Tradução em português do Manual de Avaliação de Candidatos a Profeta na IASD






NOTA EDITORIAL — A tradução abaixo foi preparada diretamente a partir do fac-símile de Heralds of New Light: Another Prophet to the Remnant?, de Roger W. Coon, publicado em 1987 pela Pacific Press Publishing Association. Optamos deliberadamente por uma tradução documental, tão literal quanto a língua portuguesa permite, e não por uma adaptação, resumo ou paráfrase. Foram preservados o título, os subtítulos, a ordem dos parágrafos, a sequência argumentativa, as citações, os destaques tipográficos identificáveis no original, as notas e as referências. Expressões particularmente relevantes para a discussão, como “nova luz” (new light), “falsos profetas” (false prophets), “evidência objetiva” (objective evidence) e “reivindicações modernas ao dom profético” (modern claims to the prophetic gift), têm o original inglês conservado entre parênteses na primeira ocorrência significativa. A presente tradução não procura interpretar, corrigir, defender ou contestar Roger W. Coon. Seu objetivo é permitir ao leitor de língua portuguesa saber, com a máxima proximidade documental possível, aquilo que o autor efetivamente publicou em 1987. As formulações, argumentos, avaliações históricas e conclusões pertencem ao autor. Para estudo crítico e citação acadêmica, recomenda-se sempre a conferência com o fac-símile original.






ARAUTOS DE NOVA LUZ

Outro Profeta para o Remanescente?

Roger W. Coon

Questões Contemporâneas em Orientação Profética

Pacific Press Publishing Association
Boise, Idaho
Oshawa, Ontário, Canadá






SOBRE O AUTOR

O Dr. Roger W. Coon é secretário associado do Ellen G. White Estate. Durante os últimos trinta e nove anos, ele serviu à Igreja Adventista do Sétimo Dia como pregador, pastor, evangelista, capelão hospitalar, professor de faculdade e seminário, diretor de relações públicas, locutor de rádio, missionário estrangeiro, escritor e administrador. Sua esposa, a ex-Irene Strom, é contadora pública certificada. Os Coon têm dois filhos, Donald, técnico em eletrônica, e Susan, enfermeira registrada.






SOBRE O LIVRO

Deus algum dia enviará outro profeta à Igreja Adventista do Sétimo Dia? Essa pergunta vinha sendo levantada com frequência crescente à medida que a vida de Ellen White chegava ao fim, e algumas pessoas ainda se perguntam. O Dr. Coon responde a essa pergunta a partir da Bíblia, não nos dizendo se Deus algum dia enviará outro profeta — somente Deus sabe isso —, mas explicando como reconhecer um verdadeiro profeta e como identificar uma fraude. Ele também conta a história de três pessoas na história da igreja que reivindicaram o dom profético, mas cujo ministério não correspondeu às diretrizes estabelecidas nas Escrituras.

ISBN 0-8163-0739-3

Editado por Marvin Moore
Projeto gráfico de Tim Larson
Composto em 10/12 Century Schoolbook

O autor assume plena responsabilidade pela exatidão de todos os fatos e citações mencionados neste livro.

Copyright © 1987 por Pacific Press Publishing Association
Impresso nos Estados Unidos da América
Todos os direitos reservados






ARAUTOS DE NOVA LUZ

Muitos adventistas do sétimo dia que se levantaram na manhã de sábado, 17 de julho de 1915, sentiram uma inquietação pressaga ao se prepararem para adorar em suas igrejas. Pois, às 3h40 da tarde anterior, sua profetisa, Ellen G. White, havia morrido em St. Helena, Califórnia, aos oitenta e sete anos de idade. Pela primeira vez em sua história, os adventistas não tinham entre eles um profeta vivo. O que isso significaria para eles como povo?

Setenta anos antes, essa mulher havia sido chamada ao ministério profético em um dia desconhecido de dezembro de 1844, tendo apenas dezessete anos de idade — seu aniversário fora em 26 de novembro — e poucas semanas depois do “Grande Desapontamento” que se seguiu ao fracasso da volta de Cristo à Terra em 22 de outubro, conforme predito por William Miller e seus seguidores.

Um punhado de ex-mileritas, aceitando a genuinidade do dom e do chamado de Ellen, bem como a observância do sábado do sétimo dia, reuniu-se em torno da liderança da Sra. White, de seu marido, Tiago — um ex-pregador milerita —, e de Joseph Bates — um capitão de mar aposentado. Dezesseis anos depois, em 1860, eles contavam com cerca de 3.500 membros batizados enquanto organizavam formalmente sua Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Nos setenta anos seguintes, Ellen recebeu cerca de 2.000 sonhos e visões proféticos, e 25 milhões de palavras fluíram de sua pena em dezenas de livros e milhares de artigos em periódicos — sem mencionar uma correspondência privada incrivelmente volumosa. Por ocasião de sua morte, a igreja mundial que resultara de sua liderança contava com mais de 130.000 membros na América do Norte e do Sul, Europa, África, Ásia e nas ilhas do mar.

E agora ela havia partido! Não surgira outro profeta na igreja durante sua vida, embora alguns tivessem aparecido fazendo tais reivindicações. Deus chamaria agora um novo? Essas perguntas estavam nos lábios de todos enquanto a igreja ponderava seu futuro.

Por mais preocupantes que fossem, entretanto, as perguntas não eram novas. Durante a última década de seu ministério, a Sra. White foi repetidamente questionada sobre a possibilidade de um sucessor, caso sua vida não fosse poupada para ver a volta de Jesus.

Invariavelmente, ela respondia com uma resposta em duas partes: (1) o Senhor não me revelou se haverá ou não outro profeta; mas (2) “quer minha vida seja poupada ou não, meus escritos falarão constantemente, e sua obra prosseguirá enquanto durar o tempo”.1

O Senhor lhe revelara que aquilo que ela já havia escrito era suficiente para conduzir triunfantemente a igreja até a segunda vinda.

O SURGIMENTO DOS FALSOS PROFETAS

Mas, se Ellen White não tinha luz sobre a questão de um possível sucessor profético, ela não tinha dúvida alguma quanto a se surgiriam falsos profetas (false prophets).

Ela declarou enfaticamente que muitos falsos profetas surgiriam,2 e que muitas pessoas seriam enganadas por eles.3 Ela também disse que o número deles continuaria aumentando em todo o mundo;4 muitos pretendentes seriam genuinamente sinceros, embora desencaminhados — nem todos seriam farsantes ou fraudadores —,5 e, dentre esses, alguns chegariam até mesmo a produzir manifestações sobrenaturais em apoio de suas reivindicações.6 Ela advertiu especificamente:

“Que ninguém alimente a ideia de que providências especiais ou manifestações miraculosas devam constituir a prova da genuinidade de sua obra ou das ideias que defendem. Se mantivermos essas coisas diante das pessoas, elas produzirão um efeito maligno e uma emoção doentia. […] Satanás trabalhará da maneira mais sutil para introduzir invenções humanas revestidas de vestes angelicais. Mas […] a Bíblia jamais será substituída por manifestações miraculosas.”7

A Sra. White enfatizou especialmente cinco resultados para a igreja decorrentes dessas falsas manifestações proféticas: (1) engano;8 (2) confusão;9 (3) rebelião10 — “Rebelião e apostasia estão no próprio ar que respiramos.” “Questiono se uma rebelião genuína jamais é curável.”11 —; (4) heresias doutrinárias;12 e (5) descrédito dos legítimos dons proféticos.13

Ellen White manifestou-se decididamente a respeito da obrigação da igreja de testar aqueles que reivindicam ser profetas14 e as ideias que defendem.15

TESTANDO AQUELES QUE REIVINDICAM O DOM PROFÉTICO

Olhando para o futuro, a Sra. White escreveu em 1890:

“Haverá aqueles que alegarão ter visões. Quando Deus lhes der evidência clara de que a visão procede dEle, vocês poderão aceitá-la, mas não a aceitem com base em nenhuma outra evidência; pois as pessoas serão cada vez mais desencaminhadas em países estrangeiros e na América. O Senhor deseja que Seu povo aja como homens e mulheres sensatos.”16

Esse conselho, embora oportuno, não é novo, pois meramente ecoa a admoestação do Novo Testamento de que não devemos aceitar pelo valor de face — crédula e acriticamente — todo aquele que aparece fazendo tais reivindicações.

Lucas declarou que os cristãos bereanos eram “mais nobres” do que seus correspondentes em Tessalônica, porque os primeiros não aceitavam tacitamente nem mesmo os ensinamentos de Paulo — que possuía os dois mais elevados dons do Espírito Santo: apostolado e profecia; ver 1 Coríntios 12:28. Em vez disso, insistiam em verificar primeiro todas as coisas, validando a doutrina de Paulo por sua Bíblia, as Escrituras do Antigo Testamento.

Embora os bereanos fossem genuinamente de mente aberta — “receberam a palavra com toda prontidão de espírito” —, eles, não obstante, “examinavam diariamente as Escrituras para ver se essas coisas eram assim”. Atos 17:11. Paulo sem dúvida teria estado entre os primeiros a elogiá-los. Talvez seja significativo que, enquanto não existe hoje nenhuma Epístola aos Bereanos, existam duas epístolas aos Tessalonicenses.

Muitos estudiosos da Bíblia acreditam que 1 Tessalonicenses estava entre os primeiros — se não o primeiro — livros do Novo Testamento a serem escritos. Alguns o datam de menos de vinte anos depois da ressurreição de Cristo e quinze anos antes de o Evangelho de Marcos ser escrito.17 A epístola conhecida hoje como 1 João — um dos últimos livros do Novo Testamento a ser produzido — foi escrita quarenta a cinquenta anos depois.18 E, do primeiro ao último, percorre um tema comum: qualquer pessoa que surja dentro da comunidade cristã reivindicando o dom profético precisa submeter-se ao teste daquela comunidade.

Disse Paulo: Não extingam o Espírito Santo — negligenciando ou desonrando qualquer de Seus dons —; não desprezem a profecia — um dos mais importantes deles —; mas, em vez disso, “provai todas as coisas”. Ver 1 Tessalonicenses 5:19-21. Sempre que aquilo que é assim testado se mostrar genuíno e valioso, apeguem-se a isso!

Meio século depois, João concordou: Amado amigo cristão, não creia crédula e acriticamente e aceite cada “espírito” que aparece. Por quê? “Porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo.” 1 João 4:1. Além do genuíno Espírito Santo, Satanás, aquele grande espírito profano, está em ação. Ambos podem — e realizam — milagres. Fenômenos sobrenaturais dificilmente podem constituir um teste confiável de validade. Portanto, “provai” os espíritos — convoquem uma investigação, levem-nos a julgamento. E apresentem as evidências. Então — e somente então — decidam.

Observe o que disseram os profetas:

João: “Provai os espíritos.” 1 João 4:1.
Paulo: “Provai todas as coisas.” 1 Tessalonicenses 5:21.
Ellen White: Exijam “evidência clara”.

Pode-se, portanto, perguntar logicamente neste ponto: o que constitui “evidência clara”? Se, como a Sra. White declarou solenemente, falsos profetas trariam “mais perigo para Seus [de Deus] discípulos do que a perseguição”,19 como eles podem ser detectados? E como seus ensinamentos podem ser validados ou autenticados?

COMO NÃO TESTAR UM PROFETA

Precisamos ser muito cuidadosos para usar boa evidência, e não má, no “teste” ou “julgamento” de um profeta solicitado por Paulo, João e Ellen White. Há dois tipos básicos de evidência disponíveis ao cristão: (1) aquilo que ele vê, ouve e sente no mundo ao seu redor e (2) a Palavra escrita de Deus.

A evidência objetiva costuma ser considerada aquela que faz seu apelo primário aos cinco sentidos, especialmente aos olhos e aos ouvidos. Para muitos, “ver é crer”. Mas isso é extremamente perigoso quando se trata de assuntos espirituais. Para a pessoa que procura avaliar questões espirituais, a Palavra de Deus precisa ter precedência sobre a evidência “objetiva” (objective evidence) no mundo ao seu redor — a ponto de Ellen White, falando dos milagres “objetivos” que Satanás realizará nos últimos dias, certa vez perguntar: “Está o povo de Deus agora tão firmemente estabelecido sobre Sua palavra que não cederia à evidência de seus sentidos?”20

Foi exatamente contra semelhante evidência “objetiva” que Jesus advertiu Seus discípulos quando, apenas algumas horas antes de Sua crucificação, eles Lhe pediram sinais de Sua segunda vinda. Quatro vezes, no capítulo vinte e quatro de Mateus, Ele empregou as palavras enganar ou enganado no contexto da identificação dos falsos cristos e falsos profetas do tempo do fim. Versículos 4, 5, 11 e 24. E Ele observou incisivamente que esses enganadores procurariam ganhar sua causa oferecendo evidência “objetiva”: “grandes sinais e prodígios”. Versículo 24.

Ellen White ilustra o uso errado da evidência objetiva num relato extraordinariamente impressionante, de duas páginas, de um acontecimento ainda futuro: “o ato culminante no grande drama do engano”, a tentativa de falsificação da segunda vinda de Jesus Cristo.21 Essa falsificação apelará especialmente aos olhos e aos ouvidos.

Evidência que apela aos olhos. Satanás, a quem Paulo, anos atrás, caracterizou como “um anjo de luz” — ver 2 Coríntios 11:14 —, aparecerá “em diferentes partes da Terra” como “um ser majestoso de brilho deslumbrante”,22 fazendo lembrar fortemente a descrição de João do Cristo ressuscitado que o visitou na ilha de Patmos. Ver Apocalipse 1:13-15. A aura de glória que envolve esse pseudo-Cristo será “insuperável por qualquer coisa que olhos mortais já tenham contemplado”. Os espectadores o verão erguendo as mãos e pronunciando uma bênção sobre eles da maneira como Cristo fazia enquanto esteve na Terra. E então ele “cura as doenças do povo”.23 Isso quanto à evidência “objetiva” que apela aos olhos.

Evidência que apela aos ouvidos. “Sua voz é suave e submissa, porém cheia de melodia.” Ele fala, em “tons suaves e compassivos”, palavras pronunciadas por Cristo quando esteve na Terra e registradas nas Escrituras.24 Isso quanto à evidência “objetiva” que apela aos ouvidos.

Então, em seu disfarce assumido, Satanás afirma que realmente mudou o sábado para o domingo. Talvez essa mudança não tenha sido tão bem documentada nas Escrituras quanto poderia ter sido — mas quem se importa agora? “Cristo” está aqui, raciocinam as pessoas, e o Senhor vivo certamente pode substituir a Palavra escrita, não pode? Satanás ordena a todos que honrem o primeiro dia da semana, e qualquer pessoa que persista em apegar-se ao sábado do sétimo dia — agora que “um maior que o templo” está aqui; ver Mateus 12:6 — é acusada de blasfemar Seu nome!

Quão eficaz será toda essa evidência “objetiva”? “Esta é a forte, quase irresistível ilusão.”25

Agora, diga-se claramente que existe lugar para evidência objetiva em assuntos espirituais, como os fenômenos físicos associados a um profeta em visão: perda da força normal — Daniel 10:8, 17 —, inconsciência do ambiente imediato — Daniel 10:9; 2 Coríntios 12:1, 2 —, cessação da respiração — Daniel 10:17 —, olhos abertos, porém em estado semelhante a transe — Números 24:3, 4, 16 —, recepção de força sobrenatural — Daniel 10:18, 19 — e capacidade de falar em voz alta enquanto em visão, sob determinadas circunstâncias — Daniel 10:15, 16.

Ellen White de fato demonstrava essas características em visão: falava sem respirar e segurava uma Bíblia grande e pesada acima da cabeça durante um período prolongado de tempo em mais de uma de suas primeiras visões. Esses sinais eram impressionantes — como Deus sem dúvida pretendia que fossem.

Mas a igreja sustentava então, como continua sustentando hoje, que essas coisas constituíam evidência, não prova. Eram evidência de que uma agência sobrenatural estava em ação, mas não prova de qual poder estava em ação, se o Espírito Santo de Deus ou aquele grande espírito profano, Satanás. Os fenômenos em si mesmos não validavam sua origem. A autenticidade de Ellen White como verdadeira profetisa tinha de ser determinada por evidência bíblica.

Não surpreende absolutamente que, depois de descrever o deslumbrante conjunto de evidências aparentemente objetivas que Satanás empregará em sua falsificação da segunda vinda, Ellen White assinale imediatamente que essa grande exibição, quando submetida à evidência da Palavra, mostra-se espúria por duas razões. Primeiro, “os ensinamentos desse falso cristo não estão de acordo com as Escrituras”26 — ele pronuncia uma bênção sobre aqueles que possuem a marca da besta; afirma que o domingo é sagrado e que o sábado não é. Segundo, Satanás não tem permissão para falsificar a maneira da segunda vinda. A Escritura ensina que Cristo virá “com nuvens” — Apocalipse 1:7 — e que, em Sua volta, aqueles que são salvos serão “arrebatados […] entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares” — 1 Tessalonicenses 4:17. Assim, os fenômenos “objetivos” da falsificação satânica da segunda vinda, quando testados pela Palavra objetiva de Deus, demonstram ser espúrios.

Imediatamente depois de apresentar esses fortes argumentos, Ellen White diz com grande vigor:

“Somente aqueles que têm sido diligentes estudantes das Escrituras e que receberam o amor da verdade serão protegidos do poderoso engano [fenômenos subjetivos] que leva o mundo cativo. Pelo testemunho da Bíblia [evidência objetiva], estes detectarão o enganador em seu disfarce. A todos virá o tempo de prova. […] Está o povo de Deus agora tão firmemente estabelecido sobre Sua palavra que não cederia à evidência [subjetiva] de seus sentidos? Apegar-se-ia, em semelhante crise, à Bíblia e à Bíblia somente?”27

QUATRO TESTES BÍBLICOS DE UM VERDADEIRO PROFETA

Quando Ellen White pediu “evidência clara” para testar aqueles que, em nosso tempo, reivindicam ter sonhos e visões provenientes do Senhor, sem dúvida tinha em mente quatro testes objetivos primários de autenticidade apresentados nas Escrituras: (1) concordância com revelação anterior; (2) os “frutos” da vida do profeta; (3) o cumprimento das predições do profeta; e (4) a avaliação que o profeta faz de Jesus Cristo. Examinaremos agora cada um desses testes com maior cuidado.

CONCORDÂNCIA COM REVELAÇÃO ANTERIOR

Os ensinamentos do novo profeta não devem contradizer aquilo que foi ensinado por profetas anteriores estabelecidos. Cada profeta sucessivo precisa concordar com os ensinamentos cumulativos dos profetas que o precederam. Entretanto, há aqui uma distinção importante que precisa ser feita: existe diferença entre “nova luz” (new light) e contradição com a “velha luz”. Nova luz é informação que vai além daquilo que foi fornecido pelos profetas anteriores, mas não o contradiz.

Há vários anos, um estudante de uma faculdade adventista que servia como missionário-estudante na Indonésia desencantou-se com Ellen White e seus escritos. Por fim, deixou a igreja. Num manifesto intitulado Here I Stand, que enviou a seus antigos associados no Sudeste Asiático, o jovem citou como uma de suas razões para abandonar Ellen White o fato de ela ensinar coisas que não estão na Bíblia.

É claro que ela ensina! Os escritores do Novo Testamento fornecem informações que não são encontradas no Antigo. Esse jovem deixou de reconhecer a significativa diferença entre ensinamentos extrabíblicos — informações que não se encontram explicitamente nas Escrituras — e ensinamentos antibíblicos — aqueles que são contrários ao que é ensinado nas Escrituras.

Um exame cuidadoso dos escritos de Ellen White sobre o assunto da “nova luz” sugere dois pontos dignos de nota: (1) “nova luz” continuará chegando ao povo de Deus que estiver disposto a estudar e pesquisar em busca da verdade; e (2) nova luz jamais discorda da velha luz. Se um novo profeta nunca nos desse coisa alguma além daquilo que já havia sido revelado, então ele simplesmente estaria reafirmando velhas verdades, e um não profeta poderia fazer isso igualmente bem.

Que seja dito em alto e bom som que várias das ideias que têm circulado pelo adventismo durante aproximadamente a última meia dúzia de anos, altamente promovidas como “nova luz”, não são “novas” — já foram expressas por outros ao longo dos anos — nem são “luz” — a menos que, tragicamente, se trate de luz que se transformou em trevas. Ver Mateus 6:23.

Ellen White fornece em seus escritos uma riqueza de esclarecedor material extrabíblico. Ele não discorda nem contradiz aquilo que a Bíblia ensina, mas vai além. E, ao ir além, ilumina e amplia nossa compreensão daquilo que a Bíblia diz. Por exemplo, em quatro versículos muito breves das Escrituras — Mateus 27:51-53; Efésios 4:8 — encontramos oito fatos que identificam as pessoas que Jesus ressuscitou à vida depois de Sua própria ressurreição. Um exame cuidadoso de aproximadamente meia dúzia de passagens relevantes nos escritos de Ellen White revela dez fatos adicionais, nenhum dos quais contradiz as Escrituras, mas todos ampliam nossa compreensão de quem realmente eram essas pessoas interessantes.

De fato, quando a Sra. White revisou alguns de seus livros para apresentação ao público em geral, ela eliminou certos detalhes extrabíblicos para que o leitor não fosse distraído ao encontrar material desconhecido associado à narrativa bíblica.

Marian Davis, chefe das assistentes literárias da Sra. White, escreveu sobre isso a Edson White em 1895:

“Visto que esses livros são enviados sem explicação quanto à autoridade pela qual o autor fala, julgou-se melhor evitar, tanto quanto pudéssemos, declarações para as quais a Bíblia parece não fornecer prova, ou que, para o leitor comum, parecem contradizer a Bíblia. É melhor dar ao leitor aquilo que ele aceitará e de que tirará proveito do que despertar crítica e questionamentos que o levarão a desacreditar o todo. […] A irmã White diz que Cristo foi coroado duas vezes com espinhos, mas, como a Bíblia menciona apenas a segunda coroação, julgou-se melhor omitir a primeira, ou melhor, dar a segunda em lugar da primeira.”28

Pela mesma razão, muitas declarações tais como “Eu vi”, “o anjo disse” etc., que indicam que certas informações foram fornecidas em visão, foram eliminadas de obras preparadas para um público mais amplo, pela mesma razão: evitar distração e controvérsia desnecessárias.

Isaías nos ensinou como distinguir entre verdadeira “nova luz” e aquilo que é mera falsificação. “À lei e ao testemunho”, disse ele; “se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.” Isaías 8:20.

Os hebreus dividiam o Antigo Testamento em três divisões: (1) a Lei — os primeiros cinco livros de Moisés —; (2) os Profetas — o “testemunho” —; e (3) os escritos sagrados. Isaías queria dizer que, se um novo profeta ensina algo que discorda dos profetas antigos e estabelecidos, isso não é nova luz; na verdade, não é luz alguma.

Jesus acrescentou o pós-escrito final quando disse a Nicodemos que a condenação definitiva não era que os homens estivessem em trevas morais e espirituais. A condenação era, antes, que, quando chegou a luz genuína, os homens escolheram permanecer nas trevas em vez de seguir a luz para a verdade e a salvação. Ver João 3:19-21.

FRUTOS DA VIDA DO PROFETA

Um segundo teste bíblico de um profeta é o testemunho de sua vida. Duas vezes, em Seu Sermão do Monte, Jesus disse: “Pelos seus frutos os conhecereis.” Mateus 7:20; ver versículo 16.

Esse teste se aplica de duas maneiras: (1) na própria vida do profeta e (2) na vida daqueles que o seguem. Ambas são áreas legítimas de investigação, e ambas são necessárias.

Há, entretanto, uma armadilha na qual o incauto “inspetor de frutos” pode cair: ele pode procurar perfeição sem pecado, seja na vida do profeta, seja na vida daqueles que o seguem. A verdade é que aqueles que procuram perfeição num profeta não a encontrarão, pois “todos pecaram”. Romanos 3:23. Todos os profetas nos tempos bíblicos eram pecadores — alguns deles, como Davi, com pecados bastante escabrosos. O único Profeta que jamais pecou foi Jesus de Nazaré. Todos os demais pecaram repetidamente, inclusive Ellen White — fato que ela frequentemente afirmava.

Se isso é verdade, como pode o fruto da vida de um profeta constituir um teste de sua autenticidade? Ellen White fornece a chave numa declaração frequentemente citada em seu clássico livro sobre a vida cristã, Steps to Christ [Caminho a Cristo]: “O caráter [que é o fruto da vida de uma pessoa] é revelado, não por ocasionais boas ações e ocasionais más ações, mas pela tendência das palavras e atos habituais.”29

É a tendência da vida, a direção para a qual alguém está indo, que precisamos medir pelo fruto da vida de um profeta. Todas as pessoas boas ocasionalmente fazem coisas ruins, e todas as pessoas ruins ocasionalmente fazem coisas boas. Toda vida possui uma tendência — pensamento muito solene quando você começa a refletir sobre isso. Minha vida possui uma tendência. A sua também. Qual é a natureza dessa tendência? É essa tendência da vida que o teste dos “frutos” procura medir.

PREDIÇÕES CUMPRIDAS

Um terceiro teste bíblico da genuinidade de um profeta é declarado duas vezes no Antigo Testamento. Jeremias o formula a partir de uma perspectiva positiva: “O profeta que profetiza paz, quando se cumprir a palavra do profeta, será conhecido como aquele que verdadeiramente o Senhor enviou.” Jeremias 28:9. Moisés formulou esse teste a partir de uma perspectiva negativa: “Quando o profeta falar em nome do Senhor, se a coisa não acontecer nem se cumprir, essa é a coisa que o Senhor não falou, mas o profeta a falou presunçosamente; não terás medo dele.” Deuteronômio 18:22.

Jeremias e Moisés querem dizer, ambos, que as predições de um verdadeiro profeta se cumprirão. De modo geral.

Mas — e isso é absolutamente crucial para a compreensão deste teste bíblico — o elemento da condicionalidade precisa ser considerado em conexão com este teste. E é interessante notar que não apenas Jeremias e Moisés introduzem a questão da condicionalidade, como ambos a introduzem antes de definirem o teste do cumprimento!

Jeremias apresenta seu teste de cumprimento em Jeremias 28:9, mas introduz a questão da condicionalidade dez capítulos inteiros antes. Ver capítulos 18:6-10; 26:2-6. Moisés prescreve o teste do cumprimento em Deuteronômio 18:22; mas discute a condicionalidade já em Deuteronômio 8:19. Ver também capítulo 28:1, 2, 13-15.30

Um dos melhores exemplos bíblicos de condicionalidade afetando o cumprimento da predição de um profeta é a experiência de Jonas no Antigo Testamento. É particularmente significativo que Jonas não tenha declarado o elemento condicional em parte alguma de suas mensagens orais e públicas; no entanto, os acontecimentos posteriores na história tornam esse ponto bastante claro. E, apesar do aparente fracasso da profecia de Jonas, Jesus o considerou um profeta genuíno — ver Mateus 12:39; Lucas 11:29 —, e assim podemos considerá-lo também.

Um outro fator precisa ser considerado quando avaliamos o cumprimento das predições de um profeta: Satanás possui a capacidade de fazer predições limitadas a respeito do futuro que, de fato, chegam a acontecer! Satanás possui certo grau de controle sobre os assuntos e até sobre os corpos de homens e mulheres justos. Quando Deus estabeleceu as regras básicas para o teste de Satanás da fidelidade de Jó, Ele disse: “Eis que tudo quanto ele tem está em teu poder; somente contra ele não estendas a tua mão”, para tirar-lhe a vida. Jó 1:12. Satanás foi capaz de atormentar Jó com feridas dolorosas, mas estava limitado pelo fato de que não podia tirar a vida de Jó.

Em outro exemplo trágico, o rei Saul afastou-se tanto de Deus que Satanás tinha controle total sobre ele e pôde predizer sua morte com vinte e quatro horas de antecedência. Ver 1 Samuel 28:19.

Na década de 1880, havia uma jovem em Battle Creek chamada Anna Garmire que afirmava possuir o dom de sonhos e visões proféticos. A influência forte e dominadora de seu pai foi um fator significativo em sua experiência. Escrevendo ao Sr. J. M. Garmire, Ellen White falou três vezes de casos nos quais pessoas cujas visões eram inspiradas por Satanás predisseram acontecimentos que posteriormente se cumpriram.

“Durante os últimos quarenta e cinco anos [1845-90], tenho encontrado pessoas que alegam possuir da parte de Deus mensagens de reprovação para outros. Essa fase de fanatismo religioso tem surgido repetidas vezes desde 1844. Satanás tem trabalhado de muitas maneiras para estabelecer o erro. Algumas coisas ditas nessas visões se cumpriram; mas muitas coisas […] demonstraram-se inteiramente falsas, como suas profecias e as de Anna. Contudo, procuravam desculpar os erros torcendo as declarações e dando-lhes outro significado, e prosseguiam da mesma maneira, enganando e sendo enganados.”31

Novamente:

“Em certo lugar, quatro pessoas de uma família professavam receber comunicações do Senhor, reprovando o erro, e prediziam coisas que realmente aconteceram. Isso inspirou confiança nelas. Mas as coisas que não aconteceram eram mantidas no escuro, ou tratadas como algo misterioso que seria compreendido mais tarde. De onde essas pessoas receberam sua inspiração? — De agentes satânicos, dos quais existem muitos.”32

E, finalmente, referindo-se a uma experiência mais recente, a Sra. White acrescentou:

“Tudo isso era uma farsa, um engano. Contudo, muitas coisas que disseram aconteceram como haviam predito.33

Ellen White então prosseguiu respondendo à pergunta esperada:

“Perguntaram-me como isso poderia acontecer se todas as visões eram falsas. Eu lhes disse que era propósito de Satanás misturar verdade com erro, para que, por meio desses exercícios enganosos, pudesse tornar sem efeito a genuína obra de Deus.”34

Levando em consideração o elemento da condicionalidade e o poder limitado de Satanás, o cumprimento de uma predição continua sendo um teste legítimo de um professo profeta.

ATITUDE PARA COM JESUS CRISTO

Um quarto teste bíblico de alguém que afirma ser profeta deve ser encontrado num exame de sua atitude para com Jesus Cristo. Disse o apóstolo João:

“Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; e este é aquele espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir; e eis que já está no mundo.” 1 João 4:2, 3.

Satanás odeia o ensino bíblico acerca da encarnação de Jesus Cristo, porque se recusa a admitir a divindade de Cristo. Um verdadeiro profeta declarará — e não negará — a natureza divino-humana de Jesus Cristo.

Satanás odeia Jesus. Odeia o fato de que Deus Se tornou homem em Jesus e, especialmente, que Cristo o derrotou no Calvário, saindo triunfante da sepultura no primeiro dia da semana. Satanás está tão dominado por seu ódio a Cristo que não consegue mantê-lo sob controle, e, nos “profetas” que são impulsionados pelo espírito de Satanás, esse ódio tampouco pode permanecer oculto por muito tempo.

Na década de 1970, a sensitiva Jane Roberts — que morreu em 1984 — causou considerável sensação ao publicar mensagens de um “guia espiritual” chamado Seth, que, por meio da escrita automática, literalmente ditava mensagens. Na escrita automática, o médium humano coloca frouxamente as mãos sobre o teclado de uma máquina de escrever e coloca a mente numa postura contemplativa. Os dedos do médium “andam” por todo o teclado, e mensagens coerentes saem da máquina.

Em um dos livros de Jane Roberts, depois de mais de 6.000 páginas datilografadas de mensagens, “Seth” declarou que:

“Cristo, o Cristo histórico, não foi crucificado. […] Ele não tinha intenção de morrer daquela maneira; mas outros sentiram que, para cumprir as profecias de todas as maneiras, uma crucificação era necessária.

“Cristo não participou disso. Houve uma conspiração na qual Judas desempenhou um papel, uma tentativa de fazer de Cristo um mártir. O homem escolhido foi drogado — daí a necessidade de ajudá-lo a carregar a cruz (ver Lucas 23) — e foi-lhe dito que ele era o Cristo.

“Ele acreditava que era. […]

“A tumba estava vazia porque esse mesmo grupo retirou o corpo. […]

“Pedro negou três vezes o Senhor (Mateus 26), dizendo que não O conhecia, porque reconheceu que aquela pessoa não era Cristo.”35

REIVINDICAÇÕES MODERNAS AO DOM PROFÉTICO

Diversas pessoas na Igreja Adventista surgiram ao longo dos anos reivindicando possuir o dom profético. Três delas merecem comentário aqui. Todas as três eram mulheres. Duas fizeram suas reivindicações durante a vida de Ellen White, e uma delas tornou-se conhecida pouco depois da morte de Ellen White.

Reivindicações durante a vida de Ellen White. Nas décadas de 1880 e 1890, duas profetisas falsificadas surgiram, causando considerável agitação na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Para ser eficaz, uma falsificação precisa parecer-se tanto quanto possível com o original. Visto que havia uma genuína profetisa na igreja naquela época, não surpreende que Satanás escolhesse mulheres como pretendentes. Que ele também tenha escolhido mulheres com o nome próprio Anna é ainda mais interessante, uma vez que uma das profetisas no Novo Testamento também tinha esse nome. Ver Lucas 2:36-38.

A verdadeira história de Anna Garmire, que apresentou suas reivindicações na década de 1880, pode ser facilmente reconstruída a partir dos testemunhos de Ellen White publicados em Selected Messages, vol. 2, pp. 64-84. A reivindicação de Anna Garmire ao dom profético precisava ser testada, assim como o dom de Ellen White precisou ser testado quando ela recebeu sua primeira visão no final de 1844.

Anna Garmire falhou no teste em vários aspectos. Fez falsas predições. Em certa ocasião, disse que a marca da besta seria dada depois do fechamento da porta da graça, ao passo que a Sra. White havia declarado que, por se tratar de um teste dos últimos dias, ela deveria vir antes do fechamento da porta da graça. Ela também disse que a segunda vinda ocorreria em 1884 — conclusão baseada nos quarenta anos de peregrinação de Israel no deserto por causa da incredulidade. Naturalmente, Cristo não veio em 1884.

No teste de seus frutos, ela também se saiu mal. Ellen White chamou-a de “corrupta”, por causa de um desaparecimento e subsequente gravidez fora do casamento. Além disso, quando Uriah Smith, editor da Review and Herald, deixou de publicar os “testemunhos” de Anna, os Garmire conspiraram com um jovem que trabalhava no escritório da Review e que acreditava em Anna como verdadeira profetisa, para roubar a lista de endereços postais desse periódico, a fim de que a mensagem pudesse ser enviada diretamente. Tratava-se de um crime grave. Quando Cristo não veio em 1884, o jovem desiludido apresentou-se e confessou seu roubo. Foi desassociado e, posteriormente, reintegrado como membro da igreja de Battle Creek.36

Na década de 1890, Anna Rice-Phillips afirmou que deveria juntar-se a Ellen White no ofício profético. Sua causa foi defendida por ninguém menos que Alonzo T. Jones, um importante ministro em Battle Creek. Entretanto, seus testemunhos consistiam em grande parte de trivialidades espirituais. Falando de Anna Phillips, Ellen White disse:

“Figuras e ilustrações infantis são empregadas na descrição de coisas sagradas, celestiais, e há uma mistura do sublime com o ridículo. Embora a obra tenha aparência de grande santidade, ela é calculada para enredar e desencaminhar almas.”37

Incrivelmente, uma das principais razões apresentadas para a aceitação de Anna Phillips foi o chamado argumento do silêncio: “nossos irmãos […] não conseguiam ver nada objetável neles”.38

Felizmente, Ellen White conseguiu trabalhar tranquila e bondosamente com essa jovem. Por fim, ela renunciou à sua experiência espiritual anterior e tornou-se uma “instrutora bíblica confiável e frutífera na obra da igreja”.39

DEPOIS DA MORTE DE ELLEN WHITE

O caso mais dramático de um grupo que reivindicava ser o sucessor de Ellen White foi o de Margaret Rowen,40 convertida ao adventismo proveniente da Igreja Metodista em 1912, com cerca de trinta e um anos de idade. A Sra. Rowen tinha uma preocupação particular com a comunhão em pequenos grupos e formou um grupo de oração de mulheres no ano seguinte ao seu batismo. Três anos depois, em 22 de junho de 1916, durante uma reunião desse grupo de oração de mulheres, ela afirmou ter recebido uma primeira visão. Ellen White estava então morta havia onze meses.

Novamente, a falsificação de Satanás foi habilmente elaborada em pelo menos cinco aspectos: (1) assim como Ellen White, Margaret Rowen era mulher — a terceira mulher desse tipo, em três décadas, a surgir reivindicando o dom profético; (2) a primeira visão da Sra. Rowen, como a de Ellen White, estava ligada a um grupo de oração de mulheres; (3) enquanto estava em visão, a Sra. Rowen apresentava fenômenos físicos sobrenaturais semelhantes aos de Ellen White e dos profetas bíblicos; (4) assim como Ellen White, Margaret Rowen era de pequena estatura; e (5) ela também possuía educação formal limitada.

A Sra. Rowen inventou uma história bizarra na qual afirmava que lhe fora mostrado por revelação sobrenatural que ela não era filha de Alfred e Matilda Wright, de Los Angeles, mas a filha ilegítima de seu pai com uma rica debutante da Filadélfia! Seu pai alegadamente a descobrira abandonada no cais da cidade, e ele e a Sra. Wright adotaram informalmente a criança enjeitada como se fosse sua!

Ela afirmou que Deus providencialmente a conduzira a um reencontro com sua mãe “verdadeira” na Pensilvânia — uma cobertura perfeita para explicar a riqueza recém-adquirida que lhe chegava de um crescente grupo de seguidores que depositavam fé implícita em suas visões.

Margaret Rowen profetizou que a porta da graça para todos os vivos se fecharia em 6 de fevereiro de 1924 e que Jesus retornaria à Terra exatamente um ano depois. Ela falsificou pelo menos duas cartas de Ellen White, completas com assinatura — embora a primeira fosse uma falsificação extremamente desajeitada e transparentemente óbvia —, e habilmente conseguiu introduzir clandestinamente uma delas no cofre do Ellen G. White Estate, onde posteriormente providenciou sua “descoberta”.

A Sra. Rowen desviou milhares de dólares de seu próprio movimento, perda que foi descoberta pelo Dr. e pela Sra. Burt Fullmer, co-líderes da “Reformed Seventh-day Adventist Church”. O Dr. Fullmer era seu diretor de publicações, a Sra. Fullmer, sua tesoureira, e eles compartilhavam um duplex com os Rowen em Hollywood.

Desiludido com essa descoberta e perplexo diante das numerosas predições fracassadas, o Dr. Fullmer confessou ter sido a pessoa que introduzira clandestinamente a primeira falsificação no cofre do White Estate em 1919. Irritada com essa exposição, Margaret Rowen jurou vingança. Tarde da noite de 27 de fevereiro de 1927, ela providenciou para que o Dr. Fullmer fosse chamado a uma cabana de motel num subúrbio de Los Angeles, onde sofreu uma emboscada e quase foi assassinado. Os ocupantes de uma cabana vizinha, perturbados com aquilo que perceberam ser uma briga de bêbados estragando a paz da noite, chamaram a polícia, que chegou exatamente a tempo de salvar a vida do médico e prender alguns dos conspiradores.

A Sra. Rowen e outros foram julgados por tentativa de homicídio num tribunal superior de Los Angeles e cumpriram sentenças de aproximadamente um ano em San Quentin, perto de San Francisco, desaparecendo depois disso.

A predição fracassada acerca da segunda vinda, que havia sido amplamente anunciada pela imprensa por toda a América, e o sensacional julgamento por tentativa de homicídio trouxeram grande constrangimento ao movimento rowenita. A Reformed Seventh-day Adventist Church desintegrou-se logo depois, encerrando assim o estranho caso de “A Mulher que Queria Ser Profeta”.41

Outras reivindicações ao dom profético — algumas, sem dúvida, apresentadas por zelosos sinceros embora desencaminhados, e outras por charlatães com motivações ocultas — continuaram sendo feitas desde os dias de Ellen White até os nossos. O que devemos fazer de tudo isso?

CONCLUSÃO

Haverá outro profeta genuíno do Senhor para a Igreja Adventista do Sétimo Dia antes da volta de Jesus? Certamente, com base em Joel 2:28-32, precisamos dizer que essa possibilidade existe. Adventistas do Sétimo Dia bem informados falam de Ellen White como um cumprimento “adicional” daquela profecia — seguindo-se às experiências de William Ellis Foy e Hazen Foss em meados da década de 1840 —, e não como seu cumprimento final.

Se Deus considerar apropriado conceder novamente o dom profético a alguém de Seu povo remanescente antes do fim do tempo, essa pessoa poderia desempenhar um papel bastante diferente daquele de Ellen White, assim como o papel de João Batista era bastante diferente daquele de Moisés.

Em qualquer caso, se alguém surgir hoje e disser: “Eu sou profeta”, a igreja tem a obrigação de testar essa reivindicação, assim como a comunidade da fé teve de testar cada profeta desde o princípio. Todos os testes precisam ser aplicados. O corpo de material para teste — escritos inspirados autenticados dos profetas do passado — cresceu hoje até um tamanho enorme, constituindo um padrão formidável a ser satisfeito por qualquer pessoa que reivindique o dom de profecia.

A igreja já foi informada de que deve esperar profetas falsificados pouco antes da volta de Jesus. Ver Mateus 24:24. Portanto, é particularmente imperativo que a igreja hoje exija evidência clara antes de aceitar como divinamente inspirado o testemunho de qualquer aspirante a profeta. Além disso, as falsificações de Satanás conterão alguma verdade — em certos casos, talvez até muita verdade —, o que as torna ainda mais perigosas para o corpo de crentes genuínos.42 As predições de alguns falsos profetas podem, em grau limitado, até mesmo vir a cumprir-se.

Satanás trabalha segundo o princípio da “cunha” com seus profetas humanos falsificados:

“Muitas coisas nessas visões e sonhos parecem estar todas corretas, uma repetição daquilo que tem estado no campo por muitos anos; mas logo introduzem um jota aqui, um til de erro ali, apenas uma pequena semente que cria raízes e floresce, e muitos são contaminados por ela.”43

Portanto, o fato de que “não há nada objetável” nas declarações de uma pessoa que reivindica ter recebido o dom de profecia não fornece, por si só, a evidência clara que Ellen White declarou que a igreja precisa possuir antes de aceitar semelhante reivindicação.

Que todos avancemos com cautela e cuidado, para que Satanás não entre e cause estragos na igreja, como fez anteriormente, com consequências trágicas para todos.

REFERÊNCIAS

1. Ellen G. White, Selected Messages (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1958), livro 1, p. 55 (doravante referido como 1 SM, 2 SM etc.). Para material adicional de contexto, ver Arthur L. White, “Will There Be Another Special Messenger?” (abril de 1949), em seu Notes and Papers Concerning Ellen G. White and the Spirit of Prophecy (Washington, D.C.: Ellen G. White Estate, Inc., 1974), pp. 107-111.

2. 2 SM 49, 392.

3. 2 SM 72, 392.

4. Ellen G. White, Evangelism (Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1946), p. 610. (Citado doravante como Ev.)

5. 2 SM 72.

6. 2 SM 49.

7. 2 SM 48.

8. Ellen G. White, Counsels to Writers and Editors (Nashville, Tenn.: Southern Publishing Association, 1946), p. 152.

9. 2 SM 72.

10. Ellen G. White, Testimonies for the Church (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publishing Association, 1948), VII:173. Ver também Ellen G. White, Prophets and Kings (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publishing Association, 1917), p. 442; 2 SM 392-395.

11. 2 SM 394, 393.

12. 2 SM 393.

13. 2 SM 77, 78.

14. Ev. 360.

15. Ev. 610.

16. Ibid., ênfase acrescentada.

17. Raymond Flower, “Historical Introduction”, em H. V. Morton, In Search of the Holy Land (New York: Dodd, Mead and Company, 1979), p. 9. Ver também Seventh-day Adventist Bible Commentary, VII (1980):225. (Citado doravante como 1 BC, 2 BC etc.)

18. 7 BC 625.

19. Ev. 359.

20. Ellen G. White, The Great Controversy Between Christ and Satan (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publishing Association, 1950), p. 625. (Citado doravante como GC.)

21. GC 624, 625.

22. GC 624, ênfase acrescentada.

23. Ibid., ênfase acrescentada.

24. Ibid., ênfase acrescentada.

25. Ibid.

26. GC 625, ênfase acrescentada.

27. Ibid., ênfase acrescentada.

28. Carta de Marian Davis a James Edson White, 22 de dezembro de 1894, em Robert W. Olson, “How the Desire of Ages Was Written”, monografia não publicada (Washington, D.C.: Ellen G. White Estate, Inc., 23 de maio de 1979), pp. 30, 31.

29. Ellen G. White, Steps to Christ (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publishing Association, 1956), pp. 57, 58.

30. Ver Zacarias 6:15; 2 Crônicas 15:2; “The Role of Israel in Old Testament Prophecy”, 4 BC, pp. 25-38.

31. 2 SM 75, 76, ênfase acrescentada.

32. 2 SM 76, 77, ênfase acrescentada.

33. 2 SM 77, ênfase acrescentada.

34. 2 SM 77, 78.

35. Jane Roberts, Seth Speaks: The Eternal Validity of the Soul (Englewood Cliffs, New Jersey: Prentice-Hall, Inc., 1972), pp. 435, 436.

36. 2 SM 65.

37. 2 SM 89; ver também pp. 85-95.

38. 2 SM 94.

39. 2 SM 85.

40. “Reformed Seventh-day Adventists—Rowenite”, SDA Encyclopedia (1976):1190.

41. Roger W. Coon, “The ‘Tangled Web’ of Margaret Rowen—The Woman Who Would Be Prophet”, monografia não publicada (Washington, D.C.: Ellen G. White Estate, Inc., 1987).

42. 2 SM 86-88.

43. 2 SM 87.

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