Igreja Militar Adventista: A verdadeira IASD que você nem imagina que existe, mas está subordinado a ela!

Da War Service Commission à Adventist Military Church: a Igreja-Estado que cresceu por trás da IASD que conhecemos

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Passamos décadas olhando para o lugar errado. Procurávamos sinais de uma futura união entre Igreja e Estado como quem espera assistir ao cumprimento de uma profecia ainda distante: uma igreja aproximando-se demais de governos, líderes religiosos entrando em palácios, dinheiro público financiando instituições confessionais, políticos sendo recebidos por dirigentes denominacionais e interesses religiosos misturando-se aos interesses do poder civil.

Agora percebemos que nossa pergunta era pequena demais, porque aquilo que encontramos não cabe mais na velha expressão “união entre Igreja e Estado”. Ao reconstruirmos a genealogia da War Service Commission, do Medical Cadet Corps, da International Service Commission, da National Service Organization, da World Service Organization, dos Adventist Chaplaincy Ministries e finalmente da Adventist Military Church, encontramos uma arquitetura muito mais antiga, profunda e organizada. Encontramos uma Igreja-Estado.

E encontramos também uma inversão perturbadora da imagem administrativa apresentada durante gerações ao membro comum: a IASD religiosa que conhecemos, presidida por pastores e apresentada ao mundo através de templos, escolas, hospitais, evangelismo e assistência humanitária, não está no topo dessa história. Ela aparece subordinada a uma estrutura de poder que aprendeu durante mais de um século a conviver, cooperar e funcionar dentro do universo governamental e militar.

Existe, portanto, uma outra Igreja Adventista. Não estamos falando de uma denominação juridicamente separada, com outro credo e outro endereço, mas de uma Igreja real que cresceu dentro e acima da experiência religiosa conhecida pela membresia, desenvolvendo sua própria linguagem, seus mecanismos de comando, suas relações governamentais, seus programas de treinamento e sua presença entre militares e servidores do Estado. Na igreja que conhecemos encontramos presidente, secretário, tesoureiro, pastor, ancião e departamental. Quando atravessamos a porta dessa outra Igreja, encontramos World Commanding Officer, World Commanding Executive Officer, Operations and Training, Medical Cadet Corps, Military Service, Law Enforcement, Government Service e, finalmente, uma comunidade cujo nome dispensa qualquer interpretação adicional: Adventist Military Church — North American Division. Não precisamos colocar o nome entre aspas, porque ele não nasceu de nossa ironia. Foi escolhido pela própria estrutura que estamos investigando.

1864: A NÃO COMBATÊNCIA ABRIU A PRIMEIRA PORTA

A história começa de maneira aparentemente oposta ao lugar a que chegaria. Durante a Guerra Civil americana, em 1864, a jovem denominação procurou o governo dos Estados Unidos para obter reconhecimento de seus membros como pessoas conscientemente contrárias ao porte de armas. Era necessário negociar com o Estado para que o adventista não fosse obrigado a matar. A não combatência surgiu, portanto, como instrumento de proteção da consciência religiosa. Mas aquela negociação produziu algo que se tornaria permanente: a necessidade de uma interface organizada entre Igreja e aparato militar. A partir daquele momento, a denominação descobriu que sua sobrevivência dentro de uma sociedade mobilizada para a guerra dependeria não apenas de doutrina, mas de interlocução com autoridades, conhecimento das normas militares, classificação de seus membros e negociação com o governo.

O que nasceu para manter o adventista longe da arma acabaria ensinando a Igreja a entrar institucionalmente no universo que administrava as armas. A não combatência tornou-se a primeira porta, porque para garantir a exceção era preciso conhecer o sistema; para conhecer o sistema era preciso conversar com ele; para conversar com ele era preciso criar representantes; e para proteger milhares de jovens seria necessário construir uma organização capaz de acompanhar o Estado e as Forças Armadas de maneira permanente.

1918: A IGREJA CRIA SUA WAR SERVICE COMMISSION

Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial, aquela necessidade deixou de ser episódica. Em julho de 1918, a Associação Geral criou a War Service Commission, a Comissão de Serviço de Guerra, colocando Carlyle B. Haynes à frente da nova estrutura. A própria história denominacional registra que a comissão organizava o atendimento aos adventistas nos campos militares e nas forças expedicionárias e que seus responsáveis tratavam diretamente com departamentos governamentais em Washington quando surgiam problemas envolvendo membros da Igreja. Terminada a guerra, a comissão deixou de funcionar, mas a experiência administrativa não desapareceu. A denominação já havia aprendido a organizar pastores para acompanhar soldados, levar problemas às autoridades federais e manter uma ponte institucional entre a Igreja e a máquina militar americana.

Esse precedente é fundamental porque desmonta a ideia de que a relação militar adventista nasceu muito depois como simples extensão da assistência pastoral. O movimento ocorreu na direção contrária. Primeiro surgiu a necessidade de administrar a presença adventista na guerra; depois vieram as estruturas permanentes; muito mais tarde essa arquitetura seria absorvida pelo guarda-chuva chamado capelania. A palavra religiosa veio depois da engrenagem.

NOS ANOS 1930, A IGREJA COMEÇOU A PREPARAR JOVENS PARA A PRÓXIMA GUERRA

A transformação decisiva ocorreu antes da Segunda Guerra Mundial. Everett N. Dick, professor de História do Union College e veterano da Primeira Guerra, propôs preparar antecipadamente jovens adventistas para aquilo que aconteceria quando fossem convocados. Em janeiro de 1934 começou o programa que se tornaria o Medical Cadet Corps. A própria World Service Organization registra que o treinamento incluía drills, first aid and military etiquette: exercícios militares, primeiros socorros e etiqueta militar. No sul da Califórnia, Cyril B. Courville, major da Reserva do Exército e médico ligado ao White Memorial Hospital, desenvolveu programa semelhante para preparar homens que poderiam tornar-se oficiais médicos. Em 1939, a Associação Geral finalmente adotou oficialmente o Medical Cadet Corps. O treinamento não era uma caricatura militar inventada por jovens entusiasmados. Dirigentes do programa reuniram-se com oficiais do U.S. Surgeon General’s Office e daí nasceu uma relação de aproximadamente vinte anos, durante a qual o currículo foi continuamente atualizado para acompanhar os padrões militares americanos e facilitar a colocação de adventistas no Army Medical Corps.

Aqui a velha não combatência já havia sofrido sua primeira metamorfose profunda. O jovem não era mais preparado para permanecer fora da guerra, mas para funcionar eficientemente dentro dela sem necessariamente carregar a arma. Aprendia disciplina, marcha, organização, medicina de campo e comportamento militar. A denominação encontrou uma fórmula extraordinariamente eficiente: poderíamos continuar dizendo que não combatíamos enquanto aprendíamos antecipadamente a ocupar funções indispensáveis à estrutura que combatia. A não combatência deixou de ser separação e tornou-se cooperação organizada.

A GUERRA DESAPARECEU DO NOME, MAS NÃO DA ESTRUTURA

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, aquela máquina não foi desmontada. Com a Guerra da Coreia, o MCC voltou a crescer intensamente e mais de três mil jovens adventistas receberam treinamento somente no ano letivo de 1950-1951. A Igreja criou uma International Service Commission e, em 1954, a reorganização produziu a National Service Organization. O detalhe dos nomes é revelador: algumas regiões da Igreja mundial consideravam inadequada a palavra war, guerra, na denominação do organismo. A terminologia foi sendo alterada, mas a função permaneceu. O que começara como War Service Commission transformou-se em National Service Organization e, posteriormente, World Service Organization. A guerra foi progressivamente retirada da placa justamente enquanto a estrutura se internacionalizava.

Não houve desaparecimento. Houve metamorfose administrativa. Aquilo que parecia ter sido criado para uma emergência histórica passou a constituir um mecanismo permanente de relacionamento entre a denominação, seus membros e o aparelho militar. A própria documentação adventista reconhece que o treinamento do MCC se espalhou para Brasil, México, República Dominicana, Porto Rico, Filipinas, Coreia, China e Cuba. A máquina construída nos Estados Unidos havia atravessado as fronteiras. E quando chegamos a Cuba percebemos que essa internacionalização não permaneceu no campo abstrato.

CUBA: ANTES DA REVOLUÇÃO, OS ADVENTISTAS JÁ TREINAVAM PARA A GUERRA

Os documentos que acabamos de publicar em GUERRILHEIROS J.A. — Aprendizes de Guerra mudam completamente a posição de Cuba nesta história. A imprensa adventista da Divisão Interamericana já descrevia escolas e sociedades de Missionários Voluntários como training stations, centros de treinamento, e chamava a juventude denominacional de army of workers, um exército de obreiros, preparado para os final movements, os movimentos finais. Era linguagem religiosa, naturalmente, mas era também uma cultura de mobilização, disciplina, unidades, acampamentos e prontidão que encontrou no Medical Cadet Corps uma expressão material muito mais concreta. O Colegio de las Antillas, em Santa Clara, tornou-se parte desse universo de formação juvenil adventista, e as fotografias recuperadas de 1951 mostram que não estamos falando apenas de metáforas espirituais. Uniformes, formação, treinamento e organização de campo já faziam parte da experiência adventista cubana anos antes de Fidel Castro, Che Guevara e seus homens chegarem ao momento decisivo da Revolução.

A importância cronológica desse fato é enorme. Quando a guerra revolucionária finalmente atravessou o caminho dos adventistas cubanos, ela não encontrou uma comunidade completamente estranha à lógica de organização de campo. Encontrou uma denominação que havia aprendido a organizar jovens, trabalhar em unidades, treinar primeiros socorros, praticar disciplina e mobilização e utilizar uma linguagem religiosa impregnada de imagens militares. As habilidades adquiridas num acampamento não precisavam mudar quando o contexto mudava; mudava apenas a finalidade imediata. Primeiros socorros ensinados como especialidade transformavam-se em capacidade operacional diante de feridos reais. Organização de cozinha tornava-se logística alimentar. Disciplina de grupo tornava-se capacidade de mobilização. Conhecimento territorial, transporte e assistência médica adquiriam outro significado quando ao redor da instituição havia homens armados, feridos, deslocamentos e uma batalha real.

QUANDO A GUERRA REAL CHEGOU A CUBA, O TREINAMENTO ENCONTROU UTILIDADE REAL

É por isso que os episódios da Sierra Maestra e de Santa Clara precisam ser relidos dentro dessa história maior. No Oriente cubano, a rede adventista em torno de Argelio Rosabal — El Pastor — entrou em contato com os sobreviventes e guerrilheiros ligados ao Movimento 26 de Julho. Rosabal mobilizou pessoas, providenciou alimentação, roupas, abrigo e ajuda aos homens que estavam tentando sobreviver depois do desastre inicial do Granma. Em Santa Clara, no momento decisivo da Revolução, o Colegio de las Antillas entrou materialmente na história: sua administração forneceu alimentação e apoio às tropas de Che, enquanto professores e alunos conviviam com a batalha que derrubaria o regime de Batista. Depois da vitória vieram os contatos, o reconhecimento dos favores e a memória preservada pelos próprios participantes de uma relação que Che chegou a descrever em termos de amizade e apoio.

Não podemos mais contar esses acontecimentos como se fossem coincidências piedosas envolvendo religiosos que, por acaso, souberam fazer comida, organizar pessoas, atender feridos e responder rapidamente numa situação de guerra. A documentação sobre o treinamento anterior muda o significado da cena. A guerra encontrou uma comunidade que já havia sido treinada para funcionar organizada em condições de mobilização. O MCC havia levado a Cuba a preparação militar não combatente; a cultura dos Missionários Voluntários havia treinado gerações em acampamentos, unidades e disciplina; e quando a Revolução transformou a ilha num campo de batalha, competências cultivadas religiosamente puderam ser convertidas imediatamente em capacidade logística e humanitária.

ARTHUR H. ROTH ATRAVESSA AS DUAS HISTÓRIAS

É nesse ponto que Arthur H. Roth assume uma importância muito maior do que percebíamos anteriormente. Antes de presidir a Divisão Interamericana, Roth estivera ligado justamente às áreas de Educação e Missionários Voluntários, responsáveis pelas escolas e pela formação juvenil. Ele conhecia por dentro o sistema que treinava aquela juventude. Depois, como presidente da Divisão, atravessou a Revolução Cubana e voltou à ilha no período posterior à vitória. A mesma estrutura administrativa regional que havia supervisionado educação, juventude e treinamento agora precisava negociar a sobrevivência da Igreja diante de um governo revolucionário que conhecia perfeitamente os favores recebidos de adventistas durante a guerra.

Essa continuidade é fundamental para nossa leitura: treinamento juvenil, MCC, administração denominacional e relacionamento político não pertenciam a universos separados. Eram partes de uma mesma capacidade institucional. A Igreja conseguia formar gente, mobilizar gente, alimentar gente, tratar gente, conversar com autoridades e adaptar-se rapidamente quando o poder mudava de mãos.

A NÃO COMBATÊNCIA CUBANA REVELA A CONTRADIÇÃO

A ironia chegaria ao auge quando, depois da Revolução, adventistas procuraram Che Guevara para tratar do serviço militar obrigatório. Argelio Rosabal participou daquela interlocução. A mesma Igreja que havia treinado jovens uniformizados em marcha, primeiros socorros, disciplina e organização de campo precisava agora convencer o novo Estado revolucionário de que sua não combatência a colocava numa categoria especial. Che conhecia pessoalmente Rosabal e conhecia o apoio que adventistas haviam prestado à guerrilha. Sua correspondência com Carlos Rafael Rodríguez registra inclusive a brincadeira amarga sobre a “recompensa terrestre” de Rosabal ter se transformado em castigo.

A contradição era perfeita. A denominação havia desenvolvido uma forma de participar da guerra sem chamar essa participação de combate; agora precisava convencer uma Revolução vitoriosa, que havia experimentado concretamente a utilidade daquela participação, de que havia uma diferença religiosa essencial entre integrar a estrutura de uma guerra e combater nela. Cuba expôs aquilo que a terminologia denominacional conseguia esconder em tempos de paz: a não combatência podia ser operacionalmente indispensável a quem combatia.

WHITECOAT: A COOPERAÇÃO CHEGA AO LABORATÓRIO MILITAR

Enquanto essa história se desenrolava no Caribe, nos Estados Unidos a integração havia avançado ainda mais. A National Service Organization participou da mobilização de milhares de adventistas para a Operação Whitecoat, programa do Exército americano no qual voluntários participaram de pesquisas de medicina preventiva relacionadas a ameaças biológicas. A importância histórica de Whitecoat não está apenas no debate sobre os experimentos. Está na posição institucional alcançada pela denominação. Uma Igreja que começara pedindo ao governo proteção para jovens que não queriam pegar em armas tornara-se suficientemente integrada ao sistema militar para servir como fonte organizada de voluntários religiosos disciplinados para um programa do Exército.

Whitecoat destrói definitivamente a imagem de duas instituições mantendo distância respeitosa uma da outra. Estado, Exército, medicina militar, administração denominacional e jovens adventistas já funcionavam dentro de um sistema de cooperação. A não combatência não interrompera essa integração. Pelo contrário, havia produzido um contingente especialmente adaptado a determinadas necessidades militares.

ENTRE A IGREJA E O PENTÁGONO: A PONTE TINHA NOME

Há momentos em uma investigação em que uma palavra encontrada num documento reorganiza tudo aquilo que já estava diante de nós. Durante muito tempo reunimos as peças dessa relação: War Service Commission, Medical Cadet Corps, National Service Organization, capelães militares, Project Whitecoat, Adventist Chaplaincy Ministries e World Service Organization.

Faltava, porém, uma definição produzida dentro da própria historiografia adventista que dissesse, sem necessidade de paráfrase nossa, qual era exatamente a posição ocupada pela National Service Organization entre a denominação e a estrutura militar dos Estados Unidos. Encontramos essa definição. A palavra utilizada é liaison. E precisamos compreender exatamente o que ela significa antes de prosseguir, porque sua tradução simplesmente como “ligação” pode enfraquecer aquilo que o termo significa no vocabulário institucional.

Liaison, em inglês administrativo, diplomático e militar, não significa apenas contato, amizade, proximidade ou relacionamento informal. Um liaison é uma interface institucional: pessoa, órgão ou estrutura encarregada de manter comunicação, coordenação e relacionamento entre duas organizações distintas. Em português, conforme o contexto, podemos traduzi-lo como elo institucional, órgão de ligação, interface, ligação oficial ou canal de coordenação.

No ambiente militar, a palavra possui significado particularmente preciso: um liaison officer, por exemplo, é um oficial de ligação destacado para assegurar comunicação e coordenação entre comandos ou organizações. Portanto, quando uma fonte afirma que determinada organização “functioned as liaison between the church and the Pentagon”, não está simplesmente dizendo que ela “tinha contatos” com o Pentágono. Está dizendo que ela desempenhava a função institucional de ligação entre as duas estruturas.

E é exatamente essa expressão que encontramos na reconstrução histórica de Douglas Morgan. Em Adventism and the American Republic: The Public Involvement of a Major Apocalyptic Movement, ao descrever a reorganização que produziu a National Service Organization em 1954, Morgan explica que a NSO resultou da fusão da antiga War Service Commission com a International Service Commission, responsável também pelo treinamento do Medical Cadet Corps. A organização não apenas prestava assistência aos adventistas incorporados às Forças Armadas; procurava aumentar a eficiência de seu serviço, tratava dos problemas enfrentados pelos militares adventistas para praticar suas convicções religiosas, mantinha centros e retiros e coordenava o treinamento do MCC.

É nesse contexto que Morgan escreve a frase decisiva: “It functioned as liaison between the church and the Pentagon.” Ou seja: a National Service Organization funcionava como órgão de ligação, interface institucional, entre a Igreja Adventista e o Pentágono. O livro completo de Douglas Morgan está disponível nos Arquivos da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

A importância dessa formulação aumenta porque ela não ficou confinada a um livro acadêmico. Em 2020, o site oficial da Divisão Intereuropeia da Igreja Adventista publicou uma extensa análise de Adventists and Military Service: Biblical, Historical and Ethical Perspectives, livro organizado por Frank M. Hasel, Barna Magyarosi e Stefan Höschele. Ao reconstruir a evolução histórica da posição adventista, a publicação denominacional reproduziu a mesma caracterização: “It served as a liaison between the Church and the Pentagon (US Department of Defense).”

A própria publicação adventista teve o cuidado de explicar entre parênteses de que Pentágono estava falando: “US Department of Defense”, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Não estamos, portanto, empregando “Pentágono” como metáfora para forças obscuras ou como recurso retórico. Estamos reproduzindo a nomenclatura utilizada pela própria literatura adventista para descrever o órgão governamental com o qual a NSO mantinha essa interface institucional. O texto completo pode ser consultado no site oficial da Divisão Intereuropeia da Igreja Adventista.

A cronologia dessa relação torna a descoberta ainda mais significativa. Em 1954, a National Service Organization surgiu da reorganização das estruturas que haviam administrado a relação adventista com o serviço militar e com o Medical Cadet Corps. O MCC, por sua vez, já havia preparado milhares de jovens para ingressarem no ambiente militar como não combatentes, ensinando primeiros socorros, procedimentos de campo, disciplina, ordem unida, costumes militares e outras competências destinadas a facilitar sua incorporação, especialmente ao serviço médico. Portanto, quando encontramos a NSO funcionando como liaison entre Igreja e Pentágono, não encontramos um escritório diplomático isolado da experiência concreta dos membros. Encontramos a interface governamental da mesma arquitetura denominacional que preparava jovens para entrar no universo militar, acompanhava-os depois da incorporação e tratava institucionalmente dos problemas surgidos durante o serviço.

1966: A ASSOCIAÇÃO GERAL MOSTRA A ENGRENAGEM FUNCIONANDO

Doze anos depois da reorganização que produziu a NSO, um documento oficial da própria Associação Geral permite observar essa estrutura funcionando. No General Conference Bulletin de 21 de junho de 1966, publicado durante a sessão mundial da Igreja, a National Service Organization é apresentada como uma divisão do Missionary Volunteer Department. O relatório explica que milhares de jovens adventistas estavam sendo chamados para o serviço militar e que a NSO fornecia aconselhamento, treinamento não combatente, ajuda profissional para problemas militares, companheirismo e literatura. A descrição é extraordinariamente concreta: a organização denominacional não estava apenas produzindo declarações teológicas sobre guerra e consciência; estava administrando a presença de milhares de membros dentro das Forças Armadas. O documento original pode ser consultado integralmente no General Conference Bulletin de 21 de junho de 1966 preservado nos Arquivos Adventistas.

O mesmo relatório imediatamente relaciona essa atividade ao Medical Cadet Corps. A Associação Geral declara que o treinamento do MCC constituía um “great asset”, um grande recurso ou vantagem, para os jovens adventistas diante dos problemas associados à vida militar. Essa formulação precisa ser colocada ao lado da expressão que encontramos anteriormente em Richard Stenbakken, segundo a qual marcha, cerimônias, primeiros socorros e costumes militares proporcionavam ao jovem adventista um “jump start into military life”. A Igreja preparava antecipadamente seus jovens para o ambiente em que muitos seriam incorporados, enquanto a National Service Organization mantinha a estrutura de acompanhamento e a interface institucional com o sistema militar. Treinamento e ligação governamental pertenciam, portanto, ao mesmo sistema denominacional.

E então, no mesmo relatório de 1966, aparece o Project Whitecoat. A Associação Geral apresenta a participação no projeto como uma das atividades de destaque dos militares adventistas e informa que até cerca de duzentos militares adventistas podiam estar voluntariamente ligados ao programa em determinado momento. Whitecoat era um programa de pesquisa médica militar realizado no complexo Walter Reed, em Washington, envolvendo voluntários utilizados em pesquisas relacionadas a doenças infecciosas e defesa biomédica. O que torna o documento especialmente importante para nossa investigação é a proximidade institucional das informações: NSO, treinamento não combatente, Medical Cadet Corps e Project Whitecoat aparecem juntos no relatório oficial da própria Igreja. Não fomos nós que aproximamos artificialmente quatro episódios independentes. A própria Associação Geral os apresentou dentro do relatório de seu departamento juvenil e de serviço nacional.

A documentação histórica da Encyclopedia of Seventh-day Adventists acrescenta outra peça decisiva. O verbete dedicado à World Service Organization/National Service Organization registra que foi justamente durante a administração da NSO que começou o recrutamento de voluntários para a Operation Whitecoat, ligada ao United States Army Medical Research Institute of Infectious Diseases. A enciclopédia também explica que o êxito da experiência adventista no serviço militar não combatente produziu crescente consideração por parte do Army Medical Corps e que, na década de 1960, a reputação adventista dentro das Forças Armadas já estava suficientemente estabelecida para que membros da denominação fossem normalmente encaminhados ao centro de treinamento médico de Fort Sam Houston, mesmo quando não haviam recebido anteriormente treinamento no MCC. A fonte completa está disponível no verbete “World Service Organization / National Service Organization”, da Encyclopedia of Seventh-day Adventists.

Uma documentação independente publicada na revista Spectrum em 1996 torna a operação dessa interface ainda mais concreta. Ao reconstruir o processo de recrutamento para Whitecoat, o estudo informa que os recrutadores oficiais eram o comandante e o comandante do destacamento do USAMRIID e que o diretor da National Service Organization da Associação Geral acompanhava esses oficiais do Exército até Fort Sam Houston. O dirigente adventista estava presente durante o processo para responder perguntas e verificar que não houvesse coerção sobre os possíveis voluntários. Aqui a palavra liaison deixa de ser abstração administrativa: encontramos o representante da estrutura denominacional acompanhando oficiais militares americanos no próprio processo relacionado aos adventistas elegíveis para Whitecoat. O estudo pode ser consultado na edição de março de 1996 da revista Spectrum preservada pela Andrews University.

A NSO TAMBÉM ABRIA A PORTA DA CAPELANIA MILITAR

O ano de 1966 oferece ainda outra janela para observar a amplitude das funções da National Service Organization. Em dezembro daquele ano, Clark Smith, então diretor da NSO, publicou na revista Ministry um chamado por novos capelães adventistas para o Exército dos Estados Unidos. Smith informava ter recebido notícia da necessidade imediata de mais capelães adventistas no Exército e dizia que pedidos semelhantes viriam da Força Aérea e da Marinha. O detalhe administrativo é fundamental: para um ministro adventista tornar-se capelão militar era necessário receber o endosso denominacional, e Smith informa explicitamente que, para os adventistas, esse endosso era concedido pela National Service Organization. A NSO, portanto, não apenas acompanhava soldados e coordenava treinamento; ocupava também uma posição formal no processo pelo qual ministros adventistas entravam profissionalmente na estrutura de capelania das Forças Armadas. O artigo original, “Call for Chaplains”, pode ser consultado na Ministry Magazine de dezembro de 1966.

O próprio texto revela a profundidade dessa integração profissional. O candidato deveria satisfazer requisitos ministeriais e militares, passar por investigação de segurança, receber o endosso denominacional, aceitar comissão militar e cumprir período de serviço ativo. Depois poderia retornar ao ministério civil ou permanecer na carreira até alcançar aposentadoria militar. A NSO estava precisamente na interface entre essas duas estruturas: de um lado, a credencial religiosa; do outro, a comissão militar. É difícil encontrar ilustração mais concreta do significado institucional de liaison.

O RECRUTAMENTO TERMINOU; A INTERFACE NÃO

Se a National Service Organization existisse apenas para proteger jovens obrigados pelo Estado a servir, poderíamos esperar que sua função desaparecesse quando os Estados Unidos suspenderam o recrutamento obrigatório em 1973. Foi justamente aí que a história tomou outra direção. A própria historiografia adventista reconhece que décadas de treinamento, recrutamento e experiência dentro das Forças Armadas haviam produzido uma “cultural shift”, uma mudança cultural entre os membros que tornou o serviço militar mais aceitável para muitos. A NSO adaptou-se à nova realidade e passou de uma estrutura concentrada na defesa dos direitos religiosos dos convocados para uma organização que também atendia adventistas que voluntariamente haviam escolhido o serviço militar. Essa transformação está documentada no mesmo verbete da Encyclopedia of Seventh-day Adventists sobre WSO/NSO.

Essa sobrevivência institucional é decisiva. A razão original para a existência da estrutura havia mudado, mas a estrutura não desapareceu. A NSO foi posteriormente incorporada aos Adventist Chaplaincy Ministries, e a antiga interface nacional passou progressivamente a integrar uma arquitetura mundial. O nome mudaria novamente, mas a função de relacionamento com estruturas militares e governamentais permaneceria reconhecível.

DE “LIAISON COM O PENTÁGONO” A ESCRITÓRIO OFICIAL DE RELAÇÕES MILITARES

É aqui que a documentação contemporânea completa a sequência histórica. Aquilo que Douglas Morgan descreveu para a NSO como “liaison between the church and the Pentagon” aparece posteriormente na própria nomenclatura administrativa adventista sob uma formulação ainda mais explícita: “the official military relations office of the Seventh-day Adventist Church”, o escritório oficial de relações militares da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Não estamos mais diante apenas da descrição de um historiador sobre aquilo que a organização fazia; estamos diante da maneira pela qual a própria estrutura denominacional passou a definir formalmente sua função.

A formulação aparece repetidamente na documentação da Igreja. A própria World Service Organization explica atualmente que WSO e NSO são elementos integrantes dos Adventist Chaplaincy Ministries e têm a tarefa de apoiar adventistas que servem seus governos nas Forças Armadas, forças de defesa, polícia e outras agências governamentais. Entre as funções oficialmente relacionadas está uma que merece atenção especial: desenvolver e manter relações de trabalho efetivas com autoridades governamentais civis em assuntos envolvendo adventistas nos serviços públicos e uniformizados. A mesma página informa que a organização mantém uma base de dados de membros adventistas no serviço governamental, incluindo militares, policiais, integrantes de parlamentos e instituições correcionais. A descrição institucional completa pode ser consultada diretamente na página “About the World Service Organization”, no site oficial da WSO.

Essa formulação institucional não apareceu ontem. Ela já estava incorporada à política denominacional há anos e foi reproduzida nas próprias publicações da estrutura. A revista For God & Country, produzida pela World Service Organization, identificava a NSO como “the official military-relations office of the Seventh-day Adventist Church”. Portanto, a expressão “relações militares” não foi escolhida por nós para intensificar a narrativa. É a terminologia administrativa empregada pela própria organização para definir sua posição dentro da denominação.

A documentação da Associação Geral formalizou igualmente essa definição. No material administrativo do Annual Council, a World/National Service Organization aparece definida como escritório oficial de relações militares da Igreja. A continuidade terminológica é fundamental porque nos impede de tratar a antiga ligação com o Pentágono como peculiaridade histórica da Guerra Fria. A estrutura que outrora funcionava como liaison entre a Igreja e o Pentágono não simplesmente desapareceu; sua descendente institucional continua existindo dentro dos Adventist Chaplaincy Ministries com responsabilidade explícita pelas relações militares da denominação.

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DIZ EXATAMENTE O QUE FAZ

A descrição atual da WSO torna essa continuidade ainda mais clara. A organização declara que desenvolve programas para adventistas que servem seus países e instituições públicas; auxilia membros diante de problemas de consciência e acomodação religiosa; trabalha em cooperação com departamentos denominacionais e com o Office of General Counsel; desenvolve e mantém relações com autoridades governamentais; procura reconhecimento oficial para alternativas ao serviço militar em países onde existe recrutamento obrigatório; organiza retiros religiosos para adventistas uniformizados; publica materiais destinados a membros no serviço público e governamental; e mantém uma base de dados dos adventistas que atuam no serviço governamental, abrangendo militares, policiais, parlamentares e instituições penitenciárias. Não estamos deduzindo essas funções a partir de documentos antigos. Elas estão enumeradas atualmente pela própria World Service Organization.

Há ainda uma continuidade que nos leva diretamente de volta aos Guerrilheiros J.A. e ao Medical Cadet Corps. Entre os programas mencionados pela WSO para preparar adventistas diante das exigências do serviço estatal aparece novamente o Medical Cadet Corps. A mesma organização contemporânea que mantém relações com dirigentes governamentais conserva dentro de sua genealogia e de suas atividades o programa cuja história encontramos nos Estados Unidos, em Cuba e em outros países. A estrutura que treinava jovens para o serviço não combatente e a estrutura que administrava a ligação institucional com o Pentágono não pertenciam a histórias paralelas: encontravam-se dentro da mesma arquitetura denominacional.

A PONTE NÃO ERA UMA METÁFORA

Agora podemos compreender por que a palavra liaison muda tanto nossa leitura. Se a fonte dissesse apenas que a Igreja “mantinha boas relações” com o Pentágono, poderíamos estar diante de contatos ocasionais entre dirigentes religiosos e autoridades militares. Se dissesse apenas que adventistas serviam nas Forças Armadas, poderíamos atribuir tudo às escolhas individuais de membros. Se dissesse apenas que existiam capelães, poderíamos limitar o fenômeno à assistência espiritual. Mas a documentação diz algo diferente: havia uma organização que funcionava como liaison entre a Igreja e o Pentágono, e a genealogia institucional dessa organização chega a uma estrutura contemporânea oficialmente responsável pelas relações militares da denominação e pelo relacionamento com autoridades governamentais.

A sequência documental tornou-se, portanto, muito mais precisa: War Service Commission → Medical Cadet Corps → International Service Commission → National Service Organization → liaison entre a Igreja e o Pentágono → Project Whitecoat → endosso denominacional de capelães militares → Adventist Chaplaincy Ministries → World Service Organization → escritório oficial de relações militares → relações de trabalho com autoridades governamentais → continuidade de programas de preparação como o Medical Cadet Corps. Não estamos diante de uma coleção de coincidências acumuladas retrospectivamente. Estamos acompanhando a transformação histórica de uma estrutura institucional.

IGREJA-ESTADO: AGORA SABEMOS O NOME DA PONTE

É justamente aqui que nossa denúncia sobre a Igreja-Estado ganha uma base documental que antes não possuíamos com essa clareza. Durante décadas poderíamos discutir se a proximidade entre adventismo e aparato militar americano era grande ou pequena, conveniente ou inconveniente, eventual ou permanente. A palavra liaison desloca essa discussão. Havia uma interface institucional. Ela possuía nome, dirigentes, funções e posição dentro da administração denominacional. Acompanhava militares adventistas, coordenava treinamento, lidava com problemas religiosos decorrentes do serviço, participava do processo de endosso de capelães e mantinha a ligação entre a Igreja e o Pentágono.

Depois, quando o recrutamento terminou e a estrutura poderia ter desaparecido, ela permaneceu, adaptou-se, passou a atender militares voluntários, foi incorporada à capelania e reapareceu numa arquitetura mundial que continua oficialmente encarregada das relações militares da Igreja e das relações de trabalho com autoridades governamentais. É essa continuidade, e não uma fotografia isolada de um pastor ao lado de um general, que nos interessa. A relação foi institucionalizada.

Não precisávamos inventar uma ponte entre a Igreja Adventista e o Pentágono. A historiografia que reconstruiu a própria National Service Organization já havia dado nome à função: liaison. E agora sabemos exatamente o que essa palavra significa.

Não simples proximidade. Não encontro ocasional. Não amizade informal. Liaison: interface institucional, órgão de ligação, canal organizado entre duas estruturas.

De um lado, a Igreja. Do outro, o Pentágono. Entre ambos, a National Service Organization.

ENTÃO O PASTOR ENTROU OFICIALMENTE NO SISTEMA MILITAR

A capelania completou a transformação. Em 1943, a Igreja ainda recomendava que ministros adventistas não servissem como capelães militares. Pouco mais de uma década depois, a situação havia mudado e ministros denominacionalmente endossados já serviam oficialmente dentro das Forças Armadas. A mudança é gigantesca porque o capelão possui algo que o pastor comum jamais possui: acesso institucional permanente a ambientes militares fechados. Ele não visita simplesmente o quartel como convidado ocasional; ele funciona dentro daquele universo, reconhecido pela instituição, sujeito às suas regras e autorizado a permanecer onde o ministro externo não entra.

Foi então que capelania se tornou o nome perfeito para apresentar religiosamente uma arquitetura que havia começado muito antes dela. A palavra evoca cuidado espiritual, e esse cuidado realmente existe, mas ao mesmo tempo cobre uma estrutura muito maior de relações governamentais, presença militar, credenciamento, acompanhamento institucional, treinamento e administração de adventistas espalhados pelo aparelho estatal. Por isso não reduziremos mais essa história à capelania. Capelania é a face religiosa da Igreja-Estado.

1973: O RECRUTAMENTO TERMINOU, MAS A MÁQUINA PERMANECEU

O fim do recrutamento obrigatório nos Estados Unidos deveria ter encerrado essa história se sua finalidade real fosse apenas proteger adventistas convocados contra a vontade. O que ocorreu foi exatamente o contrário. A estrutura adaptou-se ao novo ambiente. A própria historiografia adventista reconhece que décadas de treinamento e serviço produziram uma mudança cultural entre os membros e tornaram a carreira militar mais aceitável. A NSO deixou de ser principalmente defensora dos direitos religiosos de recrutas e passou a ministrar também a militares voluntários. Em 1985, quando os Adventist Chaplaincy Ministries foram formalmente organizados, a NSO foi colocada sob sua jurisdição. A organização que antes supervisionava capelães passou a ser administrada por capelães. A velha máquina militar adventista recebeu sua nova cobertura institucional.

E continuou expandindo o alcance. O universo já não era apenas Exército. Polícia, segurança pública, sistema penitenciário, bombeiros, resgate, servidores governamentais e outras categorias foram incorporados. Aquilo que nascera para resolver o problema de jovens recrutados transformou-se numa rede destinada a acompanhar adventistas que escolheram servir dentro das estruturas do Estado.

A IGREJA-ESTADO PASSOU A CADASTRAR SEUS HOMENS DENTRO DO ESTADO

A própria WSO estabelece como função acompanhar adventistas que trabalham no serviço governamental e construir relações com autoridades civis. O alcance inclui militares, policiais, integrantes de parlamentos, instituições correcionais e outros setores do aparelho público. Não estamos mais diante de uma congregação preocupada apenas em saber onde determinado soldado passa o sábado. Estamos diante de uma organização religiosa internacional que desenvolveu mecanismos para localizar e acompanhar seus membros distribuídos dentro das estruturas estatais.

Esse dado muda completamente a escala do problema. A Igreja não apenas possui membros que, individualmente, escolheram carreiras públicas. A Igreja criou uma arquitetura especializada para relacionar-se institucionalmente com essa presença adventista dentro do Estado. Ela conhece esse universo, mantém interlocução com ele, acompanha seus integrantes e forma uma rede que atravessa a fronteira entre organização religiosa e aparelho governamental.

ENTÃO APARECE A ADVENTIST MILITARY CHURCH

https://www.worldserviceorganization.org/about-wso/adventist-military-church/

Depois de toda essa cronologia, a existência da Adventist Military Church — North American Division deixa de parecer uma curiosidade exótica e passa a ser o resultado lógico de um processo centenário. Existe uma igreja destinada a adventistas vinculados à presença governamental e militar norte-americana e canadense no exterior, abrangendo não apenas militares da ativa, mas também determinadas categorias civis, trabalhadores ligados ao sistema, contratados e familiares. O ponto decisivo não é apenas pastoral. A integração chegou ao ponto de possuir forma eclesiástica. Não estamos falando somente de um departamento que envia um pastor a uma base. Estamos falando de uma comunidade adventista constituída especificamente dentro do universo da presença governamental e militar no exterior.

A outra Igreja que vínhamos procurando finalmente aparece com nome próprio. E, quando olhamos para sua estrutura mundial, encontramos algo ainda mais revelador.

DOIS VENEZUELANOS NO COMANDO MUNDIAL

https://www.worldserviceorganization.org/about-wso/leadership/

A Venezuela já não aparece nesta investigação apenas como o território onde a Igreja Adventista construiu igrejas, escolas, instituições assistenciais, presença entre comunidades indígenas e canais de relacionamento com autoridades públicas. A documentação que fomos reunindo acrescenta agora uma dimensão muito mais profunda: a Venezuela aparece também na biografia dos dois homens que, sucessivamente, chegaram à direção mundial da estrutura adventista responsável pelas relações militares.

O primeiro deles é Mario E. Ceballos, venezuelano, nascido e criado naquele país, formado desde a infância dentro de uma família que participou diretamente da implantação da educação adventista venezuelana e que, décadas mais tarde, faria uma trajetória aparentemente improvável: sairia daquele ambiente para estudar Teologia, serviria durante 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, alcançaria a patente de Commander na Reserva da Marinha americana e terminaria no comando mundial dos Adventist Chaplaincy Ministries e da World Service Organization.

Essa origem venezuelana não é um detalhe biográfico lateral. O pai de Mario, Antonio Ceballos Araujo, já pertencia à história institucional do adventismo naquele país. Professor de Ciências no Instituto Colombo-Venezolano, na Colômbia, Antonio foi chamado em 1962 para participar da implantação do Colegio Secundario Adventista de Venezuela, o COLSEVE, tornando-se seu primeiro diretor. Sua esposa, Teresa de Ceballos, também integrou a estrutura administrativa da escola. Antonio dirigiu a instituição entre 1962 e 1966 e continuou posteriormente ligado a ela, deixando uma marca tão profunda na história educacional adventista venezuelana que seu nome permanece associado ao atual Instituto Universitario Adventista de Venezuela, onde existe o Complejo Cultural Dr. Antonio Ceballos Araujo.

É dentro desse ambiente que precisamos compreender Mario E. Ceballos. Sua ligação com a Venezuela não resulta de uma passagem ocasional pelo país nem de uma nomeação administrativa ocorrida na vida adulta. Ele pertence a uma família instalada no núcleo da construção institucional adventista venezuelana. Saiu desse ambiente para estudar em Porto Rico e nos Estados Unidos e, concluída sua formação teológica, voltou à Venezuela procurando iniciar ali o ministério. Sua própria narrativa biográfica parte da Venezuela. Décadas depois, quando sua história foi apresentada publicamente, ela continuou sendo descrita precisamente como uma jornada “from Venezuela” para o ministério pastoral, a capelania militar e a liderança mundial do Medical Cadet Corps e da World Service Organization.

DA VENEZUELA ÀS FORÇAS ARMADAS DOS ESTADOS UNIDOS

É nesse ponto que a biografia de Ceballos atravessa uma fronteira institucional extraordinariamente importante para esta investigação. Depois de retornar aos Estados Unidos, ele serviu inicialmente no U.S. Army e posteriormente construiu uma longa carreira na Reserva da Marinha americana. A documentação adventista registra 32 anos de serviço nas Forças Armadas dos Estados Unidos, entre ativa e reserva, até alcançar a patente de Commander. Não estamos falando aqui do título de “comandante” empregado internamente pelo Medical Cadet Corps, mas de uma patente militar americana efetiva: a Andrews University o identificava expressamente como “Commander, United States Navy Reserve”.

Mais importante ainda é perceber que suas duas trajetórias — militar e denominacional — não foram simplesmente consecutivas. Durante parte de sua carreira elas foram simultâneas. Ceballos já exercia funções nos Adventist Chaplaincy Ministries da Associação Geral enquanto continuava servindo como capelão da Reserva da Marinha dos Estados Unidos com a patente de Commander. A fronteira que, vista de fora, poderia parecer separar administração religiosa e estrutura militar aparece, na biografia concreta de Ceballos, atravessada pelo mesmo indivíduo: o dirigente denominacional era também oficial da Reserva da Marinha americana.

É essa trajetória completa que precisamos manter diante dos olhos: Venezuela, família pioneira da educação adventista venezuelana, formação teológica, U.S. Army, U.S. Navy Reserve, três décadas de serviço militar, patente de Commander, capelania e administração mundial adventista. Nenhum desses elementos, isoladamente, explica toda a história. Colocados em sequência, porém, eles revelam por que Mario E. Ceballos se tornou uma personagem central para compreendermos a estrutura que estamos investigando.

O COMMANDER CHEGA AO COMANDO MUNDIAL DAS RELAÇÕES MILITARES

Em 2014, Ceballos chegou à direção mundial dos Adventist Chaplaincy Ministries/National Service Organization e, na reorganização posterior, passou a dirigir mundialmente ACM/World Service Organization. É justamente aqui que sua biografia militar ganha peso institucional. A WSO não é simplesmente mais um departamento pastoral da denominação. A própria documentação adventista a descreve como o “official military relations office” da Igreja, enquanto documentação histórica da antiga National Service Organization empregou expressão ainda mais reveladora ao defini-la como “liaison between the Church and the Pentagon”. Liaison significa ligação, interface, elo institucional de comunicação. Não descreve uma amizade abstrata entre pessoas, mas uma função de relacionamento entre estruturas.

Durante a administração de Ceballos, portanto, encontramos à frente do escritório mundial adventista de relações militares um venezuelano que conhecia as Forças Armadas americanas por dentro porque havia pertencido a elas durante décadas. Sua experiência não era teórica, acadêmica ou adquirida apenas pela atividade de capelania civil. Ceballos havia servido no sistema militar americano e chegado à patente de Commander. Ao mesmo tempo, sua administração participou da internacionalização da estrutura de capelania e da retomada mundial de outro organismo que parecia pertencer ao passado adventista: o Medical Cadet Corps.

É nesse momento que a história começa a retornar à América Latina. A revitalização mundial do MCC colocou novamente em circulação treinamento, estrutura de comando, relações com governos e preparação de adventistas para situações militares e de emergência. E Ceballos não estava sozinho nessa expansão. Ao seu redor começam a aparecer nomes que posteriormente assumiriam posições decisivas, entre eles outro venezuelano cuja trajetória terminaria exatamente na cadeira ocupada por Ceballos.

CEBALLOS PREPARA O CAMINHO; OMAÑA ASSUME

Ivan H. Omaña também é venezuelano e também pertence a uma família profundamente inserida na história adventista daquele país. Seu bisavô Julio é apresentado pela própria organização como o primeiro pastor venezuelano ordenado; seu pai e outros integrantes da família exerceram funções ministeriais e administrativas; Ivan estudou Teologia nos Estados Unidos e posteriormente voltou à Venezuela, onde trabalhou durante aproximadamente dez anos como pastor antes de seguir novamente para os Estados Unidos e desenvolver sua carreira na capelania. Portanto, quando Omaña chega posteriormente à direção mundial da WSO, não estamos simplesmente diante da substituição de um administrador por outro: estamos diante da sucessão de dois homens cuja formação pessoal e denominacional está profundamente ligada à Venezuela.

As trajetórias de Ceballos e Omaña, porém, não apenas convergem no cargo. Elas se cruzaram muito antes. Ceballos participou da expansão do sistema de capelania no qual Omaña construiria sua carreira e aparece como seu mentor institucional. Em 2022, imediatamente antes da mudança de comando, os dois estavam formalmente posicionados um ao lado do outro na administração mundial: Ceballos como Director/Endorser de ACM/WSO e Omaña como Associate Director/Endorser. No Medical Cadet Corps a relação hierárquica aparecia ainda mais claramente, com Ceballos no comando mundial e Omaña na posição de Deputy Commander. Quando Ceballos deixou a direção naquele ano, foi precisamente Omaña quem o sucedeu.

A sequência institucional, portanto, merece ser observada inteira: um venezuelano criado no coração do adventismo venezuelano entra nas Forças Armadas dos Estados Unidos, permanece nelas durante 32 anos, alcança a patente de Commander e chega à direção mundial do escritório adventista de relações militares; ao seu lado cresce outro venezuelano, que ocupa a posição imediatamente inferior e posteriormente assume seu lugar. A história, porém, não termina com a sucessão de 2022, porque Ceballos não desaparece da estrutura quando Omaña assume.

CEBALLOS SAI DA DIREÇÃO, MAS NÃO SAI DO MCC

Depois de deixar a direção mundial de ACM/WSO, Ceballos permaneceu ligado ao Medical Cadet Corps e passou a aparecer como MCC Executive Officer, trabalhando sob a liderança de Ivan Omaña. É nesse ponto que a conexão venezuelana deixa definitivamente de ser apenas biográfica. Em uma entrevista de 2026, ao explicar a reorganização internacional do Medical Cadet Corps, Ceballos afirmou pessoalmente que estava trabalhando com a Venezuela no desenvolvimento de um programa adaptado ao país. Sua explicação é especialmente importante porque relaciona essa adaptação às particularidades nacionais: segundo ele, cada país administra suas forças armadas de maneira diferente e, por isso, o programa precisa considerar a realidade específica de cada Estado.

Essa declaração não foi produzida retrospectivamente depois dos acontecimentos políticos que posteriormente transformariam a Venezuela. Quando Ceballos falou, Nicolás Maduro ainda não havia sido preso. Ceballos descrevia no presente um trabalho que já estava sendo realizado com a Venezuela. Isso torna a cronologia muito mais importante do que uma simples coincidência posterior: antes daquele desfecho, o antigo diretor mundial da WSO, veterano de 32 anos das Forças Armadas americanas e Commander da Reserva da Marinha, afirmava publicamente que estava trabalhando no desenvolvimento do programa venezuelano do Medical Cadet Corps.

E a entrevista de 2026 não está sozinha. Quando voltamos um ano na documentação, encontramos a materialização institucional desse trabalho.

2025: O PROGRAMA VENEZUELANO JÁ ESTAVA NO PAPEL

Em 2025, a estrutura adventista venezuelana produziu o Manual de los Cadetes del Cuerpo de Servicio Nacional. O documento regulamenta uma organização com rangos, hierarquia, cadeia de comando, direção operacional, uniformes, distintivos e distribuição territorial. Declara o respaldo da World Service Organization e, mais importante para nossa cronologia, registra Mario Ceballos entre os responsáveis pela revisão técnica. Portanto, quando Ceballos afirmou em 2026 que vinha trabalhando com a Venezuela, não estava anunciando uma intenção futura ou descrevendo uma ideia abstrata: seu nome já aparecia no ano anterior associado tecnicamente à estrutura venezuelana.

O manual também ajuda a compreender por que seria simplificador reduzir essa organização à imagem de um grupo assistencial destinado apenas a enchentes, furacões ou distribuição de alimentos. O próprio sistema adotado possui cadeia de comando, graduações, direção operacional e uniforme tático, e contempla atuação em situações de conflito entre países. Isso não demonstra, por si só, participação em qualquer operação específica do Estado venezuelano ou dos Estados Unidos; demonstra, porém, que estamos diante de uma organização muito mais estruturada do que a expressão genérica “voluntariado humanitário” poderia sugerir.

A cronologia que emerge é progressivamente mais reveladora: em 2018, Ceballos participa da revitalização mundial do Medical Cadet Corps; em 2022, entrega a direção mundial a Ivan Omaña, mas permanece ligado ao MCC; em 2025, seu nome aparece na revisão técnica do manual venezuelano; em 2026, ele próprio declara que está trabalhando com a Venezuela no desenvolvimento do programa. A Venezuela, portanto, não surge acidentalmente no final da história. Ela estava no começo da biografia de Ceballos e reaparece no trabalho que ele desenvolve décadas depois.

AO REDOR DOS DOIS VENEZUELANOS, OFICIAIS SUPERIORES AMERICANOS

A composição humana dessa estrutura amplia ainda mais o quadro. Durante a revitalização mundial do Medical Cadet Corps, Ceballos e Omaña aparecem trabalhando ao lado de oficiais superiores americanos. Em 2018, num encontro realizado em Porto Rico, a própria Divisão Interamericana registrou Mario Ceballos, Hiram Ruiz, Ivan Omaña e Darold Bigger, contra-almirante aposentado da United States Navy, participando daquele processo. Na estrutura contemporânea aparece ainda Andrew R. Harewood, brigadeiro-general aposentado do Exército dos Estados Unidos, ligado à liderança do Medical Cadet Corps.

Quando reunimos essas biografias, o quadro institucional torna-se mais complexo: dois venezuelanos aparecem sucessivamente na direção mundial da estrutura adventista de relações militares; um deles serviu durante 32 anos nas Forças Armadas americanas e alcançou a patente de Commander; oficiais superiores aposentados dos Estados Unidos participam do universo de liderança e treinamento do MCC; e, paralelamente, desenvolve-se na Venezuela uma estrutura de cadetes respaldada pela WSO, tecnicamente revisada por Ceballos e posteriormente mencionada por ele como trabalho em andamento.

O significado dessa composição não depende de imaginar atividades que os documentos não descrevem. Sua importância está justamente naquilo que já é visível: existe uma rede institucional adventista especializada em relações militares, capelania e preparação de cadetes; essa rede possui dirigentes com experiência militar americana de alto nível; mantém atuação internacional; e alcançou concretamente a Venezuela antes da crise que estamos investigando.

VENEZUELA: AS PEÇAS COMEÇAM A SE ENCONTRAR

É nesse ponto que outras descobertas de nossa investigação venezuelana precisam voltar à mesa. Já havíamos encontrado uma Igreja profundamente implantada no território, inclusive em áreas indígenas e fronteiriças; uma rede educacional antiga; a capacidade humanitária da ADRA; relacionamento institucional com autoridades venezuelanas; contatos com representantes americanos; e documentação diplomática na qual aparecem adventistas inseridos no chavismo como fontes de informação que chegava a dirigentes denominacionais em contato com representantes dos Estados Unidos. Agora descobrimos que, paralelamente a esse universo religioso, educacional e humanitário, existe uma estrutura adventista internacional dedicada precisamente às relações militares e governamentais, e que ela também possui uma história venezuelana.

Isso altera a escala da investigação. Antes, ADRA, escolas, missões indígenas, capelania e Medical Cadet Corps podiam parecer peças pertencentes a histórias diferentes. A documentação começa a mostrar os pontos em que essas estruturas se aproximam: território, assistência, educação, relações governamentais, capelania, treinamento, circulação internacional de dirigentes e relacionamento com militares. A existência dessas conexões não autoriza atribuir automaticamente a qualquer uma delas participação numa operação específica; mas torna indispensável investigar como funcionavam, quem as integrava e quais relações mantinham no período imediatamente anterior aos acontecimentos que culminaram na prisão de Maduro.

DA GRAN SABANA À WSO: A VENEZUELA NOS DOIS EXTREMOS DA CADEIA

A Gran Sabana assume, dentro desse quadro, significado mais amplo. A presença adventista entre comunidades indígenas, suas escolas, missões, estruturas assistenciais e conhecimento acumulado do território fazem parte de uma rede construída ao longo de décadas. Uma organização religiosa que chega a comunidades remotas por meio de professores, pastores, médicos, missionários e agentes humanitários acumula necessariamente relações humanas, capacidade logística, comunicação e conhecimento territorial. Em outro plano da mesma denominação, encontramos agora uma estrutura mundial especializada em relacionamento com militares e governos, comandada sucessivamente por dois venezuelanos e integrada por homens com extensa experiência nas Forças Armadas dos Estados Unidos.

A Venezuela aparece, assim, nos dois extremos da cadeia que estamos reconstruindo. Embaixo, no território, encontramos comunidades, escolas, igrejas, assistência humanitária e uma estrutura venezuelana de cadetes com cadeia de comando própria. Em cima, na administração mundial, encontramos sucessivamente Mario E. Ceballos e Ivan H. Omaña. Ceballos nasceu e foi criado na Venezuela, pertence à família de um pioneiro da educação adventista venezuelana, passou 32 anos nas Forças Armadas dos Estados Unidos, chegou a Commander e dirigiu mundialmente ACM/WSO. Omaña, igualmente venezuelano e igualmente pertencente a uma família histórica da denominação naquele país, trabalhou ao seu lado, tornou-se seu deputy no MCC e finalmente o sucedeu.

E então a trajetória faz o movimento completo: Venezuela → Estados Unidos → Forças Armadas americanas → WSO → Medical Cadet Corps → Venezuela. Ceballos sai daquele universo venezuelano ainda jovem, atravessa uma carreira militar americana de três décadas, chega ao comando mundial das relações militares adventistas e, décadas depois, reaparece trabalhando tecnicamente no desenvolvimento da estrutura de cadetes exatamente no país onde sua história começou.

Essa circularidade biográfica e institucional é uma das descobertas mais importantes que fizemos até agora. Ela não encerra a investigação; ao contrário, finalmente nos mostra onde procurar. A pergunta seguinte já não é se existia uma estrutura adventista de relações militares alcançando a Venezuela, porque sua própria documentação demonstra que existia. A pergunta decisiva passa a ser outra: quem compunha essa estrutura dentro da Venezuela, com quais instituições militares e governamentais ela se relacionava e o que aconteceu com essa rede nos meses que antecederam a prisão de Nicolás Maduro?

NÃO É MAIS UNIÃO ENTRE IGREJA E ESTADO

É por isso que abandonamos definitivamente a expressão que utilizávamos antes. União entre Igreja e Estado ainda pressupõe duas instituições separadas que, em determinado momento, aproximam-se demais. Essa imagem já não explica aquilo que encontramos. Quando uma organização religiosa possui estruturas permanentes de relações militares, prepara pessoal, mantém comandantes, incorpora oficiais superiores, acompanha membros dentro do aparelho estatal, constrói relações com autoridades, organiza uma igreja para sua comunidade militar e governamental e mantém tudo isso atravessando gerações, governos e guerras, a fronteira deixou de ser suficientemente nítida para falarmos apenas em união.

Estamos diante de uma Igreja-Estado. A IASD visível, aquela que o membro encontra no sábado, funciona como sua face religiosa. Por trás dela encontramos uma arquitetura muito mais antiga e resistente às mudanças administrativas, capaz de sobreviver a presidentes da Associação Geral, reorganizações territoriais, guerras mundiais, Guerra Fria, revoluções latino-americanas e mudanças na própria natureza da guerra.

A IASD QUE CONHECEMOS NÃO ESTÁ NO TOPO

Essa é a inversão mais grave de toda a nossa investigação. Durante gerações olhamos para o presidente da Associação Geral como se estivéssemos olhando para o ponto mais alto da estrutura. Agora percebemos que o poder não precisa obedecer ao organograma eclesiástico apresentado nos anuários. Presidentes passam. Secretários passam. Tesoureiros passam. A relação com Estado e poder militar atravessa as administrações. A War Service Commission desaparece e reaparece com outro nome. O MCC diminui e depois é revitalizado. A NSO é absorvida pela capelania. A WSO emerge. Oficiais militares entram. Comandantes aparecem. A Adventist Military Church permanece disponível para a comunidade governamental e militar.

A IASD religiosa aparece subordinada a essa lógica Igreja-Estado, e não o contrário. A instituição visível fornece religião, membresia, legitimidade confessional, capilaridade territorial e uma população mundial organizada. A Igreja-Estado fornece continuidade na relação com governos, militares, estruturas de segurança e servidores públicos. É essa inversão que transforma nossa investigação numa denúncia muito maior do que qualquer discussão convencional sobre favorecimento político ou financiamento público.

CUBA FOI O ENSAIO; A VENEZUELA REVELA A CONTINUIDADE

Cuba nos permitiu enxergar o mecanismo em movimento. Jovens treinados antes da guerra; uma instituição educacional preparada para mobilização; adventistas na Sierra Maestra; apoio logístico em Santa Clara; contatos com Che; relações posteriores com o governo revolucionário; e uma denominação que conseguiu adaptar-se à nova ordem. A Venezuela nos mostra a continuidade da mesma capacidade num mundo diferente: presença territorial, ADRA, relações governamentais, Medical Cadet Corps revitalizado, adventistas dentro do chavismo, interlocução com os Estados Unidos e, acima de tudo isso, uma estrutura mundial cujo atual comandante nasceu na própria Venezuela e cujo oficial executivo é um general americano.

Não estamos mais olhando para coincidências espalhadas ao longo de um século. Estamos olhando para uma genealogia institucional.

A OUTRA IGREJA SEMPRE ESTEVE DIANTE DE NÓS

Agora conseguimos enxergar aquilo que permaneceu invisível justamente porque recebia nomes diferentes em épocas diferentes. Em 1918 chamava-se War Service Commission. Depois apareceu como Commission on National Service and Medical Cadet Training. Tornou-se International Service Commission. Transformou-se em National Service Organization. Foi incorporada aos Adventist Chaplaincy Ministries. Expandiu-se novamente como World Service Organization. Manteve o Medical Cadet Corps. Criou mecanismos de acompanhamento de adventistas no serviço governamental. Adotou linguagem explícita de comando. E mantém uma Adventist Military Church.

Os nomes mudaram. A lógica permaneceu.

Existe uma outra e poderosa Igreja Adventista, uma Igreja-Estado que cresceu atrás da IASD religiosa que conhecemos e à qual essa IASD está subordinada. Sua história atravessa Washington, quartéis, hospitais militares, Whitecoat, campos de treinamento, Cuba, a Divisão Interamericana, Venezuela e a própria sede mundial da denominação. Na superfície vemos pastores. Quando descemos pela documentação, encontramos cadetes, oficiais, comandantes e generais.

E agora finalmente entendemos o tamanho daquilo que estava diante de nós. A não combatência não manteve a IASD longe da estrutura militar; forneceu a linguagem religiosa através da qual ela aprendeu a funcionar dentro dela. A capelania não substituiu essa estrutura; deu-lhe uma face pastoral. A assistência humanitária não apagou as competências desenvolvidas durante décadas de treinamento; levou organização, disciplina, logística e presença para novos territórios. E a Adventist Military Church não é uma aberração isolada no fim dessa história. Ela é a consequência eclesiástica lógica de mais de um século de construção da Igreja-Estado.

DA IGREJA DO SÁBADO À IGREJA DOS COMANDANTES

É essa a denúncia mais grave a que chegamos desde que começamos a investigar a história política do adventismo. Não encontramos apenas uma denominação que ocasionalmente se comprometeu com governos. Não encontramos apenas ADRA recebendo recursos estatais. Não encontramos apenas pastores conversando com diplomatas. Não encontramos apenas jovens treinados para servir sem armas. Encontramos uma estrutura religiosa que aprendeu a habitar o Estado, a acompanhar seus homens dentro dele, a relacionar-se com seu aparato militar e a transformar essa relação numa instituição permanente.

Durante todo esse tempo continuamos olhando para a igreja do sábado e acreditando que ali estava a Igreja inteira. Não estava.

Enquanto olhávamos para o púlpito, havia outra porta.

Agora nós a abrimos.

E atrás dela não encontramos apenas pastores. Encontramos a Igreja-Estado.

OBS. Nossa compreensão do tema denunciado acima foi se agravando à medida em que preparávamos o texto final. Acompanhe o processo todo, lendo suas primeiras versões:

A OUTRA IGREJA ADVENTISTA: DE OBJETORES DA GUERRA A UMA ESTRUTURA MUNDIAL DE RELAÇÕES MILITARES

Existe dentro da Igreja Adventista do Sétimo Dia uma estrutura que a maioria dos membros provavelmente jamais encontrou na Escola Sabatina, no culto de sábado ou numa campanha evangelística. Ela possui comandantes, oficiais executivos, programas de treinamento, relacionamento permanente com governos e militares, cadastro de adventistas espalhados pelo aparelho estatal e, na América do Norte, até uma instituição denominada oficialmente Adventist Military Church. Não se trata de nomenclatura inventada por críticos. É assim que a própria Organização se apresenta.

Sua história torna o fenômeno ainda mais significativo. Em 1864, durante a Guerra Civil americana, a jovem denominação procurou o Estado para obter reconhecimento de seus membros como não combatentes. A posição original era defensiva: os adventistas declaravam oposição de consciência ao porte de armas e procuravam proteção jurídica contra as exigências militares. A própria World Service Organization reproduz hoje aquela declaração histórica e reconhece que o objetivo era enquadrar os adventistas nas disposições legais destinadas àqueles que se opunham conscientemente a portar armas.

1918: NASCE A WAR SERVICE COMMISSION

A Primeira Guerra Mundial mudou o problema. Quando os Estados Unidos entraram no conflito e jovens adventistas começaram a enfrentar o recrutamento, a Associação Geral criou, em julho de 1918, a War Service Commission. O nome dispensa eufemismos: Comissão de Serviço de Guerra. Carlyle B. Haynes foi colocado à frente da estrutura. A guerra terminou pouco depois e a comissão foi desativada em 1919, mas estava criado o precedente institucional: a relação entre a denominação, seus jovens e a máquina militar deixava de ser tratada apenas ocasionalmente e ganhava uma estrutura administrativa própria.

A Segunda Guerra Mundial faria essa estrutura ressurgir com muito mais força. A história oficial da WSO admite expressamente que, diante da nova guerra que se aproximava na década de 1930, a liderança adventista começou a preparar seus membros para outra guerra. Everett N. Dick desenvolveu então o Medical Cadet Corps. Os jovens recebiam instrução de marcha, ordem unida e medicina de campo de batalha. A não combatência adventista deixava, portanto, de significar simplesmente permanecer fora da guerra. Passava a significar aprender antecipadamente como funcionar dentro dela sem carregar a arma.

A NÃO COMBATÊNCIA QUE COOPERAVA COM A GUERRA

É aqui que a expressão “não combatente” precisa ser retirada de sua embalagem devocional. O adventista podia não apertar o gatilho, mas podia ser treinado, incorporado, uniformizado e colocado dentro da estrutura que sustentava quem apertava. A historiografia adventista chama essa posição de “conscientious cooperation” — cooperação consciente. A expressão é extraordinariamente reveladora. Não era pacifismo. Era cooperação militar delimitada pela consciência denominacional.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a estrutura adventista orientava seus jovens sobre registro, classificação militar e ingresso como não combatentes. Seus representantes encontravam pessoalmente oficiais militares, negociavam problemas relacionados ao sábado e acompanhavam os adventistas nos campos de treinamento. O Medical Cadet Corps passou para a administração da comissão responsável pelo serviço militar. Igreja e Exército aprenderam a conversar institucionalmente.

1950: A GUERRA ADVENTISTA TORNA-SE INTERNACIONAL

Depois da Segunda Guerra, a engrenagem não foi desmontada. Pelo contrário. Com a Guerra da Coreia e a expansão militar americana no exterior, a Igreja criou em 1950 uma estrutura internacional para atender militares adventistas fora da América do Norte e ajudar outras regiões do mundo a estabelecer suas próprias comissões e seus próprios Medical Cadet Corps. Em 1954, as estruturas foram consolidadas na National Service Organization.

A mudança de nome é particularmente interessante. A própria história adventista reconhece que algumas Divisões mundiais não gostavam da palavra “war” — guerra — no nome da organização. A solução não foi abandonar a atividade. Foi mudar a nomenclatura. Nos Estados Unidos, entretanto, “War Service Commission” continuou sendo usado durante algum tempo porque o nome já era reconhecido pelas autoridades governamentais e militares.

A guerra desaparecia progressivamente da placa. Não desaparecia necessariamente da função.

WHITECOAT: QUANDO A NÃO COMBATÊNCIA ENTROU NO LABORATÓRIO MILITAR

É nessa mesma estrutura que encontramos a Operação Whitecoat. A historiografia oficial adventista reconhece que a National Service Organization passou a recrutar voluntários adventistas para o programa do Exército americano que utilizou jovens como sujeitos humanos em pesquisas de medicina preventiva relacionadas a agentes biológicos. Aproximadamente 2.300 a 2.500 adventistas participaram ao longo do programa, dependendo da fonte e do critério de contagem.

A ironia histórica é difícil de ignorar. A estrutura criada originalmente para administrar a objeção adventista à guerra tornou-se interlocutora de um programa do Exército dos Estados Unidos realizado em Fort Detrick e associado à pesquisa de defesa biológica. A Igreja continuava chamando seus jovens de não combatentes. Mas eles estavam suficientemente integrados ao sistema militar para que sua disponibilidade, disciplina e posição religiosa os transformassem num grupo particularmente adequado aos experimentos.

Não combatência, nesse contexto, não significava separação do aparato militar. Significava uma modalidade específica de participação nele.

DA COMISSÃO DE GUERRA À CAPELANIA

Outra transformação merece atenção. Em 1943, a própria Igreja havia recomendado que ministros adventistas não servissem como capelães militares. Pouco mais de uma década depois, a posição havia mudado: em 1956 já existiam sete capelães adventistas oficialmente endossados servindo na ativa em diferentes ramos das Forças Armadas americanas. Em 1965 eram quatorze.

A capelania ofereceu uma solução institucional extraordinariamente eficiente para uma denominação que precisava conciliar duas identidades aparentemente contraditórias. Era possível preservar o discurso histórico da não combatência e, simultaneamente, manter ministros adventistas oficialmente inseridos dentro das Forças Armadas. O pastor não carregava necessariamente o fuzil. Mas vestia o uniforme, recebia acesso institucional e exercia seu ministério dentro da estrutura militar.

É nesse sentido que a capelania pode funcionar como cobertura religiosa de uma integração institucional muito mais profunda. Não estamos dizendo que assistência espiritual aos militares seja fictícia; ela é uma atividade real. O que nossa crítica aponta é que a palavra “capelania”, quando utilizada sozinha, suaviza aquilo que a própria documentação histórica revela: a denominação construiu uma infraestrutura permanente de relacionamento, representação e presença dentro do universo militar e governamental.

1973: ACABA O RECRUTAMENTO, MAS NÃO ACABA A ESTRUTURA

O fim do recrutamento obrigatório nos Estados Unidos em 1973 deveria, em tese, ter eliminado grande parte da razão original de existir dessa máquina. E realmente houve declínio do Medical Cadet Corps norte-americano. Mas a estrutura institucional sobreviveu e começou a mudar de função.

A própria historiografia adventista reconhece que o conceito de pessoa atendida foi progressivamente ampliado. Já não eram apenas soldados. Entraram policiais, agentes públicos, primeiros socorristas e outras categorias uniformizadas. A WSO/NSO transformou-se numa ponte entre a Igreja e um universo muito maior de instituições estatais.

A NÃO COMBATÊNCIA TAMBÉM MUDOU

Enquanto isso, a própria doutrina prática sobre serviço militar foi flexibilizada. Em 1969, a Igreja reafirmou a não combatência, admitindo também a escolha pacifista. Em 1972, porém, decidiu tratar a questão fundamentalmente como matéria de consciência individual. A documentação denominacional reconhece que a Igreja continuou recomendando sua posição histórica, mas passou também a reconhecer que alguns membros poderiam conscientemente escolher funções combatentes.

Essa mudança é fundamental. A instituição que nasceu reivindicando reconhecimento para pessoas conscientemente contrárias a portar armas passou a oferecer assistência religiosa também ao adventista que voluntariamente escolhesse servir armado. A fronteira denominacional deslocou-se: a Igreja deixou de determinar integralmente a modalidade de participação e passou a acompanhar o membro dentro da estrutura militar qualquer que fosse sua decisão de consciência.

A “IGREJA MILITAR ADVENTISTA”

A consequência institucional dessa trajetória hoje possui um nome que parece impossível até que se visite o próprio site adventista: Adventist Military Church — North American Division.

Trata-se literalmente de uma igreja adventista destinada a membros enviados ao exterior durante seis meses ou mais em serviço oficial governamental ou relacionado às Forças Armadas dos Estados Unidos ou Canadá. A elegibilidade não se restringe aos militares da ativa. Inclui funcionários civis, professores, trabalhadores da AAFES, contratados e familiares. O membro pode transferir formalmente sua membresia denominacional para essa Igreja Militar Adventista enquanto estiver no exterior.

Isso significa que a integração deixou de ser apenas assistência ocasional prestada a um jovem recrutado contra sua vontade. A denominação criou uma comunidade eclesiástica especializada para acompanhar adventistas que fazem parte da presença governamental e militar norte-americana espalhada pelo mundo.

UMA REDE MUNDIAL QUE CADASTRA ADVENTISTAS DENTRO DO ESTADO

A estrutura atual vai ainda mais longe. A própria WSO declara que funciona no nível mundial e das Divisões, enquanto as National Service Organizations atuam nas Uniões, Associações e níveis locais. Sua missão oficial é apoiar adventistas que servem seus governos nas forças militares e de defesa, polícia e outras agências governamentais.

Entre suas funções declaradas está desenvolver e manter relações efetivas de trabalho com funcionários civis dos governos. A organização também trabalha para obter reconhecimento oficial de alternativas ou exceções ao serviço militar e promove programas como Medical Cadet Corps e Youth Emergency Services.

Mas talvez a atribuição menos conhecida seja ainda mais reveladora: a WSO/NSO afirma manter um banco de dados dos adventistas que trabalham no serviço governamental, incluindo militares, policiais, parlamentares e integrantes de instituições correcionais. A Igreja possui, portanto, uma estrutura internacional que procura saber onde estão seus membros dentro de setores importantes do aparelho estatal.

CAPELANIA É APENAS UMA PARTE DA HISTÓRIA

É por isso que reduzir toda essa estrutura à palavra “capelania” produz uma imagem incompleta. Capelania explica o cuidado pastoral oferecido ao indivíduo. Não explica sozinha o banco de dados de membros no aparelho estatal; não explica o relacionamento institucional com autoridades civis e militares; não explica o Medical Cadet Corps; não explica as negociações sobre serviço militar; não explica a antiga War Service Commission; não explica Whitecoat; não explica os centros mantidos para militares adventistas em pontos estratégicos como Alemanha, Coreia, Japão e até Saigon durante a era da Guerra do Vietnã.

Capelania é parte verdadeira dessa história. Mas existe ao redor dela uma arquitetura de relações militares e governamentais muito maior.

O CAPELÃO VAI ONDE O PASTOR COMUM NÃO PODE ENTRAR

A própria Encyclopedia of Seventh-day Adventists oferece uma definição involuntariamente reveladora da vantagem institucional da capelania. Explica que ministros externos podem ser barrados ou ignorados por determinadas instituições, enquanto o capelão é esperado e aceito dentro delas. O texto acrescenta que os capelães adventistas levam a presença da Igreja justamente a lugares aos quais outros ministros não podem ou não querem ir.

Essa é a diferença fundamental. O capelão não é simplesmente um pastor visitando ocasionalmente um quartel. Ele possui legitimidade institucional para estar dentro de um ambiente fechado ao ministro comum. Sua função religiosa é real; seu acesso institucional também é real. E é precisamente esse acesso que torna a capelania estratégica para qualquer denominação interessada em acompanhar seus membros e manter presença dentro das estruturas estatais.

DA GUERRA AO DESASTRE: O MEDICAL CADET CORPS MUDA DE CAMPO

A metamorfose do Medical Cadet Corps completa o quadro. Criado para preparar jovens adventistas para funcionar como não combatentes dentro de uma guerra, o MCC perdeu importância nos Estados Unidos depois do fim do recrutamento, mas sobreviveu em outros países e posteriormente foi revitalizado para emergências, primeiros socorros, logística e assistência humanitária.

A competência institucional, entretanto, não evaporou. Marcha, disciplina, comando, organização, primeiros socorros, transporte de feridos e capacidade de rápida mobilização continuam extraordinariamente úteis numa catástrofe. O cenário mudou: aquilo que preparava o jovem para o campo militar pode prepará-lo agora para o campo humanitário.

É aqui que nossa expressão anterior — “antes, guerra de invasão; agora, guerra de infiltração” — encontra seu sentido crítico. Não estamos dizendo que cada cadete ou capelão participe de uma operação clandestina. Estamos apontando uma transformação institucional: competências desenvolvidas para operar dentro da guerra foram reutilizadas para criar presença organizada em ambientes civis, emergenciais e governamentais aos quais uma força estrangeira jamais teria acesso semelhante.

A ORGANIZAÇÃO QUE APRENDEU A CONVERSAR COM GENERAIS E GOVERNOS

A própria WSO declara atualmente que “education and relationship building with government and military leaders” — educação e construção de relacionamento com dirigentes governamentais e militares — fazem parte de sua função internacional. Isso é uma declaração institucional, não uma acusação externa.

E a frase final de sua apresentação histórica talvez seja ainda mais reveladora: a WSO/NSO promete continuar oferecendo preparação e aconselhamento a quem esteja no serviço militar ou pensando em ingressar nele, adaptando-se às “changing trends of the military” — às mudanças das tendências militares e daqueles que servem seus países.

Estamos muito longe da simples história de uma igreja que, constrangida pela guerra, tenta proteger jovens pacifistas.

DE 1864 AO “COMANDANTE MUNDIAL”

A cronologia completa produz um contraste impressionante. Em 1864, adventistas comparecem perante o Estado pedindo reconhecimento porque se consideram conscientemente contrários a portar armas. Em 1918 surge uma Comissão de Guerra. Nos anos 1930 e 1940 a denominação prepara jovens para funcionar dentro do ambiente militar. Nos anos 1950 internacionaliza a estrutura. Depois vem a National Service Organization, a Operação Whitecoat, a expansão dos capelães militares, os centros para militares adventistas espalhados pelo mundo, a flexibilização da antiga não combatência, a integração das capelanias e finalmente a World Service Organization.

Hoje essa estrutura possui um World Commanding Officer. E o atual Comandante Mundial, Ivan H. Omaña, é venezuelano, ex-pastor na Venezuela e membro de uma família profundamente ligada à história administrativa da IASD naquele país. Imediatamente abaixo dele está um World Commanding Executive Officer cuja carreira inclui o posto de brigadeiro-general do Exército dos Estados Unidos e trabalho no Pentágono. Dentro do mesmo universo permanece o Medical Cadet Corps.

NÃO COMBATÊNCIA OU COOPERAÇÃO ORGANIZADA?

O problema histórico, portanto, não é simplesmente descobrir se um adventista segurava ou não uma arma. Essa pergunta é pequena demais diante da estrutura que a própria documentação denominacional revela.

A questão maior é como uma igreja que construiu parte importante de sua identidade histórica sobre a não combatência desenvolveu, geração após geração, uma infraestrutura mundial destinada a administrar sua presença dentro das Forças Armadas e do aparelho estatal; relacionar-se com autoridades militares e governamentais; preparar jovens para ambientes militares e emergenciais; acompanhar funcionários públicos; endossar capelães; cadastrar membros inseridos em instituições estatais e manter uma igreja específica para adventistas vinculados à presença militar e governamental norte-americana no exterior.

A resposta que emerge da cronologia é desconfortável: a não combatência adventista nunca significou necessariamente afastamento da máquina de guerra. Em boa parte de sua história moderna, significou encontrar uma maneira denominacionalmente aceitável de cooperar com ela.

E a capelania tornou essa acomodação ainda mais eficiente. Sob uma função pastoral legítima, criou-se também uma via institucional permanente de presença dentro de ambientes militares aos quais o pastor comum não possui acesso. O resultado contemporâneo não é uma pequena pastoral destinada a consolar soldados adventistas. É uma estrutura mundial, hierarquizada e internacionalizada, que a própria Igreja descreve como responsável por manter relações com governos e militares e adaptar-se continuamente às transformações do serviço militar.

Talvez seja por isso que a denominação tenha hoje algo que poucos membros imaginam existir: uma Adventist Military Church. O nome apenas torna visível aquilo que a história já havia construído.

 

A OUTRA IGREJA ADVENTISTA EXISTE

Da War Service Commission à Adventist Military Church: 160 anos construindo a estrutura militar e governamental da IASD

Existe uma Igreja Adventista que o membro comum conhece. É a igreja do sábado, da Escola Sabatina, dos cultos, das campanhas evangelísticas, dos colégios, hospitais, clubes de jovens e projetos assistenciais. É administrada por pastores, Associações, Uniões, Divisões e, no topo, pela Associação Geral.

Mas os próprios documentos da denominação revelam a existência, dentro dessa estrutura, de uma segunda arquitetura institucional muito menos conhecida. Ela possui comando mundial, oficiais executivos, operações, treinamento, cadetes, militares, policiais, veteranos, relações permanentes com autoridades governamentais e militares e um banco de dados destinado a localizar adventistas que servem dentro do aparelho estatal. E possui até uma igreja com nome oficial que deveria causar espanto em qualquer adventista que tenha aprendido desde criança a narrativa da tradicional não combatência denominacional: Adventist Military Church — North American Division.

Não estamos diante de uma organização marginal surgida à revelia da Igreja. A World Service Organization está instalada na própria sede mundial da Igreja Adventista, em Silver Spring, Maryland. A política oficial da Associação Geral define WSO/NSO como parte integrante dos Adventist Chaplaincy Ministries e, em publicação oficial da própria organização, como o “official military relations office of the Seventh-day Adventist Church”: o escritório oficial de relações militares da IASD. A estrutura mundial funciona na Associação Geral e nas Divisões; suas National Service Organizations descem pelas Uniões, Associações e níveis locais. :chatgpt-content-reference{index=”0″}

Isso altera radicalmente a leitura de sua história. Não estamos investigando simplesmente alguns pastores que resolveram acompanhar soldados adventistas. Estamos diante da institucionalização, ao longo de mais de um século, da relação entre a Igreja, o Estado e as estruturas militares.

1864: TUDO COMEÇOU COM A RECUSA EM PEGAR EM ARMAS

A ironia histórica começa durante a Guerra Civil americana. Em 1864, a jovem denominação procurou oficialmente o governo dos Estados Unidos para conseguir o reconhecimento de seus membros como pessoas conscientemente contrárias ao porte de armas. Era uma posição essencialmente defensiva. O adventista não queria matar e procurava proteção do Estado para que sua consciência religiosa fosse respeitada.

A própria WSO preserva a declaração apresentada às autoridades naquele ano, reivindicando para os adventistas os benefícios legais concedidos àqueles que eram “conscientiously opposed to bearing arms”. O governo reconheceu a posição não combatente. Terminada a guerra, a Igreja deixou praticamente adormecida a questão militar. :chatgpt-content-reference{index=”1″}

Mas aquela distância não sobreviveria ao século XX.

1918: NASCE A WAR SERVICE COMMISSION

Quando os Estados Unidos entraram na Primeira Guerra Mundial e o recrutamento voltou a alcançar jovens adventistas, a denominação criou em julho de 1918 uma organização específica: War Service Commission.

Comissão de Serviço de Guerra.

O nome é importante porque registra o momento em que a questão militar deixou de ser apenas um problema individual de consciência e ganhou estrutura administrativa denominacional. Carlyle B. Haynes tornou-se secretário da comissão. A guerra terminou, a comissão foi desativada em 1919, mas o precedente estava estabelecido: a Igreja possuía agora experiência institucional para administrar sua relação com a máquina militar americana.

QUANDO OUTRA GUERRA CHEGOU, A IGREJA COMEÇOU A TREINAR SEUS JOVENS

Nos anos 1930, a Europa novamente caminhava para a guerra. E a descrição da própria WSO é extraordinariamente direta: a liderança da Igreja começou a preparar seus membros para outra guerra.

Foi nesse ambiente que Everett N. Dick concebeu o Medical Cadet Corps. O primeiro programa surgiu no Union College, em Nebraska. Os jovens adventistas passaram a receber instrução de marcha, ordem unida e medicina de campo de batalha. Em 1940, a antiga comissão foi revitalizada e recebeu o nome Commission on National Service and Medical Cadet Training. Em 1942, voltou a chamar-se War Service Commission. :chatgpt-content-reference{index=”3″}

A metamorfose já estava em andamento. O adventista continuava sendo chamado de não combatente, mas agora era preparado antecipadamente para funcionar dentro de uma guerra.

A NÃO COMBATÊNCIA TORNOU-SE UMA FORMA DE COOPERAÇÃO

A palavra não combatência produziu durante gerações uma imagem muito mais simples do que a realidade institucional. Não significava necessariamente permanecer fora das Forças Armadas. Significava poder entrar nelas, usar uniforme, obedecer à hierarquia, receber treinamento e servir em unidades militares, desde que a função não exigisse diretamente o uso de armas.

A posição oficial contemporânea continua reveladora. A própria WSO afirma que a lealdade ao governo exige disposição para servir ao Estado em funções não combatentes, civis ou militares, na guerra ou na paz, uniformizado ou não. E reconhece expressamente que a não combatência é recomendada, não obrigatória: adventistas podem escolher inclusive funções combatentes e continuar recebendo assistência pastoral da Igreja. :chatgpt-content-reference{index=”4″}

Portanto, a não combatência deixou de funcionar como uma muralha entre IASD e aparato militar. Tornou-se uma modalidade denominacional de participação nele.

1950: A ESTRUTURA MILITAR ADVENTISTA TORNA-SE INTERNACIONAL

O sucesso do Medical Cadet Corps nos Estados Unidos levou à internacionalização. Em 1950 surgiu a International Service Commission. Em 1954, sua fusão com a War Service Commission produziu a National Service Organization

Existe um detalhe aparentemente burocrático que revela muito. Algumas Divisões mundiais da IASD se incomodavam com a palavra war no nome da organização. A denominação então permitiu que as regiões escolhessem nomes mais adequados às circunstâncias locais. Mas, na América do Norte, War Service Commission continuou sendo utilizado durante algum tempo por uma razão reveladora: aquele nome já era reconhecido pelas autoridades governamentais e militares americanas.

A palavra guerra podia desaparecer da placa. A relação institucional permanecia.

WHITECOAT: A NÃO COMBATÊNCIA ENTRA NO PROGRAMA DO EXÉRCITO

Então veio a Operação Whitecoat.

A National Service Organization participou do recrutamento de voluntários adventistas para o programa de pesquisas médicas do Exército dos Estados Unidos. Documentação histórica adventista registra aproximadamente 2.500 jovens adventistas voluntários como sujeitos humanos em estudos de medicina preventiva ligados ao programa militar americano entre 1953 e 1973. :chatgpt-content-reference{index=”7″}

A história da NSO registra ainda que o programa foi apresentado a Theodore R. Flaiz, secretário médico da Associação Geral, que o discutiu com a alta liderança denominacional. Depois do endosso da Associação Geral, a participação adventista passou a ser administrada dentro da relação institucional com os militares. :chatgpt-content-reference{index=”8″}

Esse episódio destrói a imagem de uma denominação simplesmente afastada da máquina militar por sua não combatência. A organização criada para administrar os problemas dos adventistas diante do serviço militar tornou-se interlocutora de um programa de pesquisa do próprio Exército.

O PASTOR TAMBÉM ENTROU NO EXÉRCITO

Outra fronteira caiu quase simultaneamente.

Em 1943, a recomendação denominacional era que ministros adventistas não servissem como capelães militares. Em 1956, apenas treze anos depois, já havia sete capelães adventistas oficialmente endossados pela Igreja servindo na ativa nas Forças Armadas americanas. Em 1965 eram quatorze. :chatgpt-content-reference{index=”9″}

Capelania tornou-se a palavra religiosa sob a qual essa presença pôde crescer. O capelão continua sendo pastor e presta assistência espiritual real. Mas institucionalmente ele possui algo que o pastor comum não possui: entrada reconhecida e permanente no ambiente militar.

Por isso, limitar toda essa arquitetura à palavra capelania é esconder sua dimensão. Capelania descreve uma de suas funções. Não descreve a estrutura inteira.

A IGREJA ACOMPANHOU A EXPANSÃO MILITAR AMERICANA PELO MUNDO

Depois da Segunda Guerra, tropas americanas permaneceram espalhadas por vários continentes. A IASD acompanhou esse deslocamento.

A própria história da WSO registra centros para militares adventistas em San Antonio, Takoma Park, Tacoma, Frankfurt, Seul e Okinawa. A lógica era simples: onde havia contingentes americanos, havia adventistas uniformizados; onde havia adventistas uniformizados, a denominação procurava construir uma infraestrutura para acompanhá-los. :chatgpt-content-reference{index=”10″}

Assim, a presença adventista dentro do universo militar deixou de ser episódica e tornou-se transnacional.

1973: ACABOU O RECRUTAMENTO. A ORGANIZAÇÃO NÃO ACABOU.

Quando terminou o recrutamento obrigatório nos Estados Unidos, desapareceu justamente a necessidade que originalmente justificara grande parte dessa estrutura. Se sua finalidade fosse apenas proteger jovens obrigados a servir, seria natural que ela encolhesse até desaparecer.

Não aconteceu.

A organização ampliou seu universo. Militares continuaram. Vieram policiais, funcionários públicos, agentes penitenciários, bombeiros, equipes de resgate, socorristas e outros integrantes das estruturas governamentais.

A WSO atual apresenta como categorias de serviço Military Service, Law Enforcement, Fire and Rescue, Medical Cadet Corps e Veterans. Sua própria página inicial chama essa comunidade de adventistas que servem suas nações a juntar-se à organização. :chatgpt-content-reference{index=”11″}

DE NATIONAL SERVICE ORGANIZATION A WORLD SERVICE ORGANIZATION

A estrutura finalmente ganhou dimensão mundial. A WSO opera no nível da Associação Geral e das Divisões; as National Service Organizations descem às Uniões, Associações e estruturas locais.

E aqui terminam definitivamente as possibilidades de descrevê-la simplesmente como um ministério para soldados adventistas.

A própria política oficial estabelece entre suas funções desenvolver e manter relações efetivas de trabalho com funcionários civis dos governos. Também determina apoio a adventistas que servem nas forças militares e de defesa, polícia e outras agências governamentais. :chatgpt-content-reference{index=”12″}

Em publicação própria, a organização explicou que WSO e NSO deveriam desenvolver e ampliar working relationships with government officials at various levels: relações de trabalho com autoridades governamentais em diferentes níveis. :chatgpt-content-reference{index=”13″}

Isso não é capelania. É relação institucional Igreja-Estado organizada mundialmente.

A IGREJA CRIOU UM BANCO DE DADOS DE ADVENTISTAS DENTRO DO ESTADO

Talvez nenhum item revele melhor a amplitude dessa máquina.

A política oficial determina que WSO/NSO mantenha um banco de dados de todos os membros adventistas no serviço governamental, incluindo militares, forças policiais, parlamentos e instituições correcionais. :chatgpt-content-reference{index=”14″}

E isso saiu do papel.

Em 2022, a WSO anunciou o lançamento de seu sistema de cadastro e pediu que adventistas empregados no setor público criassem seus perfis. A lista incluía militares da ativa, reservistas, Guarda Nacional, forças estaduais de defesa, policiais municipais, estaduais e federais, bombeiros, socorristas, agentes penitenciários, funcionários governamentais municipais, estaduais e federais e veteranos. O cadastro solicita nome, informações de contato, dados do serviço governamental e relação com a Igreja. :chatgpt-content-reference{index=”15″}

Estamos diante de uma estrutura denominacional internacional que procura identificar seus próprios membros distribuídos pelo aparelho estatal.

A ADVENTIST MILITARY CHURCH

E então chegamos à instituição que torna visível aquilo que durante décadas permaneceu disperso por siglas administrativas.

Adventist Military Church — North American Division.

O nome não é provocação nossa. É o nome oficial escolhido pela própria organização.

Ela existe para atender adventistas vinculados à presença governamental e militar norte-americana e canadense no exterior. Militares não são os únicos abrangidos. A estrutura contempla também categorias civis e outras pessoas ligadas à presença governamental e militar.

O detalhe é teologicamente e institucionalmente extraordinário: não estamos falando apenas de um capelão visitando um soldado. Estamos falando de uma igreja.

Uma igreja criada especificamente para uma comunidade adventista formada no interior da presença militar e governamental norte-americana espalhada pelo mundo.

A OUTRA IGREJA ADVENTISTA

É aqui que nossa denúncia assume sua verdadeira dimensão.

Existe oficialmente, dentro da IASD, uma segunda arquitetura eclesiástica especializada no universo militar e estatal. Não é juridicamente uma denominação separada. É mais inquietante justamente porque está incorporada à própria denominação.

Ela possui história própria, burocracia própria, cadeia administrativa internacional, programas próprios, cadastro próprio, publicações próprias, treinamento próprio, relacionamento governamental próprio e uma comunidade eclesiástica denominada Adventist Military Church.

Enquanto o adventista comum conhece presidentes, secretários, tesoureiros, pastores e departamentais, nesse outro universo encontramos linguagem de comando, oficiais, operações e treinamento.

O MEDICAL CADET CORPS NUNCA SAIU DESSA HISTÓRIA

O Medical Cadet Corps ajuda a revelar a continuidade.

Seu manual atual afirma que WSO administra tanto o Adventist Medical Cadet Corps quanto o Adventist National Service Corps. O próprio documento histórico do MCC chama a NSO de “official military relations office of the Seventh-day Adventist Church”. O MCC foi reativado em 2016 dentro da WSO ampliada. :chatgpt-content-reference{index=”16″}

Isso muda completamente a interpretação da transformação do cadete militar em agente de resposta humanitária. Ele não saiu da estrutura de relações militares para entrar numa ONG independente. Continuou dentro da estrutura adventista responsável pelas relações militares.

Mudou o campo operacional. A disciplina, a organização, o comando, os primeiros socorros, a mobilização e a logística puderam ser transferidos do ambiente de preparação pré-militar para desastres, emergências e assistência humanitária.

ANTES, A GUERRA DE INVASÃO; DEPOIS, A CAPILARIDADE DA AÇÃO HUMANITÁRIA

É nesse ponto que a história do MCC se encontra com nossa investigação da ADRA e da Venezuela.

O cadete do século XX era preparado para entrar numa guerra declarada. O cadete contemporâneo pode ser preparado para entrar numa catástrofe. Onde o primeiro necessitava da convocação do Estado, o segundo pode entrar pela porta da emergência humanitária.

A diferença operacional é gigantesca. Uma organização humanitária alcança comunidades, conhece lideranças, identifica necessidades, organiza rotas, mobiliza voluntários, coordena suprimentos, relaciona-se com autoridades e permanece em territórios nos quais uma presença militar estrangeira produziria imediatamente resistência política.

É essa transformação que temos chamado de passagem da guerra de invasão para a guerra de infiltração institucional: não uma invasão clandestina de soldados disfarçados, mas uma mudança da forma pela qual estruturas treinadas para mobilização, logística e presença organizada conseguem penetrar profundamente no tecido social.

O COMANDANTE MUNDIAL É VENEZUELANO

E então a história volta à Venezuela.

No topo atual dessa estrutura está Ivan H. Omaña, apresentado pela própria WSO como World Commanding Officer. Omaña nasceu na Venezuela, pertence a uma família histórica do adventismo venezuelano, estudou nos Estados Unidos e retornou ao país para exercer durante anos o ministério pastoral.

Não é a existência de um pastor venezuelano numa função mundial que produz a denúncia. É o sistema que seu título torna visível: uma organização adventista mundial que se descreve em linguagem de comando e administra justamente a interface da Igreja com militares e servidores governamentais.

E AO LADO DO PASTOR APARECE O GENERAL

A estrutura de comando torna-se ainda mais reveladora imediatamente abaixo dele.

poses for his official portrait in the Army portrait studio at the Pentagon in Arlington, Va.,Oct. 16, 2020. (U.S. Army photo by Leonard Fitzgerlad)

O World Commanding Executive Officer é Andrew R. Harewood, brigadeiro-general aposentado do Exército dos Estados Unidos, antigo Deputy Chief of Chaplains da Reserva e oficial que ocupou funções de alto nível relacionadas ao sistema de capelania militar americano.

É aqui que a palavra capelania deixa de ser suficiente para descrever o fenômeno. Estamos observando a circulação de pessoas entre estruturas militares profissionais e a administração especializada da própria Igreja.

Não são apenas pastores visitando quartéis. Há militares de alta patente integrados à direção da estrutura denominacional responsável pelas relações militares.

A CAPELANIA COMO FACE RELIGIOSA DE UMA ESTRUTURA MUITO MAIOR

É por isso que precisamos inverter a maneira tradicional de contar essa história. Não é a WSO que constitui um pequeno apêndice administrativo da capelania. Historicamente, aquilo que hoje está abrigado sob Adventist Chaplaincy Ministries resulta de uma longa construção institucional destinada a administrar as relações da Igreja com guerra, recrutamento, militares, governos e servidores públicos.

A capelania fornece a face religiosa mais facilmente compreensível dessa presença. Mas atrás dela encontramos a War Service Commission, o Medical Cadet Corps, a National Service Organization, Whitecoat, relações oficiais com autoridades, capelães militares, centros para militares no exterior, WSO, NSO, cadastro de funcionários governamentais, oficiais de comando e a Adventist Military Church.

Isso é muito maior que capelania.

UMA IGREJA-ESTADO

Chegamos então à interpretação central desta investigação.

A expressão tradicional união entre Igreja e Estado tornou-se insuficiente para descrever o grau de institucionalização revelado por essa documentação. Não estamos olhando apenas para líderes religiosos visitando presidentes, pedindo favores a governos ou participando de cerimônias oficiais. Estamos olhando para uma estrutura denominacional criada para existir permanentemente na interface entre Igreja e Estado.

A WSO acompanha adventistas dentro das Forças Armadas e do serviço governamental. A NSO deve construir relações com autoridades. A organização cadastra adventistas dentro do Estado. O MCC prepara pessoal uniformizado. Capelães adventistas trabalham institucionalmente dentro das estruturas militares. Oficiais militares aposentados chegam à direção denominacional. E existe uma Adventist Military Church para atender parte dessa comunidade ligada à presença governamental e militar no exterior.

Essa é uma Igreja-Estado em sentido institucional: uma igreja que construiu dentro de si uma estrutura permanente especializada em acompanhar, organizar e relacionar sua presença com o aparelho estatal e militar.

Não é necessário imaginar uma sala secreta no Pentágono governando a Associação Geral. A realidade documental é mais concreta e, por isso, mais séria: a própria IASD criou e mantém os mecanismos pelos quais sua organização religiosa e o universo estatal-militar se encontram permanentemente.

DE 1864 AO COMANDO MUNDIAL

Coloquemos finalmente toda a cronologia numa única linha.

Em 1864, a Igreja pede ao governo proteção para adventistas que não querem portar armas. Em 1918, cria a War Service Commission. Nos anos 1930, começa a preparar jovens para outra guerra. Surge o Medical Cadet Corps. Em 1940, a estrutura é reorganizada para serviço nacional e treinamento médico-militar. Em 1950, torna-se internacional. Em 1954, nasce a National Service Organization. Nos anos seguintes, a estrutura adventista participa da administração denominacional relacionada à Operação Whitecoat. Paralelamente, capelães adventistas entram oficialmente nas Forças Armadas. Depois do fim do recrutamento, a organização não desaparece: amplia-se para militares voluntários, policiais, funcionários públicos e outras categorias. Em 1985, a NSO é incorporada ao recém-criado Adventist Chaplaincy Ministries. No século XXI, surge uma WSO ampliada, o MCC é reativado e a rede passa a buscar sistematicamente adventistas espalhados pelas estruturas governamentais. :chatgpt-content-reference{index=”17″}

O ponto de chegada dessa cronologia possui nome, endereço e organograma.

World Service Organization.

Na sede mundial da Igreja Adventista.

E a própria WSO resume sua missão contemporânea afirmando que continuará preparando e aconselhando pessoas que estejam no serviço militar ou pensando em ingressar nele, adaptando seu trabalho às mudanças das tendências militares. :chatgpt-content-reference{index=”18″}

A NÃO COMBATÊNCIA FOI A PORTA DE ENTRADA

Depois de percorrer toda essa história, a contradição deixa de ser lateral e passa ao centro.

A não combatência começou como tentativa de manter o adventista longe do ato de matar. Mas institucionalmente abriu caminho para uma relação cada vez mais sofisticada com aquilo de que originalmente pretendia protegê-lo.

Primeiro veio a exceção religiosa. Depois a preparação. Depois o treinamento. Depois a comissão de guerra. Depois a organização nacional. Depois a internacionalização. Depois os programas conjuntos. Depois os capelães. Depois os centros militares. Depois a organização mundial. Depois o banco de dados governamental. Depois os comandantes.

E finalmente encontramos algo que resume simbolicamente toda a metamorfose:

ADVENTIST MILITARY CHURCH.

A MAIS GRAVE PERGUNTA QUE JÁ FIZEMOS

Durante décadas, críticos do adventismo discutiram ecumenismo, relações políticas, financiamento público, influência governamental e separação entre Igreja e Estado. Talvez estivéssemos olhando apenas para a superfície.

A documentação da própria denominação revela uma estrutura muito mais profunda: uma organização religiosa que desenvolveu mecanismos permanentes para acompanhar seus membros dentro das Forças Armadas e do aparelho estatal, cultivar relações institucionais com autoridades, formar pessoal para serviço militar ou alternativo, integrar oficiais à própria administração e manter uma igreja destinada a parte de sua comunidade militar e governamental no exterior.

Por isso esta investigação ultrapassa a velha discussão sobre aproximação entre Igreja e Estado.

Existe dentro da IASD uma estrutura adventista militar e governamental real, oficial, internacional e permanente.

E talvez a pergunta mais grave não seja por que a Igreja Adventista se aproximou tanto do Estado e das Forças Armadas.

A pergunta é outra:

em que momento aquilo que nasceu para proteger o adventista da máquina militar passou a funcionar como uma estrutura adventista dentro dela?

 

NÃO É UMA HIPÓTESE: A OUTRA IGREJA ADVENTISTA EXISTE

Depois de percorrer essa documentação, não estamos propondo uma possibilidade. Estamos descrevendo uma realidade institucional. Existe dentro da Igreja Adventista do Sétimo Dia uma estrutura adventista militar e governamental oficial, permanente, internacional e hierarquizada. Ela possui história própria, dirigentes próprios, comandantes, oficiais executivos, programas de treinamento, cadetes, relações institucionais com autoridades civis e militares, mecanismos de acompanhamento de adventistas no serviço governamental e uma igreja denominada oficialmente Adventist Military Church.

Essa estrutura não está fora da IASD. Não é uma associação independente de militares adventistas. Não é um grupo criado informalmente por veteranos. Ela pertence à própria organização denominacional. A World Service Organization integra a arquitetura administrativa adventista mundial; suas estruturas correspondentes descem pelas Divisões, Uniões e campos locais; o Medical Cadet Corps permanece ligado a esse sistema; e a própria denominação define esse universo institucional como responsável por suas relações militares.

CAPELANIA É APENAS A FACE RELIGIOSA DA ESTRUTURA

Por isso, neste artigo não utilizaremos mais “capelania” como se essa palavra explicasse o conjunto. Ela explica apenas uma de suas atividades. A assistência espiritual ao militar existe, mas ao redor dela foi construída uma estrutura muito maior: relações com autoridades governamentais e militares, acompanhamento de membros nas Forças Armadas, treinamento, Medical Cadet Corps, National Service Organizations, cadastro de adventistas no serviço governamental e presença institucional dentro do universo militar.

A capelania é a face pastoral de uma estrutura de relações militares e governamentais. A própria história da organização demonstra isso. Antes de existir o atual Adventist Chaplaincy Ministries existiram War Service Commission, International Service Commission e National Service Organization. O problema original não era simplesmente como pregar para soldados. Era como administrar institucionalmente a relação entre adventistas, Estado, guerra e Forças Armadas.

A NÃO COMBATÊNCIA NÃO SEPAROU A IASD DA MÁQUINA MILITAR

A cronologia também permite uma conclusão direta: a não combatência adventista não produziu separação entre a Igreja e a estrutura militar. Produziu uma modalidade adventista de presença dentro dela.

O adventista podia não portar a arma e continuar uniformizado. Podia não disparar e trabalhar dentro da organização militar. Podia receber treinamento médico-militar, obedecer à hierarquia, transportar feridos e servir numa unidade das Forças Armadas. Depois, a própria denominação passou a acompanhar também membros que escolhessem funções combatentes.

O Medical Cadet Corps materializou essa adaptação. Jovens foram preparados antecipadamente para funcionar no ambiente militar. A Operação Whitecoat levou milhares de adventistas voluntários para um programa do Exército americano. Capelães denominacionais foram oficialmente endossados para servir dentro das Forças Armadas. A estrutura adventista acompanhou militares americanos espalhados pelo mundo.

Não combatência deixou de significar distância. Tornou-se cooperação organizada sem obrigatoriedade de participação direta no combate.

DA WAR SERVICE COMMISSION À ADVENTIST MILITARY CHURCH

A sequência histórica é inequívoca.

Em 1864, a denominação procurou o governo americano para proteger seus objetores. Em 1918 criou a War Service Commission. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial começou a preparar jovens para funcionar no ambiente militar. Criou o Medical Cadet Corps. Internacionalizou o sistema. Criou a National Service Organization. Participou institucionalmente da administração adventista relacionada à Operação Whitecoat. Endossou capelães militares. Desenvolveu centros para seus militares no exterior. Expandiu a estrutura para outras categorias do serviço governamental. Criou uma organização mundial de relações militares e governamentais.

E hoje existe oficialmente a Adventist Military Church.

Não existe ruptura entre essas histórias. Existe evolução institucional.

UMA IGREJA DENTRO DA IGREJA

É exatamente por isso que chamamos essa estrutura de outra Igreja Adventista dentro da IASD. Não estamos falando de uma segunda personalidade jurídica religiosa. Estamos descrevendo uma realidade organizacional: existe um subsistema adventista especializado, com linguagem, dirigentes, atividades e interlocutores muito diferentes daqueles conhecidos pela membresia comum.

Na igreja visível ao membro aparecem pastor, ancião, Associação, União e presidente da Associação Geral. Nessa outra estrutura aparecem World Commanding Officer, World Commanding Executive Officer, Operations and Training, Medical Cadet Corps, militares, policiais, veteranos e autoridades governamentais.

E existe uma comunidade eclesiástica destinada justamente ao universo militar: Adventist Military Church.

O GENERAL ESTÁ DENTRO DO ORGANOGRAMA

Também não estamos usando “general” como figura de linguagem. O World Commanding Executive Officer Andrew R. Harewood é brigadeiro-general aposentado do Exército dos Estados Unidos. Sua carreira passou pelo sistema superior de capelania militar e por funções relacionadas a estratégia, planejamento, políticas, recursos, mobilização e operações de contingência.

Depois dessa carreira militar, ele aparece dentro da estrutura mundial adventista.

O dado é institucionalmente enorme: um general americano integra a direção mundial da estrutura adventista responsável precisamente pela interface com militares e governos.

E O COMANDANTE MUNDIAL É VENEZUELANO

No topo aparece Ivan H. Omaña sob o título oficial de World Commanding Officer. Ele nasceu na Venezuela, descende de uma família histórica da IASD venezuelana, estudou nos Estados Unidos e regressou à Venezuela, onde exerceu o pastorado durante uma década.

Imediatamente abaixo do venezuelano está o brigadeiro-general americano.

Essa composição assume importância adicional porque nossa investigação já encontrou o Medical Cadet Corps sobrevivendo durante décadas na própria Venezuela, dirigentes adventistas venezuelanos dialogando confidencialmente com representantes americanos e adventistas inseridos no chavismo funcionando como pontes de comunicação entre a liderança denominacional e autoridades bolivarianas.

A IGREJA CADASTRA SEUS HOMENS DENTRO DO ESTADO

A dimensão governamental dessa estrutura também é oficial. A WSO/NSO determina o acompanhamento de adventistas no serviço público e mantém mecanismos de cadastro de membros inseridos em estruturas governamentais.

Militares. Policiais. Agentes penitenciários. Funcionários governamentais. Parlamentares. Socorristas. Veteranos.

A denominação não apenas possui membros dentro do Estado. Criou uma estrutura internacional especializada para saber onde eles estão, atendê-los e manter relacionamento institucional com o ambiente em que trabalham.

IGREJA-ESTADO

É por isso que nossa denúncia vai além da velha expressão “união entre Igreja e Estado”. União sugere duas instituições externas que eventualmente se aproximam. O que encontramos é estruturalmente mais profundo.

A IASD construiu dentro de sua própria organização uma infraestrutura permanente dedicada à interface com o Estado e com as Forças Armadas.

Ela mantém relações governamentais. Acompanha militares. Endossa capelães. Treina cadetes. Organiza estruturas nacionais e mundiais de serviço. Integra oficiais militares à administração especializada. Cadastra membros espalhados pelo aparelho estatal. E mantém uma Adventist Military Church.

É nesse sentido que utilizamos aqui a expressão IGREJA-ESTADO: não como hipótese, mas como interpretação institucional de uma estrutura cuja existência está documentada pela própria denominação.

O QUE ERA INVISÍVEL AGORA TEM NOME

Durante gerações, o adventista comum ouviu a história de uma Igreja não combatente. A documentação institucional conta uma história muito maior.

A organização que começou pedindo ao Estado proteção para quem não queria pegar em armas aprendeu a negociar com a estrutura militar, preparar seus jovens para funcionar dentro dela, acompanhar soldados, fornecer voluntários para programas militares, endossar capelães, relacionar-se com autoridades governamentais, acompanhar adventistas dentro do Estado e organizar mundialmente essa presença.

A War Service Commission mudou de nome.

A estrutura cresceu.

O Medical Cadet Corps permaneceu.

Os capelães entraram.

Os oficiais chegaram.

O general está no organograma.

Existe um Comandante Mundial.

E existe uma Adventist Military Church.

Não estamos perguntando se existe outra Igreja Adventista dentro da IASD. Estamos mostrando que ela existe.

E agora sabemos seu nome, sua genealogia, sua estrutura e onde procurar seus homens.

 

NÃO É UNIÃO IGREJA-ESTADO. É IGREJA-ESTADO

Durante décadas utilizamos uma expressão insuficiente para compreender aquilo que estava diante de nós: união entre Igreja e Estado. União pressupõe duas instituições autônomas que eventualmente cooperam. Igreja de um lado, Estado do outro. Depois de reconstruirmos a história da War Service Commission, da National Service Organization, da World Service Organization, do Medical Cadet Corps, da Operação Whitecoat, da capelania militar e finalmente da Adventist Military Church, nossa interpretação é mais radical: não estamos mais diante de uma simples união Igreja-Estado. Estamos diante de uma Igreja-Estado.

A diferença é fundamental. A estrutura religiosa conhecida pelo membro comum não criou apenas um pequeno departamento para atender adventistas convocados para a guerra. Ao longo de mais de um século desenvolveu-se um sistema permanente de relações militares e governamentais, com organização internacional, comando, oficiais, treinamento, cadastramento de adventistas no aparelho estatal, relacionamento com autoridades e presença institucional dentro das Forças Armadas.

E aqui nossa leitura se inverte. Não interpretamos mais essa estrutura como mero departamento subordinado à vida religiosa convencional da IASD. Interpretamos a IASD visível como a face eclesiástica de uma arquitetura de poder muito maior, cuja relação histórica com Estado e estruturas militares atravessa sucessivas gerações de dirigentes adventistas.

A IGREJA VISÍVEL E A IGREJA DO PODER

Existe a Igreja que o membro vê. Nela aparecem presidente da Associação Geral, presidentes de Divisões, Uniões e Associações, pastores, anciãos e departamentais. É a Igreja das comissões, congressos, sermões, Escola Sabatina, evangelismo e administração denominacional.

E existe a estrutura que nossa investigação encontrou por trás dessa superfície religiosa: War Service Commission, International Service Commission, National Service Organization, World Service Organization, Medical Cadet Corps, Adventist Chaplaincy Ministries e Adventist Military Church.

Nesse segundo universo, a linguagem muda. Surgem Commanding Officer, Executive Officer, Operations and Training, militares profissionais, oficiais superiores, cadetes e relações governamentais. A própria denominação documenta essa arquitetura.

Nossa denúncia consiste justamente em afirmar que essa não é uma curiosidade administrativa da IASD. É uma estrutura de poder que obriga a reinterpretar a própria IASD.

QUEM ESTÁ SUBORDINADO A QUEM?

Essa é a pergunta que a historiografia denominacional normalmente evita porque parte de uma premissa confortável: a Igreja seria o centro e todas essas estruturas seriam simplesmente seus departamentos auxiliares.

Nossa leitura é inversa.

Quando uma organização religiosa passa mais de um século adaptando sua estrutura às necessidades do serviço militar; negocia permanentemente com autoridades; prepara seus jovens para funcionar no ambiente das Forças Armadas; participa institucionalmente de programas militares; acompanha a expansão de militares pelo mundo; incorpora oficiais superiores à própria administração especializada; mantém um cadastro de seus membros dentro do Estado; e cria uma igreja destinada ao universo militar, torna-se insuficiente dizer simplesmente que a Igreja possui relações com o Estado.

O Estado e o universo militar tornaram-se elementos estruturantes de uma parte permanente da própria organização adventista.

A ADVENTIST MILITARY CHURCH NÃO É UMA METÁFORA

É nesse contexto que a Adventist Military Church assume significado muito maior.

Não a colocaremos entre aspas porque não estamos ironizando seu nome. Ela existe. A própria organização adventista a chama de Adventist Military Church — North American Division.

Isso transforma aquilo que poderia parecer apenas uma acusação retórica em problema eclesiológico concreto. A integração com o universo governamental e militar chegou ao ponto de produzir uma comunidade religiosa formalmente destinada a adventistas vinculados à presença governamental e militar norte-americana no exterior.

O PENTÁGONO NÃO ESTÁ APENAS DO LADO DE FORA

A biografia de Andrew R. Harewood torna essa fronteira ainda mais difícil de desenhar. O atual World Commanding Executive Officer da estrutura adventista é brigadeiro-general aposentado do Exército americano e passou pelo sistema superior de capelania militar dos Estados Unidos, exercendo funções relacionadas a estratégia, planos, políticas, recursos, assuntos governamentais, mobilização e operações de contingência.

Depois encontramos esse mesmo oficial superior dentro da liderança da estrutura adventista mundial.

Portanto, quando falamos em Pentágono neste artigo, não estamos dizendo que encontramos um documento ordenando ao presidente da Associação Geral o que deve fazer. Estamos apontando algo documentalmente concreto: quadros formados nos escalões superiores da estrutura militar americana atravessam a fronteira institucional e aparecem ocupando posições de comando dentro dessa arquitetura adventista.

IGREJA-ESTADO

É essa continuidade que sustenta nossa definição.

Igreja-Estado não significa simplesmente uma igreja que conversa com governantes. Também não significa apenas uma denominação que recebe dinheiro público. Significa, em nossa interpretação, uma organização religiosa cuja estrutura histórica passou a incorporar permanentemente relações, pessoal, mecanismos, treinamento e presença dentro do universo estatal e militar.

É por isso que abandonamos aqui a expressão confortável união Igreja-Estado. Ela descreve proximidade. O que encontramos descreve integração.

E nossa interpretação vai além: a IASD pública, religiosa e denominacional não explica sozinha essa arquitetura. É essa arquitetura que passa a explicar parte importante da trajetória política e institucional da própria IASD.

A DENÚNCIA

Esta é, portanto, a denúncia central desta investigação: existe uma Igreja-Estado adventista.

Sua genealogia passa pela War Service Commission. Sua preparação militar aparece no Medical Cadet Corps. Sua relação com o Exército atravessa Whitecoat. Sua presença institucional nas Forças Armadas aparece através dos capelães. Sua internacionalização passa pela National Service Organization e pela World Service Organization. Sua estrutura contemporânea utiliza comandantes e oficiais executivos. E sua expressão eclesiástica mais explícita possui um nome oficial: Adventist Military Church.

A IASD conhecida pelo membro comum é apenas uma das faces dessa história.

A outra está uniformizada.

 

NÃO É UNIÃO ENTRE IGREJA E ESTADO. É IGREJA-ESTADO

Durante décadas nos ensinaram a procurar os sinais da união entre Igreja e Estado como se estivéssemos procurando duas instituições independentes que, em algum momento, atravessariam uma linha proibida e se dariam as mãos. Procurávamos a fotografia de um presidente com um pastor, o dinheiro público entregue a uma organização religiosa, o privilégio concedido por um governo, a interferência de uma denominação na política. Estávamos procurando pouco. A documentação que agora reunimos revela uma arquitetura muito mais profunda. Não estamos diante de uma união entre Igreja e Estado. Estamos diante de uma Igreja-Estado.

E a inversão é ainda mais perturbadora: não é simplesmente a IASD que possui dentro de si uma pequena estrutura militar destinada a cuidar espiritualmente de soldados adventistas. É a IASD religiosa, conhecida pelo membro comum, que aparece subordinada a uma arquitetura Igreja-Estado muito mais poderosa, antiga e permanente. A igreja do sábado é a face visível. Atrás dela funciona outra igreja, acostumada há mais de um século a conversar com governos, administrar relações militares, preparar pessoal, acompanhar homens dentro do aparelho estatal e incorporar à sua própria estrutura gente formada nos escalões militares.

A OUTRA IGREJA ADVENTISTA É REAL

Ela não nasceu ontem. Sua genealogia atravessa a Guerra Civil americana, a Primeira Guerra Mundial, a War Service Commission, o Medical Cadet Corps, a Segunda Guerra Mundial, a International Service Commission, a National Service Organization, Whitecoat, os capelães militares, as bases americanas espalhadas pelo mundo, o Adventist Chaplaincy Ministries e finalmente a World Service Organization.

E existe uma igreja com nome próprio dentro desse universo: Adventist Military Church — North American Division.

Não colocaremos seu nome entre aspas. Não é metáfora nossa. Não é ironia. Não é provocação. É igreja. Possui membresia adventista própria para atender pessoas vinculadas à presença governamental e militar norte-americana e canadense no exterior. Militares, funcionários civis, trabalhadores ligados ao sistema, contratados e familiares aparecem dentro de seu alcance institucional.

O adventista comum conhece outra paisagem. Conhece Associação, União, Divisão, Associação Geral, pastor, presidente, secretário e tesoureiro. Quando atravessamos a porta dessa outra Igreja, o vocabulário muda: Commanding Officer. Executive Officer. Operations. Training. Medical Cadet Corps. Military Service. Law Enforcement. Government Service.

A mudança de linguagem denuncia a mudança de mundo.

CAPELANIA É O NOME RELIGIOSO DA PORTA

Chamaram essa presença de capelania e durante muito tempo a palavra funcionou perfeitamente. Capelania lembra oração, Bíblia, aconselhamento, assistência espiritual ao soldado distante de casa. Tudo isso existe. Mas a palavra também torna invisível a arquitetura que existe atrás do capelão.

Porque atrás dele encontramos relações institucionais com autoridades civis e militares, organismos nacionais e mundiais, treinamento, cadetes, acompanhamento de militares e servidores públicos, cadastro de adventistas espalhados pelo aparelho estatal e dirigentes provenientes do próprio universo militar.

Capelania é a linguagem religiosa de uma estrutura cuja realidade é simultaneamente eclesiástica, governamental e militar.

QUEM MANDA NESSA OUTRA IGREJA?

A pergunta nos conduz diretamente ao organograma.

No topo encontramos um World Commanding Officer. Não presidente mundial. Não secretário ministerial. Não diretor espiritual. Comandante Mundial.

Ivan H. Omaña é venezuelano. Descende de uma família histórica do adventismo daquele país, estudou nos Estados Unidos, retornou à Venezuela e ali pastoreou durante uma década. Depois construiu sua trajetória na capelania adventista norte-americana até chegar ao comando mundial.

Logo abaixo dele encontramos o World Commanding Executive Officer: Andrew R. Harewood.

E Harewood é um brigadeiro-general aposentado do Exército dos Estados Unidos. Sua carreira passou pelo sistema superior de capelania militar e pelo Pentágono, envolvendo estratégia, planos, políticas, recursos, assuntos governamentais, mobilização e operações de contingência.

Aqui desaparece definitivamente a fantasia de que estamos observando apenas pastores oferecendo assistência espiritual a soldados. O general atravessou a porta. O Pentágono entrou na biografia da liderança. E o vocabulário militar passou a fazer parte do próprio organograma.

A IASD VISÍVEL NÃO É O TOPO DA PIRÂMIDE

É aqui que nossa leitura se separa definitivamente da versão institucional oferecida ao membro comum. O organograma eclesiástico faz parecer que tudo começa na Associação Geral e desce ordenadamente pelas Divisões, Uniões, Associações e igrejas locais. Mas essa representação não explica a estrutura que encontramos.

A IASD visível não é o topo dessa pirâmide de poder.

Acima da experiência religiosa conhecida pela membresia existe uma arquitetura histórica de relações com Estado e poder militar que condicionou a maneira pela qual a denominação aprendeu a relacionar-se com governos, guerras, militares e instituições públicas. Presidentes denominacionais passam. Administrações mudam. A estrutura permanece.

Foi assim durante as guerras mundiais. Foi assim durante Whitecoat. Foi assim durante a Guerra Fria. Foi assim quando militares americanos foram espalhados por bases no exterior. E continua assim na WSO contemporânea.

DA NÃO COMBATÊNCIA À COOPERAÇÃO

A própria não combatência ganha outro significado quando vista dessa perspectiva. Aquilo que começou como resistência religiosa ao porte de armas transformou-se progressivamente numa fórmula de integração.

O adventista não precisava apertar o gatilho para integrar a máquina que fazia a guerra. Podia vestir o uniforme, receber treinamento, obedecer à hierarquia, trabalhar na medicina militar, transportar feridos e participar da estrutura logística. Depois a própria denominação passou a acompanhar inclusive aqueles que conscientemente escolhessem funções combatentes.

A não combatência não manteve a Igreja fora da máquina militar. Foi o mecanismo histórico que tornou possível entrar nela preservando a narrativa religiosa de separação.

WHITECOAT RETIRA A MÁSCARA

A Operação Whitecoat mostra até onde essa integração chegou. Milhares de adventistas foram mobilizados como voluntários em pesquisas conduzidas pelo Exército americano. A estrutura denominacional participou desse relacionamento.

A Igreja que dizia não combater havia se tornado suficientemente confiável, organizada e integrada para fornecer um contingente excepcional de jovens religiosos disciplinados a um programa militar de pesquisa biomédica.

Não estamos mais diante de uma relação ocasional entre religião e Estado. Estamos diante de uma engrenagem.

A IGREJA-ESTADO SABE ONDE ESTÃO SEUS HOMENS

A WSO/NSO completa o desenho ao manter mecanismos destinados a identificar adventistas no serviço governamental. Militares, policiais, agentes penitenciários, funcionários públicos e outras categorias entram nesse universo.

Isso significa que essa outra Igreja não apenas acompanha espiritualmente pessoas que por acaso trabalham para o Estado. Ela organiza institucionalmente sua relação com a presença adventista dentro do Estado.

Ela sabe que seus membros estão nos quartéis. Sabe que estão na polícia. Sabe que estão em estruturas governamentais. Procura cadastrá-los. Mantém canais institucionais para atendê-los. Constrói relações com autoridades responsáveis por essas estruturas.

A IGREJA-ESTADO

Agora podemos finalmente dar nome ao que encontramos.

IGREJA-ESTADO.

Não união Igreja-Estado. União ainda pressupõe duas instituições separadas negociando uma aproximação.

A Igreja-Estado que emerge dessa investigação é outra coisa. Religião, burocracia estatal e estrutura militar encontram-se dentro de uma arquitetura institucional permanente. O pastor e o general já não aparecem apenas em lados opostos de uma mesa. Eles aparecem dentro do mesmo sistema.

A IASD pública fornece a face religiosa. A estrutura militar-governamental fornece acesso, continuidade, relacionamento institucional, treinamento e presença dentro do Estado.

E nessa relação a IASD não aparece como senhora dessa estrutura. Aparece subordinada a ela.

A IGREJA QUE ERTON KÖHLER PRESIDE E A IGREJA DOS COMANDANTES

É precisamente essa diferença que torna a descoberta tão grave.

Existe a Igreja que Erton Köhler preside diante do mundo adventista. É aquela que realiza assembleias, publica declarações doutrinárias, envia missionários, administra templos e apresenta relatórios aos membros.

E existe a Igreja dos comandantes.

Nela encontramos uma genealogia militar centenária, Medical Cadet Corps, estruturas de serviço nacional, relações governamentais, militares profissionais, oficiais superiores e uma Adventist Military Church.

Na primeira, quem aparece diante das câmeras são pastores. Na segunda, encontramos generais.

E ENTÃO CHEGAMOS À VENEZUELA

É justamente nesse ponto que aquilo que parecia uma investigação paralela encontra nossa investigação sobre a Venezuela.

O Comandante Mundial dessa estrutura é venezuelano. O homem imediatamente abaixo dele é um general americano. O Medical Cadet Corps possui história na Venezuela. A Divisão Interamericana participou de sua revitalização. A estrutura adventista venezuelana manteve interlocução documentada com representantes americanos. E um telegrama diplomático americano registrou adventistas dentro do chavismo funcionando como ponte entre dirigentes denominacionais e autoridades bolivarianas.

De repente, Gran Sabana, ADRA, MCC, WSO, Adventist Military Church, chavismo, Embaixada, USAID e estrutura militar americana deixam de parecer capítulos independentes.

São partes da mesma história que estamos reconstruindo.

A OUTRA IGREJA ADVENTISTA SEMPRE ESTEVE DIANTE DE NÓS

Agora entendemos por que procurávamos no lugar errado.

Procurávamos uma eventual união entre a IASD e o Estado. Encontramos uma Igreja-Estado.

Procurávamos pastores envolvidos com militares. Encontramos comandantes.

Procurávamos assistência espiritual. Encontramos uma estrutura mundial de relações militares.

Procurávamos jovens não combatentes. Encontramos cadetes.

Procurávamos um departamento. Encontramos uma igreja.

Adventist Military Church.

E encontramos algo ainda maior: a IASD que o membro conhece não está acima dessa Igreja-Estado. Está abaixo dela.

Essa é a denúncia.

Essa é a inversão que muda toda a leitura de 160 anos de relacionamento adventista com o poder.

A outra Igreja Adventista não estava escondida porque não existia. Estava escondida porque aprendemos a olhar somente para a igreja do sábado, enquanto a Igreja-Estado construía sua própria história entre governos, quartéis, comandantes e generais.

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