White Estate realiza exames para avaliação de candidatas à vaga de Ellen G. White

1987: Quando a Igreja decidiu pela última vez quem poderia ser profeta

Em 1987, adventistas estavam afirmando receber sonhos, visões, impressões e mensagens especiais de Deus para a Igreja. Não era uma ocorrência isolada. Alberto R. Timm escreveu que o número desses casos estava aumentando “consideravelmente”, mencionou cerca de outras vinte pessoas com experiências semelhantes às de Ruth Burrows e informou que o fenômeno também havia aparecido no Brasil. A organização já vinha tratando do assunto nos bastidores havia mais de um ano. Quando finalmente o membro brasileiro soube do que estava acontecendo, não recebeu apenas a notícia. Recebeu também o enquadramento, os critérios e a conclusão. É justamente esse caminho, do fenômeno ao parecer e do parecer à membresia, que queremos reconstruir.

Há uma pergunta que acompanhará toda esta investigação, mas não queremos respondê-la antecipadamente: se a jovem Ellen Harmon aparecesse em 1987, alegando visões, mensagens de anjos, revelações para o povo e repreensões aos dirigentes, passaria pelo mesmo filtro aplicado aos “novos profetas”? A pergunta não pretende estabelecer equivalência entre Ellen Harmon e Ruth Burrows, nem transformar automaticamente em profeta verdadeiro qualquer adventista que alegasse receber uma revelação. Ela serve para iluminar uma transformação institucional extraordinária: o adventismo nasceu num ambiente em que diferentes reivindicações visionárias disputavam reconhecimento; em 1987, porém, já era uma organização mundial suficientemente estruturada para investigar novas reivindicações, classificá-las e informar à membresia quais delas não deveriam ser reconhecidas como manifestações legítimas do dom profético.

Antes de nossa análise, os documentos estão disponíveis

Não queremos que o leitor dependa de nossa descrição desses acontecimentos. Por isso, os três documentos fundamentais utilizados nesta investigação estão disponíveis nos apêndices que acompanham este artigo, tanto em fac-símile das páginas originais quanto em transcrição para facilitar a leitura. O primeiro é “Novos Profetas?”, de Alberto Ronald Timm, publicado na Revista Adventista de julho de 1987, p. 28. Os outros dois correspondem à publicação brasileira do artigo de J. Robert Spangler, “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’”, cuja primeira parte apareceu em julho, pp. 41-43, e cuja conclusão saiu em agosto, pp. 37-39. Também disponibilizamos os links para as edições completas preservadas no acervo digital da própria Casa Publicadora Brasileira.

Essa disposição é proposital. Primeiro colocamos a documentação diante do leitor; depois apresentamos nossa interpretação. Assim será possível verificar imediatamente se uma expressão foi realmente utilizada, se determinada afirmação aparece no original e onde termina o documento e começa nossa análise. Isso é particularmente necessário porque aquilo que encontramos não é uma declaração isolada de Timm nem uma reflexão casual de Spangler. Quando reunimos as peças, aparece um percurso institucional que começa antes de a membresia brasileira sequer saber que existia um problema.

1987: não era apenas uma mulher dizendo que Deus lhe falava

“Novos Profetas?” começa com uma informação que não deveria ser diminuída pela distância histórica. Segundo Timm, “nos últimos meses” havia aumentado consideravelmente o número de adventistas que alegavam ter recebido revelações especiais de Deus para Sua Igreja. Ele menciona sonhos, visões, impressões mentais e outras experiências cujo propósito declarado seria advertir o povo a preparar-se para o retorno de Cristo. Ruth Burrows, esposa de um pastor adventista jubilado residente na Flórida, aparece como exemplo, não como fenômeno inteiro. Suas mensagens teriam começado em junho de 1985, haviam sido gravadas, traduzidas para o português e estavam sendo difundidas no Brasil.

Mas Timm acrescenta algo ainda mais significativo: Burrows não seria a única. Haveria cerca de outras vinte pessoas com experiências semelhantes, a maioria nos Estados Unidos, e também no Brasil haviam surgido adventistas alegando receber revelações especiais para o povo de Deus. Portanto, aquilo que chegou à Revista Adventista não era apenas a história exótica de uma senhora norte-americana. Segundo o próprio texto denominacional, existia uma multiplicação de reivindicações proféticas e o fenômeno já atravessara as fronteiras brasileiras. Para uma denominação cuja identidade histórica estava profundamente ligada à reivindicação de possuir o dom profético, dificilmente o assunto poderia ser teologicamente irrelevante.

O membro soube em 1987. Os bastidores já sabiam em 1986

É aqui que a cronologia se torna reveladora. O assunto não nasceu na Revista Adventista brasileira. O próprio Timm informa que, em abril de 1986, o Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral havia preparado o documento The Current Phenomenon of Thought Messages, dedicado ao fenômeno. Dois meses depois, em junho de 1986, J. Robert Spangler publicou na Ministry o artigo “The Gift of Prophecy and ‘Thought Voices’”. Portanto, quando o adventista brasileiro encontrou “Novos Profetas?” em julho de 1987, a questão já havia passado pelo ambiente de pesquisa da Associação Geral e pelo circuito ministerial internacional.

Esse detalhe modifica completamente a leitura das páginas brasileiras. Não estamos assistindo à descoberta pública do fenômeno. Estamos vendo o momento em que um assunto que já havia sido identificado, discutido e interpretado em instâncias denominacionais anteriores finalmente desce para a membresia. O intervalo é de aproximadamente um ano entre o tratamento ministerial publicado por Spangler e sua republicação brasileira. Nesse intervalo, as mensagens continuavam circulando e, segundo Timm, reivindicações semelhantes já apareciam também no Brasil. Quando a notícia chega ao membro, portanto, a organização não está começando a perguntar o que aquilo significa. Já possui uma resposta em elaboração havia bastante tempo.

Primeiro os ministros; depois os membros

A publicação original de Spangler é particularmente importante por causa de seu público. A Ministry era um periódico voltado especialmente ao ministério pastoral, e o próprio artigo termina orientando ministros sobre a cautela necessária diante daqueles que alegavam ser mensageiros do Senhor. Em 1986, portanto, o assunto era tratado no ambiente ministerial. Em 1987, o texto atravessa essa fronteira e chega ao leitor comum da Revista Adventista. A publicação brasileira divide em duas partes aquilo que havia aparecido originalmente como um único artigo: julho traz o início; agosto, a conclusão.

Essa passagem do circuito ministerial para a membresia interessa muito mais do que qualquer tentativa de reconstruir telefonemas específicos ocorridos nos bastidores. O rastro documental que permaneceu é suficiente para demonstrar o movimento: Instituto de Pesquisa Bíblica, Ministry, depois Revista Adventista. Não sabemos quem pegou o telefone, quais palavras foram empregadas ou quem especificamente recomendou a republicação brasileira. Também não precisamos inventar uma ata que provavelmente jamais existiu. O resultado das decisões internas está diante de nós: um problema que já havia sido trabalhado no ambiente denominacional internacional e ministerial chegou posteriormente à membresia brasileira acompanhado da interpretação produzida naquele ambiente.

A CPB tratou do assunto — mas talvez apenas o suficiente para poder dizer que tratou

Façamos aqui um exercício de interpretação. Não afirmamos possuir uma ordem secreta determinando que o assunto fosse publicado discretamente. Estamos observando a forma material pela qual ele chegou ao leitor. “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’” dificilmente poderia ser considerado um título jornalisticamente irresistível para a membresia em geral. O artigo era longo e ainda foi dividido entre duas edições, obrigando o leitor interessado a começar em julho e procurar a conclusão no mês seguinte. Num periódico generalista, disputando atenção com artigos devocionais, notícias e outros conteúdos denominacionais, não parece uma arquitetura editorial destinada a transformar o aparecimento de novos pretendentes ao dom profético numa grande discussão entre os membros.

É nesse sentido interpretativo que podemos falar numa publicação quase pró-forma. O assunto foi publicado. Não podemos dizer que a CPB o escondeu, porque temos as páginas em mãos. Mas publicar não é necessariamente promover uma informação. Uma instituição pode registrar sem repercutir, informar sem transformar em pauta, tornar disponível sem colocar sob os holofotes. E a impressão deixada pelo conjunto é precisamente essa: o assunto precisava ser tratado, mas não necessariamente precisava virar assunto. A CPB demorou aproximadamente um ano para levar o texto de Spangler à membresia brasileira, mas tratou. E tratou quando o fenômeno, segundo o próprio Timm, já estava presente também no Brasil.

“Novos Profetas?” ficou perdido no noticiário

Há um detalhe de bastidor que conheço não porque o descobri agora nos arquivos, mas porque estava lá. “Novos Profetas?”, de Timm, entrou no noticiário que eu próprio editava naquela época. Não apareceu como grande matéria destinada a sacudir a membresia com a notícia de que adventistas estavam reivindicando novas revelações de Deus. Ficou praticamente perdido no fluxo editorial. Registro isso como testemunho pessoal de quem trabalhava naquele material em 1987. Naquele momento, jovem recém-saído do seminário, idealista e profundamente identificado com aquilo que entendia como a Obra de Deus, eu mesmo não percebi a dimensão da informação que estava passando por minhas mãos.

E isso torna a experiência editorial particularmente reveladora. Retiremos por um instante o enquadramento e vejamos apenas a notícia: adventistas estavam alegando receber revelações de Deus para a Igreja; o número estaria aumentando consideravelmente; aproximadamente vinte outras pessoas teriam experiências semelhantes; gravações haviam sido traduzidas e circulavam pelo Brasil; e brasileiros também começavam a reivindicar manifestações desse tipo. Para uma denominação que apontava o dom profético como característica identificadora do remanescente, isso poderia ter produzido enorme curiosidade. Entretanto, o pequeno texto ficou no noticiário, enquanto a discussão extensa foi oferecida sob o título técnico das “vozes mentais” e repartida entre dois meses. O assunto estava publicado, mas estava longe de ocupar o centro do palco.

O texto de Timm fazia aquilo que o título de Spangler não fazia

Justamente por isso a pequena página de Timm possui enorme importância. “Novos Profetas?” é uma pergunta direta. Em poucos parágrafos, ele revela aquilo que o título técnico de Spangler não deixa imediatamente evidente: não se discutia apenas uma curiosidade psicológica chamada “vozes mentais”. Havia adventistas dizendo que Deus lhes estava enviando mensagens especiais para Sua Igreja. Ruth Burrows era apenas um dos casos, as mensagens circulavam internacionalmente e fenômenos semelhantes haviam surgido no Brasil. Depois de apresentar o problema, Timm conduz o leitor às análises já produzidas pelo Instituto de Pesquisa Bíblica e por Spangler.

Temos, portanto, duas camadas de comunicação funcionando juntas. Timm oferece a notícia e sua conclusão condensada; Spangler fornece o tratamento especializado. Para quem quisesse saber apenas a posição denominacional, a página de Timm praticamente resolvia a questão. Para quem desejasse acompanhar a argumentação extensa, estavam disponíveis as cinco páginas de Spangler distribuídas entre julho e agosto. Em ambos os casos, porém, existe uma característica fundamental: quando a notícia chegou ao membro, a interpretação chegou junto.

O critério anunciado era a Bíblia

Timm afirma corretamente que “toda pessoa que alega ser um mensageiro especial de Deus para Sua Igreja deve ser cuidadosamente submetida ao escrutínio da Palavra de Deus”. Não temos dificuldade alguma com esse princípio. Pelo contrário: queremos levá-lo até as últimas consequências. Nenhuma visão se autentica porque o visionário diz ter visto; nenhum sonho se torna revelação porque alguém afirma que Deus o enviou; nenhuma impressão interior adquire autoridade simplesmente porque seu portador está sinceramente convencido de sua origem divina. “Provai os espíritos” continua sendo exigência bíblica.

Mas justamente por isso precisamos observar o que acontece imediatamente depois. Ao tratar especificamente de Ruth Burrows, Timm muda o sujeito da frase. Ele escreve que “a Igreja” não questiona sua sinceridade, mas possui evidências suficientes para afirmar que ela não satisfaz as condições de uma verdadeira profetisa. Em seguida apresenta como apoio o documento produzido pelo Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral e o estudo de Spangler. O critério anunciado é a Palavra de Deus; o processo concreto, porém, já aparece mediado por uma estrutura que examina, produz parecer e comunica à membresia sua conclusão.

O dom profético sob análise da organização

É exatamente aqui que nosso interesse pelos bastidores começa. Não estamos dizendo que uma organização religiosa não possa investigar alguém que reivindique autoridade profética. Seria irresponsável fazer o contrário. A questão é observar quem passa a ocupar, na prática, a posição de examinador. Em 1987, o pretendente ao dom já encontrava diante de si uma denominação mundial com Associação Geral, Instituto de Pesquisa Bíblica, Associação Ministerial, periódicos internacionais, estruturas editoriais regionais, pesquisadores especializados em Ellen White e uma tradição profética consolidada havia mais de um século.

O novo visionário não chegava a um campo vazio. Chegava a um território cuja profetisa já estava reconhecida, cuja história já estava organizada e cujas estruturas possuíam meios para determinar como milhões de membros conheceriam a nova reivindicação. A organização não podia decidir se Deus havia realmente falado; mas podia decidir quais pesquisadores examinariam o caso, quais categorias seriam utilizadas, quais textos seriam publicados, quais ministros receberiam orientação e, finalmente, de que maneira o fenômeno seria apresentado à membresia.

“Vozes mentais”: o rótulo já fazia metade do trabalho

Não sejamos ingênuos quanto ao peso das palavras. Dizer que alguém “recebe mensagens de Deus” e dizer que alguém experimenta “vozes mentais” não produz a mesma imagem no leitor. No imaginário comum, ouvir vozes imediatamente desperta suspeitas relacionadas à mente ou ao mundo espiritual. Num ambiente religioso, a segunda pergunta surge quase automaticamente: se a voz não procede de Deus, procede de quem? Espírito? Demônio? Engano sobrenatural? O vocabulário utilizado para nomear o fenômeno já começa a determinar o ambiente psicológico e religioso dentro do qual ele será julgado.

E não estamos importando artificialmente essa associação para o artigo de Spangler. O próprio desenvolvimento de seu estudo conduz as “vozes mentais” para a discussão sobre ocultismo, espíritos, demônios e libertação de poderes demoníacos. A trajetória argumentativa é suficientemente clara para produzir um enquadramento poderoso: profecia, “vozes mentais”, ocultismo, possibilidade demoníaca. Spangler faz distinções e não precisamos atribuir-lhe afirmações mais absolutas do que aquelas que escreveu. Mas tampouco devemos fingir que esse campo de associações não produziria efeito sobre a maneira pela qual Ruth Burrows e os demais pretendentes seriam percebidos pelos leitores.

Experimente chamar Ellen Harmon de alguém que “ouvia vozes”

A força do enquadramento torna-se evidente quando realizamos uma experiência puramente linguística. A tradição adventista não costuma apresentar Ellen Harmon simplesmente como uma jovem que “ouvia vozes”. Utiliza o vocabulário religioso reconhecido: visões, sonhos, revelações, mensagens, anjos, inspiração. Essas palavras colocam imediatamente sua experiência dentro de uma categoria profética respeitável. Agora descreva uma experiência sobrenatural concorrente com a expressão “vozes mentais” e perceba como a reação muda antes mesmo de examinarmos seu conteúdo.

Isso não prova que Ruth Burrows fosse profetisa e não é esse nosso argumento. Demonstra outra coisa: quem possui poder para nomear uma experiência possui enorme poder para influenciar a maneira pela qual ela será recebida. “Revelação” desperta uma pergunta; “pretenso dom profético” acrescenta cautela; “vozes mentais” produz estranhamento; e “vozes mentais” examinadas ao lado de ocultismo e demônios podem produzir medo. Antes de a maioria dos membros brasileiros ter qualquer possibilidade de ouvir extensamente Ruth Burrows e examinar suas mensagens por si mesma, já havia recebido uma categoria dentro da qual deveria começar a compreendê-la.

Não era necessário escrever: “Ruth Burrows é louca”

Uma deslegitimação eficiente não exige uma sentença tão grosseira. Ninguém precisava publicar que Ruth Burrows havia enlouquecido, nem declarar diretamente que estivesse possessa. O enquadramento podia realizar trabalho muito mais sofisticado. Uma mulher que dizia receber mensagens de Deus era colocada dentro de uma discussão intitulada “vozes mentais”, e essa discussão avançava para a possibilidade de envolvimento com forças espirituais malignas. Depois disso, quem desejaria aproximar-se despreocupadamente daquela pessoa? Quem distribuiria suas gravações sem receio? Quem gostaria de ser identificado publicamente como alguém que lhe dava crédito?

Há uma diferença enorme entre dizer: “Examinamos essa irmã e suas mensagens não resistem aos seguintes testes bíblicos”, demonstrando ponto por ponto os erros, e situar a experiência num campo de associações em que aparecem também ocultismo e demonismo. A primeira estratégia confronta primordialmente a mensagem; a segunda pode atingir também a percepção pública da mensageira. E esse mecanismo merece nossa atenção porque estamos investigando precisamente os bastidores pelos quais uma reivindicação religiosa deixa de ser apenas uma afirmação a ser examinada e se transforma num fenômeno já classificado institucionalmente.

Mas havia algo incômodo no conteúdo dessas mensagens

Spangler reconhece que ao menos algumas das pessoas envolvidas eram cristãos sinceros e dedicados. Reconhece também que grande parte das mensagens não continha simplesmente blasfêmias ou convites ao abandono da fé. Elas falavam da proximidade da volta de Cristo, conclamavam à preparação, mencionavam a condição laodiceana, incentivavam o estudo das Escrituras e do Espírito de Profecia. Tudo isso, evidentemente, não prova inspiração. Um falso profeta também pode dizer coisas verdadeiras. Mas existe outro elemento registrado por Spangler que não pode desaparecer de nossa análise: algumas mensagens continham fortes censuras à Igreja e críticas à liderança.

É nesse momento que o problema deixa de ser apenas teológico e se torna institucionalmente delicado. Se alguém afirma ter recebido de Deus uma mensagem para repreender justamente a estrutura que posteriormente participará do exame dessa mensagem, o examinador deixa de ocupar uma posição inteiramente abstrata. Isso também não autentica o pretendente. Criticar dirigentes não transforma ninguém em profeta. Mas o inverso precisa ser igualmente verdadeiro: criticar dirigentes não pode transformar alguém em falso profeta. A mensagem precisa ser julgada pelas Escrituras, e não pela conveniência de seu conteúdo para aqueles que possuem os meios institucionais de avaliá-la.

E se o profeta vier para repreender justamente quem vai examiná-lo?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes de todo o caso. Os profetas bíblicos frequentemente entram em conflito com estruturas religiosas e políticas estabelecidas. Não porque oposição à autoridade seja prova de inspiração, mas porque a função profética inclui precisamente a possibilidade de repreender quem possui autoridade. Portanto, um sistema de discernimento precisa possuir salvaguardas para um problema elementar: o examinador também pode ser objeto da mensagem examinada. Se a reivindicação for falsa, deve ser demonstrado. Se for verdadeira, a posição administrativa daquele que foi repreendido não pode funcionar como argumento contra ela.

Em 1987, porém, a assimetria era gigantesca. De um lado, indivíduos dizendo ter recebido mensagens. Do outro, uma denominação mundial com pesquisadores, administradores, revistas, editoras, púlpitos e capacidade de comunicação. Uma das partes podia reivindicar revelação; a outra possuía os meios para definir publicamente como essa reivindicação seria conhecida. Não é necessário imaginar conspiração para reconhecer a desigualdade. Basta observar a estrutura.

Mas o espírito de profecia pertence a quem?

Existe ainda uma questão bíblica anterior à discussão sobre sucessores de Ellen White. Apocalipse 12:17 descreve o restante da descendência da mulher como aqueles que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; Apocalipse 19:10 identifica o testemunho de Jesus como o espírito da profecia. A característica apresentada pelo texto pertence ao remanescente. Não aparece como propriedade particular de uma única personagem histórica. A associação adventista posterior entre a expressão “Espírito de Profecia” e os escritos de Ellen White tornou-se tão intensa que, na linguagem denominacional, as duas coisas frequentemente passaram a funcionar quase como sinônimos. Mas não são.

Uma coisa é sustentar que Ellen White manifestou o dom. Outra é transformar uma manifestação histórica no próprio dom e, na prática, concentrar numa pessoa aquilo que o Apocalipse apresenta como característica do remanescente. Se o testemunho de Jesus é o espírito da profecia e caracteriza o povo remanescente, não existe razão bíblica para começar a discussão pressupondo que a manifestação relevante desse dom terminou necessariamente com a morte de uma mulher em 1915. A obrigação bíblica é provar as manifestações, não fechar antecipadamente a porta para sua possibilidade.

Talvez a própria pergunta de 1987 já estivesse estreita demais

É nesse contexto que o encerramento de Timm merece atenção especial. Ele admite que Deus pode revelar-Se sobrenaturalmente a determinadas pessoas com propósito particular, mas afirma não haver razões suficientes para acreditar que Deus venha a suscitar “um novo profeta” cujas mensagens sejam destinadas à Igreja em geral. A formulação é reveladora porque o problema parece tornar-se: haverá ou não outro indivíduo ocupando uma posição semelhante à de Ellen White? Mas talvez essa seja uma maneira demasiadamente institucionalizada de formular a questão bíblica.

Se o espírito de profecia é característica do remanescente, por que a expectativa deveria girar em torno de encontrar ou não encontrar uma segunda Ellen White? Por que não perguntar de que maneiras o testemunho de Jesus pode manifestar-se entre o povo e como essas manifestações devem ser provadas biblicamente? O discernimento continua indispensável, mas a instituição não pode transformar sua experiência histórica anterior numa espécie de teto colocado sobre aquilo que Deus poderá ou não fazer posteriormente.

O problema inverso também existe: rejeitar quem Deus enviou

Os textos de 1987 enfatizam corretamente o perigo de aceitar falsos profetas. Mas existe outro perigo bíblico igualmente sério: rejeitar o mensageiro verdadeiro. A história bíblica está repleta de pessoas convencidas de que estavam protegendo a religião enquanto recusavam justamente a voz que as confrontava. Portanto, “provai os espíritos” não significa apenas desenvolver técnicas para descobrir falsificações. Significa permanecer suficientemente aberto para reconhecer aquilo que resiste ao teste, inclusive quando sua mensagem é desagradável para quem realiza o exame.

É aí que o aparato institucional precisa ser observado com maior rigor. Quanto mais poderosa a estrutura encarregada de examinar o profeta, maior deve ser sua disposição para admitir que o profeta verdadeiro pode vir precisamente para repreendê-la. Caso contrário, o sistema criado para proteger a Igreja dos falsos profetas pode adquirir uma função adicional e perigosíssima: proteger a instituição também do profeta verdadeiro.

Agora, e somente agora, precisamos lembrar os visionários do começo

Não transformaremos este artigo numa história dos visionários mileritas. Basta recordar o necessário. O milerismo tardio e o adventismo nascente conheceram intensa efervescência religiosa. Sonhos, visões, impressões e reivindicações sobrenaturais não estavam concentrados numa única pessoa. Ellen Harmon surgiu nesse ambiente e sua própria reivindicação precisou conquistar reconhecimento em meio a outras vozes e à desconfiança de pessoas que haviam presenciado excessos religiosos depois do desapontamento. Algumas reivindicações foram rejeitadas, outras desapareceram, e Ellen Harmon acabaria alcançando posição singular entre os adventistas sabatistas.

A diferença que nos interessa não está em comparar detalhadamente cada visionário com Ruth Burrows. Está no ambiente institucional. Ellen Harmon começou sua trajetória quando não existiam Associação Geral, Instituto de Pesquisa Bíblica, White Estate, sistema mundial de credenciais, revista denominacional consolidada ou aparato teológico capaz de emitir uma avaliação mundial sobre ela. A fronteira ainda estava sendo construída. Em 1987, quem alegasse receber revelações encontrava a fronteira pronta, guardada por uma denominação que já possuía sua própria profetisa reconhecida e utilizava inclusive a tradição construída em torno dela para avaliar novas reivindicações.

Em 1844, Ellen precisava ser examinada; em 1987, Ellen ajudava a examinar

Essa transformação é extraordinária. A pessoa cuja reivindicação profética precisou um dia ser aceita ou rejeitada tornou-se, por meio de seus escritos e da tradição denominacional construída posteriormente, parte do conjunto de referências utilizadas para avaliar quem viesse depois. O carisma que um dia esteve em disputa tornou-se carisma institucionalmente reconhecido. O novo pretendente já não entrava no mesmo laboratório histórico. Encontrava uma tradição estabelecida, especialistas responsáveis por preservá-la e uma instituição cuja identidade estava profundamente vinculada ao resultado do discernimento realizado mais de um século antes.

Isso não prova que o discernimento anterior estivesse errado nem que os novos pretendentes estivessem certos. Mostra que as condições do julgamento haviam mudado radicalmente. O movimento que precisou decidir se ouviria uma jovem visionária transformara-se na organização que podia decidir quais novos visionários seriam ouvidos em seus espaços, apresentados favoravelmente em suas publicações ou enquadrados como manifestações perigosas.

Então façamos a pergunta

Se a jovem Ellen Harmon aparecesse em 1987, alegando visões, mensagens de anjos, revelações para o povo e repreensões aos dirigentes, passaria pelo mesmo filtro aplicado aos “novos profetas”? Não sabemos. Qualquer resposta categórica seria contrafactual. Mas justamente por isso a pergunta é tão útil. Imagine uma jovem adventista desconhecida chegando naquele ano com relatos extraordinários. Quem a entrevistaria? Que importância seria atribuída às suas manifestações físicas? Como seriam examinadas suas mensagens? O que aconteceria se repreendesse dirigentes? Um instituto produziria parecer? A Associação Ministerial orientaria pastores? Sua experiência receberia o vocabulário de “visões” ou algum equivalente às “vozes mentais”? E quem determinaria qual dessas palavras a membresia ouviria primeiro?

Não precisamos responder para perceber a mudança histórica. Nos anos 1840, o adventismo precisava descobrir quais vozes integrariam sua identidade. Em 1987, a identidade já estava construída e possuía mecanismos para proteger suas fronteiras. Essa é a diferença fundamental.

Ruth Burrows encontrou uma Igreja que Ellen Harmon nunca encontrou

Entre as duas não havia apenas mais de um século. Havia uma instituição. Ellen encontrou um movimento fragmentado procurando entender a si mesmo; Ruth encontrou uma denominação mundial que já sabia quem era sua profetisa, quais eram suas doutrinas, quem eram seus pesquisadores, onde estavam seus centros de autoridade e quais canais alcançavam seus membros. Ellen surgiu enquanto a tradição profética adventista estava sendo construída; Ruth surgiu diante da tradição pronta. Ellen participou da disputa pela legitimidade profética; Ruth precisou submeter sua reivindicação a uma estrutura que já administrava essa legitimidade.

Novamente: isso não faz de Ruth uma nova Ellen White. Nem precisamos disso para que o caso seja importante. Nosso interesse está no mecanismo. Uma organização que se formou em ambiente de reivindicações visionárias tornou-se capaz de investigar, classificar e comunicar novas reivindicações de cima para baixo. O fenômeno carismático encontrava agora a burocracia religiosa.

A organização não silenciou completamente o fenômeno; administrou sua chegada ao público

Talvez essa seja a melhor síntese do que encontramos. Os novos profetas não foram simplesmente escondidos. Timm falou deles. Spangler escreveu longamente. O Instituto de Pesquisa Bíblica produziu material. A Ministry tratou do assunto. A Revista Adventista publicou. Portanto, seria incorreto construir nossa crítica sobre a acusação simplista de censura absoluta. O mecanismo que aparece nos documentos é mais sofisticado e, por isso mesmo, mais interessante: o fenômeno foi administrado.

Primeiro tornou-se assunto nos bastidores. Foi estudado e enquadrado. Chegou ao ministério acompanhado de advertências. Depois alcançou a membresia brasileira, aproximadamente um ano mais tarde, num artigo longo dividido entre duas edições e acompanhado de uma pequena nota de Timm perdida no noticiário, que já oferecia ao leitor uma conclusão. Quando o membro finalmente encontrou os novos profetas, eles já não eram simplesmente novos profetas. Eram pretendentes examinados, “vozes mentais”, fenômenos sob suspeita e experiências para as quais a estrutura já possuía categorias interpretativas.

Publicar sem transformar em pauta também é uma forma de administrar

Esse ponto merece permanecer como exercício de interpretação. A CPB publicou o material, mas a maneira como o publicou não parece destinada a provocar uma grande mobilização da membresia em torno da pergunta: “Será que Deus está enviando novamente mensagens especiais à Igreja?”. O título técnico, a extensão, a divisão em dois meses e a colocação discreta do texto de Timm produziram outro efeito. A informação estava disponível para quem a encontrasse; a interpretação institucional estava ainda mais disponível para quem quisesse saber o que pensar dela.

Quase quarenta anos depois, a ironia é que essa publicação discreta nos fornece exatamente a documentação necessária para reconstruir aquilo que estava acontecendo. A CPB tratou. E, porque tratou, deixou pegadas. Quando colocamos lado a lado o documento do Instituto de Pesquisa Bíblica mencionado por Timm, o original de Spangler na Ministry, “Novos Profetas?” e as duas parcelas da tradução brasileira, aquilo que chegou fragmentado ao membro começa a formar um desenho coerente.

O membro viu a notícia; nós estamos olhando atrás dela

É esse o enfoque desta investigação. Não estamos contando outra historinha da Igreja. Estamos olhando para os bastidores da produção da ortodoxia e do controle das fronteiras religiosas. O que acontece entre o momento em que alguém diz “Deus me mandou falar à Igreja” e o momento em que a Igreja informa aos membros “essa pessoa não é profeta”? Quem entra nesse intervalo? Quais departamentos? Quais pesquisadores? Quais categorias? Quais publicações? Quem recebe a discussão primeiro? Quem recebe depois? E que linguagem acompanha a mensagem quando ela finalmente chega ao público?

Em 1987, encontramos parte desse mecanismo funcionando diante de nossos olhos. E justamente porque os documentos sobreviveram podemos examiná-lo sem depender apenas de memória, rumores ou reconstruções posteriores. O membro comum recebeu o produto acabado. Nós estamos desmontando a embalagem para descobrir o caminho que o produto percorreu.

Quem controla o reconhecimento não controla Deus — mas controla muita coisa

Nenhuma Associação Geral pode decidir que Deus falou quando Ele não falou. Nenhum Instituto de Pesquisa Bíblica pode transformar um falso profeta em verdadeiro. Nenhuma editora pode, pela ausência de publicação, impedir Deus de conceder um dom. Mas instituições podem controlar reconhecimento, circulação, reputação e acesso. Podem decidir quem fala em seus púlpitos, quem aparece em suas revistas, quais especialistas são consultados e quais palavras serão utilizadas para apresentar determinada experiência aos membros.

Esse poder não é equivalente ao poder de Deus, mas também não é pequeno. Quem controla os canais pelos quais milhões de pessoas conhecem uma reivindicação possui enorme influência sobre a probabilidade de que aquela reivindicação seja sequer examinada independentemente. E quando a organização que controla esses canais também pode ser objeto das repreensões alegadamente recebidas pelo pretendente ao dom, o problema exige uma vigilância que não pode ser resolvida pela simples frase “a Igreja examinou”.

Quem examina quem examina os profetas?

Talvez seja essa a pergunta que os documentos de 1987 deixaram sem resposta. Timm diz que o pretendente deve ser submetido ao escrutínio da Palavra. Concordamos. Mas os pesquisadores também precisam ser submetidos ao mesmo escrutínio. A instituição também. O teólogo também. O administrador também. O editor também. Ninguém ganha imunidade hermenêutica porque recebeu a função de examinar o outro. Se a Bíblia está acima do candidato ao dom, está igualmente acima do instituto que emite o parecer sobre ele.

Quando essa simetria desaparece, o discernimento corre o risco de transformar-se em administração da dissidência religiosa. O pretendente precisa provar que Deus falou; a estrutura passa a não precisar provar que interpretou corretamente. E então uma conclusão administrativa pode adquirir, na consciência do membro, peso muito maior do que deveria possuir: “a Igreja já examinou”. Mas “a Igreja já examinou” não é versículo bíblico. É informação sobre um processo humano que também precisa poder ser examinado.

Não sabemos se Ruth Burrows era profetisa. Essa não é a conclusão

É importante terminar sem fabricar uma certeza inversa. Estes documentos não nos autorizam a proclamar Ruth Burrows profetisa simplesmente porque questionamos o processo pelo qual sua experiência foi enquadrada. Para saber exatamente o que havia em suas mensagens precisaríamos reunir o máximo possível do material original, analisá-lo integralmente e submetê-lo aos critérios bíblicos. O mesmo vale para os demais indivíduos mencionados por Timm. Nossa crítica à estrutura não substitui o discernimento que cobramos dela.

Mas também não aceitaremos o movimento contrário: considerar a questão encerrada simplesmente porque pesquisadores denominacionais a encerraram. Uma organização não adquire infalibilidade ao combater aquilo que considera falso profetismo. E a pergunta torna-se ainda mais séria quando recordamos que o espírito de profecia, biblicamente, não é patrimônio de um departamento nem propriedade exclusiva de uma pessoa do passado. Se caracteriza o remanescente, então a Igreja deveria ser simultaneamente rigorosa contra falsificações e radicalmente cuidadosa para não sufocar aquilo que pudesse realmente proceder de Deus.

Quando a Igreja decidiu quem podia ser profeta

O título deste artigo, portanto, não significa que administradores tenham adquirido poder para conceder ou retirar dons espirituais. Significa algo historicamente mais concreto: chegou um momento em que a denominação adventista possuía estrutura suficiente para determinar quem seria reconhecido como profeta dentro de seu território institucional. Podia investigar, produzir pareceres, orientar ministros, publicar advertências, controlar púlpitos e estabelecer o vocabulário pelo qual determinada reivindicação chegaria aos membros. Deus continuava fora do alcance da burocracia; o reconhecimento denominacional, não.

E 1987 nos oferece uma pequena janela para observar esse mecanismo. Vários adventistas afirmavam receber mensagens. O assunto já era conhecido nos bastidores. Especialistas haviam trabalhado nele. Ministros haviam sido advertidos. Um ano depois, a membresia brasileira foi informada. A informação chegou discretamente, mas chegou; e chegou acompanhada de uma interpretação suficientemente desenvolvida para que o membro não precisasse começar sua investigação do zero.

A pergunta permanece

Agora volte aos apêndices e leia os documentos. Leia Timm. Leia as duas partes de Spangler. Observe como os pretendentes são apresentados, quais palavras são empregadas, quais perigos são mencionados e quais autoridades são chamadas para ajudar a decidir a questão. Depois lembre, apenas pelo tempo necessário, que o adventismo nasceu num ambiente em que uma jovem chamada Ellen Harmon também precisou convencer outros de que suas experiências sobrenaturais mereciam ser examinadas como possíveis manifestações de Deus.

Então faça a pergunta sem pressa: se aquela jovem aparecesse em 1987, alegando visões, mensagens de anjos, revelações destinadas ao povo e repreensões aos responsáveis pela Igreja, ela passaria pelo filtro — ou acabaria também numa edição da Revista Adventista sob alguma nova versão do título “Novos Profetas?”

Notas e referências

1. Alberto Ronald Timm, “Novos Profetas?”, Revista Adventista, julho de 1987, p. 28. O fac-símile e a transcrição do documento são disponibilizados no Apêndice I.

2. J. Robert Spangler, “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — I”, Revista Adventista, julho de 1987, pp. 41-43. Fac-símile e transcrição no Apêndice II.

3. J. Robert Spangler, “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — Conclusão”, Revista Adventista, agosto de 1987, pp. 37-39. A seção “Janela Poética”, presente na última página, constitui material independente e não integra o artigo de Spangler. Fac-símile e transcrição no Apêndice III.

4. J. Robert Spangler, “The Gift of Prophecy and ‘Thought Voices’”, Ministry, junho de 1986. Trata-se da publicação original posteriormente traduzida e dividida em duas partes pela Revista Adventista brasileira.

5. Timm menciona expressamente o documento The Current Phenomenon of Thought Messages, preparado em abril de 1986 pelo Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral. A existência e a utilização desse documento na avaliação denominacional são, portanto, informadas pela própria fonte de 1987. A presente análise não pressupõe conteúdo do documento além daquilo que as fontes consultadas permitem estabelecer.

6. A caracterização da forma de publicação brasileira como discreta ou próxima de uma publicação pró-forma constitui exercício de interpretação editorial dos autores deste artigo, baseado na localização do texto de Timm, no título, extensão e divisão do artigo de Spangler e na diferença cronológica entre a publicação original e a brasileira. Não é apresentada como declaração documentada de intenção da CPB ou da Divisão Sul-Americana.

7. A informação sobre a localização de “Novos Profetas?” no noticiário e sobre sua percepção naquele momento é testemunho autobiográfico do autor, que editava esse conteúdo em 1987. Deve ser distinguida das informações obtidas diretamente dos documentos publicados.

8. A referência aos visionários do ambiente milerita e do adventismo nascente é utilizada apenas como contexto histórico para comparar ambientes de reconhecimento profético. Não pressupõe equivalência entre Ellen Harmon, Ruth Burrows ou qualquer outro pretendente ao dom.

9. A pergunta “Se Ellen Harmon aparecesse em 1987?” é deliberadamente contrafactual e funciona como instrumento de análise. Não afirmamos saber qual teria sido o resultado de um acontecimento que não ocorreu.






Quem deu a Spangler o dom de discernir os espíritos?

Em 1986, J. Robert Spangler não estava apenas perguntando se novos pretendentes ao dom profético deveriam ser aceitos ou rejeitados. Ao examinar as chamadas “vozes mentais”, seu raciocínio avançou para um território muito mais delicado: mente, experiência interior, ocultismo, espíritos e possibilidade de influência demoníaca. O problema, portanto, já não era somente saber se Ruth Burrows e outros adventistas possuíam o dom. Precisamos perguntar também quem examinava o examinador e com que autoridade um ministro, editor e administrador denominacional podia atravessar a fronteira entre discernimento bíblico, interpretação psicológica e diagnóstico espiritual.

Este artigo complementa nossa investigação sobre os acontecimentos de 1986 e 1987. No primeiro estudo, reconstruímos o caminho pelo qual o fenômeno dos chamados “novos profetas” passou pelos bastidores denominacionais, chegou primeiro ao ambiente ministerial e, posteriormente, alcançou a membresia brasileira através da Revista Adventista. Agora precisamos olhar com maior atenção para outra parte daquele processo. Spangler não encontrou Ruth Burrows num vazio histórico. Quando escreveu para os ministros adventistas, a denominação já possuía uma memória de outros pretendentes ao dom profético, especialmente mulheres cujas reivindicações haviam sido posteriormente rejeitadas. Anna Phillips e Margaret Rowen já estavam disponíveis como exemplos. A Igreja possuía sua profetisa reconhecida e começava a possuir também uma galeria histórica de profetas rejeitados.

Não eram dois ou três casos estranhos

O próprio Spangler reconhecia que o fenômeno não era insignificante. Ao recuperar uma informação atribuída a W. C. White, lembrava que já em 1915 uma dúzia ou mais de pessoas fazia reivindicações dessa natureza. Em 1986, calculava haver “a score or more”, aproximadamente vinte ou mais indivíduos alegando receber alguma forma de comunicação sobrenatural. Não se tratava, portanto, de uma única senhora que começara inesperadamente a escrever aquilo que entendia serem mensagens divinas. Existia um problema denominacional suficientemente amplo para chegar ao Instituto de Pesquisa Bíblica, à Associação Ministerial da Associação Geral e às páginas da Ministry.

Isso é importante porque modifica a escala da controvérsia. Quando Ruth Burrows aparece no centro da discussão, ela representa um caso dentro de um fenômeno maior. Seus cadernos de mensagens, apresentados como resultado de comunicações recebidas de Deus, foram rejeitados pela liderança denominacional, e Ruth jamais se tornou uma profetisa reconhecida ou uma personagem pública importante do adventismo. Historicamente, desapareceu quase completamente da memória denominacional, sobrevivendo sobretudo nos textos produzidos para explicar por que reivindicações como a sua não deveriam ser aceitas. É uma assimetria interessante: sabemos muito mais sobre Ruth através daqueles que a examinaram do que através da própria Ruth.

Antes de Ruth, outras mulheres haviam ocupado o banco dos examinados

Spangler não estava examinando um fenômeno sem precedentes. A história adventista já continha diferentes pessoas que alegaram receber revelações depois do estabelecimento do ministério de Ellen White. Algumas tiveram repercussão suficiente para permanecer documentadas nos próprios arquivos denominacionais. Entre elas aparecem Anna Phillips, Margaret Rowen e, posteriormente na discussão sobre sucessão profética, Clara Resch. Não precisamos transformar este artigo numa enciclopédia de pretendentes ao dom. O que nos interessa é perceber que, quando Spangler chegou a Ruth Burrows e aos demais casos contemporâneos, a máquina institucional de reconhecimento e rejeição já possuía precedentes e memória própria.

Essa memória é importante porque nenhuma investigação histórica começa inteiramente neutra. Quando uma denominação preserva Ellen White na categoria de profetisa verdadeira e Anna Phillips, Margaret Rowen e outros na categoria de pretendentes rejeitados, cada novo caso passa a ser interpretado diante dessa biblioteca de precedentes. A pergunta já não é simplesmente “Deus poderia estar falando novamente?”. Há outra pergunta silenciosa funcionando ao lado dela: “Com qual dos casos anteriores esta pessoa se parece?”. E, depois de décadas de sedimentação historiográfica, os exemplos negativos podem adquirir uma aparência de obviedade que não possuíam enquanto os acontecimentos ainda estavam ocorrendo.

Anna Phillips não pareceu obviamente falsa para todo mundo

Anna Phillips é particularmente reveladora porque sua reivindicação não foi imediatamente percebida como absurda por todos os adventistas importantes de sua época. A. T. Jones e W. W. Prescott deram crédito às suas experiências. Jones chegou a apresentar seus testemunhos no Tabernáculo de Battle Creek, colocando mensagens de Anna e Ellen White em proximidade e convidando os ouvintes a perceber aquilo que considerava a mesma “voz”. Posteriormente Ellen White interveio contra a reivindicação, Anna aceitou a repreensão e abandonou suas pretensões proféticas. A historiografia denominacional passou então a preservar o episódio como advertência.

Mas precisamos deter o filme antes do final. Quando Jones acreditou em Anna Phillips, ele ainda não possuía diante dos olhos o capítulo da história que nós possuímos. Estava tentando discernir um fenômeno contemporâneo. E errou segundo a própria interpretação denominacional posterior. Esse simples fato deveria produzir alguma humildade quando lemos os pareceres sobre pretendentes posteriores. O falso profeta parece muito mais óbvio depois que a história terminou. Enquanto o acontecimento está acontecendo, homens considerados importantes, experientes e teologicamente preparados também podem interpretar incorretamente aquilo que veem.

Margaret Rowen tornou o problema ainda mais sério

Depois da morte de Ellen White, Margaret W. Rowen reivindicou o dom profético e apresentou-se como continuidade de seu ministério. Aqui encontramos uma etapa ainda mais desenvolvida da institucionalização do discernimento. A denominação constituiu um comitê para investigar suas reivindicações. Entre seus integrantes estavam W. C. White e dirigentes da Igreja. Em 1917, a investigação ainda era considerada inconclusiva; em 1918, A. G. Daniells anunciou a conclusão de que Rowen não era divinamente inspirada.

Sabemos hoje que a história posterior de Margaret Rowen forneceria razões devastadoras para rejeitar sua autoridade. Houve falsificação documental, uma previsão fracassada da volta de Cristo para 1925 e, mais tarde, acontecimentos pessoais gravíssimos. Mas cometeríamos um erro histórico se utilizássemos tudo aquilo que aconteceu depois para fingir que, desde o primeiro instante, todos possuíam evidência inequívoca do desfecho. A própria existência de uma investigação inicialmente inconclusiva demonstra o contrário. A história posterior resolveu um problema que, enquanto acontecia, ainda estava aberto.

A própria Ministry colocou Margaret Rowen ao lado do problema de 1986

Esse detalhe editorial merece destaque. A edição de junho de 1986 da Ministry não apresentou o artigo de Spangler completamente isolado. Imediatamente antes dele apareceu um pequeno texto sobre pretendentes ao espírito de profecia, utilizando Margaret Rowen como precedente histórico. Isso significa que o leitor ministerial era preparado para entrar no problema contemporâneo tendo diante dos olhos um caso já negativamente resolvido pela memória denominacional. A associação editorial é poderosa: primeiro recorda-se uma pretendente cuja trajetória terminou em descrédito; depois entram em cena os novos pretendentes.

Não precisamos imaginar uma conspiração para reconhecer o efeito desse arranjo. É simplesmente edição. Quem organiza uma revista decide a sequência pela qual o leitor encontrará os assuntos. E aquela sequência colocava o fenômeno contemporâneo dentro de uma genealogia denominacional de reivindicações proféticas fracassadas. Ruth Burrows e os demais não chegavam sozinhos. Chegavam acompanhados dos fantasmas históricos daqueles que a organização já aprendera a classificar como falsos, equivocados ou não inspirados.

Spangler não estava apenas examinando pessoas; estava aplicando uma tradição de rejeição

Quando J. Robert Spangler se colocou diante das reivindicações proféticas de 1986, portanto, não começou do zero. A denominação já possuía uma memória institucional de mulheres que, depois de Ellen Harmon, haviam afirmado receber revelações de Deus. Anna Phillips, Margaret Rowen e outras haviam passado, de maneiras diferentes, pelo processo adventista de reconhecimento e rejeição. O próprio ambiente editorial em que Spangler escreve recorre a esses precedentes para interpretar aquilo que estava acontecendo em seus dias. Ruth Burrows e outros pretendentes encontram não apenas um pastor perguntando ingenuamente se Deus poderia estar falando outra vez. Encontram uma tradição denominacional que já possuía categorias e histórias exemplares sobre pessoas que reivindicaram o dom e foram finalmente classificadas negativamente.

Isso não significa que os casos anteriores devessem ser esquecidos. Seria absurdo. Se uma comunidade religiosa já enfrentou falsificações, evidentemente deve aprender com elas. O problema aparece quando o precedente começa a funcionar não apenas como advertência, mas como moldura antecipada. O passado pode ajudar a examinar o presente; também pode predispor o examinador a encontrar no presente aquilo que aprendeu a procurar no passado.

Depois de Ellen White, a organização já tinha um procedimento

Margaret Rowen torna essa transformação particularmente visível. Depois da morte de Ellen White, a organização já não precisava enfrentar o problema profético da mesma maneira que o pequeno movimento adventista havia enfrentado Ellen Harmon décadas antes. Agora havia dirigentes, comitês, publicações, pesquisadores e um patrimônio profético consolidado. A nova reivindicação podia ser encaminhada para avaliação institucional. O carisma passava pelo procedimento.

Quando chegamos a 1986, encontramos uma estrutura muito mais madura. Spangler não era um membro qualquer escrevendo uma opinião para um jornal independente. Ocupava posições no coração do aparato denominacional. Atuava na Ministry, estava ligado à Associação Ministerial da Associação Geral e ao ambiente institucional de preservação e interpretação do legado de Ellen White. Isso lhe proporcionava acesso, informação e enorme capacidade de influência sobre a maneira como ministros adventistas compreenderiam os novos pretendentes ao dom.

O problema não é examinar. O problema começa quando o exame muda de natureza

Nada há de errado em Spangler examinar reivindicações proféticas. Era necessário fazê-lo. Se alguém afirma falar em nome de Deus, suas declarações precisam ser submetidas às Escrituras, suas previsões podem ser conferidas, suas contradições precisam ser identificadas e seus frutos devem ser observados. O problema começa quando o exame ultrapassa esses elementos verificáveis e entra num território muito mais nebuloso: o que estaria acontecendo dentro da mente do mensageiro e qual entidade espiritual poderia estar produzindo aquela experiência.

É justamente aí que a linguagem das “vozes mentais” adquire importância. Spangler descreve experiências interiores interpretadas pelos próprios envolvidos como comunicação divina. Não eram necessariamente vozes audíveis no sentido comum. Podiam apresentar-se como pensamentos ou impressões percebidos como vindos de uma fonte externa ou sobrenatural. A partir daí, porém, o artigo aproxima o fenômeno de experiências anteriores relacionadas a exorcismo, libertação de espíritos malignos, ocultismo e possibilidade de atuação demoníaca. O examinador deixa de perguntar apenas se determinada mensagem é verdadeira ou falsa. Começa também a perguntar quem — ou o quê — estaria falando dentro da experiência daquela pessoa.

“Vozes mentais”: o rótulo já fazia metade do trabalho

Não sejamos ingênuos quanto ao peso das palavras. Dizer que alguém “recebe mensagens de Deus” e dizer que alguém recebe “vozes mentais” não produz a mesma imagem na cabeça do leitor. No imaginário comum, ouvir vozes imediatamente desperta suspeitas relacionadas à mente ou ao mundo espiritual. Num ambiente religioso, a pergunta aparece quase automaticamente: se essa voz não vem de Deus, vem de quem? Espírito? Demônio? Engano sobrenatural? Portanto, antes mesmo da conclusão do exame, a expressão escolhida deslocava aquelas pessoas do terreno familiar da experiência profética para uma região carregada de suspeita.

E essa associação não precisa ser artificialmente acrescentada por nós quarenta anos depois. O próprio desenvolvimento de Spangler conduz as chamadas “vozes mentais” para uma discussão em que aparecem ocultismo, espíritos, demônios e libertação de poderes malignos. O leitor começa diante de pessoas que afirmam receber mensagens de Deus e é levado a considerar a possibilidade de uma origem radicalmente diferente daquela reivindicada por seus portadores. A trajetória retórica é poderosa: profecia → “vozes mentais” → ocultismo → possibilidade demoníaca.

Experimente chamar Ellen Harmon de alguém que “ouvia vozes”

A força do enquadramento aparece quando realizamos uma experiência puramente linguística. A tradição adventista não costuma apresentar Ellen Harmon simplesmente como uma jovem que “ouvia vozes”. Utiliza o vocabulário religioso reconhecido: visões, sonhos, revelações, mensagens, anjos, inspiração. Essas palavras colocam imediatamente sua experiência dentro de uma categoria profética respeitável. Agora retire “visões”, “mensagens” e “revelações” e descreva experiências interiores atribuídas ao sobrenatural como “vozes mentais”. A reação emocional do leitor muda antes que qualquer conteúdo tenha sido examinado.

Isso não demonstra que Ruth Burrows fosse profetisa. Demonstra algo diferente e decisivo para nossa investigação: quem possui poder para nomear uma experiência possui enorme poder para determinar o ambiente psicológico e religioso em que ela será julgada. “Nova revelação” desperta curiosidade. “Pretenso dom profético” desperta cautela. “Vozes mentais” desperta suspeita. E “vozes mentais” discutidas ao lado de ocultismo e demônios podem transformar suspeita em medo.

Não era necessário escrever: “Ruth Burrows é louca”

Uma operação de deslegitimação não precisa assumir a forma grosseira de um diagnóstico explícito. Ninguém precisava publicar “Ruth Burrows enlouqueceu”. Também não era necessário escrever simplesmente “Ruth Burrows está endemoninhada”. Bastava que suas experiências chegassem ao leitor dentro de categorias que cultural e religiosamente evocavam essas possibilidades. O efeito potencial era enorme: a mulher que afirmava receber mensagens podia deixar de ser percebida apenas como alguém cuja reivindicação deveria ser examinada e passar a ser vista como pessoa envolvida num fenômeno mentalmente estranho ou espiritualmente perigoso.

E aparece aqui uma assimetria linguística que não pode ser ignorada. Quando manifestações extraordinárias reconhecidas pela tradição são narradas, utiliza-se o vocabulário nobre do sobrenatural: visão, sonho, revelação, anjo, mensagem, inspiração. Quando manifestações concorrentes são examinadas, pode surgir outro léxico: vozes mentais, engano, ocultismo, espíritos, demônios. O mesmo leitor que reverencia uma mulher do século XIX porque ela relatava comunicações sobrenaturais pode ser levado a temer uma mulher do século XX quando suas comunicações são apresentadas dentro de outra moldura verbal.

Spangler não examinava apenas mensagens; começou a interpretar a mente e o mundo espiritual dos mensageiros

O problema do artigo de J. Robert Spangler não está em ele ter examinado reivindicações proféticas. O problema aparece quando sua análise ultrapassa o terreno verificável da comparação bíblica, da conferência de previsões e da identificação de contradições e começa a avançar para uma espécie de diagnóstico híbrido, ao mesmo tempo psicológico e espiritual, acerca daqueles que diziam receber as chamadas “vozes mentais”. Spangler era ministro, editor e administrador denominacional. Isso lhe dava competência pastoral e experiência institucional; não transformava, porém, sua interpretação da experiência subjetiva de outra pessoa numa constatação clínica, muito menos numa identificação demonstrável da entidade espiritual que supostamente estaria por trás dela.

É uma passagem muito mais séria do que simplesmente dizer que determinada mensagem não passou num teste bíblico. Uma coisa é afirmar: “esta previsão falhou”, “esta declaração contradiz a Escritura” ou “esta reivindicação não possui evidência suficiente”. Outra é oferecer ao leitor uma explicação sobre aquilo que estaria acontecendo dentro da experiência mental e espiritual do mensageiro. Nesse momento, o examinador corre o risco de assumir para si uma competência que o próprio artigo não demonstra possuir. Rejeitar uma reivindicação profética não concede automaticamente a quem a rejeita um dom especial de discernimento psiquiátrico-espiritual.

Quem conferiu a Spangler o discernimento que ele exigia dos outros?

A ironia teológica é difícil de ignorar. Os novos pretendentes precisavam demonstrar que possuíam um dom. Suas experiências eram examinadas, seus métodos de revelação questionados e a origem de suas mensagens colocada sob suspeita. Mas quando Spangler passa a sugerir possíveis explicações espirituais para aquilo que acontecia com essas pessoas, quem examina o discernimento do próprio examinador? Qual teste demonstra que sua leitura sobre possível influência demoníaca estava correta? Qual método independente permite distinguir, num caso concreto, entre uma experiência psicológica, uma convicção religiosa equivocada, uma experiência espiritual legítima e uma atuação espiritual maligna?

O problema não desaparece porque Spangler empregue linguagem de possibilidade. A própria introdução da hipótese modifica a maneira pela qual o mensageiro será percebido. Quem antes era uma irmã dizendo receber mensagens de Deus passa a aparecer dentro de um quadro em que o leitor é convidado a considerar ocultismo, espíritos e demônios. A organização não está mais apenas rejeitando a autoridade reivindicada; começa também a oferecer uma explicação para a experiência que produziu a reivindicação.

Discernir os espíritos não significa possuir infalibilidade espiritual

A Bíblia manda provar os espíritos. Mas essa ordem não transforma automaticamente aquele que realiza o teste em possuidor infalível do dom de discernimento. Pelo contrário: se todos devem ser provados, o discernimento de quem examina também precisa permanecer submetido à Palavra. Não existe uma categoria bíblica segundo a qual o candidato a profeta possa errar, o membro possa errar, o pastor possa errar, mas um parecer produzido dentro da estrutura denominacional adquira imunidade contra erro simplesmente porque foi produzido por pessoas encarregadas de proteger a Igreja.

Essa distinção é fundamental. Podemos concluir biblicamente que determinada mensagem é falsa sem afirmar que sabemos qual processo psicológico a produziu. Podemos demonstrar que uma profecia fracassou sem diagnosticar a mente do profeta. Podemos rejeitar uma revelação sem alegar saber qual entidade invisível a originou. Quanto mais o examinador avança além daquilo que pode demonstrar, maior deveria ser sua cautela — especialmente quando possui atrás de si uma estrutura editorial capaz de espalhar sua interpretação por toda a denominação.

Anna Phillips prova que o examinador também pode errar

A experiência de Anna Phillips deveria ter produzido precisamente essa cautela. A. T. Jones e W. W. Prescott não eram personagens periféricos incapazes de reconhecer qualquer argumento teológico. Mesmo assim, acreditaram numa reivindicação que a própria denominação posteriormente classificaria como equivocada. Isso significa que pessoas religiosas experientes podem errar para um lado. Mas, se podem errar aceitando aquilo que não procede de Deus, por qual razão deveríamos imaginar que não podem errar também rejeitando aquilo que procede?

A possibilidade lógica precisa permanecer aberta nos dois sentidos. Discernimento que só admite o risco do falso positivo — aceitar um falso profeta — já nasce desequilibrado. Existe também o falso negativo: rejeitar um mensageiro verdadeiro. E esse segundo risco se torna particularmente sério quando o pretendente traz mensagens de censura à própria estrutura encarregada de julgá-lo.

O arquivo dos falsos profetas pode se tornar uma lente

Anna Phillips e Margaret Rowen não deveriam ser apagadas da história. Seus casos são relevantes e oferecem advertências reais. O problema está em permitir que a galeria dos pretendentes rejeitados se transforme numa lente pela qual toda reivindicação posterior seja antecipadamente enxergada. Depois que uma instituição possui uma profetisa oficial e uma coleção de falsos profetas históricos, a próxima pessoa que afirma receber uma mensagem entra num campo assimétrico. Para ser aceita, precisa atravessar todos os filtros. Para ser rejeitada, pode começar a ser comparada com personagens cujo desfecho negativo o leitor já conhece.

Isso significa que Ruth Burrows e os demais nomes de 1986 não chegaram diante de uma estrutura neutra que jamais enfrentara problema semelhante. Encontraram uma organização que possuía sua profetisa reconhecida, um patrimônio literário gigantesco relacionado a ela e uma memória organizada de pretendentes rejeitados. O arquivo ensinava quem havia sido considerado verdadeiro e quem havia sido considerado falso. Spangler podia recorrer a essa tradição para advertir ministros contra a aceitação precipitada das novas reivindicações.

Depois que a história termina, tudo parece mais fácil

Hoje Margaret Rowen parece um caso simples porque conhecemos seu desfecho. Sabemos dos acontecimentos posteriores que destruíram sua credibilidade. Mas os membros que a conheceram no início não possuíam essas páginas futuras. Nem mesmo o comitê que a examinava possuía inicialmente uma conclusão pronta. Anna Phillips oferece a mesma advertência por outro caminho: figuras importantes acreditaram nela antes de sua reivindicação ser abandonada. A história posteriormente organiza vencedores e derrotados; quem vive o acontecimento precisa discernir sem possuir o benefício do desfecho.

Era exatamente essa a situação diante de Ruth Burrows e dos outros pretendentes em 1986. Eles ainda não eram personagens encerrados num capítulo de história denominacional. Eram pessoas vivas, algumas descritas pelo próprio Spangler como sinceras e dedicadas, que afirmavam estar experimentando alguma forma de comunicação sobrenatural. A responsabilidade do examinador era enorme. E quanto mais sua análise avançava da mensagem para a mente do mensageiro e da mente para a possibilidade demoníaca, maior deveria ser a exigência de demonstrar os limites de seu próprio discernimento.

Ruth desapareceu; o parecer permaneceu

Há algo particularmente triste no resultado histórico. Ruth Burrows não se tornou uma grande dissidente, não construiu uma denominação internacional conhecida e não conquistou lugar importante na memória adventista. Seus cadernos de “ditados divinos” foram rejeitados pela liderança, e seu nome praticamente desapareceu. O que permaneceu acessível foi sobretudo a interpretação produzida sobre ela. Temos Spangler. Temos o documento do Instituto de Pesquisa Bíblica mencionado posteriormente. Temos a repercussão denominacional. Temos a republicação brasileira. Mas a voz de Ruth, em comparação, quase desapareceu.

Isso cria um problema documental que precisa ser reconhecido. Quando tentamos reconstruir o caso décadas depois, encontramos a mulher principalmente através dos olhos daqueles que a rejeitaram. É como tentar reconstruir um julgamento possuindo abundantemente os autos da acusação e apenas fragmentos da fala do acusado. Isso não torna Ruth verdadeira. Torna nossa pretensão de conhecer completamente Ruth muito menor do que a segurança com que seu caso acabou arquivado.

Enquanto isso, o problema estava sendo tratado internacionalmente

Outra peça amplia ainda mais o cenário. O documento mencionado por Timm, The Current Phenomenon of Thought Messages, aparece identificado em bibliografia adventista como trabalho de Frank B. Holbrook, do Biblical Research Institute, datado de abril de 1986 e com nove páginas. Dois meses depois veio o artigo de Spangler na Ministry. E em 1987 Roger W. Coon publicou pela Pacific Press Heralds of New Light: Another Prophet to the Remnant?. Portanto, o fenômeno dos novos pretendentes ao dom não estava sendo tratado apenas numa página perdida da Revista Adventista brasileira.

Quando colocamos essas peças em sequência, aparece uma resposta denominacional muito mais ampla: pesquisa no ambiente da Associação Geral, discussão ministerial internacional, recuperação de precedentes históricos, produção editorial específica e, posteriormente, chegada do assunto à membresia brasileira. Não precisamos afirmar que existiu um comando secreto centralizado para perceber que o problema estava circulando dentro das estruturas internacionais da denominação. A documentação mostra que não era uma curiosidade local.

Em 1987, até um livreto perguntava se haveria outro profeta para o remanescente

O título do trabalho de Roger W. Coon é particularmente revelador: Heralds of New Light: Another Prophet to the Remnant? — “Arautos de nova luz: outro profeta para o remanescente?”. A própria existência de uma publicação específica com essa pergunta demonstra que o problema ultrapassava Ruth Burrows. A denominação precisava lidar com uma questão inevitável depois da morte de Ellen White: se o dom profético caracteriza o remanescente, poderia aparecer outro profeta com mensagens destinadas à Igreja?

É exatamente aí que nossa investigação anterior volta a adquirir força. Talvez a pergunta já estivesse formulada de maneira estreita demais. O Apocalipse não diz que o remanescente teria permanentemente os livros de uma profetisa falecida. Diz que o remanescente possui o testemunho de Jesus, identificado como espírito da profecia. Se essa característica pertence ao remanescente, o problema não deveria ser apenas saber se apareceria “outra Ellen White”, mas como o dom poderia continuar manifestando-se e como cada manifestação deveria ser biblicamente discernida.

O paradoxo institucional

Chegamos então ao paradoxo que une os dois artigos. A denominação nasceu reconhecendo numa jovem sem cargo institucional uma manifestação profética capaz de aconselhar, advertir e repreender dirigentes. Décadas depois, possuía departamentos, pesquisadores, ministros, publicações e instituições encarregadas de decidir se novas pessoas que alegavam experiências semelhantes deveriam ser reconhecidas. Aquilo que começou como carisma tornou-se também objeto de administração.

Isso era provavelmente inevitável numa organização mundial. O problema não está na existência do exame. Está na possibilidade de o examinador esquecer que também é examinável. O Instituto de Pesquisa Bíblica pode errar. Um editor da Ministry pode errar. Um administrador pode errar. Um comitê pode errar. Um pretendente ao dom pode evidentemente errar. A única maneira de impedir que o discernimento se transforme em monopólio institucional é manter todos — candidato, examinador e organização — abaixo da mesma autoridade bíblica.

Quem vigia o discernidor?

Talvez essa seja a pergunta que faltava em 1986. Spangler perguntava corretamente como distinguir manifestações verdadeiras e falsas. Nós acrescentamos outra pergunta: como distinguir um discernimento correto de um discernimento institucionalmente conveniente? Não existe resposta fácil. Mas uma primeira regra parece inevitável: quanto mais a análise se distancia de fatos verificáveis e começa a interpretar a mente do outro ou atribuir possíveis causas demoníacas à sua experiência, maior deve ser o ônus da demonstração.

Não basta possuir cargo. Não basta editar uma revista ministerial. Não basta estar próximo das instituições encarregadas de preservar Ellen White. E não basta dizer que se está defendendo a Igreja contra o engano. Os próprios profetas bíblicos foram acusados de perturbar a religião estabelecida. Portanto, a segurança institucional jamais pode funcionar como teste de inspiração.

E se o próximo profeta vier para repreender os examinadores?

Essa pergunta permanece sem resposta confortável. Se Deus realmente concedesse uma mensagem destinada a denunciar erros da liderança, a pessoa encarregada de examinar essa mensagem poderia ser justamente uma das pessoas repreendidas por ela. Nesse momento, o conflito de interesses seria inevitável. A instituição precisaria demonstrar enorme maturidade espiritual para permitir que a mensagem fosse examinada sem que sua ameaça administrativa ou reputacional interferisse no julgamento.

É por isso que o problema dos “novos profetas” nunca foi apenas o problema dos novos profetas. Era também o problema dos novos sacerdotes do discernimento: pesquisadores, administradores, editores e especialistas que passaram a ocupar a posição de guardiões da fronteira profética. Eles podiam estar certos. Muitas vezes certamente estiveram. Mas o simples fato de ocuparem essa posição não lhes concedia inspiração para decidir infalivelmente quem estava inspirado.

Ruth Burrows pode ter estado errada — e Spangler ainda assim pode ter ultrapassado seus limites

As duas afirmações não são contraditórias. Ruth pode não ter sido profetisa. Suas mensagens podem ter sido resultado de convicções pessoais, interpretação equivocada de experiências interiores ou qualquer outra explicação que as evidências permitissem estabelecer. Nada disso transforma automaticamente em correta toda explicação oferecida por quem a rejeitou. Demonstrar que alguém não fala por Deus é uma coisa; demonstrar que sabemos exatamente o que acontece em sua mente ou qual espírito estaria agindo sobre ela é outra completamente diferente.

É essa distinção que precisa sobreviver depois que fecharmos os arquivos de 1986. O discernimento bíblico deve ser rigoroso. Justamente por isso não pode aceitar atalhos. Nem o pretendente ao dom pode dizer “Deus me revelou” e encerrar a discussão, nem o examinador pode dizer “isso pode ser demoníaco” e imaginar que sua hipótese adquiriu automaticamente autoridade espiritual. Os dois lados precisam ser provados.

Talvez o maior teste não seja o do profeta, mas o da instituição

Uma instituição religiosa demonstra muito sobre si mesma não apenas pelos profetas que aceita, mas pela maneira como trata aqueles que rejeita. Se demonstra biblicamente os erros, preserva a dignidade das pessoas, distingue engano consciente de convicção sincera e reconhece os limites de seu próprio conhecimento, está exercendo discernimento. Quando começa a administrar reputações, escolher rótulos carregados e avançar para interpretações psicológicas ou demonológicas que não consegue demonstrar, já estamos diante de outra coisa.

Anna Phillips, Margaret Rowen, Ruth Burrows e os demais pretendentes não precisam ser transformados retroativamente em profetas verdadeiros para que essa pergunta seja legítima. Nosso interesse não é inverter o arquivo denominacional e declarar verdadeiro tudo aquilo que a organização declarou falso. Isso seria apenas substituir uma ortodoxia automática por outra. Nosso objetivo é mais incômodo: retirar do examinador a aura de infalibilidade que ele jamais deveria ter recebido.

Provai os espíritos — inclusive o espírito dos que dizem estar provando

Talvez seja essa a conclusão mais simples e mais difícil. Se o conselho bíblico é provar os espíritos, então ninguém fica fora do teste. O visionário é provado. Sua mensagem é provada. O teólogo que a analisa é provado. O editor que escolhe o título é provado. O pesquisador que produz o parecer é provado. A organização que publica a conclusão é provada. E nós, décadas depois, também precisamos provar nossa própria interpretação diante dos documentos.

Spangler tinha todo o direito de perguntar se Ruth Burrows e os demais falavam em nome de Deus. O que ele não recebia automaticamente, por ocupar uma posição denominacional, era o direito de transformar hipóteses sobre mente, espíritos e demônios em conhecimento incontestável. Se exigimos evidência de quem afirma “Deus está falando comigo”, devemos exigir também evidência de quem responde “talvez seja outro espírito falando”. O dom do discernimento não nasce de um cargo na Associação Geral, não acompanha a cadeira de editor da Ministry e não é conferido automaticamente a quem trabalha perto dos arquivos de uma profetisa.

E talvez seja justamente aí que os casos esquecidos dessas mulheres recuperem alguma utilidade histórica. Não precisamos canonizá-las. Precisamos ouvi-las suficientemente para compreender o processo pelo qual deixaram de ser pessoas dizendo que Deus lhes falava e se transformaram em exemplos denominacionais de pessoas às quais Deus não falava. Entre uma coisa e outra existiu um julgamento. E quem julga os profetas também precisa ser julgado pela Palavra.






QUANDO O EXAMINADOR RESOLVEU ENTRAR NA CABEÇA DOS PROFETAS

A releitura do original de J. Robert Spangler revela que o problema não estava apenas nas mensagens: o editor da Ministry avançou sobre a psique dos mensageiros, aproximou suas experiências do exorcismo e abriu a possibilidade de atribuir até mensagens verdadeiras à fonte demoníaca

Voltamos diretamente ao artigo de J. Robert Spangler publicado na Ministry de junho de 1986 porque a tradução brasileira que circulou posteriormente, somada às imperfeições produzidas por digitalizações e reconhecimento óptico de caracteres, poderia dificultar a percepção de algumas escolhas vocabulares importantes. Fizemos, por isso, uma nova tradução diretamente do fac-símile original. O resultado não exige que retiremos aquilo que escrevemos anteriormente; ao contrário, permite enxergar com maior nitidez a gravidade do procedimento adotado pelo autor. Quanto mais cuidadosamente lemos Spangler em inglês, menos confortável fica sua posição, porque percebemos que ele não se limitou a comparar mensagens com a Escritura. Em determinado momento, atravessou essa fronteira e começou a interpretar a constituição psicológica dos mensageiros, sua susceptibilidade à autoilusão, suas experiências com exorcismo e a possível procedência demoníaca daquilo que afirmavam receber.

É importante estabelecer isso a partir do próprio documento porque não queremos construir um Spangler imaginário para depois atacá-lo. O homem ocupava posições importantes: era editor da Ministry, secretário associado da Associação Ministerial da Associação Geral e membro do conselho do Ellen G. White Estate. Ele próprio informa ter lido numerosas mensagens e realizado entrevistas aprofundadas com vários envolvidos. Diz também ter tentado manter uma posição neutra. Portanto, não estamos diante de um comentário casual feito por um pastor numa conversa particular. Estamos diante de um dirigente ministerial de projeção mundial, escrevendo no periódico denominacional destinado ao ministério, apresentando aos colegas sua avaliação de um fenômeno que envolvia, segundo ele, vinte ou mais pessoas alegando algum tipo de revelação sobrenatural.

O PROBLEMA COMEÇA COM UMA ADMISSÃO QUE SPANGLER NÃO CONSEGUE FAZER DESAPARECER

Spangler começa reconhecendo algo que deveria ter imposto enorme cautela a tudo que escreveria depois. As pessoas envolvidas que ele conhecia não eram, em suas palavras, wild-eyed fanatics, expressão que podemos traduzir como fanáticos de olhos arregalados ou desvairados. Eram, segundo ele, cristãos sinceros e dedicados. Também esclarece que as chamadas thought voices não eram vozes audíveis. Nem o mensageiro nem outras pessoas ouviam som algum. Tratava-se de uma impressão interior que o indivíduo interpretava como comunicação divina e, a partir dela, escrevia aquilo que acreditava estar recebendo de Deus.

Isso é importantíssimo. A expressão portuguesa “vozes mentais” pode carregar imediatamente para o leitor contemporâneo uma conotação psiquiátrica que a descrição técnica feita pelo próprio Spangler não autoriza automaticamente. Ele não estava relatando pessoas andando pelos corredores ouvindo vozes acústicas inexistentes. Estava tratando de experiências interiores interpretadas religiosamente como comunicação sobrenatural. A distinção não prova que Deus estivesse falando com aquelas pessoas, mas impede que a simples expressão “vozes mentais” funcione como diagnóstico disfarçado.

E existe outra admissão ainda mais desconfortável. Spangler informa que, excetuando dois ou três pontos, as mensagens não continham nada de singular. A maioria poderia ser classificada como exortações gerais. Falavam da proximidade da volta de Jesus, pediam preparação para os acontecimentos finais, descreviam o Senhor chorando por Sua Igreja, conclamavam ao estudo da Bíblia e do Espírito de Profecia e traziam fortes repreensões à Igreja por sua condição laodiceana. Mais adiante, ele próprio admite que poderia haver “pouco ou nada” nelas em conflito com a Bíblia e o Espírito de Profecia. Portanto, o problema que Spangler precisava resolver era muito mais complicado do que descobrir uma heresia gritante e mostrá-la aos leitores.

QUANDO A MENSAGEM NÃO BASTA, EXAMINA-SE O MENSAGEIRO

É nesse ponto que o artigo começa a mudar de natureza. Spangler inicialmente questiona o método de inspiração alegado pelos mensageiros, especialmente o ditado palavra por palavra. Esse argumento pode ser examinado, contestado ou defendido no terreno teológico. Ele compara a reivindicação dos pretendentes com aquilo que entende ser o modelo de inspiração bíblica e com declarações de Ellen White. Podemos discutir se sua comparação é correta, mas ainda estamos diante de um argumento acessível ao leitor: ele apresenta premissas, cita documentos e chega a uma conclusão.

O problema se agrava quando Spangler abandona esse terreno e avança para uma área em que sua autoridade como editor, pastor ou integrante do conselho do White Estate não lhe concedia qualquer capacidade especial de penetrar a mente humana. Depois de relacionar os envolvidos ao chamado ministério de libertação, declara acreditar que existe uma correlação entre esse ministério e as reivindicações proféticas e chega a chamar o primeiro de “trampolim” para as supostas revelações sobrenaturais. Então pergunta se indivíduos sinceros cuja “psyche” fosse extremamente sensível àquilo que consideravam sobrenatural poderiam ser iludidos a acreditar que Deus estava falando com eles sobrenaturalmente.

A palavra está lá: psyche.

E a pergunta que deveria ter sido feita imediatamente é esta: desde quando o editor da Ministry possuía competência para avaliar a psique dos candidatos ao dom profético?

DEUS NUNCA EXIGIU ATESTADO DE NORMALIDADE DE SEUS MENSAGEIROS

Há algo profundamente estranho em submeter reivindicações proféticas bíblicas a um filtro de normalidade psicológica convencional, porque a própria Bíblia seria um pesadelo para esse método. O texto bíblico não estabelece aparência de equilíbrio, comportamento socialmente convencional, elegância intelectual ou respeitabilidade como critérios para determinar se Deus falou. Se estabelecesse, seria necessário explicar uma quantidade constrangedora de episódios em que Deus deliberadamente escolheu instrumentos ou comportamentos que pareceriam absurdos a qualquer comissão moderna encarregada de avaliar a “normalidade” do mensageiro.

A jumenta de Balaão é o caso limite e justamente por isso é tão útil. O animal não possuía inteligência humana, formação teológica, equilíbrio psicológico ou qualquer das qualificações que poderíamos imaginar num candidato ao ministério profético. Ainda assim, no relato bíblico, Deus abre sua boca e a utiliza para transmitir uma advertência. Isso não transforma a jumenta num profeta ministerial, evidentemente; demonstra algo mais elementar: Deus não precisa pedir ao instrumento autorização para utilizá-lo nem apresentar ao examinador um currículo psicológico do meio que escolheu para falar.

João Batista também teria problemas numa entrevista moderna de avaliação comportamental. Morava no deserto, vestia-se de maneira estranha, alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre e falava com uma agressividade que faria muitos departamentos de comunicação entrar em pânico. Chamava religiosos respeitáveis de raça de víboras e enfrentou publicamente o governante por sua vida matrimonial. Não media palavras para parecer equilibrado aos olhos do palácio porque sua função não era preservar a reputação administrativa de ninguém.

Ezequiel torna o problema ainda mais evidente. Deus lhe ordena uma série de atos simbólicos extraordinários e, em determinado momento, manda que prepare alimento sobre excremento humano; depois do protesto do profeta, permite que utilize esterco de vaca. O mesmo livro contém, no capítulo 23, linguagem sexual tão crua que dificilmente passaria sem constrangimento por uma comissão editorial religiosa contemporânea. Oséias recebe uma ordem matrimonial escandalosa para transformar sua própria vida numa mensagem profética. Isaías anda descalço e despido como sinal. Outros profetas executam atos simbólicos que, isolados do contexto da revelação, poderiam facilmente ser apresentados como evidências de excentricidade.

Nada disso significa que excentricidade prove inspiração. Significa precisamente o contrário: normalidade e anormalidade aparentes não resolvem a questão. Uma pessoa perfeitamente equilibrada pode mentir dizendo que Deus falou; uma pessoa excêntrica pode ser utilizada por Deus. Portanto, quando Spangler começa a especular sobre a psyche dos mensageiros, ele introduz um critério perigosamente estranho ao problema que deveria estar resolvendo.

O PROFETA PRECISA PROVAR TUDO; O EXAMINADOR, QUASE NADA

A arquitetura argumentativa do artigo cria uma assimetria extraordinária. Se a mensagem contradiz a Bíblia, temos motivo para rejeitá-la. Se uma previsão datada fracassa, temos um fato verificável contra ela. Se os mensageiros se contradizem, temos outra dificuldade objetiva. Até aqui, não existe problema metodológico: são evidências que podem ser colocadas diante do leitor e examinadas.

Mas o sistema vai ficando progressivamente mais fechado. Se a mensagem não contradiz a Bíblia, Spangler responde corretamente que isso não prova inspiração. Se o mensageiro é sincero, sinceridade também não prova inspiração. Se a mensagem contém verdade, ainda assim pode proceder da “fonte errada”. Se a pessoa interpreta interiormente uma impressão como sobrenatural, pode estar autoiludida. Se esteve envolvida com exorcismo, essa associação passa a integrar a suspeita sobre a origem da experiência. Ao final, praticamente qualquer elemento favorável ao candidato pode ser reinterpretado como insuficiente, enquanto o examinador mantém para si o direito de determinar o peso de todas as evidências.

É aí que precisamos perguntar: qual teste Spangler aplicou a Spangler?

Se o candidato afirma “Deus falou comigo”, corretamente exigimos evidências. Mas, se o examinador sugere que o candidato pode estar psicologicamente autoiludido ou envolvido num fenômeno relacionado a influência demoníaca, por que não exigir dele evidência proporcional à gravidade dessa interpretação?

“VERDADE PROCEDENTE DA FONTE ERRADA”: A CARTA QUE GANHA DE QUALQUER JOGO

O intertítulo Truth from wrong source“Verdade procedente da fonte errada” — é talvez a peça mais poderosa do mecanismo argumentativo. Spangler recorre à jovem de Atos 16 que dizia uma verdade sobre Paulo e seus companheiros, embora o texto bíblico atribua sua condição a um espírito de adivinhação. O relato efetivamente demonstra, dentro da narrativa bíblica, que uma afirmação verdadeira não basta para comprovar que sua origem seja divina.

Mas existe uma diferença gigantesca entre ler em Atos que determinada personagem possuía um espírito de adivinhação e concluir, quase dois mil anos depois, que experiências interiores de cristãos adventistas contemporâneos podem estar relacionadas a uma fonte demoníaca. No primeiro caso, temos a afirmação do próprio texto inspirado. No segundo, temos um examinador humano tentando interpretar fenômenos humanos e espirituais sobre os quais não possui acesso infalível.

A categoria “verdade procedente da fonte errada” pode, se utilizada sem limites objetivos, tornar-se uma carta que vence qualquer jogo. A mensagem está errada? Rejeite-a pelo erro. Está certa? A verdade pode vir da fonte errada. O mensageiro parece desonesto? Rejeite-o. Parece sincero? Pode estar autoiludido. A experiência parece comum? Não prova inspiração. Parece sobrenatural? Pode ser demoníaca.

Como um candidato poderia atravessar esse labirinto?

O PERIGO DE TRANSFORMAR DISCERNIMENTO EM PODER

“Provai os espíritos” não significa entregar a um funcionário denominacional o dom automático de saber o que se passa na mente e no mundo espiritual ao redor de outra pessoa. Discernimento bíblico não é licença para psicologização amadora, muito menos autorização para aproximar uma experiência religiosa da atuação demoníaca apenas porque o examinador identificou associações que considera suspeitas. Se existe fraude, demonstre-se a fraude. Se existe falsa profecia, apresente-se a profecia e seu fracasso. Se existe contradição bíblica, coloque-se lado a lado a mensagem e a Escritura. Se existe manipulação, documente-se a manipulação. Quanto mais grave a acusação, maior precisa ser a evidência.

Spangler possuía todo o direito de rejeitar intelectualmente as reivindicações que examinava. Possuía também o direito de publicar seus argumentos. O que seu cargo não lhe dava era acesso privilegiado à mente dos mensageiros ou à origem invisível de suas experiências. Ser editor da Ministry, secretário associado da Associação Ministerial e membro do conselho do White Estate podia lhe conferir influência institucional; não lhe conferia o dom sobrenatural de discernir espíritos por força do crachá.

E SE A JOVEM ELLEN HARMON TIVESSE APARECIDO NAQUELA FILA?

É impossível escapar da pergunta. Imagine uma jovem pobre, debilitada fisicamente, com pouca escolaridade formal, dizendo que caiu em visão, viu anjos, recebeu mensagens do céu e precisava transmiti-las ao povo de Deus. Acrescente experiências extraordinárias, fenômenos físicos, mensagens de repreensão e a alegação de comunicação sobrenatural. Agora não coloque essa jovem em 1844. Coloque-a em 1986 diante da estrutura que Spangler representava.

O que aconteceria?

Não sabemos. E não devemos fingir saber.

Mas sabemos quais perguntas o sistema de 1986 já estava preparado para fazer. Sabemos que examinaria o método da revelação, compararia as mensagens com Ellen White, procuraria discrepâncias, investigaria associações religiosas e poderia considerar autoilusão e origem espiritual enganadora. Sabemos ainda que o próprio Spangler reconhecia a possibilidade teológica de uma manifestação verdadeira do dom profético no futuro.

É justamente isso que torna o episódio tão desconfortável: a teologia deixava a porta aberta enquanto o aparato institucional de discernimento guardava a entrada.

NÃO PRECISAMOS DECLARAR NINGUÉM PROFETA PARA DENUNCIAR O PROBLEMA

Não estamos afirmando que Ruth Burrows ou qualquer outro pretendente examinado naquele período fosse profeta. Podemos perfeitamente concluir que uma previsão fracassou, que determinadas mensagens eram banais, que outras eram contraditórias e que alguns métodos reivindicados levantavam problemas teológicos. Não precisamos fabricar profetas para criticar o procedimento de quem os examinou.

Nossa questão é outra. Ninguém adquire o direito de questionar a sanidade psicológica ou a condição espiritual de uma pessoa simplesmente porque ela alegou receber uma mensagem de Deus. Se houver evidência clínica, essa avaliação pertence a profissionais competentes e exige procedimentos próprios. Se houver evidência bíblica de falsidade, apresentemos essa evidência. Se houver fundamento para uma conclusão espiritual, ela também precisa ser demonstrada, não insinuada por associação.

A Bíblia está cheia demais de mensageiros estranhos para permitirmos que “parece normal?” se transforme em teste profético.

QUEM DISCERNE O DISCERNIDOR?

Nossa nova tradução do original de Spangler, portanto, não torna seus argumentos mais confortáveis. Torna mais visível a passagem decisiva que precisamos investigar. Ele começa examinando mensagens e termina especulando sobre a psyche dos mensageiros; começa comparando métodos de inspiração e termina relacionando o fenômeno ao ministério de libertação; começa reconhecendo cristãos sinceros e dedicados e termina oferecendo ao leitor a categoria de uma verdade que pode proceder da fonte errada.

Talvez a pergunta fundamental nunca tenha sido apenas “essas pessoas eram profetas?”

Há outra, igualmente necessária:

Quem deu aos homens que as examinaram autoridade para decidir não apenas se a mensagem era verdadeira ou falsa, mas o que acontecia dentro da mente do mensageiro e de que região do mundo invisível sua experiência procedia?

O dom profético precisa ser provado. Mas o suposto dom de discernir quem pode ou não ser profeta também. E talvez tenha chegado a hora de aplicarmos aos examinadores o rigor que eles exigiram dos examinados.






QUANDO DEUS RESPONDEU AO EXAMINADOR, SUA REAÇÃO FOI ABSURDA

Spangler questionou o método da candidata a profetisa. Pouco depois, ela apresentou uma mensagem em que o próprio Deus supostamente respondia à objeção: “Você está Me colocando numa caixa.” O examinador, porém, preferiu explicar por que Deus não precisaria falar daquele jeito.

 

Minha preocupação mais séria diz respeito ao método de comunicação. Não consegui encontrar nada nas Escrituras que sustentasse que Deus utiliza vozes do pensamento para comunicar Sua vontade à humanidade. Quando discuti essa preocupação com uma das principais mensageiras, ela respondeu: “Mas como podemos julgar Deus quanto à maneira pela qual Ele deseja comunicar Sua vontade a nós?”

Pouco depois dessa entrevista, a pessoa envolvida afirmou ter recebido uma mensagem do Senhor. Dizia, em parte:

“[…] fez algum bem, mas ele Me colocou dentro de uma caixa de tantos centímetros para um lado e tantos para o outro… Se ele realmente estivesse esperando de verdade que o Senhor viesse em breve, não estaria Me colocando numa caixa, dizendo que Eu não deveria ditar mensagens. Mas, Minha filha, saiba isto: o tempo para Minha vinda à Terra é tão curto que não tenho tempo para permitir que cada mensageiro prepare suas próprias palavras. As mensagens precisam avançar rapidamente. Há também um perigo muito grande de um mensageiro colocar seus próprios pensamentos numa mensagem, caso Eu lhe concedesse a liberdade de escrever Minhas palavras à sua própria maneira.

“O anjo do Senhor guiou Minha Ellen, passo a passo, na escrita de Minhas palavras. Mas, em seus dias, havia tempo pela frente para compilar muitos livros; portanto, Eu lhe concedi um pouco mais de liberdade, MAS dei ao Meu anjo instruções para orientar aquilo que ela escrevia.”

As letras maiúsculas aparecem na mensagem; a mensageira afirma que elas foram ditadas dessa maneira pelo Senhor.

Esses parágrafos apresentam dois argumentos: não podemos “colocar Deus numa caixa” quanto ao Seu método de comunicação. E, como não há tempo para reescrever a mensagem numa linguagem mais sofisticada ou atraente, o “ditado divino” tornou-se necessário.

Ambos os argumentos me perturbam. Quanto ao primeiro, Deus utilizou inspiração verbal, ou ditado divino, apenas raramente durante os milhares de anos em que tem inspirado homens e mulheres a escrever. Mudaria Ele agora, sabendo que isso causaria dúvida e confusão entre Seu povo?

O segundo simplesmente não faz sentido. Com processadores de texto e técnicas avançadas de comunicação, qualquer mensagem, secular ou religiosa, pode ser editada de maneira rápida e eficiente. Além disso, as mensagens que li não constituem o tipo de material que seria colocado em um livro.

Quando Ellen White escreveu a série Conflito dos Séculos, foram necessárias muita pesquisa e edição. Mas seus testemunhos, que eram cartas contendo admoestações gerais escritas para diferentes indivíduos, não exigiam o refinamento de um manuscrito destinado a um livro. O conteúdo das mensagens em discussão, embora bastante inferior em qualidade, é semelhante, quanto ao tipo, aos testemunhos. Portanto, o argumento da falta de tempo não se sustenta.

DEUS NÃO PASSOU NO TESTE DE SPANGLER

Quando a candidata apresentou uma mensagem em que o próprio Deus supostamente defendia Seu direito de escolher como falar, o examinador respondeu com seu modelo de inspiração — e até com processadores de texto.

O examinador queria decidir como Deus poderia falar. A candidata voltou com uma mensagem em que Deus supostamente contestava exatamente essa pretensão. Spangler não provou que Deus não falaria assim; explicou por que achava que Ele não deveria precisar fazê-lo.

O trecho do artigo de Spangler reproduzido anima, é extraordinário porque, pela primeira vez, o examinador deixa de observar a suposta revelação de fora e passa a ser diretamente interpelado por ela. A candidata não recebe apenas uma mensagem genérica para a Igreja; pouco depois da conversa com Spangler, apresenta uma comunicação na qual o próprio Deus, segundo sua reivindicação, responde precisamente à objeção formulada pelo examinador. Isso muda completamente a situação. Se Spangler admitisse sequer como possibilidade real que aquela mulher pudesse estar recebendo mensagens de Deus, teria de admitir também a possibilidade de que o próprio exame que ele estava realizando estivesse sendo repreendido por Deus. Nesse instante, examinador e objeto do exame trocam parcialmente de lugar.

O conteúdo da suposta resposta é intelectualmente mais elaborado do que uma simples reação emocional. A mensageira enfrenta diretamente a premissa de Spangler: ele não encontrara nas Escrituras apoio para aquele método de comunicação e, portanto, desconfiava dele. A resposta atribuída a Deus é, em essência: a ausência de precedente suficiente não concede ao examinador autoridade para limitar os meios que Deus pode escolher. “Ele Me colocou dentro de uma caixa” é justamente uma acusação contra a transformação da experiência histórica anterior em fronteira para a ação divina presente. Isso não prova que a mensagem proceda de Deus, mas apresenta um problema real para o argumento de Spangler: ele precisa demonstrar não apenas que aquele método é incomum, mas que Deus não poderia utilizá-lo.

E é justamente aí que sua resposta parece muito mais fraca do que a pergunta que recebeu. Spangler admite que Deus utilizou inspiração verbal ou ditado divino “apenas raramente”. Essa admissão é fatal para qualquer argumento baseado na impossibilidade do método. Se ocorreu raramente, então ocorreu. O máximo que se pode concluir é que não foi o procedimento predominante. Não se pode transformar “Deus geralmente não fez assim” em “Deus não pode fazer assim agora”. Ao perguntar: “Mudaria Ele agora, sabendo que isso causaria dúvida e confusão entre Seu povo?”, Spangler substitui uma demonstração bíblica por uma conjectura sobre aquilo que Deus consideraria administrativamente conveniente. E a história bíblica dificilmente permite afirmar que Deus evita métodos ou mensagens porque possam produzir dúvida, perplexidade ou confusão entre os que precisam discerni-los.

Há outro detalhe muito importante: a mensagem atribuída a Deus oferece duas justificativas distintas para o ditado direto. A primeira é a urgência: não haveria tempo para permitir que cada mensageiro elaborasse suas próprias palavras. A segunda é epistemologicamente ainda mais importante: haveria perigo de o mensageiro inserir seus próprios pensamentos se recebesse liberdade para formular a mensagem. Spangler praticamente reduz a discussão ao primeiro argumento e responde com uma observação surpreendentemente banal: existem processadores de texto e técnicas modernas capazes de acelerar a edição. Mas isso não responde adequadamente à segunda justificativa. Um processador de texto pode acelerar a redação; não impede que o mensageiro introduza pensamentos pessoais. A resposta tecnológica enfrenta o problema da velocidade, mas não o problema da alegada preservação do conteúdo.

Isso torna a referência aos processadores de texto quase desconcertante. A candidata apresenta uma reivindicação teológica: Deus estaria utilizando ditado direto por causa da urgência e para reduzir a interferência humana. Spangler responde parcialmente como editor: hoje podemos editar textos rapidamente. Ele desloca a questão da revelação para a eficiência editorial. É como se a discussão passasse de “Deus poderia escolher outro método?” para “não haveria necessidade, porque possuímos bons recursos de edição”. Mas necessidade editorial não é critério bíblico para determinar o modo pelo qual Deus pode ou não comunicar-se.

A resposta atribuída a Deus também antecipa a principal objeção adventista: Ellen White. A mensagem não nega o modelo reconhecido em Ellen; procura incorporá-lo. Diz que Ellen teria recebido maior liberdade porque havia mais tempo e que, mesmo assim, o anjo do Senhor orientava o que ela escrevia. Isto é, a candidata não está simplesmente rejeitando Ellen White para impor um modelo rival. Está propondo uma variação histórica do método de inspiração, explicando por que Deus teria trabalhado de uma maneira com Ellen e de outra na urgência escatológica do presente. Novamente, isso pode ser invenção, autoengano ou revelação; o ponto é que o argumento precisa ser respondido pelo conteúdo, não simplesmente eliminado porque não corresponde ao modelo institucional já conhecido.

Spangler, contudo, transforma o modelo de Ellen White numa espécie de norma retrospectiva. Ele observa como a denominação entende que a inspiração funcionou nela e utiliza esse modelo para determinar como a inspiração deveria funcionar nos candidatos posteriores. É exatamente a circularidade que temos identificado: a profetisa já reconhecida passa a fornecer o padrão pelo qual se decide se novos pretendentes podem ser reconhecidos. A candidata responde justamente atacando essa circularidade: não se pode “colocar Deus numa caixa” construída a partir do modo como Ele teria trabalhado anteriormente. O examinador replica perguntando se Deus realmente mudaria Seu procedimento. Mas essa pergunta continua sendo apenas uma pergunta.

Mais revelador ainda é o critério estético que aparece logo depois. Spangler afirma que as mensagens eram “bastante inferiores em qualidade” e compara sua elaboração com os livros de Ellen White. Esse raciocínio é perigosíssimo como teste profético. Qualidade literária não é critério bíblico de inspiração. Amós não precisaria escrever como Isaías; Marcos não precisa possuir o estilo de Lucas; João Batista não precisava desenvolver tratados elegantes; a jumenta de Balaão certamente não teria passado por uma avaliação de sofisticação linguística. Se Deus escolhe instrumentos diferentes, diferenças de vocabulário, escolaridade, estilo e capacidade intelectual não constituem, por si, evidência contra o uso do instrumento.

A Bíblia torna ainda mais difícil qualquer tentativa de transformar racionalidade convencional ou comportamento socialmente aceitável em critério. Ezequiel realizou atos simbólicos que, retirados de seu contexto profético, poderiam parecer perturbadores; recebeu inicialmente a ordem de preparar alimento sobre excremento humano e depois utilizou esterco de vaca; escreveu no capítulo 23 uma alegoria sexual de crueza impressionante. Oséias transformou sua própria vida matrimonial em sinal profético. Isaías andou despido e descalço. João Batista vivia no deserto, vestia-se de maneira incomum e dirigia palavras violentas aos líderes religiosos. E a jumenta de Balaão constitui a demonstração extrema de que Deus pode utilizar um instrumento que jamais passaria por qualquer avaliação humana de capacidade profética.

Por isso, a pergunta da candidata — “como podemos julgar Deus quanto à maneira pela qual Ele deseja comunicar Sua vontade?” — merecia uma resposta muito mais séria do que recebeu. A resposta bíblica não poderia ser simplesmente “não podemos julgar Deus”; evidentemente é necessário testar qualquer alegação de revelação. Mas o teste correto seria perguntar se a mensagem contradiz a Escritura, se suas previsões se cumprem quando são verificáveis, quais são seus frutos e se existem elementos demonstráveis de fraude ou falsidade. O teste não pode ser: Deus normalmente não trabalhou assim, portanto provavelmente não está trabalhando assim agora.

O episódio possui ainda um aspecto quase dramático. Spangler queria examinar o mensageiro; o mensageiro apresenta uma mensagem na qual Deus supostamente examina Spangler. A revelação diz, em essência: o problema está no seu critério; você está limitando Minha liberdade de agir. Nesse momento, Spangler tinha duas possibilidades metodológicas. Poderia suspender seu modelo e perguntar seriamente: “Se isto for de Deus, como saberei?” Ou poderia utilizar o próprio modelo questionado pela mensagem para rejeitar a mensagem que questionava o modelo. Ele escolhe essencialmente a segunda via.

É aí que surge uma circularidade poderosa: Spangler considera determinado modelo de inspiração correto; aparece uma mensagem dizendo que Deus está usando outro modelo; ele rejeita a mensagem porque o novo modelo não corresponde suficientemente ao modelo que já considera correto. O candidato precisa conformar-se ao paradigma do examinador para demonstrar que Deus pode ter rompido o paradigma do examinador. Isso torna o caminho de reconhecimento extraordinariamente estreito.

E há uma ironia final. Se a mensagem fosse falsa, a mensageira demonstrou pelo menos suficiente inteligência religiosa para responder exatamente ao ponto fraco da objeção de Spangler. Se fosse produto de autoilusão, ainda assim produziu uma resposta teologicamente coerente à tentativa de limitar os meios de revelação. E se, apenas como hipótese de trabalho, fosse realmente de Deus, então temos uma cena muito mais grave: o examinador recebeu uma repreensão direta e respondeu explicando a Deus que, com processadores de texto modernos, não haveria necessidade de Ele ditar mensagens daquela maneira.

Não temos como provar qual dessas três possibilidades corresponde ao acontecimento. Mas podemos avaliar o argumento. E, nesse confronto específico, Spangler não demonstra que Deus não poderia utilizar o método reivindicado; demonstra apenas que o método não correspondia àquilo que ele esperava encontrar com base no modelo adventista de inspiração já estabelecido.

Essa diferença é enorme.

Porque um examinador tem direito de dizer: “Ainda não encontrei evidência suficiente para acreditar que Deus falou.”

É muito diferente de comportar-se como se pudesse dizer:

“Deus não falaria assim.”

E foi justamente essa segunda pretensão que a suposta mensagem colocou no banco dos réus.






JONAS NÃO PASSARIA NO TESTE DE SPANGLER?

“Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.” O prazo terminou, a cidade permaneceu de pé e o próprio profeta explicou por que tentara fugir: sabia que Deus poderia desistir do castigo anunciado. 

O episódio bíblico expõe o perigo de transformar o cumprimento mecânico de uma previsão em teste infalível para decidir quem Deus enviou. Ele tentou fugir de Nínive porque conhecia a misericórdia de Deus e sabia que a destruição anunciada poderia não acontecer.

Quando o não cumprimento basta para condenar um mensageiro, até um profeta enviado por Deus pode acabar na lista dos falsos. Se “profetizou e não cumpriu” fosse aplicado mecanicamente como teste definitivo, o próprio Jonas correria o risco de ser reprovado por Spangler como falso profeta.

A desculpa e tentativa de fuga de Jonas para não ser profeta em Nínive foi exatamente a possibilidade de a profecia não se cumprir. E ele não passar no teste de verdadeiro profeta. E isso complica bastante qualquer uso mecânico do “cumprimento da previsão” como teste simples e absoluto do verdadeiro profeta.

Jonas não tentou fugir porque tivesse medo de Nínive, pelo menos não segundo a explicação que ele próprio oferece no livro. Depois que Nínive se arrepende e a destruição anunciada não acontece, Jonas revela por que não queria ir:

“Ah! Senhor! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis…” (Jn 4:2)

E então explica a razão: ele sabia que Deus era misericordioso, compassivo e capaz de arrepender-se do mal anunciado. Ou seja, Jonas sabia antecipadamente que poderia proclamar uma catástrofe em nome de Deus — “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” — e chegar ao quadragésimo primeiro dia com Nínive ainda de pé. Isso é explosivo para nossa discussão.

JONAS TINHA MEDO DE PARECER UM FALSO PROFETA

A profecia registrada é espantosamente direta: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jn 3:4). O texto, nessa formulação, não acrescenta: “a menos que vocês se arrependam”. Quem ouve a proclamação recebe uma previsão temporalmente delimitada. Entretanto, os ninivitas se arrependem, Deus vê sua mudança de conduta e não executa a destruição anunciada.

E Jonas fica furioso.

A razão aparece somente no capítulo seguinte: ele já sabia que isso poderia acontecer. Conhecia o caráter misericordioso de Deus e sabia que a resposta humana poderia alterar o desfecho anunciado. Em outras palavras, o profeta verdadeiro tinha razões para temer precisamente aquilo que, numa aplicação simplista do teste profético, poderia fazê-lo parecer falso: sua profecia poderia não se cumprir.

Isso merece entrar diretamente nesta nossa crítica a Spangler, porque o episódio de Jonas impede que o não cumprimento de uma previsão seja convertido, de maneira automática e mecânica, em sentença contra o mensageiro.

Antes de concluir que uma profecia fracassou, é indispensável reconhecer algo ainda mais desconcertante demonstrado pelo caso de Jonas: uma sentença profética pode ser anunciada de forma categórica, sem qualquer condição expressa, e ainda assim Deus decidir não executar aquilo que mandou o profeta anunciar. A mensagem confiada a Jonas não dizia: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida, a menos que se arrependa”.

O anúncio registrado é direto, datado e aparentemente incondicional: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida” (Jonas 3:4). Passaram-se os quarenta dias, Nínive permaneceu de pé e, longe de isso transformar Jonas em falso profeta, o próprio livro explica que Deus viu o arrependimento dos ninivitas e não executou o mal que havia anunciado contra eles.

Jeremias 18:7-10 fornece a chave para compreender esse aparente paradoxo. Ali, Deus estabelece um princípio mais amplo segundo o qual a condicionalidade não precisa necessariamente aparecer formulada dentro de cada anúncio profético para fazer parte da maneira divina de lidar com povos e nações. Deus pode anunciar que arrancará, derrubará e destruirá uma nação e, se ela abandonar sua maldade, reconsiderar o juízo anunciado; da mesma forma, pode anunciar que edificará e plantará e, diante da desobediência, reconsiderar o bem prometido.

Portanto, não devemos inserir artificialmente no sermão de Jonas uma condição que o texto não registra. O que devemos reconhecer é algo muito mais forte: o próprio Deus preserva para Si a liberdade de não executar uma sentença que mandou Seu profeta anunciar categoricamente, quando a advertência produz a mudança que o juízo pretendia provocar.

É justamente por isso que Jonas estava tão contrariado. Ele não reclama porque tenha formulado mal a profecia ou esquecido de acrescentar uma cláusula condicional. Pelo contrário, em Jonas 4:2 explica que já sabia, antes mesmo de ir a Nínive, que Deus era misericordioso e poderia arrepender-Se do mal anunciado.

Eis a ironia extraordinária: Jonas sabia que poderia obedecer perfeitamente a Deus, proclamar exatamente a mensagem recebida, chegar ao quadragésimo primeiro dia e encontrar Nínive intacta. Aplicado mecanicamente o critério “anunciou e não aconteceu”, um profeta verdadeiro poderia terminar reprovado justamente porque Deus teve misericórdia daqueles a quem o enviou.

Nesse quadro bíblico, portanto, o não cumprimento literal de uma sentença profética não demonstra necessariamente o fracasso da profecia; em determinadas circunstâncias, pode demonstrar exatamente o contrário: que a advertência cumpriu sua finalidade, produziu arrependimento e tornou desnecessária a execução do juízo que anunciava. É precisamente o que torna Jonas tão desconcertante para qualquer sistema de avaliação que pretenda resolver o problema do verdadeiro e do falso profeta apenas conferindo, depois do prazo, se aquilo que foi anunciado aconteceu.

Portanto, nem sequer o critério aparentemente mais objetivo — “profetizou e não aconteceu, logo é falso profeta” — pode ser aplicado mecanicamente sem primeiro perguntar que espécie de profecia está diante de nós.

E ISSO TORNA O CASO DE SPANGLER AINDA MAIS INTERESSANTE

Spangler menciona uma carta anônima que teria previsto um grande terremoto na Califórnia para 29 de dezembro de 1985, às 16 horas. O terremoto não aconteceu e ele conclui: “Obviamente, foi um falso alarme.”

Como constatação factual, tudo bem: o acontecimento anunciado não ocorreu. Mas isso não resolve automaticamente a identidade ou inspiração de todos os demais mensageiros — e muito menos autoriza uma passagem subsequente para especulações sobre psyche, autoilusão ou demônios. Primeiro seria necessário demonstrar quem produziu aquela mensagem, se pertencia efetivamente ao mesmo fenômeno que estava sendo investigado e, sobretudo, se havia ou não alguma condição explícita ou implícita vinculada à previsão.

E aqui Jonas entra como uma bomba hermenêutica. Imagine Spangler recebendo o seguinte documento:

“Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.”

Passam-se quarenta dias. Nínive continua lá. Pelo teste mais mecânico possível: PREVISÃO NÃO CUMPRIDA. FALSO PROFETA.

Só existe um problema. O profeta era Jonas. E Deus havia realmente mandado que ele dissesse aquilo e daquele jeito. Ditou as palavras.

Esse exemplo é extraordinário porque impede que alguém nos acuse de estar inventando uma saída para proteger candidatos modernos ao profetismo. É o próprio texto bíblico que cria o problema.

SE SPANGLER EXAMINASSE JONAS

Se o cumprimento mecânico de uma previsão fosse suficiente para decidir sozinho a autenticidade de um mensageiro, Jonas teria um problema sério diante de uma comissão examinadora. Ele entrou em Nínive anunciando: “Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.” Quarenta dias depois, a cidade continuava de pé. Não precisamos imaginar o constrangimento do profeta, porque o próprio livro o registra. Jonas não queria assumir aquela missão justamente porque conhecia suficientemente bem o Deus que o enviava para saber que Ele poderia poupar os condenados caso se arrependessem. O profeta verdadeiro temia terminar parecendo um falso profeta.

A ironia é devastadora: Deus poderia mandar um profeta anunciar algo que Deus mesmo posteriormente decidiria não executar. Portanto, nem mesmo o teste aparentemente mais simples — “aconteceu ou não aconteceu?” — dispensa interpretação. Jeremias 18 transforma isso em princípio: uma sentença anunciada contra uma nação pode ser retirada se houver arrependimento. O não cumprimento, portanto, pode em determinados casos constituir não o fracasso da profecia, mas precisamente o êxito de sua função: a advertência produziu a mudança que tornou desnecessário o castigo anunciado.

Isso nos leva de volta ao problema fundamental de Spangler. Se até uma profecia não cumprida exige contexto antes de condenar o profeta, com que segurança poderia o examinador avançar da análise de mensagens para conjecturas sobre a psique dos mensageiros e, depois, para a possibilidade de influência demoníaca? A Bíblia exige discernimento, sim. Mas a história de Jonas também exige humildade de quem discerne. Às vezes, o profeta verdadeiro anuncia uma destruição que não acontece — e fica furioso justamente porque sabe que agora poderá parecer que falou aquilo que Deus nunca lhe mandou falar.

JONAS NÃO QUERIA SER PROFETA PORQUE CONHECIA O PERIGO DE DEUS NÃO PASSAR NO TESTE DOS EXAMINADORES.

Essa conversa com Spangler está ficando mais profunda porque já não estamos apenas perguntando se os candidatos passariam pelos testes. Estamos descobrindo algo mais desconfortável: alguns personagens bíblicos, algumas formas bíblicas de inspiração e até alguns procedimentos atribuídos ao próprio Deus teriam dificuldade para passar por uma aplicação rígida dos mesmos filtros.






Leia Spangler diretamente

É por isso que disponibilizamos esta nova tradução ao lado dos documentos. O leitor poderá acessar o artigo original de junho de 1986 na Ministry, consultar posteriormente a publicação no acervo da Casa Publicadora Brasileira e comparar por si mesmo as diferentes versões. Nossa intenção é simples: quanto mais importante for uma conclusão, menor deve ser a distância entre o leitor e a fonte que a sustenta.

E o original de Spangler merece ser lido com atenção justamente porque não apresenta um problema simples. Ele não estava apenas diante de pessoas dizendo coisas absurdas. Estava diante de reivindicações sobrenaturais feitas por pessoas que ele próprio podia considerar sinceras, contendo mensagens que em boa parte podiam soar perfeitamente adventistas. Sua tarefa era descobrir se a fonte era Deus. Nossa tarefa, quase quarenta anos depois, é outra: compreender como ele chegou à resposta que deu — e perguntar quem, afinal, discerne o discernidor.






Documentos para conferência

Este artigo deve ser lido juntamente com os documentos disponibilizados em nosso dossiê sobre 1986–1987: o artigo original de J. Robert Spangler na Ministry; sua tradução publicada em duas partes pela Revista Adventista; “Novos Profetas?”, de Alberto R. Timm; as referências ao documento de Frank B. Holbrook, The Current Phenomenon of Thought Messages; e a documentação denominacional relativa a Anna Phillips e Margaret Rowen. Sempre que possível, disponibilizamos fac-símiles ou links para os próprios acervos denominacionais, para que o leitor não precise aceitar nossas conclusões antes de examinar as fontes.






Apêndices documentais: leia e confira por você mesmo

Não queremos que o leitor aceite nossa interpretação sem conferir os documentos que deram origem a esta investigação. Por isso, reproduzimos abaixo os três textos publicados pela Revista Adventista em 1987 que permitem acompanhar diretamente a maneira pela qual novas reivindicações proféticas foram apresentadas, examinadas e avaliadas diante dos leitores da denominação.

O primeiro documento é “Novos Profetas?”, de Alberto Ronald Timm. Os dois seguintes formam o artigo de J. Robert Spangler, “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’”, publicado em duas partes. Mantivemos também a indicação das edições e páginas originais para que qualquer leitor possa consultar os PDFs digitalizados da própria revista e verificar nossas transcrições.

Apêndice I — Alberto Ronald Timm: “Novos Profetas?”

Fonte: Alberto Ronald Timm, “Novos Profetas?”, Revista Adventista, julho de 1987, p. 28.

Em Debate

Novos Profetas?

Nos últimos meses tem aumentado consideravelmente o número de adventistas que alegam haver recebido revelações especiais de Deus para Sua Igreja. Essas revelações são identificadas como sonhos, visões, impressões mentais, etc, cujo propósito é admoestar a Igreja a se preparar para o iminente retorno de Cristo.

Um exemplo disso são as denominadas “mensagens mentais” que a senhora Ruth Burrows, esposa de um pastor adventista jubilado residente na Flórida, EUA, passou a receber a partir de junho de 1985. Suas mensagens foram gravadas e traduzidas ao português, e têm sido espalhadas entusiasticamente por todos os quadrantes do nosso país.

A Sra. Burrows não é a única pessoa a receber tais “mensagens”, pois existem cerca de outras vinte pessoas com experiências semelhantes, a maioria das quais vive nos Estados Unidos. Também aqui no Brasil, em nossa igreja, tem surgido pessoas que alegam haver recebido revelações especiais de Deus para o seu povo.

Uma vez que algumas dessas mensagens aparentemente confirmam certos conceitos da Bíblia e do Espírito de Profecia, as opiniões têm-se dividido. Alguns não hesitam em ver nessas pretensas revelações um cumprimento da profecia de Joel 2:28 e 29 para os últimos dias, enquanto outros encaram esses fenômenos como um cumprimento da advertência de Cristo registrado em São Mateus 24:24, que falando aparecimento de falsos profetas no tempo do fim.

A Bíblia nos aconselha a ser cautelosos sobre esse assunto (I João 4:1). Toda pessoa que alega ser um mensageiro especial de Deus para Sua Igreja deve ser cuidadosamente submetida ao escrutínio da Palavra de Deus.

Quanto às mensagens de Ruth Burrows, a Igreja não questiona sua sinceridade, mas possui evidências que lhe permitem afirmar que ela não cumpre as condições de uma verdadeira profetisa. Esse assunto é analisado detidamente no documento intitulado “The Current Phenomenon of Thought Messages” (O Atual Fenômeno das Mensagens Mentais), preparado em abril de 1986 pelo Instituto de Pesquisa Bíblica da Associação Geral; bem como no artigo do Pastor J. Robert Spangler, intitulado “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’”, publicado nesta edição da Revista Adventista (ver págs. 41 a 43).

Não podemos negar o fato de Deus poder revelar-Se de maneira sobrenatural a certas pessoas, com um propósito particular. Mas, não temos razões suficientes para acreditar que Ele venha a suscitar um novo profeta, cujas mensagens sejam destinadas a Sua igreja em geral. E de todas essas pessoas que alegam ser “mensageiros especiais” de Deus para Sua Igreja, podemos afirmar que nenhuma delas cumpre as expectativas bíblicas de um genuíno dom profético. — Alberto Ronald Timm, diretor do Centro de Pesquisa Ellen G. White, IAE, São Paulo.

Confira no original: PDF da Revista Adventista, julho de 1987, p. 28.

Apêndice II — J. Robert Spangler: “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — I”

Fonte: J. Robert Spangler, “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — I”, Revista Adventista, julho de 1987, pp. 41–43.

O Dom de Profecia e as “Vozes Mentais” — I

J. Robert Spangler

Ellen G. White faleceu há mais de setenta anos. Há, porém, hoje membros da Igreja que perguntam se um outro profeta ou mensageiro surgirá no meio do povo de Deus.

Nossa Igreja está enfrentando uma situação inusitada e, ao mesmo tempo, bastante desconcertante: muitos membros pretendem ter o dom de profecia. Através da história de nossa Igreja, poucas pessoas fizeram semelhantes afirmativas. De fato, em 1915 W. C. White informou que cerca de doze membros se encontravam nessas condições. Entretanto, a situação atual não é invulgar, exceto no que se refere ao número de pessoas envolvidas. Hoje, um número maior de pessoas afirma receber algum tipo de revelação sobrenatural, da parte de Deus. O número 17 da revista Fundamentals (Vozes Fundamentais) diz que o dom de profecia “é um sinal identificador da igreja remanescente e manifestar-se-á durante o ministério de Ellen G. White”. Notem que o verbo está no passado — “manifestou-se”. O restante dessa mesma norma declarará que os escritos da Sra. White são fonte constante e autorizada de verdade, conselhos, auxílio e orientação para a igreja. O uso do presente “é” é de profundo significado espiritual.

Ellen G. White faleceu há mais de 70 anos. Porém, hoje, membros da Igreja perguntam se um outro profeta ou mensageiro surgirá no meio da Igreja de Deus. Eu próprio me fiz essa mesma pergunta, especialmente em 1973. Eu tinha então 51 anos e orei a 12 e 13 de junho. Estas passagens sugeriam, para um grande número de membros, que o dom de profecia será encontrado por entre o povo de Deus.

Tanto no âmbito secular como no religioso, há enganos sem conta envolvendo a raça humana, e nós nem sequer suspeitamos! Por isso, não surpreende que Cristo mencione os falsos profetas como o maior sinal de Sua vinda (Mateus 24). Ele disse que mesmo os escolhidos estariam em perigo de ser enganados, sendo assim “um quem podemos confiar?” Em quase dez anos aceitaram por causa desse movimento de Cristo, sentimo-nos inclinados a fazer uma investigação sobre as pretensas profetisas que estavam aparecendo dentro da nossa Igreja. Tive a oportunidade de ler muitas dessas “mensagens” e entrevistar com diferentes pessoas, tentando enquanto isso formular uma posição de neutralidade — afinal, quem é que deseja ser achado lutando contra Deus? — ou então apoiando Satanás? Quem agora gostaria de abrir os olhos sobre a minha posição neste assunto.

O Fenômeno que a Igreja Está Enfrentando

O fluxo dessas mensagens parece reunir as seguintes características:

1º — As pessoas com quem mantive contato e que se acham ligadas à manifestação das mensagens não são fanáticos inconseqüentes. Talvez isto não seja verdade no que diz respeito a todos os que pretendem ser mensageiros, mas dos que eu conheço, posso dizer que são cristãos sinceros e dedicados.

2º — As pretensas mensagens divinas chegam através de três principais métodos de comunicação: a) sonhos e visões; b) mensagens interiores — “vozes mentais”; c) o aparecimento de um anjo que se comunicou com ela. (Uma mesma pessoa recebeu dos líderes da Igreja para comunicá-los a respeito de sua experiência.)

3º — A maioria das mensagens tem um caráter conhecido. Há, não se refere a sonhos ou visões, mas elas vieram através do que eu convenciono chamar de “vozes interiores”. A mensagem divina interioriza-se. No entanto, tanto para o mensageiro como para qualquer outra pessoa. Os que dizem ter recebido essas mensagens alegam que a sugestão começou com as palavras: “Meu filho, quero que você escreva”, e então, quando essas pessoas começam a escrever — isso leva alguns a verdadeiros desígnios. Um dos entrevistados disse ter recebido mensagens de Deus através de “vozes interiores”, sob circunstâncias idênticas. Em virtude da preponderância das vozes, creio não ser inoportuno então esse fenômeno.

Vozes Mentais

A voz interior é definitivamente considerada como algo sobrenatural. Os mensageiros acreditam que o que recebem vem de um espírito ou qualquer coisa que Deus lhes dirige.

Afirma-se que a maioria — se não quase todas as pessoas que experimentam este fenômeno — têm no mínimo envolvido, direta ou indiretamente, com o ocultismo ou com um espírito ou demônio.

Com exceção de dois ou três pontos, as mensagens não contêm nada de extraordinário. A maioria das que tive oportunidade de ler poderiam ser classificadas de exortações de modo geral. Elas dão grande destaque à breve volta de Jesus, instando de modo repetitivo e fervoroso que nos preparemos para o tempo do fim, uma vez que os acontecimentos estão se processando com um relâmpago. Muitas delas também falam do Senhor abrindo pela “Sua Igreja”. Elas contêm pesadas censuras à Igreja, pelo fato de estar em estado laodiceano, e põem em destaque atividades benéficas e obrigações do povo de Deus. Falam também a respeito de se reunirem pelos para que o povo de Deus estude as Sagradas Escrituras e o Espírito de Profecia.

Encontrei três singulares declarações nessas mensagens: 1º A provisão do tormento na Califórnia. Não havia esta previsão da Sra. White acerca de uma catástrofe que em uma certa ocasião envolveria um número grande de terremotos na Califórnia, que iria ocorrer lá à hora da queda do dia 29 de dezembro de 1986. Obviamente, isto não ocorreu na data. Alguns outros membros simplesmente previam que o terremoto estaria muito perto de acontecer. 2º Declarações de que o julgamento dos mortos passará aos vivos. 3º Informações a respeito da Associação Geral que “todos os seus funcionários precisam organizar palestras”. Em vez de preparar pastores e membros leigos para expulsar cinco demônios. Estas mensagens em especial condenavam a liderança da Igreja, que é acusada de estar pregando “o Evangelho completo durante todos esses anos”.

Entretanto, surgiram discrepâncias entre as mensagens dadas por diferentes mensageiros, alguns dos quais não quiseram se relacionar ou mesmo ser identificados com outros. Para apoiar sua credibilidade divina, não existe nenhuma outra maneira em suas mensagens que em choque com a Bíblia ou o Espírito de Profecia.

Métodos Questionáveis de Revelação

Muitas pessoas perguntam se tais indivíduos são mensageiros inspirados por Deus. Este é um dos casos em que a amizade e o sistema que temos devem ser como uma erva daninha junto com toda a sensibilidade possível. Vai mais além, tive que evitar de ser levado pela credulidade. Não posso falar pela Igreja, mas partilharei com os leitores a minha própria preocupação.

Estou seriamente preocupado com os métodos de revelação. Assim sendo, não fui capaz de encontrar nada nas Escrituras afirmando que Deus usa o processo de vozes interiores para comunicar Sua vontade para a humanidade. Quando discutimos minha preocupação com um dos principais mensageiros, a pessoa respondeu: “Mas como podemos nós julgar Deus a respeito de meios através do qual Ele deseja comunicar Sua vontade?”. Pouco tempo depois desta entrevista, a mesma pessoa pretendeu ter recebido uma mensagem de Deus, que dizia em parte: “Plano fez algo de bom, mas ele é o Meu colocado como um falso místico. Fui colocado como um falso positivo mental; Minha vontade é de que sejam tomadas medidas humanas. Se ele na verdade estivesse aguardando a breve volta de Jesus, não estaria tentando Me encaixar neste sistema de revelação bíblica”. Eu não deveria dizer mensagens. Mas, meu filho, fique sabendo isto: Meu tempo para voltar à Terra está tão curto que não tenho tempo para permitir que cada mensageiro prepare uma própria palavra. Eles possuem pouco tempo para preparar cada adventista, como também para dizer. Existe também o perigo de que um mensageiro coloque suas idéias particulares em uma mensagem, se Ele lhe conceder liberdade para escrever as Minhas palavras, a sua moda.

O conteúdo das mensagens ora em discussão, se bem que bastante inferior em quantidade, é semelhante em estilo aos testemunhos.

Então ao Senhor gritou minha filha? Eis minhas palavras, para anotar as minhas palavras. Mas em suas dias, havia tempo suficiente para se escrever muitos livros, e por isso, Eu concedi a ela mais liberdade. Mas dei ao Meu anjo instruções especiais. “Ao respeito que ela escrevesse”, e também quando isso estivesse assim na mensagem, pois o mensageiro fez questão de dizer que ele foi tão da esta maneira pelo Senhor.

Estes parágrafos suscitam duas questões: Não podemos limitar Deus com respeito à Sua maneira de Se comunicar. É uma vez que não há tempo suficiente para se revisar a mensagem, um mensageiro mais elaborado ou alguma distorção do que é “a minha” prescrição divina?

Ambos os argumentos causam-me inquietação. Com relação ao primeiro deles, Deus nos dá inspiração verbal (prescrição divina) apenas em raras ocasiões, normalmente aos homens em que Ele mesmo foi soberano e manifestou-se a eles, e não simplesmente que isto causaria dúvidas e confusão entre Seu povo?

O segundo argumento simplesmente não faz sentido. Com o processamento de dados e técnicas avançadas de comunicação, qualquer mensagem, seja ela de caráter secular ou religioso, poderia ser enviada mais rapidamente. Além disto, as mensagens que tive oportunidade de ler, nas constituem o tipo de material que devesse ser editado em livros. Quando Ellen White escreveu “O Conflito dos Séculos”, muitas páginas não havia sido ainda escritas. Mas essas mensagens, contendo admoestações gerais, escritas para várias pessoas, não exigiram o mesmo esmero de originais destinados a um livro. O conteúdo das mensagens ora em discussão, se bem que bastante inferior em quantidade, é semelhante em estilo aos testemunhos.

De significado muito maior é o fato de que, devido às evidências próprias Escrituras, nossas observações de como a inspiração operou através de Ellen White e uma declaração direta de objetivo — nossa Igreja nunca considerou a inspiração através de inspiração verbal. Não negamos que Deus Se comunica com Seus profetas de maneiras diferentes, tais como pensamentos, sonhos e visões, e através de anjos, os quais registram palavras que explicam ou ampliam. Em contraste com o que definimos, palavra por palavra, temos sido dados ocasionalmente, mas não de maneira geral. (Conclui no próximo número.)

J. Robert Spangler

Confira no original: PDF da Revista Adventista, julho de 1987, pp. 41–43.

Apêndice III — J. Robert Spangler: “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — Conclusão”

Fonte: J. Robert Spangler, “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — Conclusão”, Revista Adventista, agosto de 1987, pp. 37–39.

O DOM DE PROFECIA E AS “VOZES MENTAIS”

(Conclusão)

J. Robert Spangler
Editor da revista Ministry.

Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. — Ellen White

Pessoas Inspiradas, Não Palavras

Ellen White descreve em termos cristalinos como a Inspiração operou sobre os profetas escritores: “Os escritores da Bíblia eram evangelistas de Deus, e não a Sua caneta.” Reparem nas diferenças existentes entre eles.

“Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina e bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.” — Mensagens Escolhidas, livro 1, pág. 21.

Novamente Ellen White salienta a liberdade da mente que o profeta tem, para usar suas próprias palavras, para descrever conceitos inspirados. “Mediante a inspiração de Seu Espírito o Senhor deu a Seus apóstolos uma verdade a ser expressa segundo o desenvolvimento de sua mente pelo Espírito Santo. A mente, porém, não é tolhida, como se forçada em determinado molde.” — Idem, pág. 22.

Portanto, tais pessoas que pretendem receber comunicações inspiradas de Deus, através de vozes interiores, certamente estão limitadas a uma mentalidade restrita. Elas são meros autômatos que transcrevem os ditames de Deus. Mesmo se isto fosse a única objeção, eu seria forçado a rejeitar os escritos desses mensageiros como sendo inspirados.

Mas também vejo outros problemas. As mensagens de diferentes mensageiros variam tanto na qualidade dos escritos, como na linguagem usada. Uma é escrita de maneira mais sofisticada do que outra. Em vista disso, fiz uma pergunta, para a qual não obtive resposta satisfatória: Se Deus ditar palavras ao mensageiro em si não tem liberdade para expressar as vozes inspiradas em sua própria linguagem, então por que as mensagens não têm a mesma qualidade e sofisticação? Durante minha vida, as minhas secretárias transcreveram fielmente os meus ditados. Não obstante a velocidade, habilidade ou o das secretárias, as cartas transcritas possuem o meu toque pessoal, porque o vocabulário e fraseado que elas contêm são exclusivamente meus. Se Deus ditar as cartas, a qualidade das mesmas deverá ser coerente e de longe superior àquelas que eu li. (Ditara Deus com erros gramaticais?)

Ellen White diz que, como conseqüência do recebimento do dom de línguas, a linguagem dos discípulos, tenham eles falado em seus próprios idiomas ou em língua estrangeira, era “pura, simples e acurada”. (Atos dos Apóstolos, pág. 40.) Em complementação, surpreendi-me com algumas das palavras e frases que essas mensagens sugerem que Deus usa. De acordo com elas, Deus chama o Estado da Califórnia de “esquizofrênico”, “inteiramente possesso” e fala da “caixa de bobos” (referindo-se à televisão) e das “novelas”, etc. Será que estas são realmente palavras de Deus, ou refletem a maneira dos próprios mensageiros se expressarem?

De Origem Duvidosa

Em segundo lugar, estou preocupado porque essas pessoas que experimentam o fenômeno das vozes interiores estão direta ou indiretamente ligadas com a libertação dos poderes do demônio. Ninguém poderá negar a existência dos demônios e sua atividade em atormentar e possuir pessoas, mas há séria questão a respeito dos métodos usados, e as pretensões feitas por pessoas envolvidas nas sessões de libertação.

Acredito que o auxílio na libertação e estas pretensões de ter o dom profético se correlacionam. Em verdade, esse auxílio na libertação parece ser o ponto de partida, de onde se iniciam as supostas revelações sobrenaturais. Quais seriam as salvaguardas contra a auto-ilusão com as quais uma pessoa poderia contar, se ela acreditar que uma voz interior é o método de comunicação usado por Deus? Esta pergunta se torna ainda mais significativa quando a pessoa ou comparece, ou participa de sessões de exorcismo. Será que pessoas sinceras, cujas mentes são extremamente sensíveis para com aquilo que elas consideram ser de origem sobrenatural, seriam iludidas, ao acreditar que Deus está conversando com elas de maneira sobrenatural?

As pessoas que experimentam o fenômeno das vozes mentais estão direta ou indiretamente ligadas com a libertação dos poderes do demônio.

O conteúdo das mensagens também levou-me a duvidar de sua autenticidade. Os mensageiros pretendem que, o fato de que elas não entram em choque com as Escrituras ou Espírito de Profecia, confirma adequadamente a pretensão de que elas procedem de Deus. Concordo que as mensagens dos verdadeiros profetas estão em completa harmonia com as Escrituras e o Espírito de Profecia, mas isto por si só não é uma prova suficiente de Inspiração. Ao tratar das visões tidas por Anna Phillips, Ellen White fez esta declaração incisiva: “O que me causa grande admiração é que nossos irmãos aceitassem escritos porque neles não podiam ver nada de objetável. Por que não consideraram o que neles há de uma espécie que possa ser endossada e divulgada com o poder da influência que sua força lhes dá?” — Mensagens Escolhidas, livro 2, pág. 94. Reparem na pergunta de Ellen White feita na última frase: “Que conteúdo têm as mensagens de Anna Phillips, as quais fariam com que alguns irmãos as aprovassem?”

A mesma pergunta relacionada com as mensagens de hoje, também necessita de resposta. Poderá haver muito pouca coisa ou quase nada que entre em choque com a Bíblia ou o Espírito de Profecia; entretanto, a repetição acaba por tornar-se cansativa, e o conteúdo não passa de um fluxo de verborrágicas advertências do fim, e virtualmente sem nenhuma sugestão concreta de como nos devemos preparar para a volta de Jesus, sem ser pela leitura da Bíblia e o Espírito de Profecia, arrebentando a marteladas os nossos televisores e saindo da Califórnia. As advertências relativas ao tempo do fim, existentes tanto na Bíblia como no Espírito de Profecia, são, de longe, mais poderosas e têm uma autenticidade muito maior.

Inofensivo não Significa Inspirado

Ellen White salientou com ternura que, de nenhuma maneira desejava magoar Anna Phillips, mas não “podia ficar calada”. Então ela escreveu: “Pareceis pensar que devia ser capaz de indicar justamente onde se acham os sentimentos particularmente objetáveis. Não há nada tão visível no que tem sido escrito; não fostes capaz de descobrir nada de objetável; isto, porém, não é razão para servir-vos desses escritos como havendo sido feito. Vossa direção nesse assunto é decididamente objetável. É acaso necessário que possais discernir imediatamente algo que causasse dano ao povo de Deus para tornardes-vos cautelosos? Se não aparece coisa alguma assim, é porventura razão suficiente para dardes vosso endosso a esses escritos?…

“Não dissemineis escritos dessa natureza sem mais considerações e profunda visão quanto às conseqüências posteriores de vossa maneira de agir….

“O fanatismo aparecerá mesmo em nosso meio. Virão enganos, e de tal caráter, que se possível fora, desviariam os próprios eleitos. Caso fossem claras nessas manifestações assinaladas incoerências e declarações inverídicas, não seriam necessárias as palavras dos lábios do Grande Mestre. É por causa dos muitos e vários perigos que iriam surgir, que é dada esta advertência.” — Idem, págs. 94 e 95.

Este conselho se aplica a esses mensageiros de hoje e suas mensagens. Consideremos o exemplo. Como já foi mencionado anteriormente, um dos mensageiros escreveu ao presidente da Associação Geral que ele “precisava organizar palestras, a fim de preparar pastores e membros leigos para expulsar demônios”. De acordo com relatórios, os métodos usados hoje por muita gente no ministério de libertação, trouxeram confusão e divisão em várias igrejas. Não seria difícil de se prever o que aconteceria com nossa Igreja, se este conselho fosse hoje seguido. Se todos os pastores e membros leigos de nosso movimento mundial começassem a se concentrar em exorcismos, isso nos conduziria ao fanatismo da espécie mais perigosa e destrutiva. Ellen White nos deu conselhos sensatos que bem se aplicam a este tópico em consideração: “Se trabalharmos para criar uma excitação de sentimentos, teremos tudo quanto queremos, e mais do que poderemos possivelmente saber manejar. Calma e claramente ‘pregue a palavra’. II Tim. 4:2. Preciamos não considerar ser nossa obra criar excitação. Unicamente o Espírito Santo pode criar um são entusiasmo.” — Idem, pág. 95.

Estas citações acima referem-se ao caso de Anna Phillips. Ela estava sinceramente mal orientada, ao acreditar que estava tendo visões dadas por Deus. Felizmente, quando recebeu conselhos de Ellen White, ela os aceitou, e suas supostas visões pararam imediatamente, tornando-se uma fiel obreira bíblica, e serviu à Igreja por muitos anos.

A Verdade Proveniente de Fonte Errada

A experiência do apóstolo Paulo (Atos 16) fornece outro exemplo. Uma escrava com espírito adivinhador seguia Paulo e seus companheiros, gritando: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo, e vos anunciam o caminho da salvação” (verso 17). Ela fez isto durante muitos dias, incomodando Paulo, até que finalmente ele voltou-se e libertou-a do poder do mau espírito.

Paulo e seus companheiros eram servos de Deus, anunciando o caminho da salvação. Mas, se bem que a mensagem que aquela escrava deu era verdadeira, ela estava sendo usada pelo maligno. “Satanás sabia que seu domínio estava sendo invadido, e recorreu a este meio de opor-se à causa de Deus, esperando misturar seus sofismas com as verdades ensinadas pelos que proclamavam a mensagem evangélica.” — Atos dos Apóstolos, pág. 212.

Um cuidado adicional provém da pessoa inicialmente envolvida no fenômeno das vozes interiores. Ela repudiou sua experiência, declarando que antes de receber as mensagens, teve uma alegre caminhada com o Senhor, mas perdeu aquela experiência. Isto levou-a a concluir que este fenômeno não procede de Deus.

Após ler determinado número de páginas de mensagens de um dos mensageiros, Arthur White, que despendeu vários anos investigando casos desta natureza, declarou sucintamente: “Não questiono a sinceridade de Fulano, mas devo dizer que, após despender dois dias de estudos e contestação dos escritos, estou convencido de que seu trabalho não passa pela prova de um profeta autêntico, e até escrevi, em vermelho (sobre o pacote das mensagens): ‘Sem claras evidências. Isto é uma falsificação barata. Cuidado. A. L.’”

Desejo recomendar com insistência aos nossos pastores para serem cautelosos com aqueles que tencionam ser mensageiros do Senhor. O fato de tantas pessoas estarem pretendendo ter tais experiências sobrenaturais, pode ser uma indicação de que Deus está para fazer algo especial pelo Seu povo. Não tenho dúvidas de que nestas horas finais, o Senhor agirá de maneira notável. E acredito que o que se encontra em Joel 2:28 será cumprido. O Espírito do Senhor será derramado na chuva serôdia, e sinais e maravilhas acompanharão o segundo Pentecostes.

Sem dúvida alguma, a proximidade da volta de Jesus deverá ser o pensamento predominante em nossas mentes. Devemos nos concentrar no desenvolvimento de um relacionamento profundo e permanente com nosso Senhor e Salvador. Deveríamos suplicar pelo derramamento de Seu Santo Espírito, a fim de que, quando ocorrer a real manifestação e comunicação de Sua presença, estejamos capacitados a aplicar as provas, cuidadosamente e refletidamente, e saber que ela, com toda certeza, provém de Deus.

REVISTA ADVENTISTA, AGOSTO 87 — págs. 37–39

Confira no original: PDF da Revista Adventista, agosto de 1987, pp. 37–39.

Apêndice IV — J. Robert Spangler: “O DOM DE PROFECIA E AS ‘VOZES DO PENSAMENTO’”

Fonte: J. Robert Spangler, “The gift of prophecy and ‘thought voices’”. Tradução integral nova, feita diretamente do fac-símile inglês da revista Ministry, junho de 1986, pp. 4–7.

 

Nota sobre a tradução

Nota editorial — A tradução em português publicada originalmente na Revista Adventista brasileira pode apresentar escolhas de vocabulário, construções e passagens que deixam a desejar quando confrontadas diretamente com o texto inglês de J. R. Spangler. Algumas dessas diferenças podem decorrer das opções de tradução adotadas à época; outras podem ser agravadas por transcrições digitais posteriores e erros de reconhecimento de caracteres. Como determinados termos e formulações são decisivos para a análise deste artigo — especialmente a expressão thought voices e as passagens relacionadas a inspiração, exorcismo, autoilusão e origem das mensagens —, optamos por realizar uma nova tradução integral diretamente do fac-símile da edição de junho de 1986 da revista Ministry, sem utilizar a versão portuguesa como texto-base.

O objetivo não é desqualificar a tradução anteriormente publicada, mas oferecer ao leitor uma versão tão próxima quanto possível do original, preservando inclusive as cautelas, perguntas, qualificações e escolhas argumentativas de Spangler. Para permitir conferência independente, disponibilizamos abaixo os links para o original da Ministry e para a publicação correspondente no acervo da Casa Publicadora Brasileira. Assim, o leitor poderá comparar o inglês, a tradução histórica em português e esta nova tradução, chegando às suas próprias conclusões.

O DOM DE PROFECIA E AS “VOZES DO PENSAMENTO”

J. R. Spangler

Deus mudou Seu modo de inspiração? Ele está ditando cartas à Sua igreja hoje? É tarde demais para a profecia normal? É hora de examinar cuidadosamente as “vozes do pensamento”.

Nossa igreja está enfrentando uma situação bastante interessante, mas potencialmente confusa: muitas pessoas estão alegando possuir o dom profético. Ao longo de nossa história, não foram poucas as que fizeram essa afirmação. De fato, em 1915, W. C. White informou que uma dúzia ou mais de pessoas estavam fazendo isso. A situação atual, portanto, não é inédita, exceto pelo número de indivíduos envolvidos. Hoje, vinte ou mais pessoas afirmam estar recebendo algum tipo de revelação sobrenatural do Senhor.

O número 17 de nossas Crenças Fundamentais afirma que o dom de profecia “é uma característica identificadora da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de Ellen G. White”. Observe o tempo verbal no passado: “foi”. O restante da declaração afirma que “seus escritos são uma contínua e autorizada fonte de verdade que proporciona à igreja conforto, orientação, instrução e correção”.

Ellen G. White morreu há mais de 70 anos. Alguns perguntam se outro profeta ou mensageiro surgirá hoje na igreja de Deus. Eu mesmo tenho feito a mesma pergunta, especialmente à luz de Joel 2:28, 1 Coríntios 12 e Efésios 4. Para muitos, essas passagens sugerem que, juntamente com os outros dons prometidos, o dom de profecia deve ser encontrado entre o povo de Deus atualmente.

Tanto no mundo secular quanto no religioso, o engano desenfreado envolve a raça humana como uma densa neblina. Isso não é surpreendente. Cristo apontou o engano como um dos principais sinais de Sua vinda (Mateus 24). Ele disse que até mesmo os próprios eleitos correm o risco de ser enganados. Em quem, então, podemos confiar? Em quem podemos acreditar? Por causa da advertência de Cristo, senti-me compelido a investigar as alegações proféticas que estão surgindo dentro de nossa igreja. Li numerosas “mensagens” e realizei entrevistas aprofundadas com várias pessoas diferentes, procurando, enquanto fazia isso, manter uma posição neutra — quem deseja ser encontrado lutando contra o Senhor ou apoiando Satanás? Agora quero compartilhar com nossos leitores minhas próprias conclusões e declarar minha posição sobre esse assunto.

O fenômeno que a igreja está enfrentando

A atual profusão de mensagens parece caracterizar-se pelos seguintes aspectos:

1. Os indivíduos que conheço e que estiveram ligados a esse fenômeno não são fanáticos de olhos arregalados. Isso talvez não seja verdade em relação a todos os que afirmam ser mensageiros, mas aqueles que conheço são cristãos sinceros e dedicados.

2. As supostas mensagens chegam por três métodos principais de comunicação: sonhos, visões e “vozes do pensamento”. Alguns afirmam ter recebido uma mensagem apenas em uma ocasião; outros alegam múltiplas comunicações.

3. O tema principal das comunicações por sonho ou visão é que um terremoto catastrófico devastará todo o Estado da Califórnia, inclusive a região de Loma Linda. Segundo um relato, elementos desse sonho ou visão não devem ser revelados neste momento. Supostamente, o efeito econômico que esse terremoto terá sobre os Estados Unidos precipitará ações por parte de figuras políticas nacionais.

Outras mensagens chegaram por sonhos ou visões sugerindo que determinadas pessoas se mudassem para uma região específica do país. E uma pessoa humildemente declara que não está buscando “honra ou posição de liderança”, mas simplesmente compartilhando com outros sua visão de Cristo no santuário celestial e a aparição de um anjo que se comunicou com ela. Essa pessoa em particular recorreu à liderança em busca de orientação a respeito de sua experiência.

4. A maioria das mensagens das quais tenho conhecimento não envolveu sonhos ou visões, mas chegou por meio daquilo que é denominado uma voz do pensamento. A voz do pensamento não é audível, nem para o mensageiro nem para qualquer outra pessoa. Os mensageiros dizem que a impressão pode começar com as palavras: “Meu filho, quero que você escreva”; então, quando a pessoa começa a escrever, Deus dita o restante da mensagem. Uma das pessoas entrevistadas falou sobre receber mensagens de Deus por meio de vozes do pensamento em circunstâncias variadas. Em vista da predominância desse método de comunicação por voz do pensamento, limitarei este artigo a esse fenômeno.

Vozes do pensamento

A voz do pensamento é definitivamente considerada sobrenatural. Os mensageiros acreditam que aquilo que escrevem constitui as próprias palavras que Deus ditou. Afirma-se que a maioria, se não todos, dos indivíduos que experimentam esse fenômeno esteve direta ou indiretamente envolvida com o exorcismo de espíritos malignos ou demônios.

Com exceção de dois ou três pontos, as mensagens não contêm nada de singular. A grande maioria das mensagens que li poderia ser classificada como exortações gerais. Elas dão forte ênfase à breve vinda de Jesus, insistindo repetida e zelosamente na preparação para o fim, pois os acontecimentos finais “se espalharão como fogo”. Muitas delas também descrevem o Senhor chorando por “Minha igreja”. Contêm fortes repreensões à igreja por se encontrar em estado laodiceano e apresentam descrições vívidas da condição do povo de Deus. E fazem fortes e repetidos apelos para que o povo de Deus estude a Bíblia e o Espírito de Profecia.

Encontrei três grandes características singulares nessas mensagens:

1) A previsão de um terremoto na Califórnia. Não há data estabelecida para que isso aconteça, embora uma carta sem assinatura enviada aos líderes da Associação Geral tenha previsto um grande terremoto na Califórnia às 16 horas de 29 de dezembro de 1985. Obviamente, foi um falso alarme. Outros que predizem o terremoto simplesmente dizem que ele está a caminho e muito próximo.

2) A declaração de que o juízo dos mortos já passou para os vivos.

3) A informação ao presidente da Associação Geral de que “todas as associações devem organizar seminários para ensinar e preparar ministros e membros leigos a expulsar demônios”. Essa mensagem em particular censurava a liderança por não ter pregado “o evangelho completo durante todos estes anos”.

Surgiram discrepâncias entre as mensagens dos diferentes mensageiros, sendo que alguns deles não desejam estar ligados ou ser identificados com outros mensageiros. Para sustentar sua autenticidade divina, os mensageiros enfatizam fortemente que nada nas mensagens entra em conflito com a Bíblia ou com o Espírito de Profecia.

Métodos questionáveis de revelação

Muitos estão perguntando se esses indivíduos são mensageiros inspirados do Senhor. Esta é uma daquelas situações em que a amizade e a consideração que tenho por essas pessoas fazem com que eu trate o assunto com a maior sensibilidade possível. E, no entanto, preciso evitar a ingenuidade. Não posso falar em nome da igreja, mas compartilharei com vocês minhas próprias preocupações.

Minha preocupação mais séria diz respeito ao método de comunicação. Não consegui encontrar nada nas Escrituras que sustentasse que Deus utiliza vozes do pensamento para comunicar Sua vontade à humanidade. Quando discuti essa preocupação com uma das principais mensageiras, ela respondeu: “Mas como podemos julgar Deus quanto à maneira pela qual Ele deseja comunicar Sua vontade a nós?”

Pouco depois dessa entrevista, a pessoa envolvida afirmou ter recebido uma mensagem do Senhor. Dizia, em parte:

“[…] fez algum bem, mas ele Me colocou dentro de uma caixa de tantos centímetros para um lado e tantos para o outro… Se ele realmente estivesse esperando de verdade que o Senhor viesse em breve, não estaria Me colocando numa caixa, dizendo que Eu não deveria ditar mensagens. Mas, Minha filha, saiba isto: o tempo para Minha vinda à Terra é tão curto que não tenho tempo para permitir que cada mensageiro prepare suas próprias palavras. As mensagens precisam avançar rapidamente. Há também um perigo muito grande de um mensageiro colocar seus próprios pensamentos numa mensagem, caso Eu lhe concedesse a liberdade de escrever Minhas palavras à sua própria maneira.

“O anjo do Senhor guiou Minha Ellen, passo a passo, na escrita de Minhas palavras. Mas, em seus dias, havia tempo pela frente para compilar muitos livros; portanto, Eu lhe concedi um pouco mais de liberdade, MAS dei ao Meu anjo instruções para orientar aquilo que ela escrevia.”

As letras maiúsculas aparecem na mensagem; a mensageira afirma que elas foram ditadas dessa maneira pelo Senhor.

Esses parágrafos apresentam dois argumentos: não podemos “colocar Deus numa caixa” quanto ao Seu método de comunicação. E, como não há tempo para reescrever a mensagem numa linguagem mais sofisticada ou atraente, o “ditado divino” tornou-se necessário.

Ambos os argumentos me perturbam. Quanto ao primeiro, Deus utilizou inspiração verbal, ou ditado divino, apenas raramente durante os milhares de anos em que tem inspirado homens e mulheres a escrever. Mudaria Ele agora, sabendo que isso causaria dúvida e confusão entre Seu povo?

O segundo simplesmente não faz sentido. Com processadores de texto e técnicas avançadas de comunicação, qualquer mensagem, secular ou religiosa, pode ser editada de maneira rápida e eficiente. Além disso, as mensagens que li não constituem o tipo de material que seria colocado em um livro.

Quando Ellen White escreveu a série Conflito dos Séculos, foram necessárias muita pesquisa e edição. Mas seus testemunhos, que eram cartas contendo admoestações gerais escritas para diferentes indivíduos, não exigiam o refinamento de um manuscrito destinado a um livro. O conteúdo das mensagens em discussão, embora bastante inferior em qualidade, é semelhante, quanto ao tipo, aos testemunhos. Portanto, o argumento da falta de tempo não se sustenta.

De maior importância é o fato de que, por causa das evidências das próprias Escrituras, de nossa observação de como a inspiração atuou por meio de Ellen White e de suas declarações diretas e claras, nossa igreja jamais acreditou que as Escrituras tenham sido dadas por meio de inspiração verbal. Não negamos que Deus tenha Se comunicado com Seus profetas de várias maneiras, como por meio de “pensamentos, sonhos e visões, e por intermédio de anjos que algumas vezes transmitiram instruções explícitas, palavra por palavra”. Mas acreditamos que orientações palavra por palavra foram utilizadas ocasionalmente, e não de modo geral.

Pessoas inspiradas, não palavras

Ellen White descreve em linguagem transparente como a inspiração atuava sobre os escritores proféticos:

“Os escritores da Bíblia eram os escritores de Deus, não Sua pena. Observem os diferentes escritores.

“Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que foram inspirados. A inspiração não atua sobre as palavras do homem ou suas expressões, mas sobre o próprio homem, que, sob a influência do Espírito Santo, é imbuído de pensamentos. Mas as palavras recebem a impressão da mente individual. A mente divina é difundida. A mente e a vontade divinas combinam-se com a mente e a vontade humanas; assim, as declarações do homem são a palavra de Deus.”

Novamente ela enfatiza a liberdade que a mente do profeta possui para utilizar suas próprias palavras ao descrever conceitos inspirados:

“Por meio da inspiração de Seu Espírito, o Senhor deu verdade aos Seus apóstolos, para ser expressa de acordo com o desenvolvimento de suas mentes pelo Espírito Santo. Mas a mente não é comprimida, como se fosse forçada dentro de determinado molde.”

Aqueles que atualmente afirmam receber comunicações inspiradas do Senhor por meio de vozes do pensamento certamente estão presos a uma mente “comprimida”. São meros autômatos transcrevendo o ditado de Deus. Mesmo que essa fosse a única objeção, eu seria obrigado a rejeitar como inspirados os escritos desses mensageiros.

Mas vejo também outros problemas. As mensagens dos diferentes mensageiros variam quanto à qualidade da escrita e à linguagem utilizada. Uma é escrita de maneira mais sofisticada que outra. Diante disso, fiz uma pergunta para a qual não recebi resposta satisfatória: se Deus dita as palavras propriamente ditas e o mensageiro individual não possui liberdade para expressar os pensamentos inspirados em sua própria linguagem, por que as mensagens não possuem o mesmo grau de sofisticação e qualidade?

Durante minha vida, secretárias transcreveram fielmente meus ditados. Independentemente da velocidade, das capacidades ou do QI das secretárias, as cartas transcritas trazem minha marca porque o vocabulário e a fraseologia que contêm são peculiarmente meus. Se Deus dita as mensagens, sua qualidade deveria ser uniforme e muito superior à das que tenho lido.

Deus ditaria erros gramaticais? Ellen White afirma que, como consequência de receberem o dom de línguas, a linguagem dos discípulos, quer falassem em sua língua materna, quer numa língua estrangeira, era “pura, simples e correta”.

Além disso, surpreendem-me algumas das palavras e expressões que essas mensagens dão a entender que Deus utiliza. Segundo elas, Deus chama a Califórnia de “esquizofrênica” e “totalmente possuída” e fala da “caixa idiota”, “novelas” etc. São realmente palavras de Deus ou refletem a maneira de os próprios mensageiros se expressarem?

De origem questionável

Em segundo lugar, estou preocupado porque aqueles que experimentam o fenômeno da voz do pensamento estão direta ou indiretamente ligados ao ministério de libertação de demônios. Em futuras edições, a Ministry publicará artigos sobre esse assunto.

Ninguém pode negar a existência de demônios e sua atuação, hoje, no assédio e possessão de indivíduos, mas existem sérias dúvidas quanto a alguns dos métodos utilizados e às alegações feitas pelos envolvidos no ministério de libertação. Todo ministro adventista deveria ler cuidadosamente o relatório de 35 páginas intitulado “Guerra Espiritual, Ministério de Libertação e os Adventistas do Sétimo Dia”. Por dois dólares, você pode obter uma cópia junto ao Comitê de Pesquisa Bíblica da Associação Geral.

Creio que existe uma correlação entre o ministério de libertação e essas alegações de possuir o dom profético. Na verdade, o ministério de libertação parece ser o trampolim a partir do qual são lançadas as revelações supostamente sobrenaturais.

Que salvaguardas contra a autoilusão possui uma pessoa se acredita que uma voz do pensamento é o método de comunicação de Deus? Essa pergunta torna-se ainda mais significativa quando a pessoa está presente em sessões de exorcismo ou participa delas. Poderiam indivíduos sinceros, cuja psique é extremamente sensível àquilo que consideram de origem sobrenatural, ser iludidos a ponto de acreditar que Deus está falando com eles de maneira sobrenatural?

O conteúdo das mensagens também me leva a duvidar de sua autenticidade. Os mensageiros afirmam que o fato de as mensagens não entrarem em conflito com a Bíblia ou com o Espírito de Profecia comprova adequadamente a alegação de que procedem de Deus. Concordo que mensagens de verdadeiros profetas estarão em plena harmonia com as Escrituras e com o Espírito de Profecia; mas isso, por si só, constitui prova insuficiente de inspiração.

Ao tratar das visões de Anna Phillips, Ellen White enfatizou vigorosamente esse ponto:

“Minha grande surpresa é que nossos irmãos aceitem esses escritos porque não conseguem ver neles nada de censurável. Por que não consideraram o que há neles de caráter tal que mereça ser endossado e divulgado com o poder da influência que lhes confere força?”

Observe a pergunta de Ellen White na última frase: que conteúdo havia nas mensagens de Anna Phillips que levaria alguns irmãos a endossá-las?

A mesma pergunta precisa ser respondida em relação às mensagens atuais. Pode haver pouco ou nada que entre em conflito com a Bíblia e o Espírito de Profecia; entretanto, a repetição é realmente tediosa, e o conteúdo consiste em grande parte numa torrente de advertências prolixas sobre o fim, praticamente sem sugestões concretas sobre como se preparar para a vinda do Senhor, além de ler a Bíblia e o Espírito de Profecia, destruir nossos aparelhos de televisão a marteladas e sair da Califórnia. As advertências relativas ao tempo do fim encontradas na Bíblia e no Espírito de Profecia são muito mais poderosas e possuem um tom muito mais autêntico.

Inofensivo não significa inspirado

Ellen White assinalou ternamente que de modo algum desejava ferir Anna Phillips, mas não “ousava permanecer em silêncio”. Então escreveu:

“Você parece pensar que eu deveria ser capaz de apontar exatamente onde se encontram os sentimentos particularmente censuráveis. Não há nada tão evidente naquilo que foi escrito; você não conseguiu descobrir nada censurável; mas isso não constitui razão para utilizar esses escritos da maneira como fez. Sua conduta nessa questão é decididamente censurável. É necessário que você perceba imediatamente alguma coisa que produziria dano ao povo de Deus para que se torne cauteloso? Se nada desse tipo aparece, isso é razão suficiente para você dar seu endosso a esses escritos?…

“Não espalhe escritos dessa natureza sem maior consideração e profunda compreensão das consequências posteriores de sua maneira de agir…

“O fanatismo surgirá em nosso próprio meio. Enganos virão, e de natureza tal que, se possível, enganariam até os próprios eleitos. Se inconsistências marcantes e declarações falsas fossem evidentes nessas manifestações, as palavras dos lábios do Grande Mestre não seriam necessárias. É por causa dos muitos e variados perigos que surgiriam que essa advertência é dada.”

Esse conselho aplica-se perfeitamente a esses mensageiros e mensagens atuais.

Considere um exemplo. Como já mencionado, um dos mensageiros escreveu ao presidente da Associação Geral dizendo que ele “deve organizar seminários para ensinar e preparar os ministros e membros leigos a expulsar demônios”. Segundo relatos, os métodos utilizados hoje por muitos no ministério de libertação têm causado confusão e divisão em várias igrejas.

Não seria difícil imaginar o que aconteceria com nossa igreja caso esse conselho fosse realmente seguido. Se todos os pastores e membros leigos de nosso movimento mundial começassem a concentrar-se em exorcismo, isso nos conduziria a um tipo de fanatismo extremamente perigoso e destrutivo!

Ellen White nos deu um conselho equilibrado que se aplica perfeitamente ao ponto em consideração:

“Se trabalharmos para criar uma excitação de sentimentos, teremos tudo quanto desejarmos, e mais do que possivelmente saberemos administrar. Com calma e clareza, ‘pregue a palavra’… Não devemos considerar como nosso trabalho criar excitação. Somente o Espírito Santo de Deus pode criar um entusiasmo saudável.”

As citações acima tratavam do problema de Anna Phillips. Anna Phillips foi sinceramente induzida ao erro de acreditar que estava tendo visões provenientes de Deus. Felizmente, quando recebeu o conselho de Ellen White, aceitou-o, e suas supostas visões cessaram imediatamente. Ela tornou-se uma fiel obreira bíblica e serviu bem à igreja durante muitos anos.

Verdade procedente da fonte errada

A experiência de Paulo, em Atos 16, fornece outro exemplo. Uma escrava possuída por um espírito de adivinhação seguia Paulo e seus companheiros, clamando: “Estes homens são servos do Deus Altíssimo, que vos proclamam o caminho da salvação”.

Ela fez isso durante muitos dias, incomodando Paulo, até que finalmente ele se voltou e a libertou do controle do espírito maligno.

Paulo e seus companheiros eram servos de Deus proclamando o caminho da salvação. Mas, embora a mensagem que aquela pobre moça proclamava fosse verdadeira, ela estava sendo utilizada pelo maligno.

“Satanás sabia que seu reino estava sendo invadido e recorreu a esse meio para se opor à obra de Deus, esperando misturar seus sofismas com as verdades ensinadas por aqueles que proclamavam a mensagem do evangelho.”

Uma advertência adicional vem de uma pessoa que originalmente esteve envolvida no fenômeno da voz do pensamento. Ela repudiou sua experiência, testemunhando que, antes de começar a receber as mensagens, mantinha uma alegre comunhão diária com o Senhor, mas que, ao envolver-se com a voz do pensamento, perdeu essa experiência. Isso a levou a acreditar que o fenômeno não procedia do Senhor.

Depois de ler várias páginas de mensagens de uma das mensageiras, Arthur White, que possuía anos de experiência na investigação de casos dessa natureza, declarou sucintamente:

“Não questiono a sinceridade de ______, mas devo dizer que, depois de dedicar dois dias ao estudo dos escritos e da defesa, estou convencido de que sua obra não passa no teste de um profeta genuíno, e escrevi em vermelho [sobre o conjunto de mensagens]: ‘Nenhuma evidência clara. Isto é uma imitação barata. Cuidado.’ — A. L. W.”

Permitam-me instar nosso ministério a ser cauteloso ao lidar com aqueles que afirmam ser mensageiros do Senhor. O fato de tantos estarem alegando possuir tais experiências sobrenaturais pode ser uma indicação de que Deus está prestes a fazer algo especial por Seu povo. Não tenho dúvida de que, nestas horas finais, o Senhor atuará de maneira extraordinária. E creio que Joel 2:28 se cumprirá, que o Espírito de Deus será derramado com o poder da chuva serôdia e que sinais e maravilhas acompanharão o segundo Pentecostes.

Sem dúvida, a proximidade da volta de nosso Senhor deveria ocupar o primeiro lugar em nossos pensamentos. Devemos concentrar-nos no desenvolvimento de um relacionamento profundo e permanente com nosso Senhor e Salvador. Devemos suplicar para sermos cheios de Seu Espírito Santo, de modo que, quando ocorrer uma verdadeira manifestação de Sua presença e comunicação, sejamos capazes de aplicar os testes cuidadosa e criteriosamente e saber que ela verdadeiramente procede de Deus.

Fonte: J. Robert Spangler, “The gift of prophecy and ‘thought voices’”. Tradução integral nova, feita diretamente do fac-símile inglês da revista Ministry, junho de 1986, pp. 4–7.

REVISTA MINISTRY, JUNHO DE 986 — págs. 4–7

Confira no original: PDF da Revista Ministry, junho de 1986, pp. 4–7.






Por que estamos reproduzindo esses documentos

Esses textos não são apresentados como curiosidades de arquivo. Eles constituem parte da documentação primária desta investigação. O leitor poderá verificar diretamente o que Alberto R. Timm escreveu sobre o aparecimento de pessoas que alegavam receber revelações especiais, como J. Robert Spangler descreveu o fenômeno, quais critérios empregou para avaliá-lo e como a possibilidade de influência demoníaca entrou na discussão sobre as chamadas “vozes mentais”. Não pedimos que o leitor acredite em nossa descrição dos documentos: colocamos os próprios documentos diante dele.

Isso é particularmente necessário porque uma das perguntas centrais deste artigo será histórica: como uma denominação surgida em ambiente marcado também por sonhos, visões e reivindicações proféticas passou, mais de um século depois, a possuir estruturas institucionais capazes de examinar novos pretendentes ao dom profético? Antes de oferecermos nossa resposta, queremos que o leitor conheça aquilo que efetivamente foi publicado.






Documentos originais para conferência

Para que o leitor não dependa de nossa transcrição nem de nossa interpretação, disponibilizamos abaixo os links para as edições completas da Revista Adventista preservadas no acervo digital da Casa Publicadora Brasileira. Recomendamos que os documentos sejam conferidos diretamente nas páginas indicadas.

1. Alberto Ronald Timm — “Novos Profetas?”

Revista Adventista, julho de 1987, p. 28.

Leia a edição original de julho de 1987 no acervo da CPB (PDF)

2. J. Robert Spangler — “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — I”

Revista Adventista, julho de 1987, pp. 41–43.

Confira a primeira parte no PDF original da Revista Adventista

3. J. Robert Spangler — “O Dom de Profecia e as ‘Vozes Mentais’ — Conclusão”

Revista Adventista, agosto de 1987, pp. 37–39.

Confira a conclusão no PDF original da Revista Adventista

4. J. Robert Spangler: “The gift of prophecy and ‘thought voices’”

REVISTA MINISTRY, JUNHO DE 1986 — págs. 4–7

Confira o texto completo no PDF original da Revista Ministry, junho de 1986, pp. 4–7.

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