
Uma igreja mundial dirigida por homens formados na máquina militar americana
A presença da Igreja Adventista do Sétimo Dia no sistema penitenciário brasileiro precisa ser compreendida a partir de sua estrutura internacional de capelania. Durante décadas, a Associação Geral entregou posições de direção desse ministério a oficiais veteranos das Forças Armadas dos Estados Unidos. Não se trata de uma coincidência biográfica. Trata-se de uma sucessão institucional que colocou a experiência militar americana no centro da formação, do credenciamento e da supervisão de capelães adventistas espalhados pelo mundo.
Richard Stenbakken, coronel aposentado do Exército americano, dirigiu mundialmente a capelania adventista entre 1992 e 2004. Gary Councell, também coronel aposentado, assumiu a direção em 2008. Mario Ceballos, comandante aposentado da Marinha americana, dirigiu os Ministérios de Capelania Adventista e a World Service Organization a partir de 2015. Em fevereiro de 2026, Andrew R. Harewood, brigadeiro-general aposentado do Exército americano, assumiu a direção-assistente mundial desse mesmo ministério.
Coronéis, comandantes e generais americanos passaram pela direção de uma organização religiosa que atua em quartéis, hospitais, universidades, delegacias e penitenciárias. A pergunta é inevitável: por que uma denominação que proclama a separação entre religião e Estado concentrou tanta experiência militar americana na administração de seu ministério internacional?
Brasília entrou nessa engrenagem em 2015
Em 12 de junho de 2015, a própria Associação Geral divulgou uma reunião de planejamento entre Gary Councell, Mario Ceballos, Erton Köhler e Bruno Alberto Raso. O assunto era o desenvolvimento de estratégias de capelania para a Divisão Sul-Americana, sediada em Brasília. Dois dirigentes com carreira militar americana discutiam a expansão desse ministério com os responsáveis pela administração adventista de oito países sul-americanos.
O encontro estabelece uma conexão institucional direta entre a direção mundial da capelania, historicamente ocupada por veteranos militares americanos, e a administração adventista brasileira. A partir dessa estrutura, programas internacionais de formação, certificação e supervisão passaram a alcançar os diferentes campos de atuação da capelania sul-americana.
O Pentágono não precisa manter um quartel dentro da sede adventista em Brasília para que a experiência, a doutrina administrativa e os métodos profissionais de seus antigos oficiais circulem pela estrutura religiosa mundial. A própria denominação construiu os canais institucionais para essa circulação.
Gary Councell e a entrada organizada nos presídios brasileiros
No mesmo ano de 2015, a Revista Adventista publicou uma reportagem sobre o trabalho religioso nas penitenciárias brasileiras. A autoridade internacional apresentada para defender a expansão desse ministério era Gary Councell, coronel aposentado do Exército dos Estados Unidos e dirigente mundial da capelania adventista.
Councell defendia mais do que visitas ocasionais aos presos. Sua proposta incluía formação especializada, ampliação do número de voluntários e presença permanente de capelães dedicados ao atendimento de internos, familiares, agentes penitenciários e funcionários. Para justificar a importância desse campo de atuação, afirmou que “as prisões são cidades dentro das cidades”.
A frase revela a dimensão institucional atribuída ao sistema carcerário. As penitenciárias não eram tratadas apenas como locais de visitas evangelísticas, mas como comunidades complexas que exigiam presença religiosa organizada, profissionais especializados e continuidade administrativa.
Enquanto a maioria dos membros adventistas enxergava o ministério carcerário como uma atividade de assistência espiritual, a direção mundial trabalhava para transformá-lo em um campo permanente de atuação profissional, sob padrões estabelecidos por uma administração internacional que incluía veteranos das Forças Armadas americanas.
A Papuda e a presença adventista no sistema penitenciário
O Complexo Penitenciário da Papuda, no Distrito Federal, tornou-se um dos exemplos concretos dessa presença institucional. Em dezembro de 2015, foi inaugurado o acesso à programação da Rede Novo Tempo no complexo. Posteriormente, a Associação Planalto Central organizou seu Ministério Carcerário, com atividades de evangelização, estudos bíblicos, assistência às famílias e formação de capelães.
Em 2019, a documentação denominacional registrava mais de 170 capelães vinculados ao ministério carcerário daquela associação. No Rio de Janeiro, o Diretório Mundial Adventista também registra uma congregação denominada Sistema Prisional, vinculada à administração regional da igreja.
Portanto, a presença adventista nas penitenciárias brasileiras é organizada, reconhecida e administrada institucionalmente. Não se limita à iniciativa individual de fiéis que visitam presos aos domingos. Integra uma estrutura denominacional com dirigentes, programas, credenciamento e relações formais com administrações penitenciárias.

Em 2026, Brasília consolidou a estrutura sul-americana
Em maio de 2026, a Divisão Sul-Americana oficializou seu Ministério de Capelania, entregando sua direção a Otávio Barreto. A própria administração informou a existência de aproximadamente 600 capelães atuantes em diferentes especialidades na América do Sul.
O novo departamento foi apresentado como parte de um sistema mundial de formação, credenciamento, certificação e supervisão. Os padrões internacionais da Associação Geral orientam a organização regional, que os adapta às condições locais e mantém comunicação com a administração mundial.
É nessa estrutura que a presença de Andrew R. Harewood adquire importância. Um brigadeiro-general aposentado do Exército americano participa da direção mundial de um ministério cujas políticas profissionais alcançam também a capelania penitenciária brasileira. A ligação é administrativa, internacional e permanente.
O PCC, o Comando Vermelho e a nova dimensão geopolítica dos presídios
A classificação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras pelo governo dos Estados Unidos, em junho de 2026, acrescentou uma dimensão geopolítica ao sistema penitenciário brasileiro. Organizações criminosas surgidas ou fortalecidas no ambiente carcerário passaram a ocupar posição ainda mais destacada na política americana de segurança internacional.
Essa mudança torna especialmente relevante a presença de organizações estrangeiras e internacionais que desenvolvem atividades permanentes dentro de penitenciárias brasileiras. A capelania religiosa possui características próprias: acesso autorizado aos estabelecimentos, contato continuado com internos e funcionários, circulação em ambientes restritos e relacionamento com administrações penitenciárias.
O problema institucional não é a existência de assistência espiritual aos presos. É a concentração de funções religiosas, vínculos internacionais e experiências militares numa mesma estrutura administrativa, justamente quando o sistema carcerário brasileiro passa a ocupar lugar mais importante na agenda de segurança dos Estados Unidos.
A Bíblia, a farda e a autoridade sobre a consciência
A Igreja Adventista construiu parte de sua identidade histórica denunciando a aproximação entre religião e poder estatal. Durante gerações, ensinou que a liberdade de consciência deveria ser protegida contra a interferência dos governos e que a religião não deveria se transformar em instrumento das autoridades políticas.
Entretanto, sua própria história institucional registra a promoção de oficiais militares americanos a posições superiores na direção mundial da capelania. O uniforme, a patente e a experiência nas estruturas de defesa dos Estados Unidos passaram a conviver com a administração de um ministério religioso que atravessa fronteiras nacionais.
A contradição é frontal: a denominação que advertia contra a submissão da religião ao poder civil incorporou sucessivos veteranos militares americanos à direção de uma estrutura internacional que atua também em instituições públicas brasileiras.
Essa realidade exige que a independência religiosa seja medida por fatos administrativos, e não apenas por declarações doutrinárias. Uma coisa é oferecer assistência espiritual a pessoas privadas de liberdade. Outra é organizar essa assistência dentro de um sistema mundial cuja direção reúne trajetórias militares, responsabilidades internacionais e relações institucionais com diferentes governos.

Conclusão: quem dirige a capelania que entrou nos presídios brasileiros?
A documentação revela uma sequência histórica incontornável. Oficiais veteranos americanos dirigiram a capelania adventista mundial. Gary Councell defendeu sua expansão nas penitenciárias brasileiras. Councell e Mario Ceballos participaram do planejamento de estratégias com a liderança da Divisão Sul-Americana. A igreja organizou atividades no Complexo da Papuda, formou capelães penitenciários e consolidou, em 2026, um departamento regional conectado à administração mundial.
Ao mesmo tempo, o governo americano passou a tratar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, conferindo nova importância internacional ao ambiente prisional brasileiro.
O resultado é uma sobreposição que a liderança adventista não pode esconder atrás da linguagem do evangelismo: uma estrutura religiosa mundial administrada, em diferentes períodos, por oficiais veteranos americanos atua também em um setor sensível da segurança pública brasileira.
A subordinação administrativa da capelania sul-americana à organização religiosa mundial é um fato institucional. A transformação dessa relação em subordinação ao Exército dos Estados Unidos seria uma relação de comando diferente, que os documentos reunidos não estabelecem. O problema demonstrado já é suficientemente sério: a presença continuada de dirigentes com formação militar americana na direção de um ministério religioso internacional que atua dentro de instituições penitenciárias brasileiras.
A questão decisiva deixou de ser quantos adventistas visitam os presos. É quem estabelece as normas da capelania, quem controla sua formação profissional, quem recebe seus relatórios administrativos e qual é o limite entre a autoridade religiosa internacional e os interesses dos Estados aos quais seus dirigentes militares serviram.
Uma igreja que ensinou o mundo a desconfiar da união entre religião e Estado não pode tratar como irrelevante a presença de coronéis e generais americanos na direção mundial de seus ministérios. Muito menos quando essa estrutura alcança os presídios de um país que se tornou peça importante na agenda internacional de segurança de Washington.
Dos presídios brasileiros ao interesse estratégico de Washington: quem controla as informações?
A classificação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras pelos Estados Unidos, em junho de 2026, mudou a importância dos presídios brasileiros para a política americana de segurança nacional. Informações sobre a estrutura de comando das facções, suas conexões internacionais, movimentações financeiras, redes de recrutamento, comunicações com integrantes em liberdade e relacionamentos com organizações criminosas de outros países passaram a ter relevância direta para as autoridades americanas.
O interesse não é abstrato. Em julho de 2026, o Departamento do Tesouro americano anunciou sanções contra brasileiros e empresas acusados de integrar uma rede financeira ligada ao PCC. Washington declarou expressamente que pretende combater a movimentação internacional de recursos dessas organizações.
Nesse cenário, informações produzidas dentro do sistema penitenciário brasileiro podem adquirir valor estratégico. A pergunta que se impõe à Igreja Adventista é simples: que informações seus capelães recolhem durante o trabalho nas prisões, quais registros produzem e quem, na administração internacional da denominação, pode ter acesso a esses dados?

A Papuda: muito mais que uma emissora religiosa
Em dezembro de 2015, a própria Igreja Adventista anunciou a implantação de um sistema de televisão no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. A iniciativa não se limitava à disponibilização da programação da Rede Novo Tempo. Envolvia uma estrutura de televisão a cabo, centralização do controle da programação, seleção de horários e distribuição de conteúdos às televisões instaladas nas celas.
A reportagem oficial apresentou o desenvolvedor de sistemas Paulo Tavares e a agente penitenciária Cláudia Marciel como participantes fundamentais da iniciativa. A administração adventista do Distrito Federal apoiou e patrocinou o projeto em parceria com autoridades penitenciárias.
Uma organização religiosa participou, portanto, da implantação de uma infraestrutura tecnológica de distribuição e controle de conteúdo dentro de um complexo penitenciário brasileiro.
O alcance técnico dessa infraestrutura merece especial atenção. Uma rede de distribuição televisiva pode funcionar exclusivamente para transmissão de conteúdo, mas também pode integrar equipamentos de rede, sistemas de gerenciamento, registros de operação e mecanismos de acesso remoto, dependendo de sua arquitetura.
O que importa é identificar quem possuía as credenciais administrativas, quais equipamentos estavam conectados, se havia conexão externa, quais dados operacionais eram armazenados e quem tinha autorização para acessar a central.
A existência de uma central de controle não equivale à existência de espionagem. Mas o controle de uma infraestrutura instalada dentro de um presídio é uma responsabilidade que não pode ser confundida com a simples transmissão de sermões religiosos.
Débora do Batom: a frequentadora adventista condenada pelos acontecimentos de 8 de janeiro
Existe ainda uma questão profundamente desconfortável para a imagem pública da capelania adventista.
Débora Rodrigues dos Santos, conhecida nacionalmente como Débora do Batom, foi condenada a 14 anos de prisão por sua participação nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, incluindo a inscrição feita com batom na estátua da Justiça diante do Supremo Tribunal Federal.
Em julho de 2024, a Revista Oeste informou que Débora frequentava a Igreja Adventista do Sétimo Dia antes de sua prisão. Em julho de 2025, o ministro Alexandre de Moraes autorizou que recebesse assistência religiosa durante o cumprimento da pena em prisão domiciliar.
Onde estava a estrutura adventista de capelania durante o sofrimento dessa mulher e de sua família? A denominação que anuncia centenas de capelães, programas penitenciários e assistência espiritual internacional ofereceu a Débora acompanhamento pastoral, assistência à família e apoio religioso durante sua prisão?
A discussão sobre a proporcionalidade da condenação e as responsabilidades individuais pelos acontecimentos de 8 de janeiro pertence ao campo jurídico. A obrigação pastoral, entretanto, é uma questão diferente. A assistência religiosa não deveria depender da posição política do preso, da natureza da acusação ou da popularidade pública de sua causa.
A pergunta ganha ainda mais força quando a denominação apresenta seu ministério carcerário como demonstração de compaixão cristã. Uma igreja que reivindica acesso às penitenciárias para assistir desconhecidos precisa explicar como trata seus próprios frequentadores quando eles enfrentam a prisão e o isolamento.
A contradição entre o interesse estratégico e a responsabilidade pastoral
A Igreja Adventista mantém uma estrutura internacional de capelania que passou por sucessivas administrações de oficiais veteranos das Forças Armadas americanas. Gary Councell, coronel aposentado do Exército, defendeu publicamente a ampliação desse ministério nos presídios brasileiros. Mario Ceballos participou do planejamento de estratégias para a Divisão Sul-Americana. Andrew Harewood, brigadeiro-general aposentado, integra desde 2026 a direção mundial da capelania.
Ao mesmo tempo, o governo dos Estados Unidos elevou o PCC e o Comando Vermelho à categoria de organizações terroristas estrangeiras, colocando suas redes internacionais no centro de novas medidas de segurança e sanções financeiras.
O ponto de encontro dessas duas realidades é o sistema penitenciário brasileiro: um espaço de assistência espiritual para a igreja e, simultaneamente, um ambiente de grande interesse para a política americana de segurança.
Essa convergência coloca a independência do ministério religioso diante de um teste concreto. O aconselhamento pastoral precisa permanecer protegido. As confidências de presos e familiares não podem se transformar em informações disponíveis a governos estrangeiros. Os registros administrativos devem ter finalidades definidas, e as tecnologias instaladas nos presídios precisam permanecer sob controle legítimo das autoridades brasileiras.
Conclusão: a fé não pode se transformar em instrumento de vigilância
O verdadeiro escândalo seria descobrir que uma estrutura criada para anunciar o Evangelho também pudesse servir à circulação de informações estratégicas sobre pessoas privadas de liberdade.
A capelania adventista brasileira opera dentro de uma organização religiosa mundial que inclui dirigentes com longa experiência nas Forças Armadas americanas. Sua atuação alcança penitenciárias, instituições policiais e outros ambientes de segurança pública. A Igreja Adventista também participou da implantação de um sistema tecnológico de controle de programação televisiva na Papuda.
Esses fatos colocam diante da denominação duas responsabilidades inseparáveis: proteger a confidencialidade das pessoas atendidas e assegurar que sua infraestrutura religiosa e tecnológica jamais seja utilizada para vigilância não autorizada.
E existe uma pergunta de natureza moral que não pode desaparecer entre organogramas e relatórios: a mesma igreja que mobiliza recursos para entrar nos presídios demonstrou igual empenho em assistir uma mulher identificada publicamente como frequentadora adventista, condenada pelos acontecimentos de 8 de janeiro?
A independência profética de uma igreja não se mede pelo número de capelães credenciados, pela patente de seus dirigentes ou pela quantidade de penitenciárias alcançadas. Mede-se também por sua capacidade de proteger a consciência, a dignidade e a liberdade religiosa daqueles que estão submetidos ao poder do Estado.





