
Enquanto o membro comum conhece uma Igreja de sábados, Escola Sabatina, evangelismo e profecias, existe outra dimensão institucional da mesma denominação: presidentes mundiais recebidos por chefes de Estado, adventistas no Congresso e no gabinete presidencial, um contra-almirante no púlpito oficial do Senado, representantes junto às Nações Unidas e uma rede capaz de conversar simultaneamente com governos, militares e organismos internacionais

A outra metade começou a aparecer quando voltamos à Guerra Fria. Encontramos Neal C. Wilson, pai de Ted Wilson e então presidente mundial da Igreja, entrando no Kremlin, conversando com autoridades soviéticas, recebendo Konstantin Kharchev nos Estados Unidos, apresentando ao governo da URSS a capacidade adventista em saúde, educação, ciência e intercâmbio e participando de uma aproximação que resultaria em reconhecimento, instalações, formação ministerial e presença administrativa. Ao redor dessa história apareceu outro nome que parecia secundário, mas agora se torna a dobradiça entre nosso artigo anterior e este: Jan Paulsen. Ele participou do ambiente adventista de aproximação com Moscou em 1987 e mais tarde se tornaria presidente da Associação Geral. Se parássemos aí, Paulsen seria apenas mais um personagem do capítulo soviético. Mas ele reaparece quase vinte anos depois numa cena extraordinária, desta vez não diante do governo soviético, mas dentro do centro do Poder Executivo americano. E o mais surpreendente é que levou Moscou consigo para a conversa.

JAN PAULSEN E O 11 DE SETEMBRO: O RESPALDO RELIGIOSO À NARRATIVA DE GEORGE W. BUSH
Em setembro de 2001: Jan Paulsen já escrevia a George W. Bush quando Washington preparava a guerra.
Cinco anos antes de ser recebido por George W. Bush no Salão Oval da Casa Branca, Jan Paulsen já mantinha comunicação direta com o presidente norte-americano. Em 24 de setembro de 2001, apenas treze dias depois dos atentados que abalaram Nova York e Washington, a Adventist News Network divulgou que o presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia havia enviado uma carta de condolências e apoio ao chefe do Executivo americano.
A mensagem destacava as orações dos adventistas em favor da população atingida, elogiava a advertência presidencial contra a hostilidade indiscriminada a grupos étnicos e religiosos e pedia que Deus concedesse sabedoria e paz a Bush e à sua administração na condução do país. A carta foi enviada precisamente quando a Casa Branca começava a definir a resposta política e militar aos acontecimentos de 11 de setembro.
O contexto histórico torna essa comunicação muito mais significativa do que uma simples correspondência pastoral. Em 17 de setembro, Bush havia comparecido ao Centro Islâmico de Washington para declarar que os muçulmanos não deveriam ser confundidos com os responsáveis pelos atentados. Três dias depois, em discurso ao Congresso, apresentou as bases de uma campanha internacional contra o terrorismo que transformaria profundamente a política externa norte-americana. Nas semanas seguintes, o governo iniciou operações militares no Afeganistão e promoveu a ampliação dos instrumentos legais de vigilância e investigação. Jan Paulsen dirigiu sua carta ao presidente justamente no período em que essas decisões começavam a tomar forma.
A interpretação dos atentados de 11 de setembro como operação de falsa bandeira, que adotamos, acrescenta uma questão ainda mais grave à leitura política e espiritual daquele período: a possibilidade de uma tragédia nacional ter sido utilizada, por setores de poder, como instrumento de legitimação de decisões militares e de segurança extraordinárias. Independentemente da controvérsia sobre a autoria e a organização dos ataques, é historicamente verificável que o governo Bush utilizou os atentados como fundamento para uma transformação profunda da política de segurança dos Estados Unidos e para intervenções militares no exterior. O presidente mundial adventista escolheu dirigir palavras de apoio e encorajamento à administração americana naquele momento decisivo.
Não encontramos, na carta divulgada pela denominação, uma advertência profética sobre os perigos da concentração de poder político e militar que se anunciava. Encontramos uma manifestação de solidariedade às vítimas, o reconhecimento de uma posição presidencial favorável à tolerância religiosa e uma oração para que Bush conduzisse o país com sabedoria. A diferença entre esses conteúdos é essencial para compreender o conflito entre a representação pública da Associação Geral e as expectativas de adventistas que entendiam a missão remanescente como responsabilidade de advertir os governantes diante dos perigos espirituais associados ao poder do Estado.
Em abril de 2006, a relação reapareceria em circunstâncias diferentes. Paulsen seria recebido pessoalmente por Bush na Casa Branca, acompanhado de dirigentes da Associação Geral e de um especialista em assuntos legislativos. Na ocasião, a liderança mundial reconheceria a participação da USAID em projetos da ADRA e manifestaria o desejo de que a denominação continuasse sendo reconhecida como parceira do governo americano. Os dois episódios, separados por quase cinco anos, revelam uma continuidade concreta de comunicação institucional entre o presidente mundial adventista e a administração Bush.
A carta enviada por Jan Paulsen a George W. Bush em setembro de 2001 precisa ser examinada também por seus efeitos políticos e simbólicos. O presidente mundial de uma denominação que reivindicava autoridade profética apresentou publicamente sua solidariedade ao chefe do Executivo norte-americano, elogiou sua manifestação em favor da tolerância religiosa e pediu sabedoria divina para as decisões que sua administração tomaria nas semanas e meses seguintes. A correspondência foi divulgada oficialmente pela Igreja Adventista quando os Estados Unidos começavam a mobilizar sua população e seus aliados para uma nova etapa de expansão militar e de segurança.
Em nossa interpretação que, como dissemos, considera o 11 de Setembro uma operação de falsa bandeira, manifestações religiosas dessa natureza assumem uma função especialmente sensível: ajudam a conferir respeitabilidade moral à liderança política que apresenta a versão oficial dos acontecimentos e conduz a resposta governamental. A carta de Paulsen pode ser analisada como parte desse ambiente de legitimação, embora seu conteúdo não demonstre conhecimento da suposta operação nem endosso explícito às guerras posteriores. Sua importância está na manifestação pública de confiança religiosa numa administração que receberia poderes extraordinários e conduziria intervenções militares internacionais.
Essa aproximação não terminou em setembro de 2001. Em abril de 2006, Paulsen compareceu pessoalmente à Casa Branca e apresentou a Igreja Adventista como parceira do governo norte-americano em iniciativas internacionais. A sequência acrescenta uma questão decisiva à denúncia: por que a liderança de uma denominação que ensinava seus membros a desconfiar profeticamente da concentração de poder político e religioso escolheu oferecer reconhecimento público à administração Bush e, posteriormente, aprofundar sua cooperação institucional com ela?
A questão que emerge dessa sequência é a transformação da postura pública da liderança denominacional: o presidente de uma igreja que ensinava seus membros a reconhecer os perigos proféticos da associação entre religião e poder político dirigia palavras de encorajamento ao governo norte-americano em 2001 e, em 2006, apresentava sua organização como parceira daquele mesmo governo. A distância entre a advertência profética ensinada aos fiéis e a cumplicidade exercida pela Associação Geral torna-se, assim, parte inseparável da história das relações entre Jan Paulsen e George W. Bush.
Documentos: Adventist News Network, United States: Letter to President Commends Statements on Tolerance, 24 de setembro de 2001; Adventist News Network, World Church: Adventist Leaders Meet United States President at White House, abril de 2006.

DE MOSCOU AO SALÃO OVAL: JAN PAULSEN ATRAVESSA A PONTE
Em 4 de abril de 2006, Jan Paulsen entrou no Salão Oval da Casa Branca para uma reunião de 45 minutos com o presidente George W. Bush. Não foi uma passagem protocolar de alguns minutos nem uma recepção coletiva a centenas de religiosos. Segundo o relato oficial da Adventist News Network sobre a reunião, Paulsen estava acompanhado de Matthew Bediako, secretário mundial da Igreja; Don Schneider, presidente da Divisão Norte-Americana e vice-presidente mundial; e James D. Standish, diretor de assuntos legislativos da denominação. O encontro ocorreu a convite do presidente dos Estados Unidos, e a conversa percorreu liberdade religiosa, HIV/AIDS, educação, pobreza, hospitais adventistas e a atuação internacional da denominação. É aqui, porém, que o artigo anterior literalmente atravessa a porta deste: Paulsen informou Bush sobre sua recente visita à Rússia, e o presidente americano passou a interrogá-lo sobre a situação da liberdade religiosa em países com histórico problemático nessa área. O homem que aparecera no capítulo soviético de nossa investigação agora estava sentado diante do presidente dos Estados Unidos falando, entre outras coisas, da Rússia.
A importância da reunião cresce quando observamos aquilo que a delegação adventista apresentou ao presidente americano. Paulsen explicou o trabalho da Igreja no combate ao HIV/AIDS na África e falou de hospitais adventistas usados no atendimento e prevenção da transmissão do vírus de mãe para filho. Os dirigentes também disseram a Bush que apreciavam o envolvimento da United States Agency for International Development — USAID em projetos desenvolvidos pela ADRA e por Loma Linda University, mencionando inclusive iniciativas médicas internacionais na China e no Afeganistão. A conexão que em nosso artigo anterior aparecia como hipótese de investigação — Igreja, hospitais, agência humanitária, governo americano e atuação internacional — aparece aqui na própria narrativa denominacional, apresentada dentro do Salão Oval ao presidente dos Estados Unidos. Não estamos deduzindo que ADRA ou Loma Linda fossem instrumentos secretos do governo; estamos registrando algo documentalmente mais sólido: a direção mundial da Igreja reconhecia diante de Bush a cooperação da USAID com projetos adventistas internacionais e desejava que essa cooperação continuasse.
Mas é o comentário de Paulsen depois da reunião que talvez melhor defina a dimensão institucional que estamos chamando aqui de “a outra Igreja Adventista”. Falando à imprensa denominacional, o presidente mundial disse esperar que Bush e as pessoas que trabalhavam com ele se lembrassem de que a Igreja Adventista era uma “good partner” — uma boa parceira — em questões de liberdade religiosa, combate ao HIV/AIDS e construção de um futuro melhor. Acrescentou que os adventistas podiam ser parceiros do governo em bons programas relacionados à saúde e à liberdade. A frase não foi inventada por críticos da denominação, nem retirada de um documento hostil: está no relato produzido pela própria Adventist News Network. E ela nos obriga a reconsiderar a imagem simplificada de uma Igreja que se relacionaria com o Estado apenas para exigir que o Estado se mantivesse longe da religião. Na prática, a própria presidência mundial apresentava a denominação ao presidente americano como parceira possível do governo em determinadas áreas de interesse comum.
“GOOD PARTNER”: A EXPRESSÃO QUE MUDA O ÂNGULO DA INVESTIGAÇÃO
A expressão de Paulsen é particularmente importante quando colocada ao lado do que encontramos na União Soviética. Diante de Moscou, a administração adventista apresentava hospitais, educação, ciência, programas sociais e intercâmbio como recursos capazes de sustentar uma relação institucional; diante de Washington, Paulsen apresentava novamente saúde, assistência, liberdade religiosa e capacidade internacional e dizia esperar que o governo reconhecesse a Igreja como uma boa parceira. Os regimes eram adversários, as ideologias eram opostas e as circunstâncias históricas completamente diferentes, mas a extraordinária capacidade adventista de dialogar com o poder atravessava os dois mundos. É precisamente isso que torna Paulsen uma ponte tão valiosa para esta investigação: ele não demonstra que a Igreja servisse secretamente a Moscou ou a Washington; demonstra algo mais verificável e institucionalmente significativo — a denominação desenvolvera a capacidade de apresentar sua rede mundial como interlocutora útil diante de governos profundamente diferentes.
E havia outro detalhe revelador na conversa com Bush. O próprio presidente contou aos visitantes que, quando era governador do Texas, conhecera um adventista que trabalhava em sua equipe e lhe explicara algumas crenças da denominação. A informação parece pequena diante da reunião com Paulsen, mas antecipa justamente aquilo que encontraremos quando começarmos a abrir as portas da administração federal americana: adventistas não estavam apenas visitando o governo dos Estados Unidos como representantes externos de uma Igreja. Alguns estavam dentro dele. Encontraremos adventistas no Congresso, no sistema penitenciário federal, no Public Health Service, na Marinha, na Casa Branca, no gabinete presidencial e, de maneira particularmente simbólica, ocupando uma função religiosa oficial no próprio Senado dos Estados Unidos.
Jan Paulsen na Casa Branca: a Associação Geral apresenta-se como parceira do governo americano
Em 4 de abril de 2006, o presidente mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Jan Paulsen, atravessou as portas da Casa Branca para uma audiência de aproximadamente 45 minutos com George W. Bush, então presidente dos Estados Unidos. Acompanhavam-no Matthew Bediako, secretário da Associação Geral; Don Schneider, presidente da Divisão Norte-Americana e vice-presidente da igreja mundial; e James D. Standish, responsável pelos assuntos legislativos da denominação. A reunião, realizada a convite do presidente norte-americano, foi divulgada pela própria Adventist News Network. Não estamos diante de rumores sobre contatos reservados: a organização religiosa anunciou publicamente que seus principais dirigentes haviam apresentado ao chefe do Executivo norte-americano os interesses e as possibilidades de cooperação internacional da denominação.
Os assuntos discutidos ultrapassaram a liberdade de culto. Paulsen apresentou a atuação adventista no enfrentamento do HIV/AIDS, especialmente na África, abordou educação e pobreza, mencionou sua recente viagem à Rússia e informou ao presidente sobre programas desenvolvidos por instituições denominacionais. Os dirigentes também expressaram reconhecimento pela participação da USAID, agência de desenvolvimento internacional do governo americano, em projetos organizados pela ADRA. A Universidade de Loma Linda foi mencionada em razão de sua atuação médica internacional, inclusive na China e no Afeganistão. A Associação Geral apresentava, assim, sua rede mundial de hospitais, instituições educacionais e organizações humanitárias como estrutura capaz de participar de iniciativas que interessavam à administração dos Estados Unidos.
O aspecto mais significativo aparece nas declarações de Paulsen depois da audiência. O presidente mundial expressou o desejo de que Bush e seus colaboradores reconhecessem a Igreja Adventista como parceira confiável em iniciativas de liberdade religiosa, saúde e melhoria das condições sociais. A palavra parceria revela a dimensão que precisamos investigar: uma organização religiosa mundial não comparecia apenas para solicitar garantias de liberdade de consciência, mas também para oferecer sua infraestrutura internacional como instrumento de cooperação com o governo.
Essa atuação possui continuidade histórica. Jan Paulsen havia participado, em 1987, da delegação adventista liderada por Neal Wilson no fórum internacional realizado em Moscou, durante o período de intensificação das relações com Konstantin Kharchev e as autoridades soviéticas. Quase duas décadas depois, já presidente mundial da Associação Geral, mantinha interlocução com o governo norte-americano e relatava ao presidente Bush suas atividades recentes na Rússia. A trajetória evidencia uma administração religiosa capaz de cultivar relações com diferentes centros internacionais de poder, preservando sua própria agenda institucional através das transformações geopolíticas.
A presença de James D. Standish amplia o significado da reunião. Em 2010, durante a administração de Barack Obama, o mesmo representante adventista participou de uma força-tarefa vinculada ao Conselho Consultivo da Casa Branca sobre organizações religiosas e parcerias comunitárias. O trabalho incluía recomendações sobre a cooperação entre governo e instituições religiosas. Portanto, a representação adventista não se limitava a um presidente norte-americano nem a um único partido político. Havia continuidade administrativa no relacionamento com o poder federal.
Essa documentação precisa ser confrontada com a existência da World Service Organization, a estrutura adventista encarregada de relações permanentes com autoridades militares e governamentais. A WSO declara oficialmente que mantém contatos com representantes do Estado, acompanha membros da denominação empregados em instituições militares e públicas e desenvolve programas internacionais de preparação, apoio e representação. A audiência da Casa Branca evidencia a atuação política da administração superior; a WSO revela a existência de uma organização especializada em determinadas relações com o aparelho estatal. São manifestações diferentes de uma arquitetura institucional que ultrapassa amplamente o funcionamento de congregações e ministérios pastorais.
O problema que levantamos é a distância entre a apresentação religiosa da denominação e a extensão de sua atuação governamental. Enquanto os membros recebem uma mensagem profética que historicamente adverte contra a concentração e a associação de poderes religiosos e civis, sua direção mundial desenvolve relações diplomáticas, participa de programas governamentais e procura reconhecimento como parceira de administrações políticas. Em 2006, essa disposição não foi escondida: foi declarada pelo próprio presidente da Associação Geral após uma audiência com George W. Bush.
A questão institucional decisiva não é simplesmente por que um pastor visitou a Casa Branca, mas como uma organização religiosa mundial administra suas relações com governos, quais compromissos decorrem dessas relações e de que maneira seus membros participam da fiscalização dos objetivos, recursos e decisões envolvidos. A denominação que se apresenta como movimento profético também funciona como uma corporação internacional capaz de negociar diretamente com governos. É essa segunda dimensão, expressamente revelada por seus próprios documentos, que exige investigação.
Fontes: Adventist News Network, World Church: Adventist Leaders Meet United States President at White House, abril de 2006; Adventist News Network, Adventist, Other Faith Representatives Share Ideas to Bolster Relationship Between Religious Groups, Government, 12 de março de 2010; World Service Organization, About the World Service Organization.

BARRY BLACK: UM PASTOR ADVENTISTA NO PÚLPITO OFICIAL DO SENADO
O personagem que melhor desmonta qualquer ideia simplista de separação física absoluta entre adventismo e Estado americano é Barry C. Black. Ele não é “capelão da Casa Branca”, cargo permanente que não existe nos moldes popularmente imaginados. É algo institucionalmente muito preciso: Chaplain of the United States Senate, capelão oficial do Senado dos Estados Unidos. O Congressional Record registra que Black foi escolhido em 7 de julho de 2003 como o 62º capelão do Senado, tornando-se simultaneamente o primeiro afro-americano e o primeiro adventista do sétimo dia a ocupar a função. Desde então, o pastor adventista abre sessões do Senado com oração, ministra a senadores e funcionários, conduz estudos bíblicos, oferece aconselhamento e participa de cerimônias nacionais. Uma reportagem da PBS sobre seu trabalho lembrou que a existência de capelães na Câmara e no Senado remonta a 1789 e que Black considera sua função uma forma de intercessão e ministério dentro de uma instituição governamental pluralista.
Mas a história se torna muito mais relevante para nosso dossiê quando perguntamos onde Black estava antes de chegar ao Senado. Ele passou mais de 27 anos na Marinha dos Estados Unidos e encerrou a carreira militar como Chief of Navy Chaplains, alcançando a patente de Rear Admiral. O registro do Congresso descreve sua trajetória militar antes da nomeação para o Senado, enquanto a Andrews University, onde estudou no seminário adventista, destaca que ele foi o primeiro capelão militar a ocupar a capelania do Senado. Temos novamente, portanto, a combinação que já havíamos encontrado em Mario Ceballos e Andrew Harewood: formação pastoral adventista, carreira prolongada dentro das Forças Armadas americanas, ascensão a posições superiores da capelania militar e posterior presença em outra estrutura de grande relevância pública. No caso de Black, o percurso vai literalmente da Marinha para Capitol Hill.

A função não é apenas cerimonial. A própria imprensa adventista descreveu Black como conselheiro espiritual dos cem senadores, de seus funcionários e familiares, um universo superior a sete mil pessoas. E numa entrevista extensa à PBS, Black explicou que senadores às vezes lhe pedem opiniões inclusive sobre questões bioéticas e de justiça relacionadas a políticas públicas. Isso não transforma o capelão em legislador, evidentemente, nem significa que posições doutrinárias adventistas sejam convertidas automaticamente em política de Estado; significa, porém, que um ministro adventista ocupa há mais de duas décadas uma função religiosa oficial no coração do Poder Legislativo americano e possui acesso pastoral direto a alguns dos políticos mais poderosos do país. Para uma denominação cuja memória profética tradicionalmente ensinou seus membros a observar com enorme suspeita a aproximação entre religião e poder civil, a cena merece muito mais reflexão do que costuma receber.

ANTES DO SENADO, JÁ HAVIA ADVENTISTAS DENTRO DO GOVERNO
Essa presença não começou com Barry Black. Um caso surpreendente nos leva à administração de Warren G. Harding, presidente dos Estados Unidos entre 1921 e 1923. Heber Herbert Votaw era ministro adventista, missionário e professor, havia sido enviado pela Associação Geral como um dos pioneiros da missão adventista na Birmânia e era casado com Carolyn Harding Votaw, irmã do futuro presidente. Quando retornou aos Estados Unidos, aproximou-se progressivamente do ambiente político do cunhado. A Encyclopedia of Seventh-day Adventists registra que Votaw trabalhou inicialmente para Harding no Senado e, depois que o cunhado chegou à presidência, foi nomeado superintendente do sistema federal de prisões e presidente das juntas de liberdade condicional das penitenciárias. Carolyn, por sua vez, trabalhou na polícia metropolitana do Distrito de Columbia, atuou como probation officer e, em 1920, foi nomeada para dirigir a divisão de serviço social do United States Public Health Service, além de exercer função consultiva relacionada à estrutura federal de veteranos.
O arquivo histórico da própria Igreja acrescenta um detalhe delicioso para esta investigação: mesmo depois de entrarem no serviço governamental, Heber e Carolyn continuaram ativos no adventismo. O guia da coleção Votaw nos arquivos adventistas registra que, menos de um mês depois da eleição presidencial, Heber apresentou o presidente eleito Harding a uma delegação adventista que lhe entregou uma mensagem do Autumn Council; registra também que Heber continuou escrevendo para a Review e que ele e Carolyn participaram como delegados da Assembleia da Associação Geral de 1922. Aqui, portanto, já encontramos há mais de um século aquilo que reaparecerá muitas vezes nesta série: pessoas que não precisam escolher entre uma identidade denominacional e uma função governamental, porque conseguem circular institucionalmente nos dois ambientes.

DO CAMPUS ADVENTISTA PARA O CONGRESSO
Também encontramos adventistas eleitos para o Congresso dos Estados Unidos. Jerry Lyle Pettis oferece talvez o exemplo histórico mais interessante porque sua passagem para a política veio de dentro de uma instituição central do adventismo americano. A biografia oficial da Câmara dos Representantes registra que Pettis estudou no Pacific Union College e, entre 1948 e 1961, foi vice-presidente de desenvolvimento e presidente do Board of Councilors de Loma Linda University. Antes disso, durante a Segunda Guerra Mundial, havia trabalhado como piloto no Air Transport Command no teatro do Pacífico. Eleito republicano pela Califórnia, entrou na Câmara em janeiro de 1967, foi sucessivamente reeleito e permaneceu congressista até morrer num acidente aéreo em 1975. Temos, portanto, um dirigente ligado diretamente a Loma Linda que atravessa a fronteira entre instituição adventista e Poder Legislativo federal.
Décadas depois, outros adventistas chegaram ao Congresso por caminhos políticos distintos. Roscoe Bartlett, republicano de Maryland, serviu na Câmara de 1993 a 2013. Sheila Jackson Lee, democrata do Texas e identificada publicamente com a Igreja Adventista, permaneceu no Congresso de 1995 até sua morte em 2024. Raul Ruiz, democrata da Califórnia, também foi identificado como adventista em levantamentos religiosos do Congresso; o Pew Research Center o classificou explicitamente como Adventist. Em 2019, quando Jackson Lee e Ruiz integravam simultaneamente a Câmara, uma publicação adventista observou que os dois pertenciam ao Partido Democrata. Essa diversidade é relevante porque impede reduzir o fenômeno a uma infiltração partidária de direita ou de esquerda: ao longo da história, adventistas apareceram dentro do Estado americano em administrações e partidos diferentes. O denominador comum não é a legenda; é a capacidade de integrantes da denominação circularem dentro das instituições políticas.

UM ADVENTISTA CHEGA AO GABINETE PRESIDENCIAL
Essa presença alcançou outro patamar em 2017, quando Ben Carson assumiu o Department of Housing and Urban Development no governo Donald Trump. Quando Carson aceitou a indicação, a própria Adventist News Network destacou a dimensão histórica do acontecimento: ele se tornaria o primeiro adventista do sétimo dia a ocupar uma posição de nível ministerial no gabinete dos Estados Unidos. O HUD não é um departamento religioso nem uma estrutura decorativa; é uma agência federal responsável por política habitacional, desenvolvimento de comunidades e aplicação de leis de habitação justa. A mesma reportagem lembrava que o secretário do HUD integrava inclusive a linha legal de sucessão presidencial. Um membro da Igreja Adventista havia chegado, portanto, ao primeiro escalão formal do Poder Executivo americano.

Carson também ajuda a demonstrar que a história que estamos reconstruindo não pode ser reduzida à administração de um único presidente. Antes de integrar o governo Trump, ele já havia se tornado uma figura nacional e participado do National Prayer Breakfast. Barry Black também ocuparia lugar de destaque nesse ambiente religioso-político. Mas, quando mudamos do governo republicano de Trump para a administração democrata de Barack Obama, encontramos outra espécie de presença adventista, menos conhecida e talvez ainda mais interessante para o tema da interface entre Igreja e Estado: um adventista trabalhando dentro da Casa Branca justamente na ligação do governo com comunidades religiosas.

UM ADVENTISTA NA “PORTA DA FRENTE” DA CASA BRANCA
D. Paul Monteiro trabalhou na administração Obama no Office of Public Liaison, desempenhando funções de relacionamento com comunidades e organizações religiosas. O ponto central aqui não é transformá-lo em representante oficial da IASD dentro da presidência — isso seria incorreto —, mas perceber o tipo de circulação que sua trajetória exemplifica. Ele havia participado do ambiente político de Obama e chegou a uma estrutura cuja própria função era estabelecer pontes entre a Casa Branca e setores da sociedade civil. Em relatos adventistas da época, Monteiro descreveu aquele escritório como a “front door of the White House”, a porta da frente da Casa Branca. A imagem é quase perfeita para o tema deste artigo: enquanto Paulsen entrava pela porta como presidente mundial da Igreja para conversar com Bush, poucos anos depois um adventista trabalharia institucionalmente no ambiente responsável por manter aberta a porta de interlocução entre a presidência e comunidades religiosas.
Essa sucessão histórica é mais importante do que qualquer tentativa de encontrar um “partido adventista” inexistente. Bush, Obama e Trump pertenciam a ambientes políticos diferentes; Paulsen, Monteiro e Carson desempenharam funções completamente distintas. O que a cronologia demonstra é que o adventismo americano deixou há muito tempo de ocupar apenas a posição de pequena minoria religiosa observando o governo de fora. Seus membros e dirigentes aprenderam a circular por estruturas governamentais de formas variadas: como parlamentares, servidores, assessores, secretários de gabinete, oficiais militares, capelães e interlocutores institucionais. É essa realidade que contrasta tão fortemente com a imagem popular de uma Igreja cuja única preocupação política seria defender o sábado diante de uma futura legislação dominical.
A OUTRA PORTA NÃO ESTÁ EM WASHINGTON: ESTÁ EM NOVA YORK E GENEBRA
Quando ampliamos o mapa para além dos Estados Unidos, descobrimos que a mesma lógica de interlocução foi institucionalizada também diante das Nações Unidas. Em 2011, a própria Igreja anunciou que Ganoune Diop seria sua nova “voz” junto à ONU. Segundo o relato denominacional sobre sua nomeação, Diop assumiu como associate director do departamento de Public Affairs and Religious Liberty e passou a representar a Igreja Adventista nas Nações Unidas tanto em Genebra quanto em Nova York, sucedendo Barry Bussey, que exercera a função desde 2008. Isso é importante porque demonstra continuidade institucional: não se trata de um dirigente que ocasionalmente conseguiu credenciamento para assistir a uma reunião da ONU, mas de uma função adventista especificamente destinada à interlocução com o organismo internacional.
A existência dessa interface muda a maneira como devemos ler fotografias de dirigentes adventistas em ambientes internacionais. A Igreja mundial mantém há anos profissionais cuja função inclui justamente estabelecer relacionamento com organismos multilaterais, discutir liberdade religiosa, direitos humanos e outras pautas e representar institucionalmente a denominação. Isso não transforma a Igreja numa agência da ONU, assim como a presença de Barry Black no Senado não transforma a IASD numa agência do Congresso. Mas revela a outra Igreja que o membro sentado no banco de uma congregação local raramente enxerga como conjunto: uma administração transnacional que considera natural manter representação e canais permanentes de interlocução junto às estruturas internacionais onde governos negociam direitos, políticas e princípios globais.

TED WILSON ENTRA NA ONU
Em 6 de abril de 2015, outro personagem do artigo anterior atravessou uma dessas portas. Ted N. C. Wilson encontrou-se na sede das Nações Unidas, em Nova York, com o então secretário-geral Ban Ki-moon. Segundo o registro publicado pela Revista Adventista, a conversa durou aproximadamente 45 minutos e foi considerada histórica: Wilson teria sido o primeiro presidente mundial da denominação a encontrar-se com um secretário-geral da ONU. O assunto principal era como a Igreja poderia colaborar diante do crescimento da intolerância religiosa, e Wilson enumerou liberdade religiosa e de consciência, valores éticos e espirituais, dignidade humana, orientação familiar, juventude, água potável e educação fundamental entre as áreas nas quais a denominação poderia contribuir.
É difícil não perceber a continuidade institucional quando colocamos pai e filho lado a lado, embora os contextos sejam completamente diferentes. Neal Wilson apresentara ao governo soviético a capacidade adventista em saúde, educação, ciência e programas sociais; Ted Wilson apresentava ao secretário-geral da ONU uma Igreja capaz de colaborar em liberdade religiosa, educação, juventude e necessidades humanas. Em ambos os casos, o presidente mundial não comparecia apenas para falar de doutrina. Levava consigo o peso de uma rede mundial de instituições e serviços. É precisamente essa capacidade de converter capilaridade religiosa em interlocução institucional que vem reaparecendo em diferentes períodos de nossa investigação.

EM 2026, UM ADVENTISTA SOBE À TRIBUNA DA ASSEMBLEIA GERAL
E então chegamos a setembro de 2026. Desta vez não era um representante da Associação Geral pedindo audiência, nem um dirigente denominacional encontrando o secretário-geral. Era o chefe de governo de um país membro das Nações Unidas ocupando a tribuna reservada aos líderes nacionais. Em 25 de setembro, James Marape, primeiro-ministro de Papua-Nova Guiné, discursou na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Marape é filho de pastor adventista e membro da Igreja desde a infância, e dedicou parte substancial de seu pronunciamento justamente à liberdade religiosa e à liberdade de consciência. Segundo a extensa reportagem publicada pela Spectrum sobre o discurso, ele defendeu o direito de cada pessoa escolher sua fé, mudar de religião ou não professar religião alguma e argumentou que a fé imposta deixa de ser fé.
A cena possui uma ironia histórica extraordinária para o adventismo. Uma tradição religiosa que nasceu no século XIX como pequena minoria americana profundamente desconfiada da aproximação entre religião e Estado chegava, em 2026, à tribuna da Assembleia Geral não por intermédio de um missionário, mas pela voz de um primeiro-ministro adventista. Marape citou princípios de liberdade religiosa que pertencem claramente à tradição adventista e falou da necessidade de separar Igreja e Estado, ao mesmo tempo em que chefia um país cuja identidade cristã foi recentemente reforçada constitucionalmente. A própria reportagem da Spectrum registrou essa tensão e ouviu teólogos e especialistas adventistas sobre ela. Marape insistiu que a identidade cristã de Papua-Nova Guiné não deveria permitir coerção religiosa e que os direitos das minorias e dos não crentes precisavam permanecer protegidos.
Mais reveladora ainda é a reflexão que Denis Fortin, ex-decano do Seminário Teológico Adventista da Andrews University, ofereceu à Spectrum. Ele observou que há cem anos seria praticamente impensável imaginar adventistas tornando-se políticos, quanto mais governando nações, porque o isolamento em relação ao mundo fazia parte do ethos denominacional. Hoje, acrescentou, adventistas ocupam posições de liderança em diversos países. Essa observação talvez seja uma das melhores chaves interpretativas para todo este artigo: não estamos necessariamente descobrindo uma organização secreta escondida atrás da Igreja conhecida pelos membros; estamos documentando a transformação histórica de uma denominação que nasceu relativamente isolacionista e se tornou uma instituição global capaz de produzir oficiais, parlamentares, ministros de Estado, chefes de governo e interlocutores internacionais.
A “OUTRA IGREJA ADVENTISTA” NÃO É OUTRA DENOMINAÇÃO
É importante definir exatamente o que queremos dizer quando falamos da “outra Igreja Adventista”. Não estamos propondo a existência literal de uma segunda denominação secreta, com uma administração clandestina paralela à Associação Geral. Estamos falando de duas experiências radicalmente diferentes da mesma organização.
Existe a Igreja conhecida pela maioria dos membros: sábado, Escola Sabatina, culto divino, dízimos, evangelismo, Desbravadores, acampamentos, estudos bíblicos, Daniel e Apocalipse, saúde, família e expectativa da volta de Cristo. Essa Igreja é real. Mas existe simultaneamente uma dimensão institucional que quase nunca é apresentada ao membro comum como uma única fotografia: dirigentes mundiais entrando no Kremlin e no Salão Oval; presidentes da Associação Geral encontrando presidentes americanos e secretários-gerais da ONU; um departamento internacional dedicado à interlocução com governos e liberdade religiosa; uma estrutura de capelania e relações militares; adventistas que chegam a almirante e general nas Forças Armadas americanas; um pastor adventista que se torna capelão oficial do Senado; congressistas adventistas republicanos e democratas; um adventista no gabinete presidencial; outro trabalhando na interface religiosa da Casa Branca; representantes denominacionais junto às Nações Unidas; e membros da Igreja que chegam a governar países.
O mais interessante é que nenhuma dessas peças precisa ser escondida para que o conjunto permaneça pouco conhecido. Elas estão dispersas. A biografia de Barry Black está num lugar; a de Heber Votaw, em outro; Paulsen e Bush aparecem numa notícia de 2006; Ted Wilson e Ban Ki-moon, numa notícia de 2015; Ceballos, Harewood e Omaña aparecem nas páginas de capelania e WSO; Marape surge agora nas notícias da Assembleia Geral; a representação adventista junto à ONU aparece no departamento de Public Affairs and Religious Liberty. O membro que lê cada notícia isoladamente vê acontecimentos independentes e frequentemente celebratórios. Quando colocamos as peças numa única cronologia, porém, aparece uma história institucional que raramente é contada como história: a progressiva entrada do adventismo nos espaços políticos, militares e diplomáticos que seus pioneiros provavelmente teriam observado com enorme cautela.
NÃO É UMA HISTÓRIA DE ESQUERDA OU DE DIREITA
Essa conclusão torna-se ainda mais evidente quando percebemos que a presença adventista atravessa partidos e administrações. Jerry Pettis e Roscoe Bartlett foram republicanos; Sheila Jackson Lee e Raul Ruiz, democratas. D. Paul Monteiro trabalhou na administração Obama; Ben Carson tornou-se secretário no governo Trump. Jan Paulsen encontrou George W. Bush; Barry Black ministra a senadores de ambos os partidos e insiste no caráter não partidário de sua função. Essa variedade torna intelectualmente pobre qualquer tentativa de explicar o fenômeno dizendo simplesmente que “a Igreja virou republicana” ou “a Igreja virou democrata”. O que estamos observando é mais profundo: membros adventistas aprenderam a participar plenamente da vida política americana enquanto a instituição denominacional desenvolveu mecanismos profissionais de relacionamento com governos independentemente de quem ocupasse temporariamente o poder.
Isso também ajuda a explicar por que a linguagem institucional costuma privilegiar palavras como liaison, parceria, cooperação, liberdade religiosa, relações públicas e assuntos públicos. São palavras de interface. Não significam submissão automática nem conspiração; descrevem pontes. E pontes são precisamente o que encontramos repetidamente nesta série: Neal Wilson entre a administração adventista e o governo soviético; Paulsen entre sua experiência internacional e o Salão Oval; WSO entre adventistas e estruturas militares/governamentais; Monteiro dentro da interface religiosa da Casa Branca; Ganoune Diop representando a Igreja diante das Nações Unidas; Barry Black entre ministério religioso e Senado; ADRA e Loma Linda cooperando em projetos apoiados pela USAID; e dirigentes mundiais apresentando ao poder político a infraestrutura internacional da denominação.
O PARADOXO PROFÉTICO
É impossível terminar sem retornar ao paradoxo teológico que atravessa toda esta investigação. O adventismo nasceu e cresceu ensinando que a combinação entre religião e poder civil representa um dos grandes perigos proféticos da história. Gerações de adventistas aprenderam Apocalipse 13, estudaram a perseguição religiosa, ouviram sermões sobre liberdade de consciência e foram ensinadas a observar com suspeita qualquer aproximação excessiva entre púlpito e governo. Barry Black, entretanto, ocupa um púlpito criado pelo próprio Estado dentro do Senado americano e abre oficialmente suas sessões com oração; ao mesmo tempo, ele próprio enfatiza que sua função é constitucional, pluralista, não sectária e não partidária. James Marape ocupa a tribuna das Nações Unidas e usa sua identidade adventista para defender justamente que nenhum Estado deve compelir a consciência. Ted Wilson encontra o secretário-geral da ONU para discutir liberdade religiosa. Jan Paulsen entra no Salão Oval e apresenta a IASD como possível “good partner” do governo. O paradoxo, portanto, não cabe numa caricatura simples de apostasia ou fidelidade. Ele exige uma pergunta histórica mais difícil: em que momento a defesa adventista da liberdade diante do Estado se transformou também numa sofisticada capacidade de entrar no Estado, aconselhá-lo, cooperar com ele e falar a partir de algumas de suas próprias instituições?
Talvez seja exatamente essa transformação que Denis Fortin tenha captado ao observar que o adventismo de cem anos atrás dificilmente imaginaria seus membros governando países, enquanto o adventismo contemporâneo já produz líderes nacionais e participa da comunidade global. A questão para nós é investigar o preço e as consequências dessa mudança. Há uma diferença enorme entre possuir influência para proteger a liberdade de consciência e tornar-se dependente do acesso ao poder; entre cooperar com governos em saúde e assistência e permitir que os interesses governamentais condicionem a missão religiosa; entre possuir membros que livremente seguem carreiras políticas e transformar a estrutura eclesiástica numa extensão informal de agendas estatais. A documentação reunida até aqui demonstra a proximidade, o acesso e a cooperação; determinar quando, onde e se essas relações atravessaram a linha entre parceria legítima e instrumentalização política exigirá documentação adicional, especialmente dos próprios governos.
DEPOIS DA MOEDA, A PORTA
Foi por isso que este artigo precisou começar onde o anterior terminou. A moeda entregue a Ted Wilson pelo general Andrew Harewood abriu uma porta histórica. Atrás dela encontramos Neal Wilson entrando no Kremlin; Jan Paulsen aparecendo na história soviética e, anos depois, entrando no Salão Oval; Paulsen falando a Bush sobre Rússia, hospitais, AIDS, ADRA, Loma Linda e USAID e desejando que a IASD fosse lembrada como uma “good partner”; Barry Black saindo de uma carreira de contra-almirante e Chief of Navy Chaplains para tornar-se o primeiro adventista a ocupar a capelania oficial do Senado; adventistas eleitos para o Congresso; Heber e Carolyn Votaw dentro do governo federal já no começo do século XX; Ben Carson chegando ao gabinete presidencial; uma interface adventista com a Casa Branca durante Obama; representantes denominacionais junto à ONU; Ted Wilson reunindo-se com Ban Ki-moon; e, finalmente, em setembro de 2026, James Marape subindo à tribuna da Assembleia Geral como primeiro-ministro e adventista para falar ao mundo sobre consciência, religião, Igreja e Estado.
Agora já conseguimos enxergar aquilo que as notícias isoladas escondiam sem precisar esconder absolutamente nada. A “outra Igreja Adventista” sempre esteve à vista, mas fragmentada em biografias, departamentos, fotografias, cerimônias, reuniões diplomáticas e pequenas notas comemorativas. Quando reunimos essas peças, aparece uma denominação muito diferente daquela que normalmente enxergamos a partir do banco da igreja local: uma organização nascida como minoria apocalíptica americana que, em pouco mais de um século e meio, adquiriu tamanho, infraestrutura e capital humano suficientes para conversar com o Kremlin e a Casa Branca, manter interlocução nas Nações Unidas, formar oficiais militares de alta patente, colocar membros no Congresso e no gabinete presidencial e ver um de seus pastores ocupar durante mais de duas décadas um cargo religioso oficial no Senado dos Estados Unidos. A questão já não é se essa Igreja existe. Está tudo documentado. A questão que começamos a investigar agora é outra: como uma denominação que nasceu temendo a união entre Igreja e Estado aprendeu a circular com tamanha naturalidade pelos corredores do Estado — e o que os Estados aprenderam a fazer com ela?





