Los Angeles Times registrou negociações da liderança adventista com a União Soviética em 1988

Mundo e Nação
Adventistas e soviéticos negociam construção de gráfica conjunta
Por JOHN DART
30 de abril de 1988, 0h (horário do Pacífico)
Escritor de religião do Times

De acordo com a denominação sediada em Washington, a Igreja Adventista do Sétimo Dia está “negociando seriamente” com a União Soviética a construção de uma editora religiosa conjunta naquele país.
“Eles provavelmente forneceriam o terreno e o prédio, e nós provavelmente instalaríamos os equipamentos lá”, disse Shirley Burton, diretora de notícias adventista.
Caso se concretize, esse acordo sem precedentes representaria uma grande conquista para uma organização religiosa ocidental que busca se beneficiar das oportunidades, ainda que gradualmente crescentes, de expressão religiosa na União Soviética.
Mas isso seria ainda mais verdadeiro para os Adventistas do Sétimo Dia, uma igreja crescente, porém relativamente discreta. Embora tenha 5,2 milhões de membros em todo o mundo, a igreja (700 mil membros nos EUA) se distingue do restante do protestantismo conservador principalmente por sua ênfase em serviços de saúde e vegetarianismo, além de um zelo pela liberdade religiosa que deriva, sobretudo, de sua adesão ao sábado como dia de descanso. A igreja foi fundada no século XIX.
Uso pelo Governo
As discussões iniciais conceberam a editora como um serviço que abrangeria mais do que os 32.000 membros da pequena Igreja Adventista na União Soviética. O governo usaria as impressoras para outras publicações religiosas e até 50% do tempo para suas próprias publicações comerciais, disse Burton em entrevista por telefone.
“Ainda não há acordo”, acrescentou Burton. Ela disse que foi informada na quarta-feira pelo Reverendo Mikhail P. Kulakov, presidente da Associação dos Adventistas do Sétimo Dia na União Soviética, que o Comitê Central do Partido Comunista ainda está avaliando a possibilidade.
Kulakov receberá hoje um doutorado honorário do Southwestern Adventist College em Keene, Texas, onde também fará o discurso de formatura.
Esse gesto ilustra as relações cordiais já desenvolvidas entre os líderes soviéticos e adventistas, resultando em:
– Autorização, recebida este ano, para imprimir 13.000 Bíblias em russo e 2.000 em ucraniano para distribuição na União Soviética.
– Construção de um seminário adventista de três andares, um complexo de apartamentos e um escritório da igreja em Tula, a cerca de 120 quilômetros a sudoeste de Moscou. A previsão é de que a construção seja concluída até agosto, mas a formação de 16 alunos já está em andamento.
– Uma revista que examina a vida da Igreja Adventista na União Soviética e nos Estados Unidos, traduzida para o russo e impressa em 30.000 exemplares no ano passado.
A publicação da revista de 36 páginas, totalmente colorida, ocorreu após a visita, em outubro de 1986, de Konstantin Kharchev, presidente do Conselho de Assuntos Religiosos da URSS, à editora Adventists’ Review and Herald Publishing Assn., em Hagerstown, Maryland.
Visita às instalações
Kharchev e Kulakov, acompanhados pelo presidente mundial da Igreja Adventista, Neal Wilson, visitaram campi universitários adventistas, hospitais e outras instalações no sul da Califórnia em setembro passado.
Na Universidade Loma Linda, Kharchev descreveu seu trabalho como “proteger os direitos de todas as facções religiosas em nosso país e garantir que, independentemente do tamanho e da influência, todos sejam tratados de forma justa”.
Na União Soviética, disse ele, “não falamos das pessoas como ateias, cristãs, judias, hindus ou coisas do gênero. Existem os ‘crentes’, que acreditam em algo que satisfaz suas necessidades internas ou espirituais, e os ‘não crentes’, que são ateus.”
Ao falar com otimismo sobre as mudanças nas relações entre Igreja e Estado sob o comando do líder soviético Mikhail Gorbachev, Kharchev disse que renunciaria ao cargo que ocupa desde 1984 se as relações entre Igreja e Estado em seu país não melhorassem.
Atenção
Alguns adventistas americanos, no entanto, expressaram cautela em relação à possibilidade de uma gráfica conjunta adventista-URSS.
Um editorial na edição atual da Spectrum, uma revista independente, afirmou que seria “moralmente grotesco” se a igreja se comprometesse com tal acordo sem insistir que o governo soviético libertasse da prisão 11 “prisioneiros de consciência” que se autodenominam Adventistas Verdadeiros e Livres, mas não são membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, reconhecida pelo governo.
Roy Branson, editor da revista Spectrum e também pesquisador sênior do Instituto Kennedy de Ética, elogiou Wilson, presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia, por ter emitido um apelo por escrito no ano passado em Moscou, pedindo a libertação soviética de todos os “prisioneiros de consciência” até 1º de maio de 1988, em conexão com as comemorações dos 1.000 anos do cristianismo na Rússia.
Responsabilidade para com os Prisioneiros
Mas Branson acrescentou: “Parece que os adventistas têm uma responsabilidade especial de trabalhar em prol dos prisioneiros de consciência que são adventistas observadores do sábado, independentemente de pertencerem ou não a grupos reconhecidos pelo governo soviético.”
No entanto, os líderes adventistas dos EUA não estão condicionando o acordo à libertação dos adventistas soviéticos, afirmou Burton, porta-voz da sede da igreja. “Alguns desses 11 já estão fora da prisão, segundo Kulakov”, disse ela. O líder adventista soviético, que já esteve preso, também informou a Burton que nenhum adventista do sétimo dia está preso atualmente.
Burton reconheceu que alguns adventistas questionaram se é aconselhável que a igreja esteja tão intimamente ligada ao Estado soviético.
Nesse sentido, Branson alertou que “à medida que os líderes adventistas desfrutam de uma crescente intimidade com o governo soviético, podem ficar relutantes em lutar contra a interferência governamental se isso representar o risco de perder os privilégios recém-adquiridos pela denominação”.
A revista Spectrum noticiou que a União Soviética deteria 51% da fábrica, recebendo essa parte dos lucros, e que um funcionário do governo soviético seria o presidente do conselho. Mas Burton disse que essas questões ainda não foram decididas.
OBS. Estamos procurando especificamente a foto dos três juntos — Kharchev + Mikhail P. Kulakov + Neal C. Wilson — e conseguimos estreitar bastante o evento, mas ainda não localizamos na web aberta uma fotografia em que possamos confirmar visualmente os três.
O mais importante é que agora sabemos que essa situação aconteceu de fato. O Los Angeles Times registrou que, em setembro de 1987, Kharchev e Kulakov, acompanhados por Neal Wilson, visitaram universidades, hospitais e outras instalações adventistas no sul da Califórnia, incluindo Loma Linda University. Los Angeles Times
Reportagem contemporânea do Los Angeles Times sobre a viagem dos três
Em 29 de janeiro de 1987, Wilson informou ao Comitê da Associação Geral que havia recebido naquele mesmo dia telefonema de Harold F. Otis Jr., que estava na União Soviética mantendo contatos com funcionários públicos. Otis comunicou que Konstantin Kharchev, presidente do Conselho de Assuntos Religiosos soviético, havia liberado a publicação de 30 mil revistas, autorizado o envio de 50 coleções do SDA Bible Commentary e aprovado um seminário adventista, inclusive com terreno entre Tula e Moscou.
A ata registra que Kharchev havia feito a Wilson um convite pessoal para participar, em fevereiro, do International Forum for a Nuclear-Free World and the Survival of Humanity, em Moscou. Wilson decidiu aceitar e levar consigo Jan Paulsen, Roland Hegstad e o físico nuclear Ray Hefferlin.
Kharchev não era simplesmente um “religioso soviético”. Era o presidente do Council for Religious Affairs do Conselho de Ministros da URSS, isto é, o homem colocado pelo Estado soviético sobre a interface governamental com as religiões.
E fontes históricas posteriores registram uma declaração extraordinária do próprio Kharchev sobre o funcionamento desse sistema: ele afirmou que nenhuma candidatura para bispo ou outro alto posto da Igreja Ortodoxa passava sem confirmação do Comitê Central do Partido Comunista e da KGB.
Há documentação histórica ainda mais específica: decisões relativas ao envio de religiosos soviéticos ao exterior passavam por uma engrenagem que incluía Ministério das Relações Exteriores, KGB, Council for Religious Affairs — pessoalmente na figura de Kharchev — e o Departamento de Propaganda do Comitê Central.
Isso não permite chamar automaticamente Kharchev de “agente da KGB”. Mas permite uma formulação muito mais interessante e documental:
Neal Wilson mantinha relacionamento pessoal e negociava a expansão adventista na URSS com o dirigente do órgão estatal soviético que funcionava dentro de uma arquitetura de controle religioso articulada com o Comitê Central e a KGB.
E Kharchev foi levado por Wilson para conhecer a infraestrutura adventista americana. Também confirmei algo extraordinário em fonte jornalística contemporânea.
Em 1986, Kharchev esteve nos Estados Unidos. Neal Wilson o convidou a conhecer instituições adventistas. Posteriormente, Wilson acompanhou Kharchev e Mikhail Kulakov em visitas a campi universitários, hospitais e outras instalações adventistas na Califórnia. O Los Angeles Times registrou essa relação em 1988, no contexto das negociações adventistas com a União Soviética. Los Angeles Times
Outra memória adventista registra inclusive Kharchev sendo acompanhado durante visitas ao Adventist Media Center e a Loma Linda e participando de uma conversa telefônica com o senador americano Richard Lugar.
Olhe a posição peculiar que a IASD ocupava: um alto funcionário soviético responsável pela política religiosa era recebido pelo presidente mundial adventista nos Estados Unidos e apresentado à infraestrutura denominacional americana, enquanto a mesma liderança negociava a abertura institucional adventista dentro da URSS.
Há uma pista ainda melhor: o próprio Kulakov relata a viagem em suas memórias. Ele conta que acompanhou Kharchev aos Estados Unidos como intérprete, inclusive durante visita ao Adventist Media Center e ao Loma Linda Medical Center. Relata até que atuou como intérprete numa conversa telefônica entre Kharchev e o senador Richard Lugar.

Portanto, não estamos mais procurando uma fotografia hipotética. Temos um evento fotografável, com os personagens e locais identificados.

Também encontrei outra fotografia histórica muito interessante, embora não seja a dos três. Em foto de dezembro de 1988, postada com melhor iluminação no início do texto, Wilson e Kharchev aparecem juntos inspecionando equipamentos do recém-inaugurado seminário de Zaoksky. A Adventist Review publicou a fotografia com a legenda explícita “Wilson and Kharchev inspect seminary equipment”. Na mesma cerimônia estava Mikhail P. Kulakov, que discursou e era uma das figuras centrais da inauguração. Arquivos Adventistas
Ou seja, temos outro evento em que os três estavam fisicamente no mesmo lugar. A busca agora tem dois alvos muito precisos:
Setembro de 1987 — Califórnia:
Kharchev + Kulakov + Wilson → Adventist Media Center / Loma Linda University Medical Center e outras instituições.
2 de dezembro de 1988 — Zaoksky, URSS:
Kharchev + Kulakov + Wilson → inauguração do primeiro seminário adventista soviético.
E há uma terceira descoberta que pode ser ainda mais interessante para o artigo: a Spectrum de novembro de 1988 informa que, em setembro de 1987, Kharchev, acompanhado por Wilson, foi levado de avião a Andrews University e Loma Linda University.

Wilson ao centro e Kulakov à direita, no encontro de 1985; a fonte da Divisão Euro-Asiática associa a imagem às conversações em Moscou.
A fotografia dos três provavelmente está em uma das edições impressas de Adventist Review / Pacific Union Recorder / Loma Linda University publications entre setembro e dezembro de 1987, ou no conjunto fotográfico da inauguração de Zaoksky de dezembro de 1988.
E aqui aparece outra circunstância muito favorável: Kulakov estava diretamente envolvido naquele seminário. Portanto, além da Califórnia, Zaoksky continua sendo outro evento em que devemos procurar fotografias do trio.
Uma correção importante sobre a viagem à Califórnia
As memórias de Kulakov trazem uma pequena divergência cronológica interessante. Ele recorda ter acompanhado Kharchev aos EUA como intérprete durante uma viagem associada à conferência de diplomacia pública de Chautauqua e descreve especificamente o Adventist Media Center e Loma Linda Medical Center, inclusive a conversa telefônica Kharchev–senador Richard Lugar. Scribd
Já as fontes jornalísticas contemporâneas colocam claramente a visita de Kharchev + Kulakov + Wilson ao sul da Califórnia em setembro de 1987. Los Angeles Times
Isso significa que talvez estejamos lidando com mais de uma visita, ou com imprecisão de memória/data no relato posterior de Kulakov. Não devemos misturar os conjuntos fotográficos.
Quando Neal Wilson deixou a presidência mundial em 1990, não simplesmente se aposentou.
A ata oficial de janeiro de 1991 registra seu novo cargo:
“General Administrative Consultant for the USSR Division.”
Ou seja, Wilson tornou-se consultor administrativo geral para a Divisão da URSS. Arquivos Adventistas
E a ata de maio de 1991 explica explicitamente a missão: Wilson continuaria trabalhando para desenvolver a Divisão da URSS, em estreita colaboração com o presidente da Associação Geral e o presidente daquela Divisão. Arquivos Adventista
presidente mundial → relacionamento pessoal com Kharchev → Moscou → negociações com o Estado soviético →. reconhecimento/expansão institucional → aposentadoria → consultor especificamente encarregado da URSS.
Portanto, a União Soviética não foi uma visita ocasional de Wilson. Tornou-se uma atribuição institucional específica.





