E se distribuir materiais? E se insistir em falar quando todos prefeririam que se calasse? Como distinguir o crítico que ameaça a Igreja do mensageiro que Deus colocou no caminho da Igreja para corrigi-la? Talvez essa seja a pergunta que nenhuma operação de contenção consiga resolver. Porque, no fim, depois da fofoca, dos perfis psicológicos, das palestras, das visitas, dos cargos retirados, dos púlpitos fechados, dos grupos desmobilizados e da disciplina aplicada, sobra aquilo que deveria ter estado no centro desde o começo: “Examinai tudo. Retende o bem.”

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