
Antes de milhões vestirem Che Guevara, Che Guevara vestiu a camisa de um pastor adventista. Che tornou-se uma imagem mundial; Rosabal praticamente desapareceu — embora, por alguns dias de dezembro de 1956, Che precisasse dele para sobreviver.
Conheça também “Las Puercas”: A célula adventista que ajudou a salvar Che Guevara e a igreja financiada por ele que a Organização adventista preserva até hoje em Cuba
Antes de Ernesto Che Guevara virar um dos rostos mais estampados em camisetas de toda a história, houve um momento em que ele próprio não tinha sequer uma camisa em condições de vestir. Não era ainda o comandante de La Cabaña, ministro do novo governo cubano ou personagem de uma fotografia destinada a correr o planeta.
Era um médico argentino asmático, ferido, molhado, exausto e perseguido pelo Exército de Fulgencio Batista depois que a expedição do Granma quase terminou em desastre. Parte da roupa que possuía havia sido rasgada e usada como curativo. Foi nessas condições que Che entrou na vida de Argelio Rosabal Fonseca, dirigente de uma comunidade adventista do sétimo dia no Oriente cubano e conhecido entre os seus como “El Pastor”.
Argelio olhou para aquele homem sem camisa, tirou a própria e entregou-a a ele. Somente no dia seguinte Che compreenderia inteiramente o tamanho do gesto, quando viu o adventista cobrindo o corpo com um saco de estopa: Argelio não lhe dera uma camisa que sobrava. Havia lhe dado a única camisa que possuía.
A cena é extraordinária, mas contá-la isoladamente produziria uma história muito menor do que aquela que os documentos permitem reconstruir. Argelio não era simplesmente um camponês religioso que encontrou por acaso um fugitivo e praticou uma boa ação. Era dirigente de igreja, diretor da Escola Sabatina, fundador da congregação de Las Puercas e liderança de um núcleo adventista inserido num território em que uma rede de células e contatos vinha sendo preparada havia meses para o retorno de Fidel Castro do México.

Quando a operação do Granma fracassou em seu planejamento inicial e os expedicionários foram dispersos, aquela estrutura deixou de esperar homens que deveriam chegar organizados e passou a procurar, esconder, vestir, alimentar e movimentar sobreviventes perseguidos. Che Guevara foi um deles.
Quase cinco mil adventistas, mais da metade justamente no Oriente
Há um dado demográfico que muda completamente a dimensão dessa história. Joseph Tahbaz, em estudo acadêmico publicado pela Delaware Review of Latin American Studies, recorrendo à pesquisa de Caleb Rosado, registra que havia quase cinco mil adventistas do sétimo dia em Cuba em 1956. Mais da metade estava concentrada no extremo oriental e predominantemente rural da ilha. Oriente, a mesma província onde Fidel Castro iniciaria sua insurgência, era também a província cubana com maior presença adventista.
A coincidência territorial não transforma evidentemente todos esses milhares de religiosos em participantes da insurgência, mas explica por que, quando os homens do Granma tentaram sobreviver naquela região, encontraram não apenas uma família adventista isolada, mas comunidades, relações familiares e redes religiosas estabelecidas no território.
Las Puercas fazia parte desse mundo. Era uma pequena comunidade rural na região de Ensenada de Mora, Pilón, no Oriente cubano, habitada principalmente por trabalhadores ligados ao campo e à cana. Ali estava a igreja de Argelio. Ali estavam famílias adventistas que conheciam os caminhos, as propriedades, as pessoas confiáveis e os riscos daquela região. E ali aparece uma característica decisiva para compreendermos o que aconteceu depois do desembarque: a capacidade de transformar relações religiosas e comunitárias em uma rede operacional de proteção.

A rede estava sendo preparada antes de o Granma chegar
A reconstrução que já fizemos em Adventistas.Com mostra que a rede não nasceu espontaneamente quando Che e os demais sobreviventes começaram a aparecer. Durante os meses anteriores ao desembarque, estruturas clandestinas vinham sendo organizadas no Oriente para receber Fidel Castro e os homens que regressariam do México. Células, contatos urbanos, colaboradores rurais, mensageiros, casas de apoio e pessoas capazes de conduzir homens pelo território compunham uma engrenagem que deveria funcionar quando a expedição chegasse.

O desembarque, entretanto, não aconteceu como planejado. O Granma chegou atrasado, os homens enfrentaram enorme dificuldade para desembarcar e, depois de Alegría de Pío, foram dispersos e perseguidos. Uma estrutura concebida para receber uma força revolucionária organizada precisou ser utilizada para encontrar sobreviventes antes que os soldados de Batista os encontrassem.
É nesse território preparado que aparece Argelio Rosabal. A importância dessa contextualização está em impedir que a história seja reduzida posteriormente a uma sequência de gestos humanitários sem conexão entre si. Dar comida a um homem faminto pode ser caridade. Mas receber perseguidos, conseguir roupas civis, distribuir homens entre casas de confiança, esconder armamento, movimentar mensagens, acompanhar diferentes grupos simultaneamente, retirar pessoas de esconderijos comprometidos e encaminhá-las para outros contatos constitui algo mais complexo. É logística clandestina. E foi justamente esse tipo de atividade que aparece quando acompanhamos os movimentos de Argelio e dos adventistas de Las Puercas.

“El Pastor” já era pastor antes de Che chegar
Argelio não recebeu o apelido “El Pastor” de Che Guevara, Juan Almeida ou dos guerrilheiros. Esse ponto precisa permanecer definitivamente estabelecido porque altera a maneira como enxergamos sua posição. Ele era conhecido assim por sua liderança religiosa entre os próprios adventistas. Seu depoimento posteriormente preservado na coleção de entrevistas de Tad Szulc é explícito: Argelio era diretor da Escola Sabatina e fundador da igreja daquele lugar. Quando Pedro Álvarez Tabío pensou que estivesse falando de uma igreja em El Mamey, Rosabal imediatamente o corrigiu: não, a igreja ficava na colônia Las Puercas.

Quando o próprio Che posteriormente registrou que estavam na casa de “um adventista chamado Argelio Rosabal, a quem todos conheciam como El Pastor”, não estava criando um apelido para um camponês que acabara de conhecer. Estava reproduzindo a identidade pela qual aquele dirigente já era reconhecido em sua comunidade. A diferença é fundamental. O homem que acolheu Che tinha liderança religiosa, autoridade comunitária e capacidade de mobilização anterior ao encontro com os revolucionários.

No sábado, a igreja entrou em movimento
O depoimento de Argelio contém uma cena especialmente reveladora. Depois dos primeiros contatos com expedicionários, chegou o sábado. Rosabal foi para a igreja de Las Puercas, reuniu-se com os adventistas e falou sobre o bombardeio ocorrido na região de Niquero e sobre os homens que haviam chegado a Cuba dizendo que pretendiam acabar com a miséria e a situação em que o país se encontrava. Segundo ele, quase todos ali eram trabalhadores dos campos de cana e conheciam aquela situação “na própria carne”. A partir desse ambiente religioso, aproximadamente quinze ou vinte adventistas passaram a participar das ações relacionadas aos sobreviventes.

Esse é um ponto central para a nossa investigação porque impede a dissolução posterior da comunidade em uma coleção de indivíduos sem relação institucional entre si. Uma igreja local não existe apenas quando uma Associação emite uma circular ou quando um pastor ordenado recebe uma ordem administrativa. Ela existe também em seu dirigente local, em seus membros, nas relações de confiança entre eles, nas casas que colocam à disposição, nos recursos que conseguem reunir e na capacidade de agir coletivamente. Em Las Puercas, quando Argelio reuniu os adventistas e colocou pessoas em movimento, aquela comunidade religiosa passou a participar concretamente da cadeia de sobrevivência dos expedicionários.

Roupas, comida, casas, mensagens e armas
A documentação cubana permite acompanhar nomes e ações. Alfredo González aparece ligado ao grupo adventista. Ibrahim Sotomayor participou da obtenção de roupas para os fugitivos. Ofelia Arcís aparece dentro dessa rede de auxílio. Freddy Sotomayor esconderia Camilo e ajudaria na proteção de outros sobreviventes. Homens precisavam abandonar a aparência militar e vestir-se como trabalhadores rurais.

A ideia do disfarce rural partiu do próprio Argelio Rosabal. Ele já havia percebido o problema quando socorreu um primeiro grupo de sobreviventes: numa região cortada por estradas, com circulação de pessoas e tropas — e tendo inclusive um tio que servia como cabo no Exército de Batista —, homens vestidos de verde-oliva chamariam atenção imediatamente.
Rosabal propôs então que abandonassem os uniformes e vestissem roupas civis. A solução seria novamente empregada quando localizaram Che, Almeida e os demais: Argelio e outros adventistas recolheram mudas de roupa e, com Ibrahim Sotomayor, levaram-nas aos fugitivos para que pudessem atravessar o cerco disfarçados de camponeses. Não era apenas uma troca de roupa. Por algumas horas, aqueles homens precisavam deixar de parecer revolucionários recém-desembarcados do Granma e transformar-se, aos olhos de soldados, inf”ormantes e desconhecidos encontrados pelo caminho, em simples “guajiros” (caipiras) da Sierra Maestra.

Armas precisavam ser guardadas. Casas tinham de ser escolhidas de acordo com o risco. Um fugitivo não podia permanecer indefinidamente no mesmo lugar. Se determinada posição fosse descoberta ou denunciasse sinais de perigo, era necessário retirá-lo e encontrar outro contato.

Uma das histórias preservadas por Argelio mostra até que ponto tarefas aparentemente domésticas se transformaram em operações clandestinas. Era necessário levar comida a homens escondidos enquanto soldados circulavam pela região. Arroz e carne foram colocados num balde, pratos foram acomodados e tudo foi coberto com roupa suja, produzindo a aparência banal de alguém que caminhava para lavar roupa. No caminho, um soldado chegou a oferecer ajuda para carregar o balde. A oferta foi recusada. A comida passou diante daqueles que procuravam os expedicionários e chegou aos homens escondidos.

Em outros momentos o risco foi maior. Armamento foi escondido para permitir que fugitivos se deslocassem como camponeses. Homens foram colocados em propriedades diferentes. A historiografia cubana registra Ramiro e Benítez na casa de Rubén Torres e Ofelia Arcís, em Las Puercas, enquanto Camilo ficou na casa de Ibrahim Sotomayor. A própria memória de Che registra a presença de muitos adventistas durante aqueles dias. A palavra “adventista” não foi acrescentada posteriormente pela denominação ou por pesquisadores religiosos: aparece na memória do próprio revolucionário.

Argelio cuidava de dois grupos ao mesmo tempo
O depoimento de Rosabal revela também que ele não estava apenas oferecendo sua casa. Em determinado momento, atendia simultaneamente aos homens que se encontravam em El Mamey e àqueles protegidos em Las Puercas. Che, Juan Almeida e Pancho González permaneceram aproximadamente dois dias sob seus cuidados. Depois Guillermo García apareceu à noite e os recolheu. Segundo Argelio, eles seguiram para a propriedade Lajitas e foram se reagrupando em Purial de Vicana, porque Fidel estava ali.
Argelio, porém, continuou com outro grupo. Em Las Puercas permaneceram Camilo, Ramiro e Reynaldo. Posteriormente Guillermo retornou e transmitiu uma ordem em nome de Fidel: era necessário reunir os rapazes. Rosabal então foi buscá-los. A cena revela sua posição com extraordinária clareza. O dirigente adventista sabia onde os homens estavam, tinha acesso aos esconderijos, podia circular entre os diferentes pontos e era procurado quando se tornava necessário movimentá-los em direção ao núcleo em que Fidel reunia os sobreviventes.
Foi esse homem que encontrou Che sem camisa

Somente agora a história da camisa adquire sua verdadeira dimensão. O homem que a entregou não era um espectador da Revolução. Era o dirigente adventista que se movimentava entre grupos de sobreviventes, casas e contatos daquela rede. Caleb Rosado, em sua tese doutoral apresentada à Northwestern University, reconstruiu o episódio recorrendo a entrevistas e fontes anteriores. Che sofria com a asma, o frio e a chuva. Estava ferido no peito e no pescoço e havia rasgado sua própria camisa para utilizar o tecido como curativo.

Argelio viu sua situação e fez aquilo que provavelmente lhe pareceu natural naquele momento: tirou a própria camisa e entregou-a a Che. O revolucionário vestiu a camisa de “El Pastor”.

No dia seguinte, porém, viu Rosabal cobrindo o corpo com um saco de estopa e compreendeu que não havia recebido uma roupa velha ou excedente. Argelio lhe entregara sua única camisa.
É difícil imaginar uma imagem mais poderosa para resumir a distância entre o Che de dezembro de 1956 e o Che que o mundo conheceria depois. O rosto que seria reproduzido sobre milhões de camisetas ainda não existia como ícone. O que existia era um homem ferido usando a camisa de um pastor adventista pobre enquanto o próprio pastor se vestia de estopa.

A camisa virou promessa
Rosado liga a experiência de Che com aquela família adventista à promessa de construir uma pequena capela depois da vitória. Joseph Tahbaz, em estudo acadêmico posterior, retomou a documentação de Rosado e registrou a sequência de maneira ainda mais direta: Argelio entregou sua única camisa ao revolucionário ferido; aquele homem era Ernesto Che Guevara; Guevara ficou tão impressionado pela generosidade que prometeu a construção futura de uma capela; e a capela, acrescenta Tahbaz, efetivamente foi construída.

A promessa foi feita numa situação em que sua realização parecia improvável. Che não tinha dinheiro para construir igreja alguma, não ocupava cargo de governo e sequer sabia se sobreviveria. Fidel ainda tentava reagrupar seus homens. Batista continuava no poder. Os expedicionários dependiam de trabalhadores rurais para conseguir comida, roupas, caminhos e esconderijos. Mas Che prometeu que, se triunfassem, ajudaria aquela comunidade.

A Revolução venceu. Che lembrou.
Pouco mais de dois anos depois, a relação de forças havia se invertido. Batista deixara Cuba, a Revolução triunfara e Che Guevara passara de fugitivo escondido nas propriedades do Oriente a comandante do Departamento Militar de La Cabaña, em Havana. Foi de lá que, em 2 de março de 1959, escreveu diretamente a Argelio Rosabal.

O endereço é fundamental: Las Puercas, Ensenada de Mora, Pilón, Oriente. Che não estava escrevendo genericamente para uma sede adventista ou para algum administrador denominacional distante. Escrevia ao próprio homem que o havia ajudado, no lugar onde aquela história começara. E o conteúdo da carta transforma a promessa numa peça documental: Guevara diz que recebera com satisfação notícias de um amigo tão estimado e acrescenta que, como possuía boa memória, deveria ser ele próprio a lembrar Argelio de que haviam prometido financiar sua igreja caso triunfassem.

A formulação é extraordinária porque Che não aparece sendo cobrado. Ele cobra de si mesmo. A condição fora estabelecida durante a luta: se triunfassem. Agora haviam triunfado. O compromisso precisava ser cumprido.

Che financiaria a igreja e providenciaria as passagens aéreas
A carta não termina no financiamento da igreja. Che pede a Argelio que informe seu nome completo e também o nome completo da esposa para que sejam providenciadas as passagens aéreas para Havana. A inversão histórica é completa. Em 1956, Argelio estava em Las Puercas procurando comida, roupas e esconderijos para homens que tentavam alcançar Fidel. Em 1959, Che estava em La Cabaña tratando da construção da igreja daquele homem e providenciando a viagem aérea do casal para a capital.

Moisés Mayán Fernández acrescentou a essa história uma peça documental de enorme importância. Em sua pesquisa acadêmica sobre o adventismo no leste cubano, registrou a existência, nos arquivos da estrutura adventista em Holguín, de uma cópia da carta de 2 de março de 1959 e identificou expressamente o compromisso nela mencionado como o financiamento da construção da igreja de Las Puercas, em Pilón. A documentação, portanto, atravessa fontes revolucionárias, depoimentos, pesquisas adventistas e arquivos denominacionais.

A igreja financiada por Che foi construída
Não estamos diante de uma promessa que desapareceu depois da carta. Caleb Rosado registra que ela foi cumprida. Joseph Tahbaz, apoiando-se na documentação de Rosado, afirma expressamente que a capela prometida foi construída. Mayán identifica o compromisso de Che com a construção da igreja de Las Puercas. A sequência documental conduz, portanto, da experiência vivida por Che com Argelio à promessa, da promessa à carta escrita depois da vitória e da carta à construção.

Esse ponto precisa ser dito sem diminuir aquilo que as fontes permitem reconstruir: a igreja adventista de Las Puercas é a igreja de Argelio Rosabal cuja construção foi financiada por Che Guevara.

Não estamos simplesmente encontrando uma igreja contemporânea no mesmo município em que uma antiga capela teria existido. Estamos acompanhando historicamente a igreja de Argelio desde sua comunidade original, passando pela promessa de Che, pelo financiamento documentado e pela construção registrada na literatura acadêmica, até sua permanência dentro da estrutura adventista.

E a igreja financiada por Che continua adventista até hoje
A última peça dessa sequência está no presente. A organização adventista continua relacionando oficialmente entre suas congregações em Granma uma igreja chamada “Las Puercas”. E seu endereço é revelador: “Colonia Las Puercas, Ensenada de Mora. Pilón. Granma 87900”. Compare-se com o endereço utilizado por Che em 1959: Las Puercas, Ensenada de Mora, Pilón, Oriente. A mudança de Oriente para Granma corresponde à reorganização administrativa posterior do território cubano; Las Puercas, Ensenada de Mora e Pilón permanecem.

Mais do que isso, a cartografia contemporânea que levantamos mostra naquele lugar não apenas uma indicação religiosa vaga, mas uma presença adventista estruturada. Aparecem a Iglesia Adventista del Séptimo Día e instalações comunitárias associadas à igreja, entre elas cozinha e refeitório, área social, parque da igreja, casa pastoral e outras estruturas que compõem a vida daquela comunidade. O que Che ajudou a financiar não se perdeu como uma capelinha abandonada nas montanhas. A igreja permaneceu, desenvolveu sua estrutura e continua pertencendo à organização adventista.

A organização preservou a igreja. O que quase desapareceu foi sua história.
É justamente essa continuidade que torna a memória institucional tão desconfortável. A denominação não perdeu Las Puercas. Continua reconhecendo a igreja, continua relacionando-a em seu diretório e continua mantendo presença organizada naquele lugar. O que não recebe destaque equivalente na narrativa denominacional contemporânea é aquilo que torna essa igreja historicamente extraordinária: seu fundador e dirigente Argelio Rosabal, a célula de adventistas envolvida na proteção dos sobreviventes do Granma, a camisa entregue a Che, a promessa feita durante a luta, a carta enviada de La Cabaña e o financiamento da construção da própria igreja que a organização continua preservando.

A comparação com a Encyclopedia of Seventh-day Adventists é particularmente impressionante. No artigo dedicado à história da atual Associação do Leste de Cuba, a narrativa passa pelo estabelecimento do adventismo em Holguín em 1937 e, no movimento cronológico seguinte, chega à organização da Província de Oriente em 1969. Entre as duas datas há trinta e dois anos. É justamente dentro desses trinta e dois anos que estão 1956, 1957, 1958 e 1959; Argelio Rosabal; Las Puercas; os sobreviventes do Granma; a rede adventista; Che Guevara; a camisa; a promessa; a carta de La Cabaña; e a construção da igreja.
O contraste torna-se ainda mais significativo porque o artigo da Enciclopédia utiliza como uma de suas fontes acadêmicas justamente a dissertação de Moisés Mayán Fernández, pesquisador que documentou a carta de Che a Argelio e sua relação com a igreja de Las Puercas. A Enciclopédia registra 1937, pula para 1969 e não incorpora ao seu relato aquele extraordinário capítulo intermediário. A igreja permanece no território e no diretório. A documentação permanece nos arquivos. O que some da narrativa institucional é a conexão entre as peças.

A história não estava perdida. Estava espalhada.
Talvez seja essa a descoberta metodológica mais importante de nossa investigação. A história de Las Puercas nunca esteve inteiramente desaparecida. Che guardou uma parte em suas memórias. A historiografia revolucionária cubana preservou os movimentos dos sobreviventes e os nomes de famílias que os esconderam. Argelio contou sua parte numa longa entrevista preservada na coleção de Tad Szulc. Israel González registrou a memória adventista.
Caleb Rosado reconstruiu a relação entre religião e Revolução em sua tese doutoral. Joseph Tahbaz retomou a camisa e a construção da capela. Moisés Mayán encontrou a carta nos arquivos adventistas do leste cubano. O diretório contemporâneo preservou o nome e o endereço da igreja. A cartografia atual preservou sua estrutura física. Cada arquivo guardou um pedaço. O apagamento aconteceu quando ninguém colocou todas essas peças na mesma mesa.
Quando fazemos isso, Argelio deixa de ser um “leigo bondoso” perdido numa anedota sobre Che. Surge “El Pastor”: fundador de igreja, diretor de Escola Sabatina, liderança religiosa, homem inserido numa estrutura de apoio que atuava no território em que os sobreviventes precisavam circular. Os demais adventistas deixam de aparecer como indivíduos que coincidentemente pertenciam à mesma religião. Surge uma comunidade mobilizada. A camisa deixa de ser apenas uma curiosidade. Torna-se símbolo de uma relação que Che levou consigo depois da vitória.
Che continuava falando de “o adventista” em 1963

A relação não terminou com a construção da igreja. Anos depois, quando os adventistas cubanos enfrentaram problemas relacionados ao serviço militar, Argelio reapareceu como intermediário. Rosado registra a formação de uma comissão adventista e a participação de Rosabal. Em 28 de outubro de 1963, Che encaminhou documentos relacionados a Argelio a Carlos Rafael Rodríguez e o identificou como o adventista de quem já havia falado anteriormente. Sete anos depois daqueles dias de fuga e quatro anos depois da carta sobre a igreja, “El Pastor” continuava suficientemente presente na memória de Guevara para ser reconhecido dessa maneira.
Esse episódio acrescenta outra dimensão à história. O relacionamento construído durante a clandestinidade não desapareceu quando a Revolução chegou ao poder. Tornou-se um canal de acesso que posteriormente podia ser utilizado em assunto de interesse dos próprios adventistas. O homem que ajudara Che quando ele era fugitivo continuava tendo uma relação que permitia aproximar-se do comandante quando a denominação precisava dialogar com o novo Estado.
Quase setenta anos depois, Cuba continua procurando quem fique

A história de Argelio adquire uma ironia ainda maior quando confrontada com a situação contemporânea da Igreja Adventista em Cuba. Em fevereiro de 2024, a própria Divisão Interamericana publicou uma reportagem reconhecendo uma crise sem precedentes provocada pela emigração de pastores e líderes. Somente em 2023, 29 famílias pastorais deixaram a ilha. Entre 2021 e 2023, o total chegou a 44 famílias pastorais. Segundo Aldo Pérez, presidente da União Cubana, isso representava aproximadamente um terço dos pastores que lideravam nos níveis de União, Associação, Missão e igreja local.
A situação foi considerada suficientemente grave para obrigar a organização a implantar um programa emergencial de formação de lideranças. A meta anunciada era preparar sete mil jovens, incluindo 3.500 novos Guias Maiores e 3.500 líderes de Jovens Adventistas. A própria liderança cubana reconheceu que a emigração de pastores e dirigentes já ocorria antes da pandemia, mas havia alcançado proporções sem precedentes durante a crise posterior.
O contraste com Argelio é inevitável. Em outra Cuba atravessada por pobreza, violência, incerteza e ruptura política, “El Pastor” estava em Las Puercas. Não dispunha de uma grande estrutura administrativa, mas conhecia sua comunidade. Sabia quem podia receber alguém, quem podia levar comida, quem possuía uma casa segura, quem conhecia determinado caminho. Quando chegou a crise, permaneceu e mobilizou os seus. Quando encontrou um homem ferido, entregou-lhe a própria camisa. Quando precisou esconder homens, encontrou lugares. Quando Fidel mandou reunir os sobreviventes, foi buscá-los.
A igreja que Che financiou continua lá

Há histórias que terminam quando morrem seus personagens. Esta deixou uma construção. Che Guevara morreu em 1967. Argelio Rosabal também pertence hoje à história. Mas em Las Puercas a Igreja Adventista continua mantendo uma congregação no lugar em que “El Pastor” dirigia seus irmãos. A denominação continua reconhecendo-a pelo mesmo nome. Seu endereço continua sendo Colonia Las Puercas, Ensenada de Mora, Pilón. E a cadeia documental que reconstruímos conduz diretamente à igreja que Che prometeu financiar depois de ter sido protegido por Argelio e que a literatura acadêmica registra como efetivamente construída.
Isso transforma a igreja de Las Puercas num documento material de uma história que a memória institucional não deveria conseguir apagar. A organização adventista pode não destacar em sua Enciclopédia o que aconteceu ali entre 1956 e 1959, mas continua preservando como sua a própria igreja que atravessou esses acontecimentos. Pode saltar cronologicamente de 1937 para 1969, mas a construção permanece entre as duas datas. Pode falar genericamente da presença adventista no Oriente, mas Las Puercas possui nome, endereço, fundador e história.
Antes de o mundo vestir Che, Che vestiu a camisa de “El Pastor”

E então voltamos à camisa. O mundo transformaria Ernesto Guevara numa imagem reproduzida infinitamente. Sua fotografia atravessaria revoluções, universidades, manifestações, lojas, canecas, pôsteres e camisetas. Milhões de pessoas que jamais pisaram em Cuba vestiriam o rosto de Che. Mas, antes de tudo isso, numa região pobre do Oriente cubano, o próprio Che precisou ser vestido.
Quem o vestiu foi Argelio Rosabal, um pastor adventista sem ordenação burocrática, mas com igreja, irmãos, autoridade, contatos e uma célula capaz de agir quando os sobreviventes do Granma precisavam chegar vivos até Fidel. Argelio tirou a única camisa que possuía e a colocou sobre o corpo ferido de Che. No dia seguinte, o revolucionário viu “El Pastor” vestido de estopa e entendeu o que havia recebido.
Che não esqueceu. Prometeu uma igreja. A Revolução venceu. Em 2 de março de 1959, escreveu de La Cabaña lembrando pessoalmente a promessa de financiá-la e tratando também das passagens aéreas de Argelio e sua esposa para Havana. A igreja foi construída. E, mais de seis décadas depois, a organização adventista continua mantendo em Las Puercas a igreja de Argelio Rosabal, financiada por Ernesto Che Guevara.
Talvez seja essa a imagem que melhor resuma toda a investigação. De um lado, um revolucionário que mais tarde seria vestido simbolicamente por milhões de pessoas. Do outro, um pastor adventista rural que, naquele momento, não tinha uma segunda camisa. Entre os dois, uma peça de roupa, uma dívida de gratidão, uma promessa e uma igreja. O mundo acabou vestindo Che Guevara. Antes disso, Che Guevara vestiu a camisa de “El Pastor”. E a igreja que nasceu daquela promessa continua lá.

Epílogo — El Pastor daria um filme
Depois de acompanhar Argelio Rosabal por esta história, fica difícil simplesmente encerrar o artigo e seguir adiante. Há personagens que parecem crescer depois que os documentos terminam. Argelio é um deles. Sua trajetória daria um filme — ou, pelo menos, uma história extraordinária — justamente porque ele não cabe confortavelmente no molde do herói religioso tradicional.
Talvez esteja mais próximo daqueles personagens desconcertantes do Antigo Testamento, homens e mulheres que aparecem em momentos decisivos fazendo escolhas difíceis, atravessando conflitos políticos, escondendo perseguidos, enganando perseguidores, protegendo fugitivos e entrando em territórios nos quais a fronteira entre prudência, sobrevivência, lealdade e transgressão deixa de ser simples.
Os anti-heróis da Bíblia e El Pastor
E talvez seja justamente aqui que o Antigo Testamento nos ofereça uma chave surpreendentemente boa para compreender o personagem. Não porque Argelio Rosabal possa ser equiparado moralmente a qualquer personagem bíblico, mas porque a Bíblia hebraica está repleta de homens e mulheres que se tornam decisivos justamente quando entram em territórios nos quais as escolhas deixam de ser simples. São personagens desconcertantes, contraditórios, às vezes incômodos. Não são santos de vitrine. Vivem cercados por guerras, perseguições, mudanças de poder e ameaças de morte. Escondem gente, despistam perseguidores, assumem identidades, atravessam fronteiras, desobedecem autoridades e tomam decisões que dificilmente caberiam numa historinha religiosa infantil. São os anti-heróis do Antigo Testamento.
Raabe talvez seja a comparação mais impressionante. Dois homens procurados pelas autoridades chegam à sua casa em Jericó. O rei manda buscá-los. Ela já os havia escondido no terraço, debaixo das hastes de linho. Quando os perseguidores aparecem, Raabe confirma que os homens estiveram ali, mas afirma que já foram embora e recomenda que saiam rapidamente atrás deles.
Era uma história deliberadamente construída para despistar quem os procurava. Enquanto os soldados corriam na direção errada, os fugitivos continuavam escondidos dentro de sua propriedade. Depois ela lhes indica uma rota de fuga. Raabe não apenas abriu uma porta: transformou sua casa em esconderijo, enganou os perseguidores e participou ativamente da fuga. E a Bíblia não elimina essas partes desconfortáveis para torná-la mais aceitável.
Jael é ainda mais perturbadora. Sísera chega fugindo da batalha. Ela o recebe em sua tenda, cobre-o, dá-lhe leite quando ele pede água e permite que descanse. Depois toma uma estaca da própria tenda e um martelo e o mata enquanto dorme. É uma narrativa brutal. Não existe maneira de transformá-la numa personagem religiosa convencional sem destruir a própria história. O texto bíblico, porém, preservou a tensão em vez de higienizá-la. Jael permanece dentro da narrativa exatamente com suas contradições.
E então temos Davi. Antes de ser o rei glorificado pela memória de Israel, ele também foi fugitivo. Escondeu-se de Saul, movimentou-se clandestinamente entre territórios, reuniu em torno de si homens endividados, aflitos e descontentes e precisou sobreviver enquanto era perseguido pelo próprio poder estabelecido. Em Gate, diante de Aquis, chegou ao extremo de alterar deliberadamente seu comportamento para não ser reconhecido como ameaça: fingiu-se de louco, fez marcas nas portas e deixou saliva escorrer pela barba. O futuro rei sobreviveu também porque soube deixar de parecer quem realmente era.
É impossível não perceber a ressonância narrativa quando voltamos à Sierra Maestra. Séculos, circunstâncias, objetivos e personagens completamente diferentes — mas encontramos novamente homens perseguidos, casas transformadas em esconderijos, pessoas comuns decidindo se entregam ou protegem fugitivos, perseguidores que precisam ser despistados e até a necessidade de modificar a aparência para sobreviver. Davi precisou parecer outra coisa diante de seus inimigos. Os espias protegidos por Raabe precisaram desaparecer diante de seus perseguidores. Os sobreviventes do Granma, por sugestão de Argelio, precisariam deixar de parecer revolucionários e vestir-se como simples camponeses cubanos.
E é exatamente nesse sentido que podemos enxergar Argelio Rosabal como uma espécie de anti-herói bíblico perdido na Sierra Maestra do século XX. Não porque fosse outro Davi, outra Raabe ou outra Jael, e muito menos porque suas escolhas recebam automaticamente alguma aprovação religiosa. A semelhança está no tipo de personagem. El Pastor não aparece numa realidade organizada para facilitar decisões morais. A realidade chega bagunçada à sua porta: homens feridos, perseguidos, armados, espalhados depois de um desembarque fracassado, enquanto soldados procuram sobreviventes pela região. Ele precisa decidir naquele momento o que fazer.
E decide entrar na história. Casas precisam ser encontradas. Comida precisa chegar sem revelar quem irá comê-la. Homens precisam mudar de esconderijo. Armas precisam desaparecer. Uniformes precisam ser substituídos. Informações precisam circular entre pessoas confiáveis. Os perseguidos precisam parecer camponeses. Em determinado momento, o próprio El Pastor entrega a camisa que veste a um daqueles homens e fica usando um saco de estopa. É religião acontecendo não dentro da segurança de um templo, mas no território moralmente confuso de uma perseguição.
Talvez seja justamente isso que torne Argelio mais interessante do que o herói religioso convencional. O herói convencional costuma chegar até nós depois que alguém limpou suas contradições. Os personagens inesquecíveis do Antigo Testamento chegam com elas. Raabe protege e mente. Jael acolhe e mata. Davi é poeta, guerreiro, ungido, fugitivo e homem de enormes zonas escuras. Argelio é líder adventista e, ao mesmo tempo, homem de uma rede clandestina que esconde perseguidos, consegue roupas para disfarçá-los, participa da proteção de armamentos, providencia comida e ajuda a movimentar homens procurados pelo Exército. Retirar uma dessas dimensões não tornaria sua história mais religiosa. Tornaria sua história menor.
E existe ainda uma pergunta que aproxima todas essas narrativas. Nós conhecemos o final. Argelio não conhecia. Hoje sabemos quem Che Guevara se tornou, sabemos quem Fidel Castro se tornou e sabemos que aqueles homens terminariam vencedores. Em dezembro de 1956, El Pastor não tinha esse privilégio. Diante dele não estava ainda o Che dos monumentos, livros e milhões de camisetas. Estava um homem ferido, asmático, perseguido, com a roupa destruída, integrante de uma expedição que parecia ter terminado em desastre. Como acontece tantas vezes nas narrativas do Antigo Testamento, a decisão precisa ser tomada antes que o personagem saiba como a história terminará.
Talvez por isso a pergunta mais desconfortável produzida pela história de El Pastor seja também uma pergunta profundamente bíblica: o que nós faríamos se a História aparecesse ferida e perseguida diante de nossa porta, antes que soubéssemos qual seria o último capítulo?
Não precisamos transformá-lo em santo. Também não precisamos transformá-lo em guerrilheiro. A força do personagem está exatamente naquilo que ele foi: um adventista profundamente envolvido com sua comunidade religiosa que, de repente, viu a Revolução Cubana bater à sua porta.
O próprio apelido já parece coisa de roteiro: El Pastor. Não foi Che Guevara quem o batizou assim, nem Juan Almeida, nem algum comandante rebelde impressionado com aquele camponês. Quando os revolucionários chegaram, os adventistas da região já o conheciam dessa maneira por causa de sua liderança religiosa. A documentação registra Che recordando que estavam na casa de “un adventista llamado Argelio Rosabal a quien todos conocían como el Pastor”.
Era um homem ligado à igreja de Las Puercas, dirigente da Escola Sabatina e, segundo seu próprio testemunho posterior, envolvido na fundação daquela comunidade religiosa. Mas o “pastor” que emerge daqueles dias de dezembro de 1956 não está atrás de um púlpito. Está no meio da Sierra Maestra, tentando descobrir como manter vivos homens que o Exército de Batista procurava.
É aí que sua história começa a adquirir aquela ambiguidade que encontramos em tantos personagens bíblicos do Antigo Testamento. Raabe esconde os espias e engana os homens enviados para capturá-los. Jael recebe Sísera em sua tenda e a história termina de maneira brutal. Davi, perseguido por Saul, esconde-se, muda de identidade, reúne homens marginalizados e atravessa situações políticas e morais que dificilmente caberiam numa biografia religiosa higienizada.
Não estamos dizendo que Argelio seja equivalente a qualquer um deles. A comparação é narrativa. O que os aproxima é a impossibilidade de contar suas histórias retirando delas a tensão. São personagens colocados diante de acontecimentos maiores que eles e obrigados a decidir o que fazer.
Argelio decidiu agir. Não era o revolucionário famoso. Não desembarcara do Granma. Não usava estrelas de comandante. Não era o homem que apareceria décadas depois em cartazes, camisetas e murais espalhados pelo mundo. Era justamente o personagem que normalmente fica fora da fotografia: o homem que conhecia as trilhas, sabia em quais casas se podia bater, quais famílias eram confiáveis, onde havia comida, quem conseguiria uma muda de roupa e como alguém poderia atravessar aquela região sem chamar atenção. A documentação de Mayán, ao recuperar o diário de Che, registra que “vieram nos ver muitos adventistas” e que Argelio Rosabal e Ibrahim Sotomayor levaram roupas aos expedicionários. Por trás de uma frase tão pequena havia uma operação humana muito maior.
Foi também Argelio quem percebeu um problema elementar de sobrevivência: aqueles homens não poderiam continuar parecendo homens do Granma. Uniformes, armas e aparência militar denunciavam imediatamente quem eram. Era preciso fazê-los desaparecer diante dos olhos de quem os procurava. A solução foi quase teatral: transformar revolucionários em camponeses. Conseguir roupas civis, trocar o verde-oliva pela aparência dos guajiros da região, espalhar homens entre casas diferentes, esconder armamento, levar comida sem despertar suspeitas e mudar fugitivos de lugar quando a permanência começasse a representar perigo. Durante algumas horas ou alguns dias, aqueles homens precisavam deixar de parecer revolucionários e tornar-se trabalhadores rurais comuns aos olhos dos soldados, informantes e desconhecidos encontrados pelo caminho.
E então chegamos à cena que, se esta história algum dia virar cinema, praticamente não precisará de diálogo.
Che estava debilitado. A asma, a chuva, o frio, as feridas e a fuga haviam cobrado seu preço. Sua própria camisa fora rasgada para servir de atadura. O futuro ícone que seria estampado em milhões de camisetas estava naquele momento praticamente sem uma camisa para vestir. Argelio resolveu o problema da maneira mais elementar possível: tirou a própria camisa e entregou-a a Che Guevara.
No dia seguinte, Che viu novamente aquele homem e percebeu alguma coisa que aparentemente não sabia quando recebera a roupa. Argelio estava vestido com um improvisado saco de estopa. A camisa que Che agora vestia não era uma camisa excedente. Não era uma peça tirada de um armário cheio. Era, segundo a reconstrução documental de Caleb Rosado, a única camisa daquele adventista.
É difícil imaginar uma imagem melhor para condensar toda essa história. De um lado, Ernesto Guevara, ainda muito distante do personagem mundialmente conhecido que se tornaria. Do outro, um camponês adventista praticamente desconhecido pela História, usando um saco porque entregara sua roupa ao fugitivo. Nenhum dos dois poderia saber naquele momento o tamanho da ironia que o futuro produziria. Nas décadas seguintes, o rosto de Che Guevara seria impresso em milhões de camisetas. Mas, em dezembro de 1956, antes de milhões de pessoas vestirem Che Guevara, Che Guevara vestiu a camisa de El Pastor.
Essa cena também ajuda a explicar por que a relação não terminou quando os revolucionários deixaram aquela casa. Che guardou a lembrança do auxílio recebido dos adventistas e particularmente de Argelio. Segundo a reconstrução posterior de Caleb Rosado, a experiência causou tal impressão que Che prometeu ajudar na construção de uma pequena igreja para aquela comunidade caso a Revolução triunfasse. Anos depois, Joseph Tahbaz também recuperaria essa relação entre a ajuda recebida, a promessa e a construção da capela. Mas existe algo ainda mais importante do que a memória posterior: existe um documento escrito pelo próprio Che.
Em 2 de março de 1959, a situação estava completamente invertida. O homem perseguido na Sierra agora estava em La Cabaña. A Revolução havia triunfado. Argelio continuava sendo Argelio. Che, porém, agora tinha poder para cumprir aquilo que prometera quando dependia da ajuda dos camponeses. E escreveu para o antigo protetor.
O endereço preservado no documento é quase uma fotografia geográfica de nossa investigação: “Argelio Rosabal Cal. / Las Puercas, Ensenada de Mora / Pilón. Ote.” Na carta, Che lembra que havia prometido financiar sua igreja caso triunfassem e ainda pede os nomes completos de Argelio e de sua esposa para providenciar passagens aéreas para Havana.
É uma inversão narrativa extraordinária. Em dezembro de 1956, Argelio tinha uma camisa e Che precisava dela. Em março de 1959, Che tinha poder e Argelio tinha uma igreja esperando pelo cumprimento de uma promessa. Entre uma cena e outra aconteceu uma revolução.
E a relação ainda atravessaria os anos seguintes. A documentação recuperada por Rosado registra que Argelio voltaria a procurar Che em outro contexto, agora relacionado aos problemas enfrentados pelos adventistas diante do serviço militar. Numa carta de 28 de outubro de 1963 dirigida a Carlos Rafael Rodríguez, Che ainda identifica Rosabal como “o adventista” de quem já havia falado e encaminha seus documentos. O detalhe importa porque impede que interpretemos Las Puercas como uma lembrança sentimental passageira de 1956. O vínculo criado na Sierra deixou rastros posteriores.
Talvez seja justamente por isso que Argelio funcione tão bem como um anti-herói histórico. Não porque tenha sido perverso ou porque devamos artificialmente lhe atribuir uma rebeldia que os documentos não demonstram, mas porque ele desmonta a figura confortável do personagem religioso convencional.
O homem chamado de El Pastor participa de uma rede clandestina de proteção. Ajuda perseguidos. Colabora para que abandonem seus uniformes e se disfarcem de camponeses. Casas são usadas como esconderijos. Comida precisa atravessar controles. Armas precisam desaparecer. Homens procurados pelo Exército precisam mudar de lugar. E tudo isso acontece enquanto Argelio continua sendo adventista, dirigente religioso e homem de sua comunidade.
Esse personagem é muito mais interessante do que uma estátua. Uma estátua já vem com a interpretação pronta. Argelio não. Ele nos obriga a perguntar o que faríamos se a História aparecesse em nossa casa ferida, faminta, perseguida e armada. Ele não sabia que estava ajudando personagens que ocupariam livros de história. Naqueles dias, eram homens derrotados, dispersos depois do desembarque, tentando simplesmente sobreviver. O resultado político de tudo aquilo ainda não estava escrito.
E talvez esteja aí uma das maiores ironias de toda esta investigação. Che se tornaria uma das imagens políticas mais reproduzidas do século XX. Argelio Rosabal permaneceria praticamente desconhecido. Um seria transformado em símbolo internacional; o outro desapareceria para quase todo mundo fora daquela região. Mas, durante alguns dias de dezembro de 1956, essa hierarquia histórica simplesmente não existia. Che precisava de Argelio. Precisava dos contatos, das casas, das famílias, das informações, das roupas de camponês, daquela rede de adventistas espalhada pela região. E, literalmente, precisava de sua camisa.
Se esta história fosse filmada, talvez nem devêssemos terminá-la com tiros, discursos ou multidões comemorando a vitória revolucionária. A última sequência poderia acontecer décadas depois. A câmera voltaria àquela região de Cuba. A estrada, a Sierra Maestra ao fundo, Ensenada de Mora, Colonia Las Puercas. Nenhum guerrilheiro. Nenhum uniforme. Nenhuma perseguição. Apenas a comunidade e a igreja adventista que continua carregando o nome de Las Puercas — a mesma identificação territorial preservada na carta enviada por Che a Argelio em 1959.

A câmera poderia então permanecer alguns segundos diante daquela igreja.
E nós voltaríamos mentalmente à imagem que abriu este epílogo: Che Guevara vestindo uma camisa que não era sua e El Pastor usando um saco de estopa porque havia acabado de entregar ao fugitivo aquilo que tinha.
Talvez seja essa a melhor maneira de compreender Argelio Rosabal. Não precisamos transformá-lo em santo. Não precisamos transformá-lo em revolucionário. E muito menos precisamos apagar suas contradições para torná-lo aceitável. Ele é interessante justamente porque foi um homem comum colocado diante de uma situação extraordinária. Durante alguns dias, teve diante de si homens que depois entrariam para a História e precisou decidir o que fazer com eles.
Ele decidiu ajudá-los.
E a História passou pela casa de El Pastor vestindo a camisa dele.
Bibliografia e documentação
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GUEVARA, Ernesto “Che”. Pasajes de la guerra revolucionaria. Havana: diversas edições. Ver particularmente os relatos dos dias posteriores ao desembarque do Granma e a referência a Argelio Rosabal como adventista conhecido por “El Pastor”.
MAYÁN FERNÁNDEZ, Moisés. Asentamiento y difusión de la Iglesia Adventista del Séptimo Día en la ciudad de Holguín. Dissertação de mestrado em Historia y Cultura en Cuba. Universidad de Holguín, 2021.
ROSADO, Caleb. Sect and Party: Religion Under Revolution in Cuba. Tese de doutorado em Sociologia. Northwestern University, Evanston, Illinois, 1985.
SZULC, Tad. Tad Szulc Collection of Interview Transcripts. Cuban Heritage Collection, University of Miami Libraries. Box 3, Folder 37: “Rosabal, Argelio”. Entrevista com Argelio Rosabal, com intervenções de Pedro Álvarez Tabío.
TAHBAZ, Joseph. “Demystifying las UMAP: The Politics of Sugar, Gender, and Religion in 1960s Cuba”. Delaware Review of Latin American Studies, v. 14, n. 2, 2013.
OFICINA DE ASUNTOS HISTÓRICOS. Publicações documentais referentes ao desembarque do Granma, à dispersão dos expedicionários e ao reagrupamento dos sobreviventes na Sierra Maestra.
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ADVENTISTAS SANTA CLARA. Iglesias Adventistas en Granma. Diretório contemporâneo. Registro: “Las Puercas — Colonia Las Puercas, Ensenada de Mora. Pilón. Granma 87900”.
ADVENTISTAS.COM. “Novo livro documenta a História da IACSD: Igreja Apartidária Comunista do Sétimo Dia”. 2 set. 2026. Reprodução e discussão da entrevista de Argelio Rosabal preservada na Tad Szulc Collection e de documentação relacionada à participação dos adventistas nos acontecimentos posteriores ao desembarque do Granma.
ADVENTISTAS.COM. “Conheça ‘El Pastor’: O dirigente adventista que formou uma rede de irmãos apoiadores da guerrilha e salvou Che Guevara e outros rebeldes”. 13 set. 2026.
ADVENTISTAS.COM. “‘Vamos lutar por Fidel Castro enquanto Jesus Cristo não vem!’”. 21 set. 2026. Reconstrução da rede de células e contatos organizada antes do desembarque do Granma, da posição da comunidade adventista de Las Puercas e da continuidade entre o auxílio prestado aos sobreviventes e as relações adventistas posteriores com a Revolução.
MINISTRY. “Dateline”. Ago. 2024. Registro denominacional da crise pastoral cubana, reproduzindo os dados sobre 44 famílias pastorais que deixaram seus postos desde 2021 e o programa de formação de sete mil jovens.





