
O profeta bíblico não se candidata ao dom, não disputa a “vaga” deixada por outro profeta e não entrega suas credenciais à hierarquia antes de falar. Deus o envia, ele entrega a mensagem e vai embora, se essa for sua missão. Quem precisa parar, abrir a Bíblia e examinar alguma coisa é, antes de tudo, aquele a quem a mensagem foi dirigida.
Depois de traduzirmos integralmente para o português Heralds of New Light: Another Prophet to the Remnant?, de Roger W. Coon — Arautos de Nova Luz: Outro Profeta para o Remanescente? — uma inquietação tornou-se maior do que aquela provocada pelo próprio título do livreto. Coon procura estabelecer critérios para lidar com reivindicações modernas ao dom profético, discute evidências objetivas e subjetivas e considera pessoas que, depois de Ellen White, afirmaram receber mensagens provenientes de Deus. É um documento importante e merece ser lido integralmente.
Entretanto, quanto mais observamos a questão pela perspectiva bíblica, mais estranha nos parece a própria imagem mental de uma instituição examinando pessoas que aparecem afirmando: “Deus me enviou”. Há algo invertido nessa cena. Porque, se alguém realmente foi enviado por Deus, não chegou para disputar uma vaga, candidatar-se ao posto de profeta, submeter-se a uma banca ou aguardar que homens determinem se poderá começar a falar.
Segundo a própria natureza da reivindicação profética, Deus já escolheu, Deus já falou, Deus já enviou e a mensagem já chegou ao seu destinatário. A partir desse instante, talvez a pergunta mais urgente já não seja “Quem é você para falar?”, mas “O que faremos com aquilo que acabamos de ouvir?”.
NÃO HÁ “CANDIDATOS AO DOM PROFÉTICO”
Precisamos, portanto, abandonar desde o começo uma expressão que conduz o raciocínio para o lugar errado: “candidatos ao dom profético”. Ninguém se candidata biblicamente ao dom profético. Não existe edital divino, inscrição, prova, entrevista, concurso, lista de aprovados ou nomeação administrativa. Se determinado homem ou mulher afirma que Deus lhe entregou uma mensagem, sua reivindicação é precisamente a de que a iniciativa não partiu dele nem da Igreja. Segundo aquilo que afirma, o acontecimento decisivo já ocorreu fora do alcance da administração: Deus falou. A pessoa recebeu a mensagem e foi encarregada de transmiti-la. Poderemos concluir que ela mentiu, fantasiou, se enganou ou atribuiu a Deus aquilo que não veio de Deus. Tudo isso permanece possível e precisa ser considerado quando examinamos aquilo que foi apresentado. Mas chamar essa pessoa de “candidata ao dom profético” já altera a natureza do fenômeno, porque transforma uma alegada missão recebida diretamente de Deus numa espécie de pretensão a um cargo cuja concessão dependeria da organização religiosa.
Talvez possamos falar, com deliberada ironia, em “candidatos à vaga de Ellen White”, porque essa expressão revela muito mais sobre a percepção institucional do que sobre o profetismo bíblico. Ellen White morreu em 1915. Depois dela surgiram pessoas alegando possuir mensagens provenientes de Deus. A tendência natural de uma denominação cuja identidade histórica ficou profundamente associada a uma profetisa seria perguntar se apareceu uma sucessora. Mas a própria ideia de uma “vaga de Ellen White” precisa ser questionada. Onde está escrito que o dom profético funciona por sucessão? Onde está escrito que depois de um profeta morrer Deus precisa levantar outro com a mesma função, duração, quantidade de escritos, posição institucional e abrangência? Deus pode enviar uma pessoa para pronunciar uma mensagem específica a uma pessoa específica e nunca mais utilizá-la daquela maneira. Pode enviá-la a uma congregação, a uma administração, a uma cidade ou a uma nação. Pode mandar escrever um livro ou pronunciar cinco frases. O profeta bíblico não precisa construir uma carreira profética. Precisa entregar aquilo que Deus lhe mandou entregar.
DEUS ENVIA. O PROFETA FALA. O DESTINATÁRIO QUE SE ENTENDA COM DEUS
Quando retiramos a burocracia da frente da narrativa, o modelo bíblico chega a ser assustadoramente simples. Deus chama Jeremias e lhe diz: “A todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto te mandar falarás” (Jeremias 1:7). Deus tira Amós de detrás do gado e lhe ordena: “Vai e profetiza ao meu povo Israel” (Amós 7:15). Jonas recebe uma ordem para levantar-se, ir a Nínive e proclamar aquilo que Deus lhe disser. Natã entra diante de Davi e pronuncia a sentença terrível: “Tu és o homem”. João Batista aparece no deserto proclamando arrependimento e chamando dirigentes religiosos de “raça de víboras”. Nenhum deles aparece primeiramente interessado em estabelecer diante dos destinatários uma certificação de sua condição profética. Eles trazem uma palavra. O acontecimento central é a mensagem. Depois que a mensagem é entregue, o problema muda de endereço: quem ouviu precisa decidir o que fará diante daquilo que ouviu.
É exatamente nesse ponto que nossa leitura anterior precisava ser corrigida. Não devemos simplesmente substituir a expressão “aprovar o profeta” por “examinar o chamado do profeta”, porque ainda permaneceríamos colocando o mensageiro no centro de uma banca examinadora. A lógica continua invertida se imaginarmos o destinatário dizendo: “Primeiro vou descobrir se você é realmente profeta; se eu concluir que é, então examinarei aquilo que você veio dizer”. Não. A mensagem já chegou. Se alguém se apresenta diante de mim e declara que Deus o enviou para advertir-me acerca de determinada conduta, não preciso primeiro diplomá-lo como profeta para somente depois pensar se minha conduta precisa ser corrigida. Preciso confrontar imediatamente aquela palavra com a Escritura. O que ele disse é bíblico? A acusação corresponde aos fatos? Estou praticando aquilo de que fui acusado? A advertência conduz à obediência ou contradiz aquilo que Deus já revelou? Existe pecado a ser abandonado? Existe mentira na própria mensagem? É nesse confronto que começa o discernimento.
QUANDO CHEGA UMA PROFECIA, TALVEZ O EXAMINADO SEJA VOCÊ
Aqui aparece a inversão mais desconfortável de todas. Uma liderança pode imaginar que recebeu um homem ou uma mulher para ser examinado. Pode colocá-lo metaforicamente diante da mesa, abrir uma pasta, analisar sua personalidade, seus métodos, sua história, sua maneira de receber mensagens e perguntar: “Será que esta pessoa é profeta?”. Mas suponhamos por um instante que a mensagem realmente proceda de Deus. Nesse caso, quem está sendo examinado por quem? Natã entra no palácio e Davi possui o trono, a coroa, o exército e a autoridade política. Exteriormente, Davi poderia investigar Natã. Mas a narrativa bíblica vira a mesa quando o profeta pronuncia: “Tu és o homem”. De repente, descobrimos que o rei é que está diante do tribunal da Palavra de Deus. A questão decisiva não é se Davi concederá a Natã um certificado de profeta. É se Davi reconhecerá seu próprio pecado.
O mesmo acontece com Amós. Amazias, sacerdote de Betel, ocupa a posição institucional. Ele chega ao ponto de ordenar: “Vai-te, ó vidente, foge para a terra de Judá, e ali come o pão, e ali profetiza; mas em Betel daqui por diante não profetizes mais” (Amós 7:12-13). A resposta de Amós desmonta precisamente a lógica profissional do profetismo: “Eu não era profeta, nem filho de profeta; mas boieiro e cultivador de sicômoros. Mas o Senhor me tirou de após o gado, e o Senhor me disse: Vai e profetiza ao meu povo Israel” (versos 14-15). Amazias tenta transformar a questão numa discussão sobre onde Amós pode exercer seu ofício. Amós devolve a questão à sua origem: “O Senhor me disse: Vai.” O sacerdote pode mandá-lo embora. O que não pode fazer é apagar a mensagem já pronunciada nem transformar sua própria rejeição em prova de que Deus não falou.
“QUEM É VOCÊ PARA DIZER ISSO?” PODE SER UMA EXCELENTE FUGA
Existe, portanto, uma maneira extremamente eficiente de neutralizar uma advertência sem precisar respondê-la: deslocar toda a atenção da mensagem para o mensageiro. Ele diz: “Há pecado aqui”. Respondemos: “Quem é você?”. Ele diz: “Deus manda que vocês se arrependam”. Respondemos: “Quem reconheceu seu ministério?”. Ele apresenta uma acusação concreta. Respondemos investigando sua personalidade. Ele aponta para determinado comportamento. Respondemos perguntando qual organização lhe concedeu autoridade para apontá-lo. Evidentemente, a procedência alegadamente divina da mensagem precisa ser discernida; ninguém deve acreditar cegamente em quem pronuncia as palavras “Deus me disse”. Mas investigar o mensageiro não pode transformar-se num método para fugir daquilo que ele disse. A pergunta “Quem é você para falar?” jamais pode eliminar a pergunta “Aquilo que você falou é verdade?”.
Esse mecanismo é especialmente perigoso quando o destinatário da mensagem é também aquele que pretende assumir a função de examinador. Se a profecia denuncia uma instituição e a instituição imediatamente transforma o profeta no objeto principal da investigação, surge um evidente conflito. Talvez a mensagem seja falsa; nesse caso, a Bíblia e os fatos poderão demonstrá-lo. Mas talvez seja verdadeira. E, nesse caso, a estrutura denunciada possui um interesse natural em deslocar o debate daquilo que está sendo denunciado para a legitimidade daquele que denuncia. Em vez de examinar o pecado, examina-se o profeta. Em vez de responder à acusação, investiga-se o acusador. Em vez de perguntar “Estamos errados?”, pergunta-se “Quem autorizou você?”. A história bíblica mostra repetidamente como esse deslocamento pode tornar-se uma forma religiosa de resistência à repreensão.
NÍNIVE NÃO ABRIU UMA COMISSÃO PARA EXAMINAR JONAS
Jonas oferece um exemplo particularmente interessante porque chega a uma cidade estrangeira carregando uma mensagem brutalmente simples: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jonas 3:4). O texto não nos apresenta o rei de Nínive convocando especialistas para investigar se Jonas possuía credenciais proféticas reconhecidas em Israel. Não há comissão encarregada de descobrir se ele havia sido aprovado pelo sacerdócio, se pertencia a determinada escola de profetas, se tinha histórico emocional adequado ou se sua maneira de receber revelações estava dentro de parâmetros previamente estabelecidos. Os ninivitas ouviram a mensagem e reagiram à mensagem. “Os homens de Nínive creram em Deus” (Jonas 3:5). O texto é extraordinário: não diz primeiramente que acreditaram em Jonas. Creram em Deus. A palavra recebida produziu arrependimento, e o rei desceu do trono.
Isso não significa que todo destinatário de uma mensagem ameaçadora deva obedecer automaticamente. Significa que o relato bíblico coloca o peso narrativo sobre a resposta à palavra recebida, não sobre um processo de credenciamento do mensageiro. E o próprio caso de Jonas contém uma lição adicional sobre o perigo de transformar testes simplistas em máquinas automáticas para eliminar profetas. A mensagem anunciava a destruição de Nínive em quarenta dias. A cidade não foi destruída naquele prazo porque houve arrependimento e Deus não executou o juízo anunciado, exatamente dentro do princípio posteriormente explicitado em Jeremias 18:7-10: Deus pode anunciar juízo sobre uma nação e, diante de sua conversão, reconsiderar o mal anunciado. O próprio profeta ficou indignado com esse desfecho. Portanto, até o exame da mensagem precisa ser bíblico e inteligente, não mecânico.
O MANUAL DE AVALIAÇÃO É A BÍBLIA — MAS PARA QUEM RECEBEU A MENSAGEM
É aqui que precisamos colocar corretamente a afirmação de que o verdadeiro manual de avaliação é a Bíblia. Não estamos dizendo que a Bíblia funciona como formulário utilizado por uma comissão para conferir se determinado candidato preenche os requisitos necessários ao cargo de profeta. Estamos dizendo algo muito mais sério: aquele que recebe uma mensagem alegadamente proveniente de Deus precisa confrontá-la com aquilo que Deus já revelou. “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, jamais verão a alva” (Isaías 8:20). “Não desprezeis as profecias; julgai todas as coisas, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:20-21). “Não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus” (1 João 4:1). A Escritura impede tanto a credulidade quanto a arrogância institucional. Não devemos acreditar em qualquer voz religiosa; tampouco podemos imaginar que possuir um cargo nos transforma automaticamente em árbitros daquilo que Deus pode fazer.
Observe também a extraordinária sequência paulina: “Não apagueis o Espírito. Não desprezeis as profecias. Julgai todas as coisas, retende o que é bom”. Antes de mandar julgar, Paulo manda não desprezar. Antes de permitir o exame, adverte contra apagar. Isso produz um equilíbrio que pode desaparecer quando o fenômeno profético passa a ser tratado predominantemente como ameaça à ordem estabelecida. O destinatário precisa testar a mensagem, mas precisa testá-la admitindo realmente a possibilidade de que Deus esteja falando. Caso contrário, o “teste” torna-se apenas ritual de confirmação de uma conclusão tomada antecipadamente.
A INSTITUIÇÃO DEVERIA EXAMINAR A MENSAGEM, NÃO LICENCIAR O MENSAGEIRO
A instituição não precisa permanecer passiva diante de alguém que afirma trazer uma palavra de Deus. Muito pelo contrário. Se uma mensagem lhe foi dirigida, existe uma responsabilidade enorme sobre aqueles que a receberam. Mas essa responsabilidade não consiste primeiramente em constituir uma banca para decidir se o mensageiro merece ser reconhecido como profeta. A instituição deveria preocupar-se em avaliar cuidadosamente cada mensagem recebida. O que exatamente foi dito? A quem foi dirigido? Qual pecado, desvio, corrupção, negligência ou apostasia está sendo apontado? A acusação corresponde aos fatos? A advertência encontra respaldo nas Escrituras? Há alguma ordem contrária àquilo que Deus já revelou? Há previsão cujo cumprimento possa posteriormente ser verificado? Existe chamado ao arrependimento? Se existe, a instituição deveria ter coragem suficiente para perguntar não apenas se a mensagem é verdadeira, mas se ela própria precisa arrepender-se.
Isso muda radicalmente a posição daqueles que recebem uma alegada mensagem profética. Eles deixam de ocupar confortavelmente a cadeira dos examinadores para admitir uma possibilidade muito mais perturbadora: talvez sejam eles os examinados. Se a mensagem diz que determinada prática institucional é contrária à Palavra de Deus, não basta responder investigando quem trouxe a denúncia. É necessário investigar a prática. Se denuncia corrupção, examine a corrupção. Se denuncia abuso de autoridade, examine o exercício da autoridade. Se denuncia abandono de uma verdade bíblica, abra a Bíblia. Se denuncia enriquecimento, mentira, manipulação ou perseguição, verifique os fatos. O mensageiro pode estar completamente errado, mas isso precisa ser demonstrado pela falsidade da mensagem, por sua contradição com a Escritura ou pela inconsistência daquilo que anunciou — não simplesmente pela ausência de um certificado denominacional de profeta.
E, se depois de examinar honestamente a mensagem, a instituição descobrir que a advertência é verdadeira, a resposta bíblica não deveria ser procurar uma maneira teológica de neutralizar o mensageiro. Deveria ser muito mais simples e muito mais difícil: humilhar-se, arrepender-se, corrigir aquilo que estiver errado e fazer o que Deus mandou. É justamente para isso que uma advertência profética existe. Nínive não precisava transformar Jonas em funcionário permanente da corte para responder à sua mensagem. O rei levantou-se do trono, tirou suas vestes, cobriu-se de saco e assentou-se sobre cinza (Jonas 3:6). Davi não perguntou a Natã quais eram suas credenciais depois de ouvir “Tu és o homem”; respondeu: “Pequei contra o Senhor” (2 Samuel 12:13). Quando a mensagem acerta o alvo, a questão decisiva deixa de ser a situação do mensageiro e passa a ser a reação do destinatário.
CADA MENSAGEM PRECISA SER EXAMINADA POR SI MESMA
Isso também significa que não deveria existir uma espécie de aprovação vitalícia do mensageiro que tornasse desnecessário examinar suas mensagens posteriores. A instituição pode receber hoje uma advertência que resista ao confronto com as Escrituras e reconhecer nela uma palavra verdadeira; amanhã, se a mesma pessoa trouxer outra mensagem, essa nova mensagem deverá novamente ser examinada. O princípio vale para todos, inclusive Ellen White. Reconhecer que Deus falou por intermédio de alguém em determinada ocasião não significa transferir para essa pessoa uma infalibilidade permanente, como se toda experiência, sonho, interpretação, conselho ou declaração posterior passasse automaticamente a possuir procedência divina. O caso de Pedro permanece instrutivo: num momento Cristo reconhece que o Pai lhe revelou uma verdade; pouco depois, repreende severamente outra fala do mesmo Pedro (Mateus 16:17, 23). A segurança não está em declarar uma pessoa definitivamente aprovada. Está em permanecer debaixo da Palavra.
Essa perspectiva permite inclusive compreender de outra maneira a sucessão de pessoas que alegaram receber mensagens depois de Ellen White. Talvez a pergunta “Qual delas era a verdadeira sucessora?” seja inadequada desde o princípio. Não precisamos encontrar uma sucessora. Precisamos recuperar as mensagens, quando documentalmente possível, descobrir para quem foram dirigidas, reconstruir seu contexto e perguntar o que diziam. Uma pessoa poderia ter recebido uma mensagem verdadeira sem jamais ter sido chamada para ocupar o lugar histórico de Ellen White. Poderia entregar sua advertência e desaparecer. Outra mensagem apresentada pela mesma pessoa poderia posteriormente revelar-se problemática. O discernimento bíblico não precisa transformar seres humanos em pacotes fechados rotulados para sempre como “profeta verdadeiro” ou “profeta falso” antes de considerar aquilo que efetivamente disseram.
O PERIGO DE EXAMINAR O MENSAGEIRO PARA NÃO EXAMINAR A SI MESMO
Talvez seja justamente aqui que a burocratização do discernimento profético se torne mais perigosa. Quando a mensagem é incômoda, concentrar toda a investigação naquele que a trouxe pode tornar-se uma extraordinária estratégia de autopreservação. A denúncia desaparece atrás do dossiê do denunciante. A advertência desaparece atrás da discussão sobre o método pelo qual foi recebida. O pecado denunciado desaparece atrás da pergunta sobre a personalidade do mensageiro. E, no final, todos sabem muito sobre quem trouxe a mensagem e quase ninguém respondeu ao conteúdo dela. É possível passar meses examinando o profeta justamente para evitar cinco minutos examinando a nós mesmos.
O procedimento bíblico deveria produzir exatamente o contrário. Recebemos uma mensagem? Então examinemos a mensagem. Coloquemo-la diante da Bíblia. Verifiquemos os fatos. Investiguemos sua pertinência. E, enquanto fazemos isso, coloquemo-nos também diante da Bíblia. Se a mensagem for falsa, rejeitemo-la pelas razões corretas. Se estiver errada, demonstremos onde está o erro. Se contradisser as Escrituras, apontemos a contradição. Mas, se for verdadeira, que reste à instituição a atitude que sempre exigiu dos membros quando estes são confrontados pela Palavra de Deus: reconhecer o erro, humilhar-se, arrepender-se, reparar o que puder ser reparado e obedecer.
ROGER COON E A IMAGEM DO “OUTRO PROFETA”
É nessa perspectiva que Arautos de Nova Luz: Outro Profeta para o Remanescente? se torna um documento tão interessante. Coon procura organizar critérios, distinguir evidências objetivas (objective evidence) e subjetivas (subjective evidence), tratar de falsos profetas (false prophets), discutir nova luz (new light) e enfrentar reivindicações modernas ao dom profético (modern claims to the prophetic gift). Vale a pena acompanhar cuidadosamente sua argumentação. Nosso problema não está na existência do discernimento. Está na moldura dentro da qual o discernimento pode acabar sendo compreendido. Se começarmos imaginando que diante da denominação aparecem pessoas pleiteando reconhecimento para ocupar o espaço profético deixado por Ellen White, já construímos uma cena que talvez não corresponda ao fenômeno bíblico. Quem afirma ter sido enviado por Deus não está necessariamente pedindo emprego à Igreja.
É justamente por isso que apelidamos editorialmente o livreto, com evidente provocação, de “Manual de Avaliação de Candidatos à Vaga de Ellen White”. Não é o título de Coon e não deve ser atribuído a ele. É nossa caracterização crítica do problema que sua leitura suscita. E talvez a ironia precise ser levada ainda mais longe: não sabemos sequer se existe a tal “vaga”. Deus não precisa encontrar outra Ellen White. Não precisa substituir uma profetisa por outra com funções equivalentes. Não precisa produzir alguém que permaneça décadas na denominação, escreva livros, possua secretários, estabeleça um patrimônio literário e termine reconhecido institucionalmente. Talvez Deus envie alguém na terça-feira, mande entregar uma advertência na quarta e nunca mais lhe conceda outra mensagem profética. Onde a Bíblia proíbe isso?
PROFETA NÃO É CARGO; PROFECIA NÃO É CARREIRA
Essa distinção precisa ser recuperada porque a experiência histórica de Ellen White pode ter produzido no imaginário adventista uma associação quase automática entre dom profético e uma espécie de função permanente. Mas o modelo bíblico é muito mais variado. Existem profetas sobre os quais sabemos muito e outros que atravessam o relato quase instantaneamente. Há mensagens dirigidas a reis, povos, cidades e indivíduos. Há profetas que deixam extensa produção e outros dos quais conhecemos praticamente apenas uma intervenção. A autoridade da mensagem não é proporcional à duração da carreira do mensageiro. Deus não precisa transformar alguém numa personalidade religiosa para falar por seu intermédio.
Isso muda completamente a pergunta diante de pessoas que, depois de Ellen White, alegaram receber mensagens. Em vez de perguntar imediatamente “Esta mulher é a nova Ellen White?”, poderíamos começar com algo muito menos institucional: “O que ela disse que Deus mandou dizer?” Para quem foi dito? Qual era a acusação, advertência ou orientação? O conteúdo contradiz a Escritura? Os fatos mencionados podem ser verificados? Há previsão específica? Existe condição explícita ou implícita? Há chamado ao pecado ou ao afastamento da Palavra? Há manipulação? Há falsidade demonstrável? Ou há alguma coisa naquela mensagem que seus destinatários prefeririam não enfrentar? Essas perguntas podem revelar muito mais do que simplesmente tentar encaixar a pessoa numa categoria de sucessora aprovada ou falsa sucessora de Ellen White.
E SE O PROFETA FOR ENVIADO JUSTAMENTE PARA REPREENDER OS EXAMINADORES?
Chegamos então ao ponto mais explosivo. Grande parte do profetismo bíblico existe precisamente porque estruturas religiosas e políticas precisam ser confrontadas. Elias não foi enviado para tranquilizar Acabe. Natã não foi ao palácio para confirmar Davi. Jeremias não recebeu sua missão para melhorar a imagem pública dos sacerdotes de Jerusalém. João Batista não apareceu para tornar os fariseus confortáveis. Jesus não reservou suas denúncias mais duras apenas para pecadores externos à religião; dirigiu palavras devastadoras aos especialistas religiosos de seu próprio povo. Se aceitamos esse padrão, precisamos admitir uma possibilidade desconfortável: um profeta enviado hoje à Igreja poderia ser enviado justamente contra aqueles que se considerariam encarregados de avaliá-lo.
Imagine a contradição. Deus envia alguém para denunciar determinada corrupção da liderança. O mensageiro entrega a advertência. A liderança recebe o documento e responde: “Vamos constituir uma comissão para avaliar se você possui o dom profético”. Talvez a primeira pergunta devesse ser outra: “Aquilo de que estamos sendo acusados é verdade?” Se não é, demonstre. Se contradiz a Bíblia, demonstre. Se contém falsidade factual, demonstre. Mas não transforme automaticamente a pessoa que trouxe a mensagem no assunto principal. Caso contrário, o réu ocupa a cadeira do juiz, abre uma investigação sobre a testemunha e consegue atravessar todo o processo sem responder à acusação.
A MESMA BÍBLIA PRECISA SER APLICADA A ELLEN WHITE
Há ainda uma consequência inevitável. Se nenhuma mensagem posterior deve ser recebida simplesmente porque alguém afirmou que Deus falou, também nenhuma experiência de Ellen White deve tornar-se verdadeira simplesmente porque ocorreu com Ellen White. O princípio precisa funcionar nos dois sentidos. A Bíblia não pode ser utilizada como microscópio para examinar pessoas que apareceram depois de 1915 e guardada na gaveta quando chegamos à profetisa historicamente reconhecida pela denominação. Se determinada experiência atribuída a Ellen White concorda com as Escrituras, ótimo. Se suscita dificuldades, essas dificuldades precisam ser enfrentadas. Se determinada interpretação de uma experiência parece incompatível com a Bíblia, o fato de a experiência pertencer a Ellen White não elimina o problema.
Aqui o caso de Pedro permanece uma advertência extraordinária contra qualquer noção de inspiração automática e vitalícia. Pedro declara que Jesus é “o Cristo, o Filho do Deus vivo”, e Cristo responde: “não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai, que está nos céus” (Mateus 16:16-17). Pouco depois, o mesmo homem reage ao anúncio da morte de Jesus e ouve: “Arreda, Satanás!” (verso 23). Não precisamos concluir que Pedro nunca recebeu revelação de Deus. Jesus acabou de declarar precisamente o contrário. A conclusão muito mais simples é também muito mais perturbadora: alguém pode receber de Deus uma revelação verdadeira sem adquirir por isso uma condição permanente na qual tudo o que disser, pensar, sonhar ou interpretar dali em diante venha necessariamente de Deus.
UMA MENSAGEM VERDADEIRA NÃO CANONIZA O MENSAGEIRO
Isso significa que a unidade fundamental do discernimento precisa continuar sendo a mensagem e a experiência concreta, não uma suposta imunidade adquirida pelo mensageiro. Se Deus falou por alguém ontem, agradecemos a Deus pelo que falou ontem. Se essa pessoa apresenta nova mensagem hoje, examinamos aquilo que chegou hoje. Não porque estejamos novamente concedendo-lhe ou retirando-lhe o “cargo de profeta”, mas porque a autoridade pertence a Deus e à Sua Palavra, não à biografia do instrumento. Uma experiência genuína não transforma o receptor numa revelação ambulante. A inspiração não precisa ser concebida como propriedade permanente adquirida pelo ser humano.
Esse princípio também impede dois extremos. Não precisamos declarar falso tudo o que determinada pessoa disse porque encontramos uma experiência problemática; tampouco precisamos declarar divino tudo o que ela experimentou porque reconhecemos anteriormente uma mensagem verdadeira. Pedro impede as duas simplificações. Num momento, revelação do Pai; em outro, uma fala violentamente repreendida por Cristo. A segurança não está na infalibilidade permanente do mensageiro. A segurança está em permanecer examinando tudo pela revelação bíblica.
QUEM, AFINAL, ESTÁ SOB JULGAMENTO?
Voltamos assim à pergunta que talvez devesse acompanhar cada página de qualquer “manual” destinado a lidar com novas manifestações proféticas: quem está sob julgamento? A mensagem certamente está. Precisa ser confrontada com a Escritura. Mas o destinatário também está. Sua disposição para ouvir está sendo testada. Sua honestidade diante da acusação está sendo testada. Sua fidelidade à Bíblia está sendo testada. Sua capacidade de admitir que Deus poderia escolher alguém fora de seus mecanismos de controle está sendo testada. Até sua reação ao mensageiro pode revelar alguma coisa. E os próprios examinadores estão sob julgamento, porque também são seres humanos sujeitos a interesses, preconceitos, medo institucional, desejo de autopreservação e erros de interpretação.
Por isso, talvez a imagem de uma mesa com o “candidato a profeta” sentado de um lado e os especialistas adventistas do outro esteja completamente invertida. Se a mensagem for falsa, a Bíblia deverá desmascará-la. Mas, se for verdadeira, talvez seja a mesa inteira que esteja sendo examinada por Deus. Talvez aquele homem ou aquela mulher tenha entrado na sala não para ser avaliado, mas para entregar a avaliação divina sobre quem está sentado do outro lado. Terminada a mensagem, poderá pegar seu chapéu, abrir a porta e ir embora. Não precisa aguardar o resultado da comissão. Sua tarefa pode ter terminado exatamente ali.
PROFETA BOM É PROFETA MORTO?
Há uma ironia histórica difícil de evitar. O profeta morto é muito mais confortável para uma instituição do que o profeta vivo. O morto pode ser publicado, compilado, selecionado, interpretado, citado em sermões, colocado em museus e transformado em patrimônio denominacional. Não aparece amanhã trazendo uma repreensão nova. Não acusa dirigentes atuais. Não contesta decisões presentes. Não interrompe reuniões administrativas com um “Assim diz o Senhor”. Jesus denunciou a contradição daqueles que edificavam sepulcros aos profetas e ornamentavam os monumentos dos justos enquanto pertenciam à tradição dos que haviam resistido aos mensageiros quando estes estavam vivos (Mateus 23:29-31). Parafraseando a linguagem brutal dos antigos programas policiais, surge uma provocação incômoda: para determinadas estruturas religiosas, profeta bom corre sempre o risco de ser profeta morto.
Isso não significa, evidentemente, que todo rebelde seja profeta, que todo crítico tenha sido enviado por Deus ou que toda pessoa rejeitada pela administração esteja correta. Ser perseguido não autentica ninguém. Ser excêntrico não autentica ninguém. Ser inconveniente não autentica ninguém. Da mesma forma, possuir boa reputação, formação acadêmica, equilíbrio emocional aparente, cargo religioso ou aprovação denominacional também não autentica mensagem alguma. Voltamos sempre à Palavra. É justamente porque não podemos identificar inspiração pela aparência social do mensageiro que a Escritura permanece indispensável.
LEIA COON, MAS PRESTE ATENÇÃO EM QUEM ESTÁ SENDO AVALIADO
É assim que sugerimos a leitura da tradução de Arautos de Nova Luz: Outro Profeta para o Remanescente?. Leia Roger W. Coon integralmente. Não precisamos caricaturá-lo nem esconder seus argumentos. Observe como ele constrói seus critérios, como trabalha com evidências objetivas e subjetivas e como trata as reivindicações proféticas posteriores a Ellen White. Mas, durante a leitura, experimente inverter constantemente a perspectiva: e se a pergunta principal não for “Este mensageiro merece nossa aprovação?”, mas “O que a mensagem entregue exigia de seus destinatários?” Quem recebeu a advertência? O que estava sendo denunciado? Como respondeu? A mensagem foi confrontada seriamente com as Escrituras ou a discussão migrou rapidamente para as características daquele que a trouxe?
Depois faça o mesmo com Ellen White. Faça o mesmo com Coon. Faça o mesmo com os dirigentes que avaliaram outros mensageiros. Faça o mesmo conosco. Não existe razão bíblica para criar uma classe de examinadores que esteja acima do próprio exame. A Bíblia não é propriedade da comissão; é também o padrão pelo qual a comissão será julgada. O destinatário não recebe uma mensagem profética para decidir soberanamente se autorizará Deus a ter falado. Recebe-a e passa a carregar a responsabilidade de responder corretamente diante daquilo que ouviu.
DEUS NÃO PRECISA QUE A IGREJA APROVE SEUS PROFETAS
No fim, talvez toda a questão possa ser reduzida a uma distinção elementar que a institucionalização religiosa tende a complicar. Deus não precisa que a Igreja aprove o profeta; a Igreja precisa preocupar-se em não reprovar aquilo que Deus lhe mandou dizer. Se a mensagem é falsa, a Escritura deve prevalecer contra ela. Se a mensagem é verdadeira, a Escritura deve prevalecer contra nós. Não existe terceira alternativa na qual uma decisão administrativa se torne autoridade superior tanto ao mensageiro quanto à mensagem.
Por isso, diante de qualquer pessoa que apareça afirmando “Deus mandou dizer isto à Igreja”, talvez a primeira pergunta não devesse ser: “Você é profeta?” Muito menos: “Quem reconheceu você como profeta?” A pergunta urgente é: “O que Deus supostamente mandou dizer?” Depois disso, Bíblia aberta, fatos sobre a mesa e disposição real para obedecer. Se a mensagem não resiste ao exame, rejeite-a. Se resiste, não procure uma saída administrativa. Se aponta pecado, abandone o pecado. Se exige reparação, repare. Se chama ao arrependimento, arrependa-se. Se manda corrigir o rumo, corrija-o.
O mensageiro não precisa sair da sala levando um certificado de profeta. Talvez precise apenas sair tendo entregado a mensagem. Quem fica na sala é que terá de decidir o que fará diante de Deus.





